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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Sabinadas - "A temporada de boatos e o jornalismo esportivo"


Nesta sexta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista esportivo Fred Sabino, toca em um ponto importante: esta “temporada de boatos” das férias futebolísticas e a forma como a imprensa trata o tema.

Eu, pessoalmente, não ligo muito para esta temporada. Mas o post é um guia de referência para se entender o que é notícia e o que é especulação ou puro chute. Lembro aos leitores que o colunista não trabalha mais no jornal citado no texto.

A temporada de boatos e o jornalismo esportivo

Terminado o Brasileirão, começa uma nova temporada: a das especulações de transações entre os times até o começo dos Estaduais.

Por incrível que pareça, ao contrário do que se pode pensar, tais especulações vendem - e vendem muito - em sites e jornais esportivos brasileiros. Muitas vezes mais pela expectativa que um possível reforço leva ao torcedor que pela veracidade da informação.

Evidentemente há aquelas notícias de negociações com embasamento, em que existem realmente tratativas e o material publicado condiz com o que, de fato, ocorre. Mas, por outro lado, há também notícias falsas: seja por apuração insuficiente por parte do repórter, por "chute" do jornalista em busca de um furo (é o famoso "se colar, colou"), por preocupação do veículo em "vender" de qualquer forma ou até por aquelas notícias "plantadas" por dirigentes.

Posso relatar dois exemplos altamente positivos que vi de perto quando trabalhava no Diário LANCE!: as contratações de Vagner Love pelo Flamengo em 2010 e a de Seedorf pelo Botafogo em 2012.

Em ambos os casos, vi de perto os repórteres apurando exaustivamente as informações e trocando ideias com os editores que, entre eles, também discutiam a validade de se publicar determinada notícia nova sobre a negociação até que outras fontes fossem ouvidas.

Nos dois casos, o LANCE! publicou primeiro - e com correção - a notícia da negociação e também da contratação. As matérias saíram sempre com muitas informações de bastidores, como tempo de contrato, valores, entre outras coisas, e não simplesmente uma notícia vazia, sem embasamento.

Mas infelizmente há casos em que tais premissas são deixadas de lado.

Por exemplo, nos anos 90 um jornal carioca - sinceramente não me lembro qual - estampou em letras garrafais: "BATISTUTA NO FLAMENGO". Na época, a internet ainda engatinhava e eu nem engatinhava enquanto jornalista, já que comecei a faculdade no ano seguinte. Inocentemente comprei o jornal e a matéria quase não tinha informações. Então, ou era "chute", ou notícia plantada ou má apuração. É claro que Batistuta (foto) nunca jogou no Mengão.

Com o passar dos anos, e da profissão, passei a saber filtrar melhor aqueles veículos (jornais, TVs, rádios, sites, etc) que passavam mais informações com correção e, principalmente, comparar o tipo de texto de uma notícia que se revelou verdadeira com uma que se mostrou equivocada.

Por exemplo, leitor: desconfie quando um clube X estiver numa crise e, de repente, surgir uma notícia de uma negociação bombástica. Normalmente os dirigentes plantam essas notícias para desviar o foco dos problemas da equipe naquele momento.

Desconfie também quando um clube Y estiver com um elenco péssimo e aparecer a informação de que o craque Z está a caminho. Um craque nunca negocia com um clube de elenco ruim; enquanto para o dirigente é importante dar uma satisfação à torcida para arrefecer as cobranças.

Preste atenção também no histórico do repórter. Caso o jornalista seja conhecido pelo excessivo número de "barrigas" (quando o jornalista publica ou divulga uma informação errada), desconfie quando ele anunciar um grande troca-troca entre clubes.

E, principalmente: desconfie quando as matérias não houver muitas informações de bastidores ou quando o contexto publicado for esquisito demais.

Existem ainda os casos em que a negociação começa de forma verdadeira, mas a transação não se confirma por N motivos. Um exemplo foi quando o meia Márcio Mossoró se destacou no Paulista de Jundiaí. Na semana em que o clube paulista bateu o Fluminense na decisão da Copa do Brasil, Flamengo e Vasco efetivamente negociavam com o jogador.

Mas aí alguns dirigentes de ambos os clubes começaram a passar informações truncadas e tentar tirar partido disso na negociação. No fim, ninguém contratou o jogador.

[N.do.E.: o atleta em questão foi contratado posteriormente pelo Internacional de Porto Alegre. Hoje joga em Portugal.]

Ao longo dos últimos anos, com sites, blogs e redes sociais, a quantidade de notícias imprecisas cresceu ainda mais, devido à necessidade de se ‘subir’ logo alguma matéria antes do concorrente. Como é possível ir editando as matérias publicadas, muitas vezes se acrescenta ou corrige o texto sem que o leitor seja informado dos erros.

Eu, sinceramente, conforme fui ganhando experiência no jornalismo, cada vez menos passei a ler o noticiário de futebol nessa entressafra. Prefiro esperar as confirmações e o jogador vestir a camisa.

Mas para você, leitor: recomendo acompanhar bem de perto essa fase para aprender a separar o joio do trigo a partir de agora.

Flamengo em novas mãos

Na semana em que os rubro-negros (eu inclusive) comemoram o terceiro aniversário do hexacampeonato, Eduardo Bandeira de Mello derrotou Patricia Amorim na eleição para o triênio vindouro.

Minha avaliação sobre gestão Patricia é bem simples. Houve avanços inegáveis na sede social e no centro de treinamento, mas, nas questões relativas ao futebol, o desastre só não foi de 100% porque o Mais Querido não foi rebaixado no Brasileirão. Nunca o Flamengo foi tão achincalhado e motivo de chacota como nesses três anos, pela incompetência dessa diretoria.

Fui sócio do clube por duas décadas, mas, por compromissos profissionais e, principalmente, por estar morando em São Paulo nos últimos anos não acompanhei de perto o processo eleitoral como em outras ocasiões.

Diante disso, só posso dizer o seguinte: espero que a Chapa Azul, vencedora no pleito após o apoio de ícones como Zico e Júnior, retome a tradição democrática do clube e seja 100% transparente, além de cumprir as (inúmeras) promessas de campanha, principalmente a da ruptura com os atuais conceitos de gestão.

Torço muito pelo sucesso de Eduardo Bandeira de Mello e seus parceiros. O sucesso deles nessa jornada será o sucesso de um dos amores da minha vida.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Flamengo: os desafios do novo Presidente


Após uma campanha bastante acalorada – e que me rendeu pessoalmente alguns dissabores, desafetos e antipatias – eis que Eduardo Bandeira de Mello (foto), da Chapa Azul, foi eleito o novo presidente do Flamengo na noite de ontem.

O objetivo deste post é tentar elencar os desafios que a nova diretoria terá nos próximos três anos, bem como registrar algumas impressões de quem acompanhou de perto o processo e teve acesso a algumas informações de bastidores.

Uma primeira coisa a ser dita é que apesar da eleição de Bandeira de Mello, o poder estará concentrado nas mãos de duas pessoas: Luis Eduardo Baptista (o “BAP”), diretor de marketing (e presidente da SKY) e o gestor profissional Wallim Vasconcelos. Bandeira de Mello somente foi o candidato porque os dois citados se tornaram inelegíveis durante o processo eleitoral – BAP já o era antecipadamente.

Apesar das afirmações em contrário, parece claro que a gestão será ainda sob o velho modelo, com alguma profissionalização em alguns setores – o que já seria grande avanço. O vice presidente eleito Walter D’Agostino é da “velha turma” e alguma composição com lideranças políticas teve e terá de ser feita – vale lembrar o apoio de ex-presidentes como Kleber Leite e Márcio Braga à chapa.

Algo que a diretoria eleita terá de lidar é com a expectativa da torcida por resultados rápidos – e revolucionários. Quem acompanhou a campanha (especialmente nas redes sociais) viu um messianismo incontrolável, com patrulhamento ideológico e altíssima expectativa. Paralelamente toda uma curva de aprendizado terá de ser realizada, pois os eleitos não possuem experiência anterior em um clube de futebol.

Em tempo: pessoalmente, não acredito em “salvadores da pátria” e coisas correlatas. Acredito em trabalho duro e, o mais importante: dentro das regras estabelecidas.

Além disso, apesar do discurso de que “o Flamengo tem de trazer a torcida para a sua casa”, por tudo que acompanhei durante o processo não acredito que o clube implemente um projeto de sócio torcedor com direito a voto. Algo nesta linha, se houver, será apenas algo como programas anteriores, talvez com facilidades para compra de ingressos – e olhe lá.

Também por tudo que houve durante a campanha – quem expressava ressalvas ou críticas era severamente patrulhado, a ponto de aqui mesmo terem vindo me xingar em mais de uma ocasião – acredito que haverá alguma tentativa de se calar críticos e mesmo restrições ao trabalho da imprensa. Não me surpreenderia com tentativas de expulsão em massa de opositores e processos judiciais a críticos da gestão.

Uma coisa a meu ver é certa: não deverá ser uma gestão muito “democrática”, no sentido de se ouvir críticas ou demandas de sócios, stakeholders e torcida. Espero sinceramente estar errado nesta avaliação.

Deve-se observar também qual será a atitude da diretoria eleita em relação às torcidas organizadas. Embora a chapa tenha sido apoiada por praticamente todas as principais torcidas, acredito que haja um distanciamento da diretoria eleita às TOs, inclusive com desvinculação total do clube em relação a estes torcedores. Mas neste caso específico, na teoria a prática é outra: então teremos de aguardar.

Outra questão que a diretoria eleita terá de lidar são com os conflitos de interesse evidentes que fatalmente ocorrerão entre o clube e as empresas dos executivos integrantes da diretoria. Não vi em nenhum lugar referências ao modelo de governança que será adotado, de modo que não se sabe o que ocorrerá quando estes interesses conflitarem.

Um desafio a ser enfrentado é a questão da dívida. Houve crescimento indubitável nos últimos três anos e mesmo a formação de um “comitê de renegociação” talvez não seja suficiente para se alcançar uma solução sustentável e com resolução a curto e médios prazos. Além disso, há pendências de salários, contas de concessionárias e outras dívidas de curto prazo a serem equacionadas rapidamente.

Sobre o time de futebol, este precisa de uma reformulação radical. Talvez para o Estadual valesse a pena mesclar os garotos com dois ou três mais experientes a fim de se ganhar tempo e permitir a montagem de uma equipe forte para o Campeonato Brasileiro, maior objetivo do ano.

O futebol precisa ser rapidamente reformulado e o caminho híbrido que deverá ser tomado pela nova diretoria precisará ter uma calibração eficiente. Digo híbrido porque a plataforma de campanha promete profissionalização total, mas em termos de governança ainda haverá subordinação ao Diretor Amador. Isso foi tentado outras vezes e não deu muito certo.

Mais um desafio que a nova diretoria terá de enfrentar é o estádio a ser utilizado pelo clube. A plataforma indica a construção de uma nova arena para 50 mil torcedores e a não participação no Maracanã nos moldes em que foi colocada pelo governo do Estado a concessão de uso. Vale lembrar que o contrato para o uso do Engenhão, que vence dia 31 próximo, não foi renovado, o que significa que há um problema premente a resolver – onde jogar o Campeonato Estadual e o início do Brasileirão?

Tarefa hercúlea, destarte, é reestruturar o marketing do clube, que passou 2012 inteiro sem um patrocinador master e ainda adquiriu a fama de não respeitar os contratos que assume – haja visto o recente distrato com a Olympikus. Pelo menos o indicado para empreender este trabalho de reconstrução é o respeitado e competente João Henrique Areias, em quem confio.

Não podem ser esquecidos, também, a sede social e os esportes olímpicos. Carros chefes da administração anterior, demonstraram que carreiam um número expressivo de votos e não podem ficar esquecidos pela diretoria que assume.

Patrimonialmente o clube precisa completar o processo de cessão do prédio do Morro da Viúva (no bairro do Flamengo), que será transformado em hotel. Além de encontrar uma destinação para o casarão de São Conrado, utilizado antigamente como concentração do elenco profissional e hoje desativado.

Encerro esperando que a diretoria eleita cumpra os compromissos assumidos em campanha e desejando sorte na tarefa de devolver ao “Mais Querido” seu lugar de protagonismo no futebol brasileiro. O mercado está mudando, o bonde da História está passando e não podemos perder nosso papel de destaque.

Saudações rubro negras.

(Foto: Extra)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Bissexta - "Eleições no Flamengo – um novo tempo"



Nesta quarta feira, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, volta a falar das próximas eleições a acontecer no Flamengo, dia 03 de dezembro.

Em tempo: venho sendo instado a declarar meu candidato preferido no pleito. Embora não ache que meu apoio ou não tenha a menor importância – até porque sou apenas um simples torcedor – informo que ainda me encontro indeciso. Se até lá me decidir informarei aqui.

Passemos ao post.

Eleições no Flamengo – um novo tempo

Estive na Gávea no último sábado, inteiramente dominada pelo ambiente eleitoral. Eu venho falando e escrevendo sobre a eleição faz tempos e estive presente em vários eventos. Todavia, ainda me faltava estar presente no coração do processo, que é o corpo-a-corpo no clube.

Bom, a Gávea respira a eleição, mas não exatamente como se imagina que seja.

Primeiro, a cordialidade. Não há esse clima de guerra declarada que se vê nas redes sociais. O quartel general das campanhas se concentra no bar das piscinas e ali ficam todos misturados. É comum ver militantes de uma chapa conversando com os de outra, de forma muito amistosa. Candidatos também: conversam longamente uns com os outros, em clima de paz. Mesmo figuras, digamos, polêmicas, como Capitão Léo, passam despercebidas, trocando cumprimentos apenas.

Patricia circula com absoluta tranquilidade. Como o clube estava cheio de gente como eu, que foi lá para participar da cerimônia anual de diplomação das Embaixadas e que ocorre próximo ao aniversário do Flamengo, muitos representantes das Embaixadas estavam ali pela primeira vez,  um tanto deslumbrados em pisar no Templo Sagrado. Estes pediam autógrafos e tiravam fotos com a Presidenta. Pode parecer estranho a muitos encontrar gente que ainda se emociona com a Patricia, mas essa é uma realidade concreta: ela é querida por uma parcela da Nação.

Eu, que a processei na Justiça e não a via desde então, estava curioso para saber como seria a reação dela, mas Patricia agiu como sempre: foi gentil e me cumprimentou educadamente. Contudo, rapidamente saiu da mesa onde eu estava para seguir seu périplo em caça aos eleitores, sem me dar a chance de alongar a conversa.

Como eu suspeitava, a correlação de forças internamente não é exatamente igual ao que se imagina do lado de fora. A supremacia da Chapa Azul não é tão nítida. E uma chapa que pouco se presta atenção, a chapa do Jorge Rodrigues, tem uma presença marcante.

A maioria dos que vestiam a camisa rosa de Jorge era de pessoas mais velhas, sócios do clube de verdade: não cabos eleitorais contratados. O ex-presidente George Helal, que muita gente até se esquece dele - mas é um grande eleitor interno, sentou-se tranquilamente em uma mesa com a camisa do Jorge Rodrigues e logo muitos amigos vieram se juntar a ele. Ele ali, sentado, sozinho, tomando água mineral e conversando, tem mais votos que um batalhão de gente que se acha influente.

Há suspeitas que Jorge e Patricia possam se aliar, afinal faz pouco tempo estavam juntos. Se isso acontecer, o jogo passa a ser outro.

Outra hipótese possível é uma aliança das demais chapas oposicionistas, sem a participação da favorita Chapa Azul. Isso ocorrendo, a eleição chegaria muito embolada na reta final.

Mas eu não acredito em nada disso.

Acredito que teremos todas essas chapas na disputa e menos eleitores do que em 2009, quando a votação se deu em clima de euforia, no dia seguinte ao Hexa. Agora, com o Flamengo praticamente em férias e a Chapa Azul despontando como virtualmente eleita, a tendência é que menos gente se anime a ir até o clube votar em uma disputa que se diz decidida (ainda que eu não aposte que esteja).

O que eu mais gostei, entretanto, não foi nada disso que comentei até agora. Como é notório, a política rubro-negra é dominada por vetustos senhores, onde ser grisalho ou calvo parece ser a regra – e Patricia, mulher e muito mais nova, é a exceção.

Graças a essa característica, se acredita que há um abismo entre a Nação e os sócios do clube; bem como que a política interna é dominada por caciques e seus feudos, que se enfrentam a cada três anos em uma luta fratricida.

Pode ser verdade, pode ser que AINDA seja verdade, mas é algo em franca extinção. A política do Flamengo está claramente em mutação, talvez como tenha ocorrido aos tempos da FAF de Márcio Braga, que trouxe ao clube gente então mais jovem, que nunca havia passado por lá - e que depois se estabeleceram como as lideranças que até hoje ainda dão as cartas na Gávea.

A maior dessas transformações, por certo, está por vir quando da mudança estatutária. Mais cedo ou mais tarde o clube há de abrir as portas para um programa de sócio torcedor, com direito a voto. E nessa hora, fazer política nos círculos de discussão rubro-negros, nas redes sociais e saber se comunicar com uma nova geração de flamenguistas vai ser muito mais importante que ficar conversando à beira da piscina.

A eleição desse ano, que não foi exatamente assim, plantou as sementes para os futuros líderes desse processo. Gente que transita entre o público da Gávea e a Nação que está muito além do charmoso quarteirão do enclave entre a Lagoa , o Leblon e o bairro da Gávea.

Tiago Cordeiro, JEFF, Vivi Mariano, Tulio Rodrigues, Henrin, André Monnerat, Sandro Rilho, Rafael Strauch, Renato Croce e vários outros que estão por aí (e que eu não cito nominalmente porque só escolhi os amigos, deixando de fora, injustamente, os que não conheço e mais injustamente, os amigos que esqueci), se não desistirem, serão as pessoas que em 5 ou 10 anos ocuparão papel de destaque nos temas da Gávea. Estes amigos tem em comum o fato de não terem herdado o título de algum parente, não serem filhos de conselheiros, não terem nadado na piscina do clube e terem pouco tempo de atuação nas demandas políticas.

Em paralelo, o crescimento do projeto das Embaixadas, do qual eu tenho orgulho de participar, começa a estreitar os laços de rubro-negros distantes e constrói lideranças regionais igualmente preocupadas com a necessidade de modernizar a gestão do clube.

Tudo isso somado forma a vanguarda da Nação, que começa a dar as caras além de meramente torcer nas arquibancadas. É possível ter esperanças com um novo Flamengo que ameaça nascer, dessa vez não com gente que reuniu para praticar esportes, mas com gente que dialoga a partir do saudável – e nem sempre exercido – hábito de pensar.

(Foro: Uol)

domingo, 18 de novembro de 2012

Orun Ayé - "Eu teria um desgosto profundo"



Neste domingo, a coluna Orun Ayé, do compositor Aloísio Villar, fala sobre o aniversário do Flamengo, completado no último dia 15.

Eu teria um desgosto profundo

Em agosto fiz uma coluna, que surpreendeu muita gente, falando do aniversário do Vasco. Então nada mais justo que nessa semana fale do meu clube do coração.

É um dos primeiros amores da minha vida e um dos maiores também. Maior motivo de choro de minha existência até hoje: choros de alegria, emoção porque sou uma pessoa que raramente chora de tristeza e que nos últimos tempos tem maltratado muito meu coração e esfriado meu sentimento. Diminuído não, porque esse continua intenso.

Na última quinta o Clube de Regatas do Flamengo fez 117 anos. Não simplesmente um clube de futebol.

O Flamengo é uma força da natureza. Ele troveja, muda o sistema de rotação da Terra, é motivo de catarse. Nelson Rodrigues já falou sobre essas coisas muito bem, mas ele mesmo eu acho que não consegue explicar o sentimento do rubro-negro pelo Flamengo. Não existem palavras pra definir, não foram inventadas essas palavras.  

O Flamengo tem mais de trinta e cinco milhões de fiéis, essa quantidade é maior que a de muitos países e religiões. O Flamengo é o nosso país, nossa religião - sendo comprovado na expressão “Nação rubro-negra”. Eu já ouvi uma expressão que diz “pelo Brasil a gente morre, pelo Flamengo a gente mata”.

Expressão exagerada, mas que mostra esse amor.

Um amor democrático que une pobres, riscos, velhos, jovens, homens, mulheres, que rompe as fronteiras do Rio de Janeiro e cria torcedores apaixonados por todo o Brasil e o mundo.  O Flamengo não tem fronteiras, ele é universal.

O Flamengo sempre esteve presente em minha vida. No começo dos anos 80, muito criança, já acompanhava as reuniões de família para os jogos do clube. Lembro bem da final do Mundial de Clubes (13 de dezembro de 1981), quando nos reunimos na casa da cunhada de meu tio Junior na zona sul do Rio.

Tinha cinco anos, mas me lembro bem da movimentação, da sala cheia, fogos, buzinaço e a vibração com a conquista rubro-negra – até hoje ainda inédita no futebol carioca.

Em 1983 acompanhei por conta própria, apenas meu interesse, o primeiro jogo do Flamengo. Na época era mais difícil transmissão televisiva de futebol e acompanhei pela rádio Nacional o jogo Flamengo x Santos pela final do campeonato brasileiro de 1983.

Naquela época eu tinha decidido torcer contra o Flamengo sob a alegação de que ele só vencia e isso enjoava. A velha mania de torcer pelo mais fraco.

[N.do.E.: o colunista deve estar feliz nos últimos tempos (risos)]

O Santos vencera a primeira partida por 2x1 e jogava pelo empate a partida de volta no Maracanã. Nem deu tempo do clube santista se empolgar. Zico fez o primeiro gol logo no primeiro minuto e no fim do jogo uma situação curiosa que me intrigou na infância.

Antes do terceiro gol marcado por Adílio o “garotinho” José Carlos Araújo que fez a narração disse “vai sair o terceiro gol do Flamengo”. Fiquei anos tentando descobrir como ele sabia que seria gol.

Enfim, o gol saiu e o Flamengo foi campeão. Esta partida e o Flamengo 3 x 2 Atlético Mineiro - brasileiro de 1980 - se transformaram nos dois jogos da história do futebol que eu queria ter visto.

No ano seguinte me tornei oficialmente torcedor do Flamengo - para nunca mais deixar de ser – em ma derrota: 4 x 1 pro Corinthians no brasileiro de 1984, jogo que nos eliminou.

Nesse ano também ocorreu meu primeiro choro por causa do Flamengo, o primeiro e acredito único até hoje numa derrota e que mesmo assim minha mãe e avó sempre falavam que eu era fanático pelo clube a ponto de chorar quando perdia. Foi no 0x0 com o Grêmio no Pacaembu após 120 minutos, que eliminou o clube da Libertadores.

Choros de alegria foram muitos. A conquista do estadual de 1986 me marcou por ser o primeiro título que vi do Flamengo como torcedor fanático. Outros jogos especialmente me marcaram, como a semifinal do brasileiro de 1987 quando tínhamos um timaço que venceu outros timaços; campeonato em que Zico teve que tomar infiltração para jogar e que alguns idiotas teimam em tentar nos tirar.

O Atlético tinha um super time e chegou invicto à semifinal. O Flamengo venceu por 1x0 no Maracanã, gol de Bebeto [N.do.E.: eu estava no Maracanã] e foi com a vantagem do empate para o jogo da volta no Mineirão.

Abriu com facilidade 2x0, o Galo teve um jogador expulso e mesmo assim conseguiu o empate. Fiquei com medo e parei de ver o jogo, indo para o quarto. De lá ouvi gritos da minha sala e minha mãe correu para me contar que saíra gol do Flamengo. Corri e ainda vi a confusão porque o Renato Gaúcho xingou o Telê após o gol.

Abre aspas: só um nerd, um molequinho que não conhece a história do Flamengo pode xingar o Renato. O que ele fez com a camisa do clube foi monstruoso.

Foi para mim a maior vitória que vi do Flamengo, como a derrota mais doída foi o Fla x Flu do gol de barriga em 1995 - com gol do mesmo Renato.

Tive bons e maus momentos torcendo pelo Flamengo, como torcedores de todos os times tiveram.

Meu último momento sublime com o clube foi na conquista do título brasileiro de 2009, comandados por Adriano e Petkovic. Eram 17 anos sem títulos brasileiros e o fim do jogo me fez voltar a chorar lágrimas rubro-negras. A diferença é que em vez da minha mãe era a Bia com poucos meses de idade que me olhava sem nada entender.

E ela será rubro-negra também, como eu sou, como minha mãe foi, meu avô. O Flamengo é imortal: está enraizado na minha família, em muitas famílias e no sorriso desdentado do povo brasileiro. Que é chamado de favelado, mulambo por outros torcedores - mas tem orgulho disso.

O Flamengo é favela: é o clube do cara que acorda cinco da manhã e pega três ônibus, trem para chegar ao serviço, que recebe um salário de fome que mal dá pra sustentar sua família. Mas esquece todas as mazelas do mundo, o tanto que a vida lhe maltrata quando vê aqueles homens com a camisa preta e vermelha entrar no gramado. No dia que o jogador do Flamengo, que estiver com aquela camisa, tiver a noção do que ele representa o Flamengo será invencível.

Também é o clube dos ricos, de gente como Roberto Marinho. Uma vez, irritado, ligou para a Rede Globo perguntando porque o jogo do Flamengo não estava sendo transmitido. No jogo seguinte, para não tomar outra bronca do chefe passaram o jogo, mas apenas para sua televisão - e ele pensou que fosse para todo Brasil.

[N.do.E.: o curioso é que o perfil dos sócios e dirigentes do clube é MUITO elitizado.]

O Flamengo é o clube dos grandes ídolos.

Domingos da Guia, Leônidas, Valido, Rubens, Dequinha, Pavão, Zizinho, Zagallo, Evaristo, Dida, Gerson, Garrincha, Dorval, Geraldo, Paulo César Caju, Rondinelli, Aldair, Leonardo, Zé Carlos, Fillol, Edinho, Bebeto, Jorginho, Renato, Gaúcho, Zinho, Edílson, Petkovic, Juan, Julio César, Gamarra, Adriano, Romário, Ronaldo Angelim, Ronaldinho Gaúcho.

E mais Raul, Leandro, Figueiredo, Mozer, Junior, Andrade, Adílio, Titã, Nunes, Lico...

... E ele, ele que se o Flamengo é uma religião ele é nosso Deus.

Zico.

O clube não passa por um momento bom. Anos e anos de má gestão, péssimas administrações, brigas vaidosas pelo poder, mau caratismo e canalhices. Tudo isso chegou ao ápice na administração da senhora Patrícia Amorim e fizeram o clube que era para ser um dos mais poderosos do mundo estar em frangalhos, falido. Sendo humilhado, motivo de chacota.

Mas sempre existe a esperança de dias melhores e eles virão. Não sei se a partir do dia 3 de dezembro, dia das eleições para presidente do Flamengo. Acredito que não porque o cenário não é animador, mas o Flamengo é muito maior que eles, o Flamengo somos nós e todos os seus apaixonados.

E por mais que muitos torçam contra, mesmo quem se diz Flamengo, somos poderosos, somos maioria, somos a raça de um jogador medíocre que sabedor de seu não talento dá o sangue numa partida de futebol, enche a camisa de suor por saber a importância daquela pele que veste e vira ídolo.

Há de chegar o dia que o Flamengo não precisará de jogadores, bastará a camisa pendurada nas traves para amedrontar os adversários e, dessa forma, o Flamengo continuará. Fazendo história, apaixonando, nos fazendo ter o coração puro como o de uma criança que por alguns momentos esquece que a vida pode ser uma porcaria em um grito de Mengo acompanhado por amigos na arquibancada ou ao abraçar a pessoa que você nunca viu na vida na hora do gol.

E mais e mais crianças como eu naquele mundial de 1981 serão apresentados ao Flamengo perpetuando a nossa raça: a raça rubro-negra.

117 anos só? Fala sério. No sétimo dia Deus descansou e foi ver um jogo do Flamengo.

Flamengo sempre eu hei de ser. Orun Ayé!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Bissexta: "Eleições no Flamengo – quando ter convicções vira pecado"



Nesta sexta feira onde muitos “enforcaram” o feriado – este blogueiro não – a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, volta a falar das eleições presidenciais do Flamengo.

Eleições no Flamengo – quando ter convicções vira pecado

Outro dia trocava e-mails com um advogado amigo, radicado em SP, mas sócio proprietário do clube e perguntei em quem ele votaria se fosse ao Rio. A firmeza da resposta me surpreendeu:

- “Voto no Ronaldo,  um sujeito sério e trabalhador.”

Ronaldo Gomlevski foi uma candidatura que envelheceu rapidamente no universo rubro-negro. Ele se lançou logo no início do ano e, creio, em março - ainda bem longe do calendário eleitoral oficial - fez o evento de inauguração da campanha.

Ao seu lado, uma das figuras mais bacanas e lúcidas da Gávea, José Maria Sobrinho, com muitos projetos em ebulição.

Ronaldo foi o primeiro a perceber a importância de fazer uma campanha para a Nação, não para o público interno. Escalou como coordenadores o blogueiro mais famoso da torcida e outras pessoas com inserção nas redes sociais. Que logo erraram a mão e se imbuíram de um fanatismo fervoroso na defesa do Planeta Fla, o nome que Ronaldo escolheu para si.

Quando a gente ainda estava construindo o sonho da Revolução Rubro-Negra, foram esses pitbulls virtuais que nos atacaram com ódio mortal. É natural que isso gerasse um estranhamento entre nós e a campanha do Ronaldo. Eu passei a detestá-lo, sem nunca ter trocado uma palavra com ele.

Depois, teve o esforço de união das “oposições”. Várias pessoas que participavam das tentativas de unificação me garantiam que Ronaldo era um homem teimoso, que não cederia.

Uma pessoa muito importante no cenário atual me aconselhou a não me preocupar com Ronaldo porque ele seria “cristianizado”. Para quem não sabe, a origem do termo é uma homenagem a um político do velho PSD, Cristiano Machado, que foi abandonado por seus aliados quando disputou a Presidência contra Getúlio Vargas.

E não é que o amigo estava certo? Ronaldo foi mesmo cristianizado à luz do dia.

Todos aqueles fanáticos que cuspiam fogo a seu favor seguem fanatizados e cuspindo ainda mais fogo, mas agora para outro candidato. Gente que gravou vídeo de apoio, que colocou seu nome e seu prestígio (óbvio que me refiro aos que tem algum prestígio, que não é o caso de todos) a serviço do Planeta Fla, agora frequenta outras festas do Grand Monde - e nem se preocupou em tornar público o porquê de ter mudado de time.

Foi nessa fase de low frequency que eu e Ronaldo nos conhecemos pessoalmente, apresentados por outro amigo em comum. E eu vi o quanto estava errado no pré-julgamento que fiz sobre ele. Ele é um cara simples, direto, muito franco, muito decidido e, principalmente, muito firme nas suas convicções, embora disposto a ouvir (o que tem sido raro na Gávea).

Eu desconfio que tenha sido justamente essa firmeza que fez Ronaldo cair em desgraça nos círculos que antes o idolatravam.

No imbróglio da ilegibilidade ou não do candidato Wallim Vasconcelos ele acabou pagando o pato sozinho. Não porque tivesse mobilizado o Conselho de Administração (nem tem força para isso) ou porque tivesse feito campanha pública pelo impedimento. Tudo o que ele fez foi ter declarado, com semanas de antecedência, que apoiava um membro de seu movimento que apresentara a impugnação – que sequer foi a única a pessoa a fazê-lo.

[N.do.E.: a candidatura de Wallin Vasconcelos foi impugnada, como o leitor viu aqui mesmo segunda feira passada.]

Essa singela posição pública foi a senha para o desembarque do Planeta Fla da troupe que se acha descolada e vanguardista.

Direito deles. Mas vergonhoso mesmo foi vê-los vociferar contra o Ronaldo, como se fosse dele a culpa de ter apresentado como candidatos sob as quais pairavam dúvidas estatutárias. Ronaldo, que antes tinha uma turma raivosa a seu lado para jogar pedra nos outros, viu o mesmo pessoal lhe retribuir as pedras em dobro.

O que me parece mais curioso é que enquanto todos se engalfinham na política interna à base de alfinetadas ou baixarias, Ronaldo é o único que segue fazendo uma campanha propositiva.

Faz seminários para discutir ideias, apresenta propostas diferenciadas, como antecipar o calendário eleitoral (excelente proposta) ou criar um crowdfunding para liquidar a dívida - o que eu discordo, mas reconheço o valor de se trazer para o centro do debate o tema da dívida fiscal.

Que pena que essa linha propositiva não deva bastar. Ronaldo só não está sozinho na campanha porque tem ao seu lado os amigos de sempre, gente que, como o advogado parceiro que citei, vota nele de olhos fechados por reconhecer valor em ter boa índole, trabalhar duro e ser inflexível nas convicções. Eu nem concordo com algumas delas, mas invejo a capacidade do Ronaldo de ser assim, duro na queda.

Talvez o preço a se pagar por ter convicções tão fortes em um ambiente que exige um mínimo de traquejo e concessões seja justamente a cristianização, o abandono pelos oportunistas de primeira hora.

Eu não sei se Ronaldo vencerá ou não – os gatos-mestre insistem que não vai. Mas ao menos segue até o final com dignidade, rodeado pelos amigos e eleitores de sempre. Pode ser melhor perder sendo fiel a si mesmo do que vencer fazendo manobras que cobram um alto preço no futuro.

Boa sorte, Ronaldo!

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Bissexta: "Eleições no Flamengo – suas ideias não correspondem aos fatos"



Em edição extra, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, fala sobre a recente impugnação – e substituição - do candidato à presidência do Flamengo Wallim Vasconcelos, além de dissertar sobre o clima de intolerância criado pelos apoiadores da chapa.

Tenho de concordar com o colunista, pois não apóio a chapa, tenho ressalvas sérias a alguns nomes e pontos de sua plataforma e venho sofrendo uma implacável patrulha ideológica por parte de seus apoiadores.

Lembro também ao leitor que, no Flamengo, a torcida não vota – e o perfil dos sócios do clube é bem diferente do que se encontra no torcedor médio. O sócio do Flamengo, em média, é muito elitizado.

Passemos ao texto.

Eleições no Flamengo – suas ideias não correspondem aos fatos

Não sou muito ligado em Twitter, mas na noite que o Conselho Deliberativo do Flamengo votava a homologação das candidaturas à presidência do clube, fiquei acompanhando amigos e conhecidos que estavam tuitando direto da ante-sala da reunião, abastecendo a comunidade rubro-negra de informações em tempo real.

Logo que a candidatura de Wallim foi impugnada, a versão brasileira do #8N portenho explodiu em formato virtual. Uma revolta estridente, raivosa e inquisitória contra os que a ela não se somavam.

De repente, em meio a tantos flamenguistas irados, na minha Timeline aparece minha filha, adolescente de 15 anos, que mora em SP com a mãe, praguejando contra a vida. Eu pensei que ela tivesse brigado com a mãe ou o namorado, mas, surpresa máxima: ela era mais uma de tantos rubro-negros protestando contra a decisão dos conselheiros do clube.

E eu, que estive acompanhando de perto e até de dentro esse processo eleitoral rubro-negro, só aí tive a noção exata da dimensão que a chapa azul provocou na Nação. O casamento perfeito entre a esperança de cada coração flamenguista, o desejo incontido de atuar, intervir, de sonhar com um Flamengo melhor.

Um Flamengo que não seja só dos seus 10 mil sócios, mas que olhe e dialogue com os seus milhões de apaixonados, que mire uma transformação real, que refunde o clube sob novos pilares.

Esse sentimento, até então oculto em uma torcida que se limitava em torcer - e mais recentemente, em sofrer, foi libertado pela magnífica campanha da Chapa Azul, que deu a todos o direito de sonhar.

Eu imaginava que, passada a frustração com a impugnação do Wallim, logo as coisas voltariam ao normal e marcharíamos, unidos, até 03/12, quando se poderia – ou se poderá, melhor dizendo – transformar o sonho em realidade.

A frustração em si é altamente compreensível: Wallim fora o capitão dessa legião, o homem que tornou capaz a mobilização em torno desse ideal; era justo que fosse, ele próprio, o ungido. Não deu, paciência, que se vire a página.

Mas que antes de se virar, que se abra um parênteses: nada do que aconteceu no 8N rubro-negro foi surpresa ou orquestrado.

Desde o primeiro momento – e aqui falamos disso mais de uma vez em ocasiões anteriores – a elegibilidade do Wallim era algo controverso, digamos assim para simplificar. E que ele se lançou candidato ciente desses riscos, tanto assim que sempre enfatizou que sua candidatura era algo “de grupo” e que na hipótese do Conselho de Administração a invalidar, ele seria prontamente substituído. Como, aliás, aconteceu sem sustos ou sobressaltos.

Aliás, para o Wallim, para seus aliados e para o Flamengo em si, me arrisco a dizer que a emenda saiu melhor do que o soneto: Wallim seguirá sendo o comandante da aeronave, mas agora de forma profissionalizada e remunerada, como eu sempre defendi que as coisas deveriam ser no futebol. Os cargos políticos (campo em que o Wallim aparentava certo desconforto, como se viu por sua postura um tanto tímida nos debates) serão ocupados por aliados seus com mais bagagem no clube, mostrando um casamento interessante entre o ontem e o amanhã.

Portanto, tudo resolvido, certo?

Não, infelizmente.

Aí a culpa não é do Wallim ou do seu “sucessor”, Bandeira de Mello. A culpa é do clima sufocante que se cria ao seu redor, uma patrulha ideológica raivosa, intolerante e que se dedica a disseminar o ódio pelos contrários.

É quase que uma versão digital dos ‘Camisas Pardas’, prontos a agredir e perseguir em massa quem ousa pontuar um pensamento diferente ao fanatismo que passaram a nutrir, vejam só, por uma mera eleição de um clube.

Um amigo meu desenvolveu uma tese totalmente amalucada, mas interessante. Sustenta ele que tudo foi feito de caso pensado. Que a ideia sempre foi escolher um candidato com dúvidas estatutárias para que, ao final, quando ele fosse barrado, pudesse retornar, nos braços da torcida, para combater “a corja” que o impediu de concorrer.

Sua tese se escora no fato de que instantes após o anúncio da impugnação começaram a pipocar textos acusando a chapa de ter sido vítima de um “golpe”, divulgados de forma tão ágil e intensa que teriam de estar prontos antes da decisão.

É claro que isso é totalmente insano – até porque pelo Wallim eu boto minha mão no fogo quanto à sua lisura, integridade e firmeza de propósitos – mas o clima de secessão que os pitbulls virtuais propagam é de dar nojo. 

A ideologia que disseminam é de uma nota só: os que estão com eles são os redentores; os que ousam criticá-los são os membros da “corja” e precisam arder no fogo do inferno.

Prometem, inclusive, uma passeata, sabe-se lá com que propósitos, quando a esta altura deveriam estar trabalhando com afinco para conquistar o voto dos sócios, nos menos de 30 dias que faltam para o dia D. Mas a campanha ficou em segundo plano: só sobrou espaço para xingamentos.

Eu estava louco para poder declarar, com orgulho, meu voto na chapa azul. Espero, aliás, poder fazê-lo em breve, porque tenho sempre a esperança de que a poeira abaixe e essa gente retome a serenidade.

Inclusive porque, em meio aquela gente intolerante, não há apenas jovenzinhos que nem idade para votar tem, como a minha filha que inspirou o artigo. A maioria é de gente mais velha, tem até a turma da terceira idade, com anos de serviços (e em alguns casos, péssimos serviços) prestados ao clube.

Vamos torcer para que todos entendam que só se constrói o novo com pluralidade, democracia, respeito às minorias, pregando a paz. Porque, a seguir no ritmo da intolerância, eu prefiro que me incluam fora dessa.

A promessa era de transformação. Mas, por enquanto, eu só vejo o futuro repetir o passado. Um museu de grandes novidades.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Bissexta - "A eleição do Flamengo em dois turnos"



Tardiamente nesta segunda feira, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, joga novas luzes no intrincado quadro eleitoral do Flamengo.

A Eleição do Flamengo em dois turnos

Aqui em Porto Alegre teve eleição no Grêmio. Quase 14 mil sócios foram às urnas votar, sendo que uns cinco mil por correspondência e mais de oito mil lá na sede do clube mesmo.

Não gosto do Grêmio, mas estava de olho na eleição por conta de um candidato que conseguiu chegar ao segundo turno da eleição, um advogado relativamente jovem, Homero Bellini Junior, competindo com dois ex-presidentes, Fabio Koff e Paulo Odone.

Eu disse relativamente jovem com dor no coração, porque minha vontade era dizer jovem simplesmente, já que ele é pouca coisa mais velho do que eu.

Como no Flamengo quase ninguém vota, os clubes do Sul viraram referência em matéria de eleições, graças ao tamanho do colégio eleitoral. Mas se alguém tinha dúvida daquilo que venho repetindo há meses – que mais sócios votando não significa necessariamente uma decisão de mais qualidade – está aí a decisão soberana dos gremistas a esclarecer.

Uma das opções representava a renovação: um sopro de novidade. As outras duas eram a luta de dois (literalmente) velhos caciques da política interna, com anos de serviço prestados ao clube.

Mesmo tendo a chance de poder votar no amanhã, 94% dos gremistas se dividiram entre o ontem e o anteontem e acabaram elegendo Fabio Koff, com seus 80 e tantos anos de idade.

Ou seja, torcedor parece gostar mesmo é de cartola à moda antiga. Gestão profissional é coisa de intelectual, como provam os tristes 6% de Homero Bellini.

Mas essa longa introdução nada tem a ver com o tema desse artigo. É porque sempre que esses gaúchos vêm tirar onda comigo de que nos seus respectivos clubes há milhares de eleitores participativos, eu rebato dizendo que a eleição deles é semi-direta, porque primeiro há o ritual de aprovação nos conselhos.

Só se uma chapa não atingir a maioria qualificada ali dentro é que o associado é chamado a votar em segundo turno, em geral em duas ou três chapas que atingiram o quórum interno para passar de fase. No Flamengo não: na Gávea é voto na urna, direto e universal.

Deve ser praga da gauchada que eu zoei esses anos todos, mas o fato é que, de forma totalmente inesperada e por vias tortas, a eleição do Flamengo desse ano virou uma disputa em dois turnos.

A principal estrela do campo oposicionista, Wallim Vasconcellos, tem sua elegibilidade questionada por coisas que nem vale a pena se alongar, porque o assunto é chatíssimo e eu já me dei ao trabalho de esclarecê-lo.

O fato é que Wallim só colocou seu nome na pedra porque ano passado houve uma anistia financeira e, assim, gente que estava fora do quadro social teve a chance de retornar. Esse é o caso dele, em resumo bem resumido.

Só que um montão de gente acha que não é bem assim, que a anistia não dá direito de se candidatar, etecetera e tal. Se o leitor está acompanhando o julgamento do Mensalão, já deve ter percebido que em se tratando de temas jurídicos, a diversidade de opiniões sobre um mesmo fato é especialidade número 1 do mundo do Direito.

Logo, tem parecer jurídico de tudo que é jeito dizendo se Wallim pode ou não se candidatar. Não que isso faça alguma diferença, mas tem até o meu, dizendo que no Flamengo, sendo sócio proprietário, qualquer um que pode votar pode se candidatar.

Avante, Wallim.

Porém, amigos: não é com guerra de pareceres que se vai resolver essa contenda, até porque quem vai decidir não é um tribunal de especialistas em temas societários, mas sim os membros do Conselho de Administração do Flamengo. E quem são esses iluminados?

1) 48 sócios eleitos com a chapa vencedora em 2009 (ou seja, que então apoiavam Patricia Amorim);
2) 12 sócios eleitos com a chapa que chegou em 2º lugar em 2009 (ou seja, que então apoiavam Delair);
3) Os atuais Presidentes de Poder no Flamengo;
4) Os ex-Presidentes de Poder no Flamengo;
5) Os sócios Grande-Beneméritos;

O número certo de “eleitores” ninguém sabe de cabeça - até porque há uma superposição do tipo “d” com o tipo “e”. Mas é algo em torno de 100 votantes, disso não passa.

Em um colégio eleitoral tão pequeno dá para contar antecipadamente quem deve votar em quem. Eu andei investigando as quantas andariam as especulações, já que há uma intensa pressão de interessados no resultado. E quem entende do riscado (até porque é um dos “eleitores”) me passou o seguinte panorama:

1) Devem comparecer, no máximo, uns 90 conselheiros. Tem uns que não vão de jeito nenhum e, claro, sempre tem os imprevistos de última hora a afastar um ou outro;

2) Tem uma ótima notícia para o Wallim: cerca de metade dos membros indicados por Patricia Amorim em 2009 está disposta a votar a seu favor;

3) Logo, a mesma notícia também tem seu lado ruim: a outra metade segue disposta a barrar sua candidatura;

4) Mesmo Delair tendo declarado apoio à chapa do Wallim, seus 12 votos não estão garantidos, porque tem gente ali já comprometida com outras chapas e pronta para votar contra a aprovação da candidatura;

5) O placar atual, se todos estiverem presentes, indica que já há 40 votos firmes em favor da impugnação da candidatura – a maior parte deles, claro, vindo diretamente da “bancada” eleita em 2009 junto com a Patricia;

6) Logo, se tudo isso aí for verdade, faltariam seis votos para Wallim ser impedido de concorrer.

Não tenho a MENOR ideia se essa especulação toda é verdadeira ou não, mas ela permite nos lembrar de algo que parecia esquecido: a Patricia (ou melhor, a “situação”, seja ela quem for) tem um poder muito grande sobre esse Conselho de Administração.

Se ela tivesse a capacidade de obter a lealdade da “bancada” que indicou em 2009, acabou a discussão: a vontade dela prevaleceria sempre em questões eleitorais (nas demais, que passam pelo Conselho Deliberativo e seus mais de mil membros, a conversa é outra).

Tudo indica que não é bem assim, mas ela ainda tem uma capacidade muito grande de influenciar e direcionar o voto dos conselheiros que foram eleitos junto com ela. Isso nos permite, com o perdão da má palavra, uma inferência: a chance de Wallim ser candidato parece estar nas mãos da Patricia.

Se ela realmente quiser barrar o oponente já na largada, basta correr atrás de uns votinhos para somarem-se aos que já se declararam contrários à aprovação e pronto, fim de linha. Ao revés, se a ela interessar que Wallim concorra (para, por exemplo, aumentar a divisão no campo oposicionista), basta pedir aos seus aliados no Conselho de Administração que rejeitem a impugnação e se preparar para enfrentá-lo apenas nas urnas.

Sugiro aos candidatos que poupem seus níqueis e parem de encomendar pareceres jurídicos, porque essa decisão, agora, é puramente política: vencerá quem tiver mais garrafa para vender dentro do Conselho de Administração.

Gremistas e colorados antes provocados por mim, o dia da vingança chegou, podem me sacanear à vontade: a eleição no Flamengo acabou virando em dois turnos também.

E o pior, com dois agravantes: primeiro, são apenas 90 “eleitores” no “primeiro turno”; segundo, há uma grande eleitora nessa rodada preliminar, dando as cartas e com a faca e o queijo na mão.

Morro de rir quando vejo gente subestimar o potencial da Patricia Amorim. Enquanto tem gente ainda se preparando para ir comprar a farinha, ela já está com o bolo prontinho para servir.

(Foto: Mauricio Val – Vipcomm)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Bissexta - "Escolher um candidato a vereador é simples"


Nesta segunda, com algum atraso por culpa deste editor, a coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro, fala sobre um tema bastante criticado e pouco analisado: a escolha dos candidatos a vereador.

O curioso é que ontem estava conversando com um ministro da Igreja Messiânica exatamente sobre o mesmo assunto: a necessidade da instituição ter seu representante na política.

Em tempo, ainda não defini meu voto para vereador.

Escolher um candidato a vereador é simples

Eu me envolvi em um debate essa semana. Pipocava gente indignada com candidatos à vereança que baseiam sua plataforma em ligações com coisas muito peculiares.

Especificamente, o tema surgiu com a candidatura do ex-jogador e ex-treinador Andrade, que se limita a explorar a sua ligação com o Flamengo para angariar votos. A indignação tem sempre a mesma origem: é preciso escolher candidatos que defendam o “bem da comunidade”, a “melhoria da população” e outras boas intenções semelhantes, ao mesmo tempo que seria necessário repudiar candidatos que “usam” o Flamengo para se eleger.

À exceção de Patricia Amorim – para quem todo castigo é pouco – eu não vejo mal algum que um candidato se proponha a ser representante “do Flamengo”  ou da “Igreja XPTO”, ou do “Funk” ou qualquer grupo ou segmento que bem entender na Câmara Municipal.  Aliás, o esperado é que fosse exatamente assim, em qualquer situação.

Talvez por conta desse anacronismo de nos enfiarem goela abaixo muitas horas de propaganda eleitoral gratuita, a gente acaba dando à eleição municipal uma importância que ela está muito longe de ter.

Um Prefeito, por conta de muitas peculiaridades brasileiras sobre as quais não vale nem a pena se alongar, tem uma capacidade de avaliação muito limitada, porque, a teor da Constituição Federal, até nas demandas centrais da população – saúde e educação – os municípios atuam mediante a “cooperação técnica e financeira da União e dos Estados”. Segurança, então, esqueçam: não há nada que um Prefeito possa fazer, a não ser mentir para o eleitor de que cuidará disso.

Não faz tanto sentido um viés ideológico muito acentuado na eleição municipal. Claro que ideologia é algo que influencia a nossa visão de mundo em amplos aspectos. Se você é conservador ou progressista, você o será nos grandes e nos mínúsculos temas. O problema é que o voto de opinião também é algo raro na população.

Mas é justamente a parcela mais instruída da população – aquela que move seus impulsos eleitorais pela ideologia – que faz as piores escolhas na eleição local. Eu sei que é difícil perceber exatamente quais os interesses estão em jogo, mas basta pensar um pouco que eles surgem.

Eu andei tentando convencer meus vizinhos em Canela (RS) a transferirmos nossos títulos para lá. Nossa rua é apenas parcialmente asfaltada e quem tem casa na parte final precisa encarar o barro quando chove. Calculei que poderíamos juntar uns 100 votos se todos aderissem, mas o assunto não foi à frente.

Claro que poderiam nos acusar de “insensibilidade social”, porque o interesse de veranistas relativamente endinheirados não deveria se sobrepor às carências da população pobre da cidade. Só que o meu interesse pode ser menos nobre, mas não deixa de ser legítimo. E eu tenho todo o direito de lutar por ele.

O curioso é que os mais carentes e menos instruídos costumam ter uma percepção mais pragmática e acertada do que a chamada “elite”. Comunidades inteiras costumam votar em bloco em algum candidato que atenda suas demandas mais urgentes e atue como um interlocutor junto ao Poder Municipal. Porque Vereador, minha gente, não tem muito mais a fazer senão isso: garantir o calçamento da rua ou a extensão da rede de esgoto a partir das definições orçamentárias.

Voltando ao caso do Andrade (que aqui entra como exemplo, não estou recomendando que ninguém vote no maior campeão brasileiro de todos os tempos), considero quase que essencial que o Flamengo tenha, sim, um representante que lute por seus interesses na Câmara Municipal.

Muito do que diz respeito aos negócios do clube tem relação direta com o Poder Municipal. Querem ver?

Posso construir estádio na Gávea? Posso comercializar cerveja nos jogos ou no entorno do estádio? Posso transformar a minha sede em hotel? Posso criar linhas especiais e fretadas para transporte de torcedores até o Engenhão? Posso evitar o comércio informal próximo ao estádio?  Posso criar regras especiais de estacionamento para quem vai ao jogo? Posso limitar o número de gratuidades e meia-entrada?

Tudo isso passa pela Câmara Municipal. E é absolutamente legítimo que a instituição se articule para ter um ou mais representantes claramente alinhados aos seus interesses particulares, que muitas vezes colidem com outros interesses (proibir o comércio informal atinge os vizinhos do Engenhão, limitar as gratuidades é antipático, construir o estádio na Gávea vai irritar os moradores do Leblon, etc.). Não existe um “bem coletivo”. Aquilo que beneficia um quase sempre prejudica outro.

Compreender essa dinâmica do processo eleitoral e escolher vereadores comprometidos com aquilo que é importante para nós de forma mais concreta deveria ser algo corriqueiro, valorizando o nosso voto. Infelizmente, ainda é interpretado de modo pejorativo, sob a ilusão de que a política pode se assemelhar a um sacerdócio altruísta e de que há um meio de se fazer “o melhor para todos".

Normalmente, quem pensa assim quase sempre em poucos meses se esquece do nome do eleito. Mas quem vota movido pelo seu interesse particular e imediato sempre se lembra do que fez e cobra com mais rigor. É disso que precisamos para elevar o nível da política, não apenas de uma cartilha de boas maneiras e promessas vagas.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Exterminadora do Futuro


Eu estava evitando escrever sobre este assunto para os leitores não pensarem que é uma postura eleitoreira, mas não se pode ficar calado diante do absurdo que vem sendo perpetrado pela atual presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, a poucos meses do término de seu mandato.

Contrariando princípios básicos de gestão, a poucos meses do término de seu mandato a Presidente está renovando os dois contratos mais importantes de receitas do clube por vários anos além do término de seu período, deixando quem a suceder sem qualquer margem de negociação ou ampliação das receitas do Flamengo.

Sabemos que Patrícia Amorim pode se reeleger em dezembro e que suas chances, por incrível quanto pareça, são muito boas, mas isto é básico: somente se trabalha com definições de orçamentos dentro do espectro da própria gestão, no máximo no ano seguinte. Na prática Amorim irá determinar aspectos importantes da gestão do clube até pelo menos 2018, impondo sua linha de atuação mesmo que seu grupo político não esteja mais no poder.

Ainda há outra questão a ser analisada: o clube recebeu agora adiantamentos sobre os contratos em questão, o que diminui a previsão de receitas para os anos subseqüentes. Adiantamentos, alias, que provavelmente foram gastos mais rápidos que o tempo que eu levei para escrever este artigo.

Vamos caso a caso.

O primeiro, e muito pouco divulgado, foi a renovação antecipada até 2017 do contrato que envolve os direitos de televisionamento do Campeonato Brasileiro de futebol. Não tenho detalhes se houve aumento nos valores anuais, mas o que se sabe é que o clube pegou um adiantamento de R$ 30 milhões da Rede Globo de televisão para tal.

Tal renovação antecipada tem o objetivo de impedir a entrada da Fox Sports no mercado nacional. A emissora de origem norte americana vem fazendo um estrago considerável na concorrência nos direitos de campeonatos estrangeiros e vinha se preparando para se ombrear à Globo nos campeonatos regionais e nacionais.

Parêntese: vale lembrar que o clube na TV fechada vem sofrendo um certo descaso por parte da dona dos direitos. Equipes secundárias na maioria das transmissões, jogos em off-tube e narradores de outros estados nas partidas locais. Fecha o parêntese.

Certamente o clube poderia ter esperado um pouco para fazer esta renovação, pois o mercado tende a se aquecer com a concorrência representada pela Fox Sports e com os eventos que sediaremos. Contudo a diretoria optou por antecipar a renovação e antecipar receitas, abrindo mão de receitas futuras – quando Patrícia Amorim não estará mais no cargo.

O segundo caso é ainda mais absurdo. O termo é forte, leitores, mas não encontro outro.

Refiro-me à quebra de contrato com a atual fornecedora de material esportivo, a Olympikus, e a assinatura de um contrato de 10 anos com a multinacional Adidas. Os valores da proposta da empresa alemã são pouca coisa superiores ao que a empresa brasileira estará pagando ao final do contrato, em 2014.

Além disso, a empresa brasileira vem se mostrando uma ótima parceira do clube, construindo o museu na Gávea e pagando os salários de jogadores – entre eles, Vagner Love. Outro ponto forte é a capilaridade de sua distribuição: hoje se encontra material do Flamengo em todos os cantos do país.

Lembro ao leitor que nos tempos da Nike até aqui no Rio de Janeiro era bem difícil se encontrar material. E a então fornecedora disponibilizava ao público apenas as duas camisas de jogo e nada mais.

Hoje a Olympikus disponibiliza toda a linha do clube nas lojas, com a exceção de shorts de goleiro e de treino – mas mesmo estes aqui e ali se encontram.

Ressalte-se também que o Flamengo tentou quebrar o contrato com a Nike para assinar com a Olympikus. Naquele momento havia até justificativa, pois faltava material até para o time profissional – os goleiros chegaram a atuar com material de passeio por falta de camisas.

Um segundo rompimento, poucos anos depois, deixará no mercado a idéia de que o clube não respeita seus parceiros e que o clube não é confiável. Esta percepção já existe – basta ver que a camisa do Flamengo continua sem patrocínio master desde o término do contrato com a Procter e Gamble no ano passado. Este é o prêmio que a Olympikus ganhará por ser parceira: um término litigioso de contrato.

Outro ponto a se considerar é que a proposta é de 10 anos de contrato, com multa altíssima de rescisão. O mercado brasileiro tende a ter um crescimento exponencial nos próximos anos por causa da realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. Isto significa que o contrato vantajoso de hoje, com multa alta, pode ser baixo daqui a dois ou três anos.

A prudência em uma boa gestão mandaria que se esperasse, até porque o contrato atual somente se encerra em 2014. Mas irão mandar a Olk às favas e assinar com a Adidas – ainda que a atual fornecedora tenha coberto a proposta da empresa alemã.

Os principais argumentos de quem defende a troca são o pagamento de adiantamento antes mesmo do início do contrato e a promessa de distribuição mundial do material do clube, tornando o Flamengo um dos cinco mais importantes da empresa no mundo.

Leitor: eu DUVIDO que isso aconteça. DUVIDO. Em caixa alta mesmo. Hoje o Flamengo sequer na América do Sul é considerado um dos clubes mais importantes, vai ter importância mundial?

Vou mais além: a tendência a meu ver é haver uma forte regressão na variedade e nos pontos de venda de material, comparado ao que existe hoje.

Quem leu o livro sobre a história da empresa alemã - “Invasão de Campo: Adidas, Puma e Os Bastidores do Esporte Moderno”, Editora Zahar – sabe que a multinacional se utiliza historicamente de métodos pouco ortodoxos para conquistar novos contratos e mercados. Sabendo disso e conhecendo como as coisas funcionam no Flamengo não me surpreenderia caso estes métodos de persuasão tenham sido utilizados na negociação.

O certo é que teremos uma batalha jurídica envolvendo esta questão, pois a Olympikus já avisou que irá cobrar na justiça a rescisão do contrato – uma conta de R$ 35 milhões.

Ainda que Patrícia Amorim tenha como bastante provável a sua reeleição, por mais insólito que isso pareça, são dois exemplos de uma gestão temerária e da falta de governança existentes no clube. Sua base de apoio é formada pelos frequentadores do clube social e dos segmentos ligados aos esportes olímpicos, que vêem o futebol mais como uma fonte de recursos que função principal do clube.

Inclusive muitos dos sócios e eleitores da atual mandatária sequer torcem pelo Flamengo no futebol, tendo se associado para freqüentar as dependências ou, o que é mais incrível, ter direito ao estacionamento do clube. Sai mais barato para quem trabalha nas redondezas da sede pagar a mensalidade de sócio contribuinte e parar o carro todo dia lá que ter uma vaga de mensalista em um dos edifícios garagem das redondezas.

Mas uma coisa é certa: com a reeleição da mandatária ou a vitória da oposição (na que pessoalmente não acredito, por fatores que em outro post discorrerei) o futuro do clube nos próximos anos é nebuloso.

Com estes atos Patrícia Amorim e sua diretoria estão comprometendo a continuidade competitiva do Flamengo a curto e médio prazos. E olha que não me refiro a alguns “esqueletos” cuja conta deve ficar para o seu sucessor, seja agora ou em 2015.

Para o grupo da atual mandatária isso não será problema, pois o futebol não é prioridade. Entretanto, o torcedor irá sofrer.

P.S. – Na foto Amorim está com Michel Levy, vice de finanças e uma espécie de “eminência parda” da diretoria atual.