Excepcionalmente nesta quarta feira, a coluna "Cinecasulofilia", do crítico de cinema, professor e cinesas Marcelo Ikeda, fala do novo filme do diretor Cronenberg, "Cosmópolis".
Como habitual, coluna publicada em parceria com o blog de mesmo nome.
Cosmópolis
Não sei muito o que dizer sobre o último filme de
Cronenberg, COSMOPOLIS, que tem dividido opiniões entre “o amo e o odeio”.
Posso dizer que é um filme corajoso, que escapa dos padrões que normalmente se
esperariam do cinema de Cronenberg. Um filme austero, um conjunto de tableaux
independentes, meio teatral, bastante verborrágico.
Um filme que poderia ter
sido feito por Kiarostami, tamanhas as cenas no interior de um carro (uma piada
boba, já que o filme é bem diferente dos de Kiarostami). Um filme corajoso, uma
produção de Paulo Branco.
O tédio.
O tédio, novamente ele.
Me parece claro que
Cronenberg quer fazer uma certa parábola política sobre o nosso tempo e sobre
os rumos do capitalismo atual e da especulação financeira. Da virtualização das
relações no mundo contemporâneo. Fala de um bilionário que se trancafia num
carro e no seu próprio mundo de números. Enquanto isso, o mundo, o amor estão
lá no extracampo. O extracampo pulsa muito forte nesse filme, que também é
sobre o não-mostrar.
A questão é o ponto de vista.
O tom sóbrio, frio e
calculista do filme me lembra um pouco de Shame, de McQueen. Mas apesar de
ambos os filmes assumirem o ponto de vista de seu personagem como chave para um
certo tom de uma narrativa (buscar acompanhar um desmoronamento por dentro),
acontece que Cosmopolis não se preocupa tanto com as motivações psicológicas de
seu personagem.
É isso o que frustra o espectador, que nunca consegue se
identificar com seu personagem nem odiá-lo por completo (há algo infantil nele
mas tampouco é um filme infantil). Cosmopolis não é feito para agradar ou
seduzir o espectador. É um filme estranho, descontínuo.
Sua opção narrativa é
radical: ainda que o filme possua uma linearidade (até física: percorrer ruas
da cidade até ir a um barbeiro para cortar o cabelo, enquanto enfrenta obstáculos
– o engarrafamento, as manifestações, as ameaças de morte, a falência
financeira), Cosmopolis é preenchido por um conjunto de microhistórias que não
se fecham por completo e que surgem quase por acaso, envolvendo um conjunto de
personagens que aparecem e desaparecem sem muita explicação.
Outro ponto que
não agrada ao espectador é seu tom farsesco, um tom curioso com pitadas que
oscilam entre o realismo, o surrealismo e um tom austero mezzo teatral. Uma
ficção científica passada nos dias de hoje, narrada como se fosse um filme de
humor como os de Wes Anderson. Cosmopolis não é feito para funcionar, e isso é
muito positivo.
Tudo isso gera um mal estar. Cosmopolis é um filme ensaio.
Visualmente preciso, plasticamente impressionante, especialmente pela direção
de arte. Tudo em seu lugar. É isso o que me incomoda. Parece que está sempre
tudo ao controle de Cronenberg. O diretor diz que seu filme é o primeiro filme
sobre o novo século. Prefiro os filmes de Hou Hsiao Hsien.
Enquanto Cronenberg
denuncia o vírus do tédio da esquizofrenia, Hou Hsiao Hsien observa a possibilidade de
viver mesmo diante desse cenário desalentador. A questão é de ponto de vista.
Apesar de mais ousado e corajoso em sua forma narrativa, é como se Cosmopolis
carecesse de problemas parecidos com os de Shame.
São dois filmes tão
deslumbrados com a necessidade de fazer bom cinema que não se abrem ao mundo,
assim como seus personagens. Talvez eu tenha me lembrado de Hou Hsiao Hsien quando vi
Juliette Binoche, tentando se esforçar para compor uma personagem. No filme de Hou Hsiao Hsien ela vive: ela é uma personagem sem que nos demos conta disso.
Claro, são
opções de encenação, mas são também formas de ver o mundo. Em seus últimos
filmes, Cronenberg tem procurado “ser menos Cronenberg” e há algo de muito
positivo nisso. Até porque se pensarmos bem, existe uma certa continuidade
entre suas obsessões.
Nos últimos filmes, há uma busca por uma depuração de
estilo, por uma austeridade que não havia em seus primeiros perturbadores
filmes. Sempre existiu uma proposta, sem dúvida, mas aqui essa proposta assume
um peso que oprime o filme.
Se COSMOPOLIS precisa se apresentar como um filme
político escancaradamente, isso deprecia a própria trajetória de Cronenberg,
por não perceber que seus primeiros filmes talvez sejam bem mais políticos que
este, porque apontavam para uma política da encenação muito mais ousada e
radical.
John Carpenter, cujos filmes possuem indiscutíveis paralelos com toda
uma produção de Cronenberg, falou uma coisa interessante sobre Cosmopolis: que
Cronenberg precisava ter cuidado porque estava se levando a sério demais.
Sábias palavras.
Capitalistas e empresários sempre tem razão. Devem ser exaltados, não demonizados como o são por estes lulopetistas adoradores do demônio.
ResponderExcluirNão vi o filme e nem verei. Passa na Globo? Se não passa, não serve.