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sábado, 21 de abril de 2012

Recriação Subversiva de um Fato da Nossa História


Quando eu era adolescente e no início da minha fase adulta eu era metido a poeta prolífico - não as experimentações que, vez em quando, publico neste espaço.

Mais ou menos em 1994/95 eu datilografei em uma máquina de escrever (sim, amigos, eu cheguei a usar uma destas) alguns poemas e os encadernei, tendo duas ou três cópias. Achei que os havia perdido nas andanças da vida.

Pois no início deste ano uma (nos dias de hoje) grande amiga avisou-me que tinha uma das cópias do caderno, que eu havia dado a ela. Aos poucos ela vem me enviando as páginas escaneadas, resgatando uma parte do meu passado.

Digo sem medo de errar aos leitores: os poemas são muito, mas muito ruins. 90% deles não tem a menor condição de serem publicados aqui sem extensas modificações, menos por refletirem imagens e pensamentos do passado e mais pela sua ruindade estilística mesmo. Também não acho legal alterá-los pois aí perderiam sua essência.

Parêntese: longe de me comparar a grande escritores, mas agora entendo porque em certas ocasiões renomados autores deixam ordens expressas de não se publicar suas produções da juventude. Fecha o parêntese.

Feita a introdução, neste feriado de Tiradentes publico um destes poemas, mais pela idéia em si e menos pelo estilo. Se o leitor não reparar nas rimas paupérrimas e se concentrar no enredo da história pode se divertir um pouquinho - e refletir que a História Oficial, muitas vezes, não reflete de forma totalmente exata o que realmente se passou.

Publico o texto exatamente como escrito originalmente, à exceção de um verbo trocado - e ele traduz um reacionarismo que decididamente é uma boa medida da minha evolução política de lá para cá, nestes quase vinte anos que se passaram. Pela referência ao "made in Brazil" em um dos versos calculo que ele tenha sido escrito entre 1991 e 1992, mas é puro chute - decididamente não me lembro.

Recriação Subversiva de um Fato da Nossa História

Em 21 de Abril de 1789
- nem antes nem depois -
nossa cidade acordou alvoroçada
pois seria nesta data destroçada
a ilusão de um grupo de arruaceiros
que não passavam de uns trapaceiros
brincando de Revolução.
Ao enganar toda uma população
são precursosres dessa nossa situação.
Que já conheciam de antemão.

A praça estava cheia
não havia lugar sequer para uma sereia.
Ao chegar à forca,
aos nossos amigos de cabeça oca
foi oferecida uma oportunidade
de realização do último desejo, possibilidade
do último gôzo terrestre.
Esperava-se algo bem campestre,
mas um tal de Tiradentes,
líder dos inconfidentes, decretou, afinal:
- Será nosso derradeiro cervejal.

Acontecida a farra,
nossos "heróis" livram-se da amarra
para subir ao umbral da morte
- que sorte!
Só que nossos amigos viam
duas cordas, portanto tinham
dificuldade de encaixar
a verdadeira (e única) corda no pescoço, lugar
correto, instrumento
da realização de um geral sentimento.

Mas o pior estava por acontecer.
Ao se cumprir a ordem dada, todos puderam ver
um fato deveras engraçado:
as cordas haviam arrebentado.
Um oficial diz, do alto de seu corpanzil:
- Só podia dar nisso. Eram "made in Brazil".
Como o código da época dizia
de maneira tal que causava azia,
que em caso de falha na execução
o arruaceiro ganhava sua libertação,
cada um deles se tornou um bamba.
E tudo acabou em samba.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Cansaço


Lutar, se a derrota é evidente
Inimigo inalcançável somente
Esforço exigido opressivo
Resultado torna depressivo
Vontade opõe exigência
Escondida alma carente
Pessoal característica anulada
Desgaste racional cavalgada

Frustrante sentir-se impotente
Máquina autômata inconsciente
Limite quadrado estreito
Amargo momento peito
Lição imposta perfeita
Doçura sempre contrafeita
Prazer sempre proibido
Falar eterno coibido

Pensar com a cabeça alheia
Estéril diária semeia
Tornado idiota imenso
Cérebro congelado eterno
Tarefa resume a obedecer
Nada vale saber
Nada vale própria iniciativa
Liberdade nunca diretiva...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Palavras Libertas



Letra que passeia
Canto da sereia
Peças justas
Expensas custas
Ilusão de ótica
Arquitetura gótica
Longínquo luar
Ligeiro caminhar
Natureza morta
Fogo corta
Barracão de telha
Miragem assemelha
Lutar inaudito
Contorno maldito
Silêncio falado
Sorriso calado
Enigma raro
Movimento claro
Tosca poesia
Alta maresia
Forte empunhadura
Variante dura
Tardio nascer
Precoce perecer
Canção ardente
Candelabro candente
Visão militarista
Adorável vigarista
Portas abertas
Palavras libertas...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Pousio


Sol a sol, lua a lua
Sobre a pedra nua
Repousa o cálido sentimento graduado
Licença poética de agrado
Licença de labuta fastio
Música cálida olhar feitio
Descanso requer batalha pousio
Lembrança preenche coração vazio

Vazio sentido rotina torna
Tediosa adaptação soberana forma
Deveres impostos molde coloca
Incerteza transborda alma provoca
Repressão prevalece sobre pensamento
Repressão prevalece sobre sentimento
Cansaço sobre alma ecoa
Cansaço sobre corpo ressoa

Final chega inflexão ponto
Sinal desequilíbrio pronto
Licença poética, descompressão
Processo de cura coração
Poesia é bálsamo que alivia ferida
Transforma enleva rotineira vida
Repouso carinho sobre pedra nua
Sol a sol, lua a lua

Racional sentido alma esmaga
Poesia alma machucada afaga
Forma das palavras não importa tanto
Principal objetivo acalanto
Pausa na rotina massacrante
Expressa sonhar amante
Lida diuturna diário conflito
Jamais, jamais escrever é detrito...


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dia Seguinte


Estranho é vencer
Quando o esperado é perder
Sentimento vivido e estranho
Na alma a surpresa eu ponho.
Confiança em falta sabemos medida
Vivência triunfo falta sabida
Luta inglória em derrota resulta
Derrotado sempre apesar da labuta

Acordo, não sei como lidar
Sensação, incerteza permeia o ar
Sinto-me desarticulado, deformatado
Não encaixo em molde formado.
Em formado molde o correto é perder
Alma desenhada em cinzel anoitecer
Rígida alma, luz embaçada
Jamais aceita vitória caçada

Vencer é bom
Mas sai do tom
Esperado no caminho a desbravar
Confiança perdida ao caminhar
Lutar, buscar, viver
Conclusão é sempre perder
A ganhar tenho de me acostumar
Derrota um dia tem de rarear...


sábado, 16 de outubro de 2010

Caminhando contra o Vento


"Impossibilidade teórica
Gramatical retórica
Escrita alegria
Conheço melancolia

Feliz quem sente
Ao mundo não mente
Incômodo forte
Sem falta de sorte

Qual a receita
Vontade estreita
Palavra apenas
Justiça sem penas

Momentos alegres, raridades
Esqueço sentires, novidades
Melancolia domina
Fundo de mina

Mina escura
Rarefeita ternura
Emoções sentidas
Vielas perdidas

Alegria esqueço
Melancolia mereço
Apreço sensível
Tristeza incrível

Alma soterrada
Esquadra armada
Eclipsado luar
Esquece sonhar

Em algum lugar
Perdi o alegrar
Mergulhado na neve
Calor é bem breve

Pior de tudo
Não fico mudo
Vida alegre incomoda
Me irrita a moda

Ao leitor suplico
Sentimento complico
Sair do labirinto
Tudo o que sinto

Do sorriso o endereço
Solicito apreço
Solicito encontrar
Necessito me lembrar...

Caminho recordar
Perda a avaliar
Congelada amargura
Angústia pura...

Rir está escondido
Coração partido
Onde está o sorriso ?
Resposta preciso..."

(Foto: Caroline Cazarin, Toca da Barriguda, BA.)


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Regime Disciplinar Diferenciado


"Sonhar mais um sonho impossível
Lutar sem saber o sentido
Esforço sem sombra incrível
Dever, o inimigo temido
Crueza implacável forma
Estreita latitude do agir
Ao sentimento a exigência informa
Não se pode deveras sentir.

Não adianta o sonhado sonho
Fonte insofismável de ilusão
No freezer o pensamento ponho
Assim não ocorre decepção
Proibido é viver alegre
Proibido é viver prazeiroso
Tarefa à sociedade integre
Cercear o sentido amoroso.

Às vezes, se sonha sem poder sonhar
Pego distraído o sonho se prende
Pune-se com chibatadas até a vida matar
Autômato passar dos dias se pretende
Carapaça fria é sua missão
Quinto plano a vontade está
Carcereiros implacáveis de tênue ilusão
Luta inglória o tempo contará.

Dias, meses, anos, décadas
Angústia deserto de emoções
Desfolhadas secas permanecem as pétalas
Humores maus expôem revelações
Areia alma internaliza tristeza
Sonhar, viver, prazer não existe
Nulidade obrigação única certeza
Escondido em cárcere coração triste.

Poesia é banho de sol semanal
Liberdade momentânea para não enlouquecer
Fugaz raio de luz matinal
Indispensável mínimo não perecer.
Poesia é fuga antecedente à captura
Cela solitária resultante punição
Alma encarcerada, permanente tortura
Debate-se sem despertar compaixão.

Sonhar não é preciso
Viver não é preciso
Resumo é frio autômato executar
Cumprir dever mais importante que amar.

Liberdade, clamor de liberdade !
Liberdade, ainda que tardia !
Declaro livre a alma da agonia
Sonhar sinto imensa saudade..."


sábado, 14 de agosto de 2010

Sem Coordenação


"Limpeza, incerteza, dia a dia
Sabia entretanto destino derradeiro
Carneiro, velório, casa eterna
Caserna aprisionada orgulhosa sensação
Coração empredernido finalmente repousa
Mariposa esvoaçante o sentimento leva
Leva de emoções finalmente libertas
Abertas comportas, fuga da solidão.

Lição emoldurada, colorida parede
Rede de volúpias represadas à frente
Tente controlar volúpia aprisionada
Nada tem poder de racionalizar
Apagar luxúria, campo do pensamento
Lamento poder fazer isto
Insisto em reprimir visão resguardada
Guardada força transformada em razão

Paixão pela frieza enfim desata
Mata a volúpia, a luxúria, o querer
Saber que é soldado do dever
Compreender que a emoção reside na escrita
Maldita rotina que a todos controla
Mola propulsora pessoal progresso
Regresso ao modelo bem viver denominado
Apaixonado dia a dia, correto sucessor
Pendor escorreito valorosa renúncia

Denúncia a coração fora da lei
Sei papel definido nesta peça
Meça com trena intestina guerra
Terra arrasada coberta está de gelo
Zêlo pela forma intrépida potência
Sequência correta é iceberg frio
Calafrio percorre fiel estrada
Calada explosão peito sufoca

Foca amestrada se torna o ser humano
Clamo a atender mundana demanda
Manda a rotina obrigatório atender
Entender que o sentir não importa
Porta fechada assim deve estar
Mata qualquer resquício de desejo
Manejo adequado é não bulir
Sair tangência despercebida lavra
Palavra solta sentido nenhum..."

P.S. - o título é um trocadilho do momento em que foi escrito, uma "Reunião de Coordenação".

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Reflexões de uma Insossa Reunião

Inatingíveis certas coisas parecem
Tudo que à humanidade é normal
Anormal aos que não a merecem
Perda transformada em natural.
Viver é um grande teatro
Em nome de um suposto 'bem viver'
Emoção implacavelmente mato
Legítima defesa em perecer.
Roda viva aprisiona a mente
Gira roda gira eterna rotina
Felicidade é algo que se mente
Coração a razão é cafetina.
Padrão do tempo hoje é sofrimento
Carcereiro de estreita masmorra
Agonia que massacra sentimento
Justiça aplicada até que morra.
Penosa pena aplicada em vil cadeia
Cubículo virtual pertencente à sociedade
Tristeza o escuro encadeia
Apagada, enfim, a personalidade.
Alma transmutada em amorfa geléia
Bovino pasto que todos usufruem
Adequar-se é mais válida idéia
Antes que as marés mudem.
Canto um canto triste de consolo
Rápido suspiro moribundo
Sentir é algo típico de tolo
Aprisionado em confinado nauseabundo.
Implacável é o tempo enclausurado
Implacável e urgente ele perpassa
Coração censurado e anulado
Insere racional massa.
Molde aproximado à vontade alheia
Cruel espaço de mórbida lembrança
Amargura este momento semeia
Declaro extinta a palavra esperança...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Lápide


"Lápides petrificadas
Congelados quadrados de ilusão
Onde repousam eternas lutas solidificadas
Onde ecoa silenciosa emoção.
Sonhos, ilusão, pensamentos
Proibidos jeitos de viver em sociedade
Esmagados retos estão os talentos
Moldados em soberana verdade.
Verdade soberana que a todos retifica
Tornando quadrados pensamentos sinuosos
Suprema força que ao sonho clarifica
Bastardos são momentos amorosos.
Preto e branco vence batalha derradeira
Renúncia ao viver em prol de um bem comum
Retrai e interioriza personalidade verdadeira
Amorfa massa sem querer algum.
Sentimento grita retido no peito
Contudo sufoca interna sensação
Querer pessoal é tornado defeito
Rebelião debelada no interno coração.
Amargura no caso estranha não é
Resposta casual reação natural
Vida nossa assim se faz ralé
Bem total dominador sem igual.
A vida cala-se à lápide retorna
Enterrado sete palmos sob pesado concreto
Quente nem frio cama morna
Jamais deixa o pulsante músculo aberto..."

sexta-feira, 9 de julho de 2010

30 Anos sem Vinícius de Moraes


Hoje, 09 de julho, completam-se exatos trinta anos de falecimento do grande diplomata, poeta e compositor Vinícius de Moraes, aos 67 anos.

Como uma pequena homenagem a um dos gênios de nossa cultura divido com os leitores três poemas, retirados de seu excelente site pessoal. Boa leitura.

Em nossa série "Final de Semana" há alguns exemplares do cancioneiro do poeta, como "Tarde em Itapoã", "Samba de Orly", "Eu Sei que Vou Te Amar" e "Samba da Bênção" - que o leitor pode ouvir clicando nos links.

Vida e poesia

A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.

Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
– Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores

Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinacão estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.

(Rio de Janeiro, 1938)

Sacrifício

Num instante foi o sangue, o horror, a morte na lama do chão.
– Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido
Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta.
No ódio do monstro que vinha
Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra
O homem sentiu a própria grandeza
E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.

Ele avançou.
Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.
As únicas estrelas que restavam no céu
Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.
O homem sozinho, abandonado na treva
Gritou que a treva é das almas traídas
E que o sacrifício é a luz que redime.

Ele avançou.
Sem temer ele olhou a morte que vinha
E viu na morte o sentido da vitória do Espírito.
No horror do choque tremendo
Aberto em feridas o peito
O homem gritou que a traição é da alma covarde
E que o forte que luta é como o raio que fere
E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.

No sangue e na lama
O corpo sem vida tombou.
Mas nos olhos do homem caído
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.


(Rio de Janeiro, 1933)

Poema dos olhos da amada

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

(Rio de Janeiro, 1950)

sábado, 26 de junho de 2010

Achados e Perdidos

Tímida forma, razão dominante
Viagem ao centro da Terra
a encontrar o coração lancinante
a lamentar pois tudo erra.
Escondendo-se em tartaruga carapaça
Escondendo-se em armado concreto
Razão ao sentimento ameaça
resulta em árido deserto

Justiça é palavra distante
Pulsante músculo não se manifesta
brusco equilíbrio nota dissonante
encerrada está precoce festa.
Prazer permitido é funeral
comemora da emoção a certa morte
frieza dominante sempre igual
culpa sempre recai sobre má-sorte.

Remar contra a maré é desistência
conformismo coração se fecha em copas
golpeia a si mesmo com carência.
Ondas barreiras formam cotas
revestindo o coração malha de aço
forte e frio instrumento de defesa
mente absorta em profundo cansaço
ilusão derrotada eterna certeza.

Esperança perdida realidade cruenta
Sonhar não vale a pena engendrar
situações onde o libertar tenta
razão impõe o devido lugar.
Sonhar não vale a pena fazer
Ilusão não vale a pena sentir
Alegria inexistir é maldizer
conclusão é emoção extinguir.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Rifa-se um Coração (quase novo)


O leitor Ronaldo Derly me envia por e-mail, tempos em tempos, bons textos de literatura brasileira.

Hoje publico aqui poema da grande escritora Clarice Lispector (foto, 1920-1977) que, de certa forma, é um pouco a minha cara. Não totalmente, mas grandemente.

Como vêem, ando meio melancólico.

Reflitam e se enxerguem.

"Rifa-se um coração (quase novo)

"Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta."

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Poema sem Enredo


"Começo a escrever
Não escrevo.
Mente a reter
impressões demasiadas a sulcar relevo
velocidade imprecisa a embolorar a lembrança
frenético pulsar de soldados a abater os neurônios defensores
lanças solitárias de aparente bonança
claves estrategistas a dissipar os favores
destinados dizeres, imiserável tesoura
palavras soltas sem algum significado
palavras soltas de perdida lavoura
confusão verbal sem qualquer predicado.

Já dizia o artista que canta para esquecer
já dizia o poeta que poetiza para lembrar
equilibrista fogo que arde sem doer
soberana arte que nem sempre expressar.
Malquisto ventre a gerar a torrente
Catarata pura de razões multiplicar
soluço pleno e solitária vertente
palavra insana sem sorte ou azar
Máscara negra que esconde nada
máscara lavra o vocábulo pescar
mascara a letra no verso largada
mascara a força no texto calar.

Hermética visão que pulsa a brincar
sem sentido que faz todo sentido
outono de luz, uma esfera solar
enredo luminoso em si entretido.
Lembrança lustrada, supremo olvidar
Sonoro som no âmago ressoa
Olvidar balanço, na linha do mar
Poema sem enredo o verso coroa."

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Farol


Parado, quieto, iluminando ao redor.
A serviço diuturno daqueles que o utilizam
o descartam quando não mais necessário.
Imóvel,
sem poder movimentar-se,
sem poder intervir na própria existência.

As vezes ele se enamora por uma onda do mar.
Sai de sua letargia rotineira e se permite
sonhar beijos apaixonados ao luar
Com sua luz viver a felicidade do amar.
Todavia a onda some
o dever rotineiro o recoloca
onde nunca deveria ter saído.

Suas decisões sempre, sempre interessantes
aos que dependem dele
a quem o farol serve
contudo as mesmas decisões
eternamente são ruins
ao farol e suas engrenagens internas.

Segue sua tarefa rotineira
rotineiro iluminar do caminho alheio
de suas escadas pende vibração pessoal
daqueles que o fazem de veículo
às suas aspirações e objetivos.

Até que um dia,
ao final de bastante tempo,
ele não serve mais.
Pende ao chão, inerte

Cumpriu a sua missão
mas não viveu
não amou
O dever é mais importante
que tudo.

Fim de linha.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Palavras Soltas


Que falta a uma estrela apagada
Enfim começar a brilhar ?
Predomínio da noite enluarada
Domina preferência do olhar.
Rotina inimigo implacável
Acomoda à luta resigna
Papel de presente amável
Personalidade resiste indigna
Soluço caminho aberto
Ventura recorrente mudança
Emoção surpreende deserto
Tropeçando completo andança
Bonança deveras chata
Loucura senhora destino
Sonho que tempo mata
Coração percebe desatino
Frequência correta matéria
Ilusão da vida alimento
Razão sobretudo séria
Ternura reflete lamento
Acende sonora surpresa
Luxúria ausente presença
Da mente torna-se presa
Aprisionada atividade tensa
Redemoninho surto que flama
Difícil aplacar rebelião
Canta, grita, chama
Soluço adormecido coração...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Caixa de Pandora


"Sentimento guardado não pode ser escondido
Domina-se a lembrança conservada no olhar
Caixinha guardada nada parecido
Salmoura conserva congelada a pensar.
Chega então tempo a não se controlar
Repentinamente o sentir desabrocha fortaleza
Razão desarmada surpreendida a apanhar
Cacos do invólucro, humana certeza.
Abre-se a caixa e desagua corrente
Carcomida caixa de forte aparência
Estabelecida está dourada semente
Racional escolha pela paciência.

Contido desejo até sabe quando
Vindoura escapada por todos os lados
Imobilizado sentido agora está chamando
Cotidiano mantém atores calados.
Justiça poeta insuflando revolta
Reação armada é total repressão
Caixa aberta o senso derrota
Sentires fugidios formando pressão.
Intensa luta em estado de guerra
Imobilismo compõe extrema barreira
Sangue é disputado a cada palmo de terra
Poeta ternura é lutadora guerreira.

Onde estará o sentir do combatente ?
Cidadão estupefacto momento não adora
Não sabe lidar com correnteza nascente
Contudo está aberta a Caixa de Pandora..."

domingo, 6 de setembro de 2009

Burocracia... eu quero uma pra viver !

Depois de Cazuza:

"Burocracia... eu quero uma pra viver !
Burocracia... eu quero uma pra viver !


Digito, confiro, carimbo

Neurônios jogados ao limbo

Controla, regulamenta, registra

Envelope, pasta, vista e revista.


Burocracia... eu quero uma pra viver !

Burocracia... eu quero uma pra viver !


Fácil de fazer ? Não pode !

Aplicação prática ? Não pode !

Registrar é mais importante que construir

Prazer supremo é o trabalho destruir.


Burocracia... eu quero uma pra viver !

Burocracia... eu quero uma pra viver !


Devolver o processo

O pedido cesso

Passos redundantes

Das regras amantes


Burocracia... eu quero uma pra viver !

Burocracia... eu quero uma pra viver !


O meio é mais importante que o fim

Completar o processo é derrota pra mim

Chegar à linha final, sem passos voltar

Burocracia não se permite derrotar


Burocracia... eu quero uma pra viver !

Burocracia... eu quero uma pra viver !

Trabalho que não agrega valor

Lobotomia é indispensável ao trabalhador

Pensar atrapalha e não adianta

Máquina a estrutura acalanta


Burocracia... eu quero uma pra viver !

Burocracia... eu quero uma pra viver !


Passos, cartórios, registros, porquês

Trabalhar e produzir para quê ?

Quem normatiza é soberano importante

Esforço e luta constante


Burocracia... eu quero uma pra viver !

Burocracia... eu quero uma pra viver !


Mais irracional, melhor

Senso prático, pior

Enlouquecer, objetivo

Corporação é motivo


Burocracia... eu quero uma pra viver !

Burocracia... eu quero uma pra viver !


Luta de classes

Linha de passes

Preenchidos formulários
Lotar os armários !


Burrocracia !"

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Drummond, um poema

Para adoçar esta hora do almoço, já um tanto quanto tardia, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

Um de meus poetas prediletos, artesão das palavras, sentimento do mundo.

"Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação."

domingo, 16 de agosto de 2009

Mário Quintana

Na descrição deste blog, escrevo que este é um espaço de "opinião, literatura e dias comuns." Mas a literatura vem ficando um pouco para trás ultimamente.

A introdução é para abrirmos um domingo muito bem acompanhados: Mário Quintana (1906-1994), um de meus escritores favoritos.

Depois tem mais.

Canção de barco e de olvido

(Para Augusto Meyer)

"Não quero a negra desnuda.
Não quero o baú do morto.
Eu quero o mapa das nuvens
E um barco bem vagaroso.

Ai esquinas esquecidas...
Ai lampiões de fins de linha...
Quem me abana das antigas
Janelas de guilhotina?

Que eu vou passando e passando,
Como em busca de outros ares...
Sempre de barco passando,
Cantando os meus quintanares...

No mesmo instante olvidando
Tudo o de que te lembrares."