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domingo, 4 de novembro de 2012

Orun Ayé - "Dez anos do tri - e mais algumas finais"


Neste domingo em que completo 38 anos de idade - com muito pouco a celebrar, diga-se - a coluna "Orun Ayé", do compositor Aloisio Villar, conta algumas saborosas histórias de disputas de samba.

O colunista se esqueceu, mas na próxima sexta feira disputaremos a final da Acadêmicos do Dendê, do hoje Grupo C. Será minha sexta final na agremiação.

Dez anos do tri - e mais algumas finais

Neste domingo é a final de samba-enredo no Boi da Ilha e eu estou na disputa. Quem me acompanha sabe que o Boi da Ilha é o meu berço. Estou na escola desde 1997, quando peguei a sinopse do enredo “Círio de Nazaré” para o carnaval de 98. Lá cheguei à minha primeira final no mesmo ano e ganhei meu primeiro samba em 2000 - para o carnaval 2001. 

Já fiz coluna sobre a vitória de 2001 e o bicampeonato de 2002. Aproveitando esse dia de final, onde busco a sexta vitória na agremiação, falarei sobre nosso polêmico tricampeonato conquistado em outubro de 2002: portanto, completando dez anos.

Ganhamos o samba do carnaval 2002 e o Boi fez um grande desfile debaixo de chuva, com todas as dificuldades que uma escola de samba pequena passa. Pela primeira vez um samba meu foi transmitido pela televisão - a CNT mostrou o grupo de acesso naquele ano - e pela primeira vez o Boi competiu com a União da Ilha, perdendo por pouco apesar de ter desfilado melhor.

Foi com essa grande confiança que o Boi partiu para o carnaval 2003. Tinha uma grande equipe de carnaval, formada pelo Mestre Jonas que ganhou o S@mba-Net de melhor bateria, o Roger Linhares como cantor, uma comunidade participativa, que gostava da escola.

Mas foi perdendo tudo isso ao longo do ano.

Perdeu o Jonas para a Inocentes da Baixada, o Roger Linhares teve proposta do Império da Casa Verde (estreante no Grupo Especial de São Paulo) e optou por lá. Grandes perdas que vieram acompanhadas de dois grandes erros.

O primeiro foi tirar seus ensaios da quadra da Freguesia. O Boi sempre teve aquela quadra como sua casa, como o local da sua comunidade. Agora que perdeu essa quadra em definitivo vem sofrendo muito com essa perda de identidade, e o segundo erro o enredo escolhido.

O presidente Eloy teve a oportunidade de contratar o carnavalesco Paulo Barros, mas não quis gastar dinheiro. Preferiu o já falecido carnavalesco Cláudio de Jesus e ele que já trabalhava no carnaval de Cabo Frio fez um enredo sobre a cidade.

Cláudio não tinha experiência como carnavalesco e fez uma sinopse comum, caindo no lugar comum das coisas da cidade - não dando oportunidade de criar como fizemos no enredo sobre Holambra, onde colocamos as flores em primeiro lugar.

Nesse ano tivemos uma aventura na Portela, com o samba sendo cortado rapidamente. Isso acabou ajudando na confecção do samba do Boi, já que pegamos algumas partes dele pra usar. Mantivemos a parceria do ano anterior e o mesmo time de palco. O samba era assim:

Compositores: Aloisio Villar, Paulo Travassos, Roger Linhares, Cadinho e Mestre Arerê

A vinda do descobridor
Deu vida a imaginação
Homem branco navega
Em busca de colonização
Encontra o dono da terra
Índio é forte, é valente
Vai a luta, entra em guerra
Sobre a área conquistada
Agricultura é plantada
O sal é fonte desse chão

Joga rede no mar pescador
Agradeça o alimento ao criador
Vou mergulhar nessa magia
Nesse balanço vou até raiar o dia

O Sol, as praias lindas, a brisa no ar
No cais meu bem eu vou te namorar
Curtir a paisagem
Esporte é vida, lazer e saúde
Fonte da juventude
É noite no paraíso tropical
O rei momo alegra a Cabofolia
Vou brincar meu carnaval

Em quinhentos anos de glórias
Cabo Frio conta e canta sua história
Vamos brincar, vamos brindar, pode aplaudir
A minha escola hoje na Sapucaí

Começamos forte essa disputa, com toda pinta de tricampeonato, mas aos poucos começou um burburinho sobre o samba da parceria que veio de Cabo Frio disputar. Algumas pessoas disseram que a ajuda do município estava condicionada à vitória desse samba, outras que o carnavalesco estava ‘fechado’ com eles.

O samba tinha partes boas, mas era ingênuo em outras e sua vitória seria uma temeridade. Apesar de achar esse nosso samba abaixo dos dois vitoriosos de antes, tinha consciência que o nosso era o melhor e assim como toda a parceria me preocupava com essas histórias.

Nosso forte palco composto por Roger Linhares, Nando Pessoa e Cadinho foi reforçado por Flávio Martins. Era o melhor disparado da disputa, mas mesmo com o melhor samba e melhor palco chegou uma hora que o samba não rendia mais o que rendia no começo. Muito devido ao disse me disse.

Na semana da final surgiu a história de junção.

Eu nunca passara por uma junção de samba e nem sabia como era a montagem de uma. Na véspera da final estava na aula da pós graduação e meu telefone não parava, com os parceiros ligando e tentando pensar numa alternativa de ganharmos o samba. Chegamos a pensar na possibilidade do Roger vir de São Paulo ao Rio cantar o samba do Boi na avenida, para ver se assim sensibilizava o Eloy, mas era inviável. 

Fomos para a final de samba sem saber o que ocorreria, e cada parceria teria que se apresentar duas vezes. Nossa primeira apresentação, apesar da torcida imensa, foi ruim. A tensão aumentava. Minha mãe sentiu, perguntava o que ocorria e eu desconversava. No intervalo das apresentações vieram nos contar que a parceria de Cabo Frio venceria sozinha.

Reunimo-nos do lado de fora do clube do Cocotá, onde eram realizadas as eliminatórias, para decidir o que se faria. Ficamos revoltados com a história de derrota, de perder por um samba inferior por motivos que ninguém sabia ao certo quais; decidimos mostrar na segunda apresentação qual era o samba.

Maior parte da nossa torcida já tinha ido embora, mas fizemos uma senhora apresentação. Não só a melhor apresentação nossa naquele ano, mas pra mim junto com a apresentação final do Boi em 1998, de estréia do Roger em nosso samba do Boi no carnaval de 2001, final no Dendê em 2008 e nossa semifinal na Ilha ano passado, as nossas maiores apresentações em samba até hoje.

A diretoria toda se reuniu e ficou perfilada para ver aquela apresentação de garra, raivosa e se existia alguma dúvida sobre resultado acabou ali.

Pouco depois o resultado foi anunciado e eles realmente venceram, mas foi junção. Era o nosso tricampeonato, que deixou não só minha mãe aborrecida como muita gente furiosa na escola, inclusive meu amigo Anderson Baltar que não se conformava de não vencermos sozinhos e um tempo depois largou a escola. Foi polêmico, fez mal ao Boi, mas estávamos com a alma lavada: eles não levaram sozinhos.

O Eloy anunciou que só durante a semana as pessoas conheceriam o samba do Boi e assim todos foram embora nesse anticlímax. Graças a essa decisão errada o Boi não saboreou uma das maiores vitórias de sua história.

A final da União da Ilha era na mesma noite e a quadra da Ilha ficou vazia até que a final, lotada, do Boi acabasse. Só com o fim do Boi a quadra da Ilha começou a encher com as pessoas que estavam em nossa final e os comentários na Ilha eram todos sobre a polêmica no Boi.

Durante a semana Roger, Cadinho e Djalma Falcão botaram melodia numa letra pré-estabelecida pelo Eloy, que eu tentei mudar de todas as formas. Alegava que estava errada, primeira de samba enorme com segunda que terminava abruptamente e curta, palavras e frases repetidas, mas não adiantou. Eloy era turrão e não me ouviu.

O samba ficou assim:

Compositores: Aloisio Villar, Paulo Travassos, Roger Linhares, Cadinho da Ilha, Mestre Arerê, Valfredo, Jorginho Batuqueiro, Patinho, Miguel, Jacaré e Wellinton

A vinda do descobridor
Deu vida a imaginação
Homem branco navega
Em busca de colonização
Encontra o dono da terra
Índio é forte, é valente
Vai a luta, entra em guerra
Fui Santa Helena, fui
Senhora D`Assunção
Portugueses e franceses
Na batalha pelo chão
O Forte São Matheus surgiu
Na agricultura produtos mil
A construção naval
E a indústria da pesca e sal

Joga rede no mar pescador
Agradeça o alimento ao criador
Vou mergulhar nessa magia
Quinhentos anos é um mar de alegria

O Sol, em seu nascente, a brisa no ar
No cais meu bem vamos namorar
Curtir a paisagem
Esporte é vida, lazer e saúde
Fonte da juventude

Lindas praias, dunas brancas
Cabo Frio é beleza sem igual
O rei momo vem brincar Cabofolia
É carnaval

Essa junção com toda certeza foi o maior erro da história do Boi da Ilha.

Cadinho da Ilha assumiu o carro de som da escola e chamou Flávio Martins e Gilson Bacana a fim de dividir os microfones com ele. A escola fez um péssimo desfile, não aproveitando o viés de alta que estava com Orun Aye e Holambra e de forma merecida foi rebaixada para o Grupo B - não retornando mais ao grupo A.

Alguns anos depois descobrimos que a junção foi política. O presidente Eloy contava com uma ajuda de Cabo Frio - que acabou não ocorrendo.

Uma pena, mas de uma forma dolorosa o Boi aprendeu que samba e política não devem se misturar.

Pelo menos não deveriam.

E por falar em finais...

Nessa fase de finais de samba lembrei-me de duas grandes histórias que ocorreram, vistas por mim, e soube de uma ótima que quero dividir com vocês.

A primeira ocorreu na final do Boi para o carnaval de 1999: o enredo era “A saga de Kananciuê na aurora do mundo Carajás” que contava a criação do mundo através da lenda Carajás.

Foi escolhido um bom samba, o de Carlinhos Fuzil, Marquinhus do Banjo, Mauricio 100, Grilo e Alvinho. Um samba que marcou a escola, meu primeiro desfile na vida, mas que rendeu polêmica na escolha.

O presidente Eloy não quis dar o resultado, passou o microfone ao locutor. Este anunciou - e uma grande confusão se formou.

Muita gente não aceitava o resultado e um carro da polícia parou na frente do Boi. Um dos compositores derrotados saiu da quadra, deu de cara com os policiais e disse: “Podem entrar, os ladrões estão em cima do palco", fazendo referência aos dirigentes da escola.

Essa história rende risadas no Boi da Ilha até hoje.

A próxima ocorreu com a gente, fomos as vítimas.

Na final de 2005, enredo “As águas de Oxalá”, estávamos crentes que venceríamos. O presidente Eloy passou por um cantor e disse “vou foder o Cadinho”.

Cadinho era o cantor da escola e meu parceiro de samba. Eloy fez o discurso tradicional de resultado, passou o microfone a ele e disse: “canta o samba do Ginho”.

Ginho, que ganhou o samba da Ilha pra 2013, ganhara com Professor e Nelsinho a disputa. Cadinho, atônito, se viu obrigado a cantar o samba enquanto eu saía furioso da quadra. Cadinho cantava no palco e Eloy atrás dava banana pra ele e falava rindo “Fodi o negão”.

E o samba tirou quatro notas dez na avenida, em um grande desfile. É... fodeu mesmo.

[N.do.E.: talvez por ética o colunista não tenha feito a referência, mas a “cabeça” deste samba do Boi da Ilha de 2005 tem a melodia idêntica ao início do samba da Portela de 1994. Aliás este samba portelense será reeditado em 2013 pela União do Parque Curicica, da Série Ouro]

O compositor Gugu das Candongas, quatro vezes campeão na Ilha e meu parceiro hoje no Boi, recebeu uma missão de um Pai de Santo.

Ele deveria matar um sapo e colocar a letra do maior rival costurada em sua boca na horta da escola. Gugu ficou com pena e comprou um sapo de borracha, como era amigo dos compositores rivais colocou outra letra na boca do sapo.

Na mesma final, seu parceiro Pardal recebeu a missão de arrumar um galo preto, amarrar em sua pata fitas com as letras dos sambas e soltar na porta da escola. Ele comprou o galo e na saída da Ilha o galo se soltou dentro do carro - voando sobre sua cabeça e fazendo cocô. Pardal, assustado, abriu a janela e jogou o galo fora.

Preciso nem dizer que perderam o samba, né?

Ah essas finais de samba maravilhosas... Que hoje seja contada mais uma, inesquecível e de preferência com final feliz.

Pedro Migão

Hoje é aniversário do meu grande amigo, parceiro e dono dessa bagaça Pedro Migão. Migão, muita paz, saúde e felicidade pra você que é um cara fantástico, de bem e merece só coisas felizes.

Que Deus te dê forças pra mudar o que é preciso e sabedoria pra aceitar o que não dá e principalmente, que te dê alegria porque ela é que nos move.

E deixe de ser tão mala em jogos do Flamengo (risos), abraços. Orun Ayé!

domingo, 30 de setembro de 2012

Orun Ayé - "A doce revolta de Gaia"


Nesta coluna "Orun Ayé" de domingo, o compositor Aloísio Villar conta uma história que acompanhei de perto: a disputa de samba do Boi da Ilha para 2008.

Foi a última vez em que estive presente a uma final de samba (era dirigente da agremiação, embora não votasse na escolha) e, ao contrário do colunista, minha impressão é que a decisão foi tomada no dia. Enfim, opiniões e versões.

A doce revolta de Gaia

Semana passada escrevi aqui sobre o “fracasso nosso de cada dia”, falando que o que nos move é o fracasso e ele é mais habitual no nosso dia a dia que a vitória. Contei como foi a nossa disputa para o carnaval 2013 da União da Ilha, onde considerei como meu maior fracasso no samba: mas não foi a pior derrota, nem a mais doída.

Essa citação me fez lembrar a derrota mais doída, não só essa citação como estar sábado retrasado com alguns diretores do Boi da Ilha na entrega dos sambas concorrentes do carnaval 2013. O diretor do Conselho Fiscal Lourival Alves, um dos caras mais íntegros que já conheci no samba e um dos principais alicerces do Boi desde quando entrei na escola em 1997 sempre cita esse samba e citou no sábado.

Ele até hoje não se conforma com a derrota desse samba. Disse que o resultado foi o que mais lhe entristeceu nesse período e que não consegue esquecer.

Também não consigo e por causa disso pela primeira vez, depois de ter feito várias colunas para sambas meus vencedores, faço para um derrotado.

Talvez para dar um pouco de mídia e audiência a este samba, que realmente considero injustiçado. Sou um compositor e pessoa coerente. Entrei até hoje em noventa disputas de samba de enredo e sei exatamente quando posso vencer ou perder. Tem gente que adora dizer que foi roubada em concurso de samba, reclamar de firmas, panelas, diretorias ladras etc quando às vezes o problema reside nele. 

Não sei se fui roubado alguma vez. Minha ingenuidade e crença no ser humano, além do que vi nesses concursos, diz que não e dos sessenta e três sambas que perdi apenas dois eu posso dizer que fui extremamente injustiçado.

Um é o tema de hoje e para isso volto seis anos no tempo.

Volto ao ano de 2006, quando o Boi promoveu seu concurso para o carnaval de 2007. O enredo era “alô, alô, se liga tem boi na linha”. Não vou me alongar muito porque ainda quero fazer uma coluna para esse samba, mas posso dizer que foi uma daquelas vitórias avassaladoras, acachapantes. Talvez a mais acachapante desses quinze anos de samba e com uma parceria quase imbatível para a época, formada por mim, Cadinho da Ilha, Walkir, Barbieri e Marquinhus do Banjo.

Ganhamos com extrema facilidade pelo nível de nossa parceria que compôs um grande samba e por haver apenas quatro sambas no concurso. Durante o período pré-carnavalesco por indicação minha e do Cadinho o presidente Eloy Eharaldt contratou o Cadu, compositor campeão da Mangueira em 2005 e diretor geral de harmonia do Tuiuti em 2006 para comandar a harmonia do Boi.

Cadu chegou já próximo do carnaval, um carnaval de muitos erros e dificuldades do Boi e fez o que pôde. O Boi acabou se salvando em samba-enredo da queda para o grupo C e a partir dali muita coisa mudou para o carnaval 2008.


Eloy descobriu estar com câncer e, mesmo não deixando a presidência, se afastou. Nomeou Cadu diretor de carnaval com plenos poderes para conduzir a escola e o Cadu trocou o intérprete, trazendo de volta Roger Linhares, meu parceiro nas vitórias de 2002 e 2003 e cantor da escola em 2002. Também trouxe de volta Guilherme Alexandre, carnavalesco da escola entre 1997 e 2001 e depois 2005.

Guilherme sempre foi adepto de enredos grandiosos, com grande profundidade e decidiu fazer o enredo chamado “Gaia, a reação da mãe Terra – Uma história que deve ser contada de outra maneira”.

O enredo era sobre a “teoria de Gaia” que tratava o planeta como um ser vivo que ficou doente por nossa causa e com a finalidade de se livrar dessa doença criava anticorpos pra expurgar o agente causador (nós). Esses anticorpos seriam os tsunamis, terremotos, furacões e que teríamos que fazer algo antes que o planeta morresse ou nossa raça fosse extinta.

Pelo problema ocorrido no ano anterior de só haver quatro sambas da disputa, Cadu limitou em três a quantidade de integrantes por parceria, o que nos trouxe problemas. Com essa determinação tivemos que abrir a nossa.

Marquinhus foi compor com seu primo Junior. Walkir com Djalma Falcão e Nando Pessoa enquanto eu, Barbieri e Cadinho compomos o nosso time.

Fiquei encantado com o enredo e sua explanação em vídeo e pensei que ali poderia fazer algo que sempre sonhei. Um samba mais ousado, diferente e passei essa idéia para nossos parceiros.

Cadinho era o parceiro da melodia e topou a empreitada. Barbieri letrista como eu, mas um compositor sem arrogância e totalmente aberto e acolhedor de idéias. Ele praticamente foi o autor de toda a letra do nosso samba do Acadêmicos do Dendê, que se tornou campeão naquele ano; então decidiu deixar que eu viajasse na minha loucura.

E eu viajei. Compus uma letra totalmente sem rimas que deixou o Cadinho louco e dizendo ser impossível fazer melodia. Refiz a letra colocando algumas rimas pra lhe enganar, mas mantendo a minha viagem.

Ele colocou uma melodia e fomos à casa de Barbieri nos reunir com ele e Ito Melodia que seria nosso cantor. Ali o samba nasceu.  

Boi da Ilha 2008 (samba concorrente)

Gaia, a reação da mãe Terra – Uma história que deve ser contada de outra maneira

Compositores: Aloisio Villar, Barbieri e Cadinho
(Participação especial: Toninho Z10, Jair Turra e Ito Melodia)

Quando a humanidade
Ouvir o clamor que vem da mãe Terra
Espero não estar perto do fim
Senhor olhe por nós, tire essa cruz de mim
O ser vivo que moramos está doente (lágrimas)
Chora, padece, provocando reação
Para impedir o juízo final
Só o juízo afinal

Derrubem fronteiras, todos juntos pra salvar
Vamos dar as mãos na união apostar              (refrão)
Cidadania é a nossa fé
Eu tenho fé

Vejam é o Sol que vem chegando
Traga boas notícias nesse novo amanhecer
Vejam, é o Sol anunciando um novo tempo
Esperança sempre teima em nascer
Esperança sempre teima em renascer
Desenvolver sustentando no ambiente
Nova história, outra maneira de contar
Quero água limpa pra beber, água limpa de viver
Meus netos conhecendo a fauna e a flora
Sonhos de um louco como eu
No meu enredo esse sonho aconteceu

Vai meu samba vai levar
Nossa voz ao mundo inteiro
Vai meu samba viajar
Seja nosso mensageiro

Gaia, quero ver você feliz
Azul mais azul na beleza das cores
Jardim do Éden voltou, obra prima do criador
E a minha escola vem cantando em seu louvor

Basta amor pra preservar mudar
O planeta no pulsar de um coração   (refrão)
Basta amor pra preservar curar
Meu carnaval é emoção

Samba grande, trinta e cinco linhas. Dois refrões e um falso refrão para grupo B. Ousado, fugindo de todos os padrões atuais. Mas com essa loucura que fomos para a disputa.

Entregamos o samba e o Cadu me ligou dizendo maravilhas dele, emocionado; mas pedindo para tirar o começo da segunda dizendo que não tinha a ver com o enredo e alongava demais o samba. Argumentei que tinha a ver com a escola desfilar com o dia amanhecendo, mas aceitei a ponderação e mexemos, começando a segunda com “desenvolver sustentando no ambiente”.

Nosso palco foi formado por Ito Melodia, Igor Vianna, Cadinho e Bruno Revelação e o Boi teve quantidade de inscrições recorde nesses meus quinze anos: quatorze sambas, por vários motivos. Principalmente o excelente enredo, a limitação em três por parceria e a União da Ilha estar reeditando “É hoje” e seus compositores terem colocado samba no Boi.

Três sambas se destacaram de início. O nosso pela poesia, melodia, o do Marquinhus pela alegria e juventude do palco e correndo por fora o do Walkir com o formato mais tradicional. Os dois primeiros sambas aos poucos foram tomando ares de favoritos e até uma junção entre eles foi cogitada, mas na última semana a coisa foi pro nosso lado.

Walkir foi até a casa de Cadinho cumprimentar pela vitória no Boi e três dias antes da final recebemos uma ligação de um membro influente da escola que estava naquele instante deixando uma reunião no Leblon da diretoria. Nessa reunião nossa vitória fora sacramentada.

Com toda confiança fomos para a final no domingo, 23 de setembro de 2007. O samba do Marquinhus se apresentou e não foi tão bem, veio o samba do Magrão que estava mais para completar a final e o do Walkir.

Walkir teve problemas com os ônibus e ficou sem torcida, sozinho no meio da quadra chorando e cantando o samba. Eu, Cadinho e Barbieri por sermos amigos dele fomos para o meio dar uma força e cantar junto. Quando fomos ver boa parte da quadra se juntou ao canto.

Depois o nosso se apresentou de forma excelente.

Subi ao palco na hora do resultado recebendo parabéns de algumas pessoas, esperando por minha quarta vitória na agremiação quando veio o resultado. Cadu disse algumas palavras e pediu para o puxador oficial Roger cantar o samba campeão.

O cavaco começou a tocar e reconheci que não era o nosso. Não conseguia decifrar qual samba era e assim veio a surpresa. Era o samba do Walkir.

Fiquei zonzo na hora: uma derrota inesperada, doída. Nem a própria parceria do Walkir esperava e começaram a comemorar timidamente. Marquinhus saiu enfurecido com a derrota, Cadinho não quis cumprimentar o Cadu e foi embora, eu fiquei ali zonzo.

Recebi cumprimentos da diretoria e do Cadu, que sempre foi meu amigo e me senti traído ali e minha namorada da época me puxou pra irmos embora.

Não consegui dormir naquela noite, primeira e única vez que isso ocorreu comigo em samba até hoje. No dia seguinte o orkut do Boi da Ilha estava em guerra pelo resultado. Não escrevi nada, Cadu me ligou umas trinta vezes, não atendi. Submergi, queria ficar sozinho.

Deixando meu amor pela escola falar mais alto, no dia seguinte apareci na reunião do Boi para prestar apoio. Cadu me pediu que assumisse a presidência da ala de compositores. Assumi e assim o carnaval de 2008 do Boi foi feito.

A escola estava linda na avenida, mas o samba não aconteceu. No ano seguinte a Unidos de Padre Miguel resolveu fazer um samba pesado, de quase quarenta linhas em uma grande ousadia e ganhou todos os prêmios de melhor samba-enredo e subiu para o grupo A. Até hoje lembro ao Cadu e aos diretores do Boi que poderia ter sido conosco.

[N.do.E.: acredito que haja um pequeno equívoco do colunista, pois o grande samba da Unidos de Padre Miguel foi no mesmo 2008, onde a escola inacreditavelmente não subiu de grupo. Em 2009, inclusive, foi o próprio Aloisio Villar que conquistou o prêmio Sambanet, e o samba da aí sim campeã Padre Miguel era horroroso, para se dizer o menos.]

Cadu é um grande amigo até hoje. Respeito Djalma Falcão como ídolo, um dos melhores que conheci, Walkir é um grande sujeito e vencedor em tudo que faz, Nando é um dos meus cantores preferidos...

...mas aquele samba eu não perdia.

Até hoje considero a melhor letra que fiz e acho nosso melhor samba, melhor até que Orun Aye. Cadinho acreditou na minha loucura e fez uma melodia espetacular mostrando o imenso talento que tem, Barbieri um excelente letrista mostrou e mostra sempre que é o parceiro que todos querem ter, guerreiro, decente e talentoso e temos esse filho que não veio ao mundo, mas que nos dá grande orgulho.

Algumas pessoas alegam que perdemos por apoiar o samba do Walkir na final. Falácia. Quem entende um pouco de disputa de samba-enredo sabe que samba não é escolhido em final e escola que depois de dois meses ouvindo os sambas semanalmente na quadra ou quando quiser em Cd deixa para escolher no último dia é que algo vai errado.

Não sei o que aconteceu e nunca vou saber, penso que foi apenas um medo de ousar.

O fantasma desse samba concorrente me persegue até hoje. Nunca mais ousamos dessa forma em um samba, nunca nem cogitamos reutilizar a melodia em outro samba, nunca mais ouvi o cd e raramente cantarolo, mas ele sempre está presente.

Uma grande dor, uma grande felicidade, por mais incoerente que possa parecer porque esse samba é para mim e tenho certeza que também a Cadinho e Barbieri um grande orgulho. Ele é um dos meus maiores orgulhos no samba e como escritor, seja qual for o gênero.

Links do youtube onde pode ouvir esse nosso concorrente, mesmo não estando 100% em áudio e visibilidade.

Pedaço da apresentação da final


A vida continuou, outra disputa veio, mas essa é uma outra história. Só posso dizer que não desistimos, até porque...

... Boiadeiro tem raça, se esmera. Orun Ayé!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Orun Ayé - "E Chegaram as Cinzas"


Neste domingo, a coluna "Orun Ayé", do compositor Aloisio Villar traz um resumo do carnaval que passou, além de protestar contra o dono do blog (risos). Mas ele é parceiro.

Aproveito para informar aos leitores que, ao que parece, esta palhaçada que foi o Acesso A não vai ficar impune: a Lesga deixou de ser reconhecida pela Riotur (na prática, foi extinta) e no momento em que edito estas linhas (noite de sexta feira) existe chance até de o resultado, que não foi homologado pela Riotur, ser anulado. Aguardemos.

Feita a introdução, vamos à coluna.

E Chegaram as Cinzas

Todo carnaval tem seu fim, como já diria àqueles barbudinhos que tocam rock e esse chegou ao fim também. No meio das cinzas foliãs achei por bem fazer uma coluna com meu pensamento sobre esse carnaval que passou.

Por falar nisso acredito que vocês já saibam, mas durante minhas colunas o dono do blog coloca “NEs” que seriam “notas do editor” - coisa comum em colunas. Nunca é demais lembrar que essas notas nem sempre condizem com meu pensamento e provavelmente essa coluna terá muitas pois postarei coisas que ele não concorda, mas deixo o alerta para que o leitor não se confunda achando que há contradições. Para isso deixo uma dica: o normal sou eu e o insano é ele. [N.do.E.: obviamente que esta teria nota: todo insano se acha normal...]

Ele modificou também o samba da Grande Rio que eu citei na coluna anterior: o que coloquei se chama “No Mundo da Lua”. Quem quiser saber mais sobre ele tem a letra no site Galeria do Samba: só procurar em escolas de samba e Grande Rio, o samba é lindo, mais que o samba escolhido por ele.

Podem chamar tudo o que postei acima de “NA – a nota do autor”. As vezes é necessário, ainda mais com um editor que gosta tanto de se meter... ê mala... (risos)

Voltando ao tema da coluna. Deixei minhas expectativas quanto ao carnaval na coluna anterior e algumas bateram. Não vi o grupo especial desse ano, mas pelo que me informei e do que vi depois o resultado me pareceu em maior parte justo. Beija-Flor e Grande Rio poderiam ficar mais abaixo e a São Clemente mais acima, mas tudo foi dentro de um contexto. Tijuca, Salgueiro e Vila Isabel mereceram as três primeiras colocações a meu ver. A Portela mereceu o sexto, poderia até ser quinto ou quarto com mais boa vontade e as rebaixadas foram escolas já esperadas.

A Mangueira criou polêmica com a tal “paradona” e o carro de som com cantores de pagode. Teve gente que amou e odiou. Eu sinceramente não curti e acho que a escola poderia vir mais abaixo na classificação. Evidente que inovações são bem vindas, mas nem toda inovação é bem sucedida, se fosse assim a Grande Rio traria aquele astronauta todos os anos.

Inovação bem sucedida no século se chama Paulo Barros. Os puristas torcem o nariz como torciam para Joãosinho Trinta, mas o povão adora e eu também. Como já disse em colunas anteriores minha avó pedia para eu acordá-la quando a Beija-Flor desfilava por causa do carnavalesco e hoje provavelmente nas casas das pessoas que não são tão envolvidas com carnaval o despertador é colocado na hora da Tijuca. Podem falar bem, mal, mas ele é o nome do século no carnaval carioca e eu particularmente sou um grande fã - e o espero como todo o povo.

Assim como gostei da vitória do samba-enredo nesse ano. A Vila com seu grande samba chegou a sonhar com o campeonato e mostrou a quem duvidava de seus versos chamados de contracanto que é sim possível inovar no samba e a Portela conseguiu sua vaga nas campeãs graças a seu “Barcelona”.

Mas ficou provado também que só samba não basta. O problema da Portela é bem maior, é administrativo e ela pode se complicar se em vez de um 'Barcelona' tiver um 'Getafe'. Mas vamos ser otimistas, parece que novos e bons ventos sopram por lá, que ela não precise mais de um samba espetacular para conduzi-la e ele no futuro seja apenas mais um ponto positivo da agremiação.

Sambas ruins foram julgados com o rigor que mereciam, escolhas de samba bizarras receberam seus castigos dos jurados. Quem sabe assim escolas que foram “canetadas” decidem escolher o que tem de melhor e não atender interesses.

Enfim, com o resultado da LIESA fiquei satisfeito.

Da LIESA, porque da LESGA...

... Aconteceu o que todo mundo falava desde o tempo das cavernas. Arqueólogos acharam escrituras no interior da China semana passada dizendo quem seria campeã do carnaval do acesso. Nostradamus também falava desse título em suas Centúrias e os Maias previam que no ano do fim do mundo uma nova escola chegaria ao Grupo Especial. Apenas uns Imperianos e Viradourenses acharam que poderiam ser campeões. A Serrinha achou que se fizesse seu maior desfile dos últimos anos voltaria ao Especial e se homenageasse uma das maiores sambistas da história seria merecidamente coroada como campeã. Já a Viradouro acreditou que colocar Juliana Paes à frente da escola hipnotizaria os jurados e eles a devolveriam ao Especial.

Como são inocentes (com trocadilho)...

Terça o carnaval de São Paulo roubou a cena e o mapa de apuração. Pensaram em levar a escolha da campeã do carnaval aos pênaltis, mas como o Itaquerão ainda não está pronto homologaram o título da Mocidade Alegre.

E a mesma terça me deu um dos grandes momentos do carnaval. O lindo desfile da Caprichosos de Pilares que mostrou que queria acordar e voltar a ser a grande escola de sempre. Botou o chicote debaixo do braço e venceu com facilidade o grupo B.

Bem, falei acima de grandes momentos do meu carnaval então agora falarei dele.

Domingo desfilei no Boi da Ilha. A escola fez um bom desfile, mas foi muito confusa em seu 'antes e depois'. Essa confusão foi refletida na apuração de quinta-feira quando a escola entrou na disputa com menos três pontos e meio por falta de baianas e problema na dispersão. O Boi da Ilha que na pista ficou em terceiro acabou em décimo na apuração e por apenas uma posição não caiu ao grupo D.

O Boi passa por um momento complicado. Sem dinheiro, sem quadra - mas existe luz no fim de túnel. Escolas de samba e pessoas querendo ajudar e juntando com o bom resultado conseguido na pista fazem a escola sonhar com dias melhores.

Segunda depois da União da Ilha desfilei no Acadêmicos do Dendê. Mesmo sendo a última escola fez um desfile maravilhoso, a altura da sua homenageada União da Ilha do Governador e me deixou com muitas esperanças de título. E o título até veio, aliás, viria. Viria se a escola não tivesse perdido um ponto porque veio com instrumentos na bateria com logomarca de outras escolas e isso é proibido no regulamento. Poderiam ter coberto como outras escolas fazem, não fizeram e assim o título tão sonhado foi embora. Na pista o Dendê foi campeão, com os descontos ficou em quarto lugar e mais um ano no grupo D.

Fica o orgulho do samba quarenta pontos. Meu samba com o Pedro Migão tirou as quatro notas dez. Pela primeira vez ganho quatro dez em uma apuração. Consegui notas máximas com o Boi da Ilha em 2001 e 2002, mas eram apenas dois julgadores e em 2009 a pontuação máxima também com o Boi, mas tivemos um 9,9 descartado.

Boi da Ilha e Dendê penalizadas por situações fora do desfile e não é a primeira vez. As duas agremiações têm que tomar uma atitude mais profissional. Elas me maltratam, mas meu amor pelas duas é imenso.

E teve a União da Ilha.

O momento que eu sempre sonhei foi emocionante como eu imaginava. Algumas lágrimas rolaram quando o samba começou e por ver que a escola estava linda. Alegorias maravilhosas e fantasias idem. Aconteceram alguns problemas em seu desfile que acabaram legitimando o oitavo lugar. Mas o refrão “vou botar molho inglês na feijoada/misturar chá com cachaça” entrou para a história da União da Ilha sendo citado na revista Veja, G1, jornal A tarde, Correio de Vitória, Correio de Tocantins, Estadão, BBC Brasil, transmissão da Rede Globo, ministro de relações exteriores do Reino Unido... dois versos que marcam pra sempre minha vida.

Sinto que foi um grande ano meu como compositor de samba-enredo. Pelo sucesso do refrão na União da Ilha e os quarenta pontos no Dendê no ano que me tornei o compositor mais vitorioso da escola. Acho que esse ano é um divisor de águas para mim, para outras conquistas.    

O carnaval teve fim, mas a vida não, ela continua e temos muito a conquistar. As notas dez de nosso dia a dia até que o próximo carnaval chegue e com ele nossos sonhos.

Até breve Momo. Orun Ayé!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Orun Ayé - "Dez Anos Balançando a Roseira"



Neste domingo, mais uma edição da coluna "Orun Ayé", assinada pelo compositor Aloisio Villar. Sem delongas, vamos ao texto.

Dez Anos Balançando a Roseira

Essa coluna era para ter sido escrita em outubro, mas tantas coisas ocorreram na minha vida desde então, tantos assuntos surgiram que decidi deixá-la pra última “coluna normal” do ano - já que nas semanas seguintes abordarei Natal e virada de ano. 

Já contei aqui a história do “Orun Aye”, a primeira vitória em sambas de enredo, contarei agora a vitória no enredo “O Boi da Ilha é Holambra, a tulipa brasileira”, a segunda vitória que fez dez anos em 24 de outubro de 2001. 

Considero essa a vitória mais forte, a disputa perfeita. Erros não foram cometidos e o samba se impôs de uma forma extraordinária. Para alguns é o melhor samba que ajudei a compor até hoje e por alguns anos foi o “esquenta” do Boi da Ilha na avenida. Esquenta é o samba cantado pela escola antes do samba oficial do ano. 

A história dessa disputa começa muito antes como normalmente todas as disputas começam. Essa começou no pré carnaval de 2001. Tive problemas com o presidente do Boi da Ilha Eloy Eharaldt, troca de ofensas, acusações e decidi me afastar da escola depois do carnaval. 

O Boi desfilou e tirou sexto lugar, melhor colocação de sua história e recebeu o seu primeiro e até hoje único Estandarte de Ouro. O de melhor samba-enredo do grupo A. 

Com o prêmio e toda a repercussão pensei que talvez fosse uma boa continuar no Boi mesmo com todos os problemas e um problema a mais surgiu: fiquei sem parceria. 

Na noite da entrega do Estandarte de Ouro Silvana da Ilha, Clodoaldo Silva e Paulo Travassos foram à minha casa. Iríamos juntos para a festa e comunicaram que estavam fora da parceria porque eu me “queimara” na agremiação e não ganharia mais sambas na escola. 

Argumentei que não era bem assim, as coisas mudavam, mas Clodoaldo e Silvana ficaram irredutíveis, apenas Paulo mudou de idéia e decidiu continuar comigo. Nessa hora Roger Linhares, que morava na minha casa, apareceu e disse que os dois estavam agindo errado. Clodoaldo pediu que ele não se metesse porque era assunto da parceria e Roger disse que se meteria sim, pois, a partir daquele momento entraria nela e seria meu parceiro. 

O Roger desde que começou sua carreira de cantor sempre foi um dos mais procurados pra defender sambas nas quadras e seu valor cobrado não era baixo, por sempre conseguir levar os sambas até as finais. Nunca assinara um samba mesmo ajudando a compor porque assim perderia o dinheiro que recebia como contratado, mas vendo a minha situação decidiu não me deixar sozinho. 

Na festa, a minha situação com a escola piorou. Fui cumprimentar a primeira dama dona Zélia e ela não respondeu o cumprimento, me deixando com a mão estendida. Por vingança fiz o discurso em nome da parceria quando recebemos o prêmio e não citei o nome do presidente, depois mesmo a escola querendo não entreguei o estandarte por pensar que aquele era um prêmio dos compositores. 

A situação piorou a tal ponto que em uma reunião da escola semanas depois eu e Paulo fomos até ela entregar nossos papéis de licença. Entregamos, mas o corpo da escola pediu para que ficássemos. O presidente Eloy disse que faríamos falta; então pedi desculpas pelas coisas que eu disse e a falta de sua menção no prêmio e fizemos as pazes. 

Mas o Estandarte ficou comigo. 

Chegou a época de divulgação da sinopse e o Boi anunciou que falaria sobre a cidade de Holambra, no interior de São Paulo. A cidade é famosa por ser a “cidade das flores” e pela Expoflora, evento que leva turistas à cidade todo mês de setembro. 

Tínhamos que montar a parceria já que só tínhamos eu, Paulo Travassos e o Roger. Nando Pessoa topou continuar conosco cantando, Paulo Travassos convidou Cadinho da Ilha pra voltar à parceria depois de três anos e por fim entrou Mestre Arerê, conhecido mestre de capoeira e campeão do Paraíso do Tuiuti em 2000. 

Estava montada a parceria. 

A composição deste samba teve uma particularidade, algo que não ocorreu mais. 

Como eu disse, o Roger morava na minha casa e ele é craque em melodia - enquanto meu ponto forte é a confecção da letra. Meu ano de 2001 foi conturbado porque terminara namoro com a mãe da Bia, a Michele e ela tinha ido embora de casa. Nesse período o Roger foi um grande amigo me apoiando e dando força. 

E nesse período também ele conheceu a Paula, que veio se tornar sua esposa. Tema sobre flores, um com mal de amor, outro apaixonado, só podia sair coisa forte. 

E saiu. Estávamos inspirados e pela proximidade era fácil bater na porta dele quatro da manhã com alguma idéia e irmos pro terraço tentar montar a letra na melodia. Algumas partes do samba emperraram como o refrão principal, mas conseguiram sair e o samba no final foi um dos mais fáceis que fizemos até hoje. 

Os parceiros viram, aprovaram na hora e fizeram pequenas mudanças apenas e o samba ficou assim. 

BOI DA ILHA É HOLAMBRA, A TULIPA BRASILEIRA 

(Aloisio Villar, Paulo Travassos, Roger Linhares, Cadinho da Ilha e Mestre Arerê) 

Viajei 
No embalo de um sonho naveguei (e quando cheguei) 
Na cidade das flores 
Fiz amigos, tive amores 
De paz minha alma semeei 
Quero ter você comigo (vem meu bem querer) 
Quero curtir teu carnaval 
Sua cultura e alegria 
É primavera, to aí nessa folia 

Conto uma história eu vi 
A imigração uniu 
Holanda, America, Brasil 
Das festas e das crenças 
A mais linda flor se abriu 

Brota a poesia 
De uma tulipa 
Onde Holambra nasceu e floresceu 
Essência, dá aroma a vida 
Expressão de amor 
Me beija quero teu calor 

Balança a roseira, vou dizer no pé 
Boi da Ilha espalhando energia e fé 
Florindo a avenida, germinando emoção 
Paz na Terra vem pedindo essa canção 

Algumas curiosidades desse samba: 

Era ”teu cheiro dá aroma a vida”, expressão muito feia. Quebrávamos a cabeça pra arrumar um sinônimo para “teu cheiro” e minha avó, da sala, falou “essência” - que foi adotado na hora. Até hoje falo a ela que é coautora desse samba. 

Essa acho que nem meus parceiros sabem, mas o “balança a roseira” foi inspirado numa música do Bonde do Tigrão que fazia sucesso na época: “balança a roseira, não deixa rosa cair”. 

O samba ganhou grande repercussão antes mesmo de ir a quadra graças à propaganda boca a boca de quem ouvia. Em uma reunião da ala de compositores da União da Ilha na semana anterior ao início da disputa boiadeira Carlinhos Fuzil, então presidente da ala de compositores da União, disse no meio da reunião que ouviu uma “pancada” para o Boi e que se fosse adversário não colocaria samba. Nando Pessoa espalhava que o samba era um “trem desgovernado” e quem estivesse no trilho era bom sair da frente. 

E o samba na estréia comprovou toda aquela repercussão, fazendo uma apresentação de gala sendo defendido com maestria por Roger, Nando e Cadinho. 

Evidente que no calor da disputa a gente não tem noção, mas anos depois conseguindo olhar de fora sabemos quando uma disputa de samba-enredo é decidida na estréia e essa foi uma. Ganhamos o samba na apresentação. Foram apresentações fortes desde o início, ao contrário do ano anterior em que só embalamos no fim. Se fosse no turfe era aquela corrida que o jóquei nem precisava bater no cavalo com o chicote. 

Existiam outros bons sambas na disputa como o do Carlinhos Danoninho e o samba do compositor tijucano Roberto Eloy. Esse último era o que víamos como o mais forte adversário, aquele que poderia incomodar. 

E meus ex parceiros? 

Silvana da Ilha fez um samba correto que chegou na final, mas sem repercussão e Clodoaldo Silva fez o samba com versos trash inesquecíveis “sai pra lá formiga/capim barba de bode/meu santo faz milagre/comigo ninguém pode”. 

O dele caiu na terceira apresentação e ele se dedicou a disputa toda a falar mal de mim e dizer que nosso samba estava fora do enredo, a ponto que no meio do concurso tivemos que colocar a nossa justificativa do samba no prospecto. 

Mas a verdade é que o enredo fora todo resumido em nosso refrão do meio, modéstia a parte isso foi genial... (risos), e o que não tinha a escola colocou na avenida mudando seu carnaval em prol do samba. 

Não sei até hoje o que ele andou falando de mim no concurso, só sei que na época ele foi jurado por Roger e pelo Cadinho e as coisas quase foram às vias de fato. Mas acabou sem problemas e hoje todos se dão bem. 

Na época o presidente Eloy fazia o anúncio dos cortes e depois sorteava um samba pra se apresentar novamente. Nas quartas de final para surpresa de todos o samba de Roberto Eloy foi eliminado. Logo depois do anúncio o nosso foi sorteado para se apresentar de novo. Uma grande apresentação, comigo eufórico no palco tendo a certeza do bicampeonato. 

Outro fato ocorreu durante a disputa. O ataque as torres gêmeas. 

Nós tínhamos o verso “paz na Terra vem pedindo essa canção” e por intermédio do Cadinho resolvemos usar ao máximo. Sua irmã fez um cartaz com um avião indo em direção às torres e a mão de Deus segurando, embaixo no cartaz o verso. 

E com o grande samba, grandes apresentações e conteúdo emocional entramos naquela final de 24 de outubro de 2001. 

O Brasil passava situação dificil nas eliminatórias da Copa do Mundo e naquela tarde de domingo teria jogo no Rio Grande do Sul contra o Paraguai. O jogo acabou e nós já estávamos na quadra no meio daquela euforia da vitória distribuindo bandeiras do Brasil para a torcida. 

E fizemos mais uma grande apresentação. Largamos o samba na torcida, que cantou forte. Apresentação de campeão, de bicampeão. 

No fim aquela grande tensão normal de toda final de samba, tensão que aumentava com a presença de meus pais na quadra. Foram raríssimas as vezes que estivemos os três no mesmo ambiente e eles estavam lá por mim, a torcer por mim. Antes do anúncio teve show com Aroldo Melodia, grande show que não prestei atenção em nada de tão tenso que estava. 

O presidente pegou o microfone e pediu para que todos os compositores subissem ao palco. Mesmo com samba na final Danoninho passou por mim e deu parabéns pela vitória, mas naquela hora eu não conseguia mais raciocinar direito. Toda a certeza de vitória e confiança foram embora com a tensão. 

Fiquei perto de meus parceiros de cabeça baixa olhando o chão, concentrado como faço em todos os anúncios enquanto o presidente Eloy falava. O nervosismo era grande demais e ele começou “ e o samba campeão é o samba de”.. 

“... Aloisio Villar!!”. 

Eu e meus parceiros nos abraçamos, pulamos, gritamos, choramos. Cadinho sentou numa cadeira com falta de ar. Ele é cria do Boi da Ilha de frequentar os ensaios desde criança, não participou da campanha vitoriosa do ano anterior e realizava ali o sonho de sua vida. 

E emocionado vi meu pai abraçando minha mãe e falando “nosso filho é bicampeão”. 

O pré carnaval do Boi da Ilha foi maravilhoso. Roger foi contratado pra ser cantor da escola, mestre Jonas dava show na bateria e o samba era considerado um dos melhores do carnaval. Clodoaldo falava que se o samba tirasse dez ele parava de escrever. 

E o Boi fez um grande desfile, para mim o maior de sua historia mesmo debaixo de forte chuva e com um carro alegórico não conseguindo entrar na avenida. A escola foi colocada na lista de favoritos pra subir ao Grupo Especial e os jornais do dia seguinte diziam que o Boi tinha vencido o duelo com a União da Ilha. 

Com medo de ficar atrás do Boi na apuração os dirigentes da União da Ilha não apareceram. Mas não foi o que esperávamos: o Boi repetiu o sexto lugar deixando certa frustração, a União ficou em terceiro e o samba tirou 10. 

Clodoaldo e Silvana que me abandonaram no dia da festa do Estandarte por eu estar queimado e não ter mais possibilidades de vencer no Boi não venceram mais na escola e em nenhuma até hoje. Eu ganhei mais quatro sambas no Boi, um S@mbanet pela escola e mais vinte e seis sambas no total. 

Mas não ficaram mágoas, torci por Silvana na final do Boi esse ano e vi Clodoaldo torcendo por mim no Dendê. Respeito muito os dois que me ajudaram a ganhar meu primeiro e inesquecível samba, só tenho a agradecer. 

E agradecer mais ainda a Paulo Travassos que não me abandonou e no fim de tudo na quadra do Boi lhe dei um abraço e disse “obrigado por ter ficado comigo”. 

A poesia brotou de uma tulipa e de uma reunião de amigos que se amam, se respeitam. A amizade é a verdadeira essência que dá aroma a vida. 

E dez anos depois continuamos balançando a roseira.

domingo, 2 de outubro de 2011

Orun Ayé - "Quando Um Samba Não Vence"



Neste domingo, que pra mim começa no Rio e termina em Curitiba, temos mais uma edição da coluna "Orun Ayé", assinada pelo compositor e publicitário Aloísio Villar.

Hoje ele fala do outro lado das disputas de samba: quando se perde.

"Quando Um Samba Não Vence

Quando a gente faz um samba... pega uma sinopse, monta uma parceria, contrata cantores, músicos, se reúne todas as semanas, tem gastos, stress, fica sem dormir, tudo isso é atrás de uma coisa...

...vencer a disputa. 

Mas a primeira coisa que aprendi quando entrei pro mundo do samba é que perdemos mais do que vencemos - é verdade. Tenho orgulho das vinte e quatro vitórias que tenho, mas para chegar nesse número perdi cinquenta e sete sambas. 

E não se engane, caro leitor: a derrota é o destino mais provável do seu samba. Até os mega escritórios dos "Compositores S/A" perdem mais que vencem. Fazem dez sambas para ganhar dois ou três - e saem com a fama de vencedores. 

Mas tem sambas que suplantam suas derrotas. Não vão ao limbo comum daqueles sambas que perdem as disputas, pois acabam marcando como se fossem sambas vencedores. 

O exemplo mais famoso vem de Madureira, do Império Serrano. 

No carnaval de 1975 Acyr Pimentel e Cardoso concorreram no Império, que levaria à avenida enredo sobre a vedete Zaquia Jorge. Ele perdeu, mas foi regravado pelo cantor Roberto Ribeiro (acima) e entrou para a história do samba ganhando o nome de “Estrela de Madureira”. 

Brilhando
Num imenso cenário
Num turbilhão de luz, de luz
Surge a imagem daquela
Que o meu samba traduz
Ah...
Estrela vai brilhando
Mil paetês salpicando
O chão de poesia
A vedete principal
Do subúrbio da central foi a pioneira

E...
Um trem de luxo parte
Para exaltar a sua arte
Que encantou Madureira
Mesmo com o palco apagado
Apoteose é o infinito
Continua estrela
Brilhando no céu 

A música ficou famosa, mais famosa que o samba que venceu, muita gente nem sabe que era um samba-enredo e ainda mais... que perdeu a disputa. 

Eu particularmente acho que seria uma grande sacada se um dia o Império reeditasse o enredo sobre Zaquia e usasse esse samba: seria um dos grandes momentos da história do carnaval. 

Outros compositores tiveram sambas seus derrotados gravados por artistas da MPB, como Franco da União da Ilha. Martinho da Vila já regravou alguns sambas seus que perderam na Vila Isabel e fora esses sambas que apareceram em algum LP ou CD tem aqueles sambas que não saem de nossas memórias. [N.do.E.: a Portela nos últimos anos tem se especializado em jogar o trigo fora e escolher o joio. Voltarei ao tema]

Seja por frequentar quadra e acompanharmos as eliminatórias ou ouvindo pela grande rede, uma das grandes vantagens do surgimento da internet foi a democratização do samba concorrente: temos sambas que não saem de nossas mentes e eu tenho o meu também. 

O que não esqueço surgiu na União da Ilha para o carnaval de 2000. O enredo era “Pra não dizer que falei de flores” falando sobre a resistência cultural à ditadura brasileira de 1964/1985, emespecial operíodo até 1968. Nessa eliminatória surgiu o lindo samba de Djalma Falcão, Dito, Jota Erre e Bicudo defendido por Roger Linhares. 

O samba era assim:

Meu Brasil, está em festa 
Parabéns 
Vem meu bem vamos embora 
Quem sabe faz a hora 
Eu quero ser feliz também 
Vem, ver os sonhos que plantei 
Colher nos jardins que andei 
Rosas coloridas 

Caminhando eu vou contar cantando 
Que eu sou o dono dessa terra de ninguém 
Pra defendê-la me levanto e grito 
Eu vou 

Vou seguindo as estrelas 
Que brilham nos palcos da vida 
Poetas irreverentes 
Que deram adeus sem despedidas 

Aplausos, para quem pela paz lutou 
E fez da flor 
As mais lindas canções de amor 
Os anjos bordados nas nuvens, no céu 
E a Lua num brilho de aluguel 
Iluminando lágrimas de emoção 
Tô voltando, bate forte coração 

Meu bem me dá um beijo de saudade 
Liberdade 
É a voz do povo, vem com a Ilha sorria 
Pra não dizer que não falei de alegria 

Bem, o samba era maravilhoso, passava muito bem a cada semana, mas perdeu. E na sua derrota ouviu-se um “silêncio ruidoso” na quadra - que logo ficou vazia. 

Foi a derrota de um samba que não era meu, eu tinha nada a ver com ele, mas senti como se eu tivesse composto. 

Por falar em sambas compostos por mim também tenho aqueles especiais que perderam. Já perdi sambas de todas as formas, sambas ruins, legais, que achava que merecia perder, achava que não merecia. 

Mas três sambas me marcam profundamente, estão no meu top 10 dos sambas que fiz e guardo com o mesmo carinho de sambas que venceram. 

No carnaval de 2004 estreei na Beija-Flor, escola considerada com a disputa mais forte hoje do Rio de Janeiro e fui pra lá com Paulo Travassos e Cadinho da Ilha me juntar ao compositor nilopolitano Jackson Braga. 

Pedimos ajuda ao Roger Linhares e começamos a fazer o samba que foi ficando muito bom. Djalma Falcão e Mingau viram que estava ficando legal e pediram pra ajudar fazendo a segunda do samba e o refrão final e daí nasceu um dos meus sambas preferidos. 

E o toque especial desse samba veio ao convidarem o inesquecível Jackson Martins para defender na quadra. Jackson era um cantor brilhante, cantava com facilidade, sua voz parecia vir da alma. Devia vir mesmo. 

Eram 107 sambas, ficamos em 8°, caindo nas quartas de final, isso tudo no nosso primeiro ano na escola. Chegaram até a cogitar sua vitória, mas faltou poder financeiro para colocar torcida na quadra e o samba campeão é muito bom, um dos melhores desse começo de século do carnaval carioca. 

Foi o último samba que Jackson Martins defendeu na Beija-Flor, escola que ele surgiu para o samba antes de se tornar cantor da Caprichosos de Pilares. 

Ele foi assassinado no dia 8 de agosto de 2004. 

E todo esse simbolismo, ter o Jackson conosco em seus últimos momentos, a força do samba fez que ele se tornasse inesquecível pra mim. 

Manoa, Manaus, Amazonas 
Terra santa que transmite a paz 
Faz bem ao corpo, equilibra a alma 
Santuário de riquezas naturais 
Império de bravos guerreiros 
A ganância do homem depertou 
Vem a chuva e molha a mata 
São as lágrimas dos Deuses 
Mãe natureza padece 
Em teu seio estão rezando nova prece 

Em busca do Eldorado vem de lá 
A maldade navegando rio mar 
O demônio ficou cego de ambição 
E não viu o ouro verde pelo chão 

E assim vi reluzir 
O amor da mulher guerreira 
A dor e o misticismo espalhando proteção 
Virá, da luz virá 
O fruto, a flor dos deuses, quem provar 
Vai gostar, irá por certo dar valor 
Ao doce sabor do guaraná 
No ar o progresso e a cultura 
Como um vendaval vem a civilização 
Manaus querem lhe transformar em Paris 
Bela cidade raiz, sonha em ser feliz 

Vai voar meu beija-flor em liberdade 
Planta a semente de amor e paz 
Pra colher felicidade 

Já no carnaval de 2008 veio o segundo samba derrotado inesquecível e o primeiro que verdadeiramente doeu perder - e dói até hoje. 

Quando o Boi da Ilha anunciou seu enredo sobre Gaia (já comentado na coluna anterior) eu quis ousar, fazer um samba sem rimas e cheguei a fazer essa letra diferente - que causou dificuldades em Cadinho da Ilha e Ito Melodia, responsáveis pela melodia. 

Junto com Barbieri mexemos na letra, tornando mais fácil que se colocasse melodia; mas ainda muito ousada e foi com esse samba ousado que entramos na disputa. 

O samba conquistou a muitos e deu medo em outros que achavam que era samba para o grupo especial e não no Grupo B, onde o Boi se localizava no momento. Mas foi crescendo, crescendo e chegou na final como favorito e eu já havia sido informado que o samba provavelmente venceria. Houve uma reunião três dias antes da final e nela se definiu o possível resultado. 

Mas o samba perdeu, aquele que considero uma das melhores letras da minha vida 

Quando a humanidade 
Ouvir o clamor que vem da mãe Terra 
Espero não estar perto do fim 
Senhor olhai por nós, tire essa cruz de mim 
O ser vivo que moramos está doente 
Chora padece, provocando reação 
Para impedir o juízo final 
Só o juízo afinal 

Derrubem fronteiras, todos juntos pra salvar 
Vamos dar as mãos, na união apostar 
Cidadania é a nossa fé, eu tenho fé 

Desenvolver sustentado no ambiente 
Nova história, outra maneira de contar 
Quero água limpa pra beber, água limpa de viver 
Meus netos conhecendo a fauna e a flora 
Sonhos de um louco como eu 
No meu enredo esse sonho aconteceu 

Vai meu samba, vai levar 
Nossa voz ao mundo inteiro 
Vai meu samba viajar 
Seja nosso mensageiro 

Gaia quero ver você feliz 
Azul mais azul na beleza das cores 
Jardim do Éden voltou, obra prima do criador 
E a minha escola vem cantando em seu louvor 

Basta amor pra preservar, curar 
O planeta no pulsar de um coração 
Basta amor pra preservar, mudar 
Meu carnaval é emoção 

O último veio ano passado, Boi da Ilha carnaval 2011. Eu, Cadinho da Ilha, Marcelo Cossito, Tino Ayres, Carlinhos Fuzil e Bujão fizemos o samba em uma tarde. Ele falava sobre a lenda do surgimento do guaraná. 

Um samba especial para mim porque no fim fala sobre amor de mãe, de uma certa forma consegui fazer uma homenagem à minha. 

Contudo, foi uma disputa complicada, confusa, com o Boi em sérias dificuldades financeiras após cair para o grupo C e perder a sua quadra na Freguesia. Peregrinou por mais duas quadras até conseguir fazer sua final. 

Cheguei na quadra já com o papo que o samba perderia e na hora do resultado recebi um sinal do palco confirmando essa derrota. Foi a derrota que me fez licenciar da escola e trouxe muita frustração. 

Conta a lenda 
Que o pajé se indignou 
Vendo a fraqueza do seu povo 
Pediu a Deus Tupã pra lhe ajudar 
Pra ver de novo a semente da vida brotar 
E assim, do seu ventre a bela índia concebeu 
Nasceu, o curumim que o amor divino ofereceu 
Uniaí ganha a ira dos irmãos 
Noçoquém a viu partir sem o perdão 

Aguiry belo e forte a castanha quis provar 
Aguiry, tome cuidado com os perigos do lugar 

Perdido no caminho, o veneno da maldade 
A dor, o sofrimento, o choro amargo da saudade 
Sob olhar do destino 
O velho vira menino 
A tecnologia vem desse esplendor 
Exportando ao mundo inteiro a delícia do sabor 
Amor de mãe gera frutos no pomar 
Amor de mãe doce como guaraná 

Ecoa meu tambor 
Aldeia boiadeira está em festa 
Maué Sateré Maué 
Vamos brindar Uaraná Cecé 

Entre mortos e feridos, vencedores e derrotados o samba prossegue. Não dá pra vencer sempre e muitas vezes de uma derrota vem uma vitória futura, porque essa derrota traz ensinamentos e porque não, orgulho e espírito vitorioso. 

As derrotas nos fortalecem. Levantar, sacudir a poeira e prosseguir é o mais importante porque o trem de luxo que encantou Madureira sempre parte e sempre tem um lugar para nós. 

Aqueles que não perdem a mania de dar a volta por cima.

Orun Ayé!