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domingo, 29 de janeiro de 2012

Orun Ayé - "As Escolas que a Mídia Esqueceu"



Neste domingo de traslado para Porto Alegre, a coluna "Orun Ayé", do compositor Aloisio Villar, traz aquelas escolas de samba que não fazem parte do Grupo Especial, em especial o glorioso Império Serrano.

As Escolas que a Mídia Esqueceu

Está chegando o carnaval. Em poucas semanas começa o maior espetáculo da Terra. As escolas estão a todo o vapor realizando seus ensaios de quadra, rua e os técnicos na Sapucaí.

Os barracões preparam suas mega alegorias, e as fantasias que muitas vezes custam mil reais começam a ser entregues. Todos os ingressos mesmo que caríssimos se esgotaram faz tempo e as emissoras de tv, sites, jornais e rádio dão grande destaque ao desfile das escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro.

Mas se engana quem pensa que as escolas de samba resumem-se apenas às treze escolas que desfilarão na Marquês de Sapucaí no domingo e segunda de carnaval. Elas formam a elite do carnaval carioca, mas tem muito mais carnaval e escolas por traz disso.

O carnaval do Rio de Janeiro comporta seis grupos de escolas de samba e quatro grupos de blocos de enredo. 

Os desfiles dessas agremiações acontecem na Marquês de Sapucaí onde desfilam o grupo especial patrocinado pela LIESA, Liga Independente das Escolas de Samba. Grupos A e B desfilam aos sábados e terças de carnaval patrocinados pela LESGA, Liga Independente das Escolas de samba dos Grupos de Acesso e os grupos C, D e E que desfilam na Intendente Magalhães aos domingos, segundas e terças e são patrocinados pela Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Os Blocos têm sua Federação e desfilam entre a Intendente Magalhães e o bairro de Bonsucesso durante os quatro dias de folia. Ultimamente se utiliza o critério de rebaixar a bloco as quatro últimas colocadas do grupo E das escolas de samba e transformar em escola a campeã do especial de blocos.

A realidade dessas agremiações é bem diferente das 'super escolas de samba s/a'. Não tem o glamour do Grupo Especial, seu charme e principalmente suas condições de trabalho e dinheiro. Enquanto as escolas de samba do Grupo Especial têm a cidade do samba para fazer suas alegorias, as escolas e blocos menores têm que se virar a fim de realizar seu carnaval. 

Muitas delas se organizaram e montaram barracões numa área chamada de “Carandiru”, localizada perto da rodoviária no bairro de Santo Cristo. Um lugar complicado de fazer carnaval, sem muito espaço, muitas vezes sem condições mínimas de segurança e conforto, mas é o que elas têm. 

Ou tinham porque a prefeitura abriu processo de retomada - o local faz parte do projeto “Porto Maravilha”. A revitalização da área para as Olimpíadas. 

Como eu falei as condições são mais dificeis para construir o carnaval. A subvenção é bem menor que as escolas do grupo especial e existe uma dificuldade bem maior de arrumar desfilantes. Se em uma escola do grupo especial as pessoas brigam por fantasias de mil reais, em uma escola pequena há dificuldades pra dar fantasia. Sim, de arrumar componentes para desfilar de graça. 

Quem trabalha em escola pequena é porque gosta de carnaval e ama aquela agremiação. O trabalho é tão ou mais árduo que  em uma escola grande, mas a pessoa não recebe nada para fazer: apenas a satisfação e emoção do trabalho feito e ver sua amada escola desfilando. 

Ninguém tem um cargo específico, não há espaço para poses. O presidente da escola carrega sacos de gelo, o diretor de carnaval empurra carros alegóricos, o carnavalesco fica todo sujo ajeitando o carro na avenida (já que invariavelmente há danos no trajeto), o presidente da velha guarda usa sua Kombi pra transportar as crianças ao desfile, o diretor de harmonia leva o lanche pra comunidade...

E o desfile se não é um primor na parte plástica dá um show de emoção, garra, luta, amor, samba no pé. 

Os desfiles na Intendente Magalhães são um barato. Não existe aquela frieza da Sapucaí. Lá é uma mistura de carnaval competitivo com carnaval de rua. 

Vemos as escolas passando ao nosso lado em pé na calçada ou em arquibancadas de madeira. Bate-bolas passam batendo suas bexigas por trás das arquibancadas, as pessoas colocam cadeiras de praia na frente de suas casas com churrasco e isopor com bebidas para ver as escolas passarem. Várias barracas em torno da avenida vendem churrasquinhos, salsichões, sopa de ervilha enquanto suas TVs passam o desfile das escolas do especial. 

Desfile realizado perto dali, mas as vezes tão longe. 

Com muita honra posso dizer que sou oriundo de escolas pequenas. Apesar de ser da União da Ilha o primeiro samba que compus, tudo que eu aprendi foi no Boi da Ilha, escola que hoje desfila no grupo C e tenho raízes também no Acadêmicos do Dendê, hoje no grupo D. 

Já disse em uma coluna que venci esse ano na União da Ilha e no Dendê e fiquei mais nervoso na hora do anúncio do resultado na segunda escola, apesar da vitória na primeira ser um sonho. 

Não só eu, mas muita gente começou nessas escolas. Elas são verdadeiramente escolas de samba e dão espaço para quem quer aprender. Se você pensa em começar em alguma escola de samba aconselho que comece por uma pequena. 

Têm escolas pequenas que desfilam na Intendente Magalhães que já revelaram muito mais sambistas que super escolas do especial. E essas escolas que estão hoje fora do grupo especial não ensinam ou ensinaram apenas pessoas a se tornarem sambistas. 

Elas ensinaram o samba. O inventaram e lhe reiventaram. 

Só ver na Intendente escolas como Unidos da Ponte, hoje no grupo C a escola esteve por anos no Especial e tem um Estandarte de Ouro de melhor samba do grupo especial, o samba “E eles verão a Deus” (83). 

Nos grupos de baixo encontramos Unidos de Lucas do antológico “Sublime Pergaminho”, Em Cima da Hora que tem em seu cast “Os Sertões”, considerado por muitos o melhor samba de todos os tempos  [N.do.E.: sou um destes] e outras escolas que passaram ou ficaram um bom tempo no grupo especial como Unidos de Villa Rica, Unidos do Cabuçu, Leão de Nova Iguaçu, Vizinha Faladeira (oriunda dos anos trinta) e muitas outras. 

Chegando um pouco mais acima, no grupo B encontramos a Caprichosos de Pilares, uma das escolas mais queridas do carnaval carioca por sua simpatia e irreverência. Quem nunca ouviu “tem bumbum de fora pra xuxú/qualquer dia é todo mundo nu”. 

No grupo A temos as campeãs do grupo especial Unidos do Viradouro e Estácio de Sá. 

E ele...

... Ele que não é um qualquer, representa a fidalguia e a aristocracia do carnaval. O menino de quarenta e sete é um os maiores vencedores do carnaval carioca, um dos que inventaram o que é hoje o desfile das escolas de samba e dono do maior acervo de samba de enredo do nosso carnaval. 

Como eles mesmos dizem, são patente e só demente que não vê. 

Falo do Império Serrano. 

Grupo especial sem o Império Serrano não é a mesma coisa, simplesmente porque ele deixa de ser especial. Eu vejo o Império, assim como vejo a Portela como uma força da natureza, um Orixá e a impressão que dá quando vejo o especial sem o Império é que falta alguma coisa. 

Império Serrano de Dona Ivone Lara, Beto sem braço, Aluizio Machado, Arlindo Cruz, Roberto Ribeiro, do trem de luxo que parte, que enfeita nossos corações de confete e serpentina, que se embalou pra me embalar, que cantou que Carmem Miranda estava aí, que a sereia morava no mar e brincava na areia. 

O Império Serrano do Pelé do samba de enredo, de Silas de Olivera que cantou que Brasília tinha seu destaque na arte, na beleza e arquitetura e num lamento pediu liberdade Senhor. 

Agora..fala sério, com tudo isso que eu escrevi. Como são essas escolas, suas batalhas, seu acervo musical e histórico, importância pra cultura de nosso país você ainda pensar que carnaval do Rio se resume a Marquês de Sapucaí eu sinto muito. 

Porque enquanto existir emoção existirá carnaval e emoção nem sempre vem do luxo, mas vem sempre do coração.

Orun Ayé!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Final de Semana - "Mas Quem Disse que Eu Te Esqueço"




Dona Ivone Lara, 90 anos, enredo do Império Serrano para o carnaval 2012 com um belo samba, uma das primeiras compositoras de samba a serem reconhecidas.

E hoje em nossa coluna de final de semana é ela a artista enfocada. A canção é "Mas Quem Disse que Te Esqueço", de sua autoria.

Tristeza rolou nos meus olhos do jeito que eu não queria
E manchou meu coração, que tamanha covardia
Afivelaram meu peito pra eu deixar de te amar
Acinzentaram minh'alma, mas não cegaram o olhar
Saudade amor, que saudade
Que me vira pelo avesso, e revira meu avesso
Puseram uma faca no meu peito
Mas quem disse que eu te esqueço
Mas quem disse que eu mereço
Láiá... Lá laiá... Lalaiá... Lá laiá ... Lá laiá... Lá laiá
Lá... Lá laiá... Lá laiá... Lá laiá

domingo, 2 de outubro de 2011

Orun Ayé - "Quando Um Samba Não Vence"



Neste domingo, que pra mim começa no Rio e termina em Curitiba, temos mais uma edição da coluna "Orun Ayé", assinada pelo compositor e publicitário Aloísio Villar.

Hoje ele fala do outro lado das disputas de samba: quando se perde.

"Quando Um Samba Não Vence

Quando a gente faz um samba... pega uma sinopse, monta uma parceria, contrata cantores, músicos, se reúne todas as semanas, tem gastos, stress, fica sem dormir, tudo isso é atrás de uma coisa...

...vencer a disputa. 

Mas a primeira coisa que aprendi quando entrei pro mundo do samba é que perdemos mais do que vencemos - é verdade. Tenho orgulho das vinte e quatro vitórias que tenho, mas para chegar nesse número perdi cinquenta e sete sambas. 

E não se engane, caro leitor: a derrota é o destino mais provável do seu samba. Até os mega escritórios dos "Compositores S/A" perdem mais que vencem. Fazem dez sambas para ganhar dois ou três - e saem com a fama de vencedores. 

Mas tem sambas que suplantam suas derrotas. Não vão ao limbo comum daqueles sambas que perdem as disputas, pois acabam marcando como se fossem sambas vencedores. 

O exemplo mais famoso vem de Madureira, do Império Serrano. 

No carnaval de 1975 Acyr Pimentel e Cardoso concorreram no Império, que levaria à avenida enredo sobre a vedete Zaquia Jorge. Ele perdeu, mas foi regravado pelo cantor Roberto Ribeiro (acima) e entrou para a história do samba ganhando o nome de “Estrela de Madureira”. 

Brilhando
Num imenso cenário
Num turbilhão de luz, de luz
Surge a imagem daquela
Que o meu samba traduz
Ah...
Estrela vai brilhando
Mil paetês salpicando
O chão de poesia
A vedete principal
Do subúrbio da central foi a pioneira

E...
Um trem de luxo parte
Para exaltar a sua arte
Que encantou Madureira
Mesmo com o palco apagado
Apoteose é o infinito
Continua estrela
Brilhando no céu 

A música ficou famosa, mais famosa que o samba que venceu, muita gente nem sabe que era um samba-enredo e ainda mais... que perdeu a disputa. 

Eu particularmente acho que seria uma grande sacada se um dia o Império reeditasse o enredo sobre Zaquia e usasse esse samba: seria um dos grandes momentos da história do carnaval. 

Outros compositores tiveram sambas seus derrotados gravados por artistas da MPB, como Franco da União da Ilha. Martinho da Vila já regravou alguns sambas seus que perderam na Vila Isabel e fora esses sambas que apareceram em algum LP ou CD tem aqueles sambas que não saem de nossas memórias. [N.do.E.: a Portela nos últimos anos tem se especializado em jogar o trigo fora e escolher o joio. Voltarei ao tema]

Seja por frequentar quadra e acompanharmos as eliminatórias ou ouvindo pela grande rede, uma das grandes vantagens do surgimento da internet foi a democratização do samba concorrente: temos sambas que não saem de nossas mentes e eu tenho o meu também. 

O que não esqueço surgiu na União da Ilha para o carnaval de 2000. O enredo era “Pra não dizer que falei de flores” falando sobre a resistência cultural à ditadura brasileira de 1964/1985, emespecial operíodo até 1968. Nessa eliminatória surgiu o lindo samba de Djalma Falcão, Dito, Jota Erre e Bicudo defendido por Roger Linhares. 

O samba era assim:

Meu Brasil, está em festa 
Parabéns 
Vem meu bem vamos embora 
Quem sabe faz a hora 
Eu quero ser feliz também 
Vem, ver os sonhos que plantei 
Colher nos jardins que andei 
Rosas coloridas 

Caminhando eu vou contar cantando 
Que eu sou o dono dessa terra de ninguém 
Pra defendê-la me levanto e grito 
Eu vou 

Vou seguindo as estrelas 
Que brilham nos palcos da vida 
Poetas irreverentes 
Que deram adeus sem despedidas 

Aplausos, para quem pela paz lutou 
E fez da flor 
As mais lindas canções de amor 
Os anjos bordados nas nuvens, no céu 
E a Lua num brilho de aluguel 
Iluminando lágrimas de emoção 
Tô voltando, bate forte coração 

Meu bem me dá um beijo de saudade 
Liberdade 
É a voz do povo, vem com a Ilha sorria 
Pra não dizer que não falei de alegria 

Bem, o samba era maravilhoso, passava muito bem a cada semana, mas perdeu. E na sua derrota ouviu-se um “silêncio ruidoso” na quadra - que logo ficou vazia. 

Foi a derrota de um samba que não era meu, eu tinha nada a ver com ele, mas senti como se eu tivesse composto. 

Por falar em sambas compostos por mim também tenho aqueles especiais que perderam. Já perdi sambas de todas as formas, sambas ruins, legais, que achava que merecia perder, achava que não merecia. 

Mas três sambas me marcam profundamente, estão no meu top 10 dos sambas que fiz e guardo com o mesmo carinho de sambas que venceram. 

No carnaval de 2004 estreei na Beija-Flor, escola considerada com a disputa mais forte hoje do Rio de Janeiro e fui pra lá com Paulo Travassos e Cadinho da Ilha me juntar ao compositor nilopolitano Jackson Braga. 

Pedimos ajuda ao Roger Linhares e começamos a fazer o samba que foi ficando muito bom. Djalma Falcão e Mingau viram que estava ficando legal e pediram pra ajudar fazendo a segunda do samba e o refrão final e daí nasceu um dos meus sambas preferidos. 

E o toque especial desse samba veio ao convidarem o inesquecível Jackson Martins para defender na quadra. Jackson era um cantor brilhante, cantava com facilidade, sua voz parecia vir da alma. Devia vir mesmo. 

Eram 107 sambas, ficamos em 8°, caindo nas quartas de final, isso tudo no nosso primeiro ano na escola. Chegaram até a cogitar sua vitória, mas faltou poder financeiro para colocar torcida na quadra e o samba campeão é muito bom, um dos melhores desse começo de século do carnaval carioca. 

Foi o último samba que Jackson Martins defendeu na Beija-Flor, escola que ele surgiu para o samba antes de se tornar cantor da Caprichosos de Pilares. 

Ele foi assassinado no dia 8 de agosto de 2004. 

E todo esse simbolismo, ter o Jackson conosco em seus últimos momentos, a força do samba fez que ele se tornasse inesquecível pra mim. 

Manoa, Manaus, Amazonas 
Terra santa que transmite a paz 
Faz bem ao corpo, equilibra a alma 
Santuário de riquezas naturais 
Império de bravos guerreiros 
A ganância do homem depertou 
Vem a chuva e molha a mata 
São as lágrimas dos Deuses 
Mãe natureza padece 
Em teu seio estão rezando nova prece 

Em busca do Eldorado vem de lá 
A maldade navegando rio mar 
O demônio ficou cego de ambição 
E não viu o ouro verde pelo chão 

E assim vi reluzir 
O amor da mulher guerreira 
A dor e o misticismo espalhando proteção 
Virá, da luz virá 
O fruto, a flor dos deuses, quem provar 
Vai gostar, irá por certo dar valor 
Ao doce sabor do guaraná 
No ar o progresso e a cultura 
Como um vendaval vem a civilização 
Manaus querem lhe transformar em Paris 
Bela cidade raiz, sonha em ser feliz 

Vai voar meu beija-flor em liberdade 
Planta a semente de amor e paz 
Pra colher felicidade 

Já no carnaval de 2008 veio o segundo samba derrotado inesquecível e o primeiro que verdadeiramente doeu perder - e dói até hoje. 

Quando o Boi da Ilha anunciou seu enredo sobre Gaia (já comentado na coluna anterior) eu quis ousar, fazer um samba sem rimas e cheguei a fazer essa letra diferente - que causou dificuldades em Cadinho da Ilha e Ito Melodia, responsáveis pela melodia. 

Junto com Barbieri mexemos na letra, tornando mais fácil que se colocasse melodia; mas ainda muito ousada e foi com esse samba ousado que entramos na disputa. 

O samba conquistou a muitos e deu medo em outros que achavam que era samba para o grupo especial e não no Grupo B, onde o Boi se localizava no momento. Mas foi crescendo, crescendo e chegou na final como favorito e eu já havia sido informado que o samba provavelmente venceria. Houve uma reunião três dias antes da final e nela se definiu o possível resultado. 

Mas o samba perdeu, aquele que considero uma das melhores letras da minha vida 

Quando a humanidade 
Ouvir o clamor que vem da mãe Terra 
Espero não estar perto do fim 
Senhor olhai por nós, tire essa cruz de mim 
O ser vivo que moramos está doente 
Chora padece, provocando reação 
Para impedir o juízo final 
Só o juízo afinal 

Derrubem fronteiras, todos juntos pra salvar 
Vamos dar as mãos, na união apostar 
Cidadania é a nossa fé, eu tenho fé 

Desenvolver sustentado no ambiente 
Nova história, outra maneira de contar 
Quero água limpa pra beber, água limpa de viver 
Meus netos conhecendo a fauna e a flora 
Sonhos de um louco como eu 
No meu enredo esse sonho aconteceu 

Vai meu samba, vai levar 
Nossa voz ao mundo inteiro 
Vai meu samba viajar 
Seja nosso mensageiro 

Gaia quero ver você feliz 
Azul mais azul na beleza das cores 
Jardim do Éden voltou, obra prima do criador 
E a minha escola vem cantando em seu louvor 

Basta amor pra preservar, curar 
O planeta no pulsar de um coração 
Basta amor pra preservar, mudar 
Meu carnaval é emoção 

O último veio ano passado, Boi da Ilha carnaval 2011. Eu, Cadinho da Ilha, Marcelo Cossito, Tino Ayres, Carlinhos Fuzil e Bujão fizemos o samba em uma tarde. Ele falava sobre a lenda do surgimento do guaraná. 

Um samba especial para mim porque no fim fala sobre amor de mãe, de uma certa forma consegui fazer uma homenagem à minha. 

Contudo, foi uma disputa complicada, confusa, com o Boi em sérias dificuldades financeiras após cair para o grupo C e perder a sua quadra na Freguesia. Peregrinou por mais duas quadras até conseguir fazer sua final. 

Cheguei na quadra já com o papo que o samba perderia e na hora do resultado recebi um sinal do palco confirmando essa derrota. Foi a derrota que me fez licenciar da escola e trouxe muita frustração. 

Conta a lenda 
Que o pajé se indignou 
Vendo a fraqueza do seu povo 
Pediu a Deus Tupã pra lhe ajudar 
Pra ver de novo a semente da vida brotar 
E assim, do seu ventre a bela índia concebeu 
Nasceu, o curumim que o amor divino ofereceu 
Uniaí ganha a ira dos irmãos 
Noçoquém a viu partir sem o perdão 

Aguiry belo e forte a castanha quis provar 
Aguiry, tome cuidado com os perigos do lugar 

Perdido no caminho, o veneno da maldade 
A dor, o sofrimento, o choro amargo da saudade 
Sob olhar do destino 
O velho vira menino 
A tecnologia vem desse esplendor 
Exportando ao mundo inteiro a delícia do sabor 
Amor de mãe gera frutos no pomar 
Amor de mãe doce como guaraná 

Ecoa meu tambor 
Aldeia boiadeira está em festa 
Maué Sateré Maué 
Vamos brindar Uaraná Cecé 

Entre mortos e feridos, vencedores e derrotados o samba prossegue. Não dá pra vencer sempre e muitas vezes de uma derrota vem uma vitória futura, porque essa derrota traz ensinamentos e porque não, orgulho e espírito vitorioso. 

As derrotas nos fortalecem. Levantar, sacudir a poeira e prosseguir é o mais importante porque o trem de luxo que encantou Madureira sempre parte e sempre tem um lugar para nós. 

Aqueles que não perdem a mania de dar a volta por cima.

Orun Ayé!

sábado, 5 de março de 2011

História & Outros Assuntos: "Carnaval. Doce Ilusão?"


Dando seguimento à nossa programação carnavalesca, o tema de hoje da coluna do historiador Fabrício Gomes é a relação entre samba e História.

Carnaval. Doce ilusão?

“Carnaval
Doce ilusão
Dê-me um pouco de magia
De perfume e fantasia
E também de sedução
Quero sentir nas asas do infinito
Minha imaginação...”


Os primeiros versos do samba-de-enredo “Os cinco bailes da história do Rio”, composição de Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Bacalhau, apresentado em 1965 pelo Império Serrano, não são apenas uma constatação. A imaginação que o samba fala vai muito de como é a percepção de cada um sobre o que, de fato, representa o desfile das escolas de samba.

Entra ano e sai ano vêm os desfiles das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Mais do que o espetáculo inconteste das escolas, das baterias, das fantasias e dos gigantescos carros alegóricos, desfilam pela Avenida um festival de celebridades e mulheres bonitas, praticamente seminuas, em busca de seus 15, 20 minutos de fama – podendo ganhar uma “sobrevida” caso alguma revista masculina convide alguma para ser garota da capa numa próxima edição.

Mas.. cabe a pergunta: “o carnaval é apenas contemplar corpos bonitos, bumbuns e paetês?”

Acredito que por trás do desfile das escolas de samba do carnaval carioca (e sem querer cair no erro do bairrismo, do carnaval paulista também), haja algo muito maior: não somente a embalagem, mas também conteúdo. Muito conteúdo. Além de ser uma manifestação cultural sem precedentes, o nosso carnaval (aí estendendo para outras praças, como Salvador, Recife, Olinda, Ouro Preto, entre outras) retrata também a riqueza antropológica, sociológica e musical de um povo.

No caso do desfile de uma escola de samba, muitas coisas estão implícitas. Assistir uma escola desfilando é como se estivéssemos numa aula de cultura, aprendendo o ponto de vista que o professor (o carnavalesco) daquela disciplina (escola/enredo) quisesse expressar aos alunos (o público presente na Sapucaí e na TV – OK, na TV ainda há um certo “intermediário”, os comentaristas, que inevitavelmente comentam seus pontos de vista e acabam por influenciar a “aula”). Variados enredos são apresentados, e no fim de uma, duas noites, temos a impressão de estarmos extasiados com a quantidade de informação disponibilizada.

Aí geralmente cabe a reflexão: “que prazer assistir a essa aula, não?”


Recentemente dois discos foram lançados no mercado fonográfico: “Aula de samba: a História do Brasil através do samba-enredo” (com simpática capa - acima - desenhada pelo cartunista Ziraldo, com diversas personagens importantes da História do Brasil) e “História do Brasil através do samba-enredo: o Negro no Brasil” (este na verdade, um relançamento, já que o original data de 1976). Em ambos os discos, há uma primorosa seleção de sambas-de-enredo que:

1) Abordaram personagens históricos, contando sua saga, suas lutas e influências;
2) Sambas-de-enredo que tiveram foco na questão do negro, na escravidão, no tráfico de escravos e na abolição da escravatura.

Realmente quem ouve os discos tem a impressão de estar numa aula de História. Estes discos são tão importantes que são constantemente utilizados em metodologias em História, nas salas de aula, como forma de aprendizado alternativo e mais simpático aos alunos, fugindo do velho recurso já batido de acreditar que monólogos e decorebas são as maneiras mais corretas de fazer com que alunos aprendam História.

Como percebemos então, o carnaval não é apenas uma “festa pagã”, lasciva e do pecado. Carnaval também é cultura. Muita cultura.

Ao longo de décadas, o desfile das escolas de samba teve muita história pra contar. Desde o Estado Novo, quando os desfiles eram utilizados como forma de “propaganda” do regime ditatorial de Vargas – as escolas levavam temas nacionais, geralmente contando a vida e obra de grandes personagens, na maioria das vezes simpáticos à causa republicana – mas atenção: quase nada sobre a República Velha (ou Primeira República, de acordo com a nova historiografia), já que a Revolução de 1930, da qual Vargas foi um dos principais nomes, queria justamente enterrar um passado identificado com militares jacobinistas associados a oligarcas (coronéis do agreste e antigos barões do café). Então era possível identificar Tiradentes, um dos principais símbolos que a República utilizou) em enredos, assim como nomes que fossem simpáticos ao regime.

A utilização de temas históricos foi se aprimorando. A Mangueira em 1956 apresentou o enredo “Homenagem a Getúlio Vargas, o grande presidente”, ficando em terceiro lugar; em 1958 a Portela foi campeã com o enredo “Vultos e efemérides do Brasil”, e no mesmo ano a Tupi de Brás de Pina apresentou o enredo “Inconfidência Mineira”, ficando em oitavo lugar. No desfile de 1962, por exemplo, praticamente todas as escolas desfilaram com enredos históricos – a Portela foi campeã com o enredo “Rugendas ou Viagens Pitorescas através do Brasil”. 

Nesta mesma década de 1960, o Salgueiro inaugurou uma nova concepção de desfiles, com Fernando Pamplona no comando, e levou vários de enredos históricos de causar inveja, sempre relacionados com a escravidão: “Quilombo dos Palmares” (1960), “Chica da Silva” (1963), “Chico Rei” (1964), “História da Liberdade no Brasil” (1967) e “Bahia de Todos os Deuses” (1969) – a escola ainda apresentaria enredos relacionados durante a década de 1970, como “Festa para um rei negro” (1971) – que ficou popularmente conhecido com o fabuloso refrão “Pega no Ganzê, Pega no Ganzá” – e “Valongo” (1976) – nome que era dado ao mercado de escravos próximo à região da Gamboa, centro do Rio, onde muitos que chegavam da África, em más condições físicas e de saúde, eram alocados à espera de senhores que os comprassem – a maioria morria ali mesmo, e o Valongo parecia um “açougue” humano.

No caso do Salgueiro é importante ressaltar o papel que a escola teve nos anos 1960, de levar enredos que falassem de temas arriscados como “liberdade”, “abolição”, “exploração de trabalho escravo”, justamente numa época onde, na política, temas como nacionalismo e anti-imperialismo eram belicosos. E depois de 1964, com a ascensão do regime militar, parecia mesmo uma provocação que a escola apresentasse, em 1967, um enredo que falasse sobre... “A História da Liberdade no Brasil”. E era mesmo.

Assim como o Império Serrano apresentou-se (e ainda se apresenta) sob a égide de ser uma escola de “resistência” – seu enredo de 2001 apresentou a história do Cais do Porto do Rio de Janeiro, e um dos versos do samba falava justamente sobre a estiva (trabalho de carga e descarga de navios ali parados), o que motivou, no início do século XX o surgimento do sindicato dos estivadores – o primeiro sindicato do Brasil. A trajetória imperiana em muito se confunde com isso: com a luta contra os poderosos dirigentes que comandam o carnaval, sempre buscando ressaltar valores como samba e tradição, entre outros, em detrimento de modernidades nem sempre tão saudáveis aos desfiles.

Certamente se eu fosse listar todas as escolas e enredos históricos, ao longo desses praticamente 80 anos de desfiles, só terminaria de escrever após o carnaval do ano que vem.

Entretanto, cabe chamarmos a atenção para a questão da letra dos sambas-de-enredo. 


Muitas delas hoje estão defasadas, tendo em vista que a historiografia se aprimora a cada ano, pesquisas e novos estudos são feitos sobre temas da nossa história. Um samba em especial merece destaque: “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós”, que elevou a Imperatriz Leopoldinense ao título máximo do carnaval em 1989, num desfile primoroso, recheado de emoção, com um samba considerado por muitos como antológico, tanto na letra, como na melodia. O enredo falava sobre o centenário da Proclamação da República (1889-1989).

Mas... se hoje a Imperatriz desfilasse com aquele samba, perderia preciosos pontos, já que o samba possui trechos que não soam mais verdadeiros. Em 1989 ainda não tínhamos estudos muito esclarecedores sobre o que foi realmente a Proclamação da República. Ainda não tínhamos a primeira eleição democrática para presidente, ainda vivíamos sob influência de ementas escolares que datavam das décadas anteriores (elaboradas pelo regime militar), ainda dava-se Educação Moral e Cívica nas escolas – uma disciplina que prezava e exaltava feitos militares, patriotismo etc – e certos temas ainda eram obscuros e muito complexos para fazer com que alunos entendessem.

Então era muito normal acreditar que o Marechal Deodoro da Fonseca tivesse proclamado a República com extremo vigor e que sua figura estivesse descolada por completo da Família Real. E que a abolição da escravatura em 1888 tivesse representado a liberdade, de fato, de todos os escravos. Convido o leitor então, para alguns comentários em torno da letra do samba da Imperatriz de 1989:

“Vem ver, vem reviver comigo amor
O centenário em poesia
Nesta pátria, mãe querida
O império decadente, muito rico, incoerente
Era fidalguia”


(Quanto a esse trecho em si, nenhum problema, embora fosse uma visão estritamente jacobinista republicana encarar a monarquia como sendo “incoerente”. Alguns jornais republicanos chegaram a publicar charges de D.Pedro II dormindo, refestelado em poltronas, como se estivesse alheio aos problemas do Brasil. Muitos acusavam-no de viajar pelo mundo, não tendo dom para governar o país. Em muitas ocasiões, a mandatária, de fato, era sua filha, a Princesa Isabel.)

“Surgem os tamborins, vem emoção
A bateria vem no pique da canção
E a nobreza enfeita o luxo do salão
Vem viver o sonho que sonhei
Ao longe faz-se ouvir
Tem verde e branco por aí
Brilhando na Sapucaí”


(Quando a letra diz que “a nobreza enfeita o luxo do salão”, refere-se ao último baile do Império, realizado na Ilha Fiscal, em 9 de novembro de 1889, a seis dias da Proclamação da República, e foi oferecido pelo Visconde de Ouro Preto à nação chilena e aos comandantes e oficiais, através do encouraçado “Almirante Cochrane”, que se encontrava atracado na Baía de Guanabara,. O evento acontecia como forma de agradecimento à recepção do navio brasileiro, quando este chegou a Valparaíso, no Chile. Os republicanos criticaram esse baile em exaustão, acusando o Império de esbanjar dinheiro e suntuosidade desnecessárias.)

Da guerra nunca mais
Esqueceremos do patrono, o duque imortal
A imigração floriu de cultura o Brasil
A música encanta e o povo canta assim”


(Exaltação à Guerra do Paraguai? Uma guerra que provocou baixas, onerou o Estado e tornou-se uma pedra no sapato para o Império? Certamente uma visão republicana de contar a história. E sobre o Duque de Caxias, alguns livros questionam sua verdadeira atitude dentro do Exército. Para muitos, era um homem “de gabinete”, cabendo ao General Osório, de fato, ser um oficial mais próximo dos combatentes. Quanto à imigração, a letra não erra quando ressalta a importância de novas culturas entrarem no Brasil.)

“Pra Isabel, a heroína
Que assinou a lei divina
Negro, dançou, comemorou o fim da sina”
 

(É inquestionável a importância que a Lei Áurea teve no processo histórico brasileiro. É correto também afirmar que os negros, antigos escravos, dançaram e comemoraram a abolição da escravatura. Mas a realidade imediatamente após a abolição, já com a República implantada no Brasil, foi bem diferente. Aí fazendo um gancho com o samba da Mangueira do ano anterior, que questionava também os 100 anos de liberdade (“Cem anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?”), onde a escola em certo trecho dizia que o negro estava “livre do açoite da senzala e preso na miséria da favela”, o samba da Imperatriz em 1989 soa como desconhecimento ou provocação, já que a maioria dos ex-escravos não tinha pra onde ir após estarem livres, indo viver nas favelas, e foi aos poucos sendo colocado debaixo do tapete pela aristocracia republicana.)

“Na noite quinze reluzente
Com a bravura, finalmente
O marechal que proclamou
Foi presidente”
 

(Outro erro histórico, analisado nos dias de hoje. A noite de 15 de novembro de 1889 foi tudo, menos reluzente como diz o samba. A Proclamação da República foi um golpe de estado onde a população apenas assistiu, bestializada, a tomada do poder por um grupo de militares. O próprio marechal Deodoro da Fonseca era amigo pessoal do imperador D. Pedro II e hesitou muito antes de se levantar da cama, enfermo, no meio da noite, para fazer a Proclamação. Isso está longe de ser um ato de bravura, não?)

Não é objetivo aqui falar que o este samba não possui méritos. E seria de uma total injustiça querer, 22 anos após aquele desfile, criticá-lo, inclusive porque seria uma atitude anacrônica fazer isso. Inclusive porque, como disse anteriormente, pesquisas históricas foram aprimoradas. O que fizemos aqui foi apenas um exercício de comparar uma letra de samba antigo com a realidade que a História hoje nos apresenta.

Portanto, carnaval é historia e os desfiles proporcionam verdadeiras aulas para nosso povo, tão carente de cultura e informação. Pena que seja apenas explorado sob o ponto de vista da festa, da lascividade e que o conteúdo que possam proporcionar ainda precise ser... proclamado!

Bom carnaval a todos! Estarei aqui comentando a transmissão televisiva dos desfiles. Até lá!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Jogo Misto - Vítor Monteiro


Vítor Monteiro, trinta e poucos, carioca. Um homem multitarefa: químico do Cenpes - o Centro de Pesquisas da Petrobras, sambista, presidente de ala e ainda participou do departamento de carnaval do império Serrano durante os anos da gestão Humberto Carneiro.

Muitos anos convivendo em listas de discussão pela internet e na empresa, com convergência de pensamentos, levaram-nos a uma profícua amizade. Vítor Monteiro é o entrevistado de hoje da coluna Jogo Misto.

1 - Muitas vezes falam do do Cenpes, Centro de Pesquisas da Petrobras, e as pessoas não sabem qual é exatamente o seu papel. Afinal de contas, qual é a missão do Centro de Pesquisas da Petrobras ? Em que consiste sua atuação ?

VM - O Cenpes é um elemento pouco conhecido pelo grande publico. No entanto seu papel é muito importante em algumas questões estratégicas. Foi do Cenpes que surgiram as tecnologias inéditas em todo o mundo que fizeram a Petrobras ser líder em águas profundas. É no Cenpes que estamos tratando os desafios do pré-sal, um cenário exploratório tão desafiador e desconhecido pela industria do petroleo como um dia foi a questão das águas profundas. 

O papel do Cenpes é resolver os gargalos tecnológicos do presente e antecipar os problemas que virão no futuro. No momento, por exemplo, muitos esforços são colocados na questão ambiental. A visão da empresa é que no futuro isso será tão importante quando a saúde financeira da companhia.

2 - Qual a influência do Cenpes no dia a dia do leitor?

VM - Muitas pessoas passam pela linha vermelha todo dia e avistam a torre doCcenpes com o simbolo verde e amarelo da empresa. Mas poucos sabem o que acontece ali. Ali são projetadas plataformas de petróleo, novos processos de refino, novas tecnologias visando aumentar a produção brasileira de gás - para citar alguns exemplos. São cinco mil pessoas entrando e saindo todos os dias do maior centro de pesquisas da América Latina. 

3 - Como você avalia a gestão atual das nossas escolas de samba?

VM - Acho o poder público omisso. Ele trata aquilo apenas como um grande espetaculo e isso está errado. Não é apenas show. É muito mais do que isso. Muita gente esta por trás daquilo. Esse conceito de "show" foi criado pelo Cesar Maia e ficou até hoje. 

O poder publico precisa estar mais presente. Fiscalizando as licitações do sambódromo e da Cidade do Samba, porque essas foram construídas com dinheiro público. Os gastos das escolas também precisam ser fiscalizados, quando as mesmas também recebem verba pública. 

E o julgamento, para mim o ponto chave de tudo, precisa ser isento e controlado por uma empresa de auditoria externa. Não é razoável que as próprias escolas julguem a si próprias. Já vimos muitas escolas ganharem títulos seguidos porque seu "patrono" era presidente da LIESA. 

As pessoas tem que escolher. Ou bem são jogadores ou bem são árbitros. Os árbitros não podem ser escolhidos pelos jogadores do jogo.

4 - De que forma você avalia a atuação da Liesa à frente do desfile de escolas de samba do Grupo Especial?

VM - A Liesa se cria em cima da incompetência do poder publico. É como uma privatização de uma rodovia. Quando essa rodovia era uma via pública vivia cheia de buracos. Isso deixava o caminho aberto para a privatização. Ninguém gosta de buracos na pista.

Daí vem a iniciativa privada e tapa os buracos enchendo a rodovia de pedágios e auferindo bons lucros. Nesse momento a opinião pública fica favorável à privatização. 

Fernando Henrique Cardoso fez isso: sucateou várias empresas públicas para poder ganhar apoio do povo na hora de vendê-las. É uma grande armação. A Liesa foi lá e tapou os buracos. Hoje o desfile é organizado e não tem atrasos. Eu não posso concordar com essa visão limitadora da maior festa popular do mundo. 

A Liesa propôs um carnaval formatado, hermético e pasteurizado. Há uma super valorização do visual, de alegorias e de teatralizações comandadas por corpos de balé ou de teatros profissionais. E o sambista, coitado, "sambou", como previa o samba da São Clemente em 1990.

5 - O Império Serrano vive uma grande crise há quase vinte anos. Quais os motivos que levaram a este quadro, onde a escola está no Grupo de Acesso?

VM - Não concordo com esse tipo de visão. O Império tem uma crise de bons resultados segundo o julgamento da LIESA. Isso não significa que não tenha feito ótimos desfiles num passado bem recente. 

Em 2002, por exemplo, fizemos um ótimo desfile, todos acharam isso. Em 2004 arrebatamos a Sapucaí com uma catarse popular pouco vista nos 27 anos de Sambódromo. Em 2006 merecíamos estar no Desfile das Campeãs e ficamos em oitavo. 

Em 2009 ninguém dava o Império como rebaixado, mas ele foi o escolhido. São muitos resultados injustos em tão pouco tempo. É dificil lutar contra isso. Veja que eu citei quatro ótimos desfiles num intervalo de sete anos. Não parece bom? 

Pode parecer choro de torcedor de futebol, daqueles que gostam de culpar sempre o juiz pela derrota do seu time, mas pergunto aos leitores: em todos os anos citados acima o Império não foi, de fato, muito prejudicado? 

Se a gente tivesse ido pro desfile da campeãs em 2006 qual seria o futuro da escola? O presidente recém eleito teria ótima situação para trabalhar. O carnavalesco daquele ano teria ficado na escola. E se a escola não caísse em 2009? Talvez hoje sua pergunta seria outra. 

O problema é que a gente se baseia no resultados do julgamento oficial, claro, porque ele é único que existe. E nesse caso, de fato, o Império não vai bem. Para melhorar precisa ser comandado por pessoas que conheçam melhor como funcionam as coisas na LIESA, não basta fazer carnaval. 

6 - Qual a saída para a crise da escola?
 
VM - Acho que respondi acima.  Semana retrasada teve feijoada com show de Arlindo Cruz. A quadra estava repleta. Repleta é pouco. Estava tomada, beirando o insuportável. O calor era de matar e não havia uma molécula de oxigênio livre. Essa escola está em crise? 

Não adianta bater. O Império é que nem bolo, quanto mais bate mais cresce. É uma escola orgânica, viva, visceral e imortal. Outras escolas não resistem aos maus resultados. No Império isso não é a única questão.

7 - Em que consiste o trabalho de um Presidente de Ala? Quais as etapas do processo até a fantasia ser entregue ao desfilante? 

VM - Essa resposta acredito que vai me consumir um dia inteiro digitando.....risos...é brincadeira, claro, mas a verdade é que eu estou há sete anos nessa parada e tenho muito o que dizer. Muito mesmo. Vou tentar ser menos prolixo para a resposta caber no espaço adequado. 

A ala do Devotos pode dizer sem problemas que é uma ala comercial completamente diferente das demais. Pra começo de conversa, na nossa ala não basta entrar, pagar e desfilar. Não é assim que funciona. Se uma agência de turismo me telefonar agora querendo colocar 10 estrangeiros na ala eu não aceito. Nosso conceito primordial é ajudar o Império. É por esse motivo que a ala foi fundada em 2003 pela minha ex-mulher Inês Valença [N.doE.: na foto, com o entrevistado e o autor deste blog]. 

Para desfilar na nossa ala é fundamental participar do eventos da escola, ir aos ensaios, saber cantar o samba. Posso dizer que somos uma ala comercial, mas que mistura alguns elementos daquilo que chama de ala de comunidade.É por isso que quando nossa ala passa na avenida as pessoas percebem a diferença de qualidade do desfilante.


Isso é na verdade um ciclo virtuoso. Quem gosta de desfilar, quem gosta do Império, quem é do "metier", quando descobre a ala dos Devotos não quer sair mais. Ninguém gosta de desfilar em ala cheia de gringos ou paraquedistas em geral. 

É por isso que a ala vive cheia e nunca tem problemas de falta de componentes. Todo mundo gosta de desfilar na Devotos. As pessoas se conhecem, se cumprimentam. Eu conheço todos os componentes pelo nome. Qual presidente de ala comercial pode dizer isso? 

Tem também o lance da grana. Na Devotos quem participa mais paga menos.Temos uma espécie de ranking de pontos. Ir nos ensaios, auxiliar na confecção da roupa (isso mesmo, fazemos mutirões para decorar as nossas próprias fantasias), pagar em dia, auxiliar no dia do desfile, trazer novos componentes, tudo isso gera "pontos" para a pessoa. Quem tem mais pontos paga menos. É um sistema tipo bolsa de estudos...risos...os bons alunos recebem incentivo porque é de nosso interesse que eles permaneçam na nossa ala. 

Uma coisa puxa a outra. As pessoas sabem que recebem desconto por participação. Daí chega no ensaio técnico enquanto tem ala comercial com 20, 30 pessoas (e algumas que nem aparecem para ensaiar). A nossa tem 80-90 pessoas. A ala passa animada e tal. Um amigo chama o outro, assim a ala vai crescendo. 

Muitas alas baixam os preços de fantasias encalhadas perto do carnaval. Quem desfila sabe disso. Então fica todo mundo fazendo esse jogo "contra" os pobres presidentes de ala. Na Ala dos Devotos nós conseguimos inverter essa regra. Quanto mais cedo a pessoa chega junto e começa a pagar, ela paga menos. Quem vem depois, paga mais subvencionando a fantasia dos "bens colocados no ranking". Ninguém fica "jogando" com a gente esperando por encalhe de roupas porque isso nunca acontece. Nossa vagas costumam ser preenchidas perto do Natal e as vezes, como nesse ano, no meio de janeiro. 

A gente sempre entrega a fantasia no mesmo dia há sete anos. Isso é outra coisa importante. É sempre na quinta-feira que antecede ao carnaval. O Devoto paga sua mensalidade e sabe que na quinta-feira, faça frio ou faça sol, ele vai receber sua fantasia intacta e perfeita. Tomar calote de presidente de ala comercial é o fim da picada e acontece muito frequentemente, né? 

Sempre buscamos fazer a fantasia 100% dentro da proposta do carnavalesco. É aquilo que eu escrevi lá em cima. A ala foi fundada com esse único preceito: enaltecer e colaborar com a linda trajetória do nosso amado Império Serrano. Nunca tivemos e nem teremos ala em outra escola. 

Os dois parágrafos acima (entrega no prazo e qualidade no acabamento) me remetem ao nome de José Carlos Albernaz. Ele é meu sócio nessa parada desde a fundação. Sem ele seria impossível. A parte "pesada" da roupa é feita por ele. Ele entende muito de carnaval, de materiais e etc. Tudo que aprendi sobre fantasias de carnaval foi com o ele. 

Já falei sobre ciclo virtuoso, né? Quer ver outro exemplo? 

A ala tem uma enorme procura. Com isso a gente já sabe conhece os componentes com antecedência. Eles pagam com antecedência. Assim conseguimos comprar materiais mais baratos porque vamos às compras muito antes dos demais presidentes de ala e pagamos à vista, sempre recebendo bons descontos. Essa antecipação de componentes, além de gerar dinheiro ajuda na logística. 

A gente já sabe as medidas dos componentes com antecedência. Daí podemos mandar fazer os calçados sob medida, por exemplo. Cada componente recebe seu calçado na numeração correta e sem sobras. Já soube de alas que mandam fazer uma "grade" padrão de calçados e depois vão encaixando os componentes naqueles calçados já existentes. Isso acontece porque eles vendem fantasias faltando poucas semanas para o desfile. 

É claro que vai ter componente desfilando com o pé apertado né? Cá para nós: você voltaria a desfilar no ano seguinte numa ala que você desfilou e usou um sapato aprertado? Nem pensar....

Tem ala que passa por renovação de 80% dos seus componentes a cada ano. Os componentes desfilam e nunca mais voltam. Isso ocorre porque as alas não trabalham com foco no cliente. O cliente precisa ser cativado, cuidado. Nosso componente é tratado com respeito. Nossa taxa de renovação a cada carnaval é da ordem de 25%.
 
Tem mais um monte de coisas para escrever mas acho que essa resposta ficou longa demais. 

[N.do E.: desfilei na Ala dos Devotos em 2010 (foto acima) e embora esteja fora em 2011 por questões de logística, posso atestar a competência do trabalho desenvolvido pela ala. Recomendo]

8 - O que você pensa a respeito da literatura disponível sobre carnaval?

Confesso que não tenho muito interesse. Em termos de carnaval prefiro a prática do que a teoria. Tem muito teórico escrevendo um monte de bobagens sem nunca ter pisado na quadra do Arame de Ricardo. 

VM - Claro que não me refiro a todos. Mas não leio muito sobre carnaval. Tenho muito livros sobre o tema. Sempre ganho de presente, mas as vezes nem abro.
 
Veja só: 100% das musicas que ouço são sambas de enredo (o ano todo), acesso os sites especializados (inclusive o seu blog) todos os dias, tenhos DVD gravados com desfiles desde a década de 70, grupo de acesso e tudo mais. Se eu ficar preso em livros de carnaval também seria complicado... eu viraria o cara mais alienado do mundo! Leio muito, de outros assuntos, normalmente sobre politica, guerras, história em geral e biografias. 
 
9 - Um desfile inesquecível. Por quê? 

VM - Difícil dizer né? Foram tantos, vou citar então o primeiro que vi na vida ao vivo da Sapucai: Portela 1980. Imagina só, um menino de 8 anos vendo aquele mar de palhaços coloridos na avenida. Foi fascinante. De lá para cá nunca mais parei....rs

10 - Um livro inesquecível. Por quê ? 

VM - Vou citar dois bem diferentes, um em cada estilo - e ambos ótimos. 'O amor nos tempos do cólera', de Gabriel Garcia Marquez e "Noticias do Planalto" de Mário Sérgio Conti. 

Apesar de muito diferentes, cada um no seu estilo, ambos foram marcantes. Recentemente li a biografia Berzelius que deveria ser leitura obrigatória do curso de química, gostei muito. O penúltimo livro que li foi a Ditadura Escancarada do Gaspari. Agora fiquei com vontade de ler os demais livros da série. Tem também o 1968 do Zuenir Ventura. Excelente. Caramba...tô lembrando de vários agora... 

11 - Uma canção inesquecível. Por quê ? 

VM - Díficil é o Nome 2001 sobre o Norte Shopping....risos....

Sei lá Migão, que pergunta dificil. Esse lance de canção não rola. Só ouço samba enredo. Quando eu era criança escutava o LP na minha vitrola e sabia de cor todos os sambas do antigo grupo 1-A. Os discos de 80, 81 e 82 já devem ter tocado, cada um, umas 132 vezes na minha vitrolinha vermelha. 

Já adolescente incorporei o grupo 1-B que logo depois virou grupo I. Daí veio o grupo II e assim por diante. Lá pelos anos 90 a gente tinha uns 40 sambas novos a cada carnaval pra escutar. Atualmente com a internet entrei de cabeça na "praga" dos concorrentes. Baixo tudo pro meu micro e escuto tudo. Deve dar uns 500 samba por ano. Como saber qual é a canção inesquecível?

12- Livro ou filme ? Por quê? 

VM - Almoço ou jantar? Praia ou samba de noite? Não dá pra escolher. Quero os dois. Quero tudo. São prazeres diferentes. 

13 - Finalizando, com os agradecimentos do Ouro de Tolo, algumas poucas palavras sobre o blog ou seu autor/editor 

VM - Parabéns pelo blog. Aqui tem umas coisas muito chiques (politica internacional, comportamento e etc) e sempre com um texto muito bom. Pena que pintou essa entrevista esculhambada com esse tal de Vitor, que como diria o Cel. Nascimento, é um fanfarrão!


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Samba de Terça - "Verás que Um Filho Teu Não Foge à Luta"



Semana de eleição, mais uma vez uma coluna "Samba de Terça" temática. Por isso que, pela primeira vez, repetiremos uma escola de samba sequencialmente em nossa coluna: o Império Serrano.

O ano era 1995. O Presidente Fernando Henrique Cardoso havia acabado de assumir o poder e já empreendia uma forte ofensiva contra os direitos dos trabalhadores, empreendendo uma campanha contra os sindicatos, em especial o dos petroleiros. O hoje Ministro do STF Gilmar Mendes jactava-se de ter "quebrado os sindicatos" como advogado geral da União. Iniciavam-se medidas a fim de estabelecer uma política de compressão salarial e os trabalhadores do Serviço Público e de estatais eram pintados como "inimigos da nação". Começava um movimento de transferência de renda jamais visto entre o setor produtivo e o financeiro.

O Brasil era um país onde a fome ainda era um problema grave. Cerca de 30 milhões de brasileiros aproximadamente sofriam de carências graves de nutrição - em português claro, passavam fome. Outro contingente tinha deficiências sérias de nutrição, com quantidade e qualidade insuficiente. Tanto que meu trabalho de pesquisa na antiga Faculdade de Economia e Administração da UFRJ (hoje Instituto de Economia) foi sobre a modernização conservadora da agricultura, e minha monografia final de curso sobre padrões alimentares.

Destacava-se o trabalho empreendido pela "Ação da Cidadania contra a Foma, a Miséria e Pela Vida", comandada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Betinho tinha uma história de luta contra o Regime Militar e, posteriormente, pela qualidade dos bancos de sangue nacionais - ele e seus dois irmãos, o cartunista Henfil e o músico Chico Mário, eram hemofílicos e haviam contraído o vírus da Aids em transfusões de sangue sem o necessário controle de qualidade.

O trabalho desenvolvido pela "Ação da Cidadania" - do qual fiz parte por um breve período no final de 1993 - era no sentido de mitigar as deficiências nutricionais das camadas mais pobres e, concomitantemente, desenvolver ações de capacitação e de geração de emprego e renda. Betinho era o líder e o símbolo desta proposta de inclusão. Sua frase era lapidar: "democracia e miséria são incompatíveis". Mesmo doente, fazia questão de liderar este processo, com outra frase lapidar: "quem tem fome tem pressa".

Ele também liderou a campanha chamada "Natal sem Fome", que consistia em arrecadar doações para que todas as famílias brasileiras tivessem o que comer na noite de Natal. Obviamente, com um governo que não possuía o menor compromisso com as classes mais pobres, era um trabalho notável, com pouquíssimo apoio governamental.

O Império Serrano vinha de um desfile desastroso em 1995, com um enredo sobre o tempo. Apesar de um bom samba, a escola tinha fantasias e alegorias muito ruins, e ainda levou o azar de vir após o sensacional - e roubado - desfile da Portela daquele ano, o que criou um efeito de comparação indesejado. Com isso, em um grupo inchadíssimo de 18 escolas, a escola obteve o décimo quinto lugar e somente não foi rebaixada porque caíram apenas duas escolas naquele ano.

Com isso a carnavalesca Lílian Rabelo foi dispensado pelo presidente recém empossado José Marcos dos Reis, mais conhecido como "Marquinhos dos Anéis" - pela quantidade de anéis e penduricalhos que ele utilizava. Para seu lugar, veio um carnavalesco que era "cria" da escola, andara afastado e que estava de volta: Ernesto do Nascimento. Junto com ele também veio Actir Gonçalves, para assinar em dupla o desfile da escola para 1996.

E onde se encontram Betinho e o Império Serrano ?

Ernesto e Actir propuseram o sociólogo e defensor das causas populares como enredo da escola para o ano seguinte, retomando uma antiga tradição imperiana de enredos populares e culturais - que, aliás, o mesmo carnavalesco retomaria em 2002, início de sua última passagem pela escola e cujo desfile já foi tema desta série.

O sociólogo concordou em ser o tema da escola, mas solicitou que a abordagem fosse menos pela sua vida e mais pelo trabalho desenvolvido pela "Ação da Cidadania", no que foi atendido. O enredo abordaria as lutas populares brasileiras, a luta contra a fome e buscaria dar um grito de alerta contra a miséria e pela cidadania.

Os preparativos para o carnaval foram complicados. O Império Serrano estava em sérias dificuldades financeiras, com dívidas de anos passados e com uma diretoria não exatamente "zelosa" com os limitados recursos da escola - acho que os leitores entendem... Os carnavalescos optaram por um desfile calcado na emoção, com alegorias e fantasias simples, mas diretas. O mote do enredo poderia ser resumido por dois versos do samba: "quem é pobre tá com fome / quem é rico tá com medo". O título do enredo era tirado de um verso do hino nacional, carregando o tema de simbolismo e de significado político.

Os leitores sabem que sou amigo da família do carnavalesco em questão - o Bruno, filho dele, é um de nossos comentaristas mais assíduos aqui no Ouro de Tolo. Eu acompanhei de perto aquele carnaval, indo frequentemente aos ensaios (saudades da cerveja estupidamente gelada em garrafa...) e vendo as dificuldades para a confecção do carnaval - além da carteirinha que ganhei naquele ano ter sido minha primeira ligação formal com uma escola de samba.


Não havia dinheiro para nada. O que foi para a avenida foi muito superior ao que se esperaria tendo-se em conta os recursos financeiros de que dispunha a agremiação. Para o amigo ter uma idéia, Jorginho do Império, o grande cantor, foi o puxador da escola, cantando de graça, pois o Império não dispunha de recursos para pagar um puxador.

Ainda assim, o belíssimo samba caiu nas graças do povo, e toda a mídia gerada pelo enredo traziam uma boa expectativa para o desfile da escola. O homenageado a princípio não desfilaria, por estar com a saúde abalada, mas de acordo com a sua biografia - "Betinho: Sertanejo, Mineiro, Brasileiro", infelizmente, ao que parece, esgotada - seu médico particular autorizou a participação no desfile alegando que o benefício da 'injeção' de reconhecimento e aplauso seria mais benéfico que o desgaste físico causado por sua presença.

Antigamente havia uma regra dando conta que as escolas classificadas imediatamente antes das rebaixadas seriam as segundas escolas a desfilar, tanto no domingo quanto na segunda feira. Com isso, o Império Serrano seria a segunda escola a desfilar na noite de 19 de fevereiro de 1996, uma longa noite de desfile com nove escolas. A escola logo cativou os espectadores na Marquês de Sapucaí. À medida que as alas passavam, o clima de emoção e a garra de seus componentes contagiavam os público e faziam a Passarela cantar. Víamos sem terra, víamos o combate à fome, víamos a luta de Betinho nas fantasias e alegorias e nos rostos e fantasias dos componentes.

Eis que, no último carro, vestido de branco, surge o homenageado. Frágil e ao mesmo tempo forte, emanando uma aura de fortaleza, solidariedade e compaixão, era o "grand finale" de um desfile apoteótico. Caros leitores, eu estava lá e vi: todo mundo chorou. À passagem do homenageado as pessoas se emocionavam e caíam no choro emocionadas, em uma torrente de emoções e de sentimentos que só quem gosta das escolas de samba pode explicar. Eu também chorei, antes que me perguntem.

O curioso é que não deveria ter assistido ao desfile ao vivo aquele ano, porque iria passar o carnaval de 1996 no Guarujá - eu tinha uma "paquera" por lá à época. Até hoje não conheço a cidade paulista, mas acho que me arrependeria amargamente se não tivesse visto ao vivo esta catarse de emoções - na prática, o "canto do cisne" de Betinho, que morreria no ano seguinte. A grande festa da solidariedade e da compaixão.

Apesar da simplicidade - e alguns problemas de acabamento - de alegorias e fantasias, e da perda de voz do puxador durante o desfile, a verde e branco da Serrinha saiu da passarela como muito cotada a ocupar uma das cinco vagas do Desfile das Campeãs - à época eram somente cinco escolas que desfilavam, porque as duas campeãs do Grupo de Acesso abriam o desfile. O prognóstico era de que a escola poderia ocupar o terceiro lugar, após apenas as favoritas Mocidade Independente e Imperatriz Leopoldinense.

Entretanto, a escola na abertura dos envelopes dos jurados obteve apenas o sexto lugar, com 294 pontos. Curiosamente, nunca mais o Império sequer repetiu esta colocação na história dos desfiles - o oitavo lugar em 2006 foi o melhor resultado desde então. Uma pena não termos visto o repeteco no Desfile das Campeãs. Outra injustiça foi a não conquista do prêmio Estandarte de Ouro de Melhor Samba Enredo, que, inexplicavelmente, foi para o samba da Imperatriz do qual ninguém se lembra hoje em dia.

Vamos à letra do samba, com versos fortes, poéticos e absolutamente adequados. Durante muito tempo me utilizei dele em minhas aulas de Economia e Agricultura que ministrava nos cursos da Igreja Messiânica.

Autores:
Aluísio Machado, Lula, Beto Pernada, Arlindo Cruz e Índio do Império

O povo diz amém
É porque tem
Um ser de luz a iluminar
O moderno Dom Quixote
Com mente forte vem nos guiar
Um filho do verde esperança
Não foge a luta, vem lutar
Então verás um dia
O cidadão e a real cidadania

Quero ter a minha terra
Meu pedacinho de chão, meu quinhão
Isso nunca foi segredo
Quem é pobre tá com fome
Quem é rico tá com medo

Vou dizer ...
Quem tem muito, quer ter mais
Tanto faz se estragar
Joga lixo no chão, tem bugica pra catar
Senhor, despertai a consciência
É preciso igualdade
O ser humano tem que ter dignidade
Morte em vida, triste sina
Pra gente chega de viver a Severina
Junte um sorriso meu, um abraço teu
Vamos temperar
Uma porção de fé, sei que vai dar pé
Não vai desandar
Amasse o que é ruim, e a massa enfim
Vai se libertar
Sirva um prato cheio de amor
Pro Brasil se alimentar

Eu me embalei, pra te embalar
No balancê, balancear, vem na folia
Chegou a hora de mudar
O meu Império vem cobrar democracia

O curioso é que, hoje, podemos considerar que a fome é uma questão senão superada, atualmente menor, não constituindo a gravidade que havia em 1995/96. Logicamente ainda temos bolsões de miséria absoluta, mas para os leitores terem uma idéia o "Natal sem Fome" se redirecionou à obtenção de livros e brinquedos. Sem dúvida alguma, o país melhorou muito sob este aspecto, fruto das políticas de transferência de renda e de geração e criação de empregos.

No início e no final o leitor pode ver dois vídeos do desfile, um sequenciando o outro.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Samba de Terça - "Heróis da Liberdade"



Mais uma terça feira, feriado da Padroeira do Brasil, e a nossa coluna "Samba de Terça", unindo o sagrado e o profano, tem mais uma edição.

Hoje falaremos de um clássico, considerado por muitos o maior samba enredo de todos os tempos - embora, em minha modesta opinião, este título se aplique melhor a "Os Sertões" - e com certeza um dos maiores sambas da safra brilhante do império Serrano: "Heróis da Liberdade", 1969.

O clima político, à época, era irrespirável. O AI-5, ato ditatorial do governo militar que restringia barbaramente as liberdades individuais, fechava o Congresso Nacional, institucionalizava a Censura e prendia e torturava todos àqueles que se opunham ao governo havia acabado de ser editado. O Regime Militar se fechava e calava, no grito ou na pancada, as vozes dissidentes.

Na prática o AI-5 foi um "golpe dentro do golpe", como resposta às pressões de setores mais radicais das Forças Armadas por um endurecimento do regime. Como pretextos - mas não causas - foram utilizados o crescente pedido por liberdade, vocalizado pelo Movimento Estudantil, a relativa liberdade cultural e de imprensa e um discurso do jornalista e deputado Márcio Moreira Alves na Tribuna da Câmara por ocasião do 7 de Setembro, conclamando às moças não namorarem cadetes do Exército.

Os militares pediram a cassação do deputado por "crime de opinião", que é um claro acinte ao conceito político de liberdade de opinião - um parlamentar não pode ser punido pelo que diz em exercício de seu mandato. Obviamente, a Câmara dos Deputados, em rara demonstração de independência negou o pedido, e no dia seguinte veio o AI-5 - que, na prática, significou a tomada do poder pelos grupos mais radicais e mergulhou o país em uma era de trevas, autoritarismo, torturas, mortes e repressão.

Pois bem. É neste cenário que o Império Serrano apresenta como seu enredo um título sugestivo: "Heróis da Liberdade". A proposta era a de mostrar ilustres brasileiros que lutaram pela liberdade no transcurso de nossa história - desde o Movimento Nativista da Batalha de Guararapes contra os holandeses até os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na II Grande Guerra. Apresento abaixo um raro documento, transcrito pelo site referência "Galeria do Samba", que continha a súmula do desfile distribuída na avenida - uma espécie de sinopse.


Súmula do Desfile distribuída na avenida

O presidente Sebastião de Oliveira tinha idéia de montar " Vinte e um anos de glória do Império Serrano ". O Vice Presidente Acir Pimentel achou, entretanto, que não era tema forte. O Império precisava ganhar o carnaval. Outros três temas foram apresentados, mas eram fracos. Acir Pimentel , que faz carnaval há 33 anos, estando há onze na diretoria, chamou a atenção para o fato de que o Império sempre fez carnaval com a figura de um herói. Juntando os heróis todos e usando a palavra " liberdade ", formulou a montagem do carnaval, que num certo sentido atendia o desejo do presidente de assinalar os " Vinte e um anos de glória do Império Serrano ". Do livro de história de Rocha Pombo o momento em que o " clamor de liberdade se iniciou ". Aí se inicia o enredo :

O " Abre-Alas " é uma abóbada de 9 metros de comprimento com um azul do infinito ao seu interior, com uma pássaro voando a caminho do infinito, em sinal de liberdade. Atrás da abóbada vem escrito: Heróis da Liberdade. A abóbada vem girando.

A Comissão de Frente vem vestido em super-pitex, mas a modo convencional.

O enredo se desenvolve em dez atos:

1º.ato - Movimento Nativista do Brasil

"Com a invasão holandesa e a Batalha de Guararapes se inicia o movimento nativista do Brasil. Em razão dessa batalha se viu que o índio não servia para escravo, sendo então procurado o negro. O negro era muito mais resistente e lutador, o índio não se sujeitava, fugia." São destaques as figuras de André Vidal de Negreiros, Felipe Camarão, Henrique Dias, Índia Paraguaçu e Maurício de Nassau. As alas vêm com saldados e civis da época.

2º.ato - Palmares

"Mas o negro cansado de tanta exploração, vai procurar onde possa ter um pouco de liberdade: Palmares, que depois é arrasada". As alas mostram escravos, reis e rainhas nativos: seis reis e seis rainhas. Destaques: seis reis nativos, entre eles Ganga Zumba, encarnado por Joãosinho da Comédia; e Zumbi, por Geraldo.

3º.ato - Filipe dos Santos

"Filipe foi herói mártir.Era revoltado contra a coroa que cobrava absurdos de impostos" . Filipe dos Santos é o grande destaque; para melhor representar os traços finos do herói. Seguem alas civis, escravos do ouro e militares da época.

4º.ato - Inconfidência Mineira e Baiana

Nesta parte aparece a primeira alegoria: uma mesa onde estão sentados Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto; Tiradentes em pé ( com seis metros de altura ) no momento em que ia ser conduzido à forca. Ao fundo um mapa do Brasil com um condor simbolizando a luta pela liberdade. Segue Tiradentes como destaque.

5º.ato - Revolução Liberal

"Uma homenagem ao movimento que assim denominou: Dom João VI aceita governar constitucionalmente ". O destaque é D. João VI, vivido por Jorge. As alas têm ministros, damas e saldados da época.

6º.ato - Independência

Logo à frente vem D.Pedro I, em destaque, encenado por Paulinho. Seguem alas da corte, com damas e cavalheiros. Aparece a segunda alegoria: D.Pedro I a cavalo em tamanho normal, tudo feito de pasta. E o estandarte da Maçonaria.

7º.ato - Confederação do Equador

O destaque seria Frei Caneca, acompanhado do Padre Miguelino e outros, mas a Escola decidiu não colocar os destaques porque teriam de usar hábitos religiosos, o que poderia não ter aceitação do público e ferir a sensibilidade do clero. Mas em homenagens aos heróis as alas carregam a bandeira com que o movimento foi sustentado. Outras alas mostram saldados e civis.

8º.ato - Abolição

3a.alegoria: Castro Alves ( seis metros de altura ), tendo ao lado um escravo de joelhos com os grilhões quebrados, em atitude de agradecimento. Mãe segura em tocha, simbolizando a liberdade. Tudo isso girando. E uma frase histórica: " Assim como a praça é do povo, o céu é do condor " . Alas com escravos, senhores, sinhás-donas, cortejos, procissões, todos os figurantes em Debret. A ala dos intocáveis com pombos vivos nas mãos e escravos carregando cada qual uma letra da palavra Liberdade. Destaque: Castro Alves.

9º.ato - Proclamação da República

Vem a mulher vestida de "República" Ala com ministros e soldados. Destaques de Deodoro e Benjamin Constant. O mestre-sala Canelinha vai dançar o balé da liberdade. Canelinha abre a bandeira em sinal de liberdade. Foge da " república " ( e porta-estandarte ) se liberta dançando de braços abertos .

10º.ato - Homenagem ao Samba aos heróis

Uma carreta empurrada por dois homens mostra: uma bota nazista pisando no mundo; um pracinha da guerra de 42 ferido, lembrando os soldados em defesa das Nações. Duas crianças de colégio, um pretinho e uma branca. E um sol no poente simbolizando: O Sol Nasceu para todos. Alas com malandros e baianas prestam sambando sua homenagem aos 21 anos de glórias do Império Serrano".


Como vêem, era um tema extremamente audacioso para aqueles tempos de tortura, autoritarismo e total supressão da liberdade.

Como seria de se esperar, a escola teve problemas com o Estado. De acordo com o depoimento de Sérgio Cabral em seu livro sobre as escolas de samba cariocas - infelizmente, esgotado - Silas de Oliveira, um dos autores do samba, foi convocado para dar explicações ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), temido órgão de repressão à época. Ele saiu-se do embaraço alegando que o samba falava apenas de heróis e da liberdade do passado, mas, ainda assim, teve de trocar uma palavra no samba - "revolução" virou "evolução".

Entretanto, bastava ver a letra do samba para se perceber o potencial "subversivo" - na visão das autoridades - que ele continha. Naturalmente, o Império Serrano naquele ano se tornou a escola preferida de todos aqueles que faziam oposição ao regime e ainda não estavam presos. Criou-se ua expectativa imensa sobre o desfile.

A verde e branca da Serrinha foi a sétima escola a desfilar, já no início da manhã de 17 de fevereiro de 1969. Coincidentemente, no momento em que a escola iniciava seu desfile aviões da Força Aérea começaram a sobrevoar a Candelária, dando rasantes e fazendo muito barulho a fim de atrapalhar o cortejo da escola. O clima era muito hostil. No vídeo acima podem-se ver alguns parcos registros do desfile da escola, em material que encontrei no Youtube.

Na apuração a escola obteve o quarto lugar entre dez escolas, com 113 pontos - dezesseis atrás da campeã Salgueiro, com belo samba de exaltação à Bahia. Entretanto, ficou o recado e o lamento do povo brasileiro, sufocado e oprimido, vocalizado por talvez o maior compositor de sambas enredo de todos os tempos, Silas de Oliveira - em parceria com Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira:

"Ô ô ô
Liberdade Senhor!"

O samba se tornaria um daqueles que ultrapassam as fronteiras do samba de enredo e se tornam clássicos da música brasileira. Foi gravado entre outros por Roberto Ribeiro, Martinho da Vila, João Bosco, Chico Buarque de Holanda e Maria Rita, a gravação mais recente. Apresento aqui, ao longo do texto, a gravação original de 1969, a de Roberto Ribeiro e a de Maria Rita, pela ordem.

Por ironia do destino, esta seria a última vez em que Silas de Oliveira, em vida, veria um samba de sua autoria passar pelas avenidas de desfile do carnaval. Ele seria derrotado nos concursos imperianos dos anos seguintes, vindo a falecer de um enfarte fulminante em uma roda de samba, em 20 de maio de 1972. "Heróis da Liberdade" encerrava uma era na história do samba enredo. O Império Serrano voltaria a apresentar um samba do grande compositor em 2004, quando reeditou "Aquarela Brasileira".

Ironia do destino, parte II: hoje, 12 de outubro, Silas de Oliveira completaria 94 caso fosse vivo.



Vamos à letra do samba, que foi puxado na avenida por Joel Teixeira e por Júlia:

"Ô ô ô
Liberdade Senhor

Passava noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia
O fim da tirania
Lá em Vila Rica
Junto ao Largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria
Com sabedoria
Deu sua decisão
Com flores e alegria veio a abolição
A independência laureando seu brasão
Ao longe, soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim :
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Essa brisa que a juventude afaga
Esta chama que o ódio não apaga
Pelo universo é a (r)evolução
Em sua legítima razão

Samba, oh samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade"

P.S. - Texto dedicado ao jornalista Ivan Bello, que lutou pela liberdade no Brasil do AI-5 e que faleceu na última quarta feira, aos 75 anos. Que descanse em paz este "Herói da Liberdade".