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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Bissexta - "O Amor, ah o Amor!"


Neste último dia útil de 2012, a coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro, traz uma verdadeira mensagem de Ano Novo aos leitores.

Lembro novamente que a partir do próximo dia 01/01, terça feira, o Ouro de Tolo estará em endereço novo: www.pedromigao.com.br. Caro leitor, atualiza seu arquivo de marcadores.

O Amor, ah o Amor!

Fim de ano é aquela coisa: tem panetone, especial do Roberto Carlos - e gente amaldiçoando os aeroportos e as companhias aéreas. 

Brasileiro tem uma relação curiosa com o transporte aéreo. A gente é maltratado por uma extensa gama de serviços, pois passamos horas engarrafados no trânsito, sofremos com a falta de energia em casos de temporal, a telefonia e a rede de dados por celular é caótica. Mas as exigências mais severas caem na conta dos vôos. Talvez por ser algo relativamente novo nas nossas vidas, todo mundo demanda um atendimento de excelência e mimos.

Eu voltava do Rio para Porto Alegre, semana passada, depois de um dia de comemorações, festas, cervejas e piscinas, no ponto exato para dormir as quase duas horas de vôo e me esquivar do mau humor que contamina os passageiros. Estava confortavelmente instalado na segunda fileira de poltronas, mas o atraso inclemente começou a dar vazão ao tilintar de ligações telefônicas de gente se justificando.

Logo quando embarquei notei que na primeira fileira, reservada às pessoas com necessidades especiais, na minha frente iriam dois jovens portadores de Síndrome de Down: um rapaz e uma moça. Quer dizer, ela parecia ter um outro distúrbio assemelhado, ele tinha uma aparência mais típica da síndrome.

Fui despertado do estado de sonolência pela moça falando ao telefone. Se expressando com clareza, mas com alguma dificuldade, ela dizia ao interlocutor que ainda estava no Rio de Janeiro, mas fazia questão de ressaltar a felicidade de estar ali. O avião inteiro xingando a TAM pelo atraso injustificado e a moça na contramão do ânimo geral: alegre.

Ela desligou e disse ao comissário: era minha sogra.

Tomei um susto imenso. Eu jamais poderia imaginar que aqueles dois jovens ali sentados com toda a paciência do mundo eram casados. Dei um jeito de conferir e notei a aliança na mão esquerda do rapaz. Sim, eles eram casados.

E de repente, um novo mundo se apresentou ali, separado de mim por um encosto de cabeça.

Eu via casais amargurados pela longa espera, eu via pais de mau humor pela inquietação dos filhos irritadiços, eu via gente de todo tipo amaldiçoando a má sorte de ter que lidar com o atraso de uma hora do vôo. Entretanto não conseguia parar de pensar na alegria daqueles dois jovens da minha frente.

O que eles vieram fazer no Rio, afinal? Estariam em lua-de mel? Foram a algum evento? Estariam de férias, passeando pela cidade? Foram visitar parentes? Ou será que moravam sozinhos no Rio e estavam voltando ao Sul para passar o Natal com a família?

E eu pensei o quanto tempo da minha vida e da vida dos meus leitores eu desperdicei, sendo amargurado, tecendo críticas e descendo o malho no alheio. Digo isso porque quase sempre escrevi aqui falando de temas diversos, mas sempre com um olhar pretensiosamente superior, confrontando alguém ou alguma corrente de pensamento.

Como eu posso ter passado esse ano inteiro de 2012 sem falar do amor? Há algo mais belo que o amor? Mais reconfortante que o amor? Mais rejuvenescedor que o amor?

Tanta coisa aconteceu em 2012, mas a cena final foi particularmente recompensadora: aquele jovem casal e suas necessidades especiais, caminhando à minha frente na sala de desembarque, acompanhado pelos comissários de bordo (sim, eles não tinham autorização para andarem sozinhos), com tantos motivos para reclamarem da vida... Contudo celebravam o privilégio de estarem juntos: de repartirem um amor profundo.

Conheço muitas histórias de amor, claro. Mas as pessoas quase sempre amam o outro porque o parceiro é belo, é bem sucedido, é inteligente, é sexy, é poderoso. Os meus colegas de viagem não tinham nada disso. Tinham apenas o infortúnio de suas necessidades especiais, que os reuniu. E, unidos, fizeram do amor a senha para serem felizes, juntos.  A gente, que muito tem, brigando por tão pouco e eles, que tão pouco tem, se amando...

Como é belo o amor. Que em 2013, eu possa falar mais do amor, porque, se ainda me faltavam dúvidas, agora já tenho absoluta certeza: em nossas vidas, all you need is love.

O resto, se ajeita.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Orun Ayé - "E por falar em saudade"


Excepcionalmente nesta segunda feira, véspera de Natal, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, traz uma mensagem de Natal aos leitores.

E por falar em saudade

Para início de conversa. Se você está lendo essa coluna isso significa dois sinais. Um é que você tem nada pra fazer, já que hoje é véspera de Natal e está de frente a um computador. Que tal levantar e ajudar as pessoas?

A segunda é que o mundo não acabou sexta-feira. Que alívio... Ou não, caso você tenha detonado o cartão de crédito.

Como eu disse acima hoje é véspera de Natal. Dia do nascimento de Jesus Cristo - também de Joel Santana, mas esse não vamos levar em consideração.

Um dia que estamos com a sensibilidade mais à flor da pele. Reunimos a família, colocamos Simone para tocar, rabanada, pernil, peru na mesa, as crianças esperam por Papai Noel e aquele cunhado que você não gosta bebe demais, começa a falar besteiras e a noite feliz vira de guerra.

Mas principalmente: um dia de saudade.

Muita gente não gosta do mês de dezembro, principalmente depois do dia quinze. A programação da TV fica chata, o futebol de férias e muita gente torce o nariz para Natal e ano novo.

Muita gente do nada vira socialista. Culpam o pobre Papai Noel por mazelas como crianças pobres não receberem presentes e xingam as pessoas que em vez de enaltecer aquele que devia ser o homenageado da noite preferem correr para shopping center e demais lojas para compras desenfreadas.

Entretanto, a verdade não é essa. Vocês já viram alguma criança não gostar de Natal? E não é apenas porque recebem presentes, porque no dia do aniversário e no dia das crianças também recebem.

Elas gostam porque tem menos motivos para saudades que adultos.

Normalmente, quando cresce o ser humano sempre acha que quando era criança a vida era muito melhor. Ontem mesmo vi algumas coisas na internet relativas ao início de 1991, e por alguns segundos senti saudades. Depois pensei “está louco? Foi uma das piores fases da sua vida”. O ser humano tem lembranças: vive delas.

A gente quando envelhece vira refém de nossas lembranças.

E o adulto quando chega à fase de Natal, vê o anúncio do show de Roberto Carlos na TV, as árvores de Natal, as antigas canções natalinas e se lembra da sua infância. Lembra de Natais que passou, casas que morou, pessoas que estavam, a época que aquilo foi vivido. A coisa é muito mais abrangente que o Natal: envolve toda uma fase da vida.

Pior é quando existem perdas. O adulto geralmente já perdeu alguém querido. Seja pela distância que o tempo impõe ou mesmo pela morte e isso dói mais ainda. Você olhar para o sofá de casa, a cadeira na mesa, ouvir as risadas, a hora do brinde e sentir que está faltando uma pessoa.

Eu passo por isso tudo que descrevi acima. Tive Natais maravilhosos aqui em casa quando criança, a mesma casa que vivo até hoje - e a única pessoa que restou daquele tempo sou eu.       

Meus tios casaram-se e seguiram suas vidas, minha avó foi morar em outra cidade, minha bisavó e minha mãe morreram. Minha bisavó pouco depois do melhor Natal de minha vida. Ainda criança com a casa cheia onde eu e outras crianças quebramos o sofá de tanto pular nele e eu descobri que o Papai Noel era o motorista da minha escola.

A vida passa, a gente cresce. A casa ficou vazia e nenhuma dessas pessoas estará aqui hoje. Sim, seria motivo suficiente pra me deprimir passar a data sem essas pessoas e sem outras que conheci ao longo da vida e queria muito, mas muito mesmo que estivessem aqui. Mas a vida nos distanciou de forma definitiva. Só que não adianta chorar. Sorrir, é preciso sorrir.

Outras pessoas chegaram. Uma nova família foi criada e pessoas importantes para mim, tanto quanto aquelas que ficaram no passado e mais.

Agora tem a Bia. No auge da sua maturidade de três anos de idade que todos os dias vai à janela ver se o Papai Noel deixou o seu presente. Posso garantir uma coisa a você que não é pai ou mãe ainda. Mais gostoso que correr para abrir um presente de Natal é ver nosso filho correr para abrir.

Ok, você se esforça, gasta às vezes uma grana que não pode e quem leva o mérito é Papai Noel, mas é gostoso demais. A renovação da vida, a nossa perpetuação.

Escolhi esse nome para a coluna porque me remete a duas situações. A música de Vinicius de Moraes e ao título do enredo da Caprichosos de Pilares em 1985. A música e o enredo ficaram no passado remoto: na minha infância onde minha avó e minha mãe ouviam a música e eu na frente da TV assistindo aos desfiles com a curiosidade de um garoto.   

Saudade não tem que ser uma coisa necessariamente ruim. Mesmo de um ente querido que morreu. Pode ser um orgulho também, uma alegria por ter vivido todos aqueles momentos.

A saudade pode ser uma celebração.

Então na hora do brinde, seja com champanhe, cerveja, vinho, sidra ou mesmo guaraná erga o copo ao céu e celebre também com aquela pessoa que não está mais aqui.

Desarme-se contra o Natal. Lembre-se que ele não tem culpa de nossas tristezas e fracassos e principalmente, lembre-se do aniversariante do dia. Jesus Cristo é tão bacana que quando nasce ganhamos presente e, na data de sua ressurreição, chocolate.

Agindo assim será atingido pelo espírito de Natal. Sim ele existe e quando olhar no espelho verá aquela criança perdida e feliz que você deixou em algum lugar do passado.

A coluna acabou, desligue o computador e vá celebrar com aqueles que ama.

Feliz Natal!!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Maquiavel, Hobbes e a sociedade brasileira

Na última semana causou grande celeuma a disposição do Supremo Tribunal Federal de cassar por conta própria os mandatos dos parlamentares condenados no escândalo do Mensalão. Em flagrante desrespeito à Constituição, a instância máxima do Judiciário debate se pode interferir em outro poder, desrespeitando o princípio de independência entre os poderes.

Lembro aos leitores que isto não é novo. Em diversas situações o Supremo Tribunal Federal legislou no lugar do Congresso Nacional, em clara interferência sobre as atribuições do Congresso Nacional. Posso listar como exemplos as questões da união civil entre pessoas do mesmo sexo ou o aborto dos anencéfalos, ambas abordadas neste espaço em ocasiões anteriores.

Embora tenham sido decisões aplaudidas pelos formadores de opinião, representaram clara interferência de um poder constituído sobre outro, em flagrante desrespeito à Constituição.

Desta vez há um claro conflito de interesses, pois o Congresso Nacional, na figura do presidente da Câmara de Deputados Marco Maia, deixou claro que a prerrogativa de cassar mandatos parlamentares é da instituição, não do Supremo. Entretanto este tende a decidir pela cassação automática dos mandatos de parlamentares condenados, a meu juízo em flagrante desrespeito à Constituição.

Entretanto, este não é o tema principal deste post. Até porque não sou jurista, sequer advogado, então não tenho como dar uma opinião abalizada sobre o assunto. Digo apenas que, no meu leigo entender, a competência para cassar ou não parlamentares é unica e exclusivamente do Congresso Nacional.

Meu objetivo aqui é analisar as reações de formadores de opinião a esta decisão do Supremo Tribunal Federal, e sua relação com dois importantes teóricos da ciência política, Thomas Hobbes e Maquiavel.

No dia em que a celeuma teve destaque, inúmeras pessoas nas redes sociais defenderam a tese de que o mais importante era o fim alcançado. Ou seja, não importava se a Constituição tivesse sido rasgada, o que importava era que políticos (pretensamente) corruptos haviam sido punidos. Os fins sobrepondo-se aos meios.

Isso remete irremediavelmente à teoria de Maquiavel, que tem este mote como tema. Em uma simplificação grosseira, para o teórico italiano não importam os meios a serem utilizados, desde que o resultado final seja o pretendido. Não importam as regras ou as leis, o que realmente é primordial é alcançar o objetivo.

Por conseguinte, o pensamento destes extratos da sociedade demonstra desrespeito às leis ou a defesa de que seja ignorada em nome de um "bem comum". Mas quem define este bem comum?

Mal comparando, a versão brasileira da teoria de Maquiavel é a denominada "Lei de Gerson". Intitulada a partir de um comercial dos cigarros Vila Rica com o então jogador e hoje comentarista Gerson, tinha como mote o final do comercial: "o importante é levar vantagem".

Mais do que nunca a "Lei de Gerson" está enraizada na sociedade brasileira. Cada vez mais os segmentos formadores de opinião assumem posturas de juízes, censores e críticos, sempre em busca de "um objetivo justo".

Falo dos aplausos à postura do STF de cassar parlamentares, ainda que rasgando a Carta Magna do país. Mas outro bom exemplo é a aprovação da maioria da população às políticas de extermínio adotadas por várias Polícias por todo o país. O epíteto "bandido bom é bandido morto" confere à força policial poderes de Polícia, Justiça e carcereiro em questão de minutos. Isso é perigoso.

O mesmo policial militar que "mata bandidos que não merecem viver" pode exigir propinas em uma blitz, por exemplo, e assassinar você leitor ou eu blogueiro apenas por seguir a lei, ou seja, não pagar a propina exigida.

Mal comparando, é o que está ocorrendo no Supremo. Hoje cassam deputados, amanhã retiram do cargo uma Presidente eleita pela população, sob argumentos tênues. Aconteceu algo parecido no Paraguai, e a oposição e especialmente a mídia defendem algo do gênero aqui no Brasil. O discurso é que "para tirar o PT do poder, vale tudo. Até rasgar a lei"

O leitor entende onde quero chegar?

Outra tendência que este tipo de postura "maquiavélica" vem demonstrando é que a sociedade brasileira atualmente em muitos momentos reflete de forma clara a teoria do cientista político Thomas Hobbes (1588-1679). Novamente simplificando, sua teoria versa que o homem é intrinsecamente anti-social e somente se move por desejo ou medo. A sociedade hobbesiana seria uma guerra de todos contra todos, outra vez estabelecendo uma redução grosseira.

O que vemos na sociedade brasileira hoje é uma verdadeira guerra, onde somente vale o bem individual e seu benefício sobrepondo-se e prevalecendo ao bem comum. De certa forma o ódio que parcelas mais elitistas da população sentem pelos governos do PT tem a ver com isso: as políticas distributivas de Lula e Dilma tiram a sensação de "exclusividade" e "vitória" das classes mais abastadas.

Ou seja, é um "salve-se quem puder". 

Pessoalmente, sou um radical legalista. Os objetivos finais podem ser muito nobres, mas se não está estabelecido na lei, sou terminantemente contra. Muitas ditaduras surgiram deste conceito enraizado de que um fim "nobre" justifica qualquer conduta. E exatamente por isso que acompanho com muita preocupação este ativismo do nosso Judiciário, ainda que aplaudido por parte da população.

Finalizo com um poema do grande dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956):

"Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo."

É isso. Ativismo sim, mas acima de tudo, respeito às leis.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Orun Ayé - "O gênio, o idiota e uma final de samba-enredo"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, a partir da morte do grande arquiteto Oscar Niemeyer o colunista traça um panorama sobre assuntos correlatos – e importantes.

O gênio, o idiota e uma final de samba-enredo

E morreu Oscar Niemeyer...

A notícia veio na noite da última quarta-feira, enquanto boa parte do país assistia a um xoxo Tigre x São Paulo pela primeira partida da final da Copa Sul Americana. Depois do anúncio, que deixou a todos incrédulos, ninguém mais prestou atenção no jogo. Aliás fizemos bem, já que o jogo foi muito chato.

Ao contrário da vida de Niemeyer, que foi intensa.    

O mais curioso dessa história toda é que foi uma morte ao mesmo tempo esperada e impactante. Provavelmente todos os textos já estavam escritos, todas as matérias de televisão editadas, todos os dizeres em twitter e facebook de artistas e personalidades anotados... Faltava o principal: o homem morrer.

E Niemeyer não queria morrer. Aliás Oscar Niemeyer chegou a um estado onde sua imortalidade já estava traçada. O nome “Oscar Niemeyer” não representava mais apenas um nome, mas uma entidade. Um nome que ao aparecer não precisava de legendas pra dizer quem é.

Uma lenda ainda em vida.

Temos poucas pessoas vivas ainda assim: talvez Pelé, Roberto Carlos, Silvio Santos, Caetano Velloso, Chico Buarque e com boa vontade Fernanda Montenegro, Bibi Ferreira e poucos outros.

Mas Niemeyer era diferente. O homem já era nome de avenida vivo, já fazia parte de livros da história desse país em vida - e por merecimento. Oscar Niemeyer foi e é um dos brasileiros mais importantes desde que Cabral chegou por essas terras em abril de 1500.

E não somente por ser um dos responsáveis por nossa Capital Federal. Brasília por si só já lhe colocaria junto com JK e Lúcio Costa na história do Brasil, mas ele fez muito mais. É um dos homens que elaborou a sede da ONU em Nova York, o edifício COPAN e o conjunto do Ibirapuera em São Paulo, o conjunto da Pampulha em Minas Gerais, a Universidade de Constantine e a mesquita de Argel na Argélia, além de trabalhos na França, Itália, Portugal entre outros países.

Seus últimos grandes trabalhos foram o Memorial da América Latina em São Paulo, o museu de Arte Contemporânea em Niterói e claro, o sambódromo do Rio de Janeiro, trabalho dele que tem tudo a ver comigo e que todos os anos visito e passo com imensa emoção.  

Oscar Niemeyer é um gênio da raça, um homem aplaudido e reverenciado no mundo inteiro. Um homem que “morreu” várias vezes ao longo dos anos, principalmente depois da criação das redes sociais que, por diversas vezes, tiveram que constrangidas desmentir a sua morte.

Muitos que escreveram seu obituário morreram, muitos que deixaram anotado o que dizer quando morresse, editaram as matérias de televisão e escreveram os textos que descrevi acima ‘bateram as botas’ muito antes dele. Alguns médicos seus inclusive.

A sua força de vontade, a gana que tem pela vida, só isso para fazer um homem de 104 anos morrer e mesmo assim as pessoas se surpreenderam e ficarem incrédulas. Oscar Niemeyer era assim: não era uma linha reta.

E o mais curioso de tudo é que nesse momento em que o mundo reverencia o homem e seu talento, aparece um ‘jornalista’ chamado Reinaldo Azevedo (revista Veja) dizendo que Niemeyer era “metade genial e metade um idiota” e completando dizendo coisas como “o comunismo lhe fez imbecil, a arte genial”.

Eu leio coisas assim e me sinto nos anos 40, 50, quando Chaplin foi impedido de voltar aos Estados Unidos por ser comunista. Sim, Niemeyer era comunista, Nelson Rodrigues reacionário, Chico Anysio era vascaíno e assim eu lhes pergunto: e daí?

Cada um tem o direito de pensar, ter a ideologia que quiser, por mais babaca que elas aparentem. O fato de alguém ser comunista, capitalista, petista, pessedebista, botafoguense ou portelense não devia interferir na vida de ninguém, é um problema da pessoa.

Wilson Simonal foi “patrulhado” pela esquerda nos anos 70 e caiu no ostracismo, virou alcoólatra e morreu de desgosto. Muitos dos heróis daqueles esquerdistas hoje tentam se explicar ao STF e ao povo brasileiro em escândalos.

Oscar Niemeyer, que fez tudo o que fez pelo Brasil e a arquitetura depois de morto, é patrulhado por uma direita que cheira a mofo, pela revista Veja e seus seguidores. Não foi apenas o dito jornalista que lembrou o lado comunista de Niemeyer para criticá-lo, muitos seguiram “o mestre” e falaram no twitter.

Isso mostra que a idiotice, a burrice e ter cérebro do tamanho de uma azeitona sem caroço não é privilégio de direita ou esquerda. A falta de senso de ridículo e a canalhice são prerrogativas das mais democráticas que existem, podendo atingir qualquer pessoa de qualquer orientação política, social, sexual ou filosófica.

Falar mal de Oscar Niemeyer porque ele era comunista é o mesmo que falar mal de Carmem Miranda porque ela voltou americanizada.

Eu disse duas semanas atrás que o mal do século era o fanatismo: completo que o fim do mundo será através da burrice.

Salve Oscar Niemeyer, comunista, tricolor, ateu, que bolou a Sapucaí com um M que parece do Mc Donalds no fim que nenhum sambista até hoje entendeu, mas que era um gênio, um grande homem e que todos nós brasileiros devíamos nos orgulhar muito de tê-lo como compatriota.

Não vou escrever clichês como “foi se encontrar com o grande arquiteto do Universo”, isso é piegas demais e como eu disse acima, ele era ateu. Então onde quer que ele esteja, o lugar onde for, que ele revolucione com papel, lápis e novos traçados.

Quanto ao Reinaldo Azevedo, parodio o samba da Unidos da Tijuca pro carnaval 2013: “metade dele é imbecil, a outra metade também”.

Quinze anos da primeira final

Esse seria o tema da coluna de hoje até o falecimento do Niemeyer. No dia 5 de dezembro fez quinze anos aonde pela primeira vez cheguei a uma final de samba-enredo na vida. A escola era o Boi da Ilha do Governador, com o enredo “Círio de Nazaré”.

Uma disputa inesquecível. Uma final que teve uma das maiores apresentações nossas até hoje, a única vez que vi o portão lateral da agremiação ser aberto. Teve que ser aberto para que nossa torcida entrasse, para vocês leitores verem o tanto de gente que tinha.

Perdemos aquela disputa, mas tenho muito orgulho dela, por tudo que passamos e as amizades eternas que fiz. Só posso agradecer a Paulo Travassos, Cadinho da Ilha e a Dãozinho (que hoje se encontra no céu) pela felicidade e honra de terem sido meus parceiros nessa empreitada.

E a minha mãe que, chorando, depois daquela final catou bandeiras e trouxe de volta pra casa sozinha, triste por eu ter perdido. Três anos e dois meses depois chorou de novo, mas de emoção - ao me ver ganhar um Estandarte de Ouro pelo mesmo Boi e dedicar a ela.

Bons tempos aqueles. Tempos de faculdade, noitada com os amigos. Cabelo grande, cavanhaque, militante do PDT e comunista. Achava que iria mudar o mundo.

[N.do.E.: enquanto edito a coluna estou às gargalhadas aqui imaginando o colunista de cabelo grande e cavanhaque.]

Hoje sou pai de família, cabelo cortado a maquina, cara lisa e virei capitalista. Adoro coca-cola, big mac e dinheiro na minha conta.

Mas tanto o comunista daquela época quanto o capitalista de hoje acham Reinaldo Azevedo um idiota. Porque a idiotice não vem do pensamento político, vem da alma.

Viva Niemeyer!!! Orun Ayé!

P. S. - Com a morte de Niemeyer, lembraram-se que ele quase foi enredo da União da Ilha para o carnaval 2013. A escola teria um problemão com enredo e samba, defasados devido a sua morte.

Isso me lembrou um caso que ocorreu de 1998 para 1999.

A União da Ilha fez o enredo “Barbosa Lima, 101 anos do sobrinho do Brasil”. Uma homenagem ao jornalista Barbosa Lima Sobrinho. O compositor Márcio André aproveitou a deixa e fez seu refrão assim “zum, zum, zum, Barbosa é 101”.

Só que durante a disputa a escola descobriu que Barbosa Lima faria 102 anos antes do carnaval e mudou o nome do enredo, colocando 102 em vez de 101. Marcio André, com sua famosa língua presa, indignado quando soube da mudança vociferou soltando perdigotos a esmo:

“- Puta que pariu!! Fodeu o meu samba!!”.

Boas histórias, grandes homenageados.

[N.do.E.: o samba que foi para a avenida neste 1999, de autoria de Bicudo, Djalma Falcão, Jota Erre e Ditão, tem versos no mínimo inusitados para a idade provecta do homenageado na ocasião: “Mente Sã, Corpo são, entregou a paixão / Ao amor de uma mulher / Deixa, Deixa eu te amar / Me assanha com seus beijos / Me faz sonhar”]

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Meu nome é dezembro - mas pode me chamar de Hipocrisia


E vamos a um post que está se tornando tradicional neste Ouro de Tolo. Com pequenas alterações e atualizações a cada temporada, todo ano está presente nesta época do ano, sendo um tema importantíssimo.

Nos últimos anos, tenho desenvolvido certa aversão às festas de Natal e Ano Novo, em especial depois que meus avós faleceram. O mito do Papai Noel renasceu nas minhas filhas, mas a motivação ainda não é a mesma.

Todavia não falarei disso. Mas, sim, de uma verdadeira praga que ocorre todo mês de dezembro: a temporada anual de hipocrisia.

Como que por encanto, todos aqueles que foram canalhas o ano inteiro recebem um espírito bem aventurado e se transformam em verdadeiros santos: só faltando a canonização pelo Vaticano. É um tal de "felicidades" para lá, "sucesso" para cá, confraternizações mil...

Ambiente de trabalho, então, é bem isso. O sujeito pisa no teu pescoço o ano inteiro, mas quando chega dezembro... Dá uma de bom samaritano e deseja com um sorriso nos lábios: "feliz natal" e "próspero ano novo". Especificamente neste ano, tem gente que se fizer isso comigo me obrigará a ser bastante indelicado, para se dizer o menos...

Aí chega o dia dois de janeiro e o cidadão volta a pisar no pescoço dos outros ou a vender a mãe (dos alheios) para obter dez "merréis" a mais. Igual às festas corporativas, onde ninguém quer ir mas acaba sendo voto vencido. Vai para fazer média ou para ver se fatura algum brinde - escassos nestes tempos de downsizing e disciplina de capital.

Sem contar que muita gente acaba se excedendo na bebida e na comida, dizendo e fazendo coisas incongruentes e criando a falsa ilusão de que "o mundo os ama". No dia seguinte sobram a ressaca e os sorrisinhos marotos dos colegas - isso, se não ocorrer algo pior. 

Normalmente, adoto a tática denominada pela especialista Glória Khalil como "4S": Surgir, Saudar, Sorrir e... Sumir. Normalmente permaneço o tempo indispensável em que minha presença se faz obrigatória: ou seja, até ter minha estada registrada em uma ou duas fotos.

Entretanto, este ano tomei a decisão de não participar de nenhuma confraternização corporativa, a menos que seja formalmente obrigado a tal. Tive decididamente um ano bem ruim em termos profissionais, e não tenho o menor motivo para comemorar - ao contrário, estou contando os dias para acabar o ano neste aspecto.

Aliás, publiquei em 2010 coluna com um "guia" de comportamento para estas festas - vale a leitura, ainda está bem atual. Isto evita alguns comportamentos que podem, até, destruir a sua carreira na empresa. Já vi com meus próprios olhos situações deste tipo, sem dúvida alguma bastante constrangedoras. Evite estas verdadeiras arapucas - em geral associadas ao excessivo consumo de álcool.

Mas este não é o único aspecto da questão.

As pessoas deveriam mostrar-se como elas são. Não adianta nada desejar "boas festas", brindar naquele restaurante carésimo que o superior escolheu e distribuir sorrisos forçados a granel se no restante do ano ele só pensa em como se dar bem e puxar tapetes alheios. Cada vez o mundo é mais egoísta, mais individualista, menos solidário; o que torna ainda mais hipócrita este tipo de comportamento "altruísta" e "companheiro".

Outra questão irritante é o tal do amigo oculto. Acaba-se forçado a participar, aparentando uma coisa que você não é, provavelmente ganhando um presente que você não vai gostar ou, o que é ainda pior: aquelas listinhas com uma única opção que o forçam a atravessar a cidade, em um esforço que talvez só se faria por suas filhas.

No dia da entrega dos "presentes" ainda temos de sorrir aquele amarelo ao lado do infeliz que sorteamos ou o outro que nos escolheu - e nos ofereceu uma "lembrança" absolutamente inútil na maioria das vezes. Isso quando não acontecem "papeizinhos frios", onde aquele puxa-saco habitual sempre tira o chefe ou é "sorteado" por este - aí ocorre aquele espetáculo constrangedor que todo leitor com alguma estrada na vida corporativa conhece muito bem...

Pelo menos tem uns dois ou três anos que não preciso participar deste espetáculo dantesco.

Foco no ambiente corporativo mas isto vale para outros ambientes, onde acaba se tendo de ir a confraternizações onde não se tem a menor intimidade com as pessoas. E a cada ano estas festividades estão se iniciando mais cedo - no final de novembro ou até mesmo antes.

Será que é pedir demais querer que as pessoas também em dezembro sejam como são o ano todo? Assumem-se uma série de compromissos não por se querer estar no local, mas sim por uma "moral" absolutamente hipócrita e que denota uma conveniência absolutamente superficial e rasteira.

E se você, em um rasgo de sinceridade, diz que não vai a um destes compromissos, é taxado de "individualista", "anti-social", "arrogante" e coisas correlatas. Ainda que durante o restante do ano tenha se mostrado solícito, companheiro e demonstrado total espírito de equipe.

Mais uma tremenda demonstração do mais puro espírito da cara de pau é a tal da "caixinha".

O cidadão passa onze meses inteiros xingando aqueles que possuem funções menos remuneradas, mas dá uma gorjeta no final de ano para "se sentir menos culpado". Pragueja, defende o extermínio, acha um absurdo que frequente os mesmos lugares, mas no último mês do ano dá aquele "trocadinho" e pensa que está redimido de todo o seu comportamento natural nos onze meses anteriores.

Acho o cúmulo.

Seria muito mais justo e muito mais humano se o comportamento verificado no mês de dezembro se repetisse 'ad eternum'. Ceder a vez no trânsito, respeitar as prioridades no trabalho, adotar um comportamento mais adequado, menos cínico e tendo por base a bondade e a cortesia.

Não deixar o colega "vendido", assumir as próprias responsabilidades e seus próprios defeitos e erros, não exacerbar seus feitos e esconder os feitos alheios, não abusar de seu poder, não procurar vantagem em tudo... Educar nossas crianças com estes valores e não os do consumismo e da competição a qualquer preço.

Vale lembrar também o sentido comercial das festas, em especial o Natal.

Ano após ano, dezembro após dezembro, acabamos mais preocupados em encher os shoppings que realçar o sentido verdadeiro destas festividades: religiosidade, renascimento, reinício, reflexão, gratidão e balanço. Mesmo para mim, que não sou cristão, é uma festa religiosa, pois a data que na minha tradição equivaleria ao Natal - o nascimento de Meishu Sama, nosso Fundador - é dia 23 de dezembro.

Entretanto ao passar de cada ano fortalece-se apenas a questão consumista, de comprar, comprar e comprar - daí vem a "verdadeira satisfação" da vida. Realça-se a ideia de que o ser humano é o que tem, não o que é. Resultado: centros comerciais absolutamente lotados, irritação extrema, tráfego insuportável, stress e uma dívida imensa no cartão de crédito para se iniciar o Ano Novo...

Voltando ao tema original, cada vez mais isto a que assistimos nesta época me irrita sobremaneira. Esta onda de bom mocismo, solidariedade e congraçamento tem a mesma base que um alicerce de areia para construir um prédio: nenhuma. E ao espocarem os fogos de primeiro de janeiro caem as máscaras e retorna-se à selva, onde "salve-se quem puder"...

Infelizmente, de alguns compromissos não se consegue escapar, mas me espanta a cara de pau demonstrada por alguns. Não passa de falsidade hipócrita.

Sinceramente, prefiro a companhia da família e dos amigos dos doze meses do ano. Muito melhor se todos assim o fizessem, já que não sabem agir de forma adequada de janeiro a novembro.

Contudo, não é o que ocorre. A hipocrisia é umas das mais graves doenças do chamado "mundo moderno".

domingo, 25 de novembro de 2012

Orun Ayé - "Fanatismo"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, tem como tema o fanatismo. Alias este será o enredo da Caprichosos de Pilares, da Série Ouro.

Fanatismo

É... O título dessa semana é curto e grosso e versa sobre uma coluna que pensei ontem, quarta feira [N.do.E.: a coluna foi escrita na última quinta].

Estava no ônibus, indo pagar uma conta, quando entrou uma velha e nada querida conhecida minha no mesmo. Estava com uma blusa da União da Ilha, indo para o ensaio da comunidade.

Olhei e fiquei pensando: “caramba, eu nunca vi essa mulher com camisa que não fosse da escola, nunca vi em um evento que não fosse da escola, ela vive para a União da Ilha, que coisa triste viver em função de uma escola de samba”.

Sozinho no ônibus, fui pensando mais e aprofundando o assunto. Lembrei de casos onde não só ela, mas outras esposas de compositores torceram contra os maridos, para outros sambas, porque eram melhores para a escola.

E os maridos contavam essas histórias rindo. No Acadêmicos do Dendê, na disputa de 2011, vi essa mulher do ônibus comemorando a vitória de um samba que havia derrotado o de autoria de seu marido.

[N.do.E.: por elegância o colunista não quis dizer, mas tanto eu quanto ele estávamos na parceria do referido compositor derrotado nesta ocasião.]

E pensei: “se uma namorada ou esposa minha torce pra outro samba para o bem da escola, eu termino na hora”.

Escola de samba divide o dia a dia com você? Divide as contas? Fica aflita com você quando o filho está doente ou de recuperação? Escola de samba está com você na saúde, na doença, na riqueza e na pobreza como diz o padre? Escola de samba te abraça quando você está de TPM?.

Pensei nessas pessoas que vivem para uma escola de samba e lembrei-me do assunto do momento: mais uma briga entre israelenses e palestinos. Fanatismo, situações diferentes, mas fanatismo.

Fanatismo é aquilo que te cega, que tira você do seu normal, do seu juízo perfeito e te faz não enxergar as coisas, a vida por gostar de algo ou alguém.

Resumindo, fanatismo é algo que não presta, porque se algo tira o seu poder de discernimento não pode ser bom. Como as drogas, como a cocaína, a bebida. O fanatismo pode arruinar.

Seja arruinar sua vida, sua família ou uma civilização. 

Se o leitor parar pra reparar, os maiores erros da história da humanidade vieram da inveja e do fanatismo. Caim matou Abel por inveja - dizimando assim 25% da população da Terra da época.

Ao longo da história, judeus mataram cristãos que mataram judeus que mataram palestinos que mataram israelenses que são apoiados por americanos que mataram iraquianos que mataram iranianos que também mataram iraquianos que mataram americanos que mataram afegãos que mataram americanos que se acham os todo poderosos do mundo e praticam terrorismo em nome da democracia e jogam bombas atômicas em japoneses, que por sinal barbarizaram na Ásia, sob o lema “Deus salve a América”.

Deus... Deus que é o símbolo da justiça, do amor - e as maiores atrocidades da história de nosso planeta foram feitas “em nome Dele”.

Quase todas as guerras que ocorreram no mundo ao longo dos últimos milhares de anos tinham a desculpa de Deus, Bíblia, Alcorão e muitos outros livros ou simbologias. Cristãos foram mandados para arenas, pessoas foram queimadas como bruxas, muitas pararam em campos de concentração, aviões, prédios foram destruídos, índios foram exterminados - tudo em nome do Senhor.

Que Deus é esse que pede que sua mensagem e voz sejam passadas nem que seja na base da porrada e do genocídio? Que estupidez é essa que não deixa povos muitas vezes irmãos se entenderem e brigarem por dezenas, centenas de anos? Que estupidez é essa?

É a mesma estupidez, idiotice que faz pessoas se odiarem apenas devido a torcer por clubes de futebol diferentes. Que faz imbecis marcarem briga, atirar contra outras pessoas porque vestiam camisas que não são de seu clube do coração.

Matar gente que poderia ser seu amigo, parceiro, irmão. Poderia beber uma cerveja contigo, jogar uma sinuca, que tem mãe, pai, irmãos, família - e morre porque não torce para Flamengo, Vasco, Corinthians ou Kashima Antlers.

E não é só aqui. Torcedores do Celtic e do Rangers se odeiam, porque além da diferença entre torcidas há questões religiosas. A ESPN vem mostrando documentários sobre violência entre torcidas pela Europa e a coisa é barra pesada.

Todo fanatismo é perigoso: basta ver que um fã matou John Lennon.

Existe o fanatismo perigoso para os outros e o perigoso para si, como o da mulher que citei no início da coluna. A pessoa que vai a todos os eventos de uma escola de samba, que na semana seguinte que seu marido é sacaneado - perdendo o samba de sua vida - está na agremiação sorrindo arrumando gente para desfilar em sua ala é do mesmo grupo daquelas meninas adolescentes que são fanáticas por boy bands ou ídolos teen.   

Pessoas que ficam o dia inteiro na internet vivendo por esses ídolos, postando coisas sobre eles, inventam fãs clubes, levantam tags no twitter falando desses ídolos, acampam três dias antes de um show na frente do local e chegam atrasadas numa prova do ENEM que é importante para sua vida.

Esquecem da família, esquecem que existe um Sol ou uma Lua do lado de fora para aproveitarem, esquecem os amigos, do amor que poderia vir a conhecer, esquecem de viver.

Enfim, existem para alguém que nem sabe da sua existência - ou se sabe não dá a mínima - como a escola em relação a mulher do ônibus. No caso em questão, alguns comandantes da mesma já disseram não gostar do casal.

Amar é diferente de ser fanático. Podemos amar algo ou alguém sem esquecer que em primeiro lugar devemos nos amar e segundo que ter senso de ridículo sempre é bem vindo. Fanatismo não é sinônimo de amor. É obsessão, doença e precisa de tratamento.

A partir do momento que algo atrapalha sua rotina, sua casa, família e a vida em sociedade é melhor parar para pensar se vale mesmo a pena.

Pra mim mais que o câncer, AIDS, drogas ilegais, tabaco ou bebida o fanatismo é o maior mal que existe, o que mais mata, mais fere e mais destrói a auto estima.

Seja por uma escola de samba, clube de futebol, religião, país o fanatismo leva a cegueira e ao ódio.

Quer ser fanático? Seja por você, pela vida. Ela tem muito mais a oferecer. Orun Ayé!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Templo Negro em Tempo de Consciência Negra


Antes de passarmos ao assunto do dia, peço desculpas aos leitores pela ausência de textos de minha autoria nos últimos dias. Venho enfrentando uma série de problemas pessoais, especialmente de ordem profissional, e com diversos afazeres concorrendo por tempo.

Mas este Ouro de Tolo é plural, é uma construção coletiva e os colunistas mantêm o pique com textos de alta qualidade. Certamente os leitores não sentiram a menor falta dos posts de minha lavra.

Esclarecimento efetuado, vamos ao nosso tema de hoje, feriado aqui no estado do Rio de Janeiro

20 de novembro, Dia Estadual da Consciência Negra.

Este feriado é comemorado marcando o aniversário de morte de Zumbi dos Palmares, tido pela historiografia oficial como um dos grandes mártires da luta pela liberdade negra. Pesquisas mais recentes indicam que o Quilombo dos Palmares era mais semelhante à organização social africana que propriamente um lugar igualitário, como transcrito e divulgado através dos séculos.

Estas pesquisas mais recentes indicariam até que havia escravos no Quilombo. Entretanto, não é este o ponto central de hoje.

Até porque lá se vão mais de quatro séculos...

Este texto de hoje, mais do que comemorar ou dissertar, pretende refletir. Escrevi post sobre o assunto em julho a partir da observação de que no colégio onde minhas filhas estudam praticamente não há negros em posição de aluno ou pais de alunos – somente em posições empregatícias subalternas. Contudo não pretendo retomar o mote daquele artigo, que pode ser visto neste link.

Oficialmente, os escravos foram libertados em 13 de maio de 1888. Mas as relações de trabalho, em especial aos mais pobres, à época pouco se diferenciavam apesar da 'liberdade' conquistada. Na prática, houve alteração na forma de organização de produção. Alguma liberdade, verdade, mas restrita.

A escravidão formal passou a ser a servidão pelo trabalho – ou a falta de. Os baixos salários substituíram o documento de posse formal, tornando tudo um mundo de “faz de conta”: o direito de ir e vir por parte dos então escravos passou a ser limitado pela falta de recursos financeiros, grosso modo.

No Brasil, o trabalhador só passou a ter alguma liberdade após a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada no governo de Getúlio Vargas. Neste momento havia uma movimentação mais livre por parte dos empregados no sentido de transitar entre empregos diferentes, até porque os Anos 50 e 60 foram as décadas do grande salto de industrialização brasileiro.

A evolução salarial e de emprego – a primeira particularmente – foram bem afetadas no período da ditadura militar, com políticas compressoras de salário e que aumentaram a concentração de renda no país, Isso apesar do período conhecido como “Milagre Econômico”, onde o país cresceu mas a renda não foi dividida.

Parêntese: chega a ser curioso ver o então Czar da Economia Delfim Netto, que dizia “primeiro crescer o bolo da economia para depois dividi-lo” hoje defendendo posições keynesianas no campo econômico e social-democratas na política. Nos dois momentos históricos, com bastante competência - sejamos justos.

Para o negro, em especial, o conceito de liberdade ainda pode ser considerado bastante relativo. Quando vemos a sociedade e percebemos que ainda hoje há extrema dificuldade de inserção nas camadas mais altas da sociedade, notamos como ainda há muita coisa a ser feita, em que pese progressos visíveis ocorridos na última década.

Vale dizer que material da revista inglesa “The Economist”, reproduzido na revista Carta Capital há três semanas, aponta o Brasil como um dos países que mais diminuiu a concentração de renda na última década. Esta concentração é medida por um indicador denominado “Coeficiente de Gini” ou “Índice de Gini” que, embora ainda tenha bastante a avançar, teve no caso brasileiro evolução significativa na última década.

O sacrifício – ainda que simbólico - de Zumbi e outros mártires da causa negra valeu a pena ?

Sem dúvida alguma, a cultura negra hoje é mais aceita que no início do século passado. Contudo houve a necessidade de um processo de aculturação, adaptação, mitigação de seus costumes, sua cultura e suas crenças.

Como bons exemplos deste fenômeno, podemos citar a religião e o samba. Ambos passaram por um processo de aculturação - e, em certos casos, de dominação e perda de controle sobre o fenômeno.

Por outro lado, lastima vermos, em pleno Século XXI, manifestações de racismo latentes e explícitas. O preconceito é praga que não se findou. A própria estátua de Zumbi aqui no Rio, volta e meia, é vítima deste estigma com pichações e vandalismo.

Também escrevi no artigo anterior que o racismo no Brasil é disfarçado, não explícito. E por isso mais difícil de combater, até porque a fronteira entre o politicamente correto – que é outra praga – e o racismo é muito, muito tênue.

A "consciência negra" deve ser empregada na luta por oportunidades iguais, por empregos iguais, pela não-discriminação. Este é uma luta de todos nós, brasileiros. Por outro lado o raciocínio de que a discriminação social no Brasil é social, não de cor, é apenas parcialmente válido. Explico.

Sem dúvida alguma existe um preconceito de classe muito forte, com uma parcela da sociedade adotando posições conservadoras, quase fascistas, como reação à ascensão social da denominada “nova Classe C” – basta ver alguns comentários que vem surgindo aqui mesmo em posts sobre política.

Contudo, quando observamos a composição das classes, o percentual de negros nas Classes A e B é muito, muito menor que a observada nas Classes D e E. Obviamente, como se percebe no início deste post, são condições que ainda remontam aos tempos da escravidão e à herança advinda desta.

É curioso se perceber que junto à evolução econômica e social ocorrida nos últimos anos percebe-se uma guinada conservadora por parte da sociedade. Acredito que seja uma espécie de autodefesa daqueles que ascenderam a fim de não perder o que conquistaram a duras penas.

Este raciocínio explica duas coisas: primeiro, o voto no PT – existe a percepção de que a oposição defende os interesses econômicos dos ricos e da elite, somente. Segundo, a guinada reacionária em temas como aborto, homossexuais, direitos civis, liberalização do consumo de maconha e que tais – “turbinada”, talvez, pela crescente mistura entre política e religião a que assistimos hoje.

Acabei saindo um pouco do tema, mas a data de hoje é importante para refletirmos se realmente nossa sociedade possui um mínimo de igualdade entre negros e brancos e se realmente estamos combatendo esta praga odiosa chamada racismo. Também é dia de celebrar a cultura negra, enaltecê-la e divulgá-la em tudo de rico que tem.

Como fazia Candeia (1935-1978), grande compositor portelense e árduo defensor da cultura negra – na foto, com Martinho da Vila em algum momento da década de 70. Infelizmente Candeia partiu muito precocemente, vítima de complicações causadas pelos tiros levados em uma briga de trânsito e que o deixaram paraplégico anos antes. Mas sua luta e sua genial obra ficaram. Viva Candeia e viva a cultura negra!

E já dizia o Salgueiro em 1989: "o Centenário não se apagará".

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Guia Alimentar para Reacionários


Nas últimas duas semanas os posts sobre política deste blog – que, alias, foram poucos, ando com sérias dificuldades de tempo – foram invadidos por leitores reacionários com pouca vocação democrática e especialmente sem primar pela elegância ao escrever.

Entre elogios à minha mãe e sugestões de políticas públicas fascistas, vários deles sugeriram que eu deveria escrever sobre capim, por ser este meu alimento.

Atendendo à sugestão, descrevo abaixo os principais tipos de forragens e suas indicações. Acho que os leitores irão gostar de ver as melhores indicações alimentares para cada espécie...

O primeiro tipo é o croast cross, de origem americana. Muito apropriado a eqüinos e adequado aos que defendem a aliança incondicional aos Estados Unidos como solução de todos os nossos problemas, ainda que isso signifique a venda de empresas como a Petrobras e o fechamento de muitas de nossas indústrias. Gostariam de ter um busto de Roberto Campos em seu apartamento. Também defendem a propriedade privada e a remoção de todos os direitos trabalhistas, afinal de contas, o mercado é perfeito.

Então temos um tipo muito comum: o capim colonial. Originário da África, é adequado àqueles que se sentem parte de uma casta superior e defendem a queima de favelas com os pobres dentro. Afinal de contas, apesar de negarem e se sentirem superiores, todos temos uma raiz africana – e negra.

O terceiro tipo é o centauro, apropriado aos reacionários que defendem “a moral e os bons costumes” – mas que nas sombras noturnas freqüentam lupanares sem qualquer tipo de peso na consciência. Castidade é para os outros – e a hipocrisia, para si. É um exemplar muito apreciado por certas seitas religiosas, mas não somente estas.

Passemos então ao centenário, com nome científico “panicum maximum”. Indicado para os que temem a “descida do morro” e defendem aquela cantilena policialesca de que “bandido bom é bandido morto” – com seu corolário: “pobre bom é pobre morto.” Este capim cresce bem em áreas quentes como favelas e milícias.

O capim gordura não resiste muito bem a pisoteios. Então é indicado a aqueles que tratam seus cachorros como se crianças fossem, mas espantam crianças carentes como se cachorros magros sejam. É espécie delicada e extremamente afetada, embora fale grosso – especialmente contra aqueles que não podem se defender.

Capim de Rhodes é uma espécie em homenagem à força e à beleza gregas, expressada por playboys que não hesitam em espancar aqueles que se colocam em seus caminhos. Muitos se assumem como defensores de uma ‘raça pura’ – mas não hesitam em manter relações sexuais com mulatas e negras.

O quiocuio da Amazônia é espécime mais rústica e que resiste bem a terrenos erodidos e a pisoteio. Sua principal característica é sair desfraldando ofensas de todo tipo àqueles que professam idéias diferentes, com o intuito de impor à força seus pensamentos. Com pimenta, então, fica uma delícia.

O napier possui grande valor nutritivo e chega a alcançar cinco metros de altura. Presta-se bem à alimentação de pseudo-intelectuais que desfilam uma falsa erudição de pouquíssimo resultado prático. Adoram títulos de “Doutor Honoris Causa” e se vestir com grossas camadas de cipós. De cada 100 palavras que proferem, entendem-se duas – normalmente defendendo a importância e a necessidade etimológica da pobreza na civilização brasileira.

Já o andropógon vem também da África e tem como seu nome científico o “A.gayamus”. Este capim é indicado para a alimentação daqueles sujeitos que defendem a homofobia e a violência contra homossexuais, especialmente quando aproveitam todas as oportunidades de manter tal tipo de relacionamento às escondidas.

Finalizando o cardápio para reacionários, a braquiária também vem da África e se torna adequada àqueles que defendem a segregação das pessoas por faixa de renda e a definição do direito de voto da mesma forma, além de proibir a venda de carros para pessoas “inferiores” e construir um muro confinando as pessoas que não “são de bem”. São os mesmos seres que maldizem a Princesa Isabel até os dias de hoje, além de ler a Veja, exigir a derrubada da Presidenta Dilma, o fim do “Bolsa Esmola” e votar em José Serra.

Bom, espero que os leitores reacionários deste blog gostem das dicas e possam compor um cardápio bastante verdinho e nutritivo.

Quanto aos leitores tradicionais, aproveito para reafirmar o compromisso com a democracia, com a diversidade de opiniões e com o espírito de total tolerância. São valores intrínsecos deste espaço.

Infelizmente, está cada vez mais difícil de se manter um diálogo político em termos aceitáveis, haja vista a intolerância que grassa não somente nos espaços virtuais como no “locus” real. O importante não é mais trocar idéias e aprender, mas sim gritar mais alto até calar as vozes dissonantes.

Obviamente, o comportamento incendiário de parte da mídia contribui muito para isso, embora a meu juízo seja injusto creditar a ela sozinha a responsabilidade por este crescimento da intolerância. Quando “jornalistas” em grandes portais pregam abertamente a interrupção da democracia no país, isto somente serve para acirrar os ânimos.

Fica aqui o meu apelo por mais tolerância e mais compaixão.

domingo, 23 de setembro de 2012

Orun Ayé - "O fracasso nosso de cada dia"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, parte de uma situação pessoal para algumas digressões sobre sucesso e fracasso. Vale a pena ler.

O fracasso nosso de cada dia

Ninguém gosta de se dizer fracassado.

Todos nós gostamos de passar uma imagem vitoriosa. Pessoas felizes, com estabilidade familiar, financeira, elogiadas e respeitadas em suas profissões e que não tem prisão de ventre.

Mas a vida não é bem assim...

... A verdade é que se tivermos uma posição bem crítica da vida vamos nos frustrar muito. A gente sempre renega o lado ruim, os fracassos, os defeitos. Não queremos passar uma imagem ruim e nem aceitar que temos falhas. Quando eu vejo o programa da Marília Gabriela no SBT e ela parte para o “bate bola” a última pergunta sempre é “fulano por fulano”. Ou seja, o entrevistado tem de falar como se vê.

Em 99% das vezes o entrevistado só passa elogios, coisas boas deles e a Gabi invariavelmente é forçada a perguntar: “e o lado ruim?”. A maioria ainda consegue desviar mesmo com essa pergunta. Muitas vezes responde “sincera demais” e como sabemos que sinceridade a princípio é uma virtude, na verdade ela quer dizer: “eu to certa, mas o mundo não aceita”.

O pior exercício que existe é mergulhar dentro da própria alma, admitir nossos defeitos e, principalmente, admitir nossos fracassos.

E acredite, leitor: somos movidos a fracassos, todos os dias fracassamos e temos muito mais fracassos na vida que sucesso.

Essa afirmação é polêmica, né?

Assusta, parece amarga, mas é verdade e acho sinceramente que admitir que somos seres fracassados nos faz chegar com mais facilidade à vitória.

Sim, parece incoerente, mas vou explicar.

Evidente que pode haver uma discussão. Como assim somos todos fracassados? Como podemos falar isso, por exemplo, de gente como Eike Batista, o homem mais rico do Brasil ou Mark Zuckerberg, criador do Facebook e o bilionário mais jovem do mundo?   

Pois o Eike foi notícia outro dia por perder uma grande quantia de dinheiro. Além de anos atrás ter sido traído pela sua então esposa Luma de Oliveira com um bombeiro. Zuckerberg colocou o Facebook na bolsa e esse perdeu 40% do valor desde então.

Até eles erram, até eles fracassam.

Quando você acorda e planeja seu dia sai tudo como imaginou? Você consegue ser vitorioso em tudo na sua vida? Tem nada nela que não vá como você queria? Você é hoje aquilo que imaginou quando criança?

Jesus Cristo espalhou o bem, mensagem de paz, operou milagres, foi o filho do Senhor e preterido por Barrabás por aquele povo que ajudou morreu na cruz perguntando “Pai, por que me abandonaste?”

Naquele momento até ele fracassou. O sucesso veio com a propagação de sua palavra através do tempo.

E a forma que essa palavra vem sendo usada hoje em dia, a forma como vem sendo deturpada mostra que infelizmente o ser humano não entendeu tudo o que ele quis passar. Assim, o sucesso não é completo.

Se nem Ele, o maior de todos os tempos conseguiu até hoje que as pessoas entendam que morreu por elas e não existe diferença entre os seres humanos, somos todos irmãos, radicalizando: se as religiões fracassaram porque temos que ser vitoriosos?

Na virada de ano prometemos um monte de coisa. Ganhar dinheiro, emagrecer, começar novo relacionamento, aquela viagem sempre adiada, ser mais amigo das pessoas e nem sempre isso dá certo. Muitas vezes felizes no amor e desanimados com a profissão, outras tendo o trabalho dos sonhos e ninguém em casa pra dividir essa alegria.

Todos nós fracassamos e muito, sem exceção, o vitorioso é aquele que admite que é falível, nem sempre vai alcançar seus objetivos, tem muitas falhas como ser humano e em cima dessas falhas ele trabalha pra atenuá-las.

Sabe que nunca vai acabar com as falhas e os fracassos, mas pode, trabalhando em cima deles e de seu lado bom, propagar mais, deixar mais frequentes seus momentos vitoriosos. O vitorioso consegue aos nossos olhos mostrar tanta força, poder, auto-estima (principalmente) que a gente acaba deixando seus fracassos de lado.

Eu acho que é por aí. A diferença está na auto-estima.

Enquanto para alguns os fracassos abalam e derrubam tudo, para outros vale uma gota de lágrima, uma passada de mão para limpar a roupa na queda, levantar e com cabeça erguida lutar para um novo fracasso ou sucesso.

E por que essa coluna justo agora? Resolvi mergulhar no mundo da auto-ajuda? Nada disso.

É porque eu venho de um grande fracasso e não tenho medo de admitir isso.

Já perdi sambas piores, que doeram mais. Vão me perguntar, essa foi a pior derrota de samba da sua vida? Não, longe disso.

Contudo, se perguntarem se foi meu maior fracasso nesses quinze anos de samba-enredo respondo, sem dúvidas, que sim. Foi.

Sábado passado fomos eliminados da disputa de samba da União da Ilha com oito sambas no concurso ainda. Não caía tão cedo na escola desde 2001. Aliás, não caímos propriamente, nos deram a opção de chegar à final do concurso ou cair. Preferimos cair.

[N.do.E.: em situações como esta é melhor “cair” antes sabendo que não se sagrará vencedor, dados os custos envolvidos]

Isso dá orgulho? É atenuante?

Não.

Porque a partir do momento que entre oito sambas, tendo na disputa sambas nitidamente inferiores ao seu, lhe dão essa opção é porque o projeto fracassou.

O projeto de quem venceu no ano anterior foi uma sucessão de erros - desde antes da entrega da sinopse - e acabou dessa forma melancólica. Para um atual campeão acabar uma disputa dessa forma é que foi tudo errado mesmo. Um grande fracasso.

E por que fracassou?

Fracassou porque não utilizou a principal norma para algo não dar errado: “se você quer agradar a todos, aí que dá errado”. Tentamos desde o começo o agrado de todos. Desde a montagem da parceria onde aconteceram situações traumáticas e irreversíveis, passando para o samba onde deixamos de colocar aquilo que acreditávamos pra agradar outras pessoas.

E justo ai, nessa parte, que o samba perdeu.

Existe política em samba?

Sim, muita. Sem política em ma disputa de samba-enredo você não passa do primeiro corte. Como é a política de samba na União da Ilha? Uma das mais complicadas que há, muitas vezes a política se sobressai ao samba e a escola sofre no final.

Há então decisões de concursos lá por interesses? Sim. Será assim esse ano? Quase certeza.

A escola tem alguma culpa de nosso fracasso? Nenhuma.

Fracassamos: fomos eliminados por culpa exclusiva nossa. Como eu disse lá no começo o ser humano nunca admite seu lado ruim, seus fracassos e acrescento, nunca admite suas culpas. Sempre que algo dá errado instintivamente joga a culpa nos outros, mas a vida não é assim.

Somos sempre responsáveis por nossos fracassos e se alguém foi responsável por ele foi porque nós permitimos.    

E a maior culpa desse fracasso da União da Ilha é minha, porque desde o começo sabia que estava errado e me omiti. Não quis desagradar aos outros mesmo sabendo que às vezes é necessário, me deixei levar por euforia que era feita de vento e até amizade perdi no começo do processo em busca da perfeição quando ela não existe. Esquecendo que se ela não existe, a proximidade dela é estar cercado de pessoas que você gosta, confia e admira.

O “Maria vai com as outras” sempre é deixado pelas outras em alguma parte do caminho. Esse foi outro lema que esqueci.

Fora isso, ainda tenho uma nova companheira: uma hérnia de disco que dói demais depois de um certo tempo em pé. Essa hérnia me limitou muito esse ano e me deixava irritado, frustrado por não fazer tudo o que eu queria. Como no palco, quando todos se divertiam e eu ficava quase parado. Descia aborrecido: essa disputa em nenhum momento me deu prazer.

E não ter prazer numa disputa em escola grande que se disputa bicampeonato, aonde você vem de um ano de grande sucesso profissional e financeiro que acaba com uma reunião para se decidir cair da disputa, “abortar um filho”, é frustrante demais, não tem outra palavra pra definir.

Fracasso.
  
Estou sendo cruel comigo escrevendo essas coisas? Acho que não, porque como escrevi acima o primeiro passo para o sucesso é reconhecer o fracasso e não deixar mais que aconteça aquele. Vou fracassar mais vezes? Sem dúvidas, mas quero fracassos novos, repetir fracassos já não é ser fracassado: é ser burro.

E burro eu não sou...

... Nem me deixo levar por fracassos. Eles são o primeiro passo para minha vitória e eu sou um cara vitorioso no samba porque meus fracassos me fizeram assim.

De um fracasso na União da Ilha em 2001 veio o samba do Boi que foi minha primeira vitória e ganhou o Estandarte de Ouro. Do fracasso com o “samba da minha vida” na final do Boi em 2008 veio o samba da escola vencedor do S@mbaNet em 2009. De uma inédita queda na semifinal do Boi em 2010 veio a parceria vitoriosa da União da Ilha no biênio 2011/2012, com duas finais e uma vitória.

Então é certo que desse fracasso virá algo muito bom.

Pare pra refletir sua vida, caro leitor. Admita seus fracassos, que nada é capaz de evitar que você falhe, que você tem limitações e verá como sua vida vai mudar.

Faça por você antes que o fracasso faça.

A vitória virá.