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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

História e Outros Assuntos - "Ditadura, história, memória e o conceito polissêmico de 'Democracia'”



Nesta quarta feira pré feriado, a coluna “História e Outros Assuntos”, do Mestre em História Fabrício Gomes, analisa o conceito de democracia na ditadura militar brasileira a partir das considerações do professor Daniel Aarão Reis.

O colunista, a propósito, é autor do livro "Sob a sombra das Palmeiras: o ISEB, os militares e a imprensa (1955-1964)", que pretendo resenhar proximamente e que pode ser comprado aqui.

Ditadura, história, memória e o conceito polissêmico de “Democracia”

Na quinta-feira (08/11/2012) tivemos mais um debate sobre a ditadura, desta vez com Daniel Aarão Reis, professor titular de História Contemporânea da UFF e doutor em História pela USP, que levou o tema “Ditadura, história e memória” à discussão com o público - que lotou o auditório da Livraria da Travessa, no Shopping Leblon.

Em certa altura o debate esquentou e aconteceram acaloradas argumentações por parte de algumas pessoas – o que é normal, em se tratando desse tema. Tradicionalmente suscita polêmicas tanto entre aqueles que são interessados pelo assunto, como também por quem vivenciou intensamente o período do regime de exceção – a favor ou contra a ditadura.

 Para Daniel Aarão, em tempos de Comissão da Verdade, quando após mais de 30 anos do início do recrudescimento da democracia, é importante não somente que os “esqueletos” saiam dos armários, como também seja analisada e discutida a memória que a sociedade brasileira elaborou sobre a ditadura – idéia já levantada pelo próprio professor no livro “Ditadura militar, esquerdas e sociedade”, de sua autoria.

Entretanto, ele próprio admite que o termo “ditadura militar”, atualmente, é ultrapassado, já que pesquisas no campo da história apresentam comprovações de que a sociedade civil – ou pelo menos órgãos civis importantes – como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entre outras - também estiveram ao lado dos militares na guerra contra aquilo que chamavam de “subversão”.

Nota do autor: na verdade, naqueles tempos de Guerra Fria, com a bipolarização entre duas potências mundiais, bastava ser nacionalista para ser chamado de comunista.

Diferente do que falou o ex-guerrilheiro Carlos Eugênio Paz (“Clemente”) no mesmo ciclo de debates, Daniel Aarão não considera que a Associação Brasileira de Imprensa deva ser incluída nesse rol. Para ele, esta teve um papel ambivalente de participação: ora apoiando, ora lutando contra a ditadura. Por isso, Daniel Aarão ressalta que, se pudesse, mudaria o nome do livro para “Ditadura civil-militar, esquerdas e sociedade”.

Ao definirmos o período apenas como “ditadura militar” (saturado de memória, que fique bem claro) deixamos de lado importantes segmentos e instituições civis daquele período. Afinal, como se portavam essas pessoas? E ao definirmos como “ditadura civil-militar”, não subestimamos o protagonismo militar


Um claro exemplo da participação civil foram as ‘Marchas da Família com Deus pela Liberdade’, que arrastaram um número estimado de quinhentas mil a um milhão de pessoas, em média - nas grandes cidades e cidades de médio porte.

Marchas que tiveram início em 19 de março de 1964 – dia 19 de março, dia de São José, padroeiro da família, em São Paulo, numa clara resposta ao emblemático comício da Central do Brasil realizado em 13 de março daquele ano. Um momento importante da nossa história contemporânea brasileira, muito pouco estudado, que carece de publicações que analisem os episódios.

Nota do autor: há um importante trabalho escrito sobre o tema: a dissertação de mestrado em História Social “As marchas da família com Deus pela liberdade e o golpe militar de 1964”, de Aline Alves Presot, defendida em 2004, na UFRJ, porém, ainda não publicada.


Que sociedade era aquela, que fez chuva de papel picado nas coberturas da Avenida Atlântica, no dia seguinte ao golpe civil-militar? E que anos depois foi às ruas pedir pela Anistia? Nem todos, é verdade.

E as esquerdas, que lutavam contra o regime mas que no fundo, queriam substituir uma ditadura (capitalista) por outra (proletária e socialista), e que anos depois, já no alvorecer dos anos 1980, dizia ter pego em armas e ido à luta em prol da democracia?

Ambivalências... batalhas de memória... A zona cinzenta (conceito elaborado por Pierre Laborie) da sociedade permanece obscura, portadora de memórias subterrâneas e silenciosas, que persistem em se ofuscar pela memória coletiva e oficial. O penser-double, que ora apóia, ora rechaça a ditadura – e em muitos casos, é indiferente ou nada sabe sobre o processo político de um país, ainda hoje pode ser visto em nossa sociedade. Contrariando o que muitos pensam, o brasileiro não é desmemoriado: apenas mantém uma memória silenciosa.
 
O período vivido entre 1968 e 1974, que coincidiu com os governos de Costa e Silva e Garrastazu Médici, teve início com a implementação do Ato Institucional número 5 (AI-5), que concedia poderes extraordinários ao presidente da República e suprimia as garantias constitucionais até então estabelecidas. Este se estendeu até o início da distensão lenta, gradual e segura, verbalizada pelo “alemão” Ernesto Geisel – um general de poucas palavras.

O período foi considerado, pela historiografia, ao longo dos anos, como “Anos de Chumbo”: o endurecimento do regime, com o acirramento no combate à luta armada. Mas como explicar o alto índice de popularidade de Garrastazu Médici, ovacionado no estádio do Maracanã, numa das incontáveis comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil, em 1972?

Para Daniel Aarão Reis, os anos de chumbo também foram “anos de ouro”, já que havia o “milagre brasileiro”, um período de grande concentração de renda e desenvolvimento da sociedade, coincidindo com o exacerbado sentimento patriótico e ufanista, que adquiriu novos tons com a conquista da terceira copa do mundo pelo escrete canarinho de Pelé, Gérson, Tostão & Cia.

Há portanto, um intrincado sistema de relações complexas, estabelecidas entre a ditadura e a sociedade e negar isso é reduzir a discussão ao ultrapassado raciocínio de que houve o regime militar opressor de um lado e as vítimas civis que sofreram com o golpe.

Esse tipo de pensamento não é privilégio nosso: a idéia de que a sociedade francesa resistiu bravamente ao nazismo é equivocada. Constitui questão problemática discutir, na Alemanha, as relações da sociedade com o nazismo. Um operário que ajudou a construir o campo de concentração de Auschwitz, não sabia o que estava fazendo e, principalmente, para que fim serviria a obra? Intelectuais colaboracionistas franceses eram alienados e “malvados” quando aderiram às idéias nazistas, no regime comandado pelo Marechal Pétain?

Que sejamos, contudo, bem claros: não se trata de uma tentativa de caça às bruxas, apenas de contextualizar o período, sem contudo cairmos na hipocrisia reinante da seletividade da memória – tão comum quando regimes totalitários caem e de uma hora para outra, a sociedade é em seu ínterim vitimizada.

A contextualização histórica, portanto, é fundamental quando, por exemplo, discutimos a questão da luta armada no Brasil, que se pautou por duas grandes referências: uma internacional e outra interna.

A referência dos vários processos vitoriosos de luta armada que ocorriam no mundo – exemplo das revoluções em Cuba (1959), na Argélia (1962) – e outras ainda em curso, como no caso exemplar do Vietnam. Uma profusão de narrativas de lutas elaboradas sob o ponto de vista de seus líderes, produto de ações heróicas protagonizadas por grandes nomes – se esquecendo, entretando, dos anônimos – instituições e pessoas – que também deram importantes contribuições para o estabelecimento de novos regimes.

O exemplo cubano é emblemático e adquiriu tonalidades épicas, pois a memória foi construída por um grupo de revolucionários sobreviventes ao trajeto feito pelo Granma até Cuba, com poucos sobreviventes que durante dois anos se embrenharam pelas matas de Sierra Maestra e marcharam vitoriosos após a fuga do ditador Fulgêncio Batista.

A mancha de óleo que se alastra pelo país ignora, portanto, que talvez sem a participação de grandes segmentos, de organizações poderosas (não sob o ponto de vista econômico, mas participativo – o Movimento Revolucionário 26 de Julho, por exemplo) e principalmente, sem a simpatia e adesão da população cubana interiorizada, La Revolución poderia não ter acontecido.

A outra referência para o projeto de luta armada é coisa nossa mesmo e contrasta com a idéia de que a luta armada é produto somente de jovens românticos que, com armas nas mãos, queriam mudar o mundo. Um grupo de brasileiros, oriundos principalmente da economia, da sociologia e intelectuais, acreditava que era chegado o momento do impasse: ou o Brasil fazia as reformas necessárias ou o país viraria um barril de pólvora, num processo de radicalização sem fim. Afinal, as direitas não apresentavam nenhuma perspectiva de mudança.

Nesse contexto, com o acirramento de tensões no cenário político e econômico mundial, representado por dois atores globais – EUA e URSS, a resistência à luta armada já começara antes, com as Ligas Camponesas, de Francisco Julião, com o trabalhismo brizolista, entre outros. Com as eleições de 1962, a Câmara teve uma composição anti-reformista, em sua maioria, o que promoveu mais ainda o conflito interno.


Portanto, as ações armadas no pré-1964, embora quisessem romper com o passado e serem uma nova esquerda, têm laços profundos com o que veio antes do golpe. Queriam mudar o mundo, e ao partir para o enfrentamento, acreditavam na utopia do impasse.

É equivocado o pensamento de que o Ato Institucional número 5 (AI-5) tenha sido feito para atingir a luta armada e a sociedade que se encontrava em oposição ao regime. O endurecimento da ditadura foi, segundo Daniel Aarão Reis, produto de outro movimento, feito para enquadrar os setores dissidentes da elite dominante – uma rebelião na Aliança Renovadora Nacional (ARENA), que se negou a aprovar o processo contra o jornalista Márcio Moreira Alves.
Outra questão espinhosa surge então, sempre que é debatida: afinal, pelo que lutavam as esquerdas envolvidas nas ações revolucionárias?

Na contramão das definições simplistas sobre o conceito de “Democracia”, alguns se apressam em dizer que buscavam a substituição de uma ditadura por outra – de cunho proletário e socialista.


Mas é preciso compreender que Democracia é um conceito polissêmico, e principalmente contextualizar que a democracia que a luta armada almejava desconhecia o que o regime cubano faria depois, por exemplo – embora, nesse sentido, os regimes totalitários conhecidos até então não proporcionassem referências democráticas.

Em um primeiro momento, podemos destacar a distinção entre os modelos de “Democracia Formal” e “Democracia Substancial”: enquanto o primeiro ressalta a importância do cumprimento e respeito às regras, o segundo diz que o que interessa não são as regras a respeitar e sim os fins que irão gerar a igualdade social.

É mister o exercício de se tentar pensar com a cabeça de um jovem guerrilheiro na época, que acreditava nas revoluções que explodiam pelo mundo e que – pasmem! – dava certo! Como impedir isso? Havia sim, um sentimento de que era necessário destruir, primeiro a ditadura, e depois o sistema capitalista então vigente.

Nas eleições de 1970, a sociedade começou a dar sua resposta ao regime vigente: embora a ARENA permanecesse com grande votação, liderando as eleições, os votos em branco/nulo vieram em seguida, ultrapassando o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Aquele ano reflete, portanto, uma sociedade descrente – não na economia, mas no regime político.



Daniel Aarão Reis analisa que o período pós-1964 é “saturado de memória”, de querer apresentar uma esquerda revolucionária como democrática. Discordo em parte do professor, pois, como já expliquei acima, a idealização de “Democracia” que temos hoje é distante da que existia há mais de 40 anos – e mesmo assim, as esquerdas eram motivadas pelo conceito de democracia substancial.

É possível que surja a argumentação de que “nenhum dos regimes revolucionários vitoriosos tinha pluripartidarismo, tribunais isentos etc”. Mas cabe novamente a pergunta: nos anos 1960, existiam essas definições, que hoje temos mais claramente definidas?

Em tempos de Comissão da Verdade. Se por um lado, devemos nos abster de revanchismos e “caça às bruxas” do período, por outro é necessário contextualizar o período, sem maniqueísmo e não nos deixar cair nas tentações culpabilizantes (e saturadas de memórias) de que o significado de “democracia” atual seja o equivalente da democracia que a luta armada – e também todos os que foram contrários ao regime ditatorial – almejavam.

Nós, historiadores, não devemos produzir uma história “vigiada” e sim procurar as evidências – e justamente por isso, sermos imparciais


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Bolsa Família e seus benefícios evidentes



Semana passada alguns órgãos de imprensa, timidamente, repercutiram pesquisa feita em 2009 pelo Ministério do Desenvolvimento Social sobre os beneficiários do Programa Bolsa Família e os resultados trazidos pelo programa.

O programa do governo federal garante uma complementação de renda a famílias que estejam em estado de pobreza e extrema pobreza, com algumas condições a serem cumpridas.

A lei que criou o benefício define como em situação de “extrema pobreza” famílias que tenham renda per capita de R$70 mensais, no máximo. Ou seja, a renda por pessoa em uma residência não pode exceder este valor.

Já a situação de “pobreza” é aquela onde a renda per capita está entre R$70 e R$140 mensais. Somente são atendidas pelo programa nesta faixa de renda famílias que tenham filhos em idade escolar ou adolescentes de até 17 anos.

O benefício é variável e o máximo que uma família pode receber é de R$ 306 mensais no total. Como o leitor pode perceber, não é um valor que vá desestimular a busca por trabalho.

Para receber o benefício algumas regras precisam ser cumpridas, como freqüência mínima das crianças em educação regular, número mínimo de comparecimento a consultas pré-natais (para as grávidas) e manter o cartão de vacinação infantil, entre outros.

Anualmente, o Bolsa Família representa um investimento de aproximadamente 20 bilhões de reais, o que significa 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. Dados os resultados, é um custo benefício muito bom, levando-se em conta apenas a questão econômica – que a meu ver é menos importante que a social.

Ao contrário do que se configurou no senso comum das pessoas, o fato do beneficiário ter um emprego não significa a sua exclusão do programa. Como o critério é a renda per capita, um salário mínimo recebido em emprego, por exemplo, pode manter a família dentro dos critérios de renda per capita exigidos.

Entretanto, com o aquecimento da economia, na prática boa parte daqueles que alcançam um emprego formal acabam por deixar o programa. Um emprego de dois salários mínimos (cerca de R$ 1,2 mil), para uma família de três filhos, já significa a exclusão do programa.

Muitos destes empregos, inclusive, criados na própria esteira do programa. Em locais de economia menos estruturada, no interior, a injeção de recursos proporcionada pelo programa dinamizou economias estagnadas e criou empregos que foram ocupados pelos próprios participantes do programa.

Voltando à pesquisa, ela foi realizada com 11.433 famílias, as mesmas entrevistadas no estudo anterior (2005) e que representam 74% do número abarcado anteriormente. Neste número estão incluídas famílias participantes e não participantes do programa.

Comparando-se os dados das duas pesquisas, percebem-se algumas melhorias visíveis nas famílias beneficiárias do programa: 14% a mais de gestações levadas a termo (comparando-se a não beneficiárias), 39% de crianças mais bem nutridas no grupo recebedor, aproximadamente 20% a mais de crianças vacinadas em dia.

Estes números, a meu ver, possuem duas explicações: primeiro a melhoria de renda permitiu que as famílias beneficiárias se alimentassem de uma forma menos precária e, assim, gestações e desnutrição recuassem. Segundo, as exigências de manutenção da caderneta de vacinação em dia e de acompanhamento pré natal exerceram um efeito preventivo que também melhorou os índices.

Educacionalmente, a freqüência escolar de crianças de 6 a 14 anos foi 4% maior, bem como a aprovação foi 6% maior. Aproximadamente 96% das crianças nesta faixa etária tiveram a freqüência mínima exigida nas regras do Bolsa Família.

Destaque-se o impacto entre as meninas entre 15 a 17 anos, com freqüência e aprovação 19 e 28% maiores respectivamente. Não tenho aqui os dados de cruzamento, mas me arriscaria a dizer que tais números demonstram que o número de adolescentes grávidas no grupo beneficiário é significativamente menor. Obviamente, em extratos mais pobres a gravidez acaba afastando as meninas da escola – e elas não retornam.

Outro dado importante é que a procura de emprego é praticamente a mesma entre beneficiários e não beneficiários do programa – na faixa etária entre 30 e 55 anos é de cerca de 70% para ambos os grupos. Isso desmonta o argumento de grupos conservadores de que o programa “está gerando uma legião de vagabundos que vivem às nossas custas”.

Entretanto diminuiu a incidência de trabalho infantil: entre meninos de 5 a 15 anos caiu de 4,3% para 3,7%, e entre meninas de 2,2% para 2%. Neste caso a explicação é óbvia: com o benefício as crianças não precisam trabalhar para ajudar no sustento da casa. Os números entre as famílias não assistidas são significativamente maiores.

Embora sejam dados de 2009, a pesquisa deixa claro o alcance da política social – e de indução ao crescimento econômico – trazidos pelo programa. Nos oito anos de vigência cerca de 30 milhões de pessoas saíram da miséria absoluta e impulsionaram a formação de um verdadeiro mercado interno de consumo de massa no Brasil.

Como os leitores podem ver por estes números, a melhora das condições sociais trazidas pelo programa é evidente. A fome, que há menos de 20 anos era algo endêmico, hoje é periférica. Aumenta a freqüência à escola, o grau de instrução e as condições de saúde, bem como diminui o trabalho infantil.

É uma revolução silenciosa em curso.

Atualização: a Ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, concedeu ótima entrevista esta semana à Revista Carta Capital explicando o Bolsa Família. Pode ser lida aqui.

domingo, 9 de setembro de 2012

Orun Ayé - "Os Filhos da Miséria"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, faz uma ácida análise do que representa o Dia da Independência brasileiro.

Como o leitor viu na quinta passada, discordo fortemente desta análise. Vou mais além: vai levar trinta anos para que haja condição mínima de uma revolução aqui no Brasil, pelo menos.

Se nem os compositores conseguem se unir para transformar o monstro que se tornaram as disputas de samba, imagina um povo mudando um país...

Vamos à coluna

Os Filhos da Miséria

Como todo mundo já sabe desde criança, 7 de setembro é o dia de nossa independência.

Aprendemos garotos no colégio, pelo menos na minha época era assim, a cantar o hino do nosso país, o da bandeira, o da independência e que D.Pedro I é um grande herói nacional.

Com o tempo vemos que não foi bem assim.

Assim como é uma balela esse papo que fomos descobertos. Descobertos apenas pelos “civilizados”, porque muito antes do Brasil Pindorama já existia com seus índios, cultura e riqueza. O que pode ter ocorrido em 22 de abril de 1500 foi a “Invenção do Brasil”. Inventaram um país da forma que eles queriam que fosse e que é dessa forma até hoje.

Exploraram nossas riquezas, acabaram com nosso pau brasil, seduziram nossos índios com espelhinhos, dormiram com as índias, implantaram a catequese impondo religião e deixaram em troca a escória da Europa.

Os criminosos, os condenados, aqueles que Portugal queria se livrar e outros semelhantes foram mandados ao Brasil para povoar e comandar nossa terra. Na nossa “invenção”, Pero Vaz de Caminha em famosa carta ao rei de Portugal pediu emprego para seu sobrinho!! O nepotismo e o jeitinho brasileiro nasceram junto com esse país continental.

Depois a burguesia se fartou com as capitanias hereditárias. Feudos que existem até hoje foram criados. A propósito, não duvido que a região do Maranhão tenha sido dada ao primeiro Sarney. Revoltas que surgiam vinham à tona por interesses próprios.

Esse país não foi formado por heróis, foi formado por oportunidades.

Os inconfidentes mineiros pensavam em si em sua rebelião. Nos impostos que pagavam. Em nenhum momento pensaram, por exemplo, na libertação dos escravos. Na hora que “deu ruim” todos “tiraram da reta” e sobrou para Tiradentes, que assumiu o papel de “bucha”.

Tiradentes bateu no peito, disse “é comigo mesmo”, assumiu a liderança do movimento, parou na forca e virou feriado e praça (na foto, em 1934).

Mas o Brasil precisa de heróis e depois que viramos República, criaram o perfil de um Tiradentes barbudo, cabeludo, igualzinho Jesus Cristo - mesmo ninguém sendo enforcado dessa forma. Por fim criaram Milton Nascimento cantando “Coração de Estudante” para o herói ser definitivo.

Também colocaram essa música na trilha da agonia de Tancredo Neves e provar que originalidade não é nosso forte.

O processo da nossa independência também começou com “arregada”. A família real portuguesa fugiu pra cá com medo de Napoleão. Imaginem aqueles portugueses todos, eram milhares, correndo para os barcos e desembarcando aqui nesse país tropical e subdesenvolvido? Só por isso desenvolveram o Brasil, para que pudessem morar em lugar decente.

Seja para receber a família real ou as Olimpíadas o Brasil só evolui no tranco. Só fazem grandes obras, grande desenvolvimento com a finalidade de primeiro melhorar as condições da burguesia e o mundo ver como somos empreendedores.

Nenhuma gota de sangue foi derramada para nossa Independência. Ela foi um grande acordo de gabinete para que Portugal de certa forma mantivesse o poder. O “maior herói da história do Brasil” decidiu proclamar nossa independência em meio a uma diarreia.

E nosso maior herói era namorador e morreu de doença venérea.

Nossa maior guerra resume-se a entrar sob ordem da Inglaterra para dizimar um pequeno país vizinho. Nosso maior guerreiro, Duque de Caxias, era um facínora. Outra grande guerra que entramos, a 2°Guerra mundial, o Brasil demorou a decidir que lado estava e também decidiu por interesse.

[N.doE.: pior que a própria participação do Duque de Caxias é superestimada. Estudos mais recentes indicam que o Gal. Osório é que foi o grande líder na frente de batalha e o açougueiro, na prática, foi o Conde D’Eu.]

A “revolução” de 1964 foi feita com interesses da burguesia e a derrubada do Fernando Collor de Mello em 1992 com interesse da Globo.

O Brasil é um país que deu errado? Por incrível que pareça, com tudo isso que citei acima, não.

Tudo bem, o futebol era nosso maior orgulho, éramos os melhores e deixamos de ser pelo menos por enquanto, mas somos mais que o futebol.

Somos um país com um povo maravilhoso, com defeitos evidentemente, mas de uma gente valente, guerreira, mais que Tiradentes e Duque de Caxias, que entra na guerra do dia a dia com tudo contra e vence.

Somos o país também de Pelé, Chico Xavier, Irmã Dulce, Santos Dumont, Betinho, Villa Lobos, Tom Jobim, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Chico Mendes, Paulo Freire, Machado de Assis, Darcy Ribeiro, Nelson Rodrigues, Fernanda Montenegro, Elis Regina, Clara Nunes, Carmem Miranda (sei que era portuguesa, mas brasileiríssima) e tantos outros que nos orgulharam e orgulham.

O problema, como eu disse acima, é que todas as nossas grandes mudanças, guerras, revoluções foram por interesses pessoais ou de uma coletividade. Nunca foi uma coisa para o país todo e nos momentos que poderíamos ter nos fortalecido como a independência que comemoramos essa semana ela veio de uma “cagada”.

Isso nos transformou numa nação passiva, que diz que “é assim mesmo” e vê a vida passar no Gatonet.

Só acredito em revoluções de baixo para cima, que venha dos “filhos da miséria”.

Porque há uma hora em que todo mundo cansa, até o que se acostumou apanhar.

Há de chegar a hora que os filhos da miséria, os mendigos, os delinquentes, as prostitutas, os bêbados, os crackudos, os loucos, os desempregados, os favelados, os negros, as mulheres, os operários que arriscam suas vidas em construções, os presidiários, o camelô que acorda cinco da manhã, os que sofrem de amor, os que sofrem de vida, que todos eles vão acordar e ver que a independência é uma falácia, ninguém é independente.

E essas pessoas, elas que estão à margem da sociedade, do politicamente correto e do Brasil inventado em 1500 tomarão de volta Pindorama. Não para os índios, porque esses infelizmente foram dizimados pela “cultura” e pela “civilização”.

Mas tomarão das mãos de quem rouba. De quem desvia dinheiro da saúde, da educação, do saneamento básico, segurança, quem compra votos e ri da nossa cara todos os dias em câmaras de vereadores, assembleias legislativas e governos municipais e estaduais.

E os filhos da miséria irão marchar até Brasília, nadar naquele lago em frente ao congresso e entrar lá naqueles dois prédios tomando de volta o que é dele, pois dizem ali ser a casa do povo e não de mensaleiros.

No STF eles darão as ordens e não vão absolver bandidos e vão fazer rolar pela rampa do Planalto todo o desmando e humilhação que sofreram até hoje.

Aí sim acreditarei em revoluções e independência. No dia que a bandeira nacional for substituída por uma camisa rasgada e suja de graxa e sangue.     

Enquanto isso vamos aproveitando o feriado de 7 de setembro, para alguma coisa serve essa mentira.

Na nossa pátria mãe gentil não há lugar para os filhos da miséria.

Ainda... Orun Ayé!

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A transformação da sociedade brasileira


Lendo a prévia da coluna “Orun Ayé” do próximo domingo, onde o colunista Aloísio Villar faz uma ácida análise do que representa o “7 de Setembro”, fiquei a pensar nas transformações que nossa sociedade experimentou nos últimos anos.

Evidentemente que há muito o que se mudar e muito o que se evoluir, mas quando pessoalmente observo o que somos hoje e o que éramos há 20 anos atrás a evolução me parece bastante perceptível.

Acho que já escrevi aqui em outras ocasiões que o grande sonho de minha geração de economistas era ver o Brasil com um mercado interno consumidor de massa. Em meados da década de 90, época onde estudei, isso era considerado impossível, ou em futuro distante. Nosso mercado, ou melhor, nosso país em termos de consumo, se resumia com boa vontade a 20 milhões de habitantes.

Hoje, com erros e imperfeições, temos um mercado consumidor interno que manteve a economia girando apesar da crise mundial. Vale lembrar nesta questão o efeito indutor da economia proporcionado pelo Bolsa Família.

O programa de geração de renda é advindo do “Renda Mínima”, de autoria do saudoso professor Antonio Maria da Silveira e encampado pelo então senador Eduardo Suplicy. Seu papel neste processo foi propiciar um efeito indutor à economia, em especial em regiões sem dinamismo econômico.

Exemplificando: o Zezinho não tinha renda nenhuma e passou a receber o Bolsa Família. Então ele vai na padaria do Manoel e compra pão e leite para os filhos, que precisam freqüentar a escola por exigência do programa.

O que ocorre? O Manoel contrata o Zezinho para vender pão, pois a demanda pelo seu produto aumentou. Com isso uma economia estagnada passa a ser mais dinâmica devido ao efeito indutor do programa.

O Manoel também vai comprar mais e permitir que a fábrica de freezers, por exemplo, contrate mais gente para atender ao pedido dele – e de outros Manoéis pelo Brasil. Esta gente contratada também compra na padaria do Manoel – e um círculo virtuoso se forma.

Paralelamente, com o aumento do emprego e da renda e a queda dos juros reais abre-se espaço para uma maior concessão de crédito, o que possui um efeito duplo: aumenta o consumo por um lado e o investimento por outro – já que se torna mais atraente investir em novos negócios que manter o dinheiro parado no banco com o rendimento de renda fixa.

O fato é que hoje temos uma economia dinâmica e que vem se mantendo incólume apesar da crise nos países desenvolvidos. Isso explica, também, o porquê da manutenção do PT no governo apesar de toda a intensa campanha midiática contra.

Politicamente, lembro ao leitor que este período de normalidade democrática já é o maior de nossa República. São 27 anos de respeito à Constituição e com governos eleitos dentro das regras estabelecidas.

O leitor pode alegar que a República Velha, entre 1889 e 1930, foi um período maior. Entretanto, temos de nos lembrar que houve uma série de revoltas neste período, bem como não havia o voto universal. A participação era oligárquica e não abordava a maior parte da população.

Mesmo o combate à corrupção, a meu ver, avançou. Há muito o que se fazer ainda, mas hoje vivemos em um tempo onde os escândalos são revelados e, aqui e ali, há punições. Nosso Judiciário precisa olhar menos a cara do freguês, mas este é um longo processo.

Em termos de política externa, há cerca de 20 anos éramos satélites inexpressivos dos Estados Unidos, com as finanças externas exauridas e tendo as nossas política econômica e externa determinadas fora do locus territorial brasileiro. Hoje fazemos parte dos BRICs e temos um papel ascendente na política internacional, como potência regional.

Seremos sedes da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, algo que na minha infância e adolescência seria impensável. Pode-se questionar o superfaturamento nos custos e a falta de transparência nestes, mas sem dúvida alguma é uma conquista que reflete as mudanças ocorridas em nosso país. Nos próximos quatro anos seremos alvo de todas as atenções mundiais.

Descobrimos também aquela que é a última fronteira petrolífera mundial, graças ao esforço de geólogos e engenheiros de petróleo da nossa Petrobras.

Vale lembrar também que a fome, problema sério há apenas 20 anos atrás - quem não se lembra da "Campanha do Betinho" - é algo hoje muito menor. O padrão alimentar do povo brasileiro (aliás, este foi o tema de minha monografia final de curso) hoje já exerce uma demanda protéica crescente, com adição de frutas e legumes na dieta média.

Temos uma nova classe média, com ascensão social de um número de pessoas jamais visto na história do Brasil. Apesar de ser um ponto onde ainda precisamos melhorar bastante a educação também vem se mostrando mais inclusiva e atendendo a mais pessoas.

Nós sentimos dificuldade de avaliar momentos históricos quando estamos inseridos neles, mas daqui a 30 anos, quando olharmos para trás, veremos que este é um dos momentos mais importantes da história brasileira. A independência do "7 de setembro" pode ter sido apenas "pro forma", mas curiosamente em um mundo interdependente como é o atual o Brasil vem se desenvolvendo com uma cada vez maior importância individual.

Há muito o que se avançar? Sem dúvida. O país tem problemas, a corrupção ainda é bastante alta, o modelo político precisa de aperfeiçoamentos, precisamos ter uma mídia mais isenta e a economia sanar alguns gargalos. Além disso o povo pode e deve ser mais participativo na vida nacional.

Mas o leitor tenha certeza que daqui a trinta anos este período que estamos vivendo será marcado como um dos mais importantes da história brasileira. É algo que, sem dúvida, podemos celebrar no dia de amanhã. Uma vez na vida conclamo o leitor a olhar para o que é bom e se fixar menos nas críticas do dia a dia. O momento merece - até para que estejamos impelidos a evoluir ainda mais.

Patriotismo é fazer a nossa parte e ver o país progredir.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

História & Outros Assuntos - "Perigos Midiáticos – a trajetória da imprensa (oficial e crítica) no Brasil (Parte 1: 1808-1930)"


Nesta segunda, a coluna “História e Outros Assuntos”, do Mestre em História Fabrício Gomes, inicia uma série de três artigos sobre a trajetória histórica da imprensa no Brasil e suas relações com o poder constituído.

Neste primeiro artigo da série o colunista desvenda o caminho desde 1808 – que marca o início da imprensa brasileira – até a Revolução de 30.

As partes restantes deverão ser publicadas na próxima sexta feira e na segunda que vem.

Perigos Midiáticos – a trajetória da imprensa (oficial e crítica) no Brasil (Parte 1: 1808-1930)

Treze de maio é uma data emblemática na história do Brasil. Para muitos, representa a data da abolição, quando a Princesa Isabel assinou uma lei que tornou livres todos os escravos em nosso país. É sinônimo de liberdade.

Mas talvez pouca gente saiba – ou se lembre, já que provavelmente estudou isso na escola, ainda que rapidamente – é que 80 anos antes da Lei Áurea nascia oficialmente, também no Rio de Janeiro, a imprensa brasileira.

A Imprensa Régia foi criada por D. João, então Príncipe Regente, e tudo que era publicado primeiro era fiscalizado por uma comissão formada por três pessoas, designadas pela Família Real, a fim de que nada se imprimisse contra a religião, o governo e os bons costumes.


Antes da chegada da Corte na América Portuguesa prevaleciam as ordens vindas do Reino: toda atividade de imprensa – jornais, livros ou panfletos - era proibida, em um comportamento oposto ao restante da Europa, onde a imprensa existia desde o século XVI.

Toda e qualquer outra tipografia que não saísse da Imprensa Régia era censurada, inclusive com a destruição de máquinas.

No entanto, é importante entender o contexto da época: acreditava-se que tudo que publicado fora da Imprensa Régia não era notícia. E sim doutrinas e propagandas ideológicas capazes de cooptar os segmentos da sociedade.

No dia 10 de setembro de 1808 surgia a Gazeta do Rio de Janeiro – o primeiro jornal publicado na América Portuguesa. O jornal era impresso com tecnologia importada da Inglaterra. O veículo só publicava notícias boas da Coroa. Foi o primeiro a ser publicado em território nacional - mas não o primeiro jornal brasileiro.

É que bem longe daqui, com um oceano nos separando, em Londres, surgia também a imprensa contestadora. E o mais interessante: surgiu antes mesmo do primeiro veículo “chapa-branca”, mais precisamente três meses antes. Em 01 de junho, o exilado Hipólito José da Costa lançava o primeiro jornal brasileiro: o Correio Braziliense.

O jornal criticava a administração do Brasil – embora não clamasse pela Independência e tivesse um viés conservador - e só chegou aqui no mês seguinte, em outubro, com grande repercussão nas classes altas. Logo foi censurado e apreendido pelas autoridades da Coroa.

Só em 1821 é que termina a proibição a jornais que não fossem impressos pela Imprensa Régia. Depois, ao longo do Império, surgiram jornais amplamente identificados com correntes políticas – liberais, conservadores – favoráveis ou não a D. Pedro. A maioria dos jornais era subvencionada por partidos políticos.

Mas faltava organização e profissionalismo, e grande parte deles surgia de maneira efêmera, apenas para apoiar ou criticar determinado acontecimento. A campanha republicana, a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravatura... Jornais de até quatro páginas, que duravam poucos meses. A Gazeta de Notícias e O Paiz foram jornais que surgiram no Império e resistiram até a Era Vargas. D. Pedro II foi muito criticado, em tom de ironia, por exemplo, nas charges de Angelo Agostini, como um monarca idoso, despreocupado com a vida do país, alheio a tudo.

Com a Proclamação da República, em 1889, parecia que enfim, os bons ventos da liberdade seriam sentidos pela população e principalmente pela imprensa.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

História & Outros Assuntos: "A biografia histórica da esfinge que transformou o Brasil"


Nesta sexta feira, a coluna "História & Outros Assuntos", do Mestre em História Fabrício Gomes, traz uma resenha do primeiro volume daquele que, a meu juízo, é um dos dois maiores políticos da história do Brasil: Getúlio Dorneles Vargas.

Tenho o exemplar, que está na minha lista de leituras próximas. Vamos ao post.

A biografia histórica da esfinge que transformou o Brasil

"Sou contra biografias"

Com essa frase enigmática, dita por Getúlio Dornelles Vargas ao jornalista Rubens Vidal, repórter da extinta Revista do Globo, em 1950, o escritor cearense Lira Neto (autor das biografias do ex-presidente Castelo Branco, do escritor José de Alencar, da cantora Maysa e do religioso Padre Cícero) inicia um grande desafio: escrever "Getúlio (1882-1930): Dos anos de formação à conquista do poder", Companhia das Letras, 629 páginas".

Esta é a biografia histórica daquele que pode ser considerado o maior político brasileiro do século XX - e por que não, uma de suas figuras mais emblemáticas daquele século. Trata-se de tarefa árdua e paradoxal escrever sobre este gaúcho nascido em São Borja, em 1882, quando o Império brasileiro vivia o apagar das luzes dos salões da monarquia. Apelidado de "esfinge" - durante e após seu desaparecimento em 1954, Vargas foi uma espécie de camaleão que se metamorfoseava, com ambivalências e contradições que só quem pôde acompanhar sua trajetória política e pessoal - ou estudá-lo - é capaz de "tentar" decifrá-lo.


Nas entrevistas que concedeu durante a campanha de lançamento do livro, Lira Neto problematizou o fato, ao querer mostrar que Getúlio não foi vários em um - o revolucionário, o ditador e o democrata, mas apenas um político que soube adequar-se aos distintos contextos que a sociedade brasileira vivenciou na passagem da monarquia à República, na transformação de um Brasil agrário para um país que começava a se tornar urbano, graças à industrialização que começava a dar seus ares ainda na Primeira República. Esta que muitos ainda insistem de chamar de "República Velha", num sentido pejorativo que desmerece um período que também correspondeu a significativas transformações em nossa sociedade.

O "camaleão" ambulante, que alistou-se no Exército (embora não tivesse nenhum tino para a carreira militar), tornou-se advogado e pertenceu à hegemônica oligarquia do Rio Grande do Sul, inspirada nos ideais de Júlio de Castilhos e posteriormente Borges de Medeiros - que ocupou, durante 25 anos a presidência daquele Estado.

Tornou-se deputado estadual, depois deputado federal, Ministro da Fazenda de Washington Luís até ser Presidente do Estado do Rio Grande do Sul. Vargas traduz a passagem de um modelo político saturado pela política do café-com-leite (alternância entre São Paulo e Minas na Presidência da República) para um período que representou o fim da predominância das oligarquias e a maior atenção às lutas sociais, inaugurando uma era que duraria quinze anos, até culminar, em 1945, com sua deposição do governo e o auto-exílio em sua fazenda em São Borja.

[N.do.E.: a meu juízo a Revolução de 30, que entronizou Vargas no poder, é a única Revolução de fato ocorrida na História do Brasil: saiu a oligarquia agrária, entrou a nascente burguesia citadina – ou seja, houve mudança de ‘status quo’. Voltarei ao tema.]

Um dos inúmeros desafios enfrentados pelo autor foi o de que, apesar de existirem inúmeros trabalhos (livros, dissertações de mestrado e teses de doutorado) sobre Getúlio Vargas, não há nenhum que corresponda à categoria de "biografia histórica", stricto sensu.


Oficialmente, Vargas teve três biografos, os quais abriu seus arquivos pessoais:  André Carrazoni, Paul Frischauer e Leal de Souza. No entanto, os três produziram, não biografias, mas hagiografias, em plena vigência do Estado Novo.

Numa linha oposta, em 1977 - na plenitude do regime de exceção inaugurado em 1964, Affonso Henriques escreveu "Ascensão e Queda de Getúlio Vargas", desconstruindo a personagem. Tal fato comprova  a imagem negativa que Vargas tinha para os militares pós-1964, que se lançaram numa campanha para torná-lo desimportante para o Brasil, pormenorizando sua figura política.

Numa espécie de biografia do governo Costa e Silva, escrita pelo general Jayme Portella, em 1979, este não chama Getúlio Vargas pelo nome e sim como "O Ditador". Perfis biográficos também foram escritos sobre ele, porém, sem o detalhismo e a meticulosidade que uma biografia merece ter, amparada de fontes primárias e material de pesquisa.

Admitindo que seria impossível contar a vida de Vargas em apenas um livro, o autor tomou a acertada decisão de fazer uma trilogia.

Este primeiro volume aborda os anos de 1882 (ano de nascimento da personagem) e 1930 (quando a Revolução é vitoriosa e Getúlio assume o governo). O segundo volume será lançado no próximo ano e irá narrar os quinze anos em que Vargas esteve à frente da Presidência. Neste período comandou o Governo Provisório, foi ditador durante o Estado Novo, vivenciou a Segunda Guerra Mundial - onde soube como ninguém utilizar de estratégia política para angariar, por exemplo, a construção da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda - e foi deposto do poder pelos generais Pedro Aurélio de Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra - que viria a ser o próximo Presidente da República.

Por fim, em 2014, anuncia-se o terceiro e último volume, que abrange o exílio em São Borja, a volta à Presidência sob o voto popular e seu desaparecimento em 24 de agosto de 1954. Getúlio suicida-se com um tiro no coração, jogando seu cadáver à veemente oposição, numa das mais fantásticas manobras políticas já vistas.

O que torna este primeiro volume um trabalho edulcorado e digno de reconhecimento foi a quantidade de arquivos, fontes primárias e livros sobre o período pesquisados, num trabalho que tomou dois anos e meio do autor. E justamente por fazer a abordagem de um período praticamente desconhecido pelo grande público - salvo os especialistas, que foi a infância, a adolescência e sua passagem como liderança política no Rio Grande do Sul.

É como se Getúlio Vargas estivesse preso a uma cápsula do tempo, onde fosse identificado apenas como ditador entre 1937 e 1945 e à madrugada de 23 para 24 de agosto de 1954. Fora essas temporalidades, é como se a "esfinge" estivesse obscura, desconhecida e inatingível aos olhos dos leitores. Por isso a dificuldade que o autor encontrou em transpor barreiras e responder a uma pergunta que o leitor faz logo na primeira página do livro: "O que esperar de uma biografia sobre Getúlio Vargas?"

Dois dos grandes momentos do livro correspondem, sem dúvidas, à elucidação de possíveis crimes os quais Vargas teria participado na adolescência. Apoiado em fontes e autos policiais da época, o autor desmente, por exemplo, o boato plantado por Carlos Lacerda de que Vargas teria assassinado o estudante paulista Carlos de Almeida Prado, em Ouro Preto, e também o índio Tibúrcio Fongue, em Inhacorá (RS).

O autor reafirma o verdadeiro sentido que a biografia adquiriu, após a retomada do gênero pela historiografia, de não apenas ater-se aos acontecimentos das grandes personagens históricas, mas de procurar relacioná-las ao contexto político, social e econômico de uma época, com atenção à sua rede de sociabilidades e entendendo seu papel como parte de uma estrutura.

Também não podemos deixar de destacar a importância que duas personagens "periféricas" tiveram na vida política de Getúlio: João Neves da Fontoura, deputado federal e líder da bancada gaúcha no Congresso, e Oswaldo Aranha, primeiro como secretário de governo estadual e depois como presidente interino do estado do Rio Grande do Sul. Através deles, é possível entender como aconteciam as ações políticas que levaram à Revolução de 1930 estourar e ganhar milhares de adeptos no Brasil.

Uma biografia para ler e entender o Brasil da Primeira República, promissor de profundas transformações e rumo à modernidade. Que venham os demais volumes.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

História & Outros Assuntos: "Cartas de uma Imperatriz"


Nesta quarta feira, mais uma edição da coluna "História & Outros Assuntos", assinada pelo Mestre em História Fabrício Gomes. Hoje o colunista volta aos temas de nossa historiografia com uma interessante resenha.

Cartas de uma Imperatriz – A vida privada de Carolina Josefa Leopoldina, uma personagem real

Certas personagens de nossa história só reverberam em nossas mentes se forem importantes dentro do processo histórico em que estão inseridas.

Mesmo assim, a maioria delas padece de um caminho justo na hora em que suas biografias e trajetórias são analisadas. Muitos historiadores caem nessa armadilha e traçam suas pesquisas apenas dentro do contexto principal de suas vidas – e felizmente, caso sejam pesquisas bem-sucedidas, acabam descobrindo que a grandeza das personalidades não está resumida apenas na história dos acontecimentos.

É como se os atores sociais estivessem encapsulados e tudo que dissesse respeito a eles se restringisse apenas a um curto período de tempo – em muitos casos, alguns dias… ou até um dia.

A História do Brasil, especificamente falando da História do Brasil Imperial coloca em seu panteão figuras como D. Pedro I e José Bonifácio (mesmo assim, este recentemente incluído nesse hall graças a novos desdobramentos em pesquisas). No Segundo Reinado, D. Pedro II. Mas seria por deveras ingênuo entender que somente estas personagens estiveram envolvidas no processo político do Brasil pré e pós-independente. O próprio D. Pedro I durante décadas permaneceu restrito a certas idiossincrasias dentro da historiografia.

Por exemplo, a mitificação de seu heroísmo ao declarar, às margens do rio Ipiranga, o famoso “Independência ou Morte!”. Ou então sua notória atração pelos prazeres da alcova. Durante muito tempo, a história que nossas professoras contavam (principalmente nas décadas de 1970 e 1980) resumiam personagens históricos apenas aos grandes acontecimentos, sem procurar entender que estas personagens estavam inseridas numa dinâmica (política, social, comportamental) que estava em constante movimento. A glamourização destes atores bastava para alimentar as imaginações de adultos e crianças.

No Segundo Reinado, Duque de Caxias era o herói da Guerra do Paraguai – o lado sombrio deste personagem era esquecido, e principalmente a atuação de General Osório, na Batalha de Laguna, providencialmente esquecida. [N.do.E.: a excelente biografia do General Osório deixa claro que ele era muito mais importante que o Duque de Caxias, que, aliás, pouco esteve no front de batalha.]

Que história era essa que, aos olhos contemporâneos, era restrita e esquecida? Devemos, contudo, olhar com reprovação às pesquisas de outrora, ou apenas entender que o que alimenta a história é também a infinita possibilidade de explorarmos fontes, documentos, bibliografias e, com isso, realçarmos novas identificações e interpretações?

“Cartas de uma imperatriz” (Editora Estação Liberdade, 496 páginas, R$ 85,00) é o resultado de uma ampla pesquisa e minuciosa seleção de fontes realizadas pelas historiadoras Bettina Kann (Biblioteca Nacional da Áustria) e Patrícia Souza de Lima (UFRJ), que entre pesquisa, seleção e transcrições analisaram cerca de 850 fontes documentais em arquivos brasileiros, austríacos e portugueses, chegando até o número de 315 cartas de Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena (Viena, 22 de janeiro de 1797 – Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1826) - jovem monarca da Áustria, herdeira do trono dos Habsburgos. Leopoldina, que no Brasil passou a assinar seu nome como Maria Leopoldina, foi arquiduquesa da Áustria, primeira imperatriz-consorte do Brasil, regente do Brasil em setembro de 1821 e, por oito dias, em 1826 (ano de seu desaparecimento), rainha consorte de Portugal.

As duas historiadoras – Betinna e Patrícia – reuniram cartas da jovem imperatriz, num livro que conta ainda com cinco ensaios abordando o período histórico no Brasil e na Europa, a formação intelectual e moral de Leopoldina e a sua participação nos desígnios e desdobramentos da sociedade brasileira no começo do século XIX. Maria Leopoldina veio muito jovem para o Brasil e se mostrou uma figura importante não somente para a independência do país, como também entusiasta de pesquisas no campo da botânica e mineralogia.

As cartas, escritas em alemão, francês, português e inglês, cobrem o período que vai de 1808, quando Leopoldina tinha apenas 11 anos, a 1826, ano do seu falecimento, e mais do que retratarem as expectativas da imperatriz, mostram uma consistente consciência política – o que engrandece a personagem – e suas mágoas sofrimentos e tristezas diante do insucesso do matrimônio.

Em 1817, a princesa Leopoldina, digna representante dos Habsburgos, que era uma das mais importantes famílias da nobreza européia, após ser contatada pelo Marquês de Marialva – encarregado da Corte imperial, para buscar na Europa a futura esposa do monarca português – Leopoldina se casara com Pedro por procuração - desembarcava no Rio de Janeiro. A jovem princesa austríaca fora educada sob os preceitos absolutistas e parecia saber, de antemão, que teria um papel fundamental na história desse recanto dos trópicos.

“Meu destino é o Brasil, e cumprirei com prazer o mais rápido possível” - escreveu numa carta à sua irmã Maria Luísa, que havia sido esposa de Napoleão Bonaparte.

O engrandecimento da personagem é comprovado pelas cartas, que deixam transparecer uma monarca rica em sentimentos.

O livro contém um precioso caderno iconográfico (com obras selecionadas de artistas-viajantes que estavam no Brasil na época, como Johann Moritz Rugendas, Thomas Ender, que acompanhou Leopoldina na Missão Austríaca, e Debret, além de duas aquarelas da própria Leopoldina e alguns fac-símiles das cartas), a árvore genealógica da Imperatriz e de D. Pedro I, cronologia histórica, glossário de nomes, bem como um índice de todas as cartas e um índice onomástico.

Mais do que descortinar a importante (e até então desconhecida) vida privada de D. Maria Leopoldina, “Cartas de uma imperatriz” é uma referência fundamental para que as novas (e antigas) gerações percebam que as personagens históricas não merecem estar fadadas ao monolitismo que muitas vezes as interpretações pretendem encapsular.

Finalizando, deixo aos leitores três cartas da Imperatriz Leopoldina que integram o livro “Cartas de uma Imperatriz”:

P. 393
Carta a Francisco I
[226]

São Cristóvão, 7 de março de 1822

Querido papai!

Embora seja muito penoso para mim escrever, já que espero o nascimento para qualquer momento, considero meu dever mais sagrado lhe dar notícias minhas, uma vez que conheço bem demais seu coração paternal para ter certeza de que minhas linhas têm algum interesse para o senhor. Aqui reina um verdadeiro caos de idéias e cenas, tudo surgido do logro chamado espírito de liberdade, e nas províncias do Norte agora estão assassinando todos os europeus; Deus (que dispõe tudo para o bem do homem) permita que a situação fique calma, como quer me parecer; meu esposo declarou que ficará aqui; embora pensemos diferentemente em alguns aspectos, é melhor que me cale e observe silenciosamente. Beijo-lhe as mãos inúmeras vezes, assim como as da querida mamãe, e permaneço sempre com fervorosíssimo amor filial e respeito, caríssimo papai, sua filha mui obediente.

Leopoldina
______________________________________________________________________________

P. 409
Carta a D. Pedro I
[251]


São Cristóvão, 28 de agosto de 1822

Meu querido e muito amado esposo

Perdoe mil vezes que eu ralhei na minha última carta, mas deve ser-lhe prova de amizade de ser muito triste de ter me deixado faltar notícias suas; agora estou contentíssima com suas regras de Lorena; não é preciso recomendar-me as suas qualidades; seja persuadido, depois de dar-me tantas provas de confiança antes perder tudo que faltar aos meus deveres e bem do Brasil; os papéis se vão imprimir na Gazeta.

Sinto muito dar-lhe notícias desagradáveis, mas não quero faltar à verdade, mesmo se é penoso a meu coração; a tropa de Lisboa entrou na Bahia, e dizem que desembarcou; a nossa esquadra não se sabe o que fez, se é falta de ânimo dela é preciso o mais rigoroso castigo, chegarão três navios de Lisboa, os quais dão notícias de que os abomináveis portugueses querem sua ida para lá mesmo se voltasse ao Brasil outra vez, e que ia ao poder executivo a decidir se deve vir mais tropa para cá, é certo que aprontem a toda pressa dois navios; ontem deram a falsa notícia que estava uma esquadra de Lisboa fora da Barra de modo que todo se aprontou para recebê-la com fogo e bala.

O Abregé tem tido uma questão com o Martim Francisco, o último deve [ter] toda a razão, e o primeiro tem sido muito atrevido, de modo que era preciso eu o fazer calar; eu lhe escrevo isto porque penso que lhe representaram em baixo de outro modo falso.

Deram um tiro no autor do Diário, e o General Usley na qual diz irão que haviam de dar outro no amigo José Bonifácio; a Polícia já anda vigiando este negócio.

Mandou-se dar castigo ao autor do Correio que estas três últimas vezes tem sido o mais que possível.

Chegou um certo Veríssimo, dizendo que foi nomeado Encarregado dos Negócios dos Estados Unidos pelo Congresso de Lisboa; ele vem falar-me e o José Bonifácio me disse de eu ver se podia tirar-lhe alguma coisa pois soube que saiu mandado pelas Cortes, três meses faz de Lisboa, desembarcou na América inglesa, tratando de negócios deles, e por ordem dos mesmos veio para cá até mais ordenar, é muito mau sujeito, e espertíssimo, de modo que anda sempre em companhia de espias nossos.

O povo e muitos outros falam no por os esquadrões da cavalaria a pé com muito atrevimento e barulho crê que era bom deixar este negócio em esquecimento. O José Bonifácio mais lhe falará.
Recebo neste instante sua carta de Taubaté que muito lhe agradeço em lhe merecer a amizade que me prova sendo certamente todo meu ser, não falando das muitas saudades suas que eu tenho, pedindo-lhe que não fique mais ausente que um mês; o José Bonifácio lhe dirá o mesmo; a sua presença é muito preciso sendo São Paulo muito longe para dar prontas.

Receba mil abraços e as expressões do mais terno amor e amizade desta sua esposa que o ama ao extremo

Leopoldina
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P. 451
Carta a Maria Luísa
[315]


São Cristóvão, 8 de dezembro de 1826, às 4 horas da manhã

Minha adorada mana!

Reduzida ao mais deplorável estado de saúde e tendo chegado ao último ponto de minha vida em meio dos maiores sofrimentos, terei também a desgraça de não poder eu mesma explicar-te todos aqueles sentimentos que há tanto tempo existiam impressos na minha alma. Minha mana! Não tornarei a vê-la! Não poderei outra vez repetir que te amava, que te adorava! Pois, já que não posso ter esta tão inocente satisfação igual a outras muitas que não me são permitidas, ouve o grito de uma vítima que de tu reclama – não vingança – mas piedade, e socorro do fraternal afeto para meus inocentes filhos, que orfãos vão ficar, em poder de si mesmos ou das pessoas que foram autores das minhas desgraças, reduzindo-me ao estado em que me acho, de ser obrigada a servir-me de intérprete para fazer chegar até tu os últimos rogos da minha aflita alma. A Marquesa de Aguiar, de quem bem conheceis o zelo e o amor verdadeiro que por mim tem, como repetidas vezes te escrevi, essa única amiga que tenho é quem lhe escreve em meu lugar.

Há quase quatro anos, minha adorada mana, como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida pelo meu adorado Pedro. Ultimamente, acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento a meu respeito, maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte. Cadolino, que por ti me foi recomendado, e que me tem dado todas as provas da maior subordinação e fidelidade, é quem fica encarregado de entregar-te a presente, e declarar-te o que por muitos motivos não posso confiar a este papel. Tendo ele todas as informações que são precisas sobre este artigo, nada mais tenho a acrescentar, confiando inteiramente na sua probidade, honra e fidelidade.

Faltaria ao meu dever se, além de ter declarado ao Marechal e a Cadolino que tenho dívidas contratadas (ou contraídas?) para sustentar os pobres, que de mim reclamarão algum socorro, e para as minhas despesas particulares, não dissesse a ti que o Flach, de quem tenho muitas vezes escrito, é digno de toda tua consideração e de meu Augusto Pai, a quem peço-te remeter a inclusa.

Este virtuoso amigo, além de ter se sacrificado e comprometido a si mesmo e seus negócios para me servir, não desprezou meio algum para me procurar socorros. Peço-te por quanto tens de mais sagrado de lhe prestares todo o auxílio, de modo que ele possa satisfazer aquelas dívidas que por mim tem contraído. Recomendo este exemplo da mais virtuosa amizade. Cadolino te dirá qual foi o procedimento de Marechal para comigo. A Marquesa de Aguiar fica encarregada de dar a ti os mais miúdos detalhes sobre quanto diz respeito às minhas queridas filhas. Ah, minhas queridas filhas! Que será delas depois da minha morte? É a ela que entreguei a sua educação até que o meu Pedro, o meu querido Pedro não disponha o contrário. Adeus minha adorada mana.

Permita o Ente Supremo que eu possa escrever-te ainda outra vez, pois que será o final do meu restabelecimento.

L. S. B. Marquesa de Aguiar

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O Brasil que o Brasil não conhece


Os geólogos que trabalham aqui comigo, volta e meia, fazem cursos de campo, que é uma forma de estudar possíveis rochas petrolíferas que se encontram inacessíveis, muitas vezes, no fundo do mar.

Semana passada o Gérson e a Caroline, que trabalham comigo aqui, estiveram em um destes cursos na Chapada Diamantina, na Bahia.

O local é muito pobre. A agricultura é limitadíssima por causa do clima seco e praticamente sem chuvas. A pobreza é muito grande.

Na localidade de Ipanema, distrito do município de João Dourado, os geólogos que foram ao curso fizeram um trabalho social de distribuir material escolar; este comprado com recursos próprios, a propósito.

Impressiona a quantidade de crianças que tiveram seu desenvolvimento travado ou prejudicado unica e exclusivamente por causa da fome. Como a foto ao lado mostra, garotos de dez anos com corpo e desenvolvimento de sete.

Entretanto, o relato que eles me fizeram é que a situação já foi pior. Para cidades como Ipanema, o advento de programas como o Bolsa Família possibilitou uma mudança grande na situação.

Esta ainda é de miséria, todavia certamente o quadro econômico, social e especialmente alimentar daquela população seria muito mais dramático caso não houvesse.

Outrossim, este tipo de programa, vinculado à matrícula escolar, permitirá que mais filhos possam romper os laços de dependência eterna com a pobreza.

Também permite o desenvolvimento de um pequeno comércio nas localidades, girando a economia local e permitindo geração de emprego.

Eu só acho engraçado este pessoal que nunca levanta os glúteos de suas cadeiras confortavelmente instaladas em salas refrigeradas vociferar contra este tipo de programa. Chega a ser falta de solidariedade e de compaixão.

Deveriam ir a Ipanema. Não a praia famosa, mas ao sertão baiano.

Por exemplo, vejam a foto abaixo, que fecha este post. Os biscoitos que as crianças estão comendo na foto são o lanche dos geólogos, cedido a elas.

Decididamente, o Brasil não conhece o Brasil. Se você achar Ipanema (a cidade) longe, vá a Gramacho, aqui em Duque de Caxias.

(Fotos: Gérson Terra)