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terça-feira, 29 de maio de 2012

Resenha Literária - "Memórias de Uma Guerra Suja"


O leitor do Ouro de Tolo ficou longo tempo sem as resenhas literárias, mas esta semana teremos duas. O alvo de hoje é o impressionante "Memórias de Uma Guerra Suja", com o depoimento do ex-delegado do DOPS (Departamento de ordem Política e Social) Cláudio Guerra a Rogério Medeiros e Marcelo Netto.

Sobre os jornalistas: Medeiros é um dos autores do excelente "Onde na Corrupção veste Toga", sobre a corrupção no Judiciário do Espírito Santo, já resenhado neste Ouro de Tolo

Marcelo Netto, ao que parece, é uma espécie de militante de esquerda "arrependido". Em sua introdução ao livro escreve entre outras barbaridades que "foi bom o Exército ter ganho aquela guerra" e pede desculpas pelas denúncias envolvendo a Folha de São Paulo e a Globo no livro. Sinceramente, dispensável.

O livro em si é o relato das memórias do delegado (na foto) aos jornalistas, contando sua atuação na eliminação de inimigos do Regime Militar. Após se tornar pastor evangélico ele resolveu contar suas memórias e tudo o que ha via feito.

Guerra atuou como matador do regime, eliminando e ocultando corpos de adversários da ditadura. Depois foi um dos envolvidos nos atentados tramados pela extrema direita a fim de jogar a culpa nos adversários da ditadura e retardar o processo de abertura política - entre eles, o famoso caso do atentado mal sucedido no Riocentro, em 1981.

O delegado mostra com detalhes como alguns até hoje desaparecidos políticos pereceram e tiveram seus corpos desovados. Segundo Guerra a usina de açúcar Cambahyba, em Campos, teve seu forno utilizado para queimar pelo menos dez corpos de adversários do regime, cujos nomes são citados no livro.

O delegado também revela que há um segundo cemitério clandestino em Petrópolis, perto de uma casa onde funcionou um centro de tortura. Ele esclarece as circunstâncias da morte de diversos desaparecidos políticos no exemplar.

O leitor deve estar se perguntando como o nome do delegado jamais apareceu nas listas de torturadores da ditadura. Isto se explica por duas formas: primeiro pelo fato de sua função ser a de matar na engrenagem, e segundo por sua discrição.

As revelações sobre o destino dos desaparecidos políticos são extremamente importantes e ele a meu ver deveria ser um dos primeiros a depor na recém-instituída Comissão da Verdade, mas a meu ver muito mais importantes são as revelações sobre alguns episódios bastante nebulosos do período da redemocratização brasileira.

São descritos com riqueza de detalhes episódios como o do Riocentro, com a preparação do atentado, dos detalhes - inclusive que não haveria socorro às vítimas - e até porque uma das bombas explodiu no colo do militar: o carro parou embaixo de um cabo de alta tensão e acabou "fechando o circuito". Seriam três bombas, com muitas vítimas.

Guerra também esclarece a morte do delegado Sérgio Fleury, um dos maiores carniceiros da ditadura e que faleceu em 1979 em um acidente no mar bastante suspeito. Guerra conta que sua morte foi decidida em uma reunião realizada em restaurante paulista e que se deveu a ele estar querendo ganhar muito dinheiro sozinho, além de ser um "arquivo vivo" da ditadura. Ressalto que o atestado de óbito de Fleury foi assinado pelo médico de triste memória Henry Shibata, useiro e vezeiro em laudos forjados de vítimas da ditadura.

Outro ponto interessante do livro é como vários integrantes da comunidade de informações, notórios torturadores, se envolveram com o jogo do bicho carioca. Os responsáveis pela repressão, em especial do SNI, direcionaram integrantes da comunidade de informações para o bicho como uma espécie de compensação após a redemocratização.

Castor de Andrade tinha uma carteira do Cenimar (Centro de Informações da Marinha) e além do Capitão Guimarães, pelo menos dois presidentes de escolas cariocas são egressos deste momento. Um deles, inclusive, usa como apelido o seu codinome de torturador.

Também são revelações do livro atentados frustrados aos políticos Leonel Brizola e Fernando Gabeira, algo sobre o qual não se sabia. E elucida-se o assassinato de Alexandre Von Baumgarten, caso de grande repercussão em 1982.

Guerra conta sobre reuniões no restaurante "Angu do Gomes", no Rio de Janeiro, onde se reuniam não somente torturadores e matadores como os membros da "Scuderie Le Cocq", grupo de extermínio formado por policiais e que existia em diversos estados. Destas reuniões no restaurante, onde se planejavam ações, participavam atores como Jece Valadão e figuras proeminentes como José Oliveira de Bonifácio Sobrinho, o Boni.

Revela-se que o atentado a bomba na casa do dono da Globo Roberto Marinho, na verdade, foi forjado pelo próprio empresário a fim de diminuir a pressão sobre ele por parte de outros órgãos - ele era visto como "pró-ditadura". O delegado dá detalhes da ação e mostra que foi feito para não machucar ninguém. E a Folha de São Paulo prestou apoio logístico à tortura durante o Regime Militar.

Confirma-se também que os panfletos do PT encontrados no cativeiro do empresário Abílio Diniz foram plantados pelo mesmo pessoal, a fim de prejudicar a candidatura de Lula a Presidente em 1989 - o episódio foi às vésperas do segundo turno.

Não esgoto aqui as revelações do livro, mas sem dúvida alguma é um grande avanço na elucidação de vários episódios nebulosos de nossa ditadura. Questionou-se a veracidade do depoimento, mas os dados são bastante consistentes.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sobre a política carioca - IV


Retomando a série sobre a política carioca e as razões da guinada à direita dada pelo eleitorado, hoje analiso um assunto que a meu ver impactou bastante na opção de voto do carioca: a questão da segurança pública.

Após o final do Regime Militar a violência urbana vem aumentando crescentemente na cidade e no estado. O final do estado de exceção coincidiu com o início de uma organização rudimentar das quadrilhas de traficantes de drogas - inicialmente na "Falange Vermelha", depois transformada em "Comando Vermelho" e que gerou várias dissidências.

Esta forma de organização fez que o tráfico aumentasse o seu poder de fogo e concomitantemente seu poderio financeiro. As compras no atacado passaram a ser relativamente centralizadas, o que gerou ganhos de produtividade e maior margem de lucro.

Retornando no tempo vemos que a política de segurança do ex-governador Leonel Brizola focou em formar o cidadão das comunidades carentes através da educação, por um lado; por outro optou pelo trabalho de inteligência ao invés da política de extermínio adotada posteriormente.

Lembro aos leitores que o estado não produz armas nem drogas.

Porém, não podemos nos esquecer que a década de 80, chamada de "perdida", notabilizou-se por arrocho salarial, concentração de renda e aumento da pobreza. Muita gente que não tinha a necessária estrutura familiar acabou encontrando no crime a "saída" para este problema.

Minha avaliação é que, dada a conjuntura econômica nos vinte e três anos compreendidos entre 1980 e 2003 somada à profunda desagregação da família neste período levariam necessariamente a um aumento exponencial da violência urbana.

Entretanto, apoiada em uma campanha midiática absolutamente tonitruante - não podemos nos esquecer que o principal órgão de imprensa carioca era inimigo figadal de Brizola e, depois, do PT - a população colocou o aumento da violência urbana na conta de Brizola. Obviamente, isto se refletiu no movimento à direita do eleitorado.

Paralelamente certos políticos arrogaram-se representantes da "lei e da ordem" e defensores da solução de que "bandido bom é bandido morto" começaram a grassar no espectro político. Ainda que não conseguissem obter colocações de destaque no Poder Executivo sua pregação foi amplificada por programas populares na imprensa.

A "Política de Segurança" pregada e aplicada pela direita consiste basicamente em três pilares: assassinatos em massa, confinamento dos favelados dentro de seus "guetos" - afinal de contas, todo morador de comunidade é um bandido segundo esta vertente - e impunidade às ações policiais. O trabalho de investigação e inteligência foi praticamente abandonado.

Em um primeiro momento a população, crescentemente apavorada e alvo de campanha intensa de propaganda, apoiou entusiasticamente tais medidas. Ainda hoje parcelas expressivas do eleitorado consideram que "se é suspeito, deve ser devidamente assassinado sem direito a defesa". O primado da barbárie.

Obviamente, apesar de seu apelo eleitoral tal estratégia vem encontrando problemas. Segundo pesquisas recentes cerca de dois terços dos mortos pela Polícia Militar em supostos "confrontos" não possuem o menor envolvimento com o crime.

Outra questão é que com estes novos poderes outorgados os policiais, comandantes à frente, passaram a fazer "acertos" com quadrilhas e a extorquir o cidadão de tudo quanto é jeito. A ponto de existir um chefe de Polícia Civil que chefiava uma verdadeira quadrilha dentro do Estado há pouco tempo. Felizmente, pelo menos este se encontra preso.

Contudo mesmo com esta política de "enxugar gelo" claramente ineficiente tal discurso ainda rende um manancial de votos, em especial nas novas classes médias. É mais um fator que explica a guinada à direita do Rio de Janeiro.

Uma saída para a esquerda, penso, seria explicitar os malefícios da política adotada atualmente e apostar em soluções permanentes e definitivas para a questão. Educação e emprego são dois bons inícios de conversa neste caso.

A série, contudo, não se esgota aqui. Ainda voltarei ao tema.

terça-feira, 2 de março de 2010

Repercussão

De uma maneira que não esperava, o artigo sobre a política carioca que publiquei mais cedo alcançou uma repercussão que, absolutamente, não previa.

O jornalista Marco Aurélio Mello, do excelente "DoLadoDeLá" republicou o artigo na íntegra, para minha honra e alegria.

Por intermédio de um leitor o texto acabou alvo de debate no blog do líder do PDT na Câmara dos deputados, Brizola Neto. Este fez algumas considerações sobre o texto e jogou luzes sobre a atuação política do ex-governador do Rio de Janeiro - inclusive com diversos aspectos que, reconheço, desconhecia.

Com autorização dele, republico aqui com pequenas correções de forma a crítica ao texto, feita em seu blog "Tijolaço" - que eu não conhecia e recomendo vivamente uma visita. É um pequeno reconhecimento do qual muito me orgulho.

Vamos ao texto, lembrando que voltarei ao tema proximamente:

"Li o texto e achei que tem uma essência correta, embora não concorde com tudo, especialmente em relação ao primeiro governo, com o peso desta avaliação negativa, tanto que Darcy quase foi eleito não obstante a maré avassaladora do Plano Cruzado.

Quanto à critica sobre os tais expurgos, talvez falte ao Pedro a informação sobre a flexibilidade que Brizola teve com quase todos eles. Com Cesar, chegou a desculpar um encontro com Collor em plena campanha de 89. Um amigo me conta que , numa reunião do PDT, até tentou justificar isso dizendo que Cesar era uma espécie de “avião de reconhecimento”, que voava no território inimigo e voltava para dar informações.

Com Marcello, eleito por ele, pediu dúzias de vezes que ele abrisse espaço para uma pessoa combativa – e nada dócil a ele – como Cidinha Campos ser candidata. Marcello não aceitava nada senão um seu “homem de confiança”, Luiz Paulo, como candidato. E veja que Cesar e Marcello foram para a direita, onde foram imediatamente acolhidos no coração do conservadorismo.

Com Garotinho foi diferente. Brizola bancou sua candidatura em 1994, contra dois outros de seus secretários, Noel de Carvalho e Jorge Roberto da Silveira. Em 98, colocou seu próprio pescoço em jogo para assegurar a aliança com o PT que o elegeu aqui no Rio. Lembre-se de que, na ocasião, ser candidato a vice do Lula era para perder e ele já tinha 76 anos de idade. Fui testemunha do esforço físico dele, ali e em 2000, quando Garotinho deixou o PDT e foi apoiar Conde, o candidato de Cesar Maia.

Claro que Brizola, como todo líder que passou 50 anos na vida pública com uma causa, era turrão, às vezes. Mas posso, Pedro, testemunhar honestamente que ele nunca foi intransigente com quem agia com lealdade e sinceridade. Claro que é saber dirigir e estar no banco do carona. Toda hora você dá palpite e isso às vezes irrita o “palpitante” e o “palpitado”. Mas não é essa a razão essencial.

O problema, de que outro dia falei aqui, é que o tempo, os confortos da política e os afagos da mídia, sempre pronta a festejar quem brigava ou rompia com Brizola, levam as pessoas para a direita.

A vida de quem quer ser coerente politicamente, de quem tem causa, é uma vida difícil. A gente apanha de todos os lados, até de quem está junto de nós e quer, com justiça, um pouco mais de atenção e presença. Até em família isso ocorre. A gente aguenta porque tem o couro grosso e o coração grande. Grande abraço, e venha dar opinião quando e como quiser. Como dizem os gaúchos, “é no entrevero que morre gente”.