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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Resenha Literária - "A Privataria Tucana"

Arrasador. Insofismável.

Se fosse reduzir a poucas palavras este "A Privataria Tucana", do laureado (três Prêmios Esso, o mais importante do jornalismo brasileiro) Amaury Ribeiro Jr, as palavras seriam estas.

Fruto de dez anos de pesquisas do autor por cartórios, varas de Justiça, bancos e outras diversas fontes, o livro desnuda alguns bastidores das privatizações e mostra como as propinas resultantes do processo foram "lavadas" a fim de entrarem de forma legal - "ma non troppo" - no país.

Além disso, a obra mostra esquemas de lavagem de dinheiro utilizados pelos políticos tucanos - mas não só estes: políticos, empresários e criminosos utilizavam-se dos mesmos estratagemas. E mostra os esquemas de espionagem a aliados e adversários comandado pelo ex-candidato José Serra.

Em um terceiro momento, o autor revela alguns bastidores da última campanha presidencial, onde acabou no meio de um tiroteio envolvendo a campanha tucana e, ao mesmo tempo, uma luta de poder entre dois grupos de petistas - que quase desestabilizou a candidatura de Dilma Roussef e com direito a lamentáveis traições.

Como se não bastasse, ainda mostra a formação dos consórcios de privatização, revela alguns fatos sobre a venda - melhor seria dizer doação - da Vale do Rio Doce, mostra que a filha de José Serra quebrou o sigilo bancário de 60 milhões de brasileiros e explica o porquê da monumental pizza em que se transformou a CPMI do Banestado, produzida tanto por petistas quanto por tucanos.

Como o leitor pode ver somente pela introdução, nitroglicerina pura.

O processo de privatização no Brasil se pautou pela pouca transparência, pelo apoio entusiasmado da mídia - como escrevi em post recente - e pelo "abafa" de todas as tentativas de se investigar o processo. Olivro traz o mérito de jogar luz em muito do que ocorreu, chegando a rastrear algumas propinas pagas neste processo. Sempre cruzando documentos e estabelecendo relações, o autor faz um panorama bastante fiel - e assustador - do que houve no processo.

Como são muitos assuntos tratados, faço abaixo pequeno resumo de cada capítulo.

Capítulo 1 - "A História antes da História": Amaury conta o episódio onde levou um tiro em investigação sobre o assassinato em massa de menores no entorno de Brasília, o que o levou ao jornalismo político.

Capítulo 2 - "Briga de Foice no PSDB": a pedido do jornal "Estado de Minas", onde trabalhava, o autor preparou matéria que mostrava o esquema de "arapongagem" montado por Serra a fim de monitorar e acompanhar todos os passos de Aécio Neves, então governador de Minas e concorrente do governador paulista na postulação tucana à candidatura presidencial.

Tal guerra teve seu ápice em um artigo do Estado de São Paulo intitulado "Pó Pará, Governador", em clara intimidação ao governador mineiro. Nas investigações a pedido do Estado de Minas (ligado de forma xipófoga a Aécio) Amaury se concentra em operações de lavagem de dinheiro comandadas por Ricardo Sérgio de Oliveira, ligado a Serra, ex-caixa de campanha de Fernando Henrique e um dos personagens centrais do livro. Bem como do genro de Serra.

Capítulo 3 - "Com o Martelo na Mão e Uma Idéia na Cabeça": introduzindo a questão das privatizações, mostra-se o modelo utilizado - que nas palavras do autor "faria corar Margaret Thatcher". O capítulo faz um resumo das privatizações e mostra que estavam nos planos também a venda do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e a Petrobras.

Também demonstra-se que muitas vezes o Estado pagou para que empresas fossem vendidas, via empréstimos do BNDES, moedas podres e aumentos de tarifas da ordem de 500% na telefonia e 150% na energia elétrica.

Cita-se o episódio do Banerj, banco estatal do Rio de Janeiro, onde o governador tucano Marcello Alencar - de fama popular sedimentada como corrupto, embora incrivelmente jamais tenha se conseguido provar nada - pagou R$ 3,3 bilhões para vender o banco por R$ 165 milhões.

(Parêntese: foi em 95 que pela única vez fora de um regime ditatorial se fez intervenção em um sindicato por motivos políticos, no caso o dos petroleiros. O autor deste absurdo era o então advogado geral da União e hoje Ministro do STF Gilmar Mendes, o mesmo que concedeu dois habeas corpus a Daniel Dantas em 48 horas. Fecha o parêntese)

Capítulo 4 - "A Grande Lavanderia": aqui se mostram os paraísos fiscais no Caribe , em especial as Ilhas Virgens Britânicas. Lá ficava a "Citco", que era um instrumento de lavagem de dinheiro usado por tucanos de alta plumagem, o Presidente da CBF Ricardo Teixeira e Fernandinho Beira Mar, entre outros.

Capítulo 5 - "Aparece o Dinheiro da Propina": o tomo abre com a CPMI do Banestado, cuja agência em Nova York se tornou a maior lavanderia do mundo - R$ 30 bilhões lavados. A CPI acabou em uma monumental pizza, porque tanto tucanos quanto petistas tinham culpa no cartório e fizeram um "acordão".

Entretanto, ao ser processado por Ricardo Sérgio, o autor teve acesso aos documentos da CPI e aí conseguiu - de forma totalmente legal - documentos que mostram Ricardo Sérgio recebendo propina por ocasião da privatização da Telemar.

À época ele era diretor da área internacional do Banco do Brasil, mas era caixa de campanha de José Serra e Fernando Henrique Cardoso desde 1990.

Há ainda uma mal explicada história de uma doação feita por Carlos Jereissati - um dos posteriores compradores da Telemar - à campanha ao Senado de Serra em 1994. Ele doou R$ 2 milhões à campanha, mas somente R$ 95 mil apareceram na prestação de contas da campanha.

Outra informação impressionante: a Vale do Rio Doce foi vendida com suas reservas de minério de ferro, que podem abastecer o mundo por quatro séculos, valoradas como zero. Ou seja, a empresa foi privatizada como se não tivesse sequer mais um quilo de minério para extrair do solo.

Os capítulos 6 a 10 mostram de forma detalhada todo o esquema de lavagem de dinheiro utilizado por Ricardo Sérgio e por tucanos de alta plumagem. Chama a atenção a presença constante do primo de Serra, Gregorio Preciado, da filha Verônica e do genro nos esquemas de lavagem de dinheiro, através de diversos métodos.

Preciado também foi beneficiado com empréstimos do Banco do Brasil mesmo estando inadimplente com o banco, e teve uma redução de dívida de 90% concedida pela mesma instituição.

Do 11 ao 13 detalha-se o esquema de espionagem de José Serra - operacionalizado pelo ex-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro e ex-deputado federal Marcelo Itagiba - e as empresas "camaleão" utilizadas para internar dinheiro no país. Bem como a quebra do sigilo bancário de 60 milhões de brasileiros feita pela empresa da filha de Serra, em sociedade com a irmã de Daniel Dantas.

Nos três capítulos finais contam-se histórias das eleições de 2010, onde o autor ficou no meio de um tiroteio que envolvia o staff de Serra, a central de espionagem do candidato, a luta política do PT e o controverso episódio de indiciamento do autor - cuja explicação do episódio é bastante convincente, até porque as datas das eventuais quebras simplesmente não batem.

O livro elucida a questão do vazamento de declarações de renda de tucanos da agência de Mauá, feita pela própria estrutura de inteligência do PSDB a fim de incriminar os petistas e colocada na conta do autor. O argumento dele é insofismável: os dados que ele procurava não estavam em declarações de renda, e sua pesquisa abrangia período anterior aos das declarações vazadas.

Lamentável é a postura do presidente nacional do PT, Rui Falcão, que sabota de forma deliberada a campanha a fim de obter mais poder - a ponto de começar a vazar todos os passos da campanha para órgãos de imprensa engajados na campanha do PSDB, como a Veja e a Folha de São Paulo. Em português claro: traidor.

Estes órgãos, a propósito, saem bem chamuscados do livro, pois fica claro que atuavam no staff de Serra e muitas vezes distorciam matérias a fim de atender aos objetivos de campanha.

Resumindo, o livro mostra que a corrupção no Brasil não foi inventada pelo PT, embora haja muitos corruptos no partido. Tem o mérito de mostrar todas as falcatruas ocorridas durante a privatização, confirmando a impressão generalizada de que teria havido um assalto aos cofres da nação - e fazem Mensalão e assemelhados parecerem troco de bala nas Lojas Americanas.

Ainda mostra todos os esquemas de lavagem de dinheiro utilizados especialmente pelos tucanos, mas não somente por eles. E de forma didática, embora seja tema espinhoso, explica como funciona o processo.

Lembro também que Serra sai menor da leitura, pois fica claro que sua conduta para o público externo era uma e a realidade, totalmente diferente.

E algo importante: todos os fatos relatados estão calcados em documentos, obtidos de forma legal e disponíveis ao público. cerca de um terço do livro é de transcrição destes, com algumas descobertas bastante interessantes.

Independente da posição política do leitor, é leitura obrigatória. Nem que seja para desmascarar a hipocrisia de certos políticos e certos órgãos de imprensa que posam de vestais.

Na Saraiva, custa R$ 26,90. Indispensável.

Entretanto, tenho um presente para o leitor deste Ouro de Tolo: irei sortear dois exemplares do livro. Basta deixar nome, cidade e e-mail na área de comentários. Boa sorte!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Um passeio pelas declarações de bens dos candidatos


A estranheza constatada na declaração de bens entregue pelo Senador Aécio Neves ao Tribunal Superior Eleitoral, que constatei no post da última terça feira, me levou a fazer um "passeio" pelas declarações de bens entregues pelos candidatos nas últimas eleições.

Optei por fazer um levantamento por amostragem, envolvendo apenas políticos cariocas - precisava restringir o escopo de análise. Como já esperava, encontrei algumas coisas incoerentes e outras no mínimo inusuais.

Coloco aqui alguns casos que optei por verificar. Mas o leitor pode e deve aprofundar a análise. O espaço deste Ouro de Tolo está aberto.

Começamos pelo Governador Sérgio Cabral. Ele declara ter cerca de R$ 850 mil em bens entre imóveis, veículo e aplicações financeiras. Causou-me estranheza não haver nenhum imóvel na cidade do Rio de Janeiro registrado em seu nome, bem como a avaliação em apenas R$ 200 mil de um sítio em Mangaratiba - que estimativas de corretores indicam valer pelo menos R$ 1 milhão. Salvo aplicações financeiras, apenas este sítio e um veículo Toyota Corolla estão em seu nome.

O vice governador Luiz Fernando "Pezão" declara R$ 271 mil em bens, sendo R$ 102 mil em aplicações financeiras e um imóvel na Barra da Tijuca com valor declarado de R$ 168 mil. Não é um caso tão gritante quanto o da cobertura da Lagoa do Senador Mineiro, mas também é algo claramente abaixo do valor de mercado. O vice governador não informou a pose de veículos ou outras propriedades em seu nome.

Senador eleito, Lindbergh Farias (PT) declara apenas três terrenos no estado da Paraíba e cerca de R$ 20 mil em dinheiro, totalizando R$ 195 mil em bens. Não há registro de imóveis nem veículos no Rio de Janeiro, o que causa certa dúvida.

O segundo senador eleito, Marcello Crivella (PRB), declara R$ 739 mil em bens, sendo R$ 602 mil referentes a apartamento adquirido de forma financiada em Jacarepaguá. Somente por este último imóvel percebe-se que há algo estranho nas declarações de valores do Senador Aécio Neves e do vice governador Pezão.

Sendo Bispo licenciado da Igreja Universal, é possível que o senador usufrua de bens registrados em nome da Igreja, em que pese haver um veículo Nissan Sentra registrado em seu nome.

O deputado federal Anthony Garotinho (PR), ex-governador entre 1998 e 2002 declara um patrimônio de R$ 80 mil. Ele declara um terreno em São João da Barra (R$ 2 mil), um apartamento de R$ 45 mil em Campos e cotas de duas empresas. Sinceramente, os sinais externos do atual deputado não são os de um homem que tenha patrimônio de apenas R$ 80 mil, sem imóveis na cidade do Rio de janeiro, nem carros, nem valores aplicados.O padrão de vida aparente do ex-governador não é o de um homem que tenha apenas estes bens em seu nome.

Outro deputado federal, Édson Santos (PT) tem registrados R$ 79 mil em bens: um Toyota Corolla e R$ 21 mil em conta corrente. Não há registro de imóveis em seu nome.

Leonardo Picciani (PMDB), filho do ex-czar do estado, "mago das finanças" e candidato derrotado ao Senado Jorge Picciani tem R$ 1,4 milhão em bens declarados, entre eles um apartamento na Av. Sernambetiba avaliado pelo político em R$ 320 mil (vale bem mais, mas pode ter sido declarado pelo chamado "valor venal"), cotas de empresas e um dado que me chamou atenção: um veículo Chevrolet Captiva avaliado em apenas R$ 21 mil - o carro, uma "SUV", custa novo cerca de R$ 120 mil.

Também federal, o presidente do DEM e filho do ex-prefeito Cesar Maia Rodrigo Maia declarou R$ 654 mil, referentes a três imóveis. Todos eles foram avaliados por valores bem abaixo do mercado, mas não se pode afirmar com certeza se é o mesmo caso de avaliação pelo "valor venal".

Chico Alencar (PSOL) declarou R$ 222 mil, basicamente um terreno em São Paulo, imóvel no Rio de Janeiro e veículo Peugeot 206. Não tenho como avaliar se os valores do terreno e da casa (esta última não tem o bairro informado) estão coerentes, mas a declaração de bens é compatível com o tempo de mandatos parlamentares exercido pelo deputado.

O para lá de polêmico Eduardo Cunha (PMDB), envolvido em diversos momentos nebulosos dos últimos anos, declara R$ 1,5 milhão em bens. São três carros, duas salas comerciais e empresas. Não constam quaisquer imóveis residenciais no nome do político, e ao que me parece este patrimônio declarado está bastante aquém dos sinais de riqueza demonstrados pelo parlamentar.

O parlamentar que recebeu meu voto, Brizola Neto (PDT), tem R$ 130 mil em bens, basicamente valores em uma conta bancária em Montevidéu e um automóvel Tucson. Não foram declarados imóveis em seu nome.

Paulo Melo (PMDB), deputado estadual e tido como uma das "eminências pardas" do estado informa patrimônio de R$ 3,4 milhões, concentrados especialmente em imóveis na região de Saquarema. Chama a atenção, além de seu tempo na política e do patrimônio amealhados 111 bois declarados pela bagatela de R$ 46 mil, claramente sub avaliados a partir de pesquisas que fiz.

Domingos Brazão (PMDB), outro político influente no Governo do Estado informa R$ 5 milhões ao TSE. Seu patrimônio é composto basicamente por imóveis e postos de gasolina, e pelo menos estes últimos aparecem visivelmente com valores bem abaixo dos reais. Pelo menos dois dos imóveis declarados, na Avenida Ernani Cardoso e na Rua Piauí são informados com valores risíveis.

Ainda que alto, estes R$ 5 milhões me parecem claramente avaliados bem abaixo do real.

Dionísio Lins (PP), homem notadamente rico, que tem centros sociais em seu nome e auxilia escolas de samba no carnaval declarou apenas R$ 585 mil em bens, basicamente imóveis. Não aparece qualquer menção a empresas de ônibus, das quais o político já foi, ou é, dono. Das que pesquisei, foi outra que me surpreendeu bastante.

Marcos Abrahão (PT do B), já deputado, acusado de assassinato político, simplesmente declarou não possuir nenhum bem em seu nome. É...

Fico longe de esgotar aqui a pesquisa. Se fosse olhar os 46 deputados federais e 70 estaduais eleitos já teria assunto para uns quinze dias de blog. Mas somente nesta amostra aleatória fica claro que muito do que vemos em nosso dia a dia não corresponde ao que é informado na declaração de bens.

Também fica claro que há problemas na avaliação de imóveis para fins de informes, com alguns casos que saltam aos olhos claramente. Cabe à sociedade pesquisar, divulgar e analisar os dados, que são públicos - podem ser visualizados aqui.

Sem dúvida alguma, é uma boa diversão para o cidadão neste feriado.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Democracia, xenofobia e eleições


Um dos efeitos mais detestáveis do resultado das eleições foi o aparecimento de algo que estava encoberto e que floresceu de maneira incontestável após a proclamação do resultado final: um ódio de classe beirando a xenofobia.

A imagem acima é um exemplo claro do que digo: eleitores de Serra, revoltados no Twitter, colocando a "culpa" pela derrota do candidato tucano nesta "gentalha" que vive no Nordeste, "bando de vagabundos que só recebem Bolsa Família".

O clima de intolerância a que assistiu de forma gratuita tem a ver com o sentimento de exclusividade de classe - como escrevi antes mesmo das eleições - e com outra questão que é clássica na elite brasileira: democracia é bom, desde que meu candidato sempre ganhe.

Com a vitória de Dilma Roussef, explodiu a revolta pela derrota - que não deveria ocorrer, afinal de contas este povo é o "escolhido" - e logo se achou um bode expiatório para o resultado: a brava gente do Nordeste. Sentimentos difusos, com origem especialmente em São Paulo, revelaram-se com toda força.

No pensamento desta elite clássica, em especial a paulista, eles trabalham para sustentar vagabundos nordestinos que são parasitas e merecem a morte - afogados, como o internauta denunciado acima sugere. Esta classe se acha explorada, pensa que estando bem o restante pode estar perfeitamente morto e que estas pessoas são "ignorantes" - ou seja, não podem votar.

É um outro lado da história que escrevi aqui, que muitos moradores dos bairros de classe média alta reclamavam que "tinham de pagar um salário maior para suas empregadas pois senão elas arrumavam outro emprego". É uma característica mesquinha, egoísta e perversa que sempre houve, mas que se encontra explicitada de uma forma nunca antes vista.

Cabe lembrar também o papel de setores da grande imprensa, que ao invés de aceitar a derrota de seu candidato procuraram desqualificar a grande vitória da candidata petista e iniciar, desde já, uma campanha se possível de impeachment ou, caso não seja possível, do candidato oposicionista em 2014.

Com esta postura de setores da imprensa, manifestações xenófobas, separatistas, fascistas e excludentes se sentiram respaldadas e descontaram nos nordestinos - e, em menor escala, nos nortistas - a frustração pela derrota de seu candidato - que devolveria o Brasil aos "áureos tempos da senzala".

Lembro aos leitores que, ainda que apartássemos o Nordeste da votação presidencial, Dilma Roussef venceria o pleito com pouco mais de um milhão e trezentos mil votos de diferença. No somatório do Sudeste a candidata petista foi a vencedora, devido à expressiva votação no Rio de Janeiro e em Minas Gerais - e mesmo a vitória de Serra em São Paulo foi bem aquém da que era prevista por seus analistas. Os recalcados elitistas deveriam reclamar de Aécio Neves pela derrota de seu candidato, não dos brasileiros do norte...

Também discordo daqueles que acusam o Presidente Lula de ter "dividido o país". Quem apelou para o ódio de classe, para o repúdio às diferenças, para o "nós contra eles" foi a campanha serrista. Quem se utilizou do extremismo religioso e da desqualificação dos que pensavam diferente foi Serra.

E, de mais a mais, Serra venceu nos estados da agroindústria monocultora e em São Paulo, onde foi governador.

Entretanto, penso que este episódio das eleições apenas explicitou algo que venho observando há tempos e que escrevi aqui anteriormente: existe um sentimento por parte da velha elite de que "os bárbaros estão chegando perto da gente" através da ascensão social possibilitada pelo crescimento da economia, do emprego e da renda.

Este fenômeno atinge no âmago do que é mais precioso para esta classe, o sentimento de "exclusividade", de "escolhido". Então apela-se para a irracionalidade, com teorias fascistas e até racistas. No fundo, a velha busca e manutenção de privilégios, nem sempre justos.

Na verdade, nossa sociedade cada vez mais tem ódio à diferença, à diversidade, a opiniões divergentes. Vive-se um "bovinismo" e um sentimento de egoísmo a cada dia maior. A sociedade brasileira que emergiu das urnas é conservadora e, muitas vezes, perversa.

Concluo aproveitando para dar um viva à brava gente nordestina, que com seu trabalho de sol a sol engrandece o país e ajuda a construir este Brasil que cada vez mais se afirma no cenário mundial. E repudiar profundamente estas lamentáveis demonstrações de xenofobia e ódio de classe.

Espero que o Judiciário brasileiro, tão injusto, possa infligir a punição necessária a estes indivíduos que manifestaram publicamente este tipo de opinião. Entretanto, não acredito. Abaixo temos várias provas que devem e precisam ser levadas à Justiça.




segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Uma análise dos resultados


Os números acima indicam praticamente a totalidade de votos para presidente, em posicionamento da meia noite de hoje. São números que merecem uma análise mais detalhada.

Ao contrário do que muita gente está espalhando, não foi somente o Nordeste que garantiu a eleição à presidência de Dilma Rousseff. Basta ver que no Sudeste ela também foi a vencedora, com vitórias expressivas no Rio de Janeiro e Minas Gerais, praticamente empatado no Espírito Santo - a diferença pró-Serra foi de pouco mais de 1% - e com uma derrota em São Paulo que foi menor que que as pesquisas previam, aproximadamente 10%. Claramente a abstenção trabalhou contra o candidato tucano, pois no Rio, em São Paulo e no Paraná o número foi maior que o normal.

Também fica claro que o ex-governador e senador eleito por Minas Gerais Aécio Neves não moveu uma palha por José Serra em seu estado. Dilma venceu com 16 pontos percentuais de diferença e o ex-governador, paradoxalmente, sai como um dos vencedores deste segundo turno.

Aécio tem todas as condições para se cacifar como o principal líder de uma oposição moderada, trazendo para a centro direita o que o comando paulista do PSDB levou para a posição extrema. Ele se credencia como o principal adversário do PT nas eleições presidenciais de 2014, pelo menos em um primeiro momento.

Serra e Fernando Henrique Cardoso, teoricamente, estariam aposentados, mas o discurso do derrotado José Serra na noite de ontem deixa claro que a ala paulista do tucanato ainda irá disputar o controle do partido. Neste quadro, passa a ser factível a saída do ex-governador mineiro do partido para fundar outra legenda, de forma a separar a oposição moderada da extremista.

É alvissareiro, também, o fato de que vários dos líderes da corrente oposicionista raivosa estarem sem mandato a partir de janeiro, de maneira que diminui bastante a sua influência na política nacional.

No lado governista, a presidente eleita terá de acomodar os interesses do PMDB, que de apoiador do Governo Lula passa a sócio do próximo mandato. Michel Temer, vice-presidente eleito, é uma raposa política e certamente irá se posicionar no governo a fim de influir decisivamente, mesmo sem sair das sombras.

Por outro lado, compôs-se uma maioria tanto no Senado como na Câmara que permitirá uma menor margem de barganha, bem como a aprovação de emendas à Constituição com maior facilidade. Dilma já colocou como prioridade a aprovação do novo marco regulatório do petróleo, pois a lei do fundo social irá dar fôlego  ao governo a fim de incrementar os investimentos na saúde e educação.

Também deve se notar o fato de que Dilma foi derrotada em todos os estados onde a agroindústria é dominante, de maneira que algum tipo de medida deve ser tomado a fim de contentar esta parcela da economia. Então recaímos em uma grave questão.

A equipe econômica que for entronizada terá de atacar como prioridade máxima a questão do câmbio sobrevalorizado, que vem prejudicando a performance não somente da indústria quanto da agricultura. Com um rendimento menor em reais, a competitividade das exportações diminui e isto impacta o balanço em transações correntes. Um bom caminho para se reduzir a apreciação do câmbio seria reduzir a taxa de juros reais a níveis mais próximos aos internacionais, de forma a reduzir a entrada de capitais estrangeiros de curto prazo - que valorizam a moeda.

Complementando, não podemos deixar de registrar que a velha mídia é uma das grandes derrotadas desta eleição presidencial, em especial a Rede Globo de Televisão. Os números finais mostraram que o eleitor não se influencia mais da mesma forma pela televisão e pelos jornais, em que pese a campanha escancarada que tais setores fizeram pelo candidato derrotado. Entretanto, faz-se mister algum tipo de regulamentação a fim de separar claramente o que é notícia do que é opinião.

Por outro lado, o Presidente Lula sai como vencedor, a partir do momento em que a sua candidata impôs-se como vencedora do pleito. E, mesmo em caso de eventual fracasso de sua sucessora, ele pode retornar em 2014 como um candidato praticamente imbatível - uma espécie de Getúlio Vargas do Século XXI.

Durante a semana detalharemos estas análises.


domingo, 31 de outubro de 2010

E Viva Dilma !



Temos um novo mandatário da nação. Ou melhor, uma nova mandatária: Dilma Rousseff, a primeira mulher Presidente do Brasil.

Minha avaliação preliminar é de que ela se elegeu devido a três fatores principais:

O primeiro é o bom desempenho da economia, em especial do emprego e da renda, durante o Governo Lula. Os números são insofismáveis e a matéria da "Isto É" desta semana mostrou bem isso.

Segundo, a atenção para as ações sociais. Pela primeira vez em muitos anos tivemos um governo que olhou um pouco pelos mais pobres, não somente dando condições de que os mais pobres saíssem da miséria como permitindo a milhões de brasileiros ascender socialmente. Como eu havia dito lá atrás, o povo votou com o bolso.

Terceiro, e não menos importante, a população disse não a um projeto excludente de poder e que pregava a volta a um modelo onde se governava para 20 milhões de pessoas. A guinada da campanha do PSDB à extrema direita assustou muitos de seus eleitores tradicionais, que optaram por viajar ou votar nulo.

Também ressalto o fato de que, hoje, o povo brasileiro decidiu que a renda do pré-sal será internalizada e apropriada pelo país, propiciando um fantástico arsenal de recursos para serem investidos em educação, saúde e desenvolvimento nacional.

No próximo texto farei uma análise sobre estes resultados eleitorais, mas queria saudar a nossa nova presidente e expressar minha satisfação com a continuidade do projeto de poder instituído no Brasil desde 2003. Seja bem vinda !

Espero, também, que estes resultados demonstrem à nossa elite que qualquer projeto de desenvolvimento excludente não terá mais vez em nosso país. Egoísmos, preconceitos e coisas correlatas precisam ser abandonados.

Menor, sem dúvida, mas digno de registro: este humilde blog dobrou seu número de acessos únicos neste período. Fruto de um trabalho sério e que procurou, na medida de seu alcance, emitir opinião ocm embasamento.

Parabéns, presidente !



Um Balanço da Campanha


Domingo, segundo turno das eleições presidenciais. Hoje os brasileiros estão indo às urnas para escolher no segundo turno de votação o Presidente da República - e em alguns estados, os governadores - para o quadriênio 2011/2014. Todas as pesquisas indicam a eleição da candidata situacionista, Dilma Roussef, por uma margem razoavelmente confortável.

O escolhido terá, entre as atribuições pertinentes ao cargo, o direito de estar nos holofotes mundiais durante a Copa do Mundo de 2014 e comandar um país que está em muito melhor situação que na última troca de comando, ocorrida em 2002. Claramente houve melhora dos indicadores econômicos e sociais, e o eleito receberá um país que, à exceção do câmbio valorizado (falarei sobre o assunto proximamente), não possui grandes problemas de conjuntura econômica.

Ao contrário da opinião que publiquei ontem na coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro, acho que esta campanha fratricida irá deixar marcas profundas não somente na população como no jogo político e midiático.

Poderia resumir a campanha na imagem acima: Serra, que nunca foi um religioso ou sequer perto disso, rezando contrito em Canindé, no Ceará - onde, aliás, foi duramente questionado pelo bispo local. Foi a campanha onde por fundamentalismos religiosos regredimos no debate de questões absolutamente pertinentes e que, concordando-se ou não, precisam ficar na esfera do laicismo e das políticas públicas.

Também foi um período pré-eleitoral onde a mentira e o jogo sujo tiveram lugar de destaque. Não se debateram propostas de campanha, mas sim quem era mais 'religioso', mais ou menos corrupto ou a cantilena do candidato de oposição espalhar boatos apócrifos, absurdos e mentirosos e a candidata governista tendo de se defender.

O pouco que se debateu de propostas, verificou-se que a oposição possui um discurso demagógico e eleitoreiro, baseado em promessas que escondem os seus reais propósitos de governo - o caso do petróleo deixou bem claro isso.

Outro ponto a realçar é a volta à cena política, com força, de grupos de extrema direita que se supunham enterrados desde a redemocratização. Esta guinada à direita dada pelo candidato tucano acabou por se revelar contraproducente, pois muitos eleitores moderados e tradicionais do PSDB estão dizendo que votarão nulo ou não votarão por causa desta aproximação do candidato com o que há de mais reacionário e conservador na política nacional. São grupos elitistas, excludentes, racistas muitas vezes e que, se pudessem, queimariam todas as favelas com os moradores dentro.

Chama a atenção a aliança também travada com setores radicais religiosos, como citado acima. Como escrevi duas semanas atrás, em caso de vitória da oposição podem-se esperar medidas de restrição tanto à liberdade religiosa quanto ao caráter laico do Estado.

Ainda como escrito anteriormente, um mal disfarçado preconceito de classe ressurgiu de forma aberta nesta eleição. O mito de que o Brasil "é um país cordial" caiu por terra. A velha elite mostrou a sua cara, excludente, egoísta e perversa.

Cabe um capítulo especial para o papel da grande imprensa. Como dizia o ex-Senador Jarbas Passarinho, ela "jogou às favas os escrúpulos de consciência" e mergulhou de cabeça na campanha, não hesitando em manipular, distorcer e tentar moldar o voto e a cabeça dos cidadãos em nome de interesses inconfessáveis. Órgãos como as Organizações Globo, a Editora Abril e a Folha de São Paulo comportaram-se como verdadeiros partidos políticos, vendendo, cada vez mais, opinião "travestida" de notícia.

Por outro lado, esta manipulação grosseira dos fatos possibilitou o surgimento de novos veículos, novas mídias; os blogs e a internet acabaram exercendo uma espécie de "papel regulador" à grande imprensa. Entretanto, algum tipo de regulamentação para discernir o que é informação e o que é opinião precisa ser estabelecido, o mais rápido possível.

Parêntesis para saudar a Rede Record, que com seu "Jornal da Record" - abaixo, foto da equipe - ocupou um espaço vago no espectro jornalístico, com pluralismo de opiniões e noticiário investigativo. Não deixa de ser uma das grandes vencedoras do processo, e é irônico quando se sabe que a rede de televisão pertence à Igreja Universal. Irônico sim, mas salutar e necessário como alternativa ao golpismo global.


(Foto: Marco Aurélio Mello, o quinto da esquerda para a direita, "DoLadoDeLá)

A tática eleitoral de dividir e confundir o país a fim de vencer as eleições - já que, objetivamente, ele não teria  a menor chance - do candidato tucano não parece ter dado resultado de acordo com as pesquisas, mas já se fala em tentativa de golpe de Estado via Judiciário. Sabe-se que há um recurso pronto por parte do PSDB buscando a não diplomação de Dilma Roussef em caso de vitória e sua desclassificação, o que pode desestabilizar ainda mais o país.

A propósito, não posso deixar de comentar o parcialismo do Poder Judiciário, que deveria ser o árbitro das eleições, mas reforçou as evidências de que está "aparelhado" por parte da oposição.

Dilma Roussef, em caso de vitória, terá de conter as pressões midiáticas e restabelecer o equilíbrio político do país. Conter a fome de cargos do PMDB e aprofundar as políticas reformistas do Presidente Lula. Menos mal que ela possui maioria folgada nas duas casas do Congresso e isso deve dar alguma tranquilidade pelo menos no primeiro quarto de mandato.

A sociedade brasileira sai como derrotada deste processo. Vieram à tona o ódio, o ressentimento, o preconceito de classe e religioso e uma profunda divisão. São cicatrizes que demorarão a se fechar.

Acredito que o clima de campanha eleitoral irá se estender pelo ano de 2011, e esperemos as consequências. Uma campanha golpista como a que observamos este ano, a meu ver, não está descartada. Acho até bem possível.

Em tempo: espero que as eleições de hoje signifiquem a aposentadoria de sujeitos como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e ourtros menos votados.

Em tempo 2: não que eu o ache uma sumidade, mas tenho esperança de surgir uma oposição renovada e mais moderada representada pelo ex-governador de Minas Aécio Neves.


sábado, 30 de outubro de 2010

Sobretudo: "A Dupla Face de Serra"


Segundo turno, e nosso colunista Affonso Romero nos brinda com mais um excelente texto sobre o tema. Desta vez, sobre as opiniões, propostas e estilo de vida contraditórios do candidato tucano.

Leia, reflita, repercuta.

A Dupla Face de Serra

A eleição aproxima-se de sua reta final com a corrida às urnas pelo segundo turno, segundo turno este que envolve três candidatos. Não, caro leitor, o colunista aqui não enlouqueceu, nem está tão embebedado de paixão cívica  - ou de uma boa cerveja - que tenha passado a enxergar dobrado. Tampouco ainda estou contando com Marina Silva como um elemento de desequilíbrio na disputa.

Marina deixou-se ser um ponto neutro no segundo turno. Em suas aparições públicas, preferiu esquivar-se da escolha direta, pacificou as correntes opostas de sua base aliada e colocou-se à vontade para mostrar-se crítica à forma equivocada com que os partidos majoritários vêm conduzindo a coisa pública e o processo eleitoral. Novamente, ponto para ela, que deu largos passos em sua corrida para o futuro. Insinuou sua preferência pessoal (pró-PT), esvaziou a importância política disso e virou de vez uma figura nacional. Trabalho perfeito, reconheça-se.

Ainda assim, sobram três postulantes. Pode-se supor que o terceiro candidato que eu enxergo é Lula. Poderia ser. Mas Lula não é candidato agora. Lula é outro que mira o futuro, já sem tanta urgência ou ambição de iniciante, mas com a incerteza tranqüila dos vencedores que vislumbram novas possibilidades de recomeçar novo ciclo.

O terceiro elemento está aí, na cara de todos. O terceiro candidato se chama José Serra. Como assim?

O Serra que aparece em segundo lugar nas pesquisas de até a véspera do pleito, na verdade, reúne a soma das intenções de voto em dois candidatos José Serra. De forma diametralmente oposta ao que diz, o maior mérito político de Serra não é ter apenas uma cara; não, Serra consegue ter o talento político de caber bem, simultaneamente, em posições contrárias, mesmo antagônicas. No mínimo, Serra são dois. José Serra é um candidato dupla-face (senão, multifacetado). Vejamos, pois.

O PSDB apresentou seu candidato como sendo um homem íntegro, cuja vida pública pregressa seria completamente limpa e inquestionável. Acontece que nenhum dos partidos políticos brasileiros – nenhum deles – pode-se colocar numa redoma na qual nunca haja pingado nenhuma lama. Era necessário diferenciar Serra da corrupção que teria caracterizado o PT no exercício de poder. Mas Serra foi Governador de São Paulo, Ministro da Saúde e do Planejamento de FHC e é cacique político de um partido que, afinal, é presidido por Sergio Guerra, um ex-anão do orçamento. Difícil manter uma biografia sem respingos neste atoleiro.

Não há, objetivamente, acusações diretas pendentes contra Serra. Da mesma forma, não há suspeitas diretas sobre Dilma ou sobre Lula. O que há é a suposição, tão lembrada por Serra ao longo da campanha que, quem abriga um bandido na sala ao lado, ou é conivente com a roubalheira, ou é inepto para administrar, por ser incapaz de perceber o que acontece à sua volta. Em teoria, faz sentido. Mas não é tão simples assim administrar um gabinete de Ministros, um Ministério, um Governo de Estado ou País ou um partido político. E como Serra passou por experiências administrativas similares e a gestão pública no Brasil simplesmente permite abusos de prepostos. Portanto, Serra não seria capaz de manter a imagem pura até o final da corrida presidencial. E foi o que ocorreu.

Serra viu-se tão ou mais envolvido com a perigosa proximidade de Paulo Preto (fiscal e pagador das principais obras de seu Governo em São Paulo, arrecadador de campanha do seu partido) quanto a imagem de Dilma foi arranhada pelas estripolias de Erenice Guerra. É a mesma situação, pelo menos até que uma ou outra investigação aponte de maneira diversa. Muitas outras situações embaraçosas para a biografia de José Serra foram lembradas: caso Alston, Sanguessugas, privataria etc.

Como Serra não se colocou claramente como o oposto político de Dilma, mas construiu sua campanha como o avesso ético da adversária, suas possibilidades começaram a ruir assim que a imprensa se mostrou um pouco menos parcial que o combinado. E foi então que Serra se viu desconstruído em meio à travessia. O resto de suas contradições foram sendo expostas uma a uma, desdobramento após desdobramento de seu discurso.

Veio o MetrôGate e o antes implacável candidato que exigia investigações sobre todos os pseudo-escândalos que envolviam a adversária mostrou que também pode ser leniente com falcatruas ao tentar retirar do caso a devida importância e dizer que “o PT inventa” contra ele, quando as acusações tinham partido da então adesista Folha de São Paulo.

Gente como eu, chata e de memória menos fraca que a maioria do eleitorado, começou a buscar em cada faceta da imagem construída de José Serra o oposto que transborda de dentro da alma do candidato tucano. Não é um trabalho difícil.

Serra posiciona-se como contrário ao uso da máquina pública na campanha eleitoral. Mas ficou claro que o funcionalismo direto ou indireto de São Paulo foi todo mobilizado a favor de sua candidatura, como já havia sido mobilizado a favor de Alckmin no primeiro turno. Funcionários chegaram a ser deslocados de seus locais de trabalho para prestigiar inaugurações e atos do tucanato. Pessoas em cargos de confiança se afastaram durante semanas de suas tarefas cotidianas para dar suporte à candidatura.

Serra viu pesquisada toda a sua vida de suposto bom administrador. Viu levantados casos que expunham sua fragilidade tanto como Ministro quanto como administrador da capital e do Estado paulistas.

Serra chega ao dia do pleito sem ter uma posição claramente definida quanto às privatizações. Acusa o PT de ter privatizado o pré-sal quando o Governo Lula apenas tem aplicado as regras de exploração criadas à época em que Serra fora responsável pelo Ministério do Planejamento de FHC, até que novas regras sejam votadas pelo Congresso. O candidato que hoje diz-se contrário a novas privatizações foi o responsável pelo controverso processo privatista do PSDB (mais criticado pela forma do que pela iniciativa em si) e não convence nem seus próprios eleitores de que não seja privatista. Mas é como anti-privatista que declara-se ao eleitorado.

Serra tentou fazer do segundo turno um anacrônico e inapropriado plebiscito sobre o aborto. Viu-se constrangido pela vida privada de sua família ter sido exposta por uma ex-aluna de sua esposa e parecer cínico quanto ao tema. Posou de carola, quando sabe-se que, antes da campanha, nunca foi visto em igrejas ou templos.

Apresenta-se como o “pai dos genéricos”, omitindo que, como Ministro da Saúde, apenas implantou um projeto apresentado e aprovado no Congresso por um deputado do PT. Se isso faz de Serra responsável pelos genéricos, não é justo que ele se esqueça que foi no mesmo Ministério, e atendendo à necessidade de implantação de outra Lei aprovada pelo Congresso, foi ele quem regulamentou o aborto no Brasil. Portanto, do nada ao muito, Serra é tão “pai” dos genéricos quanto o é do aborto. As situações foram idênticas.

Serra começou a campanha apresentando-se como o melhor possível continuador do Governo Lula e fez uma guinada ao voltar a bater duro neste mesmo Governo.

Serra diz-se a favor dos programas sociais oficiais, principalmente quando advoga para FHC a autoria dos mesmos. Não convence ninguém disso e ainda fica no meio do caminho entre reconhecer a eficiência dessa política no Governo Lula e aderir à insensibilidade social de seus partidos aliados e alguns de seus eleitores.

Serra posicionou-se a favor da liberdade de imprensa, mas mostrou-se destemperado toda vez que foi incomodado por perguntas difíceis, viu-se envolvido em pedidos de demissões de jornalistas e acabou por reclamar publicamente da imprensa, o mesmo que havia criticado em Lula.

Posicionou-se contra o chamado Mensalão do PT. Mas esqueceu que foi beneficiário político do Mensalão de Eduardo Azeredo-PSDB que garantiu a reeleição de FHC. Ou que, em sua primeira opção para a composição de chapa, convidou José Roberto Arruda, logo depois envolvido no Mensalão do DEM-DF (além de também já ter sido envolvido com os anões do orçamento).

Serra viu-se desmascarado por ter assinado compromissos que descumpriu, como o documento em que garantia concluir o mandato de Prefeito. Serra jamais foi até o final em qualquer coisa que tenha se proposto a fazer na vida.

Coloca-se a favor dos investimentos em educação, mas é responsável pelos piores resultados do ensino público do Estado de São Paulo, pela descontinuidade no Programa de Escola Integral de seu próprio partido, por anos de congelamento de salário dos professores do Estado.

Coloca-se como o candidato mais preparado e é obrigado a ver na internet um vídeo em que erra uma conta simples de divisão ao tentar dar uma aula para alunos do Ensino Básico, um tipo de erro que se viu associado ao anedotário sobre o nível supostamente básico da formação do Presidente Lula.

Diz-se a favor da valorização do funcionalismo, mas desprestigiou a classe toda vez que teve cargo executivo.

Coloca-se como um homem sincero, mas sua campanha foi pega na mentira em diversas ocasiões. Discursou a favor do “jogo limpo” na campanha, mas seus aliados usaram artifícios baixos para atingir a campanha adversária. Tratou aos petistas como encarnações do demônio, instigou isso, incentivou e ampliou este discurso, mas apontou que o adversário é quem dividia o País e tratava o jogo político com uma polarização insuportável.

É este o candidato que se diz capaz de fazer um governo de coalizão nacional? Logo quem se apresenta como equilibrado mas torna-se leviano ao acusar o adversário de tudo, mesmo quando não se pode provar nada?

É a mesma leviandade e descompromisso com a responsabilidade com que o então líder estudantil, Presidente da UNE, discursou raivosamente no comício da Central do Brasil, em 1964, às vésperas do golpe militar, e foi usado como uma das desculpas prontas pelos golpistas. Para, em seguida, fugir do País e de suas responsabilidades políticas.

É fácil se dizer líder assim. Deixando para trás os companheiros que o seguiam e cruzando solitariamente as fronteiras. Talvez por isso mesmo, conquista a confiança de eleitores menos afeitos à História, mas não convence nem mesmo aos seus companheiros de partido de sua liderança. Afinal, numa campanha marcada pela mansidão de uma grande imprensa que só faltou usar bandeiras de torcida uniformizada do PSDB, suas contradições apareceram a partir de brigas internas de seu próprio partido.

E, isolado de seus próprios companheiros, recebeu em seu horário eleitoral apoios mal interpretados por Alckmin e Aécio. A turma de Serra tentou levar a campanha mostrando-se “do Bem” e acabaram cada vez mais próxima “do DEM”.

Na reta final, vendendo sua biografia a troco de qualquer milhão de novos votos, Serra aposentou a imagem de gestor responsável e caiu de cara na demagogia fácil ao prometer um saco de bondades impossível de ser cumprido, incluindo um aumento do salário mínimo, das aposentadorias e -,pasmem! – do Bolsa-família.

Jogou no lixo seu diploma de economista, se é que ele existe. Sim, porque Serra fugiu do Brasil antes de se formar, uma vez que já estava mais envolvido com política do que com seus estudos desde aquela época. E o que cursou no Chile foi um Mestrado, seguido de um Doutorado. Só que, pelas leis brasileiras, um aluno não pode concluir a pós-graduação antes de concluir a graduação. Faz sentido, não?

Mas este diploma, se existente, já estava respingado das constantes críticas que veio fazendo à política econômica do Presidente Lula, todas revelando-se furadas e desqualificadas pelo sucesso das iniciativas da equipe petista, uma após outra. Serra insiste e propõe atualmente mudanças na macroeconomia, ainda que isso seja visto com imenso temor até por investidores internacionais.

Vítima de sua própria metralhadora giratória, Serra colocou-se como vítima de bolinhas de papel (e passou por farsante e golpista), da imprensa e das instituições consagradas como as pesquisas (e mostrou-se liberticida) e do mesmo PAC que “sampleou” em suas propostas de governo (e passa, pela enésima vez, como contraditório).

Por fim, o candidato que tentou se diferenciar dos outros pela biografia e pela ética vai ser obrigado a ouvir das urnas os versos de Cazuza em “O Tempo não Para”:

“...Sua piscina está cheia de ratos

As idéias não correspondem aos fatos

O Tempo não para...”


Bissexta - "Um Brasil Melhor depois da Apuração"


Iniciando a série de artigos especiais sobre as eleições presidenciais,  de volta ao seu dia habitual a coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro, tenta traçar um panorama da campanha eleitoral e do que irá acontecer depois.

Discordo pontualmente do texto - penso que a campanha difamatória por parte dos tucanos transcedeu e muito a internet, como se pode ver nesta absurda foto - mas é um bom panorama e texto, como de hábito, de altíssima qualidade.

Um Brasil Melhor Depois da Apuração

Virou moda, nos últimos dias, criticar o baixo nível da campanha eleitoral e lamentar o futuro o que o futuro nos reserva, depois de tanto chumbo trocado no segundo turno da eleição presidencial. Pois eu vou caminhar na contramão e dizer que todo esse clima de Fla x Flu nos trouxe amadurecimento político e trará bons frutos no futuro.

Primeiro, a tal “baixaria”. Campanhas eleitorais anódinas e plastificadas só são boas nas cabeças dos chamados marqueteiros. Não sei bem quando foi que se solidificou a crença de que política é uma mercadoria publicitária e que candidatos são meros produtos a serem lapidados por consultores de imagem. Quando tudo isso começou (e foi só há 3 meses, embora pareça ter sido no século passado), o Serra ainda falava bem do Lula nos seus programas e a Dilma era só a mãe do PAC, a gerentona competente. 

A coisa só começou a mudar quando o Serra assumiu de vez o discurso conservador e a Dilma radicalizou as divergências com as políticas de FHC. É óbvio que houve excessos terríveis (eu mesmo falei deles na minha última coluna) e sob a desculpa da liberdade de opinião se mentiu, se difamou e se caluniou como nunca. Mas, justiça seja feita, as coisas mais detestáveis circularam pela Internet e de forma descentralizada, ainda que recaiam suspeitas sobre alguma orquestração. Talvez seja o caso, na próxima eleição, de se punir com rigor candidaturas que tenham vinculação com práticas criminosas na rede.

Depois, o fim do mito de que brasileiro é despolitizado e vota em pessoas, ao invés de votar em partidos.  Chegaram ao segundo turno dois candidatos sem carisma e tidos como pessoas antipáticas. E a polarização entre ambos foi evidente. Há quem diga que “esquerda” e “direita” não existem mais. Ou que o PT não é mais “esquerda”. Por isso, vou evitar essas expressões, prefiro classificar a ramificação política entre “progressistas” e “conservadores”. O embate entre essas correntes de opinião é vivo desde 1994, mas nunca foi tão acirrado – especialmente porque Lula, a figura mais emblemática de todas as eleições anteriores, dessa vez não podia se candidatar. E em 2010 ambos os lados têm o que comemorar.

No campo conservador, o grande êxito é a possibilidade de, finalmente, poder se revelar ao país de um modo mais direto. Há uma imensa parcela da população que é profundamente conservadora, que defende a pena de morte, que condena o aborto, que abomina as liberdades sexuais, que cultua valores morais rígidos, que acredita que a economia deve atuar com um mínimo de regulação, que detesta políticas de inclusão social. Há coisa pior até, gente racista, machista, preconceituosa ao extremo e talvez nem sejam tão poucos. Isso não os faz menos brasileiros ou lhes retira os direitos de cidadãos.

Paradoxalmente, os políticos identificados com esses pensamentos sempre se apresentaram fantasiados de liberais (no sentido norte-americano desta expressão), o que é uma contradição. A eleição de 2010 liberou os conservadores desses disfarces e, como era de se esperar, animou os adeptos desse campo político a se engajarem na campanha. Torço, sinceramente, para que cada vez mais os conservadores sejam autênticos.

Do lado progressista, o PT se afirmou definitivamente como a referência partidária. O ônus de ser governo permitiu, ainda no primeiro mandato de Lula, a criação do PSOL, que chegou a fazer bonito na eleição de 2006, Heloisa Helena à frente. O agrupamento dos conservadores em torno do PSDB e reação raivosa contra Lula e o PT acabaram servindo para esvaziar o discurso de que não há diferenças entre o PT e a “direita”, aglutinando todos os apoiadores do campo popular sob o PT. O PSOL encolheu em termos de projeção (ainda que tenha ficado mais ou menos igual na representação parlamentar) e os demais partidos progressistas não alinhados com o PT (PSTU, PCB, etc.) são minúsculos.

A imprensa fez um papelão, por se comportar como partido político, de ambos os lados. Mas ao menos os veículos de menor poder econômico que se alinharam ao PT conquistaram espaços mercadológicos importantes. Talvez seja isso que nos reste daqui para a frente, cada leitor escolhendo o jornal/revista que mais se afinar com sua ideologia. Eu sou capaz de apostar que a entrada do grupo português Ongoing nesse setor vai contribuir para a segmentação de leitores por pensamento ideológico. O que, aliás, é muito comum em outros países.

Esqueçam catastrofismos como país dividido ou coisa parecida. Somos brasileiros, afinal. Seja lá quem ganhar (Dilma, dizem as pesquisas e torço eu), vai baixar o tom e se aproximar do outro lado. A sociedade, que tanto se engalfinhou nesta reta final, também vai se ocupar de outros temas. A Veja vai continuar a falar mal do Governo, a Carta Capital vai continuar a falar bem e a vida segue.
Bom olhar para trás e ver como o Brasil melhorou nos últimos 25 anos. Bom olhar para a frente e prever que nada de ruim nos espera. Ótimo ver que a população, em todos os níveis de renda e educacionais, vota de forma absolutamente consciente e independente, mostrando o quanto crescemos.

Sobretudo: "Duas Perguntas para José Serra"


No dia certo, a coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero, e que traz um pouco dos bastidores da matéria de capa da revista "Época" desta semana. Por falar em revistas semanais, a comparação entre os Governos FHC e Lula publicada pela Isto É está imperdível, com números e gráficos insofismáveis. Você pode ler a matéria aqui.

Ao texto:

Duas Perguntas para José Serra

Na semana passada, o site da revista Época propunha aos seus leitores enviar perguntas para os candidatos à Presidência. Algumas dessas perguntas seriam encaminhadas aos candidatos e suas respostas publicadas no site e na revista que está nas bancas agora.

Enviei duas perguntas para José Serra, já imaginando que a editoria chapa-branca das Organizações Globo não fosse selecionar nenhuma das duas. Mas fiz a minha parte.

Quando enviei as perguntas, recobrei alguma esperança de vê-las respondidas. Afinal, o tom das outras perguntas postadas no site não era nada amigável a qualquer um dos candidatos. A impressão que dava mesmo era a de que apenas eleitores de Serra enviaram perguntas para Dilma e vice-versa.

Curioso que num embate que teve todos os jogos-sujos possíveis, em que a baixaria imperou, nenhum jornalista conseguiu ser objetivamente contundente em nenhuma das entrevistas oficiais ou debates entre candidatos. Uma beliscada aqui, uma provocação ali, ninguém ficou de calças curtas para valer. E olha que o que não faltava era telhado (ou careca) de vidro nos postulantes.

Também nas perguntas diretas entre os contendores nos debates, se viu mais pergunta retórica, na tentativa óbvia de explorar a réplica depois, do que constrangimentos públicos. Talvez a cara de Serra ao ser deparado pela adversária com a questão da onipresença de Paulo Preto nas ações do PSDB fosse um retrato de um embate que se deu nos bastidores, na propaganda oficial (mas através de atores e locutores) e nas indiretas de um a outro, mas sempre de forma velada entre os candidatos. Pergunta direta e desconcertante, cara-a-cara, se viu muito pouco.

Talvez por isso tantos internautas resolveram colocar os presidenciáveis contra as cordas. Eu inclusive. Instintivamente, a opinião pública parecia dar aulas práticas de jornalismo investigativo a uma imprensa cada vez mais comprometida com a criação de factóides e exploração de obviedades.

Pedro Migão, amigo e titular deste blog, recebeu cópia de minhas perguntas. Disse que duvidava muito que fossem selecionadas. Eu concordei. Estávamos certos. A edição de Época saiu apenas com perguntas chapa-branca. Quanto a Serra, não foi surpresa. Mas até Dilma foi poupada. Uma ou duas pequenas provocações e só isso. Os dois candidatos saíram-se bem e sem constrangimentos. Não há, pela matéria, como estabelecer uma linha divisória entre eles.

Repasso aos leitores desta coluna, portanto, as perguntas que a Época não enviou a Serra. E que, mesmo que enviasse, eu duvido que Serra (que tem pavor de ser questionado de uma maneira mais dura pela imprensa) teria a decência de responder.

Aí vão:

Pergunta número um.

"Sr. Serra, há alguns dias, o senhor declarou que nunca havia ouvido falar em Paulo Preto. Depois de declarações do engenheiro à imprensa em que fazia ameaças veladas à sua campanha, menos de 24 horas depois o senhor declarou que era "evidente" que conhecia seu ex-colaborador, inclusive tecendo elogios em sua defesa. Na sua opinião, o que é pior, senhor candidato: dizer desconhecer um colaborador tão próximo de seu governo, tê-lo tido como colaborador em missão tão delicada, ou mudar de opinião a cada 24 horas?"

Por que fiz a pergunta? Porque Paulo Preto é simbólico: é a ponta do iceberg das irregularidades e malversações do PSDB paulista. Sua aparição só se tornou pública e desconfortável ao candidato por conta do racha interno do tucanato. A imprensa foi incapaz, até então, de descobrir um único Paulo Preto, muito mais por conivência com o PSDB do que por falta de similares no mercado paulista.

Por que Serra não responde? Porque Paulo Preto é um vespeiro sobre o qual é melhor calar e sair com fama de covarde do que falar e se complicar ainda mais. Porque, ao contrário do que tenta insinuar, o colaborador e arrecadador era muito mais próximo ao núcleo de poder tucano do que Serra gostaria de ver revelado.

O que eu penso sobre isso? Que esta questão, respondida ou não, feita por muitos (inclusive Dilma) e negligenciada por Serra, foi um imenso calcanhar-de-aquiles para o tucanato, e um dos principais motivos para Serra não ter conseguido subir mais nas pesquisas.

Pergunta número dois.

"Senhor José Serra: a respeito do lamentável episódio envolvendo o confronto entre militantes do PSDB e manifestantes do PT em Campo Grande, o médico que lhe prestou atendimento, em entrevista à televisão, indicou claramente a região afetada e examinada de sua cabeça como sendo exatamente a mesma em que um objeto semelhante a uma bolinha de papel atingiu-o, segundo imagens posteriormente mostradas no SBT. Depois disso, vieram à tona imagens tremidas de um telefone celular em que o senhor teria sido atingido em região diametralmente oposta da cabeça por um segundo objeto, alegadamente mais pesado. Como explicar que o senhor tenha sido atingido em um local da cabeça e examinado em outro? Na primeira entrevista, seu médico se enganou quanto ao local do exame? Ou o local da pancada e exame mudou de acordo com as versões?"

Por que fiz a pergunta? Porque, depois que a farsa armada pela Globo (JN) foi desmascarada, houve um súbito silencio sobre uma questão importantíssima. Ou Serra foi realmente atingido a mando do PT, como ele sugeriu (e isso é muito grave), ou ele simulou ter sido atingido para conseguir um clima de comoção no País (e isso seria mais grave ainda).

Por que Serra não responde? Porque fica difícil contrariar as imagens e o testemunho dos jornalistas presentes, que não viram o segundo objeto em nenhum momento.

O que eu penso sobre isso? Que Serra é um golpista.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sobretudo - "Especial Eleições 2010"


Em edição extra, a coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero. Ele me poupou o trabalho de fazer um apanhado de links e informações sobre as próximas eleições, em trabalho exaustivo e muito competente. Temperada por um texto certeiro.

Vamos lá. Basta clicar nos links para acessar as notícias selecionadas.

Especial Eleições 2010: as ligações perigosas

“Link”, do Inglês, ligação. Domingo é dia de segundo turno, hora de ficar ligado. Este blog, seu titular e seus colunistas já fizeram como o jornal O Estado de S.Paulo e a revista Carta Capital, que assumiram abertamente que tinham uma preferência no processo eleitoral (no caso, lados diferentes). Infelizmente, não foi a mesma postura adotada pela maioria da chamada “grande imprensa”. De uma forma geral, a guerra suja eleitoral recebeu uma forte contribuição de jornais, revistas e emissoras de tevê, algumas dessas empresas inclusive adotando métodos golpistas, ainda que se fingissem de “neutras”.

A opinião é livre na democracia, então o maior problema não é nem o que dizem as colunas e editoriais. Isso sim é um espaço de direito de cada empresa de comunicação. Mais: deveria ser espaço do jornalista responsável por cada uma dessas colunas. O episódio do Estadão, ao demitir uma colunista que contrariou sua posição, é elucidativo de que nem sempre quem defende a liberdade das empresas de comunicação, defende também a liberdade do profissional de comunicação. Aparentemente, há uma contradição aí.

A questão crucial na imprensa se dá na peneira fina das editorias de política, que destacam o que seria de interesse do patrão e do candidato escolhido. Sendo assim, o Jornal Nacional, da Rede Globo, principal noticiário no Brasil, recusa-se a destacar qualquer assunto ligado a Paulo Preto ou ao recente escândalo no Metrô de São Paulo, protegendo seu candidato José Serra da exposição pública de suas fraquezas e contradições. De maneira inversa, a Carta Capital, dilmista assumida, destaca especialmente estes assuntos. De um lado, gente graúda como a Abril, a Globo, a Folha e o Estadão. Do outro, empresas jornalísticas de menor expressão e poder econômico, tentando avançar na preferência do consumidor a partir do contraponto às grandes empresas. Esta concorrência e diversidade editorial, sadia para a democracia, é o que tentam a qualquer custo evitar as grandes empresas de comunicação que, como vimos, têm um discurso mais libertário do que a prática.

Se você – como nós - já escolheu lado nesta eleição, deve saber o quão importante é ouvir os dois lados. Afinal, esta é a base da democracia. Se você ainda está indeciso, mais importante ainda que se informe sobre todos os lados das questões discutidas.

Nos últimos meses, o candidato José Serra, seu partido e aliados, tentaram estabelecer um diferencial: seriam mais éticos, competentes, preparados, limpos, “do bem”, fariam uma campanha edificante, sem ódios, tentam construir um Brasil “para todos”. Isso implica dizer que o outro lado não tem as mesmas qualificações. As imagens opostas foram construídas com o devotado esforço da grande imprensa.

Acontece que a “realidade factual” continua a seguir seu rumo enquanto a imprensa constrói uma “realidade ficcional” (para usar termos de um brilhante editorial de Mino Carta). E mesmo a grande imprensa se vê obrigada a repercutir a realidade. O que preparamos hoje para você, caro leitor, é uma coletânea de links, as ligações especialmente perigosas para o candidato José Serra. Não estamos ludibriando ninguém, há um viés claro e objetivo: fazer um contraponto ao discurso oficial das grandes empresas de comunicação.

Mas não há ma-fé intelectual aqui, viés de tipo de mídia ou tipo de empresa de comunicação. Selecionamos um pouco de tudo: jornais, revistas e internet. Por motivos óbvios, damos os links desses veículos na internet, mas é conteúdo veiculado em mídias diversas. Há grandes empresas de comunicação e empresas menores. Há gente que assumiu um lado, outro, que esteve claramente ligada a um dos lados apesar de não assumir, ou gente que se manteve eqüidistante. Todos estes veículos se viram obrigados (pela realidade, esta chata), nos últimos dias, a noticiarem coisas desfavoráveis à candidatura José Serra.

A soma destes casos desconstrói a falsa imagem de um candidato que possa se diferenciar pela competência, pela ética e pela verdade.  Você continua podendo escolher José Serra por convicções ideológicas, se for o caso, caro leitor. Não se trata de desqualificar o voto do eleitor que escolhe votar em qualquer dos dois candidatos, como pretenderam fazer os tucanos. Tampouco discutir as verdadeiras qualificações da oponente, ou usar acusações contra o Serra como desculpas para os erros cometidos pelos petistas. Trata-se de mostrar que há, sim, diferenças nítidas entre os candidatos e suas posturas. E que estas diferenças se dão exclusivamente no campo ideológico, ou seja, no entendimento do que seria melhor para o Brasil: aquilo que se refletiu nos anos em que estivemos sob governo do PSDB, ou aquilo que se refletiu nos anos em que estivemos sob governo do PT. Esta passa a ser a discussão quando se demonstra que, do ponto de vista ético, infelizmente ambos os partidos se deixaram arrastar para a mesmice do lodo político brasileiro.

Leia, mesmo que escolha só os veículos de sua preferência, e tire suas conclusões. Começamos pelo Estadão, assumidamente serrista, e emendamos com O Globo, obviamente serrista. Não há como ser mais imparcial.

JORNAIS DE GRANDE CIRCULAÇÃO

ESTADÃO – A fraude no Metrô de SP – Licitação de cartas marcadas no Governo Serra

ESTADÃO – Para analistas, economia mudaria mais com Serra – A equipe de Serra indica que faria “ajustes” na atual política macroeconômica. Não custa lembrar que Serra se opôs a todas as decisões econômicas cruciais do período de 8 anos de Lula, e que se mostraram - a posteriori - acertadas. Por “ajustes” pode-se entender mudanças, e por mudanças pode-se entender desestabilização e retrocesso no ciclo virtuoso de crescimento.

O GLOBO – Lula diz que é cretinice atacar Dilma – Em sua linguagem crua, Lula compara os ataques a Dilma aos mesmos que ele sofreu em suas campanhas.

O GLOBO – BLOG DO MORENO – Indecisos x Convictos – O colunista Zuenir Ventura fala sobre o baixo nível nos dois lados da disputa presidencial.

FOLHA SP – Novo recorde de aprovação do Governo Lula no Datafolha – No dia do aniversário, Lula comemora a aprovação de seu governo.


FOLHA SP – Folha conhecia antes os vencedores da licitação do Metrô – A matéria da Folha que deu início ao MetroGate em São Paulo.

FOLHA SP – Petistas cobram investigação – Repercussão da fraude na licitação do Metrô-SP

FOLHA SP – Oposição quer CPI em São Paulo – Vale lembrar que vários pedidos de CPI foram barrados pela maioria tucana na Assembléia Estadual. Não é o primeiro caso que merece investigação nos governos tucanos em São Paulo, mas dificilmente os casos são esmiuçados.

FOLHA SP – Governo FHC preparou privatização da Petrobrás, diz Gabrielli – Presidente da Petrobrás repete o sentimento de vários petroleiros de que a empresa não foi privatizada por muito pouco no governo PSDB.

FOLHA SP – Gráfica tucana fez panfletos anti-Dilma – As ligações entre a campanha de Serra e as calúnias e baixarias contra a candidata do PT fazendo uso da ala radical dos católicos.

FOLHA SP – Serra nomeou filha de Paulo Preto – Serra nomeou para cargo de confiança filha do assessor que ele disse desconhecer, e que está no centro de acusações de desvio de recursos.

FOLHA SP – Ricos têm preconceito e medo – Lula fala sobre o sentimento de impotência que assola quem, mesmo tendo recursos e diplomas, não conseguiu fazer antes o que um metalúrgico conseguiu em 8 anos.

FOLHA SP – Promessas de Serra incluem obras do PAC – Apesar de criticar o plano do Governo Lula, Serra copia suas propostas.

FOLHA SP – Dilma não tem medo de nada, diz Chico Buarque – No ato de apoio de intelectuais e artistas Chico Buarque profere a frase “(O Brasil) fala de igual para igual com todos. Nem fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai”.

FOLHA SP – Dilma espera que pelo menos desta vez o governo paulista investigue – Candidata lembra longa tradição tucana de não apurar as fraudes em seus governos.

FOLHA SP – Que Serra é esse? O colunista da Folha, ainda que dispare contra o PT, não entende mais qual a real opinião de Serra, de tanto que o tucano muda ao sabor dos interesses eleitorais.

FOLHA UNIVERSAL – Nas mãos do clero - Voz oficial da Igreja Universal, jornal aponta o envolvimento entre religiosos radicais e a campanha oficial de José Serra.

REVISTAS SEMANAIS

VEJA – Empresas empregam mais – Alto crescimento da mão-de-obra nas empresas brasileiras no última metade de década, segundo IBGE.

VEJA – Mais de 29 milhões entraram na classe média – Avanço medido por trabalho da FGV. Mais da metade da população brasileira é de classe média.

VEJA – Temporada de lucros recordes – Desenvolvimento do mercado interno e saída rápida da crise fazem empresas brasileiras lucrarem como nunca.

VEJA – 12 novos shoppings até o final de 2010 – Alta de crédito e renda aumenta o consumo. Em 2011, serão mais 29 shoppings.

VEJA – FGTS tem arrecadação recorde – Número recorde de empregos aumenta Fundo que financia habitação popular, criando ciclo virtuoso.

VEJA – Emprego na construção civil bate recorde – Dados do SINDUSCON-SP


VEJA – O homem bomba de Aloysio Nunes – Veja, em maio, sobre Paulo Preto. Necessário dizer que esta é uma ponta do iceberg de outros Paulos Pretos no PSDB, e que o PSDB e Serra estavam muito bem informados sobre Paulo Preto e, mesmo assim, continuaram prestigiando-o.

ISTO É – Um tucano bom de bico – A revista apresenta Paulo Preto em agosto.

ISTO É – Bolinha de papel, por Leonardo Attuch – O Brasil merecia mais do que escolher entre dois candidatos que se nivelaram por baixo, segundo o colunista.

ISTO É – Contratado para acelerar obra, Paulo Preto desprezou qualidade – Matéria relaciona a pressa em concluir trecho do Rodoanel para ser inaugurado por Serra a desabamento da obra.

ISTO É – Serra criou sistema que encarece material escolar – A diferença entre a proposta e o efeito, e a ineficiência administrativa de Serra.

ISTO É – O protegido Paulo Preto – Matéria mostra o episódio da prisão do arrecadador tucano como sintoma de sua influência junto à direção do partido de Serra.

ISTO É – Agressores atiram bexiga em Dilma – Episódio foi tratado com ironia por parte da imprensa, Serra fez de morto, mas o fato ocorreu. Mas a própria candidata petista seguiu sua agenda e não usou politicamente a agressão sofrida.

ISTO É – Serra e a “liberdade” de imprensa – Diferente de seu discurso, Serra reage agressivamente contra a imprensa quando a cobertura não lhe agrada.

ISTO É – As contradições de Serra no JN – Questionado sobre tráfico de influência e nepotismo, Serra se cala.

ISTO É – Os santinhos de uma guerra suja – A aproximação de Serra com grupos radicais, o uso de boataria, recursos ilícitos e fanatismo religioso, e a pregação do ódio como arma política.
Partes 1 e 2.

ISTO É – O Brasil acelera – PIB é revisto para cima.

ISTO É – Festival de espionagem – Quebra de sigilo de tucanos na Receita foi “fogo amigo” dentro do PSDB.

ISTO É – O inacreditável saco de bondades – Na reta final, Serra ataca de demagogia e coloca em risco estabilidade e austeridade, com propostas irreais.

ISTO É – Multinacionais de prontidão – “Risco Serra” coloca em xeque investimentos no Brasil.

ISTO É – Escândalo no Metrô de Serra – O MetrôGate ganha as manchetes.

ISTO É – Serra usa máquina pública em evento de campanha.

CARTA CAPITAL – Às favas com a realidade, por Mino Carta – O editor da Carta critica o comportamento de seus colegas da imprensa.

CARTA CAPITAL – O tempo como invenção do homem, por Mino Carta – A volta a 1964 proposta pelo tom de campanha de Serra.

CARTA CAPITAL – Paulo Preto e os cofres de Serra, por Rodrigo Vianna – As ligações perigosas do PSDB.

CARTA CAPITAL – Similitudes, por Delfim Netto – As semelhanças entre as críticas aos programas sociais de Lula e aos programas do New Deal americano de Roosevelt.

CARTA CAPITAL – Brasil versus Brazil, por Paulo Cezar da Rosa – Eleições e soberania nacional.

CARTA CAPITAL – Carta Aberta a FHC, por Theontonio dos Santos – Fernando Henrique escreveu uma carta a Lula. O professor da UFF responde ao ex-Presidente, desmistificando alguns pontos sobre seu governo.

CARTA CAPITAL – Fraude no Metrô de SP – Mais do MetrôGate paulista.

CARTA CAPITAL – Papéis e papelões, por Cynara Menezes – Sobre o tom da campanha.

CARTA CAPITAL – Amaury Ribeiro Jr e o glossário das privatizações – O envolvido no caso de espionagem interna do PSDB abre o verbo.

CARTA CAPITAL – O engodo do salário mínimo de Serra – A especulação populista de Serra à luz da racionalidade.

CARTA CAPITAL – Dois pesos, por Maria Rita Khel – A reprodução da coluna escrita para o Estadão que foi responsável pela demissão da colunista. Liberdade de imprensa é isso aí!

CARTA CAPITAL – Abaixo assinado contra a demissão de Maria Rita Khel.

CARTA CAPITAL – E por falar em censura... – Opinião da Carta Capital sobre a demissão.


CARTA CAPITAL – Paulo Preto: novas denúncias. – O calcanhar de Aquiles da campanha moralista de Serra.

CARTA CAPITAL – Nem com reza brava – As promessas demagógicas de Serra não fecham a conta.

CARTA CAPITAL – A última cruzada tucana. – Mostra o jogo sujo praticado pela campanha serrista na internet.

CARTA CAPITAL – O livro e a bolinha de papel – Dois casos demonstram como a grande imprensa tem construído uma “verdade” particular nesta eleição.

CARTA CAPITAL – Jatene x Serra – O ex-ministro da saúde (que entende de saúde mais que o Serra) desmonta alguns argumentos do PSDB.

CARTA CAPITAL – Na Idade Média, por Cynara Menezes – Como o obscurantismo entrou na campanha.

CARTA CAPITAL – Os avanços do Brasil (para desespero das elites) – Coluna do leitor aponta para os acertos do período Lula e seus efeitos.

ÉPOCA – Vamos combinar? Por Paulo Moreira Leite – O colunista contesta quem diz que Lula é conservador.

INTERNET

ESCREVINHADOR – Onde você estava em 64? – De Emir Sader, sobre quem é quem na defesa de liberdades.

ESCREVINHADOR – Serra e a liberdade de expressão – Levantamento de Antônio Biondi mostra as vezes em que Serra agrediu a imprensa durante a campanha.

ESCREVINHADOR – A parceria da Folha com a ditadura – Dois pesos diferentes na cobertura das eleições, por uma empresa historicamente ligada ao golpismo.

ESCREVINHADOR – Turma de Aécio furiosa com PSDB-SP – Explode a briga interna dos tucanos.

ESCREVINHADOR – Cinco ondas contra Dilma – Os bastidores da guerra suja promovida por Serra na internet.

YAHOO – Em baixa nas pesquisas, Serra levanta suspeitas sobre institutos – Em desespero, Serra faz o que imputa aos adversários: acusa sem provas e desrespeita as bases da democracia.

UOL – Serra minimiza licitação suspeita – Tucano faz pouco caso de fraude grave a acusa para se defender.

UOL – Dilma diz que Serra promove o ódio por falta de projeto – Candidata aponta quek semeia o ódio em campanha.

TERRA – PE: Presidente estadual do PT diz que Serra é despreparado – Em debate com dirigente local através da imprensa, Serra agride em vez de debater.

G1 – Pesquisa Datafolha

G1 – Pesquisa Sensus

G1 – Dilma pede investigação – Candidata, no entanto, diz que não será leviana de responsabilizar o adversário (como tem sido feito pelos tucanos)

G1 – Petistas precisam inventar coisas, diz Serra – Candidato faz pouco caso do MetrôGate, acusa o Governo federal sem provas, quer impor unilateralmente os limites do Presidente e atira contra os institutos de pesquisa. Desespero é que deveria ter limites.

R7 – Oposição em SP busca assinaturas para CPI – Desdobramentos do MetrôGate

VIOMUNDO – O jogo das bonequinhas do Serra

DoLaDoDeLa - O Uso da Máquina

YOUTUBE – Serra e os números

YOUTUBE – Serra no Comício da Central, 1964 (Toca fogo no circo e sai correndo)

YOUTUBE – Serra e Arruda: vote num careca e leve dois

YOUTUBE – Xuxa responde ao Ministro Serra

YOUTUBE – Mano Brown opina sobre Serra

YOUTUBE – Serra mente sobre ficar 4 anos na Prefeitura

YOUTUBE – Regina Duarte tinha medo – a disseminação do terror como arma política

YOUTUBE – Serra e os sanguessugas

YOUTUBE – Serra e a oração coordenada subjuntiva

DILMA 13 – Em nome da verdade – Site oficial de campanha tem página que mostra as calúnias espalhadas pela campanha de Serra contra Dilma

DILMA 13 – Home Page – Site oficial mostra o que mudou no Brasil, a biografia, material de campanha e o programa de governo (coisa que Serra não apresentou, simplesmente).

OURO DE TOLO

Colunas postadas recentemente neste blog.