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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Os Crackcanavieiros


O post da terça feira retrasada sobre o documentário na Cracolândia rendeu um e-mail de leitor (que a pedido não identifico) me chamando a atenção para um problema que eu não tinha conhecimento, pesquisei sobre e que é ainda mais sério: os "crackcanavieiros".

Resumindo a história: trata-se do consumo alarmante de crack pelos cortadores de cana, em especial em São Paulo, com o objetivo de aumentar a produtividade e, em um primeiro momento, tornar menos extenuante o trabalho de corte. Pior: muitas vezes o vício em crack é estimulado pelos próprios donos de usina.

A atividade de corte de cana é uma das mais extenuantes possíveis: 12 horas seguidas em pé com um facão, sob forte calor e com roupas que cobrem todo o corpo a fim de proteger dos golpes e da fuligem da queima do canavial - o que gera uma intensa perda de líquido e, muitas vezes, desidratação.

Ou seja, é uma atividade extremamente desgastante, exercida em São Paulo em sua maioria por migrantes nordestinos. Além disso, há uma produtividade mínima para que o pagamento possa ser efetuado aos cortadores, que pelas pesquisas que fiz é de 12 toneladas/dia de cana - e ainda com medições imprecisas: há estimativas que indicam que o corte real chega ao dobro disso para chegar a esta quantidade contabilizada 'oficialmente'.

Complementando o quadro, o corte manual da cana será inviabilizado a partir de 2014. Uma lei estadual paulista determina que não poderá haver mais queimadas, o que deixa a planta verde muito "dura" e difícil de ser cortada pelo facão - além da existência de animais peçonhentos que podem até matar os trabalhadores. Com isso a mecanização total será inevitável, o que irá gerar desemprego em massa.

Enquanto este momento não chega, os usineiros tratam de extrair o máximo que podem da capacidade laborativa dos bóias frias. Para isso estão incentivando o consumo da droga, que em um primeiro momento aumenta a produtividade - o cortador chega a trabalhar até 16 horas por dia.

Nas palavras do relato que recebi: “O crack é financiado pelo próprio usineiro. Isso existe mesmo. É interesse dele que o cara se acabe de trabalhar e fumar crack. O usineiro que não ajuda o cara a conseguir, faz vista grossa para a presença da droga dentre os seus cortadores. A pinga atrapalha o raciocínio, deixa o caboclo mole e indisposto até no dia seguinte. O crack faz o cidadão virar escravo muito mais rápido. Trabalha não pelo dinheiro para comprar comida e pinga, ou mandar para a família. Trabalha pela próxima pedra"

O leitor sabe que o crack causa dependência de forma fulminante, até tirar toda a dignidade da pessoa. Nos canaviais paulistas o trabalhador acaba sendo dispensado quando a dependência química inviabiliza seu trabalho. Muitas vezes neste momento ele tem dívidas com o usineiro e com o traficante de droga.

Isso gera uma outra questão. Os trabalhadores do corte da cana, como escrevi acima, são migrantes nordestinos, temporários. Chegam a representar 25% da população de pequenos municípios, utilizando os serviços públicos (especialmente saúde) mas não contabilizado na hora dos repasses estaduais e federais por não serem moradores fixos. Por outro lado, são uma fonte importante de dinamização do comércio local - que tende a ser afetado com o fim do corte manual, gerando desemprego.

Quando o corte mecanizado for implantado definitivamente tenderá a criar um problema sério para a economia dos municípios, que perderão o comércio gerado por estes migrantes. Por outro lado, a disposição dos usineiros é utilizar "até o bagaço" a capacidade destes cortadores, ainda que ao custo social de gerar uma legião de dependentes.

Note-se que normalmente o cortador de cana é uma pessoa de pouca instrução formal e que está sozinho em uma região onde não tem muitas vezes o apoio da família. Sugestionado com o conceito de que "quem fuma crack consegue trabalhar mais" acaba se utilizando da pedra sem ter muita ideia das consequências futuras.

Onde eu quero chegar? Que o consumo de crack, incentivado pela busca do lucro por parte dos usineiros, está gerando uma questão social e de saúde pública delicada: ou os dependentes procuram tratamento nas próprias cidades onde trabalham, sobrecarregando os serviços de saúde municipais sem estrutura para tal, ou são simplesmente mandados de volta como gado para suas cidades de origem - o Nordeste que cuide dos dependentes criados pelos usineiros paulistas.

Outro fator de impacto social é que os trabalhadores afetados pelo crack diminuem - quando não cessam - as remessas financeiras para suas famílias, o que gera impacto econômico em regiões distantes das enfocadas neste post.

Ou seja: ou os dependentes ficarão nas cidades paulistas, sem emprego e muitas vezes sem tratamento adequado, ou criarão uma pressão social sobre suas cidades de origem - para usar uma expressão forte, é uma "exportação da doença".

Além disso, o controle das relações trabalhistas nos canaviais, embora tenha melhorado devido à ação do Ministério do Trabalho, ainda é bastante tênue. Toda sorte de violações é cometida, em uma ocupação com condições bastante precárias e que, como exposto acima, tende a favorecer aqueles que detém o poder seja político, seja financeiro.

Outrossim, é importante também prever e estabelecer algum tipo de política a fim de mitigar os impactos econômicos e sociais do desemprego, não somente para as cidades de São Paulo e do Nordeste envolvidas como especialmente para estes trabalhadores.

Estou longe de esgotar o tema aqui, mas queria chamar a atenção dos leitores para um problema que já ocorre e que tende a gerar consequências absolutamente imprevisíveis do ponto de vista social no momento em que a colheita estiver mecanizada. Faz-se necessário algum tipo de política a fim de combater o consumo do crack nos canaviais e, depois, tratar dos já dependentes.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O consumo de alimentos orgânicos - Uma necessidade imperiosa


Estou para escrever este post já há algum tempo, mas sempre me faltava tempo ou aparecia outro assunto palpitante... Mas os alimentos orgânicos estão novamente na ordem do dia.

Até por questões de orientação religiosa, que neste momento não cabe comentar aqui, sou um entusiasta dos mesmos. Sempre que encontro, a preferência é sempre por este tipo de produtos, não somente legumes e frutas, como frangos, ovos e alimentos industrializados - como sucos, café e, especialmente, açúcar. São alimentos mais saudáveis, que incentivam a agricultura familiar, ou seja, possuem função social, e incomparavelmente mais saborosos.

Ainda são mais caros, porque não há grande escala de produção, mas quanto maior a procura que nós consumidores exercemos, maior será a produção e menor o preço. Vale lembrar que a cada dia aumenta a demanda por este tipo de produto e, por isso, percebe-se ao mesmo tempo um aumento de oferta e diminuição dos preços. Isso é reflexo da maior produção e de incentivos do governo à produção de alimentos sem agrotóxicos.

Acima apresento documentário sobre o uso de agrotóxicos realizado pelo cineasta Silvio Tendler, "O Veneno está na Mesa". É estarrecedor. O Brasil é um dos maiores consumidores do produto no mundo, atendendo à lógica de que o importante é o custo de produção, não o respeito à saúde.

Ainda temos de enfrentar a questão dos transgênicos, produtos manipulados geneticamente, que dependem de maciças doses de venenos químicos e que não se sabem ainda suas consequências. Pesquisas recentes indicam, ainda, que estes produtos são menos nutritivos e causam riscos maiores à saúde - até porque a planta não se desenvolve se não receber o defensivo agrícola fabricado pela mesma empresa que fornece as sementes.

Lembro ainda que as sementes transgênicas são patenteadas por uma empresa - quase todas pela malsinada Monsanto - e isto gera uma relação de dependência econômica no campo que pode desarticular relações produtivas seculares. As sementes não podem ser separadas da produção anterior - pois são estéreis - e isto coloca a agricultura nas mãos de um oligopólio de poucas empresas. Escrevi post anterior sobre o tema, que pode ser lido aqui.

Queria chamar a atenção para dois produtos em especial: os frangos e o açúcar.

O frango comum, que se compra no mercado, possui aproximadamente um terço de seu peso formado por hormônios de crescimento (basicamente estrogênio e progesterona) e antibióticos. Já há pesquisas correlacionando o aumento do consumo destas aves à cada vez mais precoce menstruação em pré-adolescentes. Além disso, o frango caipira eque em média fica pronto para abate em noventa dias, nestes frangos "anabolizados" está em, pasmem, dezenove dias o tempo de abate.

A empresa Korin é a principal produtora de frangos e ovos livres de indutores de crescimento e de antibióticos brasileira, com produtos encontrados com certa facilidade nos principais centros. Mas há outras empresas seguindo o memso caminho e apresentando boas opções.

Quanto ao açúcar refinado, ele leva de tudo em sua composição, até porque o açúcar não é branco por natureza. Para alcançar tal coloração é utilizado ácido clorídrico, farinha de ossos e outros ingredientes, nem um pouco saudáveis. Hoje a oferta deste produto já é bem maior: marcas como a Native e mesmo a União oferecem produtos orgânicos certificados e de consumo seguro.

Legumes, verduras e frutas - estas um pouco menos - já possuem diversas opções, novamente lideradas pela Korin mas com diversas marcas de produtos certificados. Todo produto orgânico tem de ser certificado por uma das empresas existentes e reconhecidas para tal fim, tais como a ABIO, a CMO e o IBD. Mas existem outras - são dezessete entidades. Este selo nas embalagens do produto garante a sua procedência e a consequente qualidade.

Hoje já se pode adquirir uma vasta gama destes produtos, em diversos pontos de venda. A comercialização deste tipo de alimento está deixando de ser um gueto para iniciados e torna-se cada vez mais ampla. E isto é fundamental tendo em vista os notórios prejuízos à saúde causados pelos alimentos que visam unica e exclusivamente o lucro.

Há outras duas grandes vantagens no consumo de alimentos orgânicos: possuem um sabor diferenciado, visivelmente mais agradável ao paladar; e respeitam o meio ambiente. Ecologia na prática, saindo do discurso bonito e na maioria das vezes hipócrita - se dizer "ambientalista" sem abrir mão de custo ou de conforto é muito fácil.

Vamos fazer algo prático pela saúde e pela ecologia ?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: "Os perigos da reforma do Código Florestal"


Mais uma quarta feira, e mais uma coluna "Formaturas, Batizados e Afins", sobre ciência e tecnologia, assinada pelo Professor de Biofísica Marcelo Einicker Lamas.

O tema de hoje é uma análise do projeto de lei do novo Código Florestal, que a se depreender da leitura  do artigo me parece uma tentativa de se fazer uma "grilagem legalizada" de terras. É algo muito importante e que o leitor precisa conhecer.

"OS PERIGOS DA REFORMA DO CÓDIGO FLORESTAL

É inegável o apelo de preservação do meio ambiente em todo mundo. O crescente desenvolvimento dos países aumentou muito o nível de poluição e já trouxe mudanças significativas em alguns fatores globais, como por exemplo, o clima. A cada dia novas notícias de alterações grotescas observadas como degelo nos pólos – esta semana um iceberg de proporções colossais se desprendeu de uma geleira da Groenlândia - calor intenso em regiões de frio constante, chuvas em excesso; e a nítida sensação de que o termostato do planeta Terra está visivelmente alterado.

Neste cenário o Brasil atrai e muito as atenções do mundo, não apenas pela exuberância de seus ecossistemas – com destaque para a Amazônia - como também pelo discurso preservacionista de nossas maiores autoridades. No entanto, como muita coisa aqui no País, muito se fala e pouco ou nada se faz, ou muito se fala, mas na prática se faz diferente.

Apoiado por um grupo de Deputados, Senadores e empresários do agro-negócio (a chamada bancada ruralista), tramita no Congresso uma proposta para alterar o Código Florestal Brasileiro, que data de 1965. De acordo com esta proposta seriam transferidos para os Estados importantes poderes no estabelecimento das políticas de proteção florestal, que hoje são da responsabilidade do Governo Federal. Este simples redirecionamento da política ambiental pode significar um perigo conforme alertam cientistas e ambientalistas , uma vez que se poderia dar espaço para regras mais “brandas” e de conveniência regional em relação ao avanço da atividade agropecuária sobre as áreas de floresta; cuja manutenção é vital para a manutenção do equilíbrio climático do planeta.

Dentre diversos pontos polêmicos, esta nova proposta de reforma concede anistia por multas aplicadas até 2008 para casos de violação do atual código florestal, bem como reduz drasticamente a área de floresta nativa que os fazendeiros precisam preservar em suas terras. Recomenda que os proprietários de terra agricultores ou pecuaristas dos estados amazônicos mantenham como reserva apenas 20 por cento das suas terras, e não mais os 80 por cento estabelecidos pelo código florestal vigente, que em muitos casos já não são respeitados.

Outro ponto de grande perigo é a redução da área de preservação às margens de rios ou nascentes, que poderia deixar de ser de 15 metros a partir da margem para incríveis e ineficazes 5 metros de área preservada nas vizinhanças destes corpos d´água. Diversos estudos mostram que o desmatamento desenfreado nas cabeceiras dos rios e lagos provoca em curto prazo desmoronamento das margens; com conseqüente assoreamento do rio que em pouco tempo acaba por reduzir a lâmina d´água, contribuindo para que este rio seque. Também, este desmatamento nas cabeceiras de rios e lagos ou lagoas leva à desertificação e morte de nascentes; uma vez que a vegetação parece exercer importante papel na infiltração da água da chuva no solo, alimentando lençóis freáticos e mantendo a potencialidade das nascentes.

Assim, depois de alguma discussão que vem desde o ano passado uma Comissão especial do Congresso Nacional que teve como relator o Deputado Federal Aldo Rebelo (PC do B de SP), aprovou no mês passado os termos deste projeto, de maneira que esta proposta de reforma do Código Florestal brasileiro deva ser levada a plenário para votação ainda este ano, muito provavelmente logo após as eleições.

Esta proposta pode trazer problemas políticos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou para seu sucessor, visto que o novo texto aponta para pontos bastante polêmicos como os já levantados aqui nesta coluna, numa nítida contramão da preservação ambiental tão alardeada pelo Governo Federal aqui internamente e em outros países, em encontros Internacionais importantes sobre o tema.

Por exemplo, esta nova proposta prejudica compromissos já assumidos pelo Brasil, como as metas de redução dos gases de efeito estufa, e pode ainda prejudicar as negociações brasileiras na Cúpula da Biodiversidade (COP 10), que será realizada em outubro no Japão. Fora isso, estas novas diretrizes para a “preservação” das florestas surge num momento onde o Governo anuncia a redução em 49% da progressão do desmatamento da Amazônia, tendo-se como período avaliado os dois últimos anos. Um anúncio tão importante, mas que pode ser totalmente anulado por novas iniciativas de desmatamento legalizadas no texto desta nova proposta de reforma.

Opiniões contrárias ao novo texto classificam-no como “um desastre ambiental à luz dos conhecimentos científicos”. Isso não apenas pela evidente degradação de áreas ainda preservadas, e consequente perda de espécies nativas (Biodiversidade), como também do ponto de vista agrícola, pois as nascentes de água e as cabeceiras dos rios que são utilizadas para a irrigação, são protegidas pelas áreas de floresta preservadas, ou seja, a médio e longo prazo todos os lados perderão.


Apesar disso, os defensores da reforma dizem que ela proporcionará ao setor agrícola brasileiro mais competitividade por dar aos produtores mais acesso a terras “cultiváveis”, e ainda que na nova proposta existe um artigo que estabelece uma moratória de cinco anos para qualquer novo desmatamento, o que seria uma garantia de que não ocorrerá uma nova onda de desmatamento da Amazônia. Segundo dizem os agricultores, as regras vigentes para a proteção da floresta levaram muitos deles para situações de ilegalidade, e que a alteração do código florestal possibilitaria uma correção nesta distorção. Mas, sob que preço? Quais as garantias de que não vai mesmo acontecer uma corrida de devastação de áreas ainda preservadas?

Outro ponto bastante polêmico desta proposta é o que autoriza os Estados a legalizarem áreas que foram desmatadas ilegalmente, mas que estão produzindo. Assim aqueles agricultores ou pecuaristas que desmataram ilegalmente aquela área, passam a ter sua posse sem nenhum castigo ou multa. E é isso que deixa muitos cientistas e ambientalistas apreensivos, pois esta nova proposta para o Código Florestal cria a expectativa de que sempre vai haver anistias para aqueles que violaram e seguem violando a lei, uma espécie de incentivo ao descumprimento e a degradação ambiental.

Sem sombra de dúvidas o progresso do País passa por aumentar a capacidade de produzir alimentos, mas não se pode pensar só nas possibilidades de expansão do agro-negócio sem que sejam analisadas as consequências a médio e longo prazo que algumas destas novas normas trarão. Diferentes iniciativas de exploração de áreas de floresta já estão em curso, todas baseadas no manejo sustentável e na exploração consciente dos recursos.

Também a exploração da floresta em projetos de ecoturismo surgem como uma alternativa rentável, que promove o desenvolvimento, gera empregos e renda e não destrói os ecossistemas. São ainda iniciativas muito pontuais, mas que já mostram grande sucesso. Pegar estes exemplos e colocá-los em escala maior poderá significar uma guinada não apenas para o lado da preservação como para a melhoria dos processos de produção agrícola e de pecuária. Aliar o desenvolvimento sustentável com a preservação ambiental é o grande desafio destas nações em desenvolvimento, para que não venham a padecer dos mesmos problemas que outras nações com pensamentos imediatistas tiveram por conta de escolhas erradas num passado recente.

Não se pode privar o País de se desenvolver, mas não se pode por em risco a nossa biodiversidade e o nosso equilíbrio ecológico. Que os políticos ouçam as opiniões técnicas e científicas dos especialistas no assunto e não apenas coloquem na mesa os interesses de uma classe que apesar da vantagem aparente, trará sim graves consequências  para o Brasil e por tabela, para todo o planeta.

Até a próxima
Marcelo Einicker Lamas"

 1* Farei uma distinção de cientistas e ambientalistas pois considero ambientalista, aquele que abraça a causa da ecologia e da preservação mesmo sem ser um profissional ligado a esta área como um Biólogo, Engenheiro Florestal, Geólogo, etc. Vários ambientalistas sequer possuem formação superior, mas tem uma destacada atuação em defesa da Natureza."

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Cama de Frango


Nos dias em que trabalhei na refinaria paranaense, tinha de acordar muito cedo a fim de pegar o ônibus que me levava à Repar - que fica em Araucária, cerca de trinta e cinco quilômetros da capital Curitiba.

Com isso, todos os dias enquanto tomava café no hotel assistia no salão ao programa Globo Rural, um dos mais antigos na grade de programação da tevê aberta brasileira.

Em uma das manhãs uma matéria me chamou muito a atenção. Era sobre a proibição da "cama de frango" na nutrição do gado de origem bovina e a inspeção que os órgãos oficiais fizeram naqueles dias a fazendas na Bahia.

Para os leigos como eu, "cama de frango" (foto acima) é uma espécie de "tapete" colocado nas granjas a fim de que os frangos não fiquem em contato direto com o chão. Formada com palhas e cascas de vegetais como o arroz e o café, tal cobertura recebe parte de alimentos não aproveitados pelas aves, suas fezes e restos de penas.

Também há farinha de carne na ração dos frangos, e aproximadamente 30% da ração ingerida é eliminada pelas fezes dos animais sem ser digerida.

Após a retirada e o abate das aves, tal mistura não é simplesmente descartada como o leitor poderia imaginar. Normalmente esta "cama" recebe duas destinações.

A primeira, considerada aceitável pelas autoridades sanitárias é sua utilização como adubo em culturas agrícolas. Em especial as fezes dos animais possuem nutrientes que são úteis às culturas e diminuem o custo de produção. Por outro lado a palha e as cascas diminuem a umidade do solo.


Entretanto, muitos fazendeiros utilizam a cama de frango como complemento alimentar do gado bovino. Neste caso temos um problema.

A Instrução Normativa nº 8 do Ministério da Agricultura, de 25/03/2004, proíbe que na alimentação de animais ruminantes (bovinos, caprinos, ovinos, entre outros) haja elementos que contém proteínas e gorduras de origem animal. Como explicado acima, a cama de frango possui elementos oriundos do descarte destes animais.

Outra questão é que a utilização desta mistura na alimentação dos bois e vacas pode causar doenças como a "vaca louca" e o botulismo. A proteína que compõe o vírus da "vaca louca" não afeta os frangos, mas no organismo dos bovinos causa a doença.

Além disso, a cama de frango pode trazer resíduos de antibióticos, hormônios e inseticidas utilizados na produção avícola, bem como pregos e outros tipos de refugos. Ou seja, é totalmente inadequado como complemento alimentar.

Entretanto, sua utilização tem fator econômico. Segundo a matéria a que assisti, o custo por cabeça de gado diário com farelo de trigo, milho e soja é de R$ 3. Utilizando-se a cama de frango - também chamada de "pé de cocho" - tal valor cai para R$ 1.

O econômico sendo colocado à frente da qualidade do alimento e das questões de saúde pública. Aliás, este não é um privilégio da pecuária, basta sabermos que boa parte da soja que consumimos, por exemplo, é de origem transgênica e contém grande percentual de defensivos agrícolas, em especial o famigerado glifosato.

Portanto, caro leitor, procure consumir produtos bovinos de origem certificada. Melhor ainda se forem orgânicos.

Um resumo da matéria do Globo Rural pode ser lido aqui.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A guerra surda dos agrotóxicos


A edição brasileira da "Le Monde Diplomatique" (ainda nas bancas) deste mês traz uma série de reportagens muito interessantes sobre a questão dos agrotóxicos no Brasil.

Entre o material, merece destaque a polêmica entre o Ministério da Agricultura e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a reavaliação de treze produtos já proibidos pela maior parte dos países mas ainda vendidos no Brasil. O objetivo é estimar os danos à saúde e possivelmente proibir a produção e a venda destes produtos no país. O resultado desta reavaliação deve estar disponível até o final do ano.

Lembro aos leitores que segundo dados da matéria o país é o maior consumidor destes produtos no mundo, com 780 mil toneladas e 16% do consumo mundial. O Brasil aumentou em 230% as importações de tais produtos entre 2000 e 2007, muitos destes com venda vetada em quase todo o restante do mundo.

O Ministério da Agricultura, comandado por um representante ruralista chamado Reinhold Stephanes, está fazendo grande pressão para que tal reavaliação não tenha seus resultados divulgados. O argumento é o de sempre: a "competitividade" da agricultura brasileira. Este chegou ao ponto de publicar uma portaria avocando para si tais análises, que entretanto não tem validade devido à Lei 7.802 de 1989 e ao decreto 4.074 de 2002, que dispõem sobre as atribuições da Anvisa e do Ministério do Meio Ambiente.

A bancada ruralista no Congresso, comandada pela Senadora Kátia Abreu - a mesma de uma curiosa "reforma agrária às avessas em Tocantins" e possível candidata a vice na chapa de José Serra - vem buscando alterar a legislação de forma a deter todo o controle sanitário sobre o registro, a produção e venda de agrotóxicos no país. Entretanto não parece que obterão sucesso, ao menos no curto prazo.

Desde 2002 a Anvisa vem buscando monitorar as quantidades de tais defensivos agrícolas presentes nos produtos à disposição do consumidor. 17,28% destas amostras indicavam níveis de contaminação acima dos permitidos a fim de se preservar a saúde do consumidor. Os produtos mais contaminados são o tomate, o morango e a alface. Outros produtos como a batata, o feijão e o repolho possuem traços de acefato, que causa câncer e danos no cérebro.

Não custa lembrar também a questão do frango, onde aproximadamente um terço em peso é formado de antibióticos e hormônios de crescimento. Há pesquisas que relacionam o aumento do consumo de frango à cada vez mais precoce menstruação nas meninas. Também coloque neste quadro a questão de aspersão de glifosato na lavouras de soja, cujas sementes transgênicas são modificadas geneticamente para necessitarem do defensivo.

Sem dúvida alguma, há uma dicotomia clara entre "a lei do mercado", que clama por lucro e produção a qualquer custo - mesmo que este seja representado em vidas e compensado por maiores gastos em hospitais - e por uma visão mais humanista da situação, onde a produção é possível sim mas sem agressão à vida humana. No fundo, é a velha história de que "o dinheiro pode tudo" ou a regulação de mercado que escrevi aqui alguns posts atrás.

Obviamente que não esgoto o tema aqui, mas chamo a atenção do leitor para que na medida do possível procure consumir produtos orgânicos. Diminui bastante o prejuízo à saúde à medida em que aumentamos a percentagem destes em nossa dieta.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O sol, a chuva e os frangos


Anteontem vendo o Jornal da Record me deparo com a notícia de que 80 mil frangos morreram de calor do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Isso mesmo, de calor.

Auxiliados por quedas duradouras de energia, que não permitiram o funcionamento dos sistemas de ventilação e refrigeração das granjas, as aves acabaram sucumbindo às temperaturas de mais de 40 graus verificadas nestas regiões do Sul do país. O prejuízo total estimado é de 250 mil reais, aproximadamente.

Outrossim, também na noite de terça choveu à noite pela primeira vez na cidade do Rio de Janeiro nos últimos quinze dias. Não me lembro de um verão tão seco aqui na cidade desde que me entendo por gente. Por outro lado, mesmo à noite a sensação térmica tem beirado os 35 graus. E olha que recebo onde moro o vento da baía...

Em São Paulo ocorrem mais de 40 dias de chuvas ininterruptas, com inundações diárias agravadas pela impermeabilização asfáltica do solo, pela falta de cobertura vegetal e a ocupação desenfreada das várzeas dos rios assoreados.

Sem dúvida alguma, vem ocorrendo situações bastante inusuais em termos de tempo. O forte calor leva à sobrecarga dos sistemas elétricos e, consequentemente ao apagão - e os pobres dos frangos pagaram o pato. Os aparelhos de ar-condicionados, geralmente dimensionados para uma temperatura menor por longos períodos que a apresentada nos últimos dias, ainda que ligados a toda potência demoram a dar vazão às necessidades de troca de calor requeridas pelas altíssimas temperaturas ambientes.

Outra consequência inusitada é o fato de o "chuveiro frio", dependendo do horário, estar com água mais quente do que a própria torneira aquecida. Você liga a água esperando se refrescar e sai quase que com uma queimadura.

Os jornais falam muito em aquecimento global, em emissões de carbono pelo homem e suas máquinas e nas consequências do desenvolvimento ao meio ambiente.

Por um lado há uma corrente da geologia que defende que não existe aquecimento global e que a ação do homem é insignificante perto da força geotérmica do planeta. Segundo estes a Terra estaria na verdade iniciando um processo de resfriamento, e os aconteceimentos atuais não significariam uma tendência. Outrossim já surgem soluções acessíveis de diminuir o efeito das emissões de carbono na atmosfera - um exemplo é o denominado "Cobertor de Budyko", sobre o qual escrevi na resenha do livro "Superfreaknomics".

Entretanto, não dá para negligenciar os efeitos da cada vez maior urbanização do país, que diminui as áreas verdes disponíveis e, como resultado, aumenta a sensação térmica. A falta de sombra e a reflexão dos raios solares no asfalto aumentam a retenção de calor e a sensação térmica. E os altos prédios dificultam a dissipação do ar quente, tendo o mesmo resultado.

Um melhor planejamento urbanístico das grandes cidades certamente tornaria menos penosos (literalmente) os efeitos das altas temperaturas. Com mais áreas verdes há menor retenção de calor e um melhor aproveitamento dos recursos de condicionamento artificial dos ambientes. O gasto de enrergia diminui e os riscos de um "apagão" se tornam menores - o que teria talvez poupado a vida das oitenta mil aves.

Para concluir, não poderia deixar de citar o mau planejamento energético da década de noventa, que está se refletindo agora. Como as granjas não possuem geradores, os animais não resistiram aos 42 graus de temperatura verificados nestas localidades sem o equipamento de ventilação dos ambientes.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Reforma Agrária às avessas em Tocantins: uma vergonha

A revista Carta Capital desta semana traz uma matéria bastante interessante sobre uma reforma agrária "feita ao avesso" em Tocantins.

Resumidamente, a história é a seguinte: em conluio com o Judiciário local, políticos do estado - capitaneados pelo então Governador Siqueira Campos e pela então presidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado de Tocantins, a hoje senadora Kátia Abreu - simplesmente desapropriaram terras ocupadas há décadas por pequenos proprietários familiares.

As terras 'desapropriadas' foram repassadas a políticos e juízes ao preço irrisório de R$ 8 o hectare. A maior beneficiada foi a hoje senadora Kátia Abreu, notabilizada no Congresso Nacional por sua defesa intransigente dos interesses ruralistas e latifundiários, bem como da monocultura de exportação e da cadeia para aqueles que defendem o direito democrático à terra.

Como resultado da desapropriação - que a matéria define como "grilagem de Estado" - substituiu-se a agricultura de subsistência pela monocultura de soja, com já comprovados danos ao meio ambiente. Desalojaram-se pequenos agricultores de suas terras obtidas legalmente para o benefício de uns poucos. A Senadora em questão foi a maior beneficiada pela manobra de desapropriação e posterior revenda das terras.

Ressalte-se que os agricultores desalojados possuíam títulos legais de propriedades, declarados nulos após uma manobra do Poder Judiciário local.

Este caso dá bem a medida de como as instituições ainda são frágeis no interior do país e de como impera a "lei do mais forte". Verdadeira "Terra de Marlboro".

Outra faceta que temos de ressaltar é o patrimonialismo das classes dirigentes, que enxergam o Estado como sua propriedade e estando a seu serviço. Ultimamente, o verdadeiro desprezo por aqueles que deveriam ser a razão de existir do Estado e da Justiça, tratados que são como espécies indesejáveis a seus propósitos. A intransigente defesa da "lei e da ordem" só serve quando atende a seus interesses; caso contrário, rasgue-se a lei. Juízes existem para isso.

Isso, sem contar nos danos ao meio ambiente causados pela cultura da soja.

Lamentável.

(Nas fotos, a hoje senadora Kátia Abreu e Siqueira Campos, ex-governador do Estado)