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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sabinadas - "O primeiro passo de Massa"


Nesta quinta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista Fred Sabino, traça um perfil da retomada da carreira de Felipe Massa e de suas perspectivas.

Aproveito para fazer um desabafo de quem gosta de automobilismo. Todo mundo que acompanha e gosta de Fórmula 1 sabe que a categoria sempre teve um certo nível de falcatrua, seja através de interpretações “criativas” do regulamento ou mesmo de práticas pouco recomendáveis.

Só que a união Alonso e Ferrari elevou o nível da canalhice – o termo é forte, leitores, mas não encontro outro – a um patamar inimaginável. Dick Vigarista ficaria com inveja do piloto que afirma “não tenho milagres, faço dos milagres minhas leis” e da equipe que tem como lema “os fins justificam os meios”.

Lembro aos amigos que o tricampeão Vettel afirmou na coletiva pós título que “eu aprendi a ser honesto” e que “os outros tentaram de tudo para nos derrotar, mas aprendi a fazer as coisas do modo certo”. Em um mundo onde as declarações dos pilotos são muito pasteurizadas, é um bom exemplo da repulsa que as atitudes da Ferrari e de Alonso causaram mesmo em um meio bastante aético como é o da Fórmula 1.

Ao leitor que deseja conhecer quem é Fernando Alonso sugiro a leitura da biografia Bernie Ecclestone, já resenhada neste blog.

Que fique claro: as palavras acima são de minha responsabilidade, não do colunista. Vamos ao texto.


O primeiro passo de Massa

Já há algum tempo venho prometendo uma coluna analítica sobre Felipe Massa. Pois bem, chegou o momento.

Não vem ao caso aqui ficar comentando sobre a questão do, digamos, jogo de equipe empregado pela Ferrari nas últimas temporadas - que fique claro: não concordo com a maioria dos expedientes usados. Para quem gosta de automobilismo é um tanto redundante ficar ‘chovendo no molhado’ com essa história.

Portanto, falemos tão e somente sobre o desempenho de Felipe Massa. Vale, é claro, lembrar a sua carreira para contextualizar o atual momento.

Felipe chegou à Fórmula 1 no começo de 2002, após a conquista do título da Fórmula 3000 Italiana, uma categoria nem tão badalada assim. No entanto, o inegável ótimo desempenho e a parceria com o empresário Nicolas Todt, filho do então chefe da Ferrari, Jean Todt, proporcionaram um contrato com o time italiano. Este "emprestou" Massa para a Sauber, cujo carro era empurrado pelos motores de Maranello.

No primeiro ano, Felipe pontuou logo na segunda corrida, na Malásia (na época só seis pontuavam, o que realça a façanha dele), mas alternou outras boas exibições com erros. Ainda desobedeceu a uma ordem da equipe para ceder uma posição a Nick Heidfeld em Nürburgring, o que irritou profundamente Peter Sauber. Após uma batida com Pedro de la Rosa em Monza, foi suspenso para a corrida de Indianápolis. Depois, bateu no Japão e foi dispensado.

Com a reputação em baixa, virou piloto de testes na Ferrari, numa época em que eles ainda eram valorizados. Com a cabeça no lugar, aprendeu, aprendeu e aprendeu o máximo que pôde com Michael Schumacher e Rubens Barrichello. Entendeu melhor o funcionamento de um carro de F-1 e, principalmente, manhas de acerto, e foi reconduzido à condição de titular na Sauber.


Aí Felipe renasceu.

Em 2004, cometeu bem menos erros e, embora tenha marcado menos pontos do que o experiente Giancarlo Fisichella, deixou impressão bem melhor do que em 2002. No ano seguinte, superou o campeão mundial Jacques Villeneuve e teve excelentes atuações, como no Canadá, onde segurou o Williams bem mais veloz de Mark Webber e terminou em quarto. Com isso, pavimentou o caminho rumo à vaga de titular na Ferrari, substituindo o insatisfeito Barrichello.

Embora sempre veloz, Massa começou errático o primeiro ano de Ferrari. Mas foi crescendo, crescendo e, num ano em que Fernando Alonso e Michael Schumacher estavam em forma exuberante, acabou beliscando poles e vitórias convincentes na Turquia e no Brasil. Isso confirmava que era, de fato, um piloto de equipe grande. Com a primeira aposentadoria de Schumacher, Felipe estava garantido em 2007, ao lado do sempre forte Kimi Raikkonen.

Todos se apressaram em dizer que o Homem de Gelo iria congelar Massa (perdoem o trocadilho), mas não foi assim. Felipe teve erros pontuais, mas dominou e venceu corridas. E estava na frente do finlandês na tabela até faltarem cinco das 17 corridas.

Mas uma falha mecânica ridícula na suspensão do carro em Monza, quando Massa também estava à frente tirou pontos preciosos e inevitavelmente Kimi foi o escolhido para encarar os "companheiros" Lewis Hamilton e Fernando Alonso e a fortíssima McLaren. Em meio à implosão do time inglês após a divulgação do escândalo de espionagem, Hamilton desligou o cérebro, Alonso foi prejudicado pelo próprio time e Kimi aproveitou. Mas Felipe não saiu com a reputação arranhada.

O ano de 2008 foi o mais marcante da carreira de Felipe. Ele começou mal de novo a temporada, com duas não-pontuações. Mas depois, com segurança e atuações novamente convincentes, o brasileiro venceu seis provas e o título bateu na trave. A postura dele após o revés, agradecendo à torcida em Interlagos e reconhecendo a vitória de Lewis Hamilton, foi exemplar. Só que o que era para ser a consolidação de Massa como candidato constante a tíutlos acabou sendo o começo de um calvário.

Tudo começou com um problemático carro feito pela Ferrari para 2009. Como o time italiano (além de McLaren, BMW Sauber e Renault) optou pela nova tecnologia do Kers (sigla em inglês para sistema de recuperação de energia cinética, em que a energia armazenada nas freadas é reaproveitada como potência para o motor), a equação toda ficou problemática para o time de engenheiros devido ao aumento de 30 quilos do peso do carro.


Outros fatores, como a volta dos pneus slicks e os polêmicos difusores duplos adotados por Brawn, Toyota e Williams jogaram a Ferrari para trás e tanto Felipe como Kimi Raikkonen sofreram na primeira metade do ano. Aos poucos, Felipe reagiu, sempre marcando mais pontos do que o finlandês, e era o quinto colocado no campeonato, atrás das duplas de Brawn e Red Bull. Antes do infeliz treino classificatório do GP da Hungria...

O acidente em Hungaroring, do ponto de vista puramente clínico, não deixou sequelas segundo os médicos e o próprio Felipe. No entanto, Nelson Piquet, que teve um grave acidente em 1987 e demorou a recuperar os reflexos, acha que não e sempre diz que a queda de rendimento de Massa se deveu ao acidente.

De qualquer forma, Massa voltou no começo de 2010, desta vez com a indigesta companhia de Fernando Alonso. No começo, o brasileiro chegou a liderar o campeonato, mas, aos poucos, o espanhol começou a ser constantemente mais veloz.

Na Alemanha, exatamente um ano depois do acidente, Massa foi obrigado pela Ferrari a ceder a liderança a Alonso.

Mais do que o acidente em si, para mim o grande fator para a queda acentuada de Massa nos anos seguintes foi o episódio de Hockenheim. A confiança, que já estava em xeque pela pressão exercida sobre Alonso dentro e fora da pista, foi abalada de vez.

Some-se a isso a própria dificuldade que os pilotos tinham para conduzir os carros da Ferrari produzidos nesta fase - o próprio Alonso, em forma exuberante, não teve como combater os fortíssimos Sebastian Vettel e a Red Bull desde então.

Aí veio uma reação em cadeia.

Felipe sempre sustentou que a pressão da imprensa, da torcida e a constante boataria envolvendo outros pilotos não o afetaram. Mas fato é que desde 2010 Felipe vinha tendo pouquíssimas atuações de destaque, o que reduzia ainda mais a confiança. Pior: Alonso, de um jeito ou de outro, dava um jeito de tirar leite de pedra. Este ano, o quadro parecia irreversível, pois Massa vinha pior do que nunca e a renovação com a Ferrari se mostrava dificílima. Mas...


Massa reagiu, enfim.

Evidentemente o trabalho com os engenheiros nas férias de agosto ajudou Felipe a ter mais confiança no carro e a atacar mais na pilotagem. Mas a postura dele também mudou para melhor. Claramente para quem acompanha a Fórmula 1 de perto o ano todo, Massa passou a se preocupar menos com o externo e se concentrou como há muito não se via. E, como aquele atacante que passa um jejum de gols e desencanta, Felipe cresceu.

Os resultados logo apareceram, tanto que na reta final do campeonato deste ano, Felipe incomodou Alonso. Classificou-se três vezes à frente do espanhol no grid. Uma delas, nos EUA, não valeu nada porque a Ferrari provocou uma punição após o treino de sábado para dar um posto a mais ao espanhol, que largaria do lado limpo da pista - e teve de ceder posições ou não atacar Alonso na Itália, Coreia do Sul, EUA e Brasil.

[N.do.E.: esta é uma dúvida que tenho para 2013: Massa poderá chegar à frente de Alonso nas corridas ou terá sempre de ceder a posição independente da situação ou do estágio do campeonato?]

Em Interlagos, aliás, pude ver pessoalmente um semblante para lá de positivo em Felipe, que estava feliz com a esposa e o filho andando pelo paddock. A ótima corrida de Austin, onde ele largou em 11º e chegou em quarto, colado em Alonso, deu uma grande injeção. E a corrida de Felipe em Interlagos foi excepcional, no nível da época anterior ao acidente.

A começar pela largada, na qual Felipe ganhou três posições e pulou para segundo. Depois, num jogo de equipe aí sim dentro do aceitável pelas circunstâncias, Massa atrasou Mark Webber e permitiu que Alonso pulasse para segundo. Na sequência, em uma péssima decisão estratégica da Ferrari, caiu para 14º. Mesmo assim, Felipe não desistiu e voltou ao segundo lugar. Depois, outra cessão de posição a Alonso, também normal, e um emocionado terceiro lugar - Felipe chorou no pódio.

O que dá para concluir depois desse longo (confesso) texto é que o primeiro passo Felipe Massa deu para voltar a ganhar corridas: ou seja, ter confiança para estabelecer um ritmo de corrida veloz e realizar ultrapassagens arrojadas. Não fez mais porque, nesta altura do campeonato, era inevitável trabalhar para Alonso pelas posições na tabela. Nas nove corridas que encerraram o campeonato, Massa fez quase tantos pontos quanto Alonso (114 a 97, diferença aproximadamente de um segundo lugar) e tendo de ceder posições.

Mas, para que o torcedor brasileiro recupere definitivamente a confiança (olha a palavra confiança aí de novo), Felipe tem de se concentrar em começar bem a temporada-2013 e pontuar de forma sólida e convincente. Estando bem na tabela, na pior das hipóteses bem próximo de Alonso, Massa pode finalmente evitar as situações constrangedoras que vimos nos últimos anos.

Vocês podem perguntar, com razão: então está tudo bem e aquele Massa de 2007/2008 definitivamente voltou? Não sei, é impossível prever. Mas um primeiro passo foi dado.

Aguardemos.

Fotos, na ordem:
Pódio do GP do Brasil de 2008
Pódio do GP do Brasil de 2012
Massa colado em Alonso no GP do Brasil de 2012
Acidente de Massa nos treinos do GP da Hungria de 2009
Pódio do GP da Alemanha de 2010

Fotos Ferrari/Divulgação exceto a do acidente (reprodução da internet)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Sabinadas - "Alonso vs Vettel: o Calculista vs o Espontâneo"


Nesta sexta feira, excepcionalmente, a coluna "Sabinadas" do jornalista Fred Sabino, fala sobre a decisão do Mundial da Fórmula 1 a se realizar no próximo domingo em Interlagos. O colunista trata um perfil psicológico dos dois postulantes ao título. 

Adianto que minha torcida é para Sebastian Vettel, haja visto as recorrentes demonstrações de falta de ética e até mesmo de caráter de Alonso e, secundariamente, da Ferrari. Vamos ao post, direto de Interlagos.

Alonso vs Vettel: o Calculista vs o Espontâneo

O fim de semana promete reservar grandes emoções na Fórmula 1, com a disputa do título mundial entre Sebastian Vettel e Fernando Alonso no Grande Prêmio do Brasil.

A natureza clássica do circuito de Interlagos, com curvas de diferentes tipos, subidas e descidas, e, principalmente, o clima inconstante normalmente proporcionam belos espetáculos. Um bom exemplo o que vimos em 2008, quando Felipe Massa por alguns metros não conquistou o título.

Mas o tema da coluna de hoje é voltado para uma análise dos dois candidatos ao caneco. Não uma análise técnica, pois já estamos carecas de saber; mas uma análise do comportamento deles, sobretudo em entrevistas, sejam coletivas ou (quando raramente acontece) exclusivas.

Já tive a oportunidade de entrevistar duas vezes Vettel, quando trabalhava no Diário LANCE! e foi extremamente interessante, para não dizer bacana, ver que o alemão não mudou nada com a fama e os títulos mundiais conquistados nos últimos anos.

Embora hoje em dia seja difícil um piloto soltar declarações bombásticas, Vettel costuma brindar os jornalistas com respostas bem-humoradas e boas tiradas, mesmo naquelas coletivas sem graça tão típicas da Fórmula 1 atual.

É possível sentir no ar um Vettel sempre autêntico e relaxado nas entrevistas, sem muitas delongas ao costurar uma resposta. Enfim: é um sujeito bacana de se conversar.

Já Alonso, com quem troquei pouquíssimas palavras na minha carreira, demonstra ser tão calculista nas entrevistas como é nas pistas. Ele é educado e de vez em quanto até solta um sorriso quando está à vontade.

Mas é perceptível quando se conversa com o espanhol que ele sabe exatamente o que quer dizer e por que ele diz tal coisa naquele momento.

Senão vejamos: durante as últimas semanas, o bicampeão vem bradando aos quatro ventos que considera Lewis Hamilton seu rival mais talentoso. Também afirmou que em condições normais a Red Bull tem um carro mais rápido - o que é até verdade.

Mas, evidentemente, tal discurso denota uma tentativa de desestabilizar o alemão. Em resumo, o ferrarista não dá ponto sem nó. Não que esteja errado, afinal não deixa de ser um estratagema - em 1987, Nelson Piquet usou expediente parecido no duelo com Nigel Mansell e, em 1989, foi a vez de Alain Prost usar a imprensa para tumultuar o ambiente na McLaren durante a guerra com Ayrton Senna.

Ver dois gigantes do automobilismo se enfrentando na pista já é muito bacana. Mas também é muito interessante ver esses caras de perto para prestar atenção nesses detalhes.

Um duelo de personalidades bem distintas.


(Fotos: Globoesporte.com)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Sabinadas - "Um Balanço do Automobilismo Brasileiro em 2012"


Neste feriado de 15 de novembro, a coluna "Sabinadas", do jornalista Fred Sabino, traz um resumo do ano de 2012 para o automobilismo brasileiro.

Um Balanço do Automobilismo Brasileiro em 2012

O ano do automobilismo está acabando e, para o Brasil, o balanço é pouco animador em termos nacionais e um tanto melhor em termos internacionais, ainda que sem títulos de peso.

Na Fórmula 1, Felipe Massa começou muito mal e teve uma boa reação na segunda metade da temporada. Conseguiu a renovação de contrato com a Ferrari, o que é lucro levando em consideração a falta de vagas em outros times; mas o que gera uma pulga atrás da orelha do torcedor, já que novamente ele terá a dura concorrência de Fernando Alonso.

Bruno Senna, por sua vez, ainda sofre com o ritmo em condições de classificação, o que invariavelmente tem feito com que ele largue quase sempre muito atrás. Nas corridas até que ele vai bem e pontua com certa regularidade. Falta ainda, no entanto, uma atuação explosiva, como algumas feitas pelo companheiro Pastor Maldonado. Bruno vai ficar na Williams? Não se sabe, ainda. É difícil, até porque muito importante será o aporte financeiro levado por cada piloto.

Na GP2, categoria de acesso à F-1, tivemos uma ótima participação do baiano Luiz Razia, vice-campeão como já haviam sido Nelsinho Piquet, Lucas di Grassi e Bruno Senna. Teve ótimas atuações e, não fosse um erro de avaliação numa disputa na penúltima rodada do ano, em Monza, poderia ter levantado o caneco. Tem boas chances de entrar na F-1 em 2013, pois conta com bons patrocinadores e agradou nos testes com Force India e Toro Rosso.

Felipe Nasr, por sua vez, chegou à GP2 sob muita expectativa. Não dá para dizer que ele foi mal. Beliscou alguns pódios e conseguiu algumas boas atuações. Mas acabou ficando um pouco aquém do que se esperava, pois cometeu alguns erros (até normais) e não foi tão bem nas classificações. No ano que vem, mais maduro, tem tudo para brigar pelo campeonato e ganhar pontos na briga por uma vaga na F-1.

A grande expectativa do ano acabou sendo a IndyCar, com a estreia de Rubens Barrichello. Ele teve muita dificuldade de adaptação - mais do que se esperava - mas evoluiu no fim, tanto que obteve um quinto e um quarto lugares e estava em terceiro na última prova quando quebrou. Tenta levantar patrocinadores para seguir na categoria, o que deve acontecer. Só não se sabe se na manquitolante equipe KV, que em diversas ocasiões derrubou tanto ele como seu companheiro Tony Kanaan em maus pit stops, erros de estratégia e escolhas erradas dos engenheiros.

Tony, aliás, teve um ano em que começou cheio de problemas mas que melhorou, com ótimas atuações e pódios do piloto. Ele já está confirmado na KV em 2013 e, mesmo com quase 40 anos, ainda mostra grande categoria. Se estivesse num time de ponta certamente seria candidatíssimo ao título.

Helio Castroneves acabou sendo o único piloto do país na briga direta pelo campeonato. Venceu duas provas e teve outras boas atuações, intercaladas com corridas em que teve azares como punições por troca de motor e toques com outros adversários. Mesmo tendo sido batido pelo companheiro Will Power na maioria dos mistos, Helinho segue em boa forma e ainda é um dos melhores da Indy. Quem sabe ele não fatura o tetra das 500 Milhas em 2013?

Uma das boas surpresas do ano foi o crescimento da divulgação da Nascar no Brasil, graças, sobretudo, à participação dos brasileiros Nelsinho Piquet e Miguel Paludo. Eu, pessoalmente, estive em Daytona para as 500 Milhas deste ano e gostei muito do que vi. Pode ser uma grande alternativa para os nossos pilotos nos próximos anos. Nelsinho fez uma boa temporada e poderia brigar pelo campeonato não fossem acidentes nos quais não teve culpa. Paludo quase venceu em Daytona e teve algumas boas atuações mas ainda pode evoluir.

Vale lembrar que Nelsinho fez história neste 2012 ao ser o primeiro piloto brasileiro a vencer em uma das categorias principais da Nascar - venceu duas provas na Truck Series (na foto, a vitória em Las Vegas) e uma na Nationwide Series.

Em âmbito nacional, dois fatos fatos foram extremamente positivos: a abertura de um novo autódromo, em Mogi Guaçu - o Vello Cittá é de propriedade da Mitsubishi e deve receber mais corridas nos próximos anos - e a volta de Cascavel ao cenário nacional. No entanto, outros circuitos ainda claramente precisam passar por reformas.

Na Stock Car, sete pilotos estão na briga pelo título, na Corrida do Milhão, dia 9, em Interlagos. Mas o injusto sistema de pontuação, extremamente achatado (pontuam do primeiro ao 20º colocado) e sem descartes, acabou provocando grandes distorções na reta final do campeonato. 

Regular e vencedor como de costume, Cacá Bueno provavelmente ganharia o campeonato de forma tranquila não fosse tal sistema. Além disso, Allam Khodair e Thiago Camilo, dois dos pilotos mais velozes do ano, estão fora da briga devido a abandonos que os puniram muito também devido a essa pontuação, enquanto outros pilotos que não brilharam tanto ainda têm chances de título. De qualquer forma, tivemos várias corridas boas e a decisiva promete.

De positivo para a Stock foi a chegada de pilotos de peso, como os três que correram a temporada da Indy. Creio que se estes acabarem optando pela categoria num futuro próximo, veremos um campeonato com um peso ainda maior. Mas é preciso acabar de uma vez por todas com as distorções, principalmente em questões desportivas - algo que até foi minimizado este ano.

Na Fórmula Truck tivemos uma categoria muito bem promovida como sempre, mas com duas observações: é preciso desenvolver um sistema de segurança para ajudar os pilotos quando os freios falharem (Diumar Bueno sofreu um gravíssimo acidente em Guaporé) e, segundo informações iniciais, a última prova do ano já terá os primeiros testes. Além disso, talvez um regulamento mais restritivo seria útil, pois em algumas situações vimos discrepâncias muito acentuadas entre os caminhões.

Deixei para o fim dois acontecimentos que me entristeceram muito. Este ano, finalmente o autódromo de Jacarepaguá foi destruído para dar lugar a instalações da Rio-2016 e, futuramente, a condomínios e escritórios. A especulação imobiliária e os interesses políticos prevaleceram, infelizmente. 

E o encerramento da Fórmula Futuro mostrou um presente terrível para o esporte nacional. Simplesmente não temos categoria de monoposto no Brasil.

domingo, 6 de maio de 2012

Orun Ayé - "Senna e o Brasil"


Na coluna "Orun Ayé" de hoje, o compositor Aloisio Villar faz um exercício analisando este mito em que se transformou o piloto Ayrton Senna e as causas desta sua "santificação" no imaginário popular.

Por meu turno, como escrevi esta semana no Twitter, umas das coisas que mais me irritam é o exército de "viúvas" do piloto que infestam a televisão e a internet a cada 1º de Maio, em um culto totalmente depropositado. Senna era um grande piloto - a meu ver longe de ser o melhor de todos, mas isto é discutível, assumo - que tinha qualidades e defeitos como qualquer ser humano. Para quem gosta de automobilismo como eu é um porre esta histeria coletiva em torno da imagem do brasileiro.

Vale lembrar, também, que as pessoas reclamam dos privilégios que Schumacher e Alonso tem na Ferrari sobre pilotos brasileiros, mas que Senna fez igualzinho - Berger que o diga... Passemos ao texto.

O Brasil e Senna

Tentei passar por essa data como quem não quer nada: mas não tem jeito. O Brasil não deixa esquecer que 1° de maio é aniversário de morte de Ayrton Senna.  

Ano passado nessa data escrevi e falei de Senna comparando com a morte de Osama Bin Laden e como cada povo vê a morte dentro daquilo que ele considera importante: EUA guerras, Brasil esportes. Hoje toco no assunto Senna por outro ângulo.

Nesse aniversário de morte circulou uma montagem com o Senna saindo ileso do carro da Willians após o acidente, imagem que todos nós torcemos muito para ver naquela manhã de domingo e invariavelmente veio na mente de quem viu a montagem a pergunta: “e se...”

Não sou muito partidário do “se”: eu tenho a tese que se Adão fosse gay e não tocasse na Eva seríamos todos protozoários hoje. Todavia é inevitável fazer um exercício de “futurologia”, acho que todos já se pegaram pensando em algum momento em como teria sido o futuro do Senna.

Não vi os autores nem o nome do livro porque peguei a matéria na metade, mas dois escritores resolveram fazer um livro contando o “futuro” de Ayrton Senna e foram falar sobre a obra no programa “Linha de Chegada” do Reginaldo Leme no SPORTV. Achei a tese tão “maionésica” que me interessou e deu vontade de ler.

Pela tese deles Ayrton teria sido campeão mundial em 1994, repetiria a dose em 1995 e se transferiria para a Ferrari em 1996. Todos sabiam do sonho de Senna em pilotar a Ferrari, mas não tinha ido ainda pela escuderia não estar preparada na época; então ele iria em 1996, ano onde quem foi na verdade foi Michael Schumacher.

Seria campeão em 1996 [N.do.E.: com aquela Ferrari, nem Jesus Cristo seria] e com o hexacampeonato abandonaria a F1. Schumacher e Barrichello seriam companheiros de equipe, mas na McLaren e graças ao prestígio adquirido Senna seria presidente da FIA. Em sua gestão o Brasil ganharia outro GP, o GP das Américas disputado nas ruas do Rio de Janeiro e depois ele passaria o bastão da FIA para Jean Todd, ex chefão da Ferrari e que hoje é realmente o presidente da FIA.

Esse é o exercício deles, eu nesses anos fiz outros. Não sei se ele seria campeão em 1994, estava muito atrás de Schumacher na pontuação, tudo bem que Damon Hill na ocasião da morte também não tinha pontuado e quase foi campeão, mas cada caso é um caso [N.do.E.: aqui vale lembrar que Hill só chegou nas últimas etapas com chances graças a algumas decisões discutíveis da FIA].

Mas acho que Senna teria sido mais vezes campeão. Duas, três, não sei, mas teria sido e para mim viraria empresário, talvez tendo sua escuderia de F1, falindo como Alain Prost e quem sabe virando comentarista de F1 na Globo no lugar do Luciano Burti.

Mas principalmente, seja no caso de futurologia do livro, o meu, de qualquer um ocorreria o mais importante: Senna seria um ser humano.

Porque não é o que ocorre hoje. Senna foi um extraordinário piloto, um excelente atleta, para muitos o maior piloto de automobilismo que já existiu, mas é um cara que não envelheceu como todo ser humano - seja gênio ou não. Não envelheceu, não entrou em declínio. Senna não tomou voltas nem perdeu cargos para pilotos mais jovens. Não deixou a F1 e voltou alguns anos depois perdendo espaço para um garoto, como no caso do Schumacher.

Usando como exemplo outro esportista brasileiro genial: nós não vimos o seu declínio esportivo e físico como vimos de Gustavo Kuerten, que foi o melhor do mundo em um esporte que o Brasil era nada e voltou a ser nada depois dele, mas que não foi muito maior devido seu lado físico e nós vimos sua decadência.

A morte transformou Ayrton Senna em um herói do nível de Tiradentes e Zumbi dos Palmares, sendo que tudo que ele fez foi com seu imenso talento aproveitar as inúmeras oportunidades que teve. Nasceu em família rica e sempre teve apoio dessa família e desse dinheiro, lógico que tem seus méritos porque muitos tiveram essas oportunidades e dinheiro e não aproveitaram. Contudo não podemos chamar o Senna de um cara que sofreu e suou pra ser alguém.

Tem gente que praticamente considera o Senna um Messias, o reinventor do Cristianismo, um cara sem defeitos - e não era assim. Ayrton tinha qualidades e defeitos como qualquer pessoa, arrumou muitos inimigos na F1, fez manobras que não orgulham ninguém (inclusive valendo título mundial) e tinha posições políticas muito complexas como ser eleitor e defensor ferrenho de Paulo Maluf.

Nesse exercício de futurologia penso o que suas convicções políticas teriam feito com ele, será que suas posições, seu modo de pensar não poderiam prejudicá-lo no futuro?

No auge de sua carreira nada dava certo no país, seja no futebol, economia, política e isso ajudou na idolatria a Senna porque ele era o Brasil que dava certo e as pessoas seguiam tanto essa idolatria que mesmo suas controversas posições políticas não importavam.

Mas o Brasil mudou.

Em 1994 mesmo o futebol se recuperou - sendo campeão mundial depois de 24 anos e repetindo a dose em 2002. O país melhorou. Em 1994 surgiu o plano Real que estabilizou a economia e acabou com a inflação. Fernando Henrique Cardoso foi eleito e em seus oito anos de governo manteve o controle inflacionário.

E em 2002 Lula foi eleito mantendo a economia forte e melhorando os aspectos sociais, melhorias que continuam no governo Dilma.

O Brasil de hoje é mais maduro, mais sólido que o Brasil de Ayrton Senna. Hoje uma pessoa da classe C é capaz de ter tv de LCD e viajar de avião... É evidente que as dificuldades são muitas ainda, a corrupção parece impregnada em nossa alma, mas hoje o Brasil mostra ao mundo força e estabilidade enquanto a Europa pede socorro. Nossa democracia é sólida como não era na primeira vitória de Ayrton Senna em 21 de abril de 1985 no circuito de Estoril em Portugal. Data da morte de Tancredo Neves.

Ayrton Senna não foi herói, não era acima do bem e do mal nem andou com sua McLaren sobre as águas. Ayrton Senna foi um excepcional atleta, um homem com extremo talento e um motivo de orgulho e felicidade para um país que necessitava de vencedores e alegrias. Senna por muitos anos foi o único motivo de alegria de nosso povo. Pessoalmente tenho ótimas lembranças de suas corridas memoráveis e de suas vitórias carregando a bandeira do Brasil e é assim que temos que lembrar dele: não com devoção religiosa, mas com saudade e orgulho.

Ele não levantou da Willians andando, não foi presidente da FIA nem virou comentarista da F1 pois não dá pra lutar contra o destino, mas cumpriu muito bem a corrida de sua vida e cruzou a linha de chegada com sua missão cumprida.

A corrida do Senna acabou, mas a do Brasil continua. O Brasil do Ayrton, do Pedro, do Aloisio.. sem exercícios de futurologia, mas com esperanças que ele seja bom. E quem sabe no futuro a gente não precise jogar em esportistas toda a responsabilidade das vitórias e orgulhos de uma nação.

Valeu Ayrton. Mas agora é com a gente. Orun Ayé!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Resenha Literária - "Não Sou Um Anjo"

Leitor, com o perdão do mau termo, imagine um filho da puta. Mas daqueles que não fazem a menor questão de esconder isso.

Imaginou?

Pois após a leitura desta resenha os conceitos do que é "filho da puta" tem de ser totalmente revistos. Nomes que imaginamos como arquétipo desta classe - não preciso citar nomes - são totalmente inofensivos perto do personagem do livro que resenho hoje.

Bernie Ecclestone.

"Dono" da Fórmula 1, personagem controverso e com práticas muito pouco recomendáveis para chegar onde chegou. Um dos homens mais ricos do mundo, estando facilmente na casa dos bilhões - apesar de um divórcio bastante custoso - e que já entrado nos oitenta anos de idade não faz a menor menção nem de se aposentar nem de dividir o poder absoluto.

O livro, escrito pelo jornalista Tom Bower, entrevistou o próprio Ecclestone e inúmeras personalidades ligadas à Fórmula 1, traçando um perfil bastante fiel do biografado. E arrasador.

A biografia se inicia desde o nascimento, passando pelos tempos da guerra onde o local onde morava foi atingido por bombas alemãs - embora sua casa não tenha sido atingida - e pela formação dada pela família.

Ecclestone pouco estudou, mas desde muito jovem demonstrou pendor para o comércio. Fez fama como comerciante de carros e motos usados em Londres desde tenra idade, sempre com tino para os negócios e uma máxima que seria seu mantra na vida: "eu tenho de ganhar sozinho".

Ele se envolveu com automobilismo por influência do pai, mas era um piloto abaixo do sofrível. Logo entendeu, contudo, que o esporte precisava ser organizado e a partir daí foi pouco a pouco construindo o império chamado "Fórmula 1". Império onde ele leva "a parte do leão" até hoje.

Também foi dono da equipe Brabham de F-1, conquistando dois títulos de pilotos com Nelson Piquet. Junto com Niki Lauda, são dos raros a levar vantagem sobre o dirigente em qualquer tipo de negociação - ambos foram pilotos da Brabham. Piquet, aliás, tem confirmada a sua fama de garanhão: até a secretária de Ecclestone ele "pegou".

O dirigente iniciou na F-1 como representante das equipes na negociação com os autódromos, assumindo tal tarefa por delegação dos outros chefes de equipe. Aos poucos, a comissão que ele levava sobre estas negociações foram aumentando e ele foi se transformando no homem forte da categoria.

Inegável que Ecclestone organizou e profissionalizou algo em origem bastante amador, mas a um preço muito alto: a fatia das receitas que ia para sua conta bancária era maior que a das equipes somadas, em média. Seu "pulo do gato" foi perceber que a televisão seria a grande mantenedora do esporte, e controlar a cessão destes direitos uma fonte insaciável de lucros. O dirigente conseguiu que lhe fossem repassados por valores ínfimos e montou toda uma estrutura a fim de fornecer e vender estas imagens.

O exemplar mostra também que Ecclestone não tinha amigos, não expressava emoções e era capaz de descartar as pessoas como marionetes ou resíduos se isso lhe trouxesse vantagens financeiras. Inclusive esposas: ele está no quarto casamento - com uma brasileira - e com exceção da croata Slavica ele as descartou quando lhe foi conveniente.

Slavica, a propósito, a única a dominar o dirigente, a ponto de bater nele. Trinta centímetros mais alta que Ecclestone, arrancou um acordo de divórcio bastante vantajoso quando da separação. Também ganha destaque no livro os ataques dados por ela em ocasiões absolutamente impróprias.

Para o amante do esporte é lamentável saber que a trapaça faz parte dele: Ecclestone diz que "o importante é não ser pego". Ficamos sabendo que carros como a Benetton de Schumacher em 1994, a Ferrari de Raikkonen em 2007 e a própria Brawn de 2009 estavam fora do regulamento, entre outros. Neste último caso o dirigente manobrou junto à FIA para que o difusor duplo, flagrantemente ilegal, fosse considerado dentro do regulamento.

FIA que, aliás, é um capítulo à parte nesta história: o exemplar descerra as relações de poder entre Ecclestone e a entidade, com ela sendo manipulada pelo dirigente a fim de maximizar seus ganhos. Este é um traço marcante da personalidade do dirigente: o que importa é ganhar dinheiro, não importa como.

Ganham destaque, também, as manobras envolvendo uma doação que Ecclestone fez ao governo de Tony Blair a fim de brecar a proibição da propaganda de tabaco nas escuderias. Isso gerou um grande escândalo,a ponto de um milhão de libras- valor da doação - passar a ser conhecido como "um Bernie".

Outra prova da "esperteza" são as diversas trocas de donos que a F-1 viveu, sempre com uma única característica em comum: Bernie saía mais rico de cada transação e continuava com o poder absoluto em suas mãos.

Também digno de nota são as relações entre os dirigentes da F-1, sempre muito tensas. E a postura da Ferrari de sempre se achar superior às outras escuderias.

Algumas revelações também são feitas, como o fato de que Jochen Rindt iria abandonar a F-1 ao final daquele 1970 onde ele acabaria se tornando o único campeão "post mortem" da F-1. Ou que Fernando Alonso chantageou Ron Dennis em 2007, pedindo para que deixasse Hamilton sem gasolina ou ele revelaria que a McLaren tivera acesso a segredos da Ferrari.

Alonso e Flavio Briatore, aliás, saem bem chamuscados no livro, que conta em detalhes o acidente de Nelsinho Piquet  em Cingapura e toda a conspiração envolvida.

Fico muito longe de esgotar os assuntos tratados aqui, mas é indispensável para quem gosta de Fórmula 1, até por revelar todo um lado de bastidores que nós fãs pouco conhecemos. E mostrar como o manda chuva da entidade é uma pessoa absolutamente aética, que só pensa em dinheiro e não hesita em fazer o que for pelo vil metal. Um filho da puta em caixa alta.

Na Livraria da Travessa, custa R$ 47. Vale a pena.

domingo, 8 de maio de 2011

Orun Ayé - "Primeiro de Maio e Suas Mortes"



Neste domingo de Dia das Mães, temos a coluna "Orun Ayé", do publicitário e compositor Aloísio Villar. O tema de hoje é uma comparação entre dois fúnebres acontecimentos e suas reações: as mortes de Ayrton Senna e de Osama Bin Laden.

O curioso é que a data marca o Dia do Trabalhador, feriado em quase todos os países do mundo. Tal data foi escolhida devido às mortes ocorridas em protestos de trabalhadores por melhores condições de trabalho em Chicago, Estados Unidos, em 1886; e posteriormente na França em 1891.

Nos dois casos a luta era pela jornada de oito horas de trabalho diário, ao contrário das desumanas dezesseis horas que vigoravam até então.

Vamos ao texto.

Primeiro de Maio e Suas Mortes

No último 1° de maio foi lembrado que era o 17° aniversário da morte de Ayrton Senna. Aqueles mais novos em idade não chegaram a conhecer o ídolo nacional e não tem idéia da comoção que foi sua morte. Eu sempre preferi o Nelson Piquet [N.doE.: eu também], mas torcia pelo Senna também. Ele representava o Brasil que deu certo, tinha garra, coragem, amor ao país e todos paravam para ver suas corridas. 

Naquele 1° de maio de 1994 o Brasil entrou em luto. 

Parecia que algum parente nosso tinha morrido. Nem na morte do presidente Tancredo Neves se viu tamanha comoção: eu ia pra rua e a conversa era só sobre o Senna, as pessoas choravam e se desesperavam como se um ente querido e próximo fosse. 

Por uma semana o Brasil acompanhou e chorou o velório e enterro de um herói nacional. Senna para os brasileiros está no patamar de um Tiradentes porque o Brasil é um país muito ligado a esportes. Dizem inclusive em tom crítico que o país só se une em copas do mundo de futebol e leva esportes mais a sério do que assuntos que seriam mais importantes para seu dia a dia. 

Nesse último 1° de maio ocorreu mais uma morte marcante, mas não para nós e sim para o povo americano. Os Estados Unidos, em um ataque ultra secreto, assassinaram Osama Bin Laden. Ele era um famoso terrorista que tinha em seu currículo extenso de terror o ataque as torres gêmeas de Nova York em 2001, vitimando cerca de três mil pessoas. Os americanos ao saberem do assassinato foram às ruas comemorar como se tivessem ganhado uma copa do mundo. 

Vocês notaram que nas duas situações citei copa do mundo, né? 

Pois bem: acho que isso reflete a diferença entre os dois povos. O brasileiro é antes de tudo um povo amistoso, acolhedor, solidário e tem no esporte sua tristeza - como no caso do Senna - como sua alegria. Meses depois da morte do ídolo o povo voltou as ruas pra festejar a conquista da copa, milhares de cariocas estavam de madrugada nas ruas do Rio de Janeiro celebrando os jogadores campeões que passavam em carro dos bombeiros. O mesmo que americanos fizeram para celebrar um assassinato perpetrado a sangue frio em alvo desarmado. 

O americano é diferente, talvez por ter passado por guerras ao longo de sua história. Para conseguir sua independência e unificar seu país o americano tem um espírito bélico, celebra suas guerras e seus heróis, vai para as ruas comemorar que um terrorista foi assassinado. 

Para um brasileiro foi chocante ver a festa devido a um assassinato em 1° de maio de 2011, como um americano talvez não entendesse o desespero de uma nação inteira por causa de um piloto de Fórmula 1. 

Povos tão próximos em sua geografia e tão distantes de personalidade. Para ser sincero eu prefiro ir para rua comemorar que meu time foi campeão do que porque alguém morreu. 

Até porque essa morte pode trazer conseqüências catastróficas para quem comemorou...

Orun Ayé!


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Esportistas e profissionalismo pela metade


Neste mês de dezembro, início da temporada de recesso das principais competições esportivas, a grande notícia da semana passada foi a divulgação de que o australiano Mark Webber, da Red Bull Racing e que disputou o título da temporada de Fórmula 1 até a última etapa disputou as quatro corridas finais com uma fratura no ombro, fruto de um tombo de mountain bike. Vale lembrar que o referido piloto já havia perdido parte da pré-temporada de 2009 devido a um acidente no citado esporte, onde fraturou a perna.

Nem vou falar do prejuízo em seu desempenho, até porque o jornalista Luis Fernando Ico, do Lance e do Grupo Bandeirantes, em seu blog faz um contraponto bastante interessante sobre isso. Mas quero abordar um assunto que não é somente do piloto australiano, mas é do futebol, dos esportes em geral e que é muito visto quando dos direitos, mas pouco observado no que toca aos deveres: o cuidado com o corpo, os cuidados com a imagem e estes contratos decorrentes disso.

Um contrato de um jogador de futebol ou de um piloto de Fórmula 1, por exemplo, possui uma série de restrições. Não pode andar de moto, eventos de patrocinadores que não os da equipe somente com autorização prévia, tem de estar em casa antes de um determinado horário... Há toda uma preocupação em preservar o desempenho físico do atleta e os direitos dos patrocinadores, que em última análise são quem pagam o investimento naquele atleta e esperam retorno de tal decisão orçamentária. A imagem de um esportista, de um vencedor, vale muito em termos de indução de vendas.

Obviamente, não é um mundo perfeito: basta ver que, volta e meia, vemos notícias de jogadores de futebol e outros esportistas envolvidos em escândalos ou simplesmente "sem saírem da noite". No futebol temos inúmeros exemplos, mas basta se lembrar das carraspanas - e dos vexames públicos - do ex-campeão de Fórmula 1 Kimi Raikkonen para percebermos que não é um fenômeno restrito ao ludopédio. Notem-se também os recorrentes escândalos envolvendo as ligas americanas, até com eventos envolvendo o porte de armas de fogo em vestiários e consumo de drogas.

Vale lembrar que, ao contrário do autor-editor deste blog ou do leitor, um atleta precisa de seu corpo em condições de rendimento máximo para poder desempenhar-se bem. Precisa dormir bem, evitar bebidas alcoólicas de forma constante, alimentação regrada, não consumir drogas e evitar comportamentos de risco. Estes requisitos preservam não somente o desempenho físico de um atleta como a sua imagem.


Imagine o leitor deste Ouro de Tolo, que tem uma jornada normal de trabalho, das oito da manhã às cinco da tarde. Teoricamente ele não depende de seu corpo para alcançar um bom rendimento - o fato de ter ou não uma pequena barriga não me faz mais ou menos produtivo em minhas funções, para as quais fui contratado (no caso, passei em um concurso público) e sou pago. Ainda assim, se chegamos ao trabalho "virados" após uma noite em uma boate ou ainda que não se divertindo, com uma criança muito pequena em casa - passei três anos nesta situação - o nosso rendimento no trabalho sempre cai um pouco, ainda que não perceptivo.

Então, vejamos um atleta que passou a noite na boate ou com várias mulheres, consome álcool e chega para treinar de manhã sem dormir direito e com a alimentação totalmente fora do razoável ? A queda no desempenho é brutal e impacta no objeto da contratação, que é a capacidade física e técnica do esportista.

Eu me recordo que em meus tempos de bateria na Portela - segundo semestre de 2003 e início de 2004 - eu tinha ensaios às quartas feiras até meia noite - vejam, meia noite - e chegava arrasado para trabalhar no dia seguinte. Obviamente, não tinha o mesmo preparo físico de um atleta, longe disso, mas pode ser tomado como um referencial.

O caso do futebol brasileiro é um pouco diferente. O salário de um jogador é dividido em duas partes, a primeira lançada na Carteira de Trabalho e a segunda - a maior delas - em uma pessoa jurídica a título de "direitos de imagem". Este estratagema é utilizado na maioria esmagadora das vezes para burlar o Fisco, diminuindo o recolhimento de impostos tanto para o clube quanto para o jogador.

Por isso, aqui no Brasil ainda não existe esta preocupação que ocorre em países da Europa e dos Estados Unidos a fim de preservar a imagem dos atletas e resguardar seu desempenho físico. Volta e meia vemos notícias na imprensa dando conta de confusões envolvendo atletas em boates e jogadores de futebol com desempenho descrescente receberem imediatamente o rótulo: "caíram na noite". É um dano duplo, porque impacta a imagem e diminui o rendimento físico, base de sua contraprestação de serviço.

Evidentemente, estes "contratos de imagem" acabam sendo pouquíssimo ativados, pois não há o cuidado de incluir cláusulas restritivas e, quando as há, é "para inglês ver". Empresas acabam não atrelando suas imagens a de atletas que deveriam ser exemplos e, frequentemente, estão nas páginas policiais e de fofocas. Causou frisson o caso de um famoso artilheiro de clube carioca (não é o Adriano, que fique claro) que segundo relatos mesmo machucado não saía de um bar de um famoso hotel da capital carioca e ainda se permitia sair com três mulheres na mesma noite. Obviamente, a recuperação de sua contusão levou muito mais tempo do que seria necessário.


Estas anomalias levam a outras, como a formação de "patrulhas de torcedores" pelos bares das grandes cidades atrás de jogadores de clubes em má-fase. No caso recente do Atlético Mineiro, ameaçado do rebaixamento no Campeonato Brasileiro, o próprio presidente do clube incentivou tal prática com a seguinte declaração: "Achei ótimo. Acho que os jogadores têm que se cuidar sim. O Atlético-MG não é brinquedo. E se eles tomarem um cacete na madrugada não vai fazer mal nenhum." Não era mais fácil ao referido presidente ter elaborado contratos que coibissem tal prática e multassem ou rescindissem em caso de aparição na vida noturna ? Ou seja, tem muita hipocrisia no relacionamento entre dirigentes e jogadores.

Um atleta profissional depende de seu corpo para produzir e a carreira é curta. Seus contratos devem prever e garantir que eles estejam sempre em totais e plenas condições físicas e de exploração de imagem. Restrições não são "cerceamento de direitos", mas sim contrapartida ao valor muitas vezes exorbitante pago a estes atletas. As empresas investidoras podem e devem ter retorno aos valores investidos.

Entretanto ainda assistimos a exemplos lamentáveis como o do jogador do Fluminense que deu entrevista dizendo "que vou pra noite sim e me garanto", ou a dupla de ex-atacantes do meu time que foi fotografada na noite carioca com traficantes de drogas. Entre outros casos, seria motivo para rescisão de contrato de imagem e redução ao valor consignado em carteira de trabalho. Mas no Brasil, infelizmente, e em outros lugares do mundo o que ocorrem são apenas os direitos. Na hora de se cumprirem os deveres sempre há uma tendência a estratégias de mitigá-los ou diminuí-los.


Até mesmo coisas simples como omitir os patrocinadores do clube durante entrevistas à televisão ou em premiações deve ser considerado. Ainda temos casos de atletas com patrocinadores pessoais concorrentes do clube que lhe paga os salários - isso não deveria ocorrer em hipótese alguma.

Voltando ao caso que abre este post, acredito que Mark Webber deveria ter sido demitido pela cúpula da Red Bull. Primeiro por ser reincidente e segundo por ter omitido aos seus chefes o que havia acontecido. Contudo, não foi o primeiro nem será o último caso de transgressão que será ignorado pelas regras contratuais.

Finalizo este texto, que não esgota o assunto - longe disso - chamando a atenção para o caso de quase escravidão em que vivem os integrantes de baterias de escolas de samba cariocas. São componentes não remunerados (à exceção dos integrantes da chamada "bateria show", que não chegam a 10% do contingente total) que muitas vezes ensaiam cinco, seis vezes por semana, muitas vezes até de madrugada. É algo análogo à escravidão e reflexo de um processo de profissionalização absolutamente anômalo vivido pelas escolas de samba carioca.

Mas este é tema para um outro post.

P.S. - O leitor ainda pode se inscrever na promoção das camisas autografadas do Flamengo. Basta clicar aqui e seguir as instruções.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sobretudo - É show !


Excepcionalmente na quarta feira (uma vez mais, culpa do editor), a coluna "Sobretudo", do publicitário Affonso Romero. Semana que vem as colunas de quarta voltarão à sua programação normal.

Hoje temos um apanhado cultural e esportivo dos últimos dias.

Sobretudo - É show!

Durante algum tempo - pouco tempo - eu trabalhei na companhia de um jovem empresário que era dublê de playboy e professor secundarista. Ele usava muito constantemente uma expressão monossilábica que tanto servia para ressaltar a excelência de algo quanto para conceder um simples elogio a um trabalho bem feito: “show!” 

- Fulano, que tal a nova namorada de Beltrano? 

- Show! 

- E este novo site que eu acabei de concluir? 

- Show! 

Nas últimas semanas, esta coluna que se chama Sobretudo exatamente por se propor a navegar por temas os mais diversos, bem que poderia ter se chamado “Sobre-um-só-tema”, dada a premência onipresente do assunto eleições. Hoje, vamos tentar dar um refresco e passar a temas mais leves. É que, em paralelo ao “dever cívico” e às “preocupações sérias da vida”, temos nos divertido um bocado com atividades que eu desejo compartilhar com você, amigo leitor. Vamos lá? 

Gershwin passeia no Ibirapuera – No sábado, 30 de outubro, véspera do segundo turno presidencial, fui com a Mara assistir à apresentação/concerto da Orquestra JazzSinfônica interpretando o fantástico George Gershwin. 

Uma das coisas que poderia justificar, por si só, um sujeito escolher morar numa cidade poluída e de trânsito caótico como São Paulo é que esta cidade também é hoje a capital cultural do Hemisfério Sul e casa de orquestras como a OSESP, a Jovem Tom Jobim e – a minha preferida – a JazzSinfônica. Cria da mente inquieta de gente como Arrigo Barnabé e Eduardo Gudin, a Orquestra foi adotada pelo Governo do Estado e tem o comando firme (mas nem por isso menos criativo e instigante) do maestro João Maurício Galindo, fazendo uma ponte entre a formação erudita e o repertório popular, principalmente as mais diversas vertentes do jazz. 

A JazzSinfônica já me fez chorar algumas vezes. Fiquei fora do chão na apresentação jazzy-bossanovista de Lenny Andrade, mas foi a parceria com o tangueiro Rodolfo Mederos, no dia dos namorados de 2009, que mais nos marcou: eu diria que foi o melhor espetáculo musical a que eu já assisti na vida. Ainda por cima, a residência oficial da orquestra é o Auditório do Ibirapuera, a obra-prima de Oscar Niemeyer em pleno Parque de mesmo nome, um lugar que já valeria uma visita em silêncio, mas que é perfeito para apresentações de boa música. 

No programa do dia 30, a orquestra começou com uma suíte de obras do compositor americano, um verdadeiro passeio por alguns dos principais temas de musicais de todos os tempos, sempre miscigenando influências eruditas e populares, com o tempero especial da música negra de raiz que originou o jazz e o blues. George Gershwin, um judeu branco de Nova York, foi justamente o compositor que construiu a ópera moderna norte-americana no século XX, dando dignidade e erudição à cultura musical negra. 

Seu momento mais especial foi a proto-pop-ópera Porgy and Bess (1935), tocada em forma de concerto pela JazzSinfônica, com a luxuosa participação de quatro incomparáveis cantores operísticos brasileiros, Ednéia de Oliveira (soprano), Edna de Oliveira (mezzo-soprano), Sebastião Teixeira (barítono) e Geílson dos Santos (tenor). Nem mil palavras poderiam explicar com precisão o que foi este concerto, mas duas palavras o ajudarão a entender um pouco: perfeito e inacreditável. 

Baseada no romance Porgy, de Du Bose Heyward, a ópera tem libreto de Ira Gershwin, irmão de George, e conta a história de uma fictícia comunidade afro-americana chamada Catfish Row, uma antiga casa-grande de fazenda sulista de frente para o mar, transformada em cortiço e que abriga personagens inesquecíveis, dentro os quais um deficiente físico (Porgy) que se apaixona por uma prostituta (Bess). 

A orquestra estava em ótima forma, conduzida pelo jovem maestro-auxiliar Carlos Prazeres e os cantores, todos premiados e consagrados nos palcos clássicos, uma atração à parte. 

Alguém colocou no YouTube imagens captadas amadoristicamente. Não dá a idéia da grandeza do espetáculo, mas vale para conferir um pequeno trecho inicial: http://www.youtube.com/watch?v=3ZYN_bpPzpc. [N. do E.: infelizmente, o autor do vídeo não permite a incorporação em outras páginas, por isso apenas o link.]

Saímos extasiados por tanta qualidade e sentimento. Já compramos os ingressos para a apresentação da orquestra este mês, uma homenagem a Tom Jobim, com o músico convidado Richard Galeano. A JazzSinfônica é show! 

A OSESP também não é fácil – O Ibirapuera é um excelente auditório, mas não é o melhor da cidade. Na antiga estação de trens da praça Júlio Prestes, fica a Sala São Paulo, considerada uma das melhores salas de concerto do mundo. Ela é casa da OSESP, a Sinfônica estadual. Há alguns meses, ela também nos encantou com uma obra de Gershwin, numa apresentação matutina dominical. Foi uma leitura de Rapshody in Blue, uma peça fundamental da música orquestral do século passado. Tenho uma versão da Filarmônica de Berlim em DVD e, sinceramente, a OSESP não fica nada a dever. É show! 

39 Degraus, Hitchcock vai ao teatro – Vimos também a adaptação teatral do filme Os 39 Degraus, de Alfred Hitchcock. O thriller policial se transforma numa rasgada comédia com Dan Stulback no papel do almofadinha norte-americano envolvido numa trama de espionagem. O elenco conta ainda com a atriz Fabiana Gugli e os excelentes Danton Mello e Henrique Stroeter que dão vida a mais de 30 personagens em cena. O clima é de farsa, com muitos cacos e a sensação permanente de que os atores estão se divertindo tanto quanto a platéia. A direção é de Alexandre Reineck. 

As montagens do texto em West London e na Broadway receberam prêmios, não sem muita justiça. A temporada paulista faz tanto sucesso que tem sessões de quinta a domingo, além de extras nos feriados e aos sábados, mas vai só até o final feste mês. Não perca, é show!


O vôlei feminino e a emoção – Pretendia acordar tarde neste último sábado, mas a Pandora, nossa Llasa Apso, queria seu desjejum, então acabei ligando a tevê logo cedo. Foi assim que vi, meio sem querer, a semifinal do Mundial Feminino de Vôlei entre Brasil e Japão, na casa das adversárias. Há muito tempo eu não vejo uma equipe de vôlei praticar um jogo tão empolgante quanto o dessa seleção japonesa. Rápidas, criativas, lideradas por uma levantadora extremamente talentosa, a Takeshita (1,59, baixinha para os padrões atuais, mesmo para uma levantadora – eleita a melhor jogadora do último mundial, em 2006) e por uma atacante de ponta jovem e promissora, a Saori (até aqui, a segunda maior pontuadora deste mundial), além de contarem com uma defesa incansável, daquelas que sempre acreditam em qualquer ponto, por mais improvável que seja a bola. 

Acordamos quando o jogo estava 0x1 em sets para o Japão, e o segundo set arrastava-se para ser decidido além dos 30 pontos: fechou 33 x 35. Com o 0x2 e o ginásio cheio, tudo parecia acabado. 

Só quem viu o que se seguiu pode avaliar o nível de emoção que tomou conta daquele ginásio nos três sets seguintes. Contando com força, equilíbrio, paciência, talento, garra, maior altura e experiência, o Brasil conseguiu virar o jogo aparentemente impossível e garantiu lugar na final contra a Rússia, ponto a ponto, em sets sempre apertados. 

Na manhã de domingo, um jogo também emocionante, mas de uma outra forma. Os sets alternaram a prevalência de uma e outra equipe e, ao final, a Rússia venceu por 2x3, tornando-se heptacampeã. Mas este time brasileiro é show!


F1 faz as contas e a esportividade sai ganhando – Outro show proporcionado pelo esporte foi a prova final da Fórmula 1 2010, transmitida diretamente de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Um circuito belíssimo, uma corrida vencida com méritos pelo alemão Vettel que sagrou-se o mais jovem campeão da história. 

O mais interessante foi saber que se a Red Bull Racing tivesse feito o chamado jogo de equipe na penúltima etapa, em Interlagos, o título teria caído nas mãos de Alonso, da Ferrari. Foi graças a manter até o fim a determinação de deixar nas mãos do talento de seus pilotos nas pistas a construção dos resultados que fez da equipe, além de campeã entre as equipes, a campeã entre os pilotos. E a armação da Ferrari, que priorizou Alonso em detrimento de Massa, foi punida pelos deuses do esporte. Show! [N. do E.: fiquei muito feliz com este resultado, porque o mau caratismo não pode vencer jamais, nem o crime.]


sábado, 6 de novembro de 2010

Algumas fotos em final de semana de GP Brasil


Neste domingo de Grande Prêmio do Brasil, vamos a algumas fotos que marcam a história dos quase quarenta anos da presença da maior categoria do automobilismo em terras brasileiras.

Vendo as fotos de Piquet, Emerson e Senna fico me perguntando o que levou Barrichello - hoje humilhado por seu novato companheiro de equipe na classificação - e Massa a adotarem papéis tão subservientes. Sinceramente, não entendo - apesar de saber da conta bancária recheada dos dois... Mas será que isto é tudo ?

Foto acima, a dobradinha Piquet e Senna em 1986.


Piquet em 1986;


Emerson Fittipaldi, com a Equipe Copersucar, em 1979;


Emerson novamente, em 1974;


Senna em sua estreia na Fórmula 1, 1984;


José Carlos Pace e sua Brabham em 1975, sua única vitória na Fórmula 1;


Keke Rosberg guiando o Fittipaldi-Ford em 1981;


Prost em 1985;

Finalizando, duas fotos de Spa Francorchamps, que não tem muito a ver com o post mas tem a ver com Fórmula 1:


Jacky Icky em 1970;


A curva Eau Rouge - que já foi tema de post aqui - em 1966;


domingo, 12 de setembro de 2010

O Troféu Órfão


Domingo, dia de lembranças. E de bons textos.

Reproduzo aqui texto do amigo Rodrigo Mattar lembrando que esta última semana completaram-se quarenta anos da morte do único campeão mundial de Fórmula 1 que não estava vivo para receber seu troféu: Jochen Rindt.

O texto foi publicado originalmente em seu excelente "A Mil Por Hora".

"40 anos sem Rindt: o único campeão “post-mortem”

Sim, eu sei. Foi no dia 5 de setembro que faz 40 anos que Jochen Rindt morreu. Mas e daí? No domingo passado, todas as atenções se voltaram para a trágica perda de Shoya Tomizawa durante a corrida da Moto2 em San Marino. Porém, não há como deixar de pagar tributo àquele que é até hoje o único campeão “post-mortem” da história da Fórmula 1 e um dos raros em qualquer competição automobilística. Que me recorde, outro que também foi campeão após falecer num acidente foi Paul Warwick, na Fórmula 3000 inglesa.

A trajetória de Rindt no automobilismo é digna de registro. A começar que, embora defendesse a Áustria, Rindt era alemão. Nasceu em Mainz, no dia 18 de setembro de 1942, quando a II Guerra Mundial já estava no auge. A primeira grande perda de Jochen foi ainda menino: seus pais morreram num bombardeio em Hamburgo e ele foi criado pelos avós em Graz, em território austríaco, livre da tirania nazista.

Em 1964, com apenas 22 anos de idade, estreou na Fórmula 1 ao mesmo tempo que despontava como um corredor de ponta na Fórmula 2. Andou em sua primeira corrida com um Brabham BT’11 de motor BRM V8, alinhado por Rob Walker, no antigo circuito de Zeltweg, abandonando em razão de problemas na direção.

No ano seguinte, assinou um contrato com a Cooper para disputar provas da categoria máxima com esta marca, enquanto na F-2 ainda mantinha a parceria com Jack Brabham a bordo dos notáveis Brabham-Honda da categoria de acesso. Com a Cooper, Rindt permaneceu por três temporadas. Na primeira, fez seus primeiros pontos na Fórmula 1 com um 4º lugar na Alemanha (Nürburgring) e um sexto na Cidade do México. Naquele mesmo ano de 1965, Rindt venceu em dupla com Masten Gregory a bordo de uma Ferrari 250 LM as tradicionalíssimas 24 horas de Le Mans.


O segundo ano de contrato entre Rindt e a Cooper foi muito positivo, apesar do conjunto meio pesadão formado pelo chassis T81 do construtor britãnico no qual foi acoplado o velho motor Maserati V12 dos anos 50, potente e beberrão. Apesar das dificuldades, o austríaco brilhou: fez 24 pontos (22 válidos) e três pódios, com dois segundos lugares na Bélgica e nos Estados Unidos, além de um 3º posto na Alemanha.

Em 67,  já com Bernie Ecclestone como empresário, Jochen não foi além de seis pontos e um 13º lugar no campeonato de Fórmula 1, numa temporada muito irregular. O relacionamento com a equipe já dava evidentes sinais de desgaste e Rindt, motivado pela parceria com Jack Brabham na Fórmula 2, assinou para a temporada seguinte também na F-1.

A decisão parecia perfeita porque, afinal de contas, a Brabham foi a equipe mais bem-sucedida no início da era dos motores de 3 litros de capacidade cúbica, com títulos do próprio Jack em 1966 e do neozelandês Denny Hulme, em 1967, que saíra para se juntar a Bruce McLaren em sua recém-criada escuderia. Mas os motores Repco V8 na nova versão revelaram-se um malogro, com constantes falhas mecânicas. Rindt fez apenas dois pódios, com dois terceiros lugares na África do Sul e na Alemanha e fechou o campeonato num distante 12º lugar.
 
O austríaco gostava de desafios e para 1969 ele aceitou um daqueles bem encarniçados: suceder Jim Clark como piloto da Lotus 49, o revolucionário projeto de Colin Chapman que integrava o chassi de sua criação ao motor Ford Cosworth V8 desenvolvido por Kevin Duckworth e Mike Costin. A temporada não começou bem: Jochen demoliu seu carro contra uma barreira de proteção quando o aerofólio traseiro de seu carro quebrou a mais de 220 km/h, provocando fratura de crânio no piloto, que não correu em Mônaco e voltou na prova seguinte em Zandvoort, na Holanda.

Na segunda metade do campeonato, Rindt e a Lotus melhoraram positivamente seu desempenho. Após um injusto 4º lugar na Inglaterra, quando brigou de igual pra igual com Jackie Stewart, foi segundo em Monza, a centésimos do escocês voador. Chegou ainda em 3º no Canadá e no GP dos Estados Unidos, em Watkins Glen, veio a consagração. Depois de uma corrida impecável, o piloto austríaco, então com 27 anos, venceu pela primeira vez na Fórmula 1.

Em 1970, a Lotus estava pronta para retomar a hegemonia perdida com a morte de Clark e com o acidente de Graham Hill, sofrido um ano antes, onde o veterano bicampeão mundial quebrou as pernas numa batida. E Rindt, como piloto número 1 da equipe na Fórmula 1 e também na Fórmula 2, era a esperança de Colin Chapman para recolocar o Gold Leaf Team Lotus no caminho natural das vitórias.

A primeira do ano veio ainda com o velho modelo 49C, graças à falta de combustível no carro de Jack Brabham na última volta do GP de Mônaco. E quando o modelo 72C finalmente ficou pronto, a sinergia entre ele e Rindt foi perfeita: quatro vitórias de forma consecutiva (Holanda, França, Inglaterra e Alemanha), somadas com o triunfo de Mônaco, o deixaram com 45 pontos e líder isolado do campeonato. Nem a quebra acontecida no GP da Áustria, logo na 22ª volta, abalou a moral de Rindt diante dos seus compatriotas.


O GP da Itália, décimo do campeonato, seria decisivo para as pretensões de Rindt e ele estava preparado para uma dura batalha contra Jacky Ickx, Clay Regazzoni e Ignazio Giunti, a trinca da Ferrari que tanto lhe dera trabalho em Österreichring na corrida anterior. Mas o fim de semana não começou bem para a Lotus: seu novo companheiro de equipe naquela época, o brasileiro Emerson Fittpaldi, tentava participar de sua 4ª corrida na Fórmula 1 e na ânsia de mostrar serviço, distraiu-se numa freada, bateu na traseira da Ferrari de Giunti e decolou com seu carro em direção às árvores da curva Parabólica. Detalhe: com o carro que seria de Rindt naquele fim de semana.

Colin Chapman determinou a troca de carro e Emerson assim cedeu seu chassi ao companheiro de equipe, que estava inscrito para aquela prova com o número #22. O brasileiro tinha o número #26 e foi para a pista com o chassi que seria do austríaco para a prova de classificação, no dia 5 de setembro.

Mas a tragédia, presente na vida de Rindt desde a infância, se fez presente naquela tarde. O piloto freou forte para tomar a Parabólica saindo da reta oposta em direção à reta dos boxes e tribunas, quando alguma coisa quebrou na Lotus e o líder do campeonato bateu violentamente na barreira de proteção. Seu carro saiu rodando pela areia, com o piloto inerte, a suspensão dianteira demolida e as pernas de Rindt para fora do cockpit.

Ele foi levado às pressas para um hospital, mas os ferimentos extensos tornaram impossível qualquer tentativa de recuperação. Aos 28 anos, Jochen Rindt, líder absoluto do Mundial de Fórmula 1 de 1970, estava morto. A Lotus não disputou a corrida, vencida por Clay Regazzoni com a Ferrari e também não foi ao Canadá, onde a vitória foi de Jacky Ickx.

Subitamente sem seu principal piloto, Colin Chapman tomou uma arriscada decisão. Levou para o GP dos EUA em Watkins Glen o brasileiro Emerson Fittipaldi, guindado à condição de piloto número um e o sueco Reine Wisell, sem nenhuma experiência prévia na categoria, que brilhara na Fórmula 3 europeia, para assumir o volante do segundo carro. E para surpresa geral, Emerson não só venceu a corrida, como ofertou a Rindt o inédito título “post-mortem”, até hoje um feito jamais alcançado na história da Fórmula 1.

Rindt morreu sem conhecer a maior glória de sua carreira. Mas os fãs austríacos e o mundo do automobilismo não esquecem de sua passagem pelo esporte, com demonstrações de garra, muita velocidade e um controle fantástico dos carros que guiava. Por isso, deixou muita saudade."

(Fotos: Blog do Ico)