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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A Série Ouro, a Globo e a transmissão televisiva


Iria escrever sobre as eleições que se aproximam, a incrível coincidência do julgamento de José Dirceu e José Genoíno ser na sexta feira antes das eleições e a demonstração de força dada pelo chefão da Globo Ali Kamel neste caso do Mansalão, mas irei deixar para lá. Esta semana ainda teremos uma outra "Bissexta" sobre a eleição de vereadores.

O tema de hoje será um anúncio feito pela mesma emissora ao final da semana passada: de que ela mesma irá transmitir o Grupo de Acesso do Rio de Janeiro. Como escrevi anteriormente, para 2013 os Acessos A e B foram fundidos em um único grupo, com 19 escolas, que desfilará sexta e sábado de carnaval.

Nos três últimos anos a emissora carioca comprou os direitos do Acesso A (que desfilava somente sábado) e repassou a outras emissoras: a Band nos dois primeiros anos e o SBT em 2012. O Acesso B, que desfilava terça (na foto, a homenagem da Tradição ao cartunista e escritor Ziraldo, ocorrida em 2012) não tinha transmissão comercial - apenas registros da própria entidade que coordenava o desfile e de organizações como o Sambanet.

A emissora comprou os direitos naquela ocasião a fim de afastar a possibilidade de ter a Record transmitindo estes eventos, conforme negociação que chegou a ser entabulada.

A decisão da Globo tem a ver com alguns fenômenos. O primeiro, o de aprofundar a estratégia de regionalizar a cobertura do carnaval já adotada em cidades como Porto Alegre, que mostra o desfile local e não o de São Paulo. 

Segundo, a boa audiência dada pelo SBT em 2012, com um sólido segundo lugar geral. Terceiro, a meu ver, o pouco interesse despertado pelo desfile de São Paulo no público carioca. 

Vale lembrar que o desfile, a princípio, terá transmissão apenas para o Estado do Rio de Janeiro.

Por outro lado, ter o desfile na Globo é algo positivo para as agremiações, ainda mais aquelas que pertenciam ao antigo Grupo B - que não tinha televisionamento. O aumento da exposição televisiva torna mais fácil o trabalho de marketing das escolas, ainda mais se estando na emissora líder de audiência. Além disso há um efeito indutor na procura por fantasias devido à maior divulgação antes do desfile.

Também deve se considerar que as escolas da Série Ouro terão o mesmo tratamento dispensado ao Grupo Especial no pré-carnaval. Eventos como a final do samba e os ensaios técnicos passarão a ser noticiados pela emissora, entre outros. Isso é bastante interessante às escolas.

Um ponto que deve ser observado é que o horário do início do desfile deverá ser alterado a fim de atender à grade da Globo. A previsão é de que o desfile se inicie às 22 horas, de acordo com fontes ligadas à entidade que coordena este grupo. Com isto, a primeira escola a desfilar nos dois dias (Unidos do Jacarezinho sexta e União de Jacarepaguá sábado), em tese, seria transmitida em vt ao final de cada noite.

O lado negativo é que, a princípio, o grupo perde a transmissão em rede nacional. O ideal a meu ver seria que houvesse algum tipo de transmissão em tv fechada, mais ou menos como é feito nas partidas de futebol - ainda que em PPV.

Aliás, em minha opinião e na de boa parte dos especialistas em carnaval - entre os quais não me incluo, sou apenas um aficcionado - a transmissão dos desfiles de carnaval tem muito o que melhorar.

Coordenada pela área de shows da emissora e não pelo jornalismo, a cobertura prima pelo tom acrítico. Tudo é divino, tudo é maravilhoso, os comentaristas não fazem quaisquer tipos de críticas a escola nenhuma - ainda quando é uma verdadeira "bomba" o que está passando - e há uma preferência por mostrar celebridades em detrimento de quem faz o carnaval.

Sem contar que a Globo coloca pessoas no alto do Setor 10, com as letras nas mãos e microfones de captação, para que cantem os sambas e dêem ao espectador um "clima de avenida". Obviamente, algo artificial - ou seja, a reação do público presente na Passarela do Samba mostrada na transmissão fica claramente distorcida, e isso não é positivo.

Em 2012 ainda melhorou um pouco, pois toda a escola foi mostrada. Em 2010, por exemplo, a Portela teve apenas quatro dos sete setores com imagens, entre outras.

Na prática fica muito difícil se fazer uma avaliação de resultado apenas com as imagens da tv. Isso fica muito claro quando se percebe que o desfile da Mangueira de 2012, por exemplo, foi um para quem estava na avenida e outro na televisão: os evidentes problemas, em especial de harmonia, não ficaram claros.

Momentos importantes como o "esquenta" das escolas e o grito de guerra quase nunca são mostrados. Sobre este aspecto, já ouvi "em off" de mais de uma fonte da emissora que a Globo gostaria de mostrar este momento, mas fica receosa de haver alusões a mandatários de agremiações com notórias fichas corridas. É algo que nunca será validado oficialmente, mas faço o registro.

Isso sem contar que a parte jornalística da cobertura é muito reduzida. A questão se complica ainda mais quando se sabe que os sites que cobrem as escolas o ano todo, por determinação da Liesa, não podem circular pela Sapucaí - ficam restritos às áreas de armação das escolas. Esta é uma anomalia evidente a meu ver.

Outro problema evidente é o monopólio de imagens. Isso dá à emissora um poder bastante nítido, pois o diretor de imagens é que determina qual "versão" da agremiação o telespectador verá. Sabemos que a estrutura para a transmissão é bastante custosa, mas acharia viável uma transmissão em tv fechada, mais voltada ao público que se interessa pelas escolas - com comentaristas mais afeitos ao meio. Ou um terceiro canal apenas com o áudio ambiente da Sapucaí.

Vale lembrar que a emissora possui alguns slots de pay per view do futebol não utilizados nestes dias de folia, o que poderia ensejar, até, algo nesta estrutura: um canal pago à parte que funcionasse antes dos desfiles reprisando carnavais antigos, mostrasse os dois Acessos e o desfile do Grupo Especial sob um ângulo mais técnico.

O ideal seria a cessão das imagens à Tv Brasil, mas sabemos que tal fato não acontecerá dentro da lógica que envolve o carnaval carioca atualmente. Também sabemos que de acordo com especialistas do setor a Globo paga aproximadamente 40% da verba total das escolas do Especial - não sabemos como será na Série Ouro - o que obviamente lhe dá um poder discricionário bastante forte.

Em minha opinião, a transmissão dos desfiles como um todo tem bastante o que melhorar, mas ainda assim penso que é uma boa notícia esta passagem da Série Ouro à transmissão global. O aumento da exposição das escolas compensará com folga os evidentes problemas que a estrutura de televisionamento e seu direcionamento tem.

Finalizando, minha percepção é de que a a promoção e a exploração do produto poderiam ser melhores. Os clipes com os sambas do Especial não mostram sequer um terço dos mesmos e o programa com a gravação dos clipes na íntegra foi ao ar a uma da manhã de um domingo para segunda feira em 2012. O programa "Esquenta", que vai ao ar nos domingos antes do carnaval, é um programa de samba sem sambistas.

O modelo adotado pelas escolas de samba atualmente possui muitos problemas, mas a televisão, a meu ver, é um dos menores. A transmissão é boa? Não para o público que gosta de samba. Pode melhorar? Bastante e elenquei alguns motivos e sugestões aqui.

Mas é um caso típico do "ruim com, pior sem". E o televisionamento do Acesso pela Globo tem mais vantagens que problemas, em especial para as agremiações.

Voltarei ao tema.

P.S. - Semana passada circulou a informação de que a Record poderia comprar os direitos dos grupos de Acesso que desfilam na Intendente Magalhães. Pessoalmente não acredito, mas, a se concretizar, seria excelente para estes grupos que praticamente não tem atenção da mídia.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A Propaganda Institucional e a Oposição Midiática


O leitor deste blog sabe que venho tecendo críticas quanto à atuação da grande mídia nos últimos anos, mais se comportando como partido político que como órgãos jornalísticos. Pois é, voltarei ao tema.

Caiu no meu e-mail semana passada matéria com alguns dados da publicidade institucional do governo em órgãos de imprensa, por matéria da Folha que a Carta Capital repercutiu. São dados referentes a 2011 e divulgados pela Secretaria de Comunicação da Presidência, a Secom.

Percebe-se uma nova inflexão na política. Fernando Henrique Cardoso concentrava a publicidade institucional em poucos veículos, aproximadamente 400. Somente a Rede Globo levava 80% do total destinado à televisão e 64% dos recursos totais destinados, em média.

O Governo Lula promoveu uma maior capilaridade destes recursos, passando a contemplar cerca de oito mil veículos de todo o Brasil. Este foi um dos principais fatores que geraram a oposição sem trégua feita pelo maior grupo de mídia do país (a Globo) ao governo, a propósito.

Sob Dilma e com a Secom comandada pela jornalista Helena Chagas (ex-Globo), nota-se uma nova orientação: são três mil os órgãos contemplados e dez veículos de comunicação concentram 70% do total de recursos. Os veículos das Organizações Globo levam cerca de um terço do valor destinado – R$ 55 milhões para um total de R$ 161, em valores arredondados.

Somente no segmento de internet que a empresa carioca não é líder no recebimento de recursos, estando em segundo lugar – atrás da Microsoft.

Há duas formas de se pensar: uma poderia ser uma estratégia do governo de tentar contrabalançar a campanha feita contra ele por estes órgãos de imprensa dia e noite. Note-se que à exceção da Rede Record (R$ 23,4 milhões), todos os veículos que recebem verbas expressivas de publicidade do governo fazem oposição aberta e quase golpista.

Um parêntese é que a revista Carta Capital leva de forma injusta o epíteto de que é sustentada pelo governo: levou apenas cerca de R$ 120 mil em publicidade anual. A Isto È, por exemplo, levou mais que o dobro.

A segunda e mais provável, também, deriva do fato de que Dilma Roussef vem procurando se compor com esta mídia a fim de não enfrentar a oposição cerrada sofrida por Lula. Só que em minha análise a Presidenta ainda não se apercebeu que com esta mídia não há acordo: o objetivo é derrubá-la do governo, no voto ou no grito.

Há tempos que a grande mídia vem se comportando como um partido político e braço de comunicação dos partidos de oposição. Somente se noticia o que se serve a este objetivo, e não se hesita em empreender manipulações grosseiras a fim de fazer prevalecer o ponto de vista político e ideológico dos veículos.

Chega a ser engraçado se ver “analistas econômicos” torcendo e torturando números a fim de propagar aos quatro cantos que o Brasil vive uma crise econômica que somente pode ser resolvida com um “choque de liberalismo” e entrega dos nossos setores econômicos aos americanos. Ou que distribuir renda é ruim e que os mais ricos devem ser tornados mais ricos a fim de levar ao país ao “progresso”.

Esqueçam: o país vai bem, dentro das circunstâncias internacionais.

A mesma mídia que recebe publicidade oficial teve um de seus principais jornalistas envolvidos com a quadrilha de Carlinhos Cachoeira. Surpreendentemente o Governo concordou em participar de uma “Operação Abafa” para que a revista em questão não fosse convocada a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o caso.

Nos últimos meses, a cada concessão feita pelo governo a mídia de oposição radicaliza seu posicionamento. Nem vou citar o caso do Mensalão, que foi objeto de post anterior, mas começa a ficar claro que se tenta reproduzir os movimentos golpistas midiáticos ocorridos em 1954 e 64 e que ajudaram na derrubada de Vargas e Jango.

Dia a dia articulistas da mídia radicalizam o discurso e começam a sugerir abertamente uma solução “à Paraguai” para o Brasil. Como em 1954 e 64, sabem que não tem como voltar ao poder pelo voto a curto prazo - então precisam de manobras extra-constitucionais.

Vale lembrar que o Supremo Tribunal Federal está deixando claro no julgamento do Mensalão que se curvou às pressões midiáticas, por fatores que retomarei em outro post. Para algum tipo de iniciativa antidemocrática prosperar via Judiciário falta pouco.

O curioso é que a mesma mídia que volta e meia reclama que “a liberdade de imprensa está ameaçada no Brasil” (em tempo, uma falácia) está no país onde a mesma é a menos regulada do mundo. Nem nos Estados Unidos ocorre o que há aqui, onde um mesmo grupo detém no mesmo lugar televisão, rádio, jornal, revista, distribuição de TV a cabo e produção de conteúdo. Onde se faz política partidária e se vende como jornalismo.


Uma coisa é certa: não será despejando verbas de publicidade que o governo irá conseguir algum tipo de trégua com esta mídia que a cada dia radicaliza seu discurso e caminha para uma defesa enfática de um golpe de Estado. Começa a ficar claro que ou o governo “vai para o pau” contra esta mídia ou será derrubado inapelavelmente do poder por algum tipo de manobra judiciária.

O recado é claro: é capitulação incondicional ou golpe. Parece uma análise extrema, mas a cada ano o cenário se radicaliza.

Finalizando, não me considero estar em condições de dar conselhos à Presidenta, mas parece claro que sua atuação precisa ser menos tecnocrata e mais política. O PT também precisa abandonar a política da conciliação e ter uma postura mais ativa.

Coloco abaixo um resumo dos dados publicados, por mídia, para o leitor ter uma idéia.

TVs
Globo Comunicação e Participações S.A – 50.029.241,00
Rádio e Televisão Record – 23.390.960,00
TV SBT Canal 4 de São Paulo – 19.394.613,00
Rádio e Televisão Bandeirantes – 6.328.810,00
TV Ômega (RedeTV!) – 3.197.261,00
Turner Broadcasting System Latin América – 1.204.555,00
Associação de COM.ED. Roquette Pinto (TVE) – 1.027.887,00
Globo Comunicação e Participações L.T.D.A – 833.803,00
Globosat Programadora – 810.281,00
Fox Latin American Channels Brasil – 728.587,00

Rádios
Rádio Panamericana (Jovem Pan) – 1.396.541,00
Rádio Excelsior – 1.129.999,00
Rádio Globo de São Paulo – 730.475,00
Rádio 99 FM Stereo – 539.143,00
Rádio SP-Um – 498.990,00
Rádio e Televisão Bandeirantes – 498.301,00
Rádio Transamérica Brasília – 419.723,00
Kalua Comunicações e Serv. De Publicidade – 408.788,00
Rádio Eldorado – 379.773,00
Rede Católica de Radiodifusão – 349.394,00

Jornais
Infoglobo Comunicação e Participações – 927.474,00
Estado de S.Paulo – 656.394,00
Empresa Folha da Manhã – 585.051,00
SP Publimetro – 259.275,00
Sempre Editora – 249.444,00
Correio Braziliense – 192.822,00
Empresa Editora A Tarde – 182.985,00
Valor Econômico – 164.017,00
Editora Jornal do Commercio – 159.230,00
Estado de Minas – 152.874,00

Internet
Microsoft Informática – 1.285.962,00
Globo Comunicação e Participações – 952.950,00
Universo Online (UOL) – 892.553,00
Yahoo do Brasil Internet – 712.296,00
Terra Networks Brasil – 651.662,00
Fox Latin American Channels Brasil – 491.821,00
Internet Group do Brasil – 444.632,00
Editora Abril – 352.729,00
O Estado de S.Paulo – 337.686,00
Editora Globo – 137.448,00

Revistas
Editora Abril – 1.296.649,00
Editora Globo – 479.060,00
Três Editorial (Isto É) – 266.201,00
Editora Confiança (CartaCapital) – 118.794,00
Editora Escala – 99.444,00
Editora Brasil 21 – 70.889,00
Elifas Andreato Comunicação Visual – 66.666,00
AS Pedreira – Agência Jornalística – 66.528,00
Padrão Editorial – 55.575,00
Editora Alvinegra (Piauí) – 55.110,00

(Fonte: Secom)

P.S. – Ao contrário do que alguns leitores dizem, este blog não recebe um centavo de publicidade oficial ou dinheiro público. Aliás, não recebe um centavo em publicidade de qualquer tipo. Ao contrário, só gasto.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A imprensa, o STF e o julgamento do mensalão


Venho acompanhando apenas perifericamente o espetáculo midiático apresentado em torno do julgamento do mensalão. Ando bastante atarefado no trabalho e sinceramente, como escrevemos eu e o colunista Walter Monteiro recentemente, não é algo que vá mudar os destinos da nação.

Entretanto, algumas medidas adotadas pelo tribunal deixam clara para mim a percepção de que no mínimo o Supremo Tribunal Federal não parece muito inclinado a contrariar os órgãos da chamada "grande imprensa", ainda que tal comportamento implique em violações ao processo ou ao cerceamento de defesa dos acusados.

Não é segredo para ninguém que setores da imprensa vem em campanha intensa e orquestrada para a condenação de todos os acusados às penas máximas previstas. O leitor mais antigo deste blog sabe que hoje a oposição brasileira é representada por quatro "partidos": as Organizações Globo, a Editora Abril e os jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo.

A Editora Abril nas últimas semanas diminuiu o tom das críticas ao governo, talvez pelo receio de ver expostas de forma mais efetiva as suas relações com o banqueiro de bicho Carlinhos Cachoeira. As escutas telefônicas divulgadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito recentemente deixaram bastante complicada a posição institucional da Revista Veja, em especial por afetar uma credibilidade já bastante abalada. Está claro que no mínimo havia uma "tabelinha" entre a revista e a quadrilha do contraventor, em promiscuidade a meu ver inaceitável.

Estes órgãos de oposição precisam que o chamado "Mensalão" tenha condenação total e integral, por dois motivos: primeiro utilizar isso como amplificação de campanhas eleitorais de políticos da oposição. Segundo porque uma eventual absolvição de quaisquer que sejam significaria que todo o momento de 2005 não teria passado de uma tentativa de golpe de Estado.

Parêntese: como escrevi anteriormente, acho que há acusados culpados e outros inocentes. Também discordo que a punição vá combater a corrupção no Brasil, até porque o combate a ela hoje e especialmente a sua denúncia é claramente seletivo. Fecha o parêntese.

A liderança neste processo de, digamos, "constrangimento" do STF partiu dos veículos ligados à Globo, em especial ao jornal e à televisão. As matérias "jornalísticas" pré julgamento referiam-se aos acusados como culpados, ainda que antes do julgamento. Além disso o tempo destinado a acusar os réus é bastante superior às alegações da defesa - até porque a postura deste grupo é de que os réus não podem se defender.

Em especial os 'jornalistas' Merval Pereira e Ricardo Noblat, próceres do órgão impresso, vem se comportando como pontas de lança pela condenação ampla, geral e irrestrita de todos os réus do processo. O raciocínio é de que a condenação irá "abrir os olhos do povo" para o "absurdo" que representa o PT estar no governo. A vontade do povo expressa nas eleições de 2002, 2006 e 2010 não importa.

Obviamente, os jornalistas em questão - como outros que seguem a mesma linha reacionária, quase fascista - são apenas reflexo do homem forte do jornalismo da Globo, o Diretor Ali Kamel. Este imprimiu no jornalismo político e econômico dos grupo um caráter político partidário, moldado em suas convicções pessoais e em um reacionarismo que esbarra fortemente em um extremismo de cunho fascista e anti-democrático. A apuração de fatos, o necessário contraditório e a liberdade de expressão das fontes foram solenemente ignoradas em prol da difusão das ideias políticas do chefe/grupo - e devolver o PSDB/DEM ao poder central é vital para isso.

Por outro lado, os Ministros do STF não parecem muito empenhados em resistir a tal pressão midiática. Note-se que o relator do processo afirmou que já estava "com o voto pronto há alguns meses", ou seja, a defesa feita pelos advogados de nada serviu. Obviamente, os acusados já haviam sido julgados e condenados antes.

Outro sintoma perceptível deste fenômeno são as alterações no processo a fim de acelerar o julgamento e permitir que se conclua antes das eleições municipais. Não parece que haverá tempo hábil para tal, mas claramente há um movimento de forma a facilitar a culpabilização nos moldes exigidos por estes setores da imprensa. A meu ver - ressalvando que não sou advogado - está havendo um direcionamento do julgamento para tal.

Além disso os Ministros estão dando entrevistas e opiniões sobre o julgamento à imprensa, o que me parece algo no mínimo bastante inusual. Parece claro que há a busca por não contrariar aos interesses midiáticos e ao mesmo tempo aumentar sua exposição nestes mesmos órgãos de imprensa.

A condenação de todos os acusados virou uma espécie de "Santo Graal" da oposição e da imprensa brasileiras. Note-se que após o golpe paraguaio jornalistas do referido veículo defenderam uma solução semelhante aqui no Brasil.

Isso leva a uma outra questão: os órgãos de mídia brasileiros são os menos regulamentados do mundo. Nem nos Estados Unidos, pátria da livre iniciativa, existe esta total ausência de regulamentos para esta atividade. Situações como um mesmo grupo deter televisões, rádios, jornais e a infraestrutura para difusão ou produzir e distribuir conteúdo concomitantemente não são permitidas no país.

Aqui pode tudo. Com isso os donos das mídias de grande alcance acabam detendo um poder quase monopolista sobre a informação - e a utilizam de maneira a atender os seus próprios interesses e não o bem comum.

Ultimamente de forma ainda tímida a internet vem quebrando um pouco deste virtual monopólio e sendo um contraponto a esta onipotência dos grandes grupos. Entretanto, é preocupante ver o Ministro Gilmar Mendes afirmar que irá processar todos os blogs e jornalistas que lhe fizeram críticas pois "criticar é desrespeitar um ministro do Supremo", como noticiado na última semana.

Percebe-se claramente um movimento coordenado de forma a calar estas vozes dissonantes e restaurar o monopólio da "informação" a esta grande mídia, a fim de voltar aos tempos de manipulação da opinião pública. Haja visto os recentes processos que envolveram os jornalistas e blogueiros Luis Nassif e Paulo Henrique Amorim - e aqui não necessariamente digo que concordo ou discordo do que eles escrevem.

Finalizando, acredito que se a oposição perder novamente no voto as eleições presidenciais de 2014 irá partir via Supremo para uma solução à moda paraguaia. Uma espécie de "quartelada jurídica".

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Bissexta: "Avenida Brasil - A incomparável emoção de torcer"


Nesta quarta feira, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, fala do mais novo fenômeno na televisão brasileira: a novela “Avenida Brasil”.

Avenida Brasil - A incomparável emoção de torcer

Nos círculos que eu frequento (ou melhor, nos que eu valorizo), pega muito mal gostar de novela. Novela é associada a um tipo de cultura muito precária, para paladares intelectuais de baixa exigência – a novela representaria, no universo cultural, o mesmo que o Big Mac representa no ramo da gastronomia. Tanto assim que a última novela que eu acompanhei de verdade foi Vale Tudo, que foi ao ar em 1988 - eu ainda estava na faculdade.

Vi a estreia de Avenida Brasil.

Meu projeto era ver apenas a estreia e ainda assim por uma razão muito particular, que me tocava o coração: o protagonista da novela interpretava um jogador do Flamengo, que faria um gol decisivo em uma final contra um time cheio de referências ao Vasco.

Percebi, de cara, que havia algo de diferente naquela novela: as cenas eram filmadas como em película, assim como nos filmes. E o primeiro capítulo tinha um ritmo frenético, com muita coisa relevante acontecendo. Mas foi só, deixei a novela de lado...

O que sempre me incomodou em novelas é que muda o cenário, mudam os atores, mas não muda a história. Tem um núcleo de milionários, que vivem uma vida de sonhos. Tem um vilão muito mal, que a todos maltrata, em especial a algum personagem muito sofredor. A novela fica um ano no ar, com o malvado praticando todas as malvadezas e a vítima indefesa vai se redimir na última hora. Em paralelo, um monte de histórias inúteis, para encher linguiça.

Percebi que alguma coisa de diferente estava acontecendo em Avenida Brasil quando duas das pessoas mais noveleiras que conheço estavam se queixando da novela. Dei asas para a desconfiança e passei a acompanhar.

Pois olhem: como se diz hoje em dia, ‘garrei amor’ pela novela.

Creio que deva ser a novela com o menor número de personagens. Isso concentra a ação naquilo que realmente importa, que é o embate entre Adriana Esteves e Débora Falabella (essa, a meu ver, um tom abaixo do desempenho espetacular da primeira). Claro que há umas escorregadelas nonsense e desagradáveis, como um bobalhão cercado de três mulheres estúpidas, mas dá para relevar [N.do.E.: não dá para chamar de estúpida a Camila Morgado (risos)].

A melhor surpresa é que não há o insuportável núcleo dos milionários. Todos os ricos desta trama têm origem no subúrbio e tirando o tal bobalhão que vendeu uma empresa para uns espanhóis, ainda moram lá mesmo.

Tufão, o ex-jogador que é o mais rico de todos, tem o mesmo jeitão simples de suburbano: não tem helicóptero, não viaja para a Europa, não tem o típico comportamento de novo rico. Isso gera uma identificação imediata em todos nós: é possível ascender socialmente, seja jogando bola, seja montando uns salões de beleza, sem perder a essência que nos moldou.

E não há propriamente mocinhos ou vilões.

A briga de Carminha x Nina/Rita é uma disputa de muita malícia, com cada uma delas carregando seu fardo de sofrimento e sua cota de maldades. É impossível assistir aquilo e não se envolver. Eu, a cada noite, enquanto lancho, torço para Nina como se fosse possível intervir nos destinos da história.

Só não esqueço de vez essa chatice de Mensalão exatamente porque Carminha está para mim assim como José Dirceu estava para Roberto Jeffferson, ou seja, mexendo com meus instintos mais primitivos.

Impressiona também o grau de verossimilhança do enredo.

Em geral, novelas se pautam por combinar situações absurdas, para conectar núcleos de milionários ao núcleo dos pobres de forma forçada. Desse mal ficamos livres, os personagens se unem de modo natural. Além disso, os suburbanos não são estereotipados: são pessoas de carne e osso, gente como se vê na vida real cotidianamente.

Em resumo, é impossível ficar indiferente à Avenida Brasil.

Uma diversão de muita qualidade, em ritmo acelerado, atores inspirados e cenografia de primeira. Só torço para que acabe logo, para que eu possa me libertar do hábito tão logo as novelas voltem ao seu curso normal, ou seja, um monte de personagens apatetados, plastificados e irreais. Avenida Brasil, com seu sopro de modernidade, é, certamente, uma bela exceção em um gênero que já deu o que tinha que dar.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Bissexta: "Mensalão – Um Tema Menor e Desimportante"


Nesta quinta, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, relativiza a importância do julgamento do mensalão, que se inicia hoje. Ainda chama atenção que, em um julgamento “jurídico”, haverá réus condenados e réus absolvidos.

Mensalão – Um Tema Menor e Desimportante

Estive em São Paulo segunda feira passada e resolvi combater o tédio da sala de embarque e o atraso do meu vôo trocando mensagens com o Editor-Chefe e com o futuro presidente do Flamengo, Affonso Romero.

Um diálogo de malucos, mas por culpa minha. Eles diziam que ‘O Globo’ tinha se tornado um manifesto de política partidária. Eu perguntava como, não via clima conjuntural para tanto. O avião enfim decolou e só aí fui me dar conta de que o desencontro era fruto de referenciais diferentes: eles se referiam à temática nacional, eu pensava que se queixavam das eleições municipais.

Sou viciado em jornais desde criança, mas há quatro anos que a minha fonte primária de informação são os tablóides gaúchos - essencialmente a Zero Hora.

Detesto ler jornal no IPad e o distribuidor local de O Globo era tão ineficiente que o jornal não raro chegava com dias de atraso, ou, com muita sorte, pela tarde. Desisti: me rendi à cobertura local. E agora vi que tive sorte, porque a seção de política vem priorizando as próximas eleições. Naquela segunda feira a única menção ao Mensalão era uma reportagem sobre uma cirurgia de Roberto Jefferson, um dos réus mais famosos do processo maldito.

Não que a imprensa gaúcha seja alienada com temas nacionais. Naquela segunda mesmo a matéria de destaque era uma reportagem com Guido Mantega sobre o desaquecimento da economia. Hoje (quarta) a vez foi da greve dos caminhoneiros. Mas, pelo visto, os jornalistas daqui parecem ter entendido a real dimensão da importância deste Mensalão para o pais: uma nota de rodapé está de ótimo tamanho.

Nada muda, seja qual for o resultado do julgamento. Aliás, o resultado precisa ser completamente imprevisível, porque são muitos réus, muitas provas, muitos argumentos, muitos detalhes.

A rigor, o resultado só parece ter relevância para quem “torce” por um desfecho específico: petistas fazem pressão nos espaços públicos que dominam para o que chamam de um “julgamento técnico”, eufemismo para reivindicar uma absolvição plena - como se não tivessem, realmente, nada a esconder.

Conservadores, majoritários na grande imprensa, vendem a ilusão de que se trata de um momento “histórico” na luta contra a impunidade, como se apenas uma condenação exemplar fosse redimir o Brasil e os brasileiros de todos os pecados de nossa história.

Pois não é uma coisa, nem outra.

Condenar José Dirceu e sua trupe não mudará uma vírgula sequer no comportamento errático da classe política: está aí a CPI do Cachoeira, Demostenes, Agnello e Perillo para deixar bem claro que afastar alguns da vida política não inibe os que restaram de continuar a transgredir.

Absolver os petistas também não é garantia de justiça coisíssima nenhuma. Teve gente ali que meteu a mão com vontade em dinheiro gordo e nem nega - curiosamente, esse não parece ser o caso do vilão-mor, José Dirceu. Até dinheiro na cueca apareceu. Só me faltava essa agora, debater um eufemismo, do tipo “ok, peguei o dinheiro, mas não era todo mês, nem era para comprar meu apoio. Era só para eu enriquecer mesmo”.

Me disseram até que vai ter cobertura ao vivo. Que coisa! Vou logo avisando aos menos familiarizados: não vão esperando um clima ‘Law & Order’. Julgamento no Supremo é uma das coisas mais chatas do mundo de se ver, mais ainda para quem não é do ramo.

Greve dos caminhoneiros.  Desaquecimento da economia. Olimpíadas de Londres. Fora Patricia Amorim. Manuela ou Fortunati? Falta de vaga nos presídios. Obras viárias, para a Copa de 2014. Fuerza Bruta no Porto Alegre em Cena. Carminha x Rita. Dia Nacional da Mobilização Rubro-Negra, 11/08. Um frio de renguear cusco. A pia do banheiro entupida. O escritório mudando de endereço. Revolução Rubro-Negra e Affonso Romero presidente do Mengão. Revisão do carro.  Comprar ou não comprar um Galaxy S III? [N.do.E.: sobre o último assunto, comprei um aparelho destes. Estou encantado.]

Em resumo, coisa para caramba para me manter bastante ocupado.

Vê lá se eu tenho tempo para perder com julgamento de crimes que, tirando Roberto Jefferson e José Dirceu, teriam sido praticados por uns zés-ninguéns da política brasileira? De processo, já me bastam os dos meus clientes, esses sim, decisivos, vitais, fatais, se não para o FlaxFlu da política nacional, ao menos para mim, para minha família e para todas as partes envolvidas.

Próximo assunto, caro Editor. Vamos fazer campanha para o Affonso, porque no final os bons sempre vencem e os bandidos acabam presos mesmo. [N.do.E.: sobre o último item, infelizmente há controvérsias...]

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O circo do “Mensalão” e o combate à corrupção


No dia de amanhã, sob intensa pressão da imprensa – mais que da opinião pública, mas esta é outra história – finalmente o Supremo Tribunal Federal começa a julgar o caso que ficou conhecido como o “Mensalão”.

De acordo com a denúncia oferecida pela acusação era um esquema de pagamentos mensais realizado pelo PT a fim de comprar apoio no Congresso Nacional. Chega a ser engraçado imaginar deputados com uma espécie de carnê de lojas de departamento ou apresentando boletos para venderem seu apoio...

O que se depreende do que foi divulgado objetivamente – porque neste caso tem muita, mas muita opinião e politicagem vendida como notícia – é que parece ter sido muito mais um caso clássico de “Caixa Dois” e repartição de sobras de campanha que propriamente compra de apoios. Até porque se realmente houvesse este esquema estruturado de pagamentos certamente na ocasião a oposição teria partido para um processo de impeachment.

Vale lembrar ao leitor que o esquema de “Caixa Dois” operado pelo publicitário Marcos Valério não era inédito: já havia sido utilizado pelo PSDB mineiro – e suspeita-se, o nacional – nas eleições de 1998 e posteriormente. Inclusive, apesar de mais antigo o processo está longe de seu julgamento no Supremo Tribunal Federal, o que deixa claro como o processo referente ao PT está sendo utilizado de forma política.

A revista Carta Capital desta semana traz uma excelente matéria sobre o mensalão mineiro, mostrando os supostos beneficiários do esquema e como ele operava. Mais uma vez, a impressão era de um gigantesco esquema de Caixa Dois e eventualmente propinas, não de compra de votos ou apoio.

A propósito, acho que seria interessante a revista esclarecer melhor a origem dos documentos: um deles apresentado na matéria consta como sendo de 1999, mas cujo reconhecimento de firma foi realizado em 2010. A publicação alega que conseguiu nos autos do processo, mas seria a meu ver de bom tom mostrar isto de forma mais clara.

Entretanto, a grande mídia trata esquemas iguais de formas diferentes: o mensalão tucano é “Caixa Dois”. O petista é “subversão institucional”.

Lógico que Caixa Dois está errado e precisa ser coibido pela lei. Entretanto, o que está me incomodando nesta história toda é que com raras exceções aqueles que clamam por punição não querem o combate à corrupção ou o cumprimento da lei, mas sim impor suas preferências ideológicas e partidárias ao arrepio da vontade popular manifestada pelo voto.

Alias, se o leitor me permite um parêntese: ao que parece o diretor de jornalismo da Globo Ali Kamel fortaleceu seu poder dentro da emissora e do grupo. Ultimamente os veículos do grupo radicalizaram suas preferências políticas, econômicas e especialmente ideológicas e vem se comportando com uma truculência que jamais havia visto nos mesmos. O bom jornalismo, o contraditório e a apuração dos fatos foram postos de lado em nome da defesa de interesses partidários e ideológicos (estes últimos resvalando no fascismo) de seu diretor e, talvez, daqueles que hoje comandam o grupo. Fecha o parêntese.

Sobre o mensalão em si, espero que não haja um pré julgamento e que as decisões e eventuais sentenças sejam dadas com base em argumentos técnicos e jurídicos. Refiro-me tanto ao caso petista quanto ao tucano.

Entretanto, meu foco nem é este circo que está se armando para tal julgamento, onde há claros interesses de um lado e de outro – mais da acusação – no sentido de pressionar o Supremo Tribunal Federal. Mas sim buscar formas de tornar menos suscetível à corrupção o sistema político brasileiro.

A meu ver o primeiro deles, sobre o qual já escrevi em outras oportunidades, é a questão do financiamento público de campanha. Sem dúvida o fato de termos apoiadores privados em candidaturas gera não somente uma possibilidade de tráfico de influência quanto da esperança de que este valor aplicado seja “devolvido” no exercício do mandato. O leitor seja honesto: quantos destes grandes financiadores corporativos doam valores por ideologia?

Escrevi um post em 2010 – que preciso atualizar – com a análise de alguns dados de financiamento partidário em 2009, ano em que não houve eleição. 68% dos valores doados por empresas para a soma dos quatro principais partidos na ocasião – PT, PSDB, DEM e PMDB – referem-se a empreiteiras, praticamente todas com obras públicas para efetuar.

O segundo maior setor foram os bancos naquela ocasião – lembrem-se os leitores que naquela época se vivia a consolidação do chamado “crédito consignado”, que é uma mina de ouro com risco quase zero às instituições financeiras.

Sobre o financiamento público de campanhas, escrevi em post de março de 2011 as linhas abaixo, que resumem a questão:

“Um dos pontos que constam em um eventual projeto de reforma política é o financiamento público de campanhas. Uma determinada verba pública é separada e destinada aos partidos e candidatos realizarem suas campanhas eleitorais, ficando vedada a utilização de recursos provenientes de pessoas físicas ou jurídicas.

Os opositores de tal proposta alegam que é um despropósito utilizar dinheiro de impostos para financiar campanhas. Entretanto, na prática é isso que ocorre hoje, pois como escrevi ano passado na prática os maiores doadores acabam sendo aquelas empresas que possuem mais negócios com as diferentes esferas de governo - ou seja, o preço acaba sendo maior para acomodar os valores investidos nas campanhas.

É um típico caso onde vale mais a pena se pagar diretamente os custos que indiretamente, na forma de bens e serviços providos ao Estado de pior qualidade e mais caros.”

O financiamento público de campanhas não acabaria com o “Caixa Dois”, mas tornaria mais difícil a sua utilização. Vale lembrar que punições aos doadores neste caso – como proibir de transacionar com o Estado – também teriam poder de coibir esta prática.

Segundo, uma reforma política que diminua a fragmentação da representação partidária no Congresso. Existem 30 partidos hoje em dia no Brasil, com 22 possuindo representação no Congresso Nacional. É muita coisa e, sinceramente, não há ideologias econômicas ou políticas suficientes para tanto partido.

Uma maior rigidez na formação e existência de partidos, bem como a existência de cláusulas de barreira, diminuiria a representação e tornaria (quase) desnecessários os conchavos. Da maneira que está hoje, se Jesus Cristo descer à Terra e for Presidente do Brasil terá de fazer acordos partidários – em especial com o PMDB – para conseguir levar o mandato a termo. Infelizmente, estes acordos não são programáticos e sim baseados no loteamento de cargos e na repartição de sobras de Caixa Dois.

O leitor raciocine comigo: há necessidade de mais que meia dúzia de partidos? Vamos lá: um de extrema esquerda, um social democrata, um de centro, um mais à direita e um de extrema direita. Talvez dois ou três que representem causas expressivas e específicas. E só – assim mesmo, já é muito.

Finalizando, a simplificação da Lei 8.666, que trata das licitações públicas. Do jeito que está, o processo licitatório é demorado, com inúmeras etapas e extremamente burocratizado – e isso se torna um convite a “acertos por cima” e à prática de “criar dificuldades para vender facilidades”.

Um processo simplificado e especialmente transparente permitiria elevar o controle da sociedade e reduzir a corrupção, além de diminuir o tempo necessário – com economia de custos significativa. Vale lembrar que o “retorno” do financiamento privado de campanhas eleitorais vem em sua maior parte de licitações superfaturadas e previamente acertadas.

Lembre-se, também, que pela própria natureza da contratação de bens e serviços públicos espera-se um preço ligeiramente mais alto que o praticado por empresas privadas – até porque o prazo de pagamento é maior, entre outros fatores.

Parêntese: muito do atraso das obras nos aeroportos para a Copa de 2014 advém justamente de dificuldades burocráticas criadas pela Lei 8.666.

Outro ponto que deve ser considerado é que como não há controles tipo TCU e outros em grandes empresas privadas, pode-se esperar que o índice de corrupção nestas seja maior vis a vis a entidades públicas.

Finalizando, seria salutar que o interesse despertado pelo julgamento levasse a propostas para se combater verdadeiramente a corrupção. Mas, infelizmente, não passa de política partidária.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Olímpicas


Eis que começaram os Jogos Olímpicos, finalmente, na última semana.

Como não estou de férias, não estou podendo acompanhar ao vivo muitas competições. Apesar do sensacional aplicativo do site Terra para Android, que quebra um galho razoável – a qualidade de vídeo é muito boa – não dá para ficar pendurado em horário de trabalho assistindo às competições pelo celular: no máximo uma “paquerada” rapidíssima ou outra, e ainda assim tenho de sair da minha baia para tal.

Por outro lado, no último final de semana estava fora do Rio de Janeiro e não tinha televisão a cabo. Assisti a alguma coisa pela Record e dentro das limitações de uma TV aberta achei bastante satisfatório o trabalho.

Vale lembrar que especialmente durante a semana, o horário diurno tem um público majoritariamente feminino, que não necessariamente está interessado em assistir aos Jogos Olímpicos o tempo todo. Por isso que a meu juízo faz sentido focar a transmissão nos esportes coletivos onde o Brasil está presente e em individuais como a ginástica artística, que tendem a chamar mais a atenção deste público majoritário.

Não pense o leitor que a Globo faria muito diferente se tivesse os direitos de transmissão. Seria bastante parecido. Aliás, a se lamentar o quase boicote da emissora à competição, dentro do espírito de que “se eu não transmito, não existe” disseminado por ela. Este é um bom exemplo do que afirmei aqui algumas vezes, de que o jornalístico está subordinado ao comercial.

O papel de transmitir os jogos em sua totalidade cabe aos canais a cabo especializados, e dentro de minha amostra SporTv, ESPN e Band Sports estão fazendo sua tarefa a contento.

Obviamente com erros e imprecisões aqui e ali, mas lembrem-se os leitores que a metade dos esportes olímpicos, pelo menos, não é transmitida com regularidade fora do momento olímpico. Que eu me lembre de cabeça, esgrima, tiro com arco, pentatlo moderno, taekwondo, levantamento de peso, hóquei sobre a grama, badminton, canoagem, luta olímpica, tênis de mesa, tiro e vela somente são transmitidos nas Olimpíadas. Outros esportes como o ciclismo e o handebol tem acompanhamento restrito.

Com isso, ainda que aqui e ali se tenham convidados especialmente para estes esportes no evento, imprecisões e erros são perfeitamente esperados, por mais que se pesquise. E ainda temos de levar em conta que o mesmo narrador muitas vezes acaba de transmitir a competição de esgrima e passa sem intervalo para o concurso completo de equitação. Haja jogo de cintura...

As gafes acabam acontecendo. Pelo menos do que vi e soube nada supera o apresentador do SporTv que chamou o tiro com arco de “tiro com arco e flecha” e disse que o atleta havia dado “trezentas flechadas” no dia de competição preliminar.

Também, como comentei no Twitter, nem tudo é glamour. Que o diga o narrador do SporTv Guto Nejaim, que transmitiu ontem a pelada de vôlei feminino entre os (belos, por sinal) times da Grã Bretanha e da Argélia (foto), a qual acompanhei os dois últimos sets.

O time local não tem a menor tradição no esporte e o time africano vem de um centro de menor desenvolvimento. Resultado: uma partida que pelo nível técnico poderia perfeitamente estar sendo disputada como final de um campeonato colegial pelo Brasil afora. Para os leitores terem uma idéia, no decorrer do tie break que deu a vitória às européias o técnico da seleção argelina durante um dos tempos pedidos ensina a uma das atletas o modo certo de efetuar uma manchete. Isso é básico no esporte...

Quanto ao desempenho brasileiro, no momento em que escrevo parece estar dentro dos prognósticos. Algumas decepções no judô, compensadas por duas medalhas que não estavam como favas contadas, mas no resto as coisas estão indo mais ou menos na linha esperada antes do início das competições.

Me chamou a atenção o péssimo jogo feito agora há pouco pela seleção brasileira de basquete masculina, contra os donos da casa – que tem uma seleção pouco mais que um “catadão” daqueles de pelada de rua. Vi o último quarto e apesar de nossa vitória foi ruim demais.

Vale lembrar que o investimento no esporte brasileiro aumentou significativamente no último ciclo olímpico, mas como é algo de maturação mais longa somente se devem sentir os efeitos em sua plenitude nos jogos que disputaremos em casa. Outra questão é o investimento na prática de base, que melhorou, entretanto precisa evoluir muito mais.

Do pouco que tenho visto e lido outro fator que me chamou a atenção foral alguns erros gritantes das arbitragens como um todo. A meu ver está na hora de se aumentar o uso da tecnologia como auxiliar do julgamento dos esportes.

Também vale mencionar alguns resultados bastante estranhos conseguidos pela China na natação até o momento. Nadadores estão surgindo do nada para ganhar medalhas.

Bom, as impressões inicias são essas. Mas este blog voltará ao tema.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O modelo de patrocínio das escolas de samba


Notícia divulgada ontem causou grande polêmica no meio especializado do carnaval. O Salgueiro foi autorizado a captar cerca de R$ 5 milhões pela Lei Rouanet para poder financiar o seu carnaval para 2013 – que conta com o título “Fama” e resulta de acordo de patrocínio com a revista "Caras".

Na prática, o “patrocínio” da revista à escola será abatido nos impostos que a editora Abril, dona da revista, teria a pagar ao governo. A escola é autorizada a captar e a empresa que já havia assinado contrato com a agremiação efetua o patrocínio via lei Rouanet - com renúncia fiscal. Em última instância o “patrocínio” pelo qual o Salgueiro vendeu seu enredo de 2013 sairá – se sair, mas esta é outra história – do seu, do meu, do nosso dinheiro, caro leitor. Pelo menos de acordo com o divulgado por fontes públicas – não tive acesso aos detalhes da negociação para confirmar se já houve pagamento de valores saídos direto do caixa da editora.

Em artigo sobre a profissionalização das escolas, que escrevi pouco antes do carnaval deste ano e que em versão reduzida foi publicado no jornal O Dia – que pode ser lido aqui – abordei este tema dentro de uma perspectiva maior que era a profissionalização das agremiações. Hoje, entretanto, abordarei de forma mais detalhada este aspecto.

O modelo atual de patrocínio nas escolas de samba carioca, em termos dominantes, é o da “venda” de seu enredo ou tema para o desfile de carnaval. A empresa paga – às vezes não, mas esta é outra história – para ser retratada no enredo.

Comparando, é como se a revista Caras patrocinasse uma peça de teatro onde a publicação fosse o tema da peça. Ou um filme tendo a Volkswagen como roteiro, para se falar de outro enredo praticamente confirmado – o da Acadêmicos do Grande Rio sobre a história do Fusca.

Como o leitor pode perceber, é algo completamente diferente – e porque não dizer, é anômalo. Entretanto, há explicação para este modelo direto de patrocínio onde quem paga a conta vira enredo.

De acordo com o regulamento do desfile de 2012 do Grupo Especial, organizado pela Liga Independente das escolas de samba (Liesa), o inciso VIII do artigo 26 proíbe o merchandising direto de empresas, de acordo com a redação abaixo:

VIII - não utilizar, distribuir ou apresentar-se com qualquer tipo de “merchandising” (implícito ou explícito) em Enredo, Alegorias, Adereços, Alas, Destaques, Samba-Enredo ou quaisquer outros meios, exceto:

a. nas vestimentas dos Empurradores de Alegorias;
b. em prospectos com letras do Samba-Enredo;
c. nos instrumentos musicais da Bateria, desde que sejam as marcas de seus respectivos fabricantes.

Parágrafo Segundo. Especificamente para os Incisos VII e IX deste Artigo, a penalização poderá ser de 1,0 (um) ponto para cada Inciso, a qual será proposta pela Comissão de Verificação das Obrigatoriedades Regulamentares, de que trata o Artigo 15 deste Regulamento, e aplicável a juízo do Presidente da LIESA.

Ou seja, nomes de empresas ou logomarcas não podem aparecer de forma explícita ou implícita sob pena de perda de pontos. Hoje, um ponto de penalização significa ficar de fora até das posições que dão direito a desfilar no Sábado das Campeãs, que é uma importante fonte de renda para as escolas.

Esta proibição gera uma limitação séria ao modelo: por exemplo, as agremiações não podem no início de seu desfile fazer o que observamos em shows e peças teatrais: anunciar o nome de todos os patrocinadores e “apoiadores” daquele espetáculo. O modelo indireto de patrocínio acaba tendo uma exposição menor – e isso diminui o valor percebido.

Por esse motivo também que todo ano temos os chamados “enredos CEP”: uma cidade ou um estado pagam para ser enredo, sem as limitações da citação de marcas, e reforçam a imagem para fins de turismo ou ainda no próprio cenário de negócios. Nos últimos anos descobriu-se um novo filão, que são os países – somente em 2013 teremos a Inocentes de Belford Roxo com a Coréia do Sul e a campeã Unidos da Tijuca com a Alemanha.

Acaba sendo um grande negócio, pois a cidade, estado ou país é exibido em rede mundial durante 82 minutos ininterruptos, fora a mídia pré e pós desfile. Por outro lado, em média há uma queda considerável na qualidade do espetáculo apresentado pelas agremiações, especialmente na qualidade dos sambas – o ocorrido com a Portela em 2012 é absolutamente é uma exceção, até porque não era originalmente um “enredo CEP”.

Outra limitação que o modelo de patrocínio institucional possui é a recusa da emissora dona dos direitos de televisão de aceitar que as escolas anunciem seus apoios na transmissão, repetindo o que faz no esporte. Somente as empresas que anunciam na própria detentora é que tem o direito de ter o seu nome citado, o que é muito bom para a Globo mas péssimo para o modelo de negócio do espetáculo.

O zelo é tão grande que após o “marketing” de emboscada feito pela Portela em 2010 – onde a marca “Positivo” apareceu no meio do samba e foi veiculado durante todo o tempo do desfile – a emissora passou até a controlar os sambas para que tal fato não se repetisse.

Dois bons exemplos disso foram o boicote ao desfile da Grande Rio em 2010 – o som era suprimido no refrão que falava do “Camarote Nº1” da Brahma, e o carro que enfocava tal camarote simplesmente não foi mostrado na transmissão – e a Unidos do Porto da Pedra teve seu samba sobre o iogurte alterado entre o final da disputa e a gravação do cd por influência da emissora.

A televisão protege seus interesses, o que é esperado, mas acaba prejudicando o modelo do espetáculo. Alguma espécie de "meio termo" deveria, a meu ver, ser buscado nesta questão.

Outra questão que acaba distorcendo o modelo de patrocínio é a falta de transparência das contas das escolas e o próprio histórico dos dirigentes da maioria delas. Acaba sendo mais garantido bancar o enredo em si do que apoiar um outro modelo sem ter como controlar a difusão da marca.

Obviamente, é uma “faca de dois gumes”: há muitos casos de agremiações que vendem seus enredos, assinam o contrato e no final não recebem um centavo – com toda a parte artística e musical comprometidas tanto pela falta de recursos teoricamente destinados á realização do carnaval como pela dificuldade de se criar uma boa história a partir de certos temas.

Há muito a avançar no sentido de se estabelecer um modelo mais adequado às características do espetáculo, mas que a meu ver passam por alterações no regulamento, negociações com a televisão e mudanças na própria governança das agremiações.

A partir do momento em que possa haver citações de marcas, as escolas poderiam trazer um “pede passagem” antes do desfile com as marcas dos patrocinadores, citando-os no início de seus desfiles e permitindo um modelo que apóie a confecção do desfile sem se envolver diretamente na parte artística. Uma negociação com a televisão poderia também ser estabelecida a fim de ampliar a exposição dos patrocinadores – maior exposição, maior valor de marca, maior valor de patrocínio.

Por outro lado as agremiações tem toda uma série de quesitos “extra Marquês de Sapucaí” que podem ser valorados e render contratos de marketing. Exploração de quadra, contratos com cervejarias, licenciamento de produtos e ainda programas de sócio torcedor, entre outros, também podem sofrer processo de precificação e atrair potenciais investidores.

Entretanto, apesar de iniciativas como a da Unidos da Tijuca e da São Clemente o marketing das agremiações ainda é bastante incipiente.

A análise deste post é bastante superficial, mas fica claro que o modelo atual é inadequado e que há alternativas que possam ser buscadas a fim de não haver interferências sobre a parte artística e cultural da festa.

Voltarei ao assunto.

(Foto: Fabrício Gomes)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Resenha Literária - "Memórias de Uma Guerra Suja"


O leitor do Ouro de Tolo ficou longo tempo sem as resenhas literárias, mas esta semana teremos duas. O alvo de hoje é o impressionante "Memórias de Uma Guerra Suja", com o depoimento do ex-delegado do DOPS (Departamento de ordem Política e Social) Cláudio Guerra a Rogério Medeiros e Marcelo Netto.

Sobre os jornalistas: Medeiros é um dos autores do excelente "Onde na Corrupção veste Toga", sobre a corrupção no Judiciário do Espírito Santo, já resenhado neste Ouro de Tolo

Marcelo Netto, ao que parece, é uma espécie de militante de esquerda "arrependido". Em sua introdução ao livro escreve entre outras barbaridades que "foi bom o Exército ter ganho aquela guerra" e pede desculpas pelas denúncias envolvendo a Folha de São Paulo e a Globo no livro. Sinceramente, dispensável.

O livro em si é o relato das memórias do delegado (na foto) aos jornalistas, contando sua atuação na eliminação de inimigos do Regime Militar. Após se tornar pastor evangélico ele resolveu contar suas memórias e tudo o que ha via feito.

Guerra atuou como matador do regime, eliminando e ocultando corpos de adversários da ditadura. Depois foi um dos envolvidos nos atentados tramados pela extrema direita a fim de jogar a culpa nos adversários da ditadura e retardar o processo de abertura política - entre eles, o famoso caso do atentado mal sucedido no Riocentro, em 1981.

O delegado mostra com detalhes como alguns até hoje desaparecidos políticos pereceram e tiveram seus corpos desovados. Segundo Guerra a usina de açúcar Cambahyba, em Campos, teve seu forno utilizado para queimar pelo menos dez corpos de adversários do regime, cujos nomes são citados no livro.

O delegado também revela que há um segundo cemitério clandestino em Petrópolis, perto de uma casa onde funcionou um centro de tortura. Ele esclarece as circunstâncias da morte de diversos desaparecidos políticos no exemplar.

O leitor deve estar se perguntando como o nome do delegado jamais apareceu nas listas de torturadores da ditadura. Isto se explica por duas formas: primeiro pelo fato de sua função ser a de matar na engrenagem, e segundo por sua discrição.

As revelações sobre o destino dos desaparecidos políticos são extremamente importantes e ele a meu ver deveria ser um dos primeiros a depor na recém-instituída Comissão da Verdade, mas a meu ver muito mais importantes são as revelações sobre alguns episódios bastante nebulosos do período da redemocratização brasileira.

São descritos com riqueza de detalhes episódios como o do Riocentro, com a preparação do atentado, dos detalhes - inclusive que não haveria socorro às vítimas - e até porque uma das bombas explodiu no colo do militar: o carro parou embaixo de um cabo de alta tensão e acabou "fechando o circuito". Seriam três bombas, com muitas vítimas.

Guerra também esclarece a morte do delegado Sérgio Fleury, um dos maiores carniceiros da ditadura e que faleceu em 1979 em um acidente no mar bastante suspeito. Guerra conta que sua morte foi decidida em uma reunião realizada em restaurante paulista e que se deveu a ele estar querendo ganhar muito dinheiro sozinho, além de ser um "arquivo vivo" da ditadura. Ressalto que o atestado de óbito de Fleury foi assinado pelo médico de triste memória Henry Shibata, useiro e vezeiro em laudos forjados de vítimas da ditadura.

Outro ponto interessante do livro é como vários integrantes da comunidade de informações, notórios torturadores, se envolveram com o jogo do bicho carioca. Os responsáveis pela repressão, em especial do SNI, direcionaram integrantes da comunidade de informações para o bicho como uma espécie de compensação após a redemocratização.

Castor de Andrade tinha uma carteira do Cenimar (Centro de Informações da Marinha) e além do Capitão Guimarães, pelo menos dois presidentes de escolas cariocas são egressos deste momento. Um deles, inclusive, usa como apelido o seu codinome de torturador.

Também são revelações do livro atentados frustrados aos políticos Leonel Brizola e Fernando Gabeira, algo sobre o qual não se sabia. E elucida-se o assassinato de Alexandre Von Baumgarten, caso de grande repercussão em 1982.

Guerra conta sobre reuniões no restaurante "Angu do Gomes", no Rio de Janeiro, onde se reuniam não somente torturadores e matadores como os membros da "Scuderie Le Cocq", grupo de extermínio formado por policiais e que existia em diversos estados. Destas reuniões no restaurante, onde se planejavam ações, participavam atores como Jece Valadão e figuras proeminentes como José Oliveira de Bonifácio Sobrinho, o Boni.

Revela-se que o atentado a bomba na casa do dono da Globo Roberto Marinho, na verdade, foi forjado pelo próprio empresário a fim de diminuir a pressão sobre ele por parte de outros órgãos - ele era visto como "pró-ditadura". O delegado dá detalhes da ação e mostra que foi feito para não machucar ninguém. E a Folha de São Paulo prestou apoio logístico à tortura durante o Regime Militar.

Confirma-se também que os panfletos do PT encontrados no cativeiro do empresário Abílio Diniz foram plantados pelo mesmo pessoal, a fim de prejudicar a candidatura de Lula a Presidente em 1989 - o episódio foi às vésperas do segundo turno.

Não esgoto aqui as revelações do livro, mas sem dúvida alguma é um grande avanço na elucidação de vários episódios nebulosos de nossa ditadura. Questionou-se a veracidade do depoimento, mas os dados são bastante consistentes.

domingo, 29 de abril de 2012

Orun Ayé - "O Livro do Boni"


Neste domingo a coluna "Orun Ayé", do compositor Aloisio Villar, traz resenha de livro que também li recentemente e que por absoluta falta de tempo acabei não escrevendo sobre: a biografia de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. A meu ver é um documentário indispensável para se entender não somente a história da televisão brasileira, mas também a da publicidade e do rádio.

Apesar de cair bastante em seu terço final - e a história de sua saída da Globo é contada de maneira bastante superficial - é leitura obrigatória para aqueles que se interessam pela televisão brasileira e em especial pela Rede Globo de Televisão. Também possui o mérito histórico de pela primeira vez haver a admissão por parte de alguém interno de que a emissora ajudou Fernando Collor não somente no célebre debate do segundo turno como na campanha em si do candidato.

Vamos ao post. O livro pode ser comprado neste link.

O Livro do Boni

Estou escrevendo essa coluna com certa antecedência por estar viajando. Então, se aconteceu alguma “bomba” na última semana não tive como colocar na coluna, nem mesmo se o mundo acabou deu tempo de relatar. Mas prometo que se for um dos sobreviventes do Armaggedon eu escrevo sobre ele semana que vem. [N.do.E.: o Armaggedon não houve, mas espero que o colunista tenha sobrevivido aos rodízios de massa e frango do bairro curitibano de Santa Felicidade...]

Essa é uma coluna encomendada pelo Migão, mas que eu também já pensava em escrever. É sobre um personagem muito interessante não somente da televisão como do Brasil.

Escrevo hoje sobre José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Entretanto escrevo também sobre como podemos passar a gostar de alguns personagens depois que conhecemos a fundo suas histórias e principalmente que o livro de nossas vidas somos nós que escrevemos - e a qualidade dele depende única e exclusivamente da gente.

Que eu me lembre rapidamente ocorreu duas vezes comigo de conhecer mais a história de alguém e virar fã.

A primeira quando vi o documentário feito pelo “casseta” Claudio Manuel chamado “Ninguém sabe o duro que dei” sobre a vida do cantor Wilson Simonal. Não era fã do Simonal, não conhecia a fundo sua vida, só sabia aquilo que todo mundo falava, que era dedo duro e foi afastado da vida artística por isso. Até hoje não sei se o Simonal foi ou não dedo duro, tendo a acreditar nele pelos relatos, mas virei fã do artista que era impressionante. Sua empostação de voz, seu domínio de público, a beleza que dava às canções com sua voz. Um monstro, um mito e hoje sou muito fã dele.

Assim como sabia pouco do Boni, só que ele foi um cara “grandão” na Globo, mas não sabia nem como ele chegara lá.

Seu livro foi lançado ano passado com grande estardalhaço e como eu sempre gostei de biografias fiquei curioso em ler. Namorei por um tempo com o livro quando passeava em shoppings e passava em livrarias, mas achava caro para meu bolso e deixava passar. O curioso é que o livro foi a primeira coisa que comprei depois que recebi o dinheiro pelos direitos do samba da União da Ilha do carnaval 2012, foi sem querer. Não foi intencional que fosse a primeira coisa e só me toquei agora. Vai ver era essa enorme vontade de ler.

Não me arrependi.

O livro tem um pouco mais de 450 páginas e conta toda sua vida desde o seu nascimento em Osasco, cidade de São Paulo até os dias de hoje como diretor e sócio da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo que atende parte do interior paulista.

Boni é o resultado de uma soma que é fundamental para o sucesso de qualquer ser humano em qualquer área: talento com a força de vontade. O talento o brasileiro já tinha visto, mas a força de vontade foi contada nesse livro, quando desde os quinze anos de idade ele corria atrás das pessoas que trabalhavam em rádios, tvs ou área de publicidade para aprender, observar e poder assim abrir seu caminho.

Com quinze anos no Rio conseguiu virar estagiário de Dias Gomes na Rádio Clube do Brasil e pouco tempo depois estava em São Paulo trabalhando com Manoel de Nóbrega na filial da Rádio Nacional na capital. Rodou por diversar rádios, televisões, foi diretor da gravadora RGE - sendo um dos que lançaram a cantora Maysa - e trabalhou na publicidade sendo o letrista do famoso jingle da Varig e da expressão “Varig, varig, varig..”.

Pegou experiência de tal forma que com trinta anos de idade já era disputado por emissoras de televisão e parou na TV Globo, canal 4 do Rio de Janeiro. Até então uma emissora nova, bancada pela Time Life por um tempo e passando um momento de dificuldades financeiras. É preciso nem dizer no que a Globo se transformou depois de sua chegada e como ele entregou a emissora em 1998. A Globo com ele deixou de ser uma tv local e virou uma rede. Não só uma rede como a quarta maior rede de televisão do mundo.

Podemos ter todas as reclamações em relação a Globo, ideologicamente, a forma como nasceu ou que cresceu, mas de sua qualidade não podemos falar e foi o Boni que implantou essa qualidade. Ele contratou os profissionais que alavancaram a emissora, teve as principais ideias e as menores, mas importantes também. Explicando o que disse acima, de sua cabeça e da cabeça de seu grupo saíram ideias como transformar a Globo em rede, de uma pessoa no Rio ou em São Paulo ver a mesma coisa, ao mesmo tempo em que alguém no Sul ou no Norte.

Desse grupo que ele comandava também saíram o Jornal Nacional, o Fantástico e de sua cabeça saiu coisa que não parece importante, mas hoje é fundamental para quem vê um filme que é no começo de cada bloco botar o nome do filme, em que parte está e colocar o “plim plim” para separar o filme do intervalo comercial.

As séries brasileiras como “Carga Pesada”, “Malu Mulher”, a faixa para música e entretenimento como “Globo de Ouro”, “Cassino do Chacrinha” e amor ao carnaval: no livro ele mostra o amor que tem pelas escolas de samba e explica histórias como a Globo não ter transmitido o desfile de 1984.

Acho que a diferença do gênio para a pessoa comum é que o gênio pensa um segundo antes. O gênio é aquele que tem a atitude que nós falamos “claro, por que não pensamos nisso antes?”. O Gênio é o que faz a diferença. Boni fez. Na televisão realmente foi um dos gênios, um dos desbravadores que fizeram a televisão brasileira ter a qualidade que tem hoje.

Tornei-me fã dele porque gosto de gente assim, gosto de vencedores. Dizem que no Brasil sucesso é ofensa, que brasileiro não gosta de quem vence, eu não sou assim: eu gosto até porque esse tipo de gente que vence por seu esforço e talento sempre tem algo para nos ensinar. Por isso gosto do Boni, do Simonal, do Chico Buarque, do Lula, de Muhamad Ali... Gosto de gente que vai à luta e derrota o destino, que mostra que pode ser maior do que aquilo que a vida apresenta.

Não dizem que somos nós que fazemos nosso caminho? Porque não então um asfaltado, com árvores e flores em volta e que nos leve a um bom lugar?

Não é só em novela que precisa ser assim. Semana que vem tem mais... plim, plim. Orun Ayé!