Nesta quinta feira, véspera de feriado, a coluna
“Sabinadas”, do jornalista Fred Sabino, fala sobre um tema palpitante no
esporte brasileiro: a disputa entre os fãs de Nélson Piquet e Ayrton Senna.
Sou “piquetista” assumido, mas isso não me impede de reconhecer
os méritos de Ayrton Senna.
No último dia 30, dois dos oito títulos mundiais do Brasil
na Fórmula 1 completaram aniversário: os 25 anos do tri de Nelson Piquet e os
24 anos da primeira conquista de Ayrton Senna, ambas no circuito de Suzuka, no
Japão.
Em meio às justas homenagens a ambos, mais uma sessão da inacreditável
e nada inteligente troca de farpas, para não dizer xingamentos, entre os
sennistas e piquetistas. Este é um fenômeno que vem daqueles tempos e que foi
aumentado e alimentado nos últimos anos pelas redes sociais.
Os fãs de Nelson argumentam que seu ídolo foi o melhor
piloto do Brasil na história da Fórmula 1, enquanto os torcedores de Senna
reagem
Aí é um tal de "viúvas do Senna" para lá,
"mal-comidas do Piquet" para cá, e o que deveria acontecer - ou seja,
nossos ídolos serem exaltados - não ocorre, devido aos exaltados (desculpem o
trocadilho) e "corajosos" fãs
que, se estivessem frente a frente, não teriam coragem de falar o que escrevem
na internet.
São provavelmente os mesmos bobalhões que há quatro anos
levaram Felipe Massa ao céu como o responsável pelo resgate da auto-estima da
torcida brasileira e "nosso" novo campeão. Nos dias de hoje o chamam
de ‘submisso’ e ‘vergonha do automobilismo nacional’ - a situação atual de
Massa, aliás, fica para uma outra coluna.
Mas insisto: me espanta demais esses fanáticos (no sentido
religioso mesmo) serem incapazes de reconhecer os méritos do "rival"
de seu ídolo.
Entre algumas barbaridades escritas nos últimos anos, separei
algumas:
- Ah, o Piquet só foi campeão em 1987 porque o Mansell era
burro e fazia merda toda corrida.
- O Senna sempre teve um carro muito melhor do que todo
mundo e o Prost era medroso.
- Esse Piquet era um cagão, só ficava esperando os outros
quebrarem para ganhar.
- O tal do Senna só morreu porque não soube fazer a curva
Tamburello.
- Se não tivesse morrido, o Senna seria aposentado pelo
Schumacher.
- O Piquet ganhou campeonatos fora do regulamento, todo mundo
sabe disso.
Pois bem, vejam vocês, se dependesse desses idiotas, o
Brasil somente teria os títulos de Fittipaldi na Fórmula 1, já que não houve
mérito, não é?
Parece o que acontece hoje em dia no futebol. Em todo
campeonato existe a teoria da conspiração: "o Fluminense tem esquema com a
CBF, por isso está na frente", ou então "ah, não foi o Flamengo que
ganhou o título, mas os outros que perderam".
O leitor poderia perguntar, com razão: mas torcedor não é
apaixonado assim mesmo e você está azedo demais?
Concordo em relação à paixão, mas entre ser apaixonado pelo
seu ídolo ou clube e não ter um mínimo de senso crítico isento é uma distância
muito grande.
Essas picuinhas entre sennistas e piquetistas são,
infelizmente, mais um triste retrato da queda acentuada de capacidade
intelectual da nossa sociedade em discernir o que se passa. E também um retrato
do quão as redes sociais formam "monstros" hoje em dia.
Em tempo: considero Ayrton Senna o mais talentoso e rápido
piloto da história da Fórmula 1 pelos seus lances geniais e ele era meu piloto
favorito na infância. Por outro lado, reputo Nelson Piquet como o melhor de
todos os tempos na arte de desenvolver um carro de competição, sem contar sua
incrível astúcia e inteligência nas corridas.
Não vejo nenhum pecado em gostar de ambos.
P.S.: prometi na semana passada que escreveria sobre os
sambas-enredo do Grupo Especial do Carnaval 2013 do Rio. Mas o Migão é o chefe
e pediu que eu adiasse esse texto em virtude das datas dos títulos de Piquet e
Senna em 1987 e 1988. Mas da semana que vem não passa!
Créditos das fotos:
Senna e Piquet no pódio do GP do Brasil de 1986
Williams/LAT Photo/Divulgação
Piquet no GP da Itália de 1987
Williams/LAT Photo/Divulgação
Senna durante o GP da Alemanha de 1989
Honda/Divulgação



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