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domingo, 2 de dezembro de 2012

Orun Ayé - "O futebol em 2012"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé” do compositor Aloisio Villar faz um balanço da temporada do futebol brasileiro e escreve algumas notas sobre a situação da Portela.

Estive no Flamengo e Vasco do último sábado (foto) e meu veredicto é definitivo: tirando a dupla de zaga e Vágner Love, os outros oito jogadores que iniciaram a partida precisam imperativamente ser dispensados.

O futebol em 2012

Nesse domingo, praticamente chega ao fim a temporada 2012 do futebol brasileiro. Digo praticamente porque em duas semanas ainda teremos o Corinthians em sua saga buscando o título mundial e o São Paulo na final da Copa Sul Americana.

Tivermos de tudo nessa temporada. Ídolos vaiados, quebras de contrato, conquistas inéditas, campeonatos xexelentos, grandes caindo, técnicos demitidos. Enfim: um ano como outro qualquer.

Mas uma coisa é certa vendo esta temporada: o futebol brasileiro precisa ser repensado.

O ano começou como começaram todos os anos de 2010 pra cá e esses anos terminaram: com Patrícia Amorim envergonhando os torcedores do Flamengo.

Uma pré temporada conturbada, com brigas entre o técnico Wanderley Luxemburgo e o jogador Ronaldinho Gaúcho - com o primeiro acabando demitido tal como foi em 1995 quando ele brigou com Romário.

Pela desorganização o clube perdeu peças importantes como Thiago Neves, viu jogador recusando-se a viajar por falta de pagamentos como Alex Silva e a conseqüência de toda essa desorganização veio em um ano péssimo.

Eliminação logo na primeira fase da Libertadores, eliminação no campeonato carioca - forçando o clube a realizar “férias forçadas”, fraco campeonato brasileiro e o auge da incompetência ao ver Ronaldinho Gaúcho abandonar o clube e cobrar 40 milhões na justiça.

E o torcedor do Flamengo viu seu ex jogador Thiago Neves campeão brasileiro e seu ex treinador Wanderley Luxemburgo brigar pelo vice campeonato com seu ex jogador Ronaldinho Gaúcho.

Um ano para se esquecer e que espero que comece a ser esquecido amanhã nas eleições presidenciais do clube.

Ao contrário do clube mais popular do Brasil, o segundo mais popular teve um grande ano, o melhor de sua história. Falo do Corinthians.

Começou o ano campeão brasileiro, com um técnico que deu padrão tático ao time de tal forma que fez uma Libertadores perfeita. A competição sempre foi um grande trauma para sua torcida e motivo de gozação para os adversários. Acabou conquistada de forma invicta, em uma das melhores campanhas da história da competição.

E ao contrário dos outros clubes que conquistou a competição não desistiu do ano. Não fez um brasileiro como poderia, mas fez uma campanha digna alcançando até agora o quinto lugar da competição. O técnico Tite fez experiências, testou jogadores, deu folga a outros e o time parece chegar forte ao mundial. O brasileiro com mais chances de conquistas dos últimos anos.

O clube que era uma bagunça igual ao Flamengo se organizou. Tudo bem que teve ajuda do presidente Lula e de outras esferas de poder, mas teve competência também. Conseguiu patrocinadores fortes, contratou grandes jogadores que impulsionaram seu nome e marketing e por fim o seu estádio, a Arena Corinthians - que será palco da abertura da copa.

Faz o caminho inverso do Flamengo e se isso continuar por mais alguns anos pode obter a supremacia do futebol brasileiro.

Cruzeiro, Santos e Inter decepcionaram, pois se esperava mais destes clubes pela seqüência recente de conquistas. O Grêmio voltou a viver um bom ano e vive a expectativa da Libertadores com sua nova arena. São Paulo com Ney Franco dá sinais que pode voltar a ser o grande São Paulo da década passada.

Botafogo e Atlético Mineiro deram mostras de sobrevida através de craques. Botafogo ousando contratando Seedorf, Atlético arriscando e contratando Ronaldinho.

Os dois deram certo. A contratação do holandês foi uma grande ousadia do Botafogo, clube acostumado à depressão que resolveu levantar a cabeça e mostrar sua grandeza. O título não veio, nem a Libertadores, mas o clube faz uma boa campanha e mostra que mantendo o elenco com algumas contratações pode ter um 2013 promissor.

O Atlético também não ganhou o brasileiro, mas recuperou a auto-estima. Manteve o técnico Cuca que lhe salvou do rebaixamento no ano anterior (como fez com o Fluminense em 2009), contratou reforços pontuais, um grande craque e alcançou a Libertadores. Fica a frustração de não alcançar o título, mas a esperança de um 2013 de conquistas caso mantenha o elenco. 

Vasco começou bem o ano, como foi seu ano todo de 2011, mas desmanchou o elenco e acabou de forma terrível. A administração Roberto Dinamite parece naufragar ao meio de desorganização e dívidas.

Palmeiras foi do céu ao inferno em questão de meses. Desde 1976 vive problemas políticos e administrativos não conseguindo ganhar títulos sem o auxílio de uma parceria. Ganhou a Copa do Brasil esse ano e se iludiu que teria um bom elenco, mesmo com essa competição não contando com os principais clubes do futebol brasileiro.

Ficou quase o brasileiro todo na zona de rebaixamento e a queda, a segunda em dez anos, foi confirmada com dois jogos de antecedência em um empate com o Flamengo. O Palmeiras é um bom exemplo da forma como o futebol brasileiro é dirigido. Um grande clube que agoniza na mão da incompetência e tem que se virar ano que vem tendo que montar time ao mesmo tempo para disputar a Libertadores e a série B.

Assim como no Flamengo o Palmeiras viverá eleições e elas sempre são um momento de esperanças, de mudanças.   

O Fluminense foi o campeão brasileiro. Campeão com três rodadas de diferença e chegamos à última com um campeonato sem emoção nenhuma, aonde a única briga é pra evitar a última vaga do rebaixamento. Dizem que pontos corridos é o sistema de campeonato mais justo. Eu já penso que justiça tem que a ver em julgamentos, em distribuição do dinheiro para educação, saúde, segurança. Esporte não é lugar de justiça e sim de emoção.

O campeonato brasileiro foi o mais xexelento, mais sem emoção da história, mas o Fluminense tem nada com isso. O tricolor sofreu uma fase muito ruim nos anos 90 passando por três rebaixamentos consecutivos e desde então recebeu o patrocínio da UNIMED.

De 2007 para cá esse patrocínio começou a gerar frutos. Ganhou a Copa do Brasil daquele ano, foi finalista da Libertadores de 2008 e da Sul Americana 2009, ganhou os brasileiros de 2010 e 2012.

Triplicou suas dívidas, é hoje o clube mais endividado do Brasil e ninguém sabe como será seu futuro no dia em que romper com a patrocinadora.

Mas o seu presente é muito bom. O Fluminense vive um momento histórico, talvez o melhor momento da história do clube. Têm um time com super craques, outros sendo revelados da sua base em Xerém e parece que sua conquista de Libertadores é questão de tempo.

Sobrou no campeonato brasileiro desse ano e ainda luta pra se tornar o melhor campeão da história dos pontos corridos. Mas não joga um futebol que me agrada e nem agrada à maioria dos torcedores. Tomou sufoco, levou pressão em quase todos os jogos e ganhou porque tem um elenco forte, que conseguia vencer através de “momentos cirúrgicos”.

O torcedor tricolor não quer saber dessas coisas: quer ser campeão. Mas analisando o futebol do Fluminense (melhor time do Brasil) e Barcelona (melhor time da Espanha), nós vemos o porque do momento dos dois países no cenário mundial.

E o auge dessa bagunça que é o futebol brasileiro aconteceu agora, com a demissão do técnico Mano Meneses.

A CBF teve um ano e meio para demitir o Mano: na verdade era nem pra ter contratado. O treinador teve fraco desempenho durante um bom tempo, perdeu Copa América de forma vexatória, não conseguiu ganhar de nenhum top 20 do futebol mundial. Mas quando as coisas pareciam se ajeitar, quando ele conseguiu dar padrão ao time e esperanças ao torcedor foi demitido.

E o pior, foi demitido não por questões técnicas, mas questões políticas e o pior ainda: seu substituto será o Felipão, que ganhou esse prêmio depois de ter ajudado no rebaixamento do Palmeiras.    

Podiam ter contratado Pep Guardiola, melhor técnico do mundo que disse que viria correndo: mas preferem a xenofobia, o nacionalismo exacerbado e descartaram o treinador. Bobagem, porque o mais brasileiro dos técnicos hoje é ele.

Mas é capaz de ainda com toda essa confusão o Brasil ser campeão do mundo: eu não duvido.

Deus é brasileiro e gosta de futebol.

Portela

[N.do.E.: providências estão sendo tomadas a fim de reverter esta situação.]

Não tem nada a ver com futebol, mas tem a ver com desorganização. Não sou torcedor da escola, não está entre minhas cinco agremiações preferidas, mas a obrigação de todo sambista é pelo menos ter respeito pela Portela.

E como sambista fico estarrecido com a forma que a agremiação vem sendo tratada por seus comandantes. Barracão parado, funcionários sem receber, corte de luz e, semana passada, carro de som em greve. Para o bem do carnaval faz-se preciso mudanças urgentes e se o senhor Nilo Figueiredo tem algum amor pela Portela ou mesmo alguma vergonha na cara é hora de pedir o boné e sair. 

Meu total apoio aos meus amigos portelenses e à maior vencedora do carnaval carioca.

Deixe a Portela passar, é voz que não se cala, é canto de alegria no ar. Orun Ayé!

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte I"



Nesta segunda feira de uma semana que é bem curta para muita gente – embora para mim não seja – o colunista Rafael Rafic em sua “Made in USA” traça uma comparação entre as sinopses das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro e os sambas resultantes.

A coluna será apresentada em duas partes: hoje as agremiações que desfilam no domingo e, amanhã, as de segunda feira.

Sambas vs Sinopses – Parte I

Depois de analisar e dar notas as sinopses de enredo do Grupo Especial, o que é incomum no mundo carnavalesco, quero propor aqui no Ouro de Tolo outra análise incomum.

Analisarei os sambas-enredos escolhidos pelas Escolas do Grupo Especial. Mas não quero analisar os sambas-enredo por eles próprios, simplesmente lhes dando notas ou ranqueando-os. Esse tipo de análise teremos aos montes assim que o CD sair, em dezembro.

Quero, aproveitando a análise dos enredos que fiz aqui em julho, comparar a avaliação de qualidade do samba-enredo escolhido pela escola em relação à sinopse da mesma. O intuito é ver o quanto a qualidade da sinopse influenciou (ou não) o samba-enredo.

Mais uma vez, a análise será feita pela ordem de desfile. Começaremos hoje com as escolas de domingo. Amanhã, as de segunda feira.

Domingo

1 – Inocentes:

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves
Nota dada à sinopse na avaliação de julho: 2
Autores do samba-enredo: Billy Conti, Dominguinhos, Ildo dos Santos, Juarez Rosseto, Mará, J.J. Santos e Miri Matéria

A Inocentes vem com um enredo difícil de explicar sobre a história, cultura e imigração coreanas; todas as três desconhecidas no Brasil. Não bastasse, o enredo foi mal elaborado. Porém, mesmo o samba-enredo não sendo um grande samba, ficando no terço final da safra 2013, é apresentável para grupo especial.

Aqui temos o primeiro exemplo do ano no qual os compositores tiraram leite de pedra. Vocês verão que tivemos outros vários, reforçando a tese da “ressurreição” do gênero samba-enredo, já comentada aqui no Ouro de Tolo.

Resultado: samba consideravelmente acima do enredo. Mas ainda sim ambos na segunda metade do Grupo Especial. Influência negativa da sinopse..

2 – Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage
Nota da sinopse: 3,5
Autores do samba-enredo: Marcelo Motta, João Ferreira, GE Lopes e Thiago Daniel

Sinopse complicada, polêmica e, em minha análise, ruim. Isso se refletiu na safra medíocre que tivemos no Salgueiro esse ano. Ao final ganhou o único samba digno de Grupo Especial. Ainda sim é um samba para ficar tranquilamente na segunda metade do grupo e, claro, como eu já adivinhara é um autêntico pula-pula.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos na segunda metade do grupo. Influência negativa clara da sinopse.

3 – Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Nota da sinopse: 6,5

Autores do samba-enredo: Julio Alves, Totonho, Dudu e Elson Ramires

A sinopse é correta, mas sem grandes destaques. Mediana e, pareceu-me, sem o toque especial de Paulo Barros. A safra tijucana foi sofrível, mas um samba se salvou: justamente o campeão. Como cada escola só precisa de um samba por ano, tudo bem.

O samba é mediano, com uma segunda parte até bem ruim (como sempre é difícil fazer letra para enredo de Paulo Barros). Mas teve uma sacada genial no refrão (“metade do meu coração é Tijuca/ A outra metade Tijuca também”) que o faz disputar posições medianas no Grupo.

Resultado: samba acompanhou par e passo a qualidade da sinopse, ambas medianas.

4 - União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Ginho, Junior, Vinicius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra

Aqui, tivemos uma inovação brilhante e uma aula de como se fazer uma sinopse, dada pelo carnavalesco Alex de Souza. Porém, para variar, a Ilha pegou a sinopse, amassou, fez bolinha de papel dela e a usou como bola de basquete para um arremesso certeiro de 3 pontos - direto para a lata do lixo.

O problema aqui é muito mais complicado do que uma simples análise “sinopse x samba-enredo”.

Para começar, a ala de compositores insulana está muito maltratada há anos por sua diretoria, o que fez com que sumissem vários talentos dela. Assim, a qualidade dos sambas vem caindo e não é de hoje.

A isso credito o fato de não surgir aqui um samba fantástico em toda a safra, diferentemente das outras duas escolas que ganharam excelente avaliação de suas sinopses: Portela e Vila Isabel.

Não satisfeita com isso, a Ilha conseguiu a “proeza” de ser a única escola em 2012 que não escolheu o samba que a comunidade queria (e fez isso pelo segundo ano consecutivo). O samba vencedor era o único da final que não tinha qualquer apoio relevante, seja da comunidade, seja da diretoria, seja dos segmentos.

[N.do.E.: mas era o samba preferido do Presidente Ney Fillardi. Samba que, aliás, sofreu mudanças em sua melodia]

Assim, ela simplesmente jogou fora pelo menos quatro sambas bons (sambas de Aloísio Vilar, Almir da Ilha, Marquinhos do Banjo e Carlinhos Fuzil) que, por mais que não chegassem ao “Top 10” da sinopse, ainda salvariam a pátria e disputariam vaga na primeira metade do Grupo.

A Ilha escolheu mal demais o samba e, mesmo com a melhor sinopse do ano (em conjunto com a Portela), ela disputa o “título” de pior samba do ano com a Mocidade.

Resultado: samba infinitamente inferior à sinopse. Prova de que sinopse não é sinônimo imediato de bom samba.

5 – Mocidade

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada
Nota da Sinopse: 5
Autores do samba-enredo: Jefinho Rodrigues, Jorginho Medeiros, Marquinho Indio, Domingos PS, Moleque Silveira e Gustavo Henrique

Já comentei o desastre que foi a sinopse da Mocidade frente ao tema e indiquei que seria complicadíssima para se fazer um samba bom.

Dito e feito. A Mocidade teve 45 sambas concorrentes, mas podia juntar os 45 que não daria um mísero samba digno. Até compositores gabaritados como Diego Nicolau (campeão de 2012) fizeram sambas sofríveis, muito abaixo do que costumam fazer.

No final, levou aquele que a comunidade queria e era o menos pior, mas ainda sim fecha a raia do Grupo Especial - em uma disputa árdua com a Ilha pela lanterna.

Alias, essa é a única nota de sinopse da qual me arrependi. Hoje daria uma ainda menor: 3,5.

Resultado: samba do nível da sinopse, ambos muito ruins. Influência negativa clara da sinopse.

6 – Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do Posto 7

Dessa safra posso falar com bastante propriedade. Pude acompanhar a disputa de samba-enredo desde sua primeira eliminatória até a final. Em um momento inicial, disse que a safra era sofrível com apenas um samba espetacular - justamente o que se sagraria vencedor.

Porém, tenho que admitir que o desenrolar da disputa me fez mudar de idéia. Não quanto ao samba sensacional, que continuo achando sensacional (mesmo com as mudanças horripilantes e insensíveis feitas em sua letra e melodia após o fim da disputa), mas quanto à qualidade da safra.

Hoje classifico mais dois sambas como dignos de irem à avenida se não fosse a obra-prima que o quarteto vencedor aprontou mais uma vez. Além desses, teve mais 2 ou 3 sambas razoáveis na disputa. No que acabou sendo uma safra melhor do que a Portela teve nos últimos anos - e tenho que destacar o papel da sinopse nesse fato.

[N.do.E.: discordo do colunista. A safra da Portela foi bastante fraca e, com boa vontade, além do vencedor somente mais um samba poderia ir para a avenida]

Para a comparação proposta em relação ao samba vencedor, uma excelente sinopse terá um samba a sua altura para representá-la na avenida.

Não coloco o samba acima da sinopse (como se isso ainda fosse possível) por causa das mudanças posteriores (feitas por diretoria e puxador) que pioraram consideravelmente o samba em relação a sua versão concorrente.

Será bastante interessante ver o que ocorrerá com a Portela e o seu sambão vindo logo depois dos dois piores sambas do ano, que virão juntos logo antes de sua entrada na avenida.

Resultado: samba pari passu com a sinopse, ambos em altíssimo nível.

[N.do.E.: infelizmente, as notícias que chegam do barracão da Portela são MUITO preocupantes.]

Até amanhã, com as escolas de segunda feira.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Resenha Literária - "Cadernos de Samba"


Quarta feira passada estive no lançamento da série "Cadernos de Samba", série de pequenos livros que visam a resgatar a memória do carnaval carioca e especialmente das nossas escolas de samba. Coordenada pelo jornalista Aydano André Motta, os livros buscam registrar uma história que, muitas vezes, acaba se perdendo com a morte dos sambistas mais antigos das agremiações.

Os três primeiros livros são "Tantas Páginas Belas", sobre a Portela, do historiador Luiz Antonio Simas; "Maravilhosa e Soberana", do já citado Aydano, sobre a Beija Flor, e finalizando "Marcadas para Viver", do jornalista João Pimentel. Este último conta a saga de cinco escolas pequenas: Unidos de Lucas, Em Cima da Hora, Vizinha Faladeira (onde já desfilei, em 2008), Unidos do Jacarezinho e a extinta Tupy de Braz de Pina.

O lançamento, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, contou com a presença de jornalistas, formadores de opinião do carnaval e representantes das escolas enfocadas. A se lamentar a ausência da Portela, representada de forma não oficial apenas por três integrantes do site PortelaWeb - entre os quais este blogueiro, por Mestre Monarco, pelo autor do samba de 2013 Luiz Carlos Máximo e pelo sócio Marcos Vieira de Souza, conhecido pelo apelido de "Falcon" - e que é esposo da porta bandeira da Beija Flor Selminha Sorriso.

Para o leitor ter uma ideia, somente a Beija Flor trouxe três ônibus com componentes para prestigiar o lançamento. Outro exemplo é que eu tive a oportunidade de conversar com o Presidente da Unidos de Lucas, também representado de forma oficial.

Os livros (na foto, da esquerda para a direita, Simas, Pimentel e Aydano) tem formato pouco maior que uma edição de bolso e tem cada um deles cerca de 120 páginas. Escritos em uma linguagem acessível, são lidos rapidamente - eu levei cerca de duas horas para completar a leitura no último sábado.

A noite também contou com a presença do Prefeito Eduardo Paes - que chegou depois que eu havia saído - e teve cobertura televisiva e de sites especializados. Inclusive em uma das matérias, que pode ser vista no Youtube, Luiz Antonio Simas chega a afirmar que sem a Portela o desfile tal como conhecemos talvez não existisse desta forma.

Faço abaixo uma pequena resenha de cada um deles, pela ordem de leitura.

Tantas Páginas Belas

Simas optou por contar a história da águia altaneira a partir da formação do subúrbio de Oswaldo Cruz, base da escola. Ao contrário de outras agremiações a Portela é uma "escola de planície", ou seja, não está baseada em nenhum morro.

São mostradas as circunstâncias de formação da agremiação, os bons tempos de Natal - que ganha uma espécie de mini perfil bastante interessante, as grandes crises e o momento de renascimento da escola trazido pelas feijoadas da Velha Guarda e outras iniciativas semelhantes.

Este blogueiro e o Ouro de Tolo são citados como referência bibliográfica, em especial a coluna "Samba de Terça" que escrevi sobre o desastroso desfile de 2005. É um fato que muito me honra.

O site PortelaWeb, do qual faço parte da equipe, também foi uma fonte de pesquisa valiosa. É um belo exemplar àqueles que pretendem conhecer um pouco da bela história da minha escola.

Maravilhosa e Soberana

Aydano André Motta - que, devo avisar aos leitores, é fanático torcedor da escola de Nilópolis, a ponto de achar que o título de 2003 foi justo (risos) - optou por uma leitura mista: ao mesmo tempo em que mostra a história da agremiação (que eu mesmo não conhecia), também conta um pouco do "modo Beija Flor de desfilar", que é quase religioso, messiânico.

Alternando passado e presente, tradição e modernidade, Aydano ajuda a desnudar este fenômeno representado pela sua comunidade e sua devoção à escola, a seu patrono e seus comandantes. O modelo de carnaval representado pela azul e branca, confesso, não me agrada totalmente, mas tem de ser respeitado. É um misto de "despotismo esclarecido" com paixão genuína de seus integrantes, que resultou em uma receita muito vitoriosa.

O autor também conta histórias como as de Laíla, Joãozinho Trinta, Anísio Abraão David e o carnavalesco Milton Cunha, entre outros. Pelo menos para mim, que conheço pouco o que ocorre na escola fora dos 82 minutos de avenida, se mostrou um valioso documento - aprendi bastante, e, somado ao que vi no lançamento, passei a admirar a organização e a força da agremiação.

Apesar de ser um livro escrito por um apaixonado, há ligeiras críticas ao adesismo político da Beija Flor - que tem dois a meu ver inacreditáveis enredos defendendo o Regime Militar nos Anos 70 e, recentemente, homenageou o Governo Lula. Aydano também demonstra preocupação com a sucessão na escola.


Marcadas para Viver

Contar a história de cinco pequenas agremiações deu um certo trabalho de pesquisa ao autor João Pimentel. Os registros escritos são muito tênues e os detentores da história oral nem sempre se encontravam disponíveis.

A história de cada uma das agremiações é contada de forma a entender o porquê de não terem se firmado no grupo das grandes, bem como resgatar sambas como "Os Sertões", da Em Cima da Hora, "Sublime Pergaminho", de Lucas (ambos enfocados na série "Samba de Terça" deste blog) e "Seca do Nordeste", da Tupy de Braz de Pina - acima em versão com Clara Nunes.

Algo que impressiona nas histórias contadas é a relação com a questão da violência. Lucas, Tupy, Vizinha Faladeira e o Jacarezinho foram muito afetados por esta questão em algum momento.

Também se contam versões conflitantes da escolha de "Os Sertões", para mim o maior samba de enredo da história do carnaval carioca.

O livro tem alguns equívocos de datas: a Vizinha desfilou com o enredo sobre Gilberto Gil em 2004 e não 2005, quando foi rebaixada - inclusive fui finalista de samba daquele ano. E a homenagem de Lucas a Elisete Cardoso foi em 1974, não 75.

Mas é documento indispensável para aqueles que pensam que as escolas de samba se resumem ao "mundo encantado da Sapucaí".

Em resumo, os três livros valem bastante a pena. Recomendo.


Cine Debate PortelaWeb

Acabei não conseguindo escrever o post na semana passada, mas quero registrar aqui a iniciativa do Centro Cultural Cartola e do site PortelaWeb de trazer alguns dos principais personagens do desfile de 95 para relembrar a preparação do mesmo e falar um pouco sobre o carnaval atual.

Diga-se de passagem, o acervo do Centro Cultural sobre o carnaval (que eu não conhecia) e sobre o grande gênio Cartola são dignas de aplausos, com itens representativos.

O vídeo acima, com cerca de nove minutos, fala sobre a bateria de 95 - e a então inédita "paradinha" na Portela - e sobre o trabalho do mestre sala Jerônimo, que aliás deu ótimas declarações durante o debate.

Ótima iniciativa.

Promoção

Pensa que acabou, leitor?

O Ouro de Tolo tem três exemplares autografados dos livros para sortear: um de cada. Para participar baixa deixar na área de comentários deste post nome completo, cidade, e-mail, escola de samba pela qual torce e indicar qual dos livros gostaria de ganhar.

Publicarei o resultado na próxima segunda feira, dia 12. Participe!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Cine Debate - "Gosto que Me Enrosco"


Divulgo aqui evento que será realizado pelo Centro Cultural Cartola em conjunto com o PortelaWeb, do qual faço parte. Será um evento muito interessante a todos que apreciam a cultura brasileira e recomendo muito a presença aos leitores.

Reproduzo abaixo o release de divulgação do evento. Espero todos lá.

"Iniciando as comemorações dos 12 anos do Portelaweb, a equipe do site, o Centro Cultural Cartola e o jornalista Alexandre Nadai e o 'Samba Zé Samba' unem os projetos Cine Debate e Velhos Malandros, no próximo dia 27, a partir das 14h.

No Cine Debate, que vai para sua terceira edição, o tema é o enredo da Portela de 1995, “Gosto Que Me Enrosco”, considerado por muitos críticos uma aula de desfile de escola de samba. Personagens do histórico desfile da Águia estarão debatendo o carnaval que levou a escola ao vice-campeonato daquele ano, com um samba antológico. 

Estarão compondo a mesa de debates o intérprete Rhychahs, o diretor de bateria Mestre Mug, o diretor de harmonia Djalma, o mestre-sala e coreógrafo de comissão de frente Jerônymo, e Júnior Escafura, filho do ex-presidente da Portela Luiz Carlos Escafura. Completam a mesa os integrantes do Portelaweb Fábio Pavão(mediador) e Paulo Renato Vaz(comentarista).

Logo depois, a roda dos Velhos Malandros, que tem como característica o resgate da história de grandes nomes do samba, presta homenagem ao aniversário do Portela Web e exalta o “Orgulho de Ser Portelense”, relembrando sambas antológicos. E o melhor: a entrada é gratuita.

No “Velhos Malandros”, o Samba Zé Samba tem Ruy Ipanema (violão), Maurício Monteiro(cavaco/voz), Vanessa Reis(banjo/voz), Rafael(cavaco), Julia Simões(percussão/voz), João Mandarino(tantan/voz) e Jorginho(pandeiro). O jornalista Alexandre Nadai é o mestre de cerimônias da roda, que recebe alguns dos principais nomes do samba e abre espaço para os compositores mostrarem suas obras. 

Desde o início do projeto, em 03 de dezembro de 2011, já passaram pela roda nomes como: Zé Luiz do Império, Tia Surica, Tiãozinho da Mocidade, Zeh Gustavo, Bia Aparecida, João da Valsa, Adilson Bispo, Noca da Portela, Jorge Callado, Jorgynho Chinna, Lúcia Garcia, Samba Na Fonte, Lu Fogaça, Pecê Ribeiro, Anderson Baiaco, Renatinho Partideiro, Marcos Diniz, Juninho Thybau, PQD da Portela, Roberto Serrão, Rod da Mangueira, Djalminha da Mangueira, Samba de Benfica, João da Valsa, Ivan Milanez e Tânia Malheiros.

No repertório, além dos sambas inéditos, serão lembrados nomes como Nelson Cavaquinho, Jacob do Bandolin, Beto Sem Braço, Cartola, Paulo César Pinheiro, Noel Rosa, Almir Guineto, Candeia, Delcio Carvalho, Mauro Diniz, Wanderley Monteiro, Noca da Portela, Wilson Moreira, Wilson das Neves, Nei Lopes, Nelson Sargento, Monsueto, Camunguelo entre outros.

O Samba Zé Samba tem como base os Zés do nosso Brasil, representados na figura do malandro, do sambista, do capoeirista, antes discriminados, mas que hoje tem a sua arte reconhecida. Lembra também o Zé Pereira, um dos principais personagens do carnaval carioca.

domingo, 21 de outubro de 2012

Orun Ayé - "Os Autônomos e os Sambas 2013"



Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, traça um perfil preliminar dos sambas de enredo do Grupo Especial para o carnaval 2013.

Complementando a informação do colunista, Cláudio Russo sagrou-se campeão na Beija Flor na última quinta feira.

Por outro lado, por determinação exclusiva da diretoria da escola o samba da Portela sofreu alterações significativas para a gravação oficial, que tiraram boa parte do brilhantismo da composição. Continua sendo um dos melhores para 2013, mas perdeu qualidade, infelizmente.

Os Autônomos e os Sambas 2013

Nesse momento em que escrevo (final da noite de quarta) faltam apenas dois sambas no Grupo Especial do Rio de Janeiro para serem escolhidos. Nessa última madrugada duas escolas fizeram suas finais: Imperatriz Leopoldinense e Inocentes de Belford Roxo. Ainda faltam duas, Beija-Flor e Unidos da Tijuca.

E o que acho dos sambas pra 2013?

Sei lá, não conheço quase nenhum.

Bom, pelo que disse acima devia encerrar aqui essa coluna sobre os sambas do ano que vem, né?  É, poderia, mas dá para avaliar assim mesmo até porque o estilo dos sambas, as parcerias que venceram e a qualidade que cada escola nos oferece não mudaram muito durante os anos. Além disso, está tudo muito parecido com 2012.

A diferença é que não estou no CD. 

Algumas surpresas aconteceram, como a escolha da Inocentes nessa madrugada. Cláudio Russo perdeu. Ganhou a parceria do Billy. Ainda não ouvi o samba, mas ele foi bastante elogiado na escolha.

Essa eu acho que ninguém esperava. Cláudio Russo, compositor oriundo da Portela, é um dos melhores compositores da atualidade. Costuma escrever com qualidade e grande estrutura para várias escolas de quase todos os grupos do carnaval carioca.

Apesar de negar, o Cláudio é um dos símbolos do que chamamos hoje em dia de firma ou escritório. Compositores que sem assinar colocam sambas em várias escolas, pegando compositores dessas escolas para assinar seus sambas. O esquema firma/pombo (nome dado a quem assina sem escrever) ainda tem seus segredos e obscuridades muito por culpa desses compositores que não assumem a prática - que não é ilegal.

Vários sambas escolhidos no Especial do Rio esse ano e em outros anos chegam ao público com essa suspeita de pertencer a firmas.

Não vou aqui apontar quais sambas são de firmas ou suspeitos de ser, apesar de saber alguns. Seria leviano e antiético. Quem acompanha de perto os concursos de samba-enredo sabe só de ver qual cantor defende o samba na quadra e o estilo da melodia.

Antigamente a gente ouvia um samba e dizia só na audição que era de escola A ou B; hoje ouvimos e falamos que é de compositor A ou B.

Mas se tudo caminhar bem o Russo ainda deve emplacar um samba assinando no Especial. Na Beija-Flor de Nilópolis é  franco favorito e pode significar a primeira vitória de Miguel Menezes na agremiação. Ele foi bicampeão na União da Ilha em 2003/2004 e há anos busca esse título em Nilópolis.

Na Tijuca não ouvi muita coisa, mas como sempre deve ficar entre as parcerias do Josemar Manfredini e do Totonho (detalhe, todos os sambas já estarão escolhidos quando a coluna for ao ar). Ouvi o do Josemar e gostei, é padrão dos últimos anos da Tijuca - que mesmo com algumas pessoas torcendo o nariz leva ao título.

Mangueira foi a primeira a escolher e escolheu samba da parceria do Lequinho, compositor tradicional da escola e campeão não só nela como em muitas escolas. São Clemente inovou e fez junção. A junção propriamente dita não foi novidade: a novidade fica por conta de Gabriel Mansilha que em sua estreia como compositor, assinando sozinho, conseguiu vencer um concurso no grupo especial. Isso é algo dificílimo.

Salgueiro e Mocidade a meu ver escolheram sambas melhores que seus enredos e principalmente ouvindo o que suas comunidades queriam. Fico feliz especialmente pelo amigo Marcelo Motta. Cara formidável, humilde, um dos caras mais bacanas que já conheci no samba - que chega ao seu quarto título na Academia.

Imperatriz escolheu o samba da parceria do Me Leva. Apesar de muita gente da escola preferir o samba do Zé Katimba, o samba é bom e foi bem aceita sua vitória. Nas duas últimas vezes que essa parceria venceu o concurso venceu também o Estandarte de Ouro de melhor samba, provando que tem qualidade.

A Grande Rio também escolheu uma parceria tradicional de sua escola, a de Mingau e Cia. Esta era pule de dez na disputa da agremiação e a escola cantará seu bom samba em defesa do Rio.

Agora vou falar das três escolhas que mais me chamam a atenção. Por minha proximidade com a escola ou pela qualidade dos sambas.

A escolha da União da Ilha surpreendeu quase todo o mundo do samba e mais uma vez, como em quase todos os anos, provocou polêmica.

Mas só quem não acompanha o Ouro de Tolo se surpreendeu com essa vitória. Na coluna que escrevi aqui semana passada eu apontei o favoritismo para o samba do Ronald, mas disse que crescia muito o rumor da conquista desse samba. Disse que os quatro podiam vencer, mas foquei mais o favoritismo nesses dois - quando a grande mídia apontava os outros dois.  

Pois bem, os outros dois, os que a mídia e as pessoas que acompanhavam pela internet esperavam chegaram sem chances na final. Eram bons sambas, como o samba do Marcinho que era o que eu mais gostava, mas pesou contra as duas parcerias os quatro anos de vitórias que seus líderes tinham.

Ficou entre os outros dois, mas logo no começo da final vazou o campeão. O samba do Ginho é um samba correto, com uma letra muito bonita, mas em alguns pontos a melodia cansa. Confio em seu crescimento na voz do Ito Melodia e a ressaltar a alegria de ver o Ginho, uma pessoa muito digna, correta e talentosa vencer na Ilha usando sua experiência de vida. Além de estar aliado à juventude e garra do Junior que nunca desiste da luta e tem um grande futuro pela frente.

Falar o que de Vila e Portela? Ganharam os sambas que eu previ e fiz coluna aqui há um bom tempo atrás. De novo as duas escolas, de novo as duas parcerias, de novo comandando o carnaval carioca.

As parcerias campeãs de Portela e Vila são iguais e muito diferentes e nessa diferença se completam e formam uma nova rivalidade no carnaval carioca, mas uma rivalidade sadia. É boa porque em cada canto de quadra ou roda de samba vem a discussão “qual o melhor samba?”.

A Vila formou uma parceria que o Migão apelidou de “galáctica” e é uma super parceria sim. É comandada por Arlindo Cruz, um dos maiores nomes do samba atual, Martinho da Vila, um dos grandes nomes da história do samba e de Vila Isabel e André Diniz, um dos melhores do nosso carnaval atual e dono de sambas memoráveis.

Sobre o André vem a pecha também de ser comandante de uma firma de samba-enredo. Mas seu talento suplanta todo o ‘disse me disse’, principalmente com os sambas que fez nos últimos 20 anos pra Vila Isabel e a junção desses três craques e seus parceiros fez um dos grandes sambas do ano.

Na Portela é o contrário. São nomes que já contavam com respeito no samba, na MPB, mas que do ano passado pra cá decidiram virar o mundo do carnaval de cabeça pra baixo.

Wanderley Monteiro e Luiz Carlos Máximo foram os donos do carnaval 2012 com o “Madureira sobe o Pelô” que apelidei numa coluna aqui de “Barcelona dos sambas”. Conseguiram repetir a dose esse ano abrindo a roda e anunciando que lá vinha Madureira.  

Em um carnaval que hoje é dominado pelas firmas, posso dizer que Wanderley, Máximo e seus parceiros são os “autônomos do samba”, trabalhando por conta própria, fazendo seus sambas sem inspiração vir de gente de fora.

E por incrível que pareça isso é raro hoje em dia. Uma parceria que assina o samba e onde sabemos que foram eles que escreveram o mesmo.

Qual o melhor samba? Não sei e sinceramente nem me interessa muito. Em vez de discutir essas coisas prefiro apreciar os dois grandes sambas.

Não dá ainda para fazer um ranking dos sambas 2013, dividir entre bons e ruins. As escolas ainda estão na fase de gravação do coro, ainda farão gravação oficial com os cantores, mixagem, lançamento das faixas, ensaios técnicos.

Mas a princípio me parece seguir uma tendência que vem desde 2010. Um bom cd com alguns sambas se destacando e mostrando enorme qualidade. 

Enquanto você fica aí ansioso esperando as gravações oficiais, vá em www.sambaderaiz.net. No site tem meu concorrente no Boi da Ilha e meu concorrente junto com o Migão no Acadêmicos do Dendê. As duas finais serão realizadas nessa próxima semana.

Começou o carnaval 2013. Orun Ayé!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Abre a roda, chegou Madureira!


Antes de mais nada, peço desculpas aos leitores por somente estar colocando o resultado aqui hoje. Passei o final de semana acompanhando parente internado em hospital e pouco pude estar em casa.

Feita a necessária explicação, é com alegria que informo aos leitores que mais uma vez a Portela escolheu aquele que pode ser o samba do ano, tal e qual 2012.  A parceria de Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto Sete é quem assina o samba para o carnaval 2013, para gáudio dos verdadeiros portelenses e do escriba deste post.

Aliás, na última quinta feira este blog acertou na mosca o resultado.

Não nego que sou amigo de um dos autores do samba, mas em termos de Portela sempre torço para aquela que é a melhor composição a nos representar na avenida. Quando coincide, como ocorreu nestes dois últimos anos, melhor ainda.

Vale lembrar que este resultado portelense sinaliza uma mudança importante na política da escola. O Diretor de Carnaval Júnior Scafura, imbatível outrora, é derrotado pelo segundo ano consecutivo. Isso deve ter reflexos nas eleições que se aproximam na escola, logo após o carnaval de 2013.

O samba campeão ainda teve de superar uma apresentação problemática da bateria para obter a vitória na última sexta feira. Mas o Portelão lotado levou o samba no gogó e deixou claro que era a melhor opção para representar a Águia no desfile oficial.

Este resultado também é importante por significar a resistência portelense às chamadas "firmas" de samba enredo, grandes ajuntamentos de compositores que escrevem em várias escolas. Os autores do samba portelense para 2013 são da casa, e, mais importante: quem assina é quem realmente faz.

Vamos à letra do samba campeão, que deve sofrer pequenos ajustes na melodia para sua gravação oficial:

"E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios 
Por onde me deixo levar 
Laiá 
Nossa história começa por lá 
No engenho da fazenda 
Dos cantos de “canaviá” 

Bate o sino da capela 
Ôi... Que é dia de santo, sinhá

Tem mironga de jongueiro 
O tambor me chamou pra dançar

Tempo rodou na roda do trem e veio 
A inspiração do partideiro 
Que versou no mercadão 
Foi nesse chão 
Que a estrela brilhou no tablado 
O “madura” pisou no gramado 
O malandro charmoso dançou 
No pagode com outro gingado 
Quando o bloco chegou 
Agitou o suingue do black 
E a nega baiana girou

Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer

Surgiu a Serrinha imperial 
Em outros caminhos para o mesmo ritual 
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar 
É a capital de um sonho que me faz sambar

Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá"


Sobre outras escolas, como já se sabia desde priscas eras, a parceria "galáctica" da Vila Isabel (André Diniz, Martinho da Vila e Arlindo Cruz) venceu a disputa e deve disputar com o samba portelense os prêmios de melhor do carnaval 2013.

A meu juízo, é um samba muito bom, mas que talvez não obtivesse a repercussão que teve se não tivesse as assinaturas famosas que tem. Por outro lado, a disputa da Vila se configura complicada, porque André Diniz, dono de um imenso talento, possui uma posição de poder bastante monolítica dentro da agremiação, o que torna bastante desigual a disputa.

O leitor pode ver abaixo a apresentação do samba vencedor.


Na União da Ilha, uma vez mais a política prevaleceu na escolha e, em minha opinião e na de muitos analistas, se escolheu aquele que era o pior samba da final, o da parceria de Junior, Ginho e outros. Vinícius de Moraes merecia um samba mais melodioso e, acima de tudo, menos chato. Pena.

Aliás, este é um ponto que se deve frisar: as escolhas como um todo vem privilegiando fatores políticos acima de outros fatores, com raras exceções como a ocorrida na Portela. A qualidade do samba, decididamente, vem ficando em segundo plano na maioria das agremiações.

Além disso as chamadas "firmas" de samba enredo este ano estão consolidando seu domínio absoluto, em especial no principal grupo de escolas cariocas.

Ressalte-se também a escolha da Grande Rio, que optou por uma composição até bastante razoável tendo em vista o enredo panfletário sobre os royalties do petróleo.

A safra de samba 2013 vem se configurando até bastante razoável tendo em vista a quantidade de enredos disparatados escolhida este ano. Dois sambas de antologia (Portela e Vila, novamente) e alguns bastante interessantes.



(Vídeos: Carnavalesco)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Finalistas da Portela 2013


Amanhã, dia 12 de outubro, feriado da Padroeira do Brasil, a Portela irá escolher o samba enredo que será o hino oficial da escola para o carnaval de 2013.

Devido ao feriado e ao fato de que a feijoada oficial será realizada no dia 13, sábado, a final será realizada em horário alternativo: irá se iniciar às 19 horas, com o resultado previsto para algo em torno de uma hora da manhã. Pessoalmente, faria ainda mais cedo, mas achei uma boa iniciativa da diretoria da escola.

Como escrevi nos dois posts de agosto, após a primeira eliminatória, a safra de 23 sambas acabou se revelando aquém do que se poderia esperar pelo enredo. Como também escrevi naquela ocasião, o afastamento de vários dos principais compositores da disputa portelense acabou se refletindo diretamente na disputa de samba deste ano.

Temos quatro composições nesta grande final de amanhã. Já digo ao leitor que pelo menos duas delas, a meu ver, não apresentaram desempenho para estarem presentes nesta final, mas temos de respeitar o critério utilizado.

Ainda assim a Portela tem tudo para levar um samba extraordinário para a avenida. Um a um, vamos aos concorrentes, lembrando que tudo que está escrito neste post é minha opinião pessoal em cima do que vi na quadra nas duas eliminatórias a que estive presente e em demais fatores que observei.

Vamos aos finalistas, um a um.

1) Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto Sete.



A parceria atual campeã (no alto em gravação das oitavas de final e acima, da semifinal), como já escrevi aqui outras vezes, conseguiu fazer uma composição ainda melhor que o espetacular samba de 2012. Remetendo à curimba e ao partido alto em sua melodia, trilha um caminho diferenciado em sua melodia. A letra descreve o enredo sem se prender à descrição da sinopse.

Não diria que a fatura está totalmente liquidada, mas a meu ver é a franca favorita à vitória, pela altíssima qualidade do samba e por suas últimas apresentações. Abaixo o leitor pode ver a letra:

"E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios 
Por onde me deixo levar 
Laiá 
Nossa história começa por lá 
No engenho da fazenda 
Dos cantos de “canaviá” 

Bate o sino da capela 
Ôi... Que é dia de santo, sinhá

Tem mironga de jongueiro 
O tambor me chamou pra dançar

Tempo rodou na roda do trem e veio 
A inspiração do partideiro 
Que versou no mercadão 
Foi nesse chão 
Que a estrela brilhou no tablado 
O “madura” pisou no gramado 
O malandro charmoso dançou 
No pagode com outro gingado 
Quando o bloco chegou 
Agitou o suingue do black 
E a nega baiana girou

Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer

Surgiu a Serrinha imperial 
Em outros caminhos para o mesmo ritual 
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar 
É a capital de um sonho que me faz sambar

Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá"

2) Neyzinho do Cavaco, Flavio Viana, Charles Braga, Celso Lopes e Fadico



Este é o outro samba que pode se sagrar vencedor, embora a meu juízo com menores chances que a parceria anterior. Segundo a "rádio corredor", na verdade a composição seria de autoria de uma das maiores firmas de samba enredo do Rio de Janeiro. Embora obviamente nada se fale de forma oficial, faço o registro do burburinho - coisas de disputas.

Além disso, seu refrão principal é muito semelhante ao de um outro samba (parceria de Marquinho Marino), que é finalista na Mocidade Independente também para 2013 e que tem os seguintes versos, bastante semelhante ao do samba em questão: 

"Eu sou Mocidade e quero respeito!
São cinco estrelas bordadas no peito
Nós vamos à luta... Fazer diferente
É rock in rio... Sou a ''tribo independente''

O refrão do finalista portelense é o seguinte:

"Vinte e uma estrelas gravadas no peito
Com todo respeito, meu nome é Portela!
A majestade, celeiro de bambas !    
Cantando a capital do samba"

Estão presentes duas ideias comuns, a alusão ao número de títulos "bordada no peito" e o pedido de respeito. Quem "se inspirou" em quem não sabemos, mas faço o registro.

É o samba apoiado pelo Diretor de Carnaval Júnior Scafura e pelos segmentos da escola a ele ligados. É um samba bastante convencional, com diversos clichês em sua letra, embora não seja ruim. Tem algo que particularmente me incomoda: sua melodia parece de samba da Mangueira.

Pode até sair com a vitória, em especial devido aos seus apoios políticos. Mas está distante de ser favorito - é zebra.

Passemos à letra:

"Lá... Onde o samba faz morada
Lá... Encontrei o meu lugar
Um manto azul e branco em fantasia
Riscando todo o chão de poesia
Por tão rara beleza o meu coração... Se deixou levar...
Viajo pelos trilhos do passado
De novo o coração bate apressado
Lembrando a minha escola a desfilar... E o povo a cantar...
Naquela batucada brasileira
De Paulo Benjamim de Oliveira
Ao longe ouço o som de um tambor... Quando alguém anunciou... 

Madureira... Num jardim de poesia a fina flor 
Dos malandros e mulatas...
Do mercado à boemia
A minha eterna mania de amor

Teatro, cinema
Tem jongo à luz do luar
Bom futebol, cerveja no bar
Um charme pra gente dançar
Na fé... Dos meus orixás
Seguindo caminhos de paz
De um povo que tem a alma guerreira
E leva o samba na veia
Império de poetas imortais
Não posso conter a emoção
Orgulho que sinto ao pisar nesse chão
Ah meu lugar! Difícil é saber terminar

Vinte e uma estrelas gravadas no peito
Com todo respeito, meu nome é Portela!
A majestade, celeiro de bambas !    
Cantando a capital do samba"

3) Jurandy Santanna, Almir Lua, Dico da Portela, Carlos Alberto e Barriga



O terceiro samba da final manteve uma regularidade durante toda a disputa, sem se destacar mas também sem ter defeitos evidentes. Eu pessoalmente faria a final com apenas três sambas, mas com quatro esta composição e o samba do compositor Naldo - eliminado nas oitavas de final - disputariam a quarta vaga.

É composição correta, com uma segunda parte a meu ver como o ponto alto do samba. Mas a meu ver faz figuração na disputa.

Passemos à letra.

"Se um dia...
Um dia, esse manto azul e branco
Entrou em minha vida e me fez marejar
Conquistou meu coração, fez o povo delirar
Qual Paulo Benjamim já fez um dia
Peguei o trem da alegria fui parar em Madureira
Chegando lá, senti a força dessa gente
A raiz vem da semente, cultura, fé e devoção
Cantando fui, me embalar na batucada
Para trilhar a caminhada, sem o samba não posso ficar...

Na ginga o malandro, levou a mulata
Mercadinho virou mercadão
Teatro, cinema, mistura de raças
Tem futebol e religião

Caminhando...
Caminhando nos caminhos da folia
Vesti a fantasia e fui me acabar
Nos blocos, coretos e cordões
Pierros e colombinas
Envolvendo os salões
No carnaval...
Sem ter orgulho nem vaidade
Hoje o sonho é realidade
Portela e Império em plena comunhão
Portela...
Tu és, amor, felicidade
No samba és a majestade
Madureira sempre foi teu lugar

A minha Portela me fez viajar
O meu coração se deixou levar
Encontrei meu lugar, celeiro de bambas
Eterna capital do samba"

4) Gérson PM, Beto da Portela, Marlene Flôres, Pepita Abrantes e Marcos Glorioso


Fechando os finalistas, um samba que a meu juízo deveria ter sido cortado ainda na primeira eliminatória, dois meses atrás: o da parceria de Gerson PM.

É uma composição cuja melodia está mais para música sertaneja que para samba de enredo, o que lhe valeu o apelido de "sambanejo" nas redes sociais. A vontade que ele suscita é de se dançar quadrilha de São João e não desfilar na Sapucaí.

Sinceramente não entendo como ele está na final, ainda mais quando se sabe que o bom samba da parceria de Edson Batista, que cresceu muito durante a disputa, caiu na semifinal. Menos mal que, ao que tudo indica, somente fará número.

Vamos à letra.

"Nesta linda noite de magias
Emoções e fantasias
Bailam poesias no ar
Portela...
Minha paixão virou mania
Nesse encanto em harmonia
Deixa a águia guerreira te levar 

Que amor é esse que me faz sambar?
Veste o azul e branco, você vai gostar
Vem no trem da alegria
Da senzala ao dia a dia
Nesse balanço vou me apaixonar 

Assim lá vou eu...
Pelos caminhos dessa rica trajetória
A arte e a cultura dessa gente
E o comércio envolvente
Engrandecem o meu lugar
Das boêmias ao luar
Dádivas da inspiração
Recanto da coroa imperial
Reduto de bambas
E da majestade do samba
De Paulinho da Viola
Poetas e sambistas geniais
De orgulho e tradição dos carnavais 

Me leva...Madureira!
Deixa o meu coração festejar...festejar!
Noventa anos de histórias
Lindas páginas de glórias
Portela faz o povo cantar"

Termino acreditando que a diretoria da escola leve para a avenida o samba da parceria de Wanderley Monteiro, por ser o melhor da disputa e ter totais condições de repetir o sucesso do samba de 2012. Outro resultado, a meu ver, seria bem inesperado.

Não poderei ir à final amanhã por estar com problemas de saúde na família, mas ao leitor que se animar a ir, um conselho: chegue cedo. De qualquer forma, sites especializados farão a cobertura em tempo real e colocarei aqui o resultado.

(Vídeos: Carnavalesco)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Final de Semana – A Tradicional Escola de Samba Portela


Após uma semana ausente outra vez por motivos logísticos – tenho escrito e editado a maioria dos posts de um computador que não tem acesso ao Youtube – nossa faixa musical retorna um pouco diferente nesta semana.

Já escrevi aqui em outra ocasião que pouco tenho visto TV ultimamente. Além dos meus afazeres diários ando com pouquíssimo tempo e especialmente paciência para sentar diante de uma TV e conferir a programação.

Isso significa que às vezes perdemos boas atrações disponíveis. Uma delas é o “Samba na Gamboa”, apresentado pelo cantor Diogo Nogueira na TV Brasil, às terças feiras.

Pesquisando no YouTube achei este programa sobre a Portela, exibido dia 6 de março, duas semanas antes do carnaval. Com as presenças de Monarco e do compositor Noca da Portela – este em foto comigo ao final deste post, a edição deslumbra algumas histórias sobre a escola e sobre seus sambas, além de mostrar sambas de enredo e de exaltação.

Há algumas revelações surpreendentes.

A primeira é de Monarco, ao afirmar que Antonio Caetano, quando desenhou a águia, na verdade originalmente havia pensado em um condor. Monarco também altera a versão corrente de que o Delegado Dulcídio Gonçalves havia determinado a troca do nome da escola de “Vai Como Pode” para “Portela” a fim de renovar a licença necessária naquela época. Na versão do compositor o delegado sugeriu o nome aos dirigentes e foram estes que optaram pela troca.

Monarco também demonstra toda sua mágoa com a decisão da escola de entregar o samba de 74 aos consagrados compositores Jair Amorim e Evaldo Gouvêa, que não eram da escola – sequer autores de sambas de enredo eram.

Ao citar o grande Paulo da Portela Monarco se utiliza de uma expressão que a mim pessoalmente me soa mal, de que ele “civilizou” o samba. Compreendo o contexto em que tal expressão é utilizada, mas particularmente não gosto.

Para os leitores leigos, a decisão de preterir os compositores da Portela e dar o samba à dupla abriu uma crise sem precedentes na azul e branca, com o afastamento de figuras como o próprio Monarco, Paulinho da Viola, Zé Ketti e Candeia.

Noca da Portela conta um pouco de sua história e de como era a “prova” para passar a fazer parte da ala de compositores da Portela. Ele teve de fazer um samba em seis horas e apresentar a Candeia, então presidente da ala, a fim de ser avaliado e aceito. Noca conta que elaborou duas composições “por via das dúvidas”.

Igual aos dias de hoje, onde basta a vontade de gastar alguns milhares de reais para passar a fazer parte de uma ala de compositores de uma escola de samba carioca – não é um fenômeno restrito à azul e branca. Talento é acessório.

Me impressionou também a marra do veterano compositor, que em dado momento se queixa de que fez seis sambas vencedores para a Portela e nunca foi campeão, ao contrário de Paulinho da Viola “que fez um apenas e conquistou o título”. O compositor depois se corrige e diz que “tem de respeitar” Paulinho...

Aliás, fazendo um parêntese, fiquei muito contente de ter ouvido na quadra da escola na última quarta feira o samba de 1985, de autoria do compositor. Fecha o parêntese.

Chamou-me a atenção, também, o fato de que todos os compositores citados como “da nova geração” da Portela serem mais velhos que eu – a maioria na casa dos 50 anos de idade. A exceção é Ciraninho, mas lembremos que originalmente ele é oriundo da União da Ilha. São citados nomes como Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo e Serginho Procópio, além dele.

Monarco também conta a história da fundação da Velha Guarda Show da Portela, entre 1970 e 71. Aliás, recomendo aos leitores a audição do cd “Portela, Passado de Glória”, fruto deste trabalho inicial e que tinha como objetivo básico registrar sambas antihgos que estavam se perdendo.

Entre depoimentos e sambas, o programa tem 52 minutos. Vale muito a pena para se conhecer um pouco da cultura brasileira e da história da Portela em especial. E se deleitar com os sambas da Majestade.

Bom final de semana.