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domingo, 9 de dezembro de 2012

Orun Ayé - "O gênio, o idiota e uma final de samba-enredo"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, a partir da morte do grande arquiteto Oscar Niemeyer o colunista traça um panorama sobre assuntos correlatos – e importantes.

O gênio, o idiota e uma final de samba-enredo

E morreu Oscar Niemeyer...

A notícia veio na noite da última quarta-feira, enquanto boa parte do país assistia a um xoxo Tigre x São Paulo pela primeira partida da final da Copa Sul Americana. Depois do anúncio, que deixou a todos incrédulos, ninguém mais prestou atenção no jogo. Aliás fizemos bem, já que o jogo foi muito chato.

Ao contrário da vida de Niemeyer, que foi intensa.    

O mais curioso dessa história toda é que foi uma morte ao mesmo tempo esperada e impactante. Provavelmente todos os textos já estavam escritos, todas as matérias de televisão editadas, todos os dizeres em twitter e facebook de artistas e personalidades anotados... Faltava o principal: o homem morrer.

E Niemeyer não queria morrer. Aliás Oscar Niemeyer chegou a um estado onde sua imortalidade já estava traçada. O nome “Oscar Niemeyer” não representava mais apenas um nome, mas uma entidade. Um nome que ao aparecer não precisava de legendas pra dizer quem é.

Uma lenda ainda em vida.

Temos poucas pessoas vivas ainda assim: talvez Pelé, Roberto Carlos, Silvio Santos, Caetano Velloso, Chico Buarque e com boa vontade Fernanda Montenegro, Bibi Ferreira e poucos outros.

Mas Niemeyer era diferente. O homem já era nome de avenida vivo, já fazia parte de livros da história desse país em vida - e por merecimento. Oscar Niemeyer foi e é um dos brasileiros mais importantes desde que Cabral chegou por essas terras em abril de 1500.

E não somente por ser um dos responsáveis por nossa Capital Federal. Brasília por si só já lhe colocaria junto com JK e Lúcio Costa na história do Brasil, mas ele fez muito mais. É um dos homens que elaborou a sede da ONU em Nova York, o edifício COPAN e o conjunto do Ibirapuera em São Paulo, o conjunto da Pampulha em Minas Gerais, a Universidade de Constantine e a mesquita de Argel na Argélia, além de trabalhos na França, Itália, Portugal entre outros países.

Seus últimos grandes trabalhos foram o Memorial da América Latina em São Paulo, o museu de Arte Contemporânea em Niterói e claro, o sambódromo do Rio de Janeiro, trabalho dele que tem tudo a ver comigo e que todos os anos visito e passo com imensa emoção.  

Oscar Niemeyer é um gênio da raça, um homem aplaudido e reverenciado no mundo inteiro. Um homem que “morreu” várias vezes ao longo dos anos, principalmente depois da criação das redes sociais que, por diversas vezes, tiveram que constrangidas desmentir a sua morte.

Muitos que escreveram seu obituário morreram, muitos que deixaram anotado o que dizer quando morresse, editaram as matérias de televisão e escreveram os textos que descrevi acima ‘bateram as botas’ muito antes dele. Alguns médicos seus inclusive.

A sua força de vontade, a gana que tem pela vida, só isso para fazer um homem de 104 anos morrer e mesmo assim as pessoas se surpreenderam e ficarem incrédulas. Oscar Niemeyer era assim: não era uma linha reta.

E o mais curioso de tudo é que nesse momento em que o mundo reverencia o homem e seu talento, aparece um ‘jornalista’ chamado Reinaldo Azevedo (revista Veja) dizendo que Niemeyer era “metade genial e metade um idiota” e completando dizendo coisas como “o comunismo lhe fez imbecil, a arte genial”.

Eu leio coisas assim e me sinto nos anos 40, 50, quando Chaplin foi impedido de voltar aos Estados Unidos por ser comunista. Sim, Niemeyer era comunista, Nelson Rodrigues reacionário, Chico Anysio era vascaíno e assim eu lhes pergunto: e daí?

Cada um tem o direito de pensar, ter a ideologia que quiser, por mais babaca que elas aparentem. O fato de alguém ser comunista, capitalista, petista, pessedebista, botafoguense ou portelense não devia interferir na vida de ninguém, é um problema da pessoa.

Wilson Simonal foi “patrulhado” pela esquerda nos anos 70 e caiu no ostracismo, virou alcoólatra e morreu de desgosto. Muitos dos heróis daqueles esquerdistas hoje tentam se explicar ao STF e ao povo brasileiro em escândalos.

Oscar Niemeyer, que fez tudo o que fez pelo Brasil e a arquitetura depois de morto, é patrulhado por uma direita que cheira a mofo, pela revista Veja e seus seguidores. Não foi apenas o dito jornalista que lembrou o lado comunista de Niemeyer para criticá-lo, muitos seguiram “o mestre” e falaram no twitter.

Isso mostra que a idiotice, a burrice e ter cérebro do tamanho de uma azeitona sem caroço não é privilégio de direita ou esquerda. A falta de senso de ridículo e a canalhice são prerrogativas das mais democráticas que existem, podendo atingir qualquer pessoa de qualquer orientação política, social, sexual ou filosófica.

Falar mal de Oscar Niemeyer porque ele era comunista é o mesmo que falar mal de Carmem Miranda porque ela voltou americanizada.

Eu disse duas semanas atrás que o mal do século era o fanatismo: completo que o fim do mundo será através da burrice.

Salve Oscar Niemeyer, comunista, tricolor, ateu, que bolou a Sapucaí com um M que parece do Mc Donalds no fim que nenhum sambista até hoje entendeu, mas que era um gênio, um grande homem e que todos nós brasileiros devíamos nos orgulhar muito de tê-lo como compatriota.

Não vou escrever clichês como “foi se encontrar com o grande arquiteto do Universo”, isso é piegas demais e como eu disse acima, ele era ateu. Então onde quer que ele esteja, o lugar onde for, que ele revolucione com papel, lápis e novos traçados.

Quanto ao Reinaldo Azevedo, parodio o samba da Unidos da Tijuca pro carnaval 2013: “metade dele é imbecil, a outra metade também”.

Quinze anos da primeira final

Esse seria o tema da coluna de hoje até o falecimento do Niemeyer. No dia 5 de dezembro fez quinze anos aonde pela primeira vez cheguei a uma final de samba-enredo na vida. A escola era o Boi da Ilha do Governador, com o enredo “Círio de Nazaré”.

Uma disputa inesquecível. Uma final que teve uma das maiores apresentações nossas até hoje, a única vez que vi o portão lateral da agremiação ser aberto. Teve que ser aberto para que nossa torcida entrasse, para vocês leitores verem o tanto de gente que tinha.

Perdemos aquela disputa, mas tenho muito orgulho dela, por tudo que passamos e as amizades eternas que fiz. Só posso agradecer a Paulo Travassos, Cadinho da Ilha e a Dãozinho (que hoje se encontra no céu) pela felicidade e honra de terem sido meus parceiros nessa empreitada.

E a minha mãe que, chorando, depois daquela final catou bandeiras e trouxe de volta pra casa sozinha, triste por eu ter perdido. Três anos e dois meses depois chorou de novo, mas de emoção - ao me ver ganhar um Estandarte de Ouro pelo mesmo Boi e dedicar a ela.

Bons tempos aqueles. Tempos de faculdade, noitada com os amigos. Cabelo grande, cavanhaque, militante do PDT e comunista. Achava que iria mudar o mundo.

[N.do.E.: enquanto edito a coluna estou às gargalhadas aqui imaginando o colunista de cabelo grande e cavanhaque.]

Hoje sou pai de família, cabelo cortado a maquina, cara lisa e virei capitalista. Adoro coca-cola, big mac e dinheiro na minha conta.

Mas tanto o comunista daquela época quanto o capitalista de hoje acham Reinaldo Azevedo um idiota. Porque a idiotice não vem do pensamento político, vem da alma.

Viva Niemeyer!!! Orun Ayé!

P. S. - Com a morte de Niemeyer, lembraram-se que ele quase foi enredo da União da Ilha para o carnaval 2013. A escola teria um problemão com enredo e samba, defasados devido a sua morte.

Isso me lembrou um caso que ocorreu de 1998 para 1999.

A União da Ilha fez o enredo “Barbosa Lima, 101 anos do sobrinho do Brasil”. Uma homenagem ao jornalista Barbosa Lima Sobrinho. O compositor Márcio André aproveitou a deixa e fez seu refrão assim “zum, zum, zum, Barbosa é 101”.

Só que durante a disputa a escola descobriu que Barbosa Lima faria 102 anos antes do carnaval e mudou o nome do enredo, colocando 102 em vez de 101. Marcio André, com sua famosa língua presa, indignado quando soube da mudança vociferou soltando perdigotos a esmo:

“- Puta que pariu!! Fodeu o meu samba!!”.

Boas histórias, grandes homenageados.

[N.do.E.: o samba que foi para a avenida neste 1999, de autoria de Bicudo, Djalma Falcão, Jota Erre e Ditão, tem versos no mínimo inusitados para a idade provecta do homenageado na ocasião: “Mente Sã, Corpo são, entregou a paixão / Ao amor de uma mulher / Deixa, Deixa eu te amar / Me assanha com seus beijos / Me faz sonhar”]

domingo, 25 de novembro de 2012

Orun Ayé - "Fanatismo"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, tem como tema o fanatismo. Alias este será o enredo da Caprichosos de Pilares, da Série Ouro.

Fanatismo

É... O título dessa semana é curto e grosso e versa sobre uma coluna que pensei ontem, quarta feira [N.do.E.: a coluna foi escrita na última quinta].

Estava no ônibus, indo pagar uma conta, quando entrou uma velha e nada querida conhecida minha no mesmo. Estava com uma blusa da União da Ilha, indo para o ensaio da comunidade.

Olhei e fiquei pensando: “caramba, eu nunca vi essa mulher com camisa que não fosse da escola, nunca vi em um evento que não fosse da escola, ela vive para a União da Ilha, que coisa triste viver em função de uma escola de samba”.

Sozinho no ônibus, fui pensando mais e aprofundando o assunto. Lembrei de casos onde não só ela, mas outras esposas de compositores torceram contra os maridos, para outros sambas, porque eram melhores para a escola.

E os maridos contavam essas histórias rindo. No Acadêmicos do Dendê, na disputa de 2011, vi essa mulher do ônibus comemorando a vitória de um samba que havia derrotado o de autoria de seu marido.

[N.do.E.: por elegância o colunista não quis dizer, mas tanto eu quanto ele estávamos na parceria do referido compositor derrotado nesta ocasião.]

E pensei: “se uma namorada ou esposa minha torce pra outro samba para o bem da escola, eu termino na hora”.

Escola de samba divide o dia a dia com você? Divide as contas? Fica aflita com você quando o filho está doente ou de recuperação? Escola de samba está com você na saúde, na doença, na riqueza e na pobreza como diz o padre? Escola de samba te abraça quando você está de TPM?.

Pensei nessas pessoas que vivem para uma escola de samba e lembrei-me do assunto do momento: mais uma briga entre israelenses e palestinos. Fanatismo, situações diferentes, mas fanatismo.

Fanatismo é aquilo que te cega, que tira você do seu normal, do seu juízo perfeito e te faz não enxergar as coisas, a vida por gostar de algo ou alguém.

Resumindo, fanatismo é algo que não presta, porque se algo tira o seu poder de discernimento não pode ser bom. Como as drogas, como a cocaína, a bebida. O fanatismo pode arruinar.

Seja arruinar sua vida, sua família ou uma civilização. 

Se o leitor parar pra reparar, os maiores erros da história da humanidade vieram da inveja e do fanatismo. Caim matou Abel por inveja - dizimando assim 25% da população da Terra da época.

Ao longo da história, judeus mataram cristãos que mataram judeus que mataram palestinos que mataram israelenses que são apoiados por americanos que mataram iraquianos que mataram iranianos que também mataram iraquianos que mataram americanos que mataram afegãos que mataram americanos que se acham os todo poderosos do mundo e praticam terrorismo em nome da democracia e jogam bombas atômicas em japoneses, que por sinal barbarizaram na Ásia, sob o lema “Deus salve a América”.

Deus... Deus que é o símbolo da justiça, do amor - e as maiores atrocidades da história de nosso planeta foram feitas “em nome Dele”.

Quase todas as guerras que ocorreram no mundo ao longo dos últimos milhares de anos tinham a desculpa de Deus, Bíblia, Alcorão e muitos outros livros ou simbologias. Cristãos foram mandados para arenas, pessoas foram queimadas como bruxas, muitas pararam em campos de concentração, aviões, prédios foram destruídos, índios foram exterminados - tudo em nome do Senhor.

Que Deus é esse que pede que sua mensagem e voz sejam passadas nem que seja na base da porrada e do genocídio? Que estupidez é essa que não deixa povos muitas vezes irmãos se entenderem e brigarem por dezenas, centenas de anos? Que estupidez é essa?

É a mesma estupidez, idiotice que faz pessoas se odiarem apenas devido a torcer por clubes de futebol diferentes. Que faz imbecis marcarem briga, atirar contra outras pessoas porque vestiam camisas que não são de seu clube do coração.

Matar gente que poderia ser seu amigo, parceiro, irmão. Poderia beber uma cerveja contigo, jogar uma sinuca, que tem mãe, pai, irmãos, família - e morre porque não torce para Flamengo, Vasco, Corinthians ou Kashima Antlers.

E não é só aqui. Torcedores do Celtic e do Rangers se odeiam, porque além da diferença entre torcidas há questões religiosas. A ESPN vem mostrando documentários sobre violência entre torcidas pela Europa e a coisa é barra pesada.

Todo fanatismo é perigoso: basta ver que um fã matou John Lennon.

Existe o fanatismo perigoso para os outros e o perigoso para si, como o da mulher que citei no início da coluna. A pessoa que vai a todos os eventos de uma escola de samba, que na semana seguinte que seu marido é sacaneado - perdendo o samba de sua vida - está na agremiação sorrindo arrumando gente para desfilar em sua ala é do mesmo grupo daquelas meninas adolescentes que são fanáticas por boy bands ou ídolos teen.   

Pessoas que ficam o dia inteiro na internet vivendo por esses ídolos, postando coisas sobre eles, inventam fãs clubes, levantam tags no twitter falando desses ídolos, acampam três dias antes de um show na frente do local e chegam atrasadas numa prova do ENEM que é importante para sua vida.

Esquecem da família, esquecem que existe um Sol ou uma Lua do lado de fora para aproveitarem, esquecem os amigos, do amor que poderia vir a conhecer, esquecem de viver.

Enfim, existem para alguém que nem sabe da sua existência - ou se sabe não dá a mínima - como a escola em relação a mulher do ônibus. No caso em questão, alguns comandantes da mesma já disseram não gostar do casal.

Amar é diferente de ser fanático. Podemos amar algo ou alguém sem esquecer que em primeiro lugar devemos nos amar e segundo que ter senso de ridículo sempre é bem vindo. Fanatismo não é sinônimo de amor. É obsessão, doença e precisa de tratamento.

A partir do momento que algo atrapalha sua rotina, sua casa, família e a vida em sociedade é melhor parar para pensar se vale mesmo a pena.

Pra mim mais que o câncer, AIDS, drogas ilegais, tabaco ou bebida o fanatismo é o maior mal que existe, o que mais mata, mais fere e mais destrói a auto estima.

Seja por uma escola de samba, clube de futebol, religião, país o fanatismo leva a cegueira e ao ódio.

Quer ser fanático? Seja por você, pela vida. Ela tem muito mais a oferecer. Orun Ayé!

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte I"



Nesta segunda feira de uma semana que é bem curta para muita gente – embora para mim não seja – o colunista Rafael Rafic em sua “Made in USA” traça uma comparação entre as sinopses das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro e os sambas resultantes.

A coluna será apresentada em duas partes: hoje as agremiações que desfilam no domingo e, amanhã, as de segunda feira.

Sambas vs Sinopses – Parte I

Depois de analisar e dar notas as sinopses de enredo do Grupo Especial, o que é incomum no mundo carnavalesco, quero propor aqui no Ouro de Tolo outra análise incomum.

Analisarei os sambas-enredos escolhidos pelas Escolas do Grupo Especial. Mas não quero analisar os sambas-enredo por eles próprios, simplesmente lhes dando notas ou ranqueando-os. Esse tipo de análise teremos aos montes assim que o CD sair, em dezembro.

Quero, aproveitando a análise dos enredos que fiz aqui em julho, comparar a avaliação de qualidade do samba-enredo escolhido pela escola em relação à sinopse da mesma. O intuito é ver o quanto a qualidade da sinopse influenciou (ou não) o samba-enredo.

Mais uma vez, a análise será feita pela ordem de desfile. Começaremos hoje com as escolas de domingo. Amanhã, as de segunda feira.

Domingo

1 – Inocentes:

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves
Nota dada à sinopse na avaliação de julho: 2
Autores do samba-enredo: Billy Conti, Dominguinhos, Ildo dos Santos, Juarez Rosseto, Mará, J.J. Santos e Miri Matéria

A Inocentes vem com um enredo difícil de explicar sobre a história, cultura e imigração coreanas; todas as três desconhecidas no Brasil. Não bastasse, o enredo foi mal elaborado. Porém, mesmo o samba-enredo não sendo um grande samba, ficando no terço final da safra 2013, é apresentável para grupo especial.

Aqui temos o primeiro exemplo do ano no qual os compositores tiraram leite de pedra. Vocês verão que tivemos outros vários, reforçando a tese da “ressurreição” do gênero samba-enredo, já comentada aqui no Ouro de Tolo.

Resultado: samba consideravelmente acima do enredo. Mas ainda sim ambos na segunda metade do Grupo Especial. Influência negativa da sinopse..

2 – Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage
Nota da sinopse: 3,5
Autores do samba-enredo: Marcelo Motta, João Ferreira, GE Lopes e Thiago Daniel

Sinopse complicada, polêmica e, em minha análise, ruim. Isso se refletiu na safra medíocre que tivemos no Salgueiro esse ano. Ao final ganhou o único samba digno de Grupo Especial. Ainda sim é um samba para ficar tranquilamente na segunda metade do grupo e, claro, como eu já adivinhara é um autêntico pula-pula.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos na segunda metade do grupo. Influência negativa clara da sinopse.

3 – Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Nota da sinopse: 6,5

Autores do samba-enredo: Julio Alves, Totonho, Dudu e Elson Ramires

A sinopse é correta, mas sem grandes destaques. Mediana e, pareceu-me, sem o toque especial de Paulo Barros. A safra tijucana foi sofrível, mas um samba se salvou: justamente o campeão. Como cada escola só precisa de um samba por ano, tudo bem.

O samba é mediano, com uma segunda parte até bem ruim (como sempre é difícil fazer letra para enredo de Paulo Barros). Mas teve uma sacada genial no refrão (“metade do meu coração é Tijuca/ A outra metade Tijuca também”) que o faz disputar posições medianas no Grupo.

Resultado: samba acompanhou par e passo a qualidade da sinopse, ambas medianas.

4 - União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Ginho, Junior, Vinicius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra

Aqui, tivemos uma inovação brilhante e uma aula de como se fazer uma sinopse, dada pelo carnavalesco Alex de Souza. Porém, para variar, a Ilha pegou a sinopse, amassou, fez bolinha de papel dela e a usou como bola de basquete para um arremesso certeiro de 3 pontos - direto para a lata do lixo.

O problema aqui é muito mais complicado do que uma simples análise “sinopse x samba-enredo”.

Para começar, a ala de compositores insulana está muito maltratada há anos por sua diretoria, o que fez com que sumissem vários talentos dela. Assim, a qualidade dos sambas vem caindo e não é de hoje.

A isso credito o fato de não surgir aqui um samba fantástico em toda a safra, diferentemente das outras duas escolas que ganharam excelente avaliação de suas sinopses: Portela e Vila Isabel.

Não satisfeita com isso, a Ilha conseguiu a “proeza” de ser a única escola em 2012 que não escolheu o samba que a comunidade queria (e fez isso pelo segundo ano consecutivo). O samba vencedor era o único da final que não tinha qualquer apoio relevante, seja da comunidade, seja da diretoria, seja dos segmentos.

[N.do.E.: mas era o samba preferido do Presidente Ney Fillardi. Samba que, aliás, sofreu mudanças em sua melodia]

Assim, ela simplesmente jogou fora pelo menos quatro sambas bons (sambas de Aloísio Vilar, Almir da Ilha, Marquinhos do Banjo e Carlinhos Fuzil) que, por mais que não chegassem ao “Top 10” da sinopse, ainda salvariam a pátria e disputariam vaga na primeira metade do Grupo.

A Ilha escolheu mal demais o samba e, mesmo com a melhor sinopse do ano (em conjunto com a Portela), ela disputa o “título” de pior samba do ano com a Mocidade.

Resultado: samba infinitamente inferior à sinopse. Prova de que sinopse não é sinônimo imediato de bom samba.

5 – Mocidade

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada
Nota da Sinopse: 5
Autores do samba-enredo: Jefinho Rodrigues, Jorginho Medeiros, Marquinho Indio, Domingos PS, Moleque Silveira e Gustavo Henrique

Já comentei o desastre que foi a sinopse da Mocidade frente ao tema e indiquei que seria complicadíssima para se fazer um samba bom.

Dito e feito. A Mocidade teve 45 sambas concorrentes, mas podia juntar os 45 que não daria um mísero samba digno. Até compositores gabaritados como Diego Nicolau (campeão de 2012) fizeram sambas sofríveis, muito abaixo do que costumam fazer.

No final, levou aquele que a comunidade queria e era o menos pior, mas ainda sim fecha a raia do Grupo Especial - em uma disputa árdua com a Ilha pela lanterna.

Alias, essa é a única nota de sinopse da qual me arrependi. Hoje daria uma ainda menor: 3,5.

Resultado: samba do nível da sinopse, ambos muito ruins. Influência negativa clara da sinopse.

6 – Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do Posto 7

Dessa safra posso falar com bastante propriedade. Pude acompanhar a disputa de samba-enredo desde sua primeira eliminatória até a final. Em um momento inicial, disse que a safra era sofrível com apenas um samba espetacular - justamente o que se sagraria vencedor.

Porém, tenho que admitir que o desenrolar da disputa me fez mudar de idéia. Não quanto ao samba sensacional, que continuo achando sensacional (mesmo com as mudanças horripilantes e insensíveis feitas em sua letra e melodia após o fim da disputa), mas quanto à qualidade da safra.

Hoje classifico mais dois sambas como dignos de irem à avenida se não fosse a obra-prima que o quarteto vencedor aprontou mais uma vez. Além desses, teve mais 2 ou 3 sambas razoáveis na disputa. No que acabou sendo uma safra melhor do que a Portela teve nos últimos anos - e tenho que destacar o papel da sinopse nesse fato.

[N.do.E.: discordo do colunista. A safra da Portela foi bastante fraca e, com boa vontade, além do vencedor somente mais um samba poderia ir para a avenida]

Para a comparação proposta em relação ao samba vencedor, uma excelente sinopse terá um samba a sua altura para representá-la na avenida.

Não coloco o samba acima da sinopse (como se isso ainda fosse possível) por causa das mudanças posteriores (feitas por diretoria e puxador) que pioraram consideravelmente o samba em relação a sua versão concorrente.

Será bastante interessante ver o que ocorrerá com a Portela e o seu sambão vindo logo depois dos dois piores sambas do ano, que virão juntos logo antes de sua entrada na avenida.

Resultado: samba pari passu com a sinopse, ambos em altíssimo nível.

[N.do.E.: infelizmente, as notícias que chegam do barracão da Portela são MUITO preocupantes.]

Até amanhã, com as escolas de segunda feira.

domingo, 21 de outubro de 2012

Orun Ayé - "Os Autônomos e os Sambas 2013"



Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, traça um perfil preliminar dos sambas de enredo do Grupo Especial para o carnaval 2013.

Complementando a informação do colunista, Cláudio Russo sagrou-se campeão na Beija Flor na última quinta feira.

Por outro lado, por determinação exclusiva da diretoria da escola o samba da Portela sofreu alterações significativas para a gravação oficial, que tiraram boa parte do brilhantismo da composição. Continua sendo um dos melhores para 2013, mas perdeu qualidade, infelizmente.

Os Autônomos e os Sambas 2013

Nesse momento em que escrevo (final da noite de quarta) faltam apenas dois sambas no Grupo Especial do Rio de Janeiro para serem escolhidos. Nessa última madrugada duas escolas fizeram suas finais: Imperatriz Leopoldinense e Inocentes de Belford Roxo. Ainda faltam duas, Beija-Flor e Unidos da Tijuca.

E o que acho dos sambas pra 2013?

Sei lá, não conheço quase nenhum.

Bom, pelo que disse acima devia encerrar aqui essa coluna sobre os sambas do ano que vem, né?  É, poderia, mas dá para avaliar assim mesmo até porque o estilo dos sambas, as parcerias que venceram e a qualidade que cada escola nos oferece não mudaram muito durante os anos. Além disso, está tudo muito parecido com 2012.

A diferença é que não estou no CD. 

Algumas surpresas aconteceram, como a escolha da Inocentes nessa madrugada. Cláudio Russo perdeu. Ganhou a parceria do Billy. Ainda não ouvi o samba, mas ele foi bastante elogiado na escolha.

Essa eu acho que ninguém esperava. Cláudio Russo, compositor oriundo da Portela, é um dos melhores compositores da atualidade. Costuma escrever com qualidade e grande estrutura para várias escolas de quase todos os grupos do carnaval carioca.

Apesar de negar, o Cláudio é um dos símbolos do que chamamos hoje em dia de firma ou escritório. Compositores que sem assinar colocam sambas em várias escolas, pegando compositores dessas escolas para assinar seus sambas. O esquema firma/pombo (nome dado a quem assina sem escrever) ainda tem seus segredos e obscuridades muito por culpa desses compositores que não assumem a prática - que não é ilegal.

Vários sambas escolhidos no Especial do Rio esse ano e em outros anos chegam ao público com essa suspeita de pertencer a firmas.

Não vou aqui apontar quais sambas são de firmas ou suspeitos de ser, apesar de saber alguns. Seria leviano e antiético. Quem acompanha de perto os concursos de samba-enredo sabe só de ver qual cantor defende o samba na quadra e o estilo da melodia.

Antigamente a gente ouvia um samba e dizia só na audição que era de escola A ou B; hoje ouvimos e falamos que é de compositor A ou B.

Mas se tudo caminhar bem o Russo ainda deve emplacar um samba assinando no Especial. Na Beija-Flor de Nilópolis é  franco favorito e pode significar a primeira vitória de Miguel Menezes na agremiação. Ele foi bicampeão na União da Ilha em 2003/2004 e há anos busca esse título em Nilópolis.

Na Tijuca não ouvi muita coisa, mas como sempre deve ficar entre as parcerias do Josemar Manfredini e do Totonho (detalhe, todos os sambas já estarão escolhidos quando a coluna for ao ar). Ouvi o do Josemar e gostei, é padrão dos últimos anos da Tijuca - que mesmo com algumas pessoas torcendo o nariz leva ao título.

Mangueira foi a primeira a escolher e escolheu samba da parceria do Lequinho, compositor tradicional da escola e campeão não só nela como em muitas escolas. São Clemente inovou e fez junção. A junção propriamente dita não foi novidade: a novidade fica por conta de Gabriel Mansilha que em sua estreia como compositor, assinando sozinho, conseguiu vencer um concurso no grupo especial. Isso é algo dificílimo.

Salgueiro e Mocidade a meu ver escolheram sambas melhores que seus enredos e principalmente ouvindo o que suas comunidades queriam. Fico feliz especialmente pelo amigo Marcelo Motta. Cara formidável, humilde, um dos caras mais bacanas que já conheci no samba - que chega ao seu quarto título na Academia.

Imperatriz escolheu o samba da parceria do Me Leva. Apesar de muita gente da escola preferir o samba do Zé Katimba, o samba é bom e foi bem aceita sua vitória. Nas duas últimas vezes que essa parceria venceu o concurso venceu também o Estandarte de Ouro de melhor samba, provando que tem qualidade.

A Grande Rio também escolheu uma parceria tradicional de sua escola, a de Mingau e Cia. Esta era pule de dez na disputa da agremiação e a escola cantará seu bom samba em defesa do Rio.

Agora vou falar das três escolhas que mais me chamam a atenção. Por minha proximidade com a escola ou pela qualidade dos sambas.

A escolha da União da Ilha surpreendeu quase todo o mundo do samba e mais uma vez, como em quase todos os anos, provocou polêmica.

Mas só quem não acompanha o Ouro de Tolo se surpreendeu com essa vitória. Na coluna que escrevi aqui semana passada eu apontei o favoritismo para o samba do Ronald, mas disse que crescia muito o rumor da conquista desse samba. Disse que os quatro podiam vencer, mas foquei mais o favoritismo nesses dois - quando a grande mídia apontava os outros dois.  

Pois bem, os outros dois, os que a mídia e as pessoas que acompanhavam pela internet esperavam chegaram sem chances na final. Eram bons sambas, como o samba do Marcinho que era o que eu mais gostava, mas pesou contra as duas parcerias os quatro anos de vitórias que seus líderes tinham.

Ficou entre os outros dois, mas logo no começo da final vazou o campeão. O samba do Ginho é um samba correto, com uma letra muito bonita, mas em alguns pontos a melodia cansa. Confio em seu crescimento na voz do Ito Melodia e a ressaltar a alegria de ver o Ginho, uma pessoa muito digna, correta e talentosa vencer na Ilha usando sua experiência de vida. Além de estar aliado à juventude e garra do Junior que nunca desiste da luta e tem um grande futuro pela frente.

Falar o que de Vila e Portela? Ganharam os sambas que eu previ e fiz coluna aqui há um bom tempo atrás. De novo as duas escolas, de novo as duas parcerias, de novo comandando o carnaval carioca.

As parcerias campeãs de Portela e Vila são iguais e muito diferentes e nessa diferença se completam e formam uma nova rivalidade no carnaval carioca, mas uma rivalidade sadia. É boa porque em cada canto de quadra ou roda de samba vem a discussão “qual o melhor samba?”.

A Vila formou uma parceria que o Migão apelidou de “galáctica” e é uma super parceria sim. É comandada por Arlindo Cruz, um dos maiores nomes do samba atual, Martinho da Vila, um dos grandes nomes da história do samba e de Vila Isabel e André Diniz, um dos melhores do nosso carnaval atual e dono de sambas memoráveis.

Sobre o André vem a pecha também de ser comandante de uma firma de samba-enredo. Mas seu talento suplanta todo o ‘disse me disse’, principalmente com os sambas que fez nos últimos 20 anos pra Vila Isabel e a junção desses três craques e seus parceiros fez um dos grandes sambas do ano.

Na Portela é o contrário. São nomes que já contavam com respeito no samba, na MPB, mas que do ano passado pra cá decidiram virar o mundo do carnaval de cabeça pra baixo.

Wanderley Monteiro e Luiz Carlos Máximo foram os donos do carnaval 2012 com o “Madureira sobe o Pelô” que apelidei numa coluna aqui de “Barcelona dos sambas”. Conseguiram repetir a dose esse ano abrindo a roda e anunciando que lá vinha Madureira.  

Em um carnaval que hoje é dominado pelas firmas, posso dizer que Wanderley, Máximo e seus parceiros são os “autônomos do samba”, trabalhando por conta própria, fazendo seus sambas sem inspiração vir de gente de fora.

E por incrível que pareça isso é raro hoje em dia. Uma parceria que assina o samba e onde sabemos que foram eles que escreveram o mesmo.

Qual o melhor samba? Não sei e sinceramente nem me interessa muito. Em vez de discutir essas coisas prefiro apreciar os dois grandes sambas.

Não dá ainda para fazer um ranking dos sambas 2013, dividir entre bons e ruins. As escolas ainda estão na fase de gravação do coro, ainda farão gravação oficial com os cantores, mixagem, lançamento das faixas, ensaios técnicos.

Mas a princípio me parece seguir uma tendência que vem desde 2010. Um bom cd com alguns sambas se destacando e mostrando enorme qualidade. 

Enquanto você fica aí ansioso esperando as gravações oficiais, vá em www.sambaderaiz.net. No site tem meu concorrente no Boi da Ilha e meu concorrente junto com o Migão no Acadêmicos do Dendê. As duas finais serão realizadas nessa próxima semana.

Começou o carnaval 2013. Orun Ayé!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Abre a roda, chegou Madureira!


Antes de mais nada, peço desculpas aos leitores por somente estar colocando o resultado aqui hoje. Passei o final de semana acompanhando parente internado em hospital e pouco pude estar em casa.

Feita a necessária explicação, é com alegria que informo aos leitores que mais uma vez a Portela escolheu aquele que pode ser o samba do ano, tal e qual 2012.  A parceria de Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto Sete é quem assina o samba para o carnaval 2013, para gáudio dos verdadeiros portelenses e do escriba deste post.

Aliás, na última quinta feira este blog acertou na mosca o resultado.

Não nego que sou amigo de um dos autores do samba, mas em termos de Portela sempre torço para aquela que é a melhor composição a nos representar na avenida. Quando coincide, como ocorreu nestes dois últimos anos, melhor ainda.

Vale lembrar que este resultado portelense sinaliza uma mudança importante na política da escola. O Diretor de Carnaval Júnior Scafura, imbatível outrora, é derrotado pelo segundo ano consecutivo. Isso deve ter reflexos nas eleições que se aproximam na escola, logo após o carnaval de 2013.

O samba campeão ainda teve de superar uma apresentação problemática da bateria para obter a vitória na última sexta feira. Mas o Portelão lotado levou o samba no gogó e deixou claro que era a melhor opção para representar a Águia no desfile oficial.

Este resultado também é importante por significar a resistência portelense às chamadas "firmas" de samba enredo, grandes ajuntamentos de compositores que escrevem em várias escolas. Os autores do samba portelense para 2013 são da casa, e, mais importante: quem assina é quem realmente faz.

Vamos à letra do samba campeão, que deve sofrer pequenos ajustes na melodia para sua gravação oficial:

"E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios 
Por onde me deixo levar 
Laiá 
Nossa história começa por lá 
No engenho da fazenda 
Dos cantos de “canaviá” 

Bate o sino da capela 
Ôi... Que é dia de santo, sinhá

Tem mironga de jongueiro 
O tambor me chamou pra dançar

Tempo rodou na roda do trem e veio 
A inspiração do partideiro 
Que versou no mercadão 
Foi nesse chão 
Que a estrela brilhou no tablado 
O “madura” pisou no gramado 
O malandro charmoso dançou 
No pagode com outro gingado 
Quando o bloco chegou 
Agitou o suingue do black 
E a nega baiana girou

Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer

Surgiu a Serrinha imperial 
Em outros caminhos para o mesmo ritual 
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar 
É a capital de um sonho que me faz sambar

Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá"


Sobre outras escolas, como já se sabia desde priscas eras, a parceria "galáctica" da Vila Isabel (André Diniz, Martinho da Vila e Arlindo Cruz) venceu a disputa e deve disputar com o samba portelense os prêmios de melhor do carnaval 2013.

A meu juízo, é um samba muito bom, mas que talvez não obtivesse a repercussão que teve se não tivesse as assinaturas famosas que tem. Por outro lado, a disputa da Vila se configura complicada, porque André Diniz, dono de um imenso talento, possui uma posição de poder bastante monolítica dentro da agremiação, o que torna bastante desigual a disputa.

O leitor pode ver abaixo a apresentação do samba vencedor.


Na União da Ilha, uma vez mais a política prevaleceu na escolha e, em minha opinião e na de muitos analistas, se escolheu aquele que era o pior samba da final, o da parceria de Junior, Ginho e outros. Vinícius de Moraes merecia um samba mais melodioso e, acima de tudo, menos chato. Pena.

Aliás, este é um ponto que se deve frisar: as escolhas como um todo vem privilegiando fatores políticos acima de outros fatores, com raras exceções como a ocorrida na Portela. A qualidade do samba, decididamente, vem ficando em segundo plano na maioria das agremiações.

Além disso as chamadas "firmas" de samba enredo este ano estão consolidando seu domínio absoluto, em especial no principal grupo de escolas cariocas.

Ressalte-se também a escolha da Grande Rio, que optou por uma composição até bastante razoável tendo em vista o enredo panfletário sobre os royalties do petróleo.

A safra de samba 2013 vem se configurando até bastante razoável tendo em vista a quantidade de enredos disparatados escolhida este ano. Dois sambas de antologia (Portela e Vila, novamente) e alguns bastante interessantes.



(Vídeos: Carnavalesco)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Orun Ayé - "Os Finalistas da União da Ilha"


Excepcionalmente nesta quarta feira, o colunista Aloisio Villar nos traz uma edição extra da coluna "Orun Ayé". O tema é a final de samba para 2013 da União da Ilha, a se realizar no próximo sábado, a partir das 23 horas.

Pessoalmente minha torcida é pelo samba da parceria do Walkir, até porque a linha de dois dos outros sambas me leva a imaginar que sejam de "firmas" de compositores - ao menos me parece assim.

O leitor pode ouvir todos os sambas e formar a sua opinião nos vídeos deste post, realizados pelo site Carnavalesco.

Amanhã teremos a prévia da final da Portela, aqui mesmo. Mas vamos ao texto do colunista.

Os Finalistas da União da Ilha

Escrevo essa coluna na manhã do último sábado, dia 06. Acabei de chegar da semifinal da União da Ilha e os quatro finalistas já são conhecidos. 

A tal disputa que disse ter sido a mais frustrante da minha vida chega ao fim de forma justa e imprevisível. 

Os quatro melhores sambas, os que melhor se saíram durante o concurso estão nessa final. Não teve sacanagem ou roubalheira para chegar aos finalistas e são quatro bons sambas. Qualquer um dos quatro pode vencer o concurso que representará bem a União da Ilha na avenida. 

Qualquer um dos quatro será melhor que o samba desse ano e que os dos últimos anos. Mérito dos compositores que mostraram talento e do enredo, que faz com que saiam grandes sambas. Vinicius de Moraes inspirou os poetas insulanos. 

A disputa começou no fim de julho. Vinte e três sambas foram inscritos e ao contrário do ano passado, em que a escola teve uma safra fraca e ficou nítido no meio do concurso o que ocorreria, esse ano além dos quatro bons sambas outros sambas de boa qualidade entraram na disputa.


Três sambas que posso destacar e que poderiam estar nessa final foram os sambas da parceria do Lobo Junior e Bruno Revelação, parceiros meu e do Migão na vitória do ano passado e no concurso desse ano no Acadêmicos do Dendê, que começaram suas histórias como compositores na União da Ilha com um belo samba, melódico, poético e tendo a maior revelação dos últimos anos de nosso carnaval, Igor Sorriso, cantando o samba. 

O belo samba dos garotos acabou prejudicado pela inexperiência deles, que sabendo que perderiam o Igor no meio do concurso por ele defender sambas em São Paulo, não se prepararam pra substituí-lo a altura. 

O samba continuou passando bem, mas perdeu a grife e numa disputa do grupo especial ela é fundamental. Caiu quando tinha nove sambas. 

O samba do veterano Almir da Ilha, vencedor de vários concursos da escola também era muito bom. Ousado, diferente, seguindo a característica de seu parceiro Kleber Rodrigues que já foi campeão no Tuiuti e na Imperatriz. O samba conseguiu muitos adeptos, principalmente na internet e caiu quando tinha sete. Foi defendido por Clovis Pê. 

O outro era o samba do Paulinho Poeta, que contava na parceria com Bujão, um dos autores de Festa Profana. Bom samba, com passagem bem interessante do fim da primeira para refrão do meio, foi defendido por Alexandre D`Mendes e se despediu do concurso nessa semifinal.


Os quatro finalistas se nivelam.

O samba de Marcinho/Gabriel Fraga/Carlinhos Fuzil/Régis/Paulo Guimarães largou muito bem no concurso, pegando uma grande dianteira. Muito bem defendido por Tinga, o samba, poético, com algumas passagens melódicas lindas, parece ser o preferido do corpo da escola, ou seja dos segmentos.

O samba continuou passando bem pelo concurso, mas os outros conseguiram alcançá-lo e nivelar o concurso por cima.

A composição de Walkir/Jefferson Martin/Hebert Rosa/Fabio Sol/Ronaldo Rosa/Marquinhus do Banjo também conta com muito apoio, principalmente das alas de comunidade. Defendido por Quinho e Marquinhus, é mais extenso, conta o enredo com mais detalhes e tem um forte refrão do meio invocando os Orixás. Foi o que melhor se apresentou na semifinal.

Marcinho e Marquinhus são tetracampeões da escola e “abriram” a parceria esse ano, fazendo um duelo muito interessante. Marquinhus com mais de trinta anos de União da Ilha (mesmo tendo apenas quarenta e um anos) praticamente nasceu na escola e é muito querido.

Marcinho subiu dentro da agremiação de uma forma meteórica. Por muitos acusado de se beneficiar por ser filho do diretor de carnaval Marcio André, Marcinho vem mostrando valor e até posso dizer vem sendo injustiçado, muitas vezes com ofensas. Ser filho do Marcio acaba fazendo as pessoas não perceberem as inúmeras qualidades que tem.

Na parceria do Marcinho hoje tem o super campeão da escola e um dos meus mestres no carnaval Carlinhos Fuzil.

A parceria de Ginho, Junior, Vinicius do Cavaco, Jair Turra, Professor Hugo e Eduardo Conti é a base da parceria finalista do ano passado. Tem um samba correto, preciso, com algumas passagens bonitas e um bom refrão. Junior vem defendendo o samba com muita garra na ausência de Wantuir e sua parceria com Ginho que vem do Boi da Ilha deu certo. Sempre fazem sambas de qualidade.

A parceria de Marinho, Alex Escobar, Ronald Pennaforte, Beto Mascarenhas, Cesinha e Igor também é uma parceria montada há anos, tendo esse ano o 'plus' de contar com o apresentador do Globo Esporte do Rio de Janeiro Alex Escobar. Mais uma vez vieram com um samba correto, preciso na defesa de enredo e forte no refrão principal com os dizeres “a emoção invade o meu peito”.


As parcerias de Ginho e Marinho contam com a torcida da juventude do bairro. Pessoas bonitas, alegres, que muitas vezes vão por amizade aos compositores sem necessidade de coisas que muitas vezes compositor tem que dar para torcida aparecer. Junior vem da “parceria da nova geração” que surgiu na segunda metade da última década e fez belas disputas na escola. A parceria de Marinho de 2009 pra cá se tornou força na agremiação. Em 2010 para muitos, inclusive pra mim, foi injustiçado e merecia a vitória.

E aí? Quem ganha?

Não sei. O disse me disse está muito forte esse ano e cada hora é direcionado a uma parceria. Como eu disse, é a disputa mais equilibrada dos últimos anos e qualquer um pode vencer. Vários fatos além da qualidade do samba contam numa hora dessa e acho que o fator político pode decidir esse ano. 

Mas sei que o Migão vai querer uma posição minha, uma aposta e sem entrar nos méritos de cada samba e sem dizer se é meu preferido ou não (tenho sim meu preferido, mas não vou falar) eu aposto hoje no samba do Marinho, mas aposto sem firmeza alguma, só para apontar alguém.

Aposto pelo burburinho das últimas semanas que foi maior para ele, apesar de nos últimos dias ter aumentado para a composição do Ginho. Qualquer um dos quatro pode vencer que eu como torcedor da União da Ilha estarei feliz e me sentindo muito bem representado.

Esse ano não deu pra gente, mas do lado de fora aplaudo esses compositores por seus talentos e me orgulho da amizade de boa parte deles.

A sorte está lançada.

domingo, 23 de setembro de 2012

Orun Ayé - "O fracasso nosso de cada dia"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, parte de uma situação pessoal para algumas digressões sobre sucesso e fracasso. Vale a pena ler.

O fracasso nosso de cada dia

Ninguém gosta de se dizer fracassado.

Todos nós gostamos de passar uma imagem vitoriosa. Pessoas felizes, com estabilidade familiar, financeira, elogiadas e respeitadas em suas profissões e que não tem prisão de ventre.

Mas a vida não é bem assim...

... A verdade é que se tivermos uma posição bem crítica da vida vamos nos frustrar muito. A gente sempre renega o lado ruim, os fracassos, os defeitos. Não queremos passar uma imagem ruim e nem aceitar que temos falhas. Quando eu vejo o programa da Marília Gabriela no SBT e ela parte para o “bate bola” a última pergunta sempre é “fulano por fulano”. Ou seja, o entrevistado tem de falar como se vê.

Em 99% das vezes o entrevistado só passa elogios, coisas boas deles e a Gabi invariavelmente é forçada a perguntar: “e o lado ruim?”. A maioria ainda consegue desviar mesmo com essa pergunta. Muitas vezes responde “sincera demais” e como sabemos que sinceridade a princípio é uma virtude, na verdade ela quer dizer: “eu to certa, mas o mundo não aceita”.

O pior exercício que existe é mergulhar dentro da própria alma, admitir nossos defeitos e, principalmente, admitir nossos fracassos.

E acredite, leitor: somos movidos a fracassos, todos os dias fracassamos e temos muito mais fracassos na vida que sucesso.

Essa afirmação é polêmica, né?

Assusta, parece amarga, mas é verdade e acho sinceramente que admitir que somos seres fracassados nos faz chegar com mais facilidade à vitória.

Sim, parece incoerente, mas vou explicar.

Evidente que pode haver uma discussão. Como assim somos todos fracassados? Como podemos falar isso, por exemplo, de gente como Eike Batista, o homem mais rico do Brasil ou Mark Zuckerberg, criador do Facebook e o bilionário mais jovem do mundo?   

Pois o Eike foi notícia outro dia por perder uma grande quantia de dinheiro. Além de anos atrás ter sido traído pela sua então esposa Luma de Oliveira com um bombeiro. Zuckerberg colocou o Facebook na bolsa e esse perdeu 40% do valor desde então.

Até eles erram, até eles fracassam.

Quando você acorda e planeja seu dia sai tudo como imaginou? Você consegue ser vitorioso em tudo na sua vida? Tem nada nela que não vá como você queria? Você é hoje aquilo que imaginou quando criança?

Jesus Cristo espalhou o bem, mensagem de paz, operou milagres, foi o filho do Senhor e preterido por Barrabás por aquele povo que ajudou morreu na cruz perguntando “Pai, por que me abandonaste?”

Naquele momento até ele fracassou. O sucesso veio com a propagação de sua palavra através do tempo.

E a forma que essa palavra vem sendo usada hoje em dia, a forma como vem sendo deturpada mostra que infelizmente o ser humano não entendeu tudo o que ele quis passar. Assim, o sucesso não é completo.

Se nem Ele, o maior de todos os tempos conseguiu até hoje que as pessoas entendam que morreu por elas e não existe diferença entre os seres humanos, somos todos irmãos, radicalizando: se as religiões fracassaram porque temos que ser vitoriosos?

Na virada de ano prometemos um monte de coisa. Ganhar dinheiro, emagrecer, começar novo relacionamento, aquela viagem sempre adiada, ser mais amigo das pessoas e nem sempre isso dá certo. Muitas vezes felizes no amor e desanimados com a profissão, outras tendo o trabalho dos sonhos e ninguém em casa pra dividir essa alegria.

Todos nós fracassamos e muito, sem exceção, o vitorioso é aquele que admite que é falível, nem sempre vai alcançar seus objetivos, tem muitas falhas como ser humano e em cima dessas falhas ele trabalha pra atenuá-las.

Sabe que nunca vai acabar com as falhas e os fracassos, mas pode, trabalhando em cima deles e de seu lado bom, propagar mais, deixar mais frequentes seus momentos vitoriosos. O vitorioso consegue aos nossos olhos mostrar tanta força, poder, auto-estima (principalmente) que a gente acaba deixando seus fracassos de lado.

Eu acho que é por aí. A diferença está na auto-estima.

Enquanto para alguns os fracassos abalam e derrubam tudo, para outros vale uma gota de lágrima, uma passada de mão para limpar a roupa na queda, levantar e com cabeça erguida lutar para um novo fracasso ou sucesso.

E por que essa coluna justo agora? Resolvi mergulhar no mundo da auto-ajuda? Nada disso.

É porque eu venho de um grande fracasso e não tenho medo de admitir isso.

Já perdi sambas piores, que doeram mais. Vão me perguntar, essa foi a pior derrota de samba da sua vida? Não, longe disso.

Contudo, se perguntarem se foi meu maior fracasso nesses quinze anos de samba-enredo respondo, sem dúvidas, que sim. Foi.

Sábado passado fomos eliminados da disputa de samba da União da Ilha com oito sambas no concurso ainda. Não caía tão cedo na escola desde 2001. Aliás, não caímos propriamente, nos deram a opção de chegar à final do concurso ou cair. Preferimos cair.

[N.do.E.: em situações como esta é melhor “cair” antes sabendo que não se sagrará vencedor, dados os custos envolvidos]

Isso dá orgulho? É atenuante?

Não.

Porque a partir do momento que entre oito sambas, tendo na disputa sambas nitidamente inferiores ao seu, lhe dão essa opção é porque o projeto fracassou.

O projeto de quem venceu no ano anterior foi uma sucessão de erros - desde antes da entrega da sinopse - e acabou dessa forma melancólica. Para um atual campeão acabar uma disputa dessa forma é que foi tudo errado mesmo. Um grande fracasso.

E por que fracassou?

Fracassou porque não utilizou a principal norma para algo não dar errado: “se você quer agradar a todos, aí que dá errado”. Tentamos desde o começo o agrado de todos. Desde a montagem da parceria onde aconteceram situações traumáticas e irreversíveis, passando para o samba onde deixamos de colocar aquilo que acreditávamos pra agradar outras pessoas.

E justo ai, nessa parte, que o samba perdeu.

Existe política em samba?

Sim, muita. Sem política em ma disputa de samba-enredo você não passa do primeiro corte. Como é a política de samba na União da Ilha? Uma das mais complicadas que há, muitas vezes a política se sobressai ao samba e a escola sofre no final.

Há então decisões de concursos lá por interesses? Sim. Será assim esse ano? Quase certeza.

A escola tem alguma culpa de nosso fracasso? Nenhuma.

Fracassamos: fomos eliminados por culpa exclusiva nossa. Como eu disse lá no começo o ser humano nunca admite seu lado ruim, seus fracassos e acrescento, nunca admite suas culpas. Sempre que algo dá errado instintivamente joga a culpa nos outros, mas a vida não é assim.

Somos sempre responsáveis por nossos fracassos e se alguém foi responsável por ele foi porque nós permitimos.    

E a maior culpa desse fracasso da União da Ilha é minha, porque desde o começo sabia que estava errado e me omiti. Não quis desagradar aos outros mesmo sabendo que às vezes é necessário, me deixei levar por euforia que era feita de vento e até amizade perdi no começo do processo em busca da perfeição quando ela não existe. Esquecendo que se ela não existe, a proximidade dela é estar cercado de pessoas que você gosta, confia e admira.

O “Maria vai com as outras” sempre é deixado pelas outras em alguma parte do caminho. Esse foi outro lema que esqueci.

Fora isso, ainda tenho uma nova companheira: uma hérnia de disco que dói demais depois de um certo tempo em pé. Essa hérnia me limitou muito esse ano e me deixava irritado, frustrado por não fazer tudo o que eu queria. Como no palco, quando todos se divertiam e eu ficava quase parado. Descia aborrecido: essa disputa em nenhum momento me deu prazer.

E não ter prazer numa disputa em escola grande que se disputa bicampeonato, aonde você vem de um ano de grande sucesso profissional e financeiro que acaba com uma reunião para se decidir cair da disputa, “abortar um filho”, é frustrante demais, não tem outra palavra pra definir.

Fracasso.
  
Estou sendo cruel comigo escrevendo essas coisas? Acho que não, porque como escrevi acima o primeiro passo para o sucesso é reconhecer o fracasso e não deixar mais que aconteça aquele. Vou fracassar mais vezes? Sem dúvidas, mas quero fracassos novos, repetir fracassos já não é ser fracassado: é ser burro.

E burro eu não sou...

... Nem me deixo levar por fracassos. Eles são o primeiro passo para minha vitória e eu sou um cara vitorioso no samba porque meus fracassos me fizeram assim.

De um fracasso na União da Ilha em 2001 veio o samba do Boi que foi minha primeira vitória e ganhou o Estandarte de Ouro. Do fracasso com o “samba da minha vida” na final do Boi em 2008 veio o samba da escola vencedor do S@mbaNet em 2009. De uma inédita queda na semifinal do Boi em 2010 veio a parceria vitoriosa da União da Ilha no biênio 2011/2012, com duas finais e uma vitória.

Então é certo que desse fracasso virá algo muito bom.

Pare pra refletir sua vida, caro leitor. Admita seus fracassos, que nada é capaz de evitar que você falhe, que você tem limitações e verá como sua vida vai mudar.

Faça por você antes que o fracasso faça.

A vitória virá.