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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

História & Outros Assuntos: "Salve Jorge"



Nesta quinta, após recesso temos o retorno da coluna “História e Outros Assuntos”, assinada pelo Mestre em História Fabrício Gomes. Na coluna de hoje temos um painel histórico da obra do escritor Jorge Amado, que completa centenário de nascimento neste 2012.

Aproveito para fazer um comentário que já havia feito ao colunista: é curioso que o escritor não tenha sido incomodado pela ditadura militar de 1964, apesar de seu perfil libertário e suas raízes comunistas.

Vamos ao texto.

Salve Jorge! O centenário do nascimento de Jorge Amado e sua importância para a História do Brasil

Em 2012 comemoramos o centenário do nascimento de um dos maiores escritores que a Bahia produziu.

Escrevo Bahia, ao invés de Brasil, porque nenhum outro estado brasileiro sintetiza tanto as obras de Jorge Amado (Itabuna, 10 de agosto de 1912 — Salvador, 6 de agosto de 2001) como a Bahia – tida inclusive como um lugar místico, real e ao mesmo tempo realístico ao longo de mais de 32 livros, cinco mil personagens e 30 milhões de publicações vendidas.

Considerado o escritor brasileiro mais lido e publicado até o surgimento do “fenômeno” Paulo Coelho, Jorge Amado teve suas obras editadas em 52 países e traduzidas em 29 línguas.


Sua literatura pode ser dividida em duas fases: a primeira, iniciada em 1931 com a publicação de País do Carnaval – seu primeiro romance – e termina em 1954, quando não faz mais parte da militância partidária ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e escreve Subterrâneos da Liberdade.

É importante compreender a importância de Jorge Amado não apenas com base na contribuição que trouxe para a literatura de nosso país, mas também dentro de uma perspectiva histórica: desde a exaltação de uma religiosidade afro-brasileira, até a relação que ele teve com o PCB, sendo um ardoroso combatente da ditadura do Estado Novo, por exemplo. Só é possível entendermos sua trajetória se compreendermos o que a militância política representou para ele.

Sintonizado com o realismo socialista, implementado pela intelligentsia soviética, que foi um conjunto de diretrizes formais, estilísticas e poéticas na União Soviética entre 1930 e 1953 – ano da morte de Joseph Stálin, os livros de Jorge Amado cumpriram o papel de fazer da arte um agente transformador dos aspectos políticos e sociais, sendo muito mais do que mera diversão ou passatempo.


Principalmente quando essa característica é observada no momento de bipolarização do mundo, entre comunistas (URSS) e capitalistas (EUA), o escritor deveria fazer suas escolhas históricas. A obra que pode sintetizar esse momento é Subterrâneos da Liberdade, escrita no exílio. O livro justamente resume o objetivo do escritor, que era o de difundir a estética comunista dentro dos ideais do realismo socialista, construindo uma visão positiva da URSS e criticando as mazelas do capitalismo.

Essa visão crítica da primeira fase de Jorge Amado é bastante contestada por historiadores, já que para muitos, o viés comunista só poderia ser observado a partir de 1945, quando se elege deputado federal pelo Partidão – sendo cassado em 1948, quando o partido caiu novamente na clandestinidade. Afinal, no período entre 1931 e 1945 não vemos o proletariado em suas obras, mas sim personagens marginalizados – prostitutas, pescadores, capoeiras, entre outros.

Como um bom tempero baiano em acarajés e abarás, a idéia dos historiadores novamente pode ser polemizada, quando observamos a presença de personagens impregnadas com o conceito de socialismo. Um deles é Pedro Bala, em Capitães de Areia (1937), que consegue transpor o obstáculo do desespero através de um sentido de coletividade, por exemplo – coincidência ou não, durante a Era Vargas, este livro foi censurado e queimado em praça pública. O próprio Cavaleiro da Esperança (1942) – uma proposta de Jorge Amado em escrever a biografia de Luís Carlos Prestes, forjando a glorificação de um herói socialista, fora encomendado pelo PCB.


Além de abordar a questão da miscigenação das raças e o sincretismo religioso, as obras de Jorge Amado continuam atuais, quando discutimos as diferentes culturas brasileiras e suas discriminações. O Brasil miscigenado aparece exaltado, por exemplo, em Jubiabá (1935), na figura de um pai-de-santo que é herói e mestiço.

Gabriela, Cravo e Canela, publicado em 1958, é certamente um de seus livros de maior repercussão internacional e marca o início da segunda fase de sua carreira literária. Esta é focada no romance de costumes e na construção da brasilidade, mas sem se esquecer com a denúncia social e as classes populares.

Os heróis de Jorge Amado lembram muito a personagem de Carlitos: são chaplinianos e estão longe de serem inseridos dentro de uma estrutura. São figuras afirmativas – o negro Balduíno, em Jubiabá; Quincas Berro D´Água, Gabriela e Teresa Batista Cansada de Guerra, entre outros. Embora o traço dominante seja o de um certo pessimismo, a afirmação é da esperança e da alegria. Em Gabriela, o escritor expõe as incongruências e contradições da sociedade, suas hipocrisias e deslealdades.


Se a cidade de Salvador é a torre de babel de suas obras, num ambiente onde mais profundamente fez a integração das diferentes culturas e etnias, consciente da importância da miscigenação cultural, Ilhéus e Itabuna representam o poder e riqueza da indústria cacaueira. Seus coronéis do roçado, jagunços vingadores e trabalhadores do campo, que mais do que apenas sintetizarem um mandonismo local, eram fio condutores do retrato da sociedade arcaica do agreste baiano, onde a mulher era submissa ao marido, devia viver para ser usada e abusada. Quem trazia idéias modernas da capital e “do estrangeiro” não era visto com bons olhos.

O elemento erótico, pó conseguinte, deve ser observado sob um viés libertário e não detrator da feminilidade. São Jorge dos Ilhéus e Cacau – este, seu segundo romance publicado – são os livros que melhor retratam a sociedade baiana que vivia da colheita do cacau.

Jorge Amado construiu uma brilhante carreira como escritor, mas sofreu preconceito nos meios acadêmicos, já que vender muitos livros era encarado com certas restrições: popularidade nem sempre representava qualidade, na opinião dos nobres intelectuais. Sua eleição em 1961 para a cadeira número 23 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é José de Alencar, talvez tenha sido uma tentativa de reparo ao preconceito sofrido.

No centenário de seu nascimento, é importante relembrar suas obras e personagens que já entraram para o panteão da nossa literatura. Mas certamente é um autor que merece um estudo mais aprofundado sobre sua produção e o contexto em que suas obras nasceram.

Salve Jorge!


domingo, 16 de setembro de 2012

Orun Ayé - "E Surge a Inspiração"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, conta um pouco de seu processo criativo.

E Surge a Inspiração

O Migão falou comigo essa semana que eu já tinha detalhado como era uma disputa, o mundo do samba, mas não tinha contado como é a confecção mesmo do samba, ou seja: como vem a inspiração.

Falei pra ele que só a inspiração e a forma de compor um samba-enredo não dariam uma coluna inteira, mas as várias formas de compor, de escrever, sim.

Apesar de todo mundo falar mal dos concursos de samba-enredo, ele é uma das formas mais democráticas que existem para um compositor mostrar sua obra. 

Por exemplo, um compositor de MPB chegar a um grande cantor de MPB é difícil. De qualquer gênero é, mas para um compositor de samba-enredo chegar, por exemplo, ao palco da Beija-Flor - que é a maior campeã dos últimos anos - não.

Para você ter uma obra avaliada em uma Beija-Flor basta você fazer o samba e entregar a letra na escola no dia da inscrição com cd. Não precisa pagar a inscrição e todos os sambas concorrentes se apresentam pelo menos duas vezes.

Esse motivo, o da democracia de mostrar aquilo que você compôs foi que me trouxe inicialmente ao samba-enredo. Era a forma mais fácil de mostrar um dom meu.

Mesmo o samba-enredo sendo uma forma totalmente diferente de escrever de qualquer outra. 

Costumo dizer que qualquer forma de escrita (livro, soneto, poesia, música, crônica, conto) é inspiração e samba-enredo transpiração.

Explico: samba de enredo teoricamente é a única forma de escrita que não é nossa imaginação que comanda. Recebemos uma sinopse com tema para ser aplicado e com várias situações que devemos abordar nessa música - que não é tão autoral.

Nessa música temos que dentro de um determinado número de versos colocar tudo que a escola quer. E colocar poesia dentro do possível. Como é um concurso, existem duas possibilidades: ser arrojado, tentar algo diferente e correr o risco do fracasso ou um grande sucesso ou vir no que se costuma fazer normalmente.

O feito normalmente, na maneira trivial geralmente consegue sucesso nas escolas, mas não consegue na história. É esquecido logo após o carnaval e conhecido como a fórmula “10x4x10x4”.

Uma primeira de samba com dez versos, refrão do meio com quatro, segunda parte mais dez e refrão principal explosivo, enaltecendo a escola com mais quatro.

Não sei quem inventou que essa fórmula é a correta. Deve ter sido a mesma pessoa que inventou alas enfileiradas e as baterias tocando aceleradas. Resumindo, o Anti-Cristo.

Eu sempre fui muito independente pra escrever. Escrevo desde 1986 com nove anos de idade. Comecei fazendo revistas em quadrinho da série de TV “Armação Ilimitada”, com treze comecei a fazer pequenos roteiros, com quinze músicas e quase ao mesmo tempo comecei a me aventurar em samba enredo e livros.

Costumo dizer que samba enredo é o que faço pior em escrita, porque é a que mais tolhe minha liberdade e independência. É a única forma de escrita que faço que possui tema pré-determinado e na qual tenho parceiros no processo de criação. 

Tentei trazer para o samba enredo o modo que escrevo outras coisas, então em nossa parceria foi criado um modo diferente para compor.

Normalmente os parceiros sentam-se juntos com a folha em branco e daí surge o samba. Eu sou letrista, até saberia fazer melodia, mas não tão bem quanto pessoas como Cadinho da Ilha e Roger Linhares.  

Então trago as sinopses para casa e escrevo uma letra. Daí eles fazem as melodias. Para os dois mesmo e para outros que já escreveram conosco causou estranhamento, mas se adequaram e hoje estranham quando não é assim. Faço sambas com eles há tantos anos que já sei fazer letra imaginando a melodia que colocarão. Geralmente dá certo.

Já tentei fazer samba do modo tradicional, sentando todos e fazendo. Fizemos assim nosso concorrente para o Dendê 2013 e deu certo ficando um grande samba.

Mas prefiro do meu jeito, da minha forma e no meu silêncio. Muita gente é complicado porque não são raras as vezes que você está quase alcançando a solução de algum problema e alguém fala ou canta algo na hora - você perde o fio da meada.  

Prefiro sinopses maiores e divididas em setores, fica mais fácil para escrever. Odeio sinopses pequenas que dão margem a interpretações e nessas interpretações favorecer alguém. Odeio sinopses rimadas: quem tem que rimar é compositor, não carnavalesco e odeio mais ainda sinopses não divididas em setores. Podem fazer o compositor se perder, não botar algo importante e cair no exemplo das sinopses pequenas. 

Como já disse samba-enredo é o que faço pior e o que escreverei pode surpreender alguns, mas também é o que me dá menos prazer. Pode surpreender pelo fato de ser o ramo de escrita que me dei melhor até hoje, mas o que gosto do samba-enredo mesmo é o convívio com os amigos, é a disputa em si, o friozinho na barriga no último samba a se apresentar antes do seu.

Mas o ato de compor mesmo, de criar. eu gosto mais escrevendo em prosa. Tive uma fase de escrever livros e contos compulsivamente, tenho alguns livros escritos e contos publicados quinzenalmente aqui no blog. Agora estou na fase das peças de teatro. Escrevo o que quero, no momento que quero, o tempo que quiser: essa liberdade é fundamental para mim.

Mas evidente que esses quinze anos escrevendo profissionalmente no carnaval, aprendendo técnicas de escrita, aprendendo a ser mais prático, a ir direto ao assunto porque no samba-enredo não há espaço para enrolação (senão o samba fica enorme), me ajudou nos outros meios de escrita.

Como nesse blog onde escrevo há quase um ano e meio e tenho determinado espaço para colocar o que penso e tenho que colocar com princípio meio e fim bem organizados.

A quem pensa em escrever qualquer coisa isso é o principal e aprendemos lá atrás nas primeiras aulas de redação na escola. O princípio, meio e fim.

Eu não começo a escrever uma coluna, poesia, letra de música, soneto, conto, romance, peça de teatro, samba-enredo, nada sem saber como se desenvolve e termina. Isso é fundamental para que se consiga passar ao leitor, espectador ou ouvinte com toda clareza sua mensagem e, principalmente, com verdade.

Essa é uma dica que posso dar pra quem quer começar a escrever. Construa sua história mentalmente antes de por no papel, facilita sua vida.

[N.do.E.: acrescentaria um outro conselho a quem gosta de escrever: leia, leia muito, leia de tudo, leia sempre.]

Alguns lugares que você pode encontrar coisas que escrevi:

Sambas enredo – Sites especializados em samba ou no google digitando meu nome.

Livros – No meu blog http://aloisiovillar.blogspot.com tem três livros lá.

Peças de teatro – Há três peças em www.recantodasletras.com.br/autores/aloisiovillar



Dizem que o escritor gosta de brincar de ser Deus, eu acho que o escritor simplesmente é um contador de histórias e eu gosto de contar histórias.

E a coluna de hoje foi mais uma história que contei pra vocês.

P. S. - Sábado retrasado foi bem marcante pra mim. Em nossa apresentação na União da Ilha, com prospecto na mão e cantando nosso samba estava uma moça chamada Ericka. Ela estudou comigo vinte anos atrás e para ela fiz a primeira música de minha vida. Com ela tudo começou e ela estar lá torcendo por um samba meu deu um sabor todo especial.

Um escritor quer alcançar corações, passar emoção para as pessoas, seja para um grande público ou para uma pessoa em especial e quando ele consegue isso é que seu objetivo foi alcançado.

E naquele momento me senti realizado.

sábado, 28 de julho de 2012

Buraco da Fechadura - "A Ironia do Amor"


Neste sábado, a coluna de contos do compositor Aloísio Villar, “Buraco da Fechadura”, mostra como o amor e a vida, às vezes, podem ser irônicas.

A Ironia do Amor

Rodrigo esta lá no banheiro. No mictório está urinando e pensando na morte da pobre da bezerra quando um bêbado no mictório ao lado diz:

- Não há prazer maior que o de uma mijada!!

Rodrigo, concentrado em seu prazer “urinador”, é retirado do transe por aquela frase e vira-se ao lado perguntando “héin?”.  O bêbado repete:

- Eu falei que não há prazer maior que o de uma mijada quando estamos bem apertados, nem o sexo é tão bom!!

Rodrigo ouviu a frase e com um sorriso no canto da boca ironizou:

- Olhe meu senhor, das duas uma: ou eu não sei mijar ou o senhor não sabe foder.

O bêbado limitou-se a botar sua mão no ombro de Rodrigo, mão que segurou seu pênis até o momento da balançada e disse com voz cavernosa:

- Tem mijadas que são santas, amigo...

Disse e saiu do banheiro com Rodrigo olhando o espelho tentando entender aquele papo e fazendo cara de nojo porque o bêbado lhe tocou sem lavar as mãos.

Voltou ao salão, estava em um restaurante. No salão esperando pelo rapaz estavam seus pais e Marcela, sua namorada - que naquela noite viraria noiva.

Com a volta de Rodrigo à mesa seu pai, o doutor Eliocárpio, famoso advogado criminalista do Rio de Janeiro resolveu puxar um brinde pela união de Rodrigo e Marcela.

O casal se conhecera na faculdade. Rodrigo acabara de se formar em direito por livre e espontânea pressão do pai e Marcela estava no último ano. A moça vinha de uma família rica do Mato Grosso e Eliocárpio fazia muito bons olhos ao enlace.

Junto a Rodrigo, Marcela e os familiares estava Alexandre, melhor amigo de Rodrigo e foi esse que lembrou a Eliocárpio do brinde. O homem exultante levantou, ajeitou a calça e fez discurso.

- Estamos todos aqui emocionados para celebrar o enlace desse querido e jovem casal, hoje se tornam noivos e futuramente constituirão família e me darão netos. Marcela, Rodrigo, desejo tudo de melhor para vocês e que possamos logo conhecer seus adoráveis pais, Marcela!!

Eliocárpio queria era conhecer a grana dos fazendeiros mato-grossenses.

Enquanto brindavam o bêbado passou e gritou “viva a mijada!!”.

De volta à casa Eliocárpio e Santelma, a mãe de Rodrigo, conversavam na cama sobre o noivado. Santelma achava precipitada a união de um casal tão jovem: achava que Rodrigo tinha muito ainda a viver enquanto Eliocárpio respondia que seria bom para a família, os negócios - e especialmente para manter a moralidade em casa sem que Rodrigo caísse em tentação.

Eliocárpio era um homem que preservava muito a moral e os bons costumes. Falava sempre no valor da família e acordava cedo todos os domingos para ir a missa.

Mas isso era da boca pra fora: ele esperava a esposa dormir e ia ao quarto da empregada. Dava três batidinhas na porta e a morena sensual abria sabendo que era o patrão. Dava um sorriso e Eliocárpio logo se empolgava e apertava a cintura da doméstica que sempre se esquivava e lamentava faltar alguma coisa em casa.

Naquela noite ela disse que estava sem cabeça para “brincar” com o patrão, pois seu filho estava doido por um tênis novo, de marca, mas ela não tinha dinheiro para comprar. Eliocárpio se ajoelhava e com o rosto nas pernas da empregada respondia que pagava, tinha dinheiro e bancava tudo perguntando quanto ela precisava.

Ela respondia com carinha de choro e rapidamente o homem levantava e pegava na sala talão de cheques para preencher e entregar a doméstica, que sorrindo falava que o patrão era tão generoso que merecia “até aquilo”.

Esse “até aquilo” que enlouquecia Eliocárpio. Ela conseguia tudo dele.

A vida sexual de Eliocárpio era agitada, de Rodrigo nem tanto. O rapaz passava um drama com Marcela.

Os amassos aumentavam na sala da casa, os dois sentados no sofá e quando Rodrigo tentava tocar os seios de Marcela ela respondia “só casando”.

Rodrigo se desesperava e tentava argumentar que já eram noivos e podiam avançar um pouco o sinal. Mas Marcela relutava: insistia que casaria virgem e nem os argumentos de que namoravam há três anos e se casariam em breve sensibilizavam.

Marcela naquela tarde foi embora irritada com a insistência de Rodrigo e abriu a porta para ir embora sem nem responder ao cumprimento de Alexandre que chegava. A moça bateu a porta com força e Alexandre perguntou ao amigo o que ocorria.

Rodrigo contou ao amigo seu drama e Alexandre espantado exclamou “Três anos e nada? Sua mão deve estar cheia de calos!!”. Rodrigo olhou as mãos e lamentou seu infortúnio quando Alexandre convidou o amigo a ir a uma boate de noite.

Rodrigo espantou-se e respondeu que não iria, pois, era fiel. Alexandre levantou-se da cadeira que estava sentado e perguntou “Fiel a quê?”.

Rodrigo respondeu que a sua noiva e Alexandre contra atacou argumentando que aquilo era uma bobagem, homem não nasceu para ser fiel e que tanto tempo sem transar poderia fazer mal ao amigo, subir à cabeça e lhe provocar debilidade mental.

Olhou firme para o amigo e perguntou se ele queria ser doente mental. Rodrigo espantado respondeu que não e Alexandre marcou para oito horas o encontro dos dois e que passaria lá para buscá-lo.

Antes de sair ainda disse:

- Precisa nem transar se não quiser. 

Às oito horas Alexandre estava lá e buscou Rodrigo. Foram até um inferninho de Copacabana e entraram.

Rodrigo, criado dentro de rígidos padrões de conduta, nunca entrara em um local como aquele e se assustou ao ver aquelas mulheres com roupas vulgares e aqueles homens cheirando bebida barata... Alexandre notou a timidez do amigo e mandou que ele relaxasse - porque estava na Disneylândia do sexo.

Rodrigo se sentou e ao lado de Alexandre viu homens sujos, feios, velhos chegando para conversar com mulheres jovens que poderiam ser suas netas e de repente os dois saírem do local. Alexandre repetia que toda prostituta era uma santa não canonizada enquanto Rodrigo só pensava em ir embora.

Até que..

... Até que ele reparou em uma ruiva linda, cara de triste sentada em um canto do salão. Rodrigo começou a prestar atenção na menina, não tirava os olhos dela quando a ruiva levantou e se encaminhou a um ferro para fazer pole dance.

Naquele instante ela não tinha mais apenas a atenção de Rodrigo, mas de todos. Uma música sensual começou a ser tocada e ela dançar no ferro. Foi tirando peça por peça da roupa até ficar completamente nua. Rodrigo naquele momento já estava enfeitiçado, ele queria aquela mulher.

Ela se retirou e foi ao banheiro. Rodrigo levantou sem nem ouvir Alexandre perguntando aonde ele ia e foi atrás. Esperou na porta do banheiro até que ela saísse e quando a jovem saiu Rodrigo disse “preciso de você”. Ela não se fez de rogada e respondeu “cem reais”, Rodrigo pegou a carteira e falou “dou duzentos”.

Pegou a mulher pelo braço e passou pelo salão. Alexandre perguntou aonde ele iria e Rodrigo respondeu que não lhe esperasse.

Passou a noite com ela. Transaram muito e depois conversaram, criando uma intimidade perigosa. Descobriu que seu nome era Milena, tinha vinte anos e trabalhava nisso há pouco tempo.

Rodrigo estava de quatro.

Chegou de manhã em casa encontrando Eliocárpio e Santelma sem dormir esperando por ele. O pai esbravejou perguntando onde ele estava, mas Rodrigo não lhe deu ouvidos apenas respondendo que estava cansado e iria deitar.

Deitou e sonhou com Milena.

De noite voltou ao inferninho para ver a prostituta e foi assim noite após noite. Rodrigo conhecera o “poder da xana” e estava completamente apaixonado pela prostituta.

Uma noite chegou no inferninho e perguntou se ela queria morar com ele. Milena espantada perguntou que brincadeira era aquela e o rapaz respondeu que não era brincadeira, era sério e perguntou novamente se ela queria.

Milena topou.

Negócio agora era enfrentar aos pais e Marcela. Comunicou aos pais a situação e Eliocárpio não se conformou. Teve uma violenta discussão com o filho e o expulsou de casa.

Rodrigo tinha umas economias e conseguiu também com a ajuda da mãe alugar um pequeno apartamento. Rapidamente arrumou um emprego num pequeno escritório de advocacia e assim sustentar a ele e Milena.

Milena largou a prostituição e começou a cuidar do lar. Rodrigo e Milena eram um casal feliz e o rapaz tinha cada vez mais certeza de ter tomado a decisão certa. Sentia saudade de seus pais, queria fazer as pazes com seu pai, mas se o preço de viver um grande amor era esse estava disposto a pagar.

Os anos passaram e a situação financeira do casal melhorou a ponto de planejarem ter filhos. A vida estava cor de rosa, mas ganhou tons escuros.

Um dia Rodrigo recebeu uma carta anônima nela estava escrito que Milena o traía. O mundo de Rodrigo caía naquele instante. Até ali ele nunca desconfiara da esposa, mas a partir daquele momento desconfiava até da sombra.

Nada pior para um homem que suspeitar que outro homem toca sua mulher. A dor do corno é pior quando há dúvidas que certeza.

Rodrigo não agüentou e comunicou a Milena que viajaria no final de semana a trabalho e só voltaria segunda. Mentira, ele queria dar flagrante.

Rodrigo saiu de casa e foi até uma padaria. Pediu uma média com pão e manteiga e esperou por duas horas e voltou pra casa. Abriu a porta devagar para que ninguém ouvisse e se encaminhou ao quarto abrindo a porta de uma vez só.

Ao abrir a porta, o impacto.

Rodrigo deu de cara com Milena e Alexandre peladões na cama. Alexandre, seu melhor amigo!

Ele ainda levantou e tentou argumentar que não era nada daquilo que Rodrigo pensava, mas o rapaz nem quis saber. Sacou uma arma e descarregou o revolver nos dois.

Rodrigo foi preso em flagrante e na sala da delegacia, esperando o advogado, pensou na merda que se metera, em como tinha mudado toda sua vida, jogado tudo pro alto por causa daquela mulher e ela pagara daquela forma: com traição.

De cabeça baixa, olhando para a mesa, nem percebeu quando o advogado entrou, nem percebeu que não era advogado e sim advogada.

Ela disse “Rodrigo” ele levantou a cabeça espantado: era Marcela, sua ex noiva.

Rodrigo levanta e fica frente a frente com Marcela. Os dois se olham por uns segundos até ela dar um violento tapa em seu rosto.

O rosto de Rodrigo vira com o impacto do tapa. Ele volta a olhar para Marcela, que joga uma calcinha em seu rosto e o empurra pra mesa dizendo..

- Cala a boca e me come que só temos cinco minutos.

É... A vida tem dessas coisas, amigos.

sábado, 14 de julho de 2012

Buraco da Fechadura - "Feijoada Completa"


Neste sábado, a coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a “Buraco da Fechadura”, traz uma festa culinária que se torna indigesta...

Feijoada Completa

“Mulher, você vai gostar:
Tô levando uns amigos pra conversar.
Eles vão com uma fome
Que nem me contem;
Eles vão com uma sede de anteontem.
Salta a cerveja estupidamente
Gelada pr'um batalhão
E vamos botar água no feijão”

Esses versos são da música “Feijoada Completa” de Chico Buarque e retratam bem como era a feijoada da dona Zezé, a mais famosa do Rio de Janeiro.

A explicação popular mais difundida sobre a origem da feijoada é a de que os senhores das fazendas de café, das minas de ouro e dos engenhos de açúcar forneciam aos escravos os "restos" dos porcos, quando estes eram carneados.

O cozimento desses ingredientes, com feijão e água, teria feito nascer a receita. Tal versão, contudo, não se sustenta, seja na tradição culinária, seja na mais leve pesquisa histórica.

Segundo especialistas em assuntos culturais e historiadores do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, essa alegada origem da feijoada não passa de lenda contemporânea nascida do folclore moderno, em uma visão romanceada das relações sociais e culturais da escravidão no Brasil.

O que não tinha nada de lenda era a esplendorosa feijoada de dona Zezé.

Zezé era baiana do Império Serrano, desfilando na escola desde pequenina. Até que decidiu descansar e comprou um sítio em

Magé, interior do Rio de Janeiro.

Mas o descanso de Zezé era trabalho. Ela tinha um bar na frente do sítio que reunia quase todos os bebuns da cidade e outros do Rio, que iam até o local matar saudades da velha baiana. A rapaziada adorava ouvir as histórias de Zezé e principalmente ir até lá para o “beija mão”. Ela era a madrinha de todos.

Revelou muitos artistas de sucesso: muitos bambas hoje das escolas de samba devem seus sucessos à velha baiana. Então, quando ela realizava uma de suas famosas feijoadas no sítio o Rio de Janeiro parava.

Era a feijoada mais famosa que existia. Reunia artistas, famosos que lhe tinham devoção, aspirantes com o sonho do estrelato, políticos, jogadores de futebol... Todos se espremiam e confraternizavam para provar aquela delícia e tomar uma cerveja gelada ao som de muito partido alto.

O feijão era muito saboroso e levava carne de todos os tipos. Carne seca, orelha de porco, rabo de porco, pé de porco, costelinha, paio e linguiça portuguesa.

Não podiam faltar as cebolas grandes, o maço de cebolinha verde picadinho, folhas de louro, dente de alho, pimenta do reino, pinga, sal, couve, farofa e claro a laranjinha e o torresmo - que dão todo o sabor.
E dependendo da quantidade de gente, mais água no feijão.

O sonho de qualquer carioca que tenha um pouquinho de balacobaco e telecoteco nas veias era ser convidado para essa feijoada e no fim daquela semana haveria mais uma.

Zezé era casada com Joca, antigo compositor da Portela. Isso fazia ocorrer uma rivalidade dentro de casa entre as duas grandes escolas de samba de Madureira.

Joca era o típico malandro carioca.

Adorador de uma pinga e de sinuca: chegava altas horas da noite em casa, rei do carteado e dizem, das mulheres. O que provocava grandes “qüiproquós” na residência dos baluartes do samba. Não era raro acontecer de panelas voarem pra cima de Joca e o malandro dormir do lado de fora - com cachorro lhe lambendo o focinho.

A velha era danada e depois da velhice a coisa foi ficando séria. Até queixa em delegacia Joca deu depois de apanhar da mulher.

Mas o tempo era de alegria, era dia de feijoada!!

Dona Zezé acordou cedo e pegou duas das noras para ajudar. A Zélia, mulher de seu filho mais velho Joquinha e a Yara, mulher de Nestor, o do meio. Norminha, namorada de Dinho, fugiu: essa só queria saber de ‘piriguetear’.

A senhora colocara de molho na véspera as carnes já salgadas e na manhã do evento levou o feijão preto ao caldeirão com bastante água. Em outra panela ferveu os ingredientes postos de molho e já no fim da manhã na companhia das noras juntava o refogado feito à parte e deixava ferver.

Os convidados chegavam e dona Zezé recebia a todos com sorriso aberto. Joquinha e Nestor chegavam com os engradados de cerveja e Dinho preparava a caipirinha que nunca pode faltar a uma feijoada. Era uma grande festa.

Uma roda de samba foi montada misturando sambistas da velha e da nova geração. Mulatas faceiras sambavam e a caipirinha batia bem na garganta acompanhada da cachaça e da cerveja. O torresmo enganava a fome dos convidados enquanto a feijoada ficava pronta.

Dona Zezé deixou as noras tomando conta da cozinha e pegou o microfone para cantar sambas antigos do Império Serrano. A escola do morro da Serrinha, fundada em 1947, é inúmeras vezes campeã do carnaval carioca, uma das escolas mais tradicionais e respeitadas e dona de um acervo fantástico de sambas.

Cada vez mais convidados chegavam e escutavam logo na entrada a voz aveludada de dona Zezé. Candidatos à Câmara dos Deputados misturavam-se a bêbados sem identidade que eram apenas conhecidos por apelidos.

Um deles, o Xexéu, era metido a poeta e adorava declamar suas poesias no meio do samba. O homem parecia incorporar Vinicius de Moraes com o microfone na mão e declamava sonetos que misturavam lirismo e cachaça. Dizia-se não um parnasiano, mas um “beberziano”.

Já Zé Gaguinho era cantor, apesar do nome, era difícil e nervoso conversar com o homem que mal conseguia pronunciar as palavras. Mas quando soltava a voz para cantar era uma transformação. Zé Gaguinho tinha uma voz grave, poderosa e dizia com orgulho cantar parecido com Nelson Gonçalves. E o danado cantava bem mesmo.

‘Negão do Frete’ era um sujeito muito engraçado que lembrava o Mussum. Dono de uma gargalhada contagiante contava piadas como ninguém. Até o Costinha teria a aprender com o jeito do Negão contar piadas: ele incorporava o personagem e fazia todos acreditarem que a história era real.

Tinha o pastor Eugênio, sujeito sério, homem de Deus que adorava comer sua feijoada com suco de acerola, A Lady Batalhão, único travesti da região que se emperiquitava todo para ir à feijoada parecendo ir numa festa de quinze anos. Detalhe: era filha do pastor. Ainda tinha o Almeidinha, famoso 171 de Magé que contava mentiras absurdas como se fosse verdade, como no dia que ele jurou ajudar Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz a terminar uma música.

E foi chegando gente, mais água no feijão...

Deputado Clementino precisava se reeleger e, claro, foi à feijoada. Todo mundo sabia que ele odiava povo; por isso aplaudiam alto de forma irônica seu discurso. No fim o deputado foi de pessoa em pessoa entregar seu “santinho” de campanha e pegou inúmeras crianças melequentas e choronas no colo, fingindo a felicidade de tomar um vinho em Paris.

Todos estranhavam a ausência de Joca. Dona Zezé de forma séria respondia que botara o safado para correr, mas nenhum convidado levava a sério e rindo comentavam que daqui a pouco ele estava de volta mais uma vez.

O delicioso cheiro da feijoada já exalava por todo o sítio e o samba comia solto, com medalhões da MPB fazendo duetos e improvisando com os jovens; era um espaço democrático. Quase na hora da comida chegaram alguns jogadores de futebol dos quatro grandes times do Rio que sentaram na roda e pegaram tamborins, tantãs e surdo de marcação como qualquer outro – além de suas cervejas.

Até que a hora chegou.

As panelas foram colocadas em mesas na varanda e a fila enorme foi montada sem privilégios. As pessoas batucavam com os talheres nos pratos felizes cantando sambas enquanto dona Zezé e as noras serviam.

E como sempre a feijoada estava maravilhosa. Todos elogiavam dona Zezé e comentavam pela carne estar ainda melhor naquela tarde. A senhora respondia que fizera de um jeito diferente e recebia elogios entusiasmados. Xexéu subiu em uma cadeira e de improviso declamou uma poesia em homenagem à feijoada, dizendo que a feijoada era o Brasil que dava certo: em cada grão de feijão ou pedaço de carne estava a alma e o coração do povo.

Deputado Clementino mandou que um assessor anotasse para usar aquelas frases na campanha.

Ninguém conseguiu comer um prato só: repetiam uma, duas vezes. Fazia um calor infernal no Rio de Janeiro, mas ninguém se importava. O que importava era a feijoada!! A comida dos Deuses!!

E de qualquer jeito a cerveja amenizava o calor.

Aquele dia bacana passava. As pessoas felizes conversavam, paqueravam, cantavam, batucavam e sambavam. Dona Zezé sentou na roda e pegou um chocalho para acompanhar os sambistas.

Uma equipe de tv da Alemanha chegou ao sítio para fazer uma reportagem mostrando duas paixões do brasileiro, o samba e a feijoada. Almeidinha se ofereceu como tradutor, mas ninguém sabia se o 171 estava traduzindo sério ou só dando mais um golpe.

Dona Zezé mostrou todo o sítio, os convidados e as panelas quase vazias com os produtos de sua feijoada. A repórter, uma loira que já estava com rosto vermelho e suando em bicas por causa do calor queria saber os segredos da feijoada e o tipo de carne que ela usava, mas dona Zezé respondeu que era segredo. A fórmula era só dela e morreria com ela.

Acabou convidando a equipe da emissora alemã para provar a feijoada. Fez um prato pra cada um, Nestor fez a caipirinha e os alemães ficaram loucos com os sabores.

O samba rolava com as pessoas ainda estranhando a ausência de Joca achando que era uma briga boba e que rapidamente ele entraria na feijoada, mas nada do homem chegar. Era a primeira vez que ele não participava do evento.

Até que um carro da polícia parou na frente do sítio e os policiais entraram. Yara pediu que Cleide fosse ver se ainda tinha feijoada, mas dona Zezé mandou que esperasse, que talvez o motivo fosse outro.

Os policiais se aproximaram e dona Zezé perguntou em que poderia ajudar. Um deles contou que receberam denúncia anônima que ocorrera um assassinato na casa.

Nesse momento o pagode parou. Tudo parou.

Todos prestavam atenção no que dona Zezé tinha a falar, até Xexéu ficou bom da bebedeira. Dona Zezé pediu que o policial prosseguisse e ele continuou dizendo que pela denúncia ela teria matado o marido e jogado o corpo para os cachorros em seu canil.

Todos ouviam a história abismados, quando dona Zezé, serena, respondeu que aquilo não era verdade.

Antes que as pessoas se aliviassem ela respondeu que só jogara os ossos para os cachorros e o policial perguntou onde tinha parado o restante do corpo.

Dona Zezé com aquele olhar frio típico de psicopata apontou para a panela de feijão.

Estarrecidos, um olhava para a cara do outro e começavam a vomitar enquanto dona Zezé era algemada e levada para a delegacia. A feijoada daquela tarde se encerrava e de alguma forma os convidados descobriam que Joca estava presente no evento.

Aquela turma toda que se esbaldou e fez fila para cair de boca no feijão e na carne agora fazia fila no hospital de Saracuruna.

É... Aquela feijoada não caiu bem.

E vamos botar água no feijão!

sábado, 16 de junho de 2012

Buraco da Fechadura - "Fabricando Carnaval"


Neste sábado, a coluna “Buraco da Fechadura”, do compositor Aloísio Villar, traz uma alegoria do que é o carnaval dito “moderno” pelos “especialistas”.

Em tempo: as expressões referentes aos homossexuais utilizadas no texto não representam nem o pensamento do autor nem deste editor. Entretanto, infelizmente é o retrato do meio, em especial de seus mandatários. Fica o aviso.

Explicação dada, divirta-se leitor. Ria para não chorar.

Fabricando Carnaval

A Acadêmicos do Gato Molhado passava por aquilo que chamamos de ‘crise’. Outrora escola grande, com alguns títulos no carnaval carioca, a agremiação gatomolhadense vinha há alguns anos ‘na seca’ e no último festejo de Momo quase caiu para o Grupo de Acesso.

O presidente Nezinho convocou sua diretoria logo após o desfile e cobrou o motivo da escola quase ter ‘tomado na tarraqueta’. O diretor de carnaval Chocolate disse que o enredo não rendera bem na avenida, os jurados não entenderam nada e o público ficou com cara de bunda.

Nezinho, irritado, perguntou como podiam não entender um enredo tão simples como a “viagem de Maurício de Nassau pelo Império Inca na pós modernidade do terceiro milênio sobre a era de Aquarius”? Chocolate tentou desconversar e Nezinho mandou “demitam o Xibiu de Jesus!!”.

Chocolate lembrou que o carnavalesco não podia ser demitido, pois, além de não receber salários há seis meses ainda arrumava investidores para a agremiação carnavalesca. Resignado Nezinho sentou-se na cadeira presidencial e resmungou “temos que aturar a bicha louca”.

Xibiu entrou na sala e Nezinho logo levantou abrindo os braços e dizendo “meu carnavalesco!!”. Xibiu mandou que o homem nem tocasse nele, pois, estava “estressadérrimo” do último carnaval e pediria as contas da escola.

Nezinho implorou para que o carnavalesco não fizesse isso, enquanto Xibiu contava que não agüentava mais trabalhar com baixo orçamento e desperdiçar seus enredos geniais. Chocolate respondeu que o único jeito era buscar um enredo patrocinado. Nezinho esbravejou que era contra seus princípios.

O ano seguinte seria o do centenário de Tio Catatau, fundador e maior nome da história da agremiação. Chocolate respondeu que ele já tinha morrido, então nem ligaria de não ser homenageado. Nezinho bateu o pé dizendo não: tinha dado a palavra à família de Tio Catatau e não voltaria atrás.

Xibiu comentou que em enredos patrocinados existia a possibilidade de desvio de verba e Nezinho perguntou como arrumariam um enredo assim. Chocolate respondeu que seu primo Nenê Beiçola tinha conhecimento com empresários paulistanos e poderia ajudar.

Conversaram com Nenê Beiçola, ‘171 profissional e juramentado’ e decidiram ir a São Paulo negociar. Xibiu tinha medo de avião, então os quatro decidiram ir a terras paulistanas no Fusca velho de Chocolate.

Partiram naquela geringonça torcendo para que não quebrasse no meio do caminho. Só que quebrou no meio do nada fazendo fronteira com o “coisa nenhuma”.

Desceram do Fusca e viram uma cidade quase fantasma, abandonada no meio da poeira com algumas casas, bichos andando na rua e um calor do diabo.

Xibiu tirou o leque e começou a se abanar desesperadamente reclamando do calor. Nezinho percebeu um posto de gasolina próximo e empurraram o carro até lá.

Tinha apenas um homem sentado numa cadeira ao lado da bomba de gasolina, tirando uma pestana, quando Chocolate perguntou onde tinha uma oficina mecânica.

O homem respondeu que também era dono da oficina, mas só trabalhava na mesma a noite porque era frentista de manhã e prefeito da cidade de tarde. Nezinho tentava entender aquela situação quando Chocolate chegou próximo e perguntou “você é o prefeito da cidade?”.

O homem se levantou e cumprimentou Chocolate dizendo “sim, Ribamar Macieira, seu criado”. Nenê Beiçola logo teve senso de oportunidade: perguntou o nome da cidade e quantos habitantes tinha. Ribamar respondeu que se chamava Bole-Bole e tinha dois mil habitantes. Nenê esfregou as mãos e disse “temos um enredo”.

Nenê abraçou Ribamar e começou a andar com ele acompanhado de Nezinho e Chocolate que nada entendiam. Xibiu ficou no carro mexendo em seu ventiladorzinho portátil. Perguntou ao prefeito se ele nunca pensara em ver sua cidade retratada na Marquês de Sapucaí. O homem respondeu que gostava de samba, mas ali tinha nada pra mostrar.

Nenê mandou que ele se despreocupasse porque no carnaval atual ninguém ligava pra essas coisas. Era só ter algum chamariz na cidade que eles desenvolviam toda a história. Ainda assim o prefeito respondeu que não se lembrava de nada.

Nezinho naquele instante começou a reclamar. Nenê perguntou qual era o problema e o homem respondeu que pisara em bosta de vaca. Nenê gritou que era isso. Eureca!

O homem virou pra o prefeito e disse que Bole-Bole era a capital mundial do esterco. Ribamar nada entendeu e Nenê explicou que venderiam a imagem da cidade como a capital mundial do esterco e sua importância fabricando fertilizantes para a melhoria da prática agrícola. Bole-Bole era o local dos melhores fertilizantes do planeta.

Ribamar coçou a cabeça e perguntou se aquilo daria certo. Nenê devolveu perguntando se tinha alguma indústria na cidade e o prefeito respondeu “moço, aqui só tem poeira”.

Perguntou pelo cofre da prefeitura e ele respondeu que estava vazio. Nenê reclamou que assim complicava, mas o prefeito contou que tinha uns fazendeiros na região. Os olhos de Beiçola brilharam e ele pediu que o prefeito marcasse uma reunião com esses fazendeiros.

Na reunião Nenê Beiçola contou todos os benefícios que a cidade poderia ter passando na Sapucaí ao vivo pela Globo para mais de cem países. A cidade ficaria mundialmente famosa, viraria ponto turístico com o principal, renderia muito dinheiro.

Dinheiro sempre é a palavra mágica, aquela que abre portas; e assim os olhos dos fazendeiros brilharam. Dois dias depois a prefeitura de Bole-Bole e a Acadêmicos do Gato Molhado assinavam um contrato de cinco milhões de reais que seriam destinados ao carnaval da agremiação.

Imediatamente Nenê Beiçola pegou quinhentos mil e se despediu dos dirigentes dizendo que tinha que arrumar enredos para mais três escolas.

Ribamar que era humilde - mas não bobo - botou a mão em trezentos mil e Nezinho e Chocolate mais seiscentos mil cada. Nezinho chegou em Xibiu e contou que ele tinha três milhões para fazer um enredo sobre a capital mundial do esterco.

Xibiu com os olhos arregalados perguntou se era sério: que queriam que ele fizesse um enredo sobre bosta. Chocolate respondeu que sim. O carnavalesco fez um escândalo respondendo que era um artista e não faria enredo sobre cocô.

Chocolate enfureceu-se e falou “Olha só, sua bicha burra: sua chance de receber salário é essa, vai sim fazer a porcaria desse carnaval!!”. Xibiu ainda injuriado disse que cocô sozinho não sustentaria um enredo e Chocolate respondeu que era esterco, não cocô.

Nezinho emendou mandando que ele inventasse. Colocasse que veio do Oriente, passou pela Europa, fez parte das tradições africanas, que inventasse qualquer coisa até que o esterco chegasse a Bole-Bole.

Contrariado Xibiu fez a sinopse e ela foi entregue aos compositores. Eles leram numa reunião e o compositor mais antigo da casa perguntou se era aquilo mesmo, um enredo sobre cocô. Chocolate respondeu que não: era esterco.

A disputa de samba se iniciou com toda aquela festa que os compositores fazem nas quadras nesse período. Três sambas foram classificados para a final e Nezinho, Chocolate e Xibiu se reuniram para decidir o vencedor.

Xibiu defendeu um samba que era de um dos seus casinhos, Chocolate queria outro composto por seu sobrinho e Nezinho um terceiro do seu parceiro de pôquer. Uma grande confusão.

No dia da final logo após as apresentações Nezinho pegou o microfone pra anunciar o vencedor.

Essas foram suas palavras, absolutamente emocionantes:

- A gente tivemos grandes obras nesse concurso de samba-enredo, mas infelizmente muitos ficaram pelo caminho e infelizmente a gente não podemos agradar a todos já que nem Jesus Cristo agradou. Eu fiz a escolha sozinho e se não der certo podem vir me cobrar a mim mesmo. Como vocês sabem em samba-enredo só se ganha um, mas aqui ganharam os três, juntei a porra toda e o samba é esse.

Passou o microfone para o interprete da escola, o famoso Desdentado do Gato Molhado, que cantou o hino da agremiação.

Acadêmicos do Gato Molhado
Enredo: A viagem encantada do esterco: de Bole-Bole para o mundo adubando a vida
Presidente: Nezinho
Diretor de carnaval: Chocolate
Carnavalesco: Xibiu de Jesus

Compositores: Bololô, Vandercreison do Gato, Ananiel, Bola 7, Marcaradinho Gaúcho, Roberval do Posto, Feliciano do GatoNet, Zezeca da Vila Mimosa, Maneta do Cavaco, Stevie Wonder do Acari, Betão da Milícia, Buzunga da Crackolândia, Sardinha da Feira, Renatinho da Laje, Bruno Revelação, Cadinho da Ilha e Pedro Migão

Intérprete: Desdentado do Gato Molhado

"Desde os tempos mais antigos
Antigos pra cacete
O esterco é importante
Pra vida de toda a gente
Começou no oriente
Viajou pro ocidente
Em Roma e no Egito imperou
Os fenícios tinham adoração
O adubo vem em forma de oração

Vai vaquinha vai
Deixe o rastro que garante a produção
Vai vaquinha vai
Deixe a bosta pra delírio do povão

Chegou ao nosso continente
O Brasil foi pra frente
Orgulhoso desse mau odor
Numa cidade abençoada
O esterco fez morada
E a exportação começou
Das mãos do trabalhador
Do seu suor o mundo foi sorrir
Fertilizando a vida
Hoje é tema na Sapucaí

Sou Gato Molhado
Boto no peito as cores do meu pavilhão
Canto Bole-Bole
E dou sacode sonhando ser campeão"

O samba do crioulo doido até que deu certo e fez sucesso no pré carnaval. Com a grana, Xibiu de Jesus conseguiu fazer boas alegorias e fantasias e a escola entrou como uma das favoritas na avenida.

O samba não rendeu o que a escola esperava. O desfile foi burocrático, xoxo como de costume no carnaval atual. Os desfilantes em alas não conseguiam sambar, brincar, evoluir; sempre que tentavam um diretor de harmonia os empurrava mandando andar. Não saiam de suas posições na fileira e passaram pela Sapucaí como numa marcha militar.

Quase metade da escola era de componentes com camisas com o rosto de Nezinho, que mais atrapalhavam a agremiação que qualquer outra coisa.

Mas mesmo sendo um desfile quase sem samba, sem alegria, foi um desfile considerado perfeito para os padrões atuais. Beleza no visual trazida por bonitos carros e fantasias e sem abrir espaços entre as alas.

E como atendeu todos os requisitos do carnaval atual ganhou com dez em tudo, depois de muito tempo tornando-se campeã do carnaval. Uma grande festa foi feita entre os dirigentes, prefeito de Bole-Bole e os fazendeiros. Xibiu de Jesus retocava as alegorias para o desfile das campeãs e Nezinho planejava achar outra cidade pra patrocinar a luta pelo bicampeonato.

No desfile das campeãs a escola se posicionou para entrar tomando vaia do público. Nezinho mandou que Desdentado não ligasse e desse logo o grito de guerra. O cantor pegou o microfone quando ouviu-se uma algazarra.

Nezinho perguntou o que ocorria e de repente todos tomaram um grande susto. Uma multidão invadia a pista da Sapucaí.

Era o povo. A polícia tentou impedir, mas não teve como segurar o povo. Eram aquelas pessoas barradas pelos desfiles da atualidade, que não tem dinheiro para comprar ingresso para ver nem desfilar.

Os pobres, desdentados (sem ser o cantor), os favelados, os humildes, o povo. Sim, o povo tomava de volta a Marquês de Sapucaí, tomava de volta o que é seu.

Nezinho, a Acadêmicos do Gato Molhado e os dirigentes do carnaval carioca olhavam abismados aquela multidão feliz cruzar a Sapucaí com surdos, tamborins, cuícas, chocalhos, caixas cantando sambas antigos, expressando a felicidade de quem ama o samba de verdade.

Muitas juraram naquela noite inesquecível terem visto desfilar com o povo Candeia, Paulo da Portela, Natal, Silas de Oliveira, Cartola, Ismael, Noel, Clara Nunes, dona Zica, dona Neuma, Aroldo Melodia, Jamelão e tantos outros baluartes que fizeram a história de nosso carnaval.

Todos unidos cantando “não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar, o morro foi feito de samba, de samba pra gente sambar”.

Nezinho abismado olhava e perguntava o que fazer. Xibiu rebolativo respondeu “eu vou sambar com o povo, você? Fica com essa bosta aí” - e foi embora.

E naquela noite o carnaval carioca adubado renasceu.

sábado, 2 de junho de 2012

Buraco da Fechadura - "Deram volta no morto, mas acabaram sambando..."


Neste sábado, a coluna "Buraco da Fechadura", com os contos de Aloisio Villar, retorna contando o dia em que deram volta no morto - mas este voltaria para o acerto de contas...

Garantia de boas risadas.

Deram volta no morto, mas acabaram sambando...

Ah o carnaval...

Quem vê os desfiles de escolas de samba, aquela coisa linda considerada por muitos o maior espetáculo da Terra não sabe como é para chegar até ali, o desfile em seus 82 minutos de avenida.

Os trabalhos das escolas de samba começam poucas semanas depois do carnaval. As escolas escolhem os enredos que vão contar no carnaval seguinte: de preferência enredos que dêem algum dinheiro para a escola. Desse enredo é confeccionada a sinopse, que nada mais é que o roteiro do que a escola levará para avenida: setores, ordem dos carros e alas. Tudo começa a ser feito no barracão da agremiação.

Dessa sinopse, dessas informações contidas nela são feitos os sambas de enredo. Para você ouvir aquele samba na avenida embalando a escola um processo difícil e disputado é realizado.

Mais ou menos em junho os compositores recebem essas sinopses e montam suas parcerias para o concurso que escolherá o samba. Cada parceria tem em média cinco pessoas e nem todas elas escrevem: uns dois ou três fazem os sambas. Os outros são os responsáveis por colocar torcida na quadra, ter boa política com a diretoria da agremiação ou bancar o financiamento da disputa.

Sim, porque uma disputa de samba-enredo é cara. No Grupo Especial do Rio de Janeiro a parceria campeã recebe mais ou menos trezentos mil reais em direitos autorais, então é evidente que esse dinheiro "não vem fácil".

São necessários gastos como colocar torcida na quadra e para essa torcida estar dentro da quadra os compositores tem que comprar ingressos. Não só ingressos como dar churrasco para esses torcedores, locomoção e bebida dentro da quadra.

Tem que contratar cantor famoso nas escolas de samba e esse cantor precisa de outros cantores para acompanhá-lo, músicos que toquem cavaco e violão, os compositores tem que gravar cds para entregar na escola... Os gastos são altos: com menos de quarenta mil reais dispendidos você não consegue fazer um samba campeão.

O concurso dura mais ou menos dois meses e a cada semana sambas são eliminados até que sobram três ou quatro - que são os finalistas.

Explicada como é uma disputa de samba-enredo e todas as suas dificuldades, vamos à história.

A disputa na Acadêmicos da Guanabara sempre foi difícil. A escola é conhecida por ter os maiores poetas e os sambas mais famosos do Rio de Janeiro e foi assim até recentemente.

Até que os talentosos e malandros Dudu, Martinho, Larcinho e Quito decidiram montar uma parceria.

Dudu e Martinho já eram compositores antigos da casa e se juntaram a Quito que era um excepcional cantor e que se transformara em cantor da escola. Larcinho era um garoto, filho do vice presidente da escola, o senhor Lárcio Sodré.

Ganharam dois anos a competição na escola e como cada vez que se ganha fica mais difícil vencer no ano seguinte tinham que fazer algo para garantir o tricampeonato.

Conseguiram um patrocínio poderoso com o Major Barrosão, chefe da milícia na área que se dispôs a ajudar financeiramente no que precisasse a parceria, só querendo sua grana de volta em caso de vitória do grupo.

Concordaram com a oferta e para fechar o grupo pensaram em um antigo compositor da Acadêmicos que há muito tempo não escrevia e se transformara no responsável pela quadra da escola: Gilberto Borjalo.

Parceria formada, fizeram o samba e foram para a disputa. A parceria era muito talentosa e conseguiu o tricampeonato, ou seja: grana preta garantida por mais um ano.

Na semana seguinte Dudu, Martinho, Quito, Larcinho, Barrosão e Borjalo promoveram um mega churrasco no morro, com presenças até de políticos que promoviam o “beija mão” ao major. Barrosão dava tiros ao alto dizendo que quem mandava ali era ele e sempre ganharia o samba que ele quisesse na escola; que usaria a grana que os compositores lhe devolveriam para fazer uma escolinha de percussão na comunidade.

O dinheiro só saía depois do carnaval. A escola não fez um bom desfile, escapando do rebaixamento por pouco, mas escapou: era o que importava. Assim a parceria poderia planejar o tetra e ganhar mais dinheiro.

Souberam que o dinheiro seria liberado na segunda de manhã e no domingo resolveram fazer uma festinha para comemorar. Quito era casado e Dudu homem caseiro, então não foram. A festinha foi comandada por Martinho e Larcinho.

Pelas tantas Larcinho comunicou a Martinho que tinha chamado Borjalo. Martinho perguntou se era uma boa, a festa estava cheia de mulheres, bebida, não era muito a praia de Borjalo que gostava mais de tomar café e jogar cartas, mas Larcinho mandou que o parceiro não se preocupasse, que o “coroa iria se amarrar”.

Borjalo chegou um pouco depois e os três farrearam muito com cinco mulheres estonteantes, cheias de amor para dar e bebidas de todas as espécies. A farra durou a noite toda até que todos apagaram e Martinho acordou com o relógio tocando: era hora de pegar o dinheiro.

Cheio de ressaca Martinho acordou e perguntou a Larcinho por Borjalo, o rapaz respondeu que não vira. Procuraram por toda a casa até que encontraram o velho no banheiro com a cabeça na privada. Borjalo estava morto.

Larcinho soltou um “puta que pariu” e correu para tirar a cabeça de Borjalo da privada. Martinho reclamava que bem que tinha dito para não chamar Borjalo e Larcinho revidada mandando que ele fizesse alguma coisa. Martinho pegou o telefone e ligou correndo para Quito e Dudu.

Os quatro ficaram lá na sala com o corpo de Borjalo perguntando o que fariam. Quito respondeu que ligaria para a escola de samba informando o falecimento e perguntando por parentes para comunicar. Quando começou a discar o celular Dudu mandou que desligasse.

Dudu falou que não podiam fazer isso, porque se comunicassem o falecimento a parte do dinheiro de Borjalo ficaria presa e sobraria para os quatro ter que dar a parte de Barrosão. Ficaria muito pesado para eles dividirem aquela despesa em quatro partes ao invés de cinco, quase sobraria nada.

Larcinho disse que ele tinha razão e Dudu continuou dizendo que Borjalo não tinha mulher nem filhos então poderiam dar a parte dele toda para Barrosão e completar só com um pouco de dinheiro deles. Seria perfeito: eles ficariam com muito mais dinheiro que pensaram, dariam o dinheiro de Barrosão e ficariam todos felizes.

Martinho disse que o plano era bom, mas perguntou como fariam aquilo.

Dudu, Quito, Martinho e Larcinho foram até a arrecadadora de direitos autorais com Borjalo a tiracolo de chapéu e óculos escuros, copiando o filme “um morto muito louco”. A diretora do órgão notou que Borjalo estava muito quieto e os rapazes disseram que era ressaca. Ela entregou documentos à eles e disse que já voltava com os cheques.

Na saída dela rapidamente Dudu assinou os documentos referentes a Borjalo com assinatura perfeita e quando ela voltou entregaram os documentos e pegaram os cheques.

Saíram dela, pegaram o dinheiro no banco, deixaram o corpo de Borjalo sem que ninguém visse na secretaria da escola e todos pensaram que ele morrera na agremiação. Depois entregaram a parte de Barrosão e concluíram o “crime perfeito”.

Borjalo foi enterrado com a agremiação toda presente, um surdo fazendo a marcação do minuto de silêncio e os parceiros chorando sua morte - e com grana no bolso.

As semanas se passaram com tudo parecendo cair no esquecimento quando Dudu foi ao supermercado e voltando ao carro viu um bilhete no vidro. Pegou para ler e estava escrito: “deram volta em morto”.

Dudu se irritou com aquela brincadeira sem graça, mas deixou para lá e entrou no carro. Chegando em casa viu no espelho do banheiro escrito em batom “deram volta em morto, vão pagar”. O telefone tocou logo depois, ele começando a ficar assustado atendeu e ninguém falava nada do outro lado. Ficou realmente assustado.

A campainha tocou e Dudu cheio de medo abriu a porta. Eram seus parceiros de samba assustados relatando os mesmos tipos de fenômenos. Quito apavorado dizia que era o fantasma de Borjalo assombrando e Dudu mandava ele parar de ser ridículo - fantasmas não existiam.

Martinho teve idéia de rezarem uma missa pela alma de Borjalo e eles foram até a igreja que o defunto freqüentava e fizeram. Mas não adiantou nada: a perseguição continuava.

Os quatro se reuniram novamente na casa de Dudu, já pensando em contratar um exorcista, quando bateram na porta violentamente. Quito se assustou dizendo que era a alma de Borjalo e Larcinho mandou que ele deixasse de ser idiota - fantasma não batia portas.

Abriu a porta e Barrosão, que era um negão, entrou branco na casa com uns capangas armados e contou que há uma semana vinha sendo perseguido pelo fantasma de Borjalo. Sonhava com o defunto e recebia cartas dizendo que o dinheiro que recebeu era roubado de morto e que ele iria pagar por isso.

Dudu tentou desconversar dizendo que era mentira, mas um Pai de Santo acompanhava Borjalo e desmentiu Dudu afirmando que era verdade. Disse inclusive que recebeu o espírito do morto dizendo que se vingaria de todos, a começar por Barrosão.

Barrosão fez o sinal da cruz e os quatro começaram a gaguejar e não dizer coisa com coisa. O Pai de Santo completou que a única forma de Barrosão escapar da maldição era que dessem as partes de dinheiro deles ao miliciano.

Martinho tremendo e gaguejando respondeu que não tinham mais a grana e nessa hora o miliciano e seus capangas sacaram as armas e apontaram aos compositores. O Pai de Santo saiu de fininho da casa enquanto os quatro se ajoelhavam e pediam piedade.

Barrosão contou “um, dois...” e interrompeu a contagem pra perguntar:

 - Vocês não estão ouvindo um 'tic tac'?

Sim, tinha um tic tac. A casa explodiu mandando tudo pelos ares.

Enquanto os bombeiros tentavam apagar o fogo da casa e a polícia entender o que ocorria, em outro canto da cidade o pai de santo chegava com uma mochila para encontrar uma mulher que também tinha uma mochila.

O homem deu um beijo na mulher e disse “o dinheiro do otário ta aqui, ele acreditou na história que seu irmão baixou em mim e falou que era dinheiro maldito”.

A mulher riu e respondeu “o dinheiro daqueles quatro idiotas também está comigo, esses nunca mais darão volta em morto. Que se entendam com meu irmão no inferno”.

Deram outro beijo e entraram em um carrão em direção ao aeroporto e desfrutar de todo aquele dinheiro.

Vai, vai dar volta em morto para você ver...

sábado, 19 de maio de 2012

Buraco da Fechadura - "Cerimônia de Casamento"


Neste sábado, tal como avisado pelo colunista domingo passado, estreia a coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a "Buraco da Fechadura". O nome é uma homenagem ao dramaturgo Nelson Rodrigues (acima), um dos maiores escritores brasileiros.

A coluna terá periodicidade quinzenal e um texto bem rodrigueano na estreia. Vamos a ele.

Cerimônia de Casamento

A casa de Dr. Rodrigues estava em polvorosa. Uma bonita mansão na Barra da Tijuca com inúmeros quartos, banheiros, piscina, sauna, tudo de bom e do melhor que o dinheiro pode comprar.

Mas o dinheiro não compra a paz e aquela casa estava de cabeça para baixo. A confusão era tamanha que parecia a Central do Brasil sexta de manhã - com trem quebrado. Estavam na sala Dr. Rodrigues, sua esposa Leocádia e a filha Lurdinha.

Lurdinha: um doce de menina, dezesseis anos ainda, normalista, sonhava em ser professora. O docinho do papai, a lindeza da mamãe, o 'cuty cuty' dos avós.

E grávida...

Sim, a menininha da família, criada com tanto amor, carinho - quase em uma redoma - estava grávida. Foi deflorada por algum meliante qualquer e isso tinha a potência de um tiro de bazuca no coração já enfartado de Dr. Rodrigues, um poderoso empresário do ramo da construção. Nem desconfiara que estavam “construindo” em sua “nenenzinha”.

Rodrigues, furibundo da vida, interrogava Lurdinha sentada em uma cadeira em uma mistura de agente do DOPS com alemão da Gestapo. Queria que a menina dissesse quem era o energúmeno que a engravidara. Lurdinha com semblante estranho olhava para o nada e Leocádia pedia que o marido se acalmasse.

- Me acalmar? Como? Essa infeliz está grávida!!

A empregada trouxe água com açúcar para Rodrigues, que jogou o copo longe, Leocádia pediu então que trouxesse seu remédio enquanto ele continuava.

- Fale Lurdinha !! Quem é o infeliz??

Lurdinha nada falava. Olhava a janela e cantava baixinho. Leocádia pegou a água e o remédio da mão da empregada e entregou a Rodrigues que bebeu tudo de uma vez. Limpou a boca e vociferou.

- Você não terá esse filho, vou te levar no Dr. Peixoto, ele fará esse aborto e depois reconstituirá sua virgindade. Você parecerá uma menina recém nascida.

Leocádia interveio e disse que não aceitava. Era religiosa, seguidora das palavras de Deus e nosso senhor Jesus Cristo e não tolerava abortos em sua família.

Os dois discutiram com Rodrigues querendo o aborto e Leocádia não. A mulher insistia nos nomes de Deus e Jesus Cristo até que Lurdinha na cadeira começou a gritar.

- Deus !! Jesus Cristo !! Deus!! Jesus Cristo!!

Rodrigues e Leocádia pararam para olhar a filha que continuava gritando os nomes Divinos. Leocádia com o cuidado que uma mãe sempre tem chegou perto de sua filha e perguntou o que significava isso.

Lurdinha olhou para a mãe, levantou-se e pôs a mão na barriga dizendo...

- Meu filho é do Senhor, gerado por ele.

Rodrigues se irritou e começou a gritar que a filha era louca, enquanto Lurdinha respondia que seria mãe do Messias. Um barraco 'daqueles' até que Leocádia gritou que parassem.

Rodrigues falou pela última vez que a filha estava louca e que no dia seguinte mesmo levaria a um psiquiatra amigo dele.

Rodrigues levou Lurdinha ao doutor Brandão e ficou na recepção esperando e lendo revistas antigas. Na saída pediu que a filha esperasse e entrou no consultório para falar com o psiquiatra. Perguntou ao médico o que a filha contara e o homem respondeu que não poderia dizer porque o seu escritório era como um confessionário: o que era dito lá tinha que morrer lá.

Rodrigues insistiu. Então Brandão comentou que Lurdinha sustentava a versão que seu filho era do Espírito Santo: Deus a engravidara para que o novo Messias chegasse à Terra. Rodrigues sentou-se e falou que não sabia o que fazer com a filha: ela desde pequena apresentava problemas mentais, tomava remédios tarja preta e isso causava confusões em sua mente.

Brandão colocou a mão no ombro do amigo e aconselhou que casasse a filha. Rodrigues argumentou “mas como? Nem sei quem é o pai”! Brandão respondeu: “fabrique um”.
Enquanto Rodrigues passava por esse drama familiar, Acácio batia na porta de seu amigo e vizinho Carinhos. Sua luz fora cortada e ele não tinha como ver o jogo do Fluminense na tv. Carlinhos convidou o amigo para entrar e os dois sentados viam o jogo do Fluzão.

Dividiam uma cerveja enquanto Acácio lamentava o fato de estar desempregado e mais uma vez com a luz cortada. Carlinhos respondeu que o amigo tinha que dar um jeito nessa dureza, mas Acácio argumentava.

- Mas como? Já tentei de tudo? Distribuí currículos!!

Carlinhos, bebendo, respondeu brincando que talvez fosse o caso de assaltar. Foi brincadeira, mas Acácio começou a pensar no assunto.

A dureza era grande, tinha uma paquera, não era namorada ainda chamada Dorinha e nem conseguia sair com ela por nunca ter dinheiro. Tinha que dar uma solução naquela situação e arrumou uma arma emprestada com um primo. Iria assaltar.

Andou pela Barra da Tijuca, terra de grãs finos do Rio de Janeiro e conseguiu entrar em um condomínio de luxo. Andou através das ruas do condomínio esperando que algum ricaço desse mole e viu um carro chegando. Era o de Rodrigues.

Seria ele o alvo.

Acácio se aproximava devagar do carro com a arma na mão para render o empresário quando um bandido chegou antes dele com arma e mandou que Rodrigues descesse.

Acácio ficou sem reação vendo o bandido render Rodrigues e com arma apontada para o empresário, mandando que ele abrisse a casa. Mas o rapaz pensou rápido e numa mistura de ataque de honestidade e senso de oportunidade apontou a arma ao bandido e gritou.

- Parado aí!! Larga o cara!!

O bandido deu um tiro que acertou o braço de Acácio e saiu correndo. Os seguranças do condomínio correram para o local enquanto Rodrigues acudia Acácio perguntando se ele estava bem.

Uma ambulância foi chamada levando Acácio. Enquanto o rapaz era levado Rodrigues comentava com Leocádia.

- Corajoso, bem apessoado. É ele...

Rodrigues foi visitar Acácio no hospital e perguntou se o rapaz estava bem. Acácio, com o braço enfaixado, respondeu que sim e o empresário mandou que ele não se preocupasse: todas as despesas do hospital seriam por sua conta.

Encostou a porta, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama de Acácio dizendo que era um homem direto e assim seria direto no assunto fazendo a proposta.

- Eu quero que você case com minha filha.

Acácio riu e disse que a piada era boa, Rodrigues continuou.

- Minha filha é uma menina de família, um doce, minha filha única, portanto um tesouro que tenho. Sofreu um pequeno acidente e por isso precisa de um noivo.

Acácio tentava argumentar que o homem estava confundindo as coisas, mas Rodrigues emendava.

- Eu investiguei a sua vida rapaz, sei que você não tem onde cair morto. É dinheiro que você quer? Te dou muito dinheiro, muito!! Você vai ser rico, poderoso, vai trabalhar comigo em minha empresa. Dinheiro !! Dinheiro!!

Acácio sentiu-se ofendido com o jeito que Rodrigues falou e disse que não tinha dinheiro, mas tinha dignidade, aí Rodrigues jogou a pá de cal:

- Dignidade não paga conta de luz, não compra leite, nem pão. Você sabe onde moro.

E foi embora.

Acácio ficou com aquela história na cabeça e em um boteco com Carlinhos comentou com o amigo a situação. Carlinhos ouviu a tudo boquiaberto e perguntou o que faltava ao amigo para aceitar. Acácio falou em dignidade e que tinha a Dorinha. Carlinhos mandou que Acácio parasse de besteiras e aceitasse - nem namorado de Dorinha ele era.

Voltando para casa Acácio viu a mãe passando mal e correu com ela para um hospital. A mulher foi pessimamente atendida pelo serviço público e depois dele muito brigar e de uma espera de horas com a senhora passando muito mal, finalmente ela foi atendida. Acácio ficou esperando na recepção e teve a confirmação de que ela teve um derrame e teria de ficar internada.

Acácio saiu do hospital indo diretamente a casa de Rodrigues para dizer que aceitava a proposta.

Rodrigues, com sorriso nos lábios, abraçou seu futuro genro e mandou que ele entrasse. Apresentou-o à Leocádia e pediu que a mulher chamasse Lurdinha.

Lurdinha desceu e Acácio descobriu como sua futura esposa era linda. Jeitinho angelical, de menininha. Enquanto Acácio se extasiava com a beleza de Lurdinha, Rodrigues chamou a esposa para subirem e deixar os dois a sós para se conhecerem.

Acácio sentou-se com Lurdinha e perguntou se estava tudo bem com ela. Lurdinha com os olhos abaixados respondeu que sim e perguntou se era ele seu noivo. Acácio respondeu afirmativo e perguntou se a menina concordava com aquela situação.

Lurdinha sem olhar Acácio respondeu.

- Sim, o pai de meu filho não pode assumir a criança. Então eu concordo.

Acácio perguntou quem era o pai de seu filho e Lurdinha respondeu.

- O demônio.

Acácio ficou impressionado com aquele papo com Lurdinha e em casa conversava com Carlinhos sobre não ter certeza se aquela era a decisão certa. Carlinhos respondia que sim, era menina de família, com dinheiro e, pelo que Acácio respondeu, linda.

Acácio argumentou que ela era louca e Carlinhos revidou que um dia se fosse o caso ele a internava ou se separava dela, mas para isso ele devia exigir comunhão total de bens. Naquele instante Dorinha chegou ao apartamento de Acácio e Carlinhos contou que precisava ir embora.

Acácio chamou a moça para entrar e sentaram-se. Acácio contou toda a situação a Dorinha, que ouviu a tudo estarrecida.

No fim Dorinha, triste, disse não saber o que fazer ou pensar. Levantou-se para ir embora e Acácio segurou-a pelo braço tentando convencer a moça que só ficaria casado por um período e se separaria, que ela esperasse por ele e fosse sua amante enquanto isso.

Dorinha deu um tapa no rosto de Acácio contando que não era dessas - e foi embora.

Acácio e Lurdinha engataram namoro e Rodrigues deu uma grande festa para celebrar o noivado. Chamou o genro para seu escritório e deu um cheque de cem mil reais para Acácio contando que era seu presente de casamento. Acácio olhava o cheque, nunca vira tantos zeros em sua vida e agradecia ao sogro que se aproximou e bem sério, olhando para ele, disse que queria um favor.

Acácio perguntou qual era e Rodrigues respondeu.

- Quando eu morrer quero ser enterrado com uma bandeira do Fluminense sobre o caixão.

Acácio concordou e Rodrigues abraça o genro cantando o hino do Fluminense acompanhado por Acácio.

O casamento chegou. Primeiro casaram-se no civil com comunhão total de bens - como Acácio queria: faltava o casamento religioso. Toda a nata da sociedade foi convidada. Acácio procurou Dorinha e entregou um convite querendo que ela estivesse. Dorinha com lágrimas nos olhos pegou, agradeceu, mas disse que não iria porque lhe amava.

Acácio aturdido com essa revelação se arrumou e foi para a igreja. Pensava se realmente era o certo. Ele também amava Dorinha e abria mão desse amor por dinheiro. Será que o dinheiro comprava tudo mesmo? Até o amor verdadeiro?

Na casa de Rodrigues o mesmo já partira pro casamento enquanto Leocádia e as costureiras arrumavam Lurdinha. Todas foram para o carro quando Lurdinha pediu para ir ao quarto porque esquecera uma pulseira.

Lurdinha não sabia onde estava a pulseira e revirou o quarto todo - até que achou um par de algemas. Olhou bem aquelas algemas tentando lembrar porque estavam lá e imagens vieram à sua mente.

Uma noite a empregada de casa entregou seus remédios e ela bebeu. Depois Lurdinha não se sentiu bem, estava grogue como se recebera uma super dosagem e despediu-se dos pais para deitar.

Deitou-se em sono profundo e acabou acordando com seu corpo sendo tocado. Ela grogue, sem conseguir ver direito pedia para a pessoa parar até que a tal pessoa pegou as algemas e lhe prendeu. Com as mãos presas, grogue de medicação Lurdinha foi estuprada sem poder reagir, sem gritar, apenas balbuciava “canalha... canalha...”

Ao lembrar-se que balbuciou “canalha” Lurdinha lembrou-se do rosto do estuprador. Deu um grito de pavor e jogou as algemas longe. Foi até o escritório do pai, pegou um objeto e foi para o carro onde sua mãe reclamava da demora.

Acácio, ansioso, já esperava por Lurdinha quando ela entrou na igreja de braços dados com o pai. A menina guardava uma fisionomia tensa enquanto Rodrigues era só sorriso. Chegaram ao altar. Acácio desceu para receber a noiva quando Rodrigues feliz comentou: “cuide bem de minha filha”.

Rodrigues deu um beijo na testa da filha e quando se afastava para ir ao altar Lurdinha pediu: “espere.”

Rodrigues virou-se para a filha, que falou em seu ouvido:

“Canalha! Canalha!” Neste momento tirou um revólver da calcinha e atirou no pai.

Todos se assustaram na igreja e antes que esboçassem qualquer reação Lurdinha colocou o cano da arma na boca, atirando e estourando sua cabeça.

Os convidados entraram em desespero. Era uma daquelas tragédias que ganhariam primeira página nos jornais. Acácio não sabia o que fazer quando sentiu sua perna puxada. Era Rodrigues agonizando, pedindo que o genro abaixasse. Acácio abaixou e Rodrigues falou em seu ouvido: “a bandeira do Fluminense..”.

Rodrigues e Lurdinha morreram e Acácio caminhava na praia pensando em tudo que ocorrera. Era muita coisa para sua cabeça: tantas que apenas muito tempo depois, olhando o mar, lembrou-se que casara no civil com Lurdinha e em comunhão de bens.

Saiu correndo e foi à casa de Dorinha. Tocava a campainha com insistência e a moça assustada abriu e vendo Acácio a sua frente perguntou sem nada entender:

- Você não devia estar se casando agora?

Acácio sorridente respondeu:

- Virei viúvo...

Acácio pegou Dorinha e deu um beijo apaixonado na mulher, tipo de beijo que nem dinheiro compra.

Afinal de contas, beijo de amor não tem preço.