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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Sabinadas - "O 'passaralho' e a crise nos veículos impressos"


Nesta quinta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista Fred Sabino, discorre sobre os fatores que estão levando as mídias impressas a perderem atratividade – e, como consequência, demitirem jornalistas aos borbotões.

Acrescentaria, além das causas apontadas pelo colunista, a crescente ideologização dos veículos da chama “grande mídia” como uma grande causa da perda de veiculação destes.

O “passaralho” e a crise nos veículos impressos

Infelizmente estas semanas de Natal e Ano Novo em 2012 não serão tão felizes para muitos jornalistas, principalmente os de veículos impressos.

A crise do setor ocasionou demissões em massa desses profissionais e o fechamento de vários jornais, como Marca Brasil, Correio do Povo e Jornal da Tarde, além de diversas outras revistas. Houve “passaralho” – como os jornalistas chamam este tipo de demissão em massa – também em portais de internet.

Não vejo esse quadro como o prenúncio de um apocalipse inevitável dos veículos impressos. A não ser que jornais e revistas não se reinventem urgentemente. Afinal, a vendagem vem caindo pelo fato de que o público está migrando cada vez mais para internet e TV a cabo.

Alguns fatores explicam e colocam como imperativa uma mudança.

Hoje é muito mais fácil o acesso a computadores e a uma internet de boa velocidade, o que possibilita uma atualização mais veloz das notícias pelos portais e, consequentemente, uma visualização mais rápida também por parte do internauta.

Isso também se aplica aos celulares, a cada dia com conexões de internet melhores. Qualquer um hoje recebe no seu telefone as notícias mais recentes e, num mundo em que as pessoas têm cada vez menos tempo para ir às bancas comprar um jornal, é algo a se considerar também.

Diante disso, o chamado factual vem sendo publicado nos sites e os jornais que ainda apostam nesse tipo de matéria para vender seus exemplares estão fadados ao fracasso - a não ser no caso de um furo de grandes proporções. Este tipo de “furo” é algo cada vez mais raro também devido às barreiras impostas pelas assessorias de imprensa.

Outro fator é a comparação de custos entre se produzir um jornal diariamente e manter um site. Imprimir todo santo dia centenas de milhares de cópias de um jornal continua extremamente custoso, enquanto os gastos operacionais relacionados à internet são cada vez menores.

Na carona disso tudo, os anunciantes tiraram um pouco o pé em relação aos veículos impressos - e aceleraram fundo na internet. Evidentemente, menos grana chega aos cofres dos jornais e revistas e, como em qualquer empresa nesse capitalismo selvagem, os funcionários sofrem.

Existe uma solução?

Evidentemente não é simples, diante de fatores econômicos tão importantes. Mas, como escrevi no começo do texto, os veículos impressos - e seus jornalistas - precisam se reinventar.

Fugir cada vez mais do factual, ou pelo menos minimizá-lo no espaço que houver. Investir em matérias mais comportamentais, perfis de personagens, entrevistas exclusivas, bastidores, observação, entre outras coisas como

infográficos e fotos. Isso me parece o mais lógico para os jornais e revistas ao menos manterem um público cativo.

Voltar aos níveis de antigamente é impossível, mas ter leitores fiéis é o primeiro passo para a sobrevivência.

Como sou das antigas, prefiro ler um bom jornal e uma boa revista a ficar o tempo todo em um celular ou tablet...

Feliz Ano Novo a todos os leitores!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Sabinadas - "Cacá Bueno"


Hoje, a coluna “Sabinadas”, do jornalista Fred Sabino, fala sobre o término do campeonato da principal categoria de automobilismo do Brasil, a Stock Car, e de seu campeão, o controverso – para muitos – Cacá Bueno.

Pessoalmente, tinha certa implicância com o sujeito, mas mudei minha impressão quando estive cobrindo a etapa carioca da categoria, em julho (foto). Mesmo visivelmente atarefado, não se recusou a parar para trocar algumas palavras e uma foto.

Cacá Bueno

No último fim de semana acompanhei de perto a última etapa da temporada da Stock Car, em Interlagos; e a conquista de mais um título de Cacá Bueno, o personagem mais famoso e competente da principal categoria do nosso automobilismo.

Pelo seu jeito franco, sem meias palavras, e por ser filho de Galvão Bueno, um personagem que desperta amor e ódio do público, Cacá tem lá seus críticos. Mas, de cadeira, posso afirmar que não há a menor razão para isso.

Contudo, antes de falar sobre ele, comecemos pela temporada do pentacampeonato. Na extremamente competente equipe Red Bull Mattheis, Cacá venceu três das primeiras cinco corridas, mas a pontuação achatada de 2012 (só dois pontos separando o vencedor do segundo colocado e mais 18 pilotos pontuando) não o fazia disparar.

Depois, Bueno não teve mais um carro tão dominante, mas, com eficácia e inteligência, somou pontos importantes e se colocou na melhor condição para a Corrida do Milhão, que teve pontuação dobrada.

O quarto lugar bastava, independentemente dos resultados de Átila Abreu, Ricardo Maurício, Daniel Serra, Valdeno Brito, Max Wilson e Nonô Figueiredo, ou demais postulantes ao título.

No último domingo, numa prova com dez minutos a mais do que os 40 habituais, os pilotos se dividiram entre os que fizeram reabastecimentos e os que tentaram ir até o fim sem pit stop, devido às intervenções do safety car.

Pois bem: Allam Khodair, Galid Osman e Nonô Figueiredo brigaram pela vitória até bem perto do fim e ficaram pelo caminho. Cacá Bueno, não. Poupou etanol de forma brilhante sem cair tanto o ritmo e só não ganhou porque a equipe o orientou a acelerar na volta final. Faltaram 200 ml. Mas isso é o de menos.

Com inteira justiça é pentacampeão. Só o gigantesco Ingo Hoffmann, com 12 conquistas, está à frente. Cacá Bueno é o melhor piloto em atividade no Brasil e um dos maiores da nossa história em carros de turismo.

Mas queria exaltar o lado extra pista de Cacá. Como escrevi no começo, ele tem posições firmes e coerentes sobre todos os temas ligados ao automobilismo. Recentemente admitiu em entrevista ao meu amigo Bruno Vicaria, do site Total Race, que não se considera o piloto mais veloz, mas que o conjunto vinha sendo seu ponto forte. E é isso mesmo, sem arrogância ou falsa modéstia.

Da mesma forma, ciente do peso que tem no cenário automobilístico nacional, Cacá cobra sistematicamente melhorias nos autódromos nacionais, reciclagem dos comissários de pista - que até melhoraram em 2012 - e incentivos às categorias de base no país.

Bueno foi ainda um dos artífices da comissão de pilotos da Stock Car, que exigiu mudanças nos carros para uma melhoria da segurança após o acidente fatal de Gustavo Sondermann no começo de 2011. Hoje, os carros da categoria têm novos revestimentos anti chama e um banco que protege mais o piloto.

Nas entrevistas, Cacá não foge das perguntas e discorre sem pressa sobre qualquer assunto. Faz questão que o interlocutor ouça claramente o que quer dizer. Isso porque ele sempre tem algo a dizer.

Lembro que pelo menos duas vezes ele me deu entrevistas que eram para ser de meia hora e que acabaram durando o dobro - aliás, era difícil editá-las porque todas as respostas eram boas.

Cacá também não deixa os fãs na mão. Cansei de vê-lo pelos paddocks brasileiros parando dezenas de vezes para tirar uma foto e dar um autógrafo. Como se espera de um campeão.

Alguns poderão dizer: "ah, mas fica chato ele ganhar todo ano, vou torcer contra". O.K., é um direito de torcedor.

Mas, convenhamos, o penta da Stock Car (2006, 2007, 2009, 2011 e 2012), o tri da Copa Fiat (2010, 2011 e 2012), o caneco da Stock Car Light (1997) e o título do Sul-Americano de Superturismo (1999) são incontestáveis.

E, acima disso, o automobilismo brasileiro precisa de Cacá Bueno.

Por muito tempo.

Links do Texto:



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

História e Outros Assuntos: "Os Historiadores e as redes sociais"

 
Nesta quarta feira, a coluna “História e Outros Assuntos”, do Doutorando (CPDOC/FGV) e Mestre em História (UNIRIO) Fabrício Gomes, versa sobre a influência da internet e das redes sociais no ensino, além de propor um debate sobre o papel do professor na sala de aula.

Os Historiadores e as redes sociais

Vivemos no admirável mundo das novas tecnologias. A internet, que desde meados dos anos 1990 vem brindando os cidadãos com a facilidade de pesquisar qualquer coisa, em qualquer hora do dia, veio realmente para ficar. Redes sociais, Twitter, Facebook e Blogs são ferramentas que estão somadas a esse "pacote" de benefícios.

Hoje, uma criança mal acaba de nascer e é apresentada a tudo isso, compulsoriamente. Entretanto, ao mesmo tempo em que é um benefício, pode também ser prejudicial, principalmente no que tange à questão das crianças não terem mais tempo de fazer algo que é fundamental nesses novos tempos - e justamente que acaba por ser o diferencial nos momentos decisivos - como provas, concursos, entrevistas, entre outros: a capacidade de raciocinar. 

Somos apresentados a idéias pré-concebidas. Já lecionei para alunos que, diante de trabalhos em grupo, automaticamente recorriam ao Google e ao Wikipedia e simplesmente utilizavam o famigerado recurso do "Copy/Paste". Pior: longe deles lerem o que estavam clonando, o que dirá raciocinar sobre as idéias contidas no texto. E se eu sofisticasse os exercícios um pouquinho mais, havia uma brecha comumente utilizada por eles: a decoreba.

Esta introdução, que parece rechaçar o conceito de modernidade do tempo presente, não tem esse propósito. Muito pelo contrário.

Sou um fã da web, estou praticamente conectado 24 horas por dia, todos os dias, seja no notebook, no smartphone ou no iPad. Mas justamente por perceber que o mundo de facilidades que a tecnologia nos oferece é provido de armadilhas - que a longo prazo podem ser terríveis às novas gerações, torna-se premente uma análise mais detalhada sobre o processo de aprendizagem que temos atualmente nas instituições de ensino.

É fundamental uma atenção especial ao papel dos historiadores e professores de história nesse contexto. Especialmente, avaliar a formação de professores de história e pesquisadores, que saem das universidades "prontos" para um mercado de trabalho concorrido e saturado.

E transversalmente novas questões como por exemplo, o quão úteis são as redes sociais para os historiadores na disseminação do conhecimento? Como se dá a relação entre alunos e professores na utilização desta ferramenta? Como lida o historiador com as questões do tempo presente, que surgem a cada segundo na web? E por fim, pode o historiador tecer uma opinião sobre os atuais acontecimentos?

No período em que cursei os antigos primeiro e segundo graus - que foi imediatamente posterior à abertura política pós-ditadura, tive alguns professores de história (e acreditem: até professores de física!) que não mediam esforços em emitir opiniões políticas.

Reinava certo revanchismo aos militares e também a quem tinha apoiado aquele sombrio regime de exceção. Tive até um professor que fazia propaganda política nas aulas de Educação Moral e Cívica, para candidatos de "esquerda". Eu desde cedo questionava se era papel do professor fazer isso ou simplesmente lecionar, oferecendo aos alunos subsídios e possibilidades para o raciocínio, por eles mesmos, do cenário político pré-1964 e os desdobramentos causados pelo golpe civil-militar.

Realmente cabe a questão, que merece um aprofundamento. Professor pode, sim, ter uma preferência política e ideológica como bem entender. Professor não é um tirano, distante e que fica intransponível atrás da mesa.

A imagem do professor que "cobrava" a tabuada, corrigia o caderno de caligrafia com extremo rigor, que utilizava a decoreba com os alunos e que dava "bolos", calejando as mãos dos alunos inofensivos é coisa dos séculos passado e retrasado. Professor é um ser normal como qualquer outro, com emoções, qualidades e defeitos.

Mas creio que o bom professor é aquele que não entrega a matéria de bandeja aos alunos. Bom professor é aquele que incentiva o raciocínio. É aquele que "não oferece o peixe, mas a vara de pescar". É o que faz os alunos pesquisarem temas, não apenas copiar e colar textos do computador. Por fim, bom professor é aquele que oferece conteúdo, mas sabe cobrar a análise de questões exponenciais inseridas num contexto.

Quando dei aulas para turmas do ensino fundamental, percebi que os alunos não gostavam de escrever no caderno. Quando eu me aproximava da lousa, eles praticamente imploravam para eu "maneirar", para não escrever muito. Não prendiam a atenção por muito tempo nos conteúdos aplicados.

E quem não gosta de escrever também não gosta de... LER.

Talvez esse seja o principal ponto para a carência de raciocínio: a falta de hábito de leitura, não incentivada por professores que: 1) Estão preocupados apenas em cumprir a ementa dos cursos e o cronograma de aulas; e/ou 2) Professores que procuram incentivar a leitura, mas sofrem naturalmente pressões da direção das instituições de ensino (privadas) - mais interessadas no processo mercadológico - $$$ - para que aprovem alunos.

Uma terceira possibilidade se apresenta: a falta de um trabalho que deveria ser feito na base, com alunos, fomentando as práticas de leitura, aos exercícios discursivos. Alunos são "pedras preciosas" que precisam ser lapidadas desde os primeiros anos de suas vidas escolares. Se a "pedra" chega "bruta" ao Ensino Médio, por exemplo, o trabalho do professor é triplicado. Ou ele reprova ou passa o aluno de ano, permanecendo com essa pendência Então surgem os novos desafios - entre eles, a adequação do ensino de história à realidade das redes sociais, altamente populares entre os jovens.

O trabalho não é fácil. Despertar nos jovens o mesmo interesse pela História que eles nutrem, por exemplo, pelo jogo "Angry Birds" (que eu nunca joguei e nem tive o mínimo interesse e paciência em jogar, apesar dos inúmeros convites - que acho chatíssimos - de amigos que recebo até hoje, diga-se de passagem), corresponde a uma tarefa ingrata, mas ao mesmo tempo desafiadora aos profissionais de História.


Uma questão que há um tempo foi discutida é se é saudável (e ético) professores dos ensinos fundamental e médio terem alunos entre seus amigos nas redes sociais. Particularmente não vejo problemas, desde que haja transparência e não se misture o público (no sentido do ensino como bem comum a todos) com o privado (a vida pessoal).

As ferramentas web precisam e devem ser incentivadas como forma paralela de aprendizagem aos alunos. Há uma infinidade de jornais e revistas que estão na internet, prontos a serem explorados e dissecados. Há livros e publicações gratuitas, disponíveis para download. Há filmes e documentários interessantes no YouTube, que podem ser utilizados como apoio às aulas. Há certo tempo criei um canal de videos sobre história no YouTube (clique aqui para acessar), voltado para alunos, pesquisadores e interessados no tema, sem qualquer tipo de propósito que não seja o de acrescentar novas oportunidades de aprendizado.

Por outro lado, tenho reparado certa intolerância entre professores e historiadores no que concerne à questão editorial de certos veículos de comunicação. Um professor de história deve recomendar a seus alunos que não leia determinada revista só porque esta tem um conteúdo editorial questionável? Ou deve incentivar que leiam, apenas para produzirem, em efeito comparativo, argumentos contrários àquela publicação? A questão é espinhosa - e rende polêmica.

Na semana que passou, tivemos o desaparecimento do arquiteto Oscar Niemeyer. Foi bom constatar o reconhecimento de vários jornais, revistas e sites internacionais ao legado de Niemeyer à humanidade, traduzido em suas obras arquitetônicas espalhadas pelo mundo, tendo na cidade de Brasília sua maior obra. Grandes homens são reconhecidos justamente pelo que deixam para a posteridade.

Mas um veículo teve uma opinião dúbia a respeito do grande Niemeyer: a revista Veja, mais precisamente seu colunista Reinaldo Azevedo, que o rotulou de "metade gênio, metade idiota". Não concordo com o colunista, achei totalmente desproposital e equivocado seu raciocínio - Niemeyer deve ser avaliado pelas obras produzidas, não pela sua ideologia, que, aliás, não podemos dizer se estava certo ou errado em defender. Mas defendo o direito do colunista de se expressar - e principalmente que os alunos leiam o que ele escreveu, mesmo que seja algo polêmico.

[N.do.E.: uma constatação: caiu muito o nível do pensamento conservador no Brasil. Ontem tínhamos Roberto Campos; hoje, Reinaldo Azevedo. A diferença é abissal.]

Vi comentários de profissionais de história nas redes sociais rechaçando a publicação e o que é pior: recomendando que amigos, alunos e conhecidos não lessem a revista, pois seria "perda de tempo".

Não cabe a mim ser árbitro nessa questão - cada um tem sua própria opinião e deve agir como bem entender. Mas questiono sim se é saudável essa atitude na aplicação da metodologia do ensino de história.

Que cidadãos iremos formar, se dizemos a eles para lerem apenas aquilo que concordamos? E o que não concordamos (por ideologia), não devemos levar aos alunos? Não seria interessante utilizar o referido texto de Reinaldo Azevedo em sala de aula e em seguida utilizar outro, em contraponto? Que tal incentivar aos alunos a análise dos dois textos e no final, promover com os alunos, um raciocínio sobre o que representou, de fato, Niemeyer para a história e a cultura brasileira?

No âmbito da pesquisa, a situação pode se agravar.

Já imaginaram um historiador se recusar a ler um artigo de Goebbels (Ministro da Propaganda de Hitler) só porque "acha" que o nazismo foi um período sombrio da história? Realmente foi, mas é período em que historiadores devem adquirir uma postura neutra de pesquisa.

Ou então ser intolerante aos textos de Francisco Campos (jurista cuja doutrina era anti-liberal e autoritária, responsável pela redação da Constituição brasileira de 1937), só porque ele era simpático ao Estado Novo? Revolução cubana? Se o professor de história for antipático ou simpático (ao extremo) a Fidel, já imaginaram o caos que seria a aula?

Esse tipo de sugestão está longe de se pautar por preferências ideológicas. Acredito que o professor de história, enquanto cidadão, tem todo o direito de ter opiniões - e deve tê-las. Mas a partir do momento em que entra em sala de aula deve ser neutro, apolítico e exercer um papel de mediador, provendo os alunos de recursos de aprendizado e como já escrito acima, incentivando a prática do raciocínio. Não devemos formar pessoas teleguiadas, com idéias pré-concebidas e preconceituosas.

[N.do.E.: não sou docente, mas não acho ruim o professor mostrar todos os lados e, ao final, indicar sua linha de opinião ou raciocínio. Que fique claro que é um pitaco]

Voltando ao ofício do pesquisador de história, essa idéia também é válida para aqueles que desejam escrever biografias e/ou trajetórias biográficas: se for antipático ao seu biografado, melhor nem começar a escrever. Não vai sair boa coisa.

E se for simpático a ele, é preciso ter muita atenção e comedimento, sob o risco de incorrer na ilusão e na utopia biográfica - termos cunhados respectivamente pelos sociólogos franceses Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron.

Nos novos tempos midiáticos, com as redes sociais se popularizando a cada dia que passa, essas questões merecem atenção. As novas ferramentas web devem corresponder a um bom caminho tangencial de aprendizado e não a um meio de intolerância e restrição de idéias que os profissionais de história simplesmente não concordam por opiniões particulares - e nem se dão conta que podem influir negativamente na formação de futuros cidadãos.

Novos desafios, novas questões se abrem, sem dúvidas, nesse sentido. Vamos ficar atentos.

sábado, 8 de dezembro de 2012

A Médica e a Jornalista - "Bola de Ouro"


Neste sábado, a coluna “A Médica e a Jornalista”, da Anna Barros, fala sobre os premiados da “Bola de Prata” do Campeonato Brasileiro.

Bola de Ouro

Com o término do Campeonato Brasileiro semana passada, não posso me furtar de falar sobre a eleição do melhor jogador da Bola de Prata, concedido em conjunto pela ESPN e pela Placar.

Neymar ganhou a Bola de Ouro ‘Hors Concours’ e como consequência Ronaldinho Gaúcho levou a Bola de Ouro. Pessoalmente discordo do prêmio conferido a Ronaldinho, porque em minha opinião o vencedor deveria ser o atacante Fred ou o goleiro Diego Cavalieri – ambos do Fluminense.

Sou fã de Fred e não é de hoje. Gosto de atacantes ‘cirúrgicos’ e Fred tem esse rótulo. E seu time ganhou o campeonato. Então...

Não sou contra o prêmio dado a Neymar, apesar de achá-lo um pouco precoce para tanto. Como diria o jornalista José Trajano, a impressão que se tem é que queriam premiar o astro são-paulino Lucas com a Bola de Prata de Melhor Atacante.

Talvez sim, talvez, não.

Mas Ronaldinho com a Bola de Ouro é difícil de assimilar. A Bola de Prata era merecida pelo ótimo campeonato que fez, levando o Galo ao segundo lugar que o possibilita disputar direto a fase de grupos da Libertadores - status que Cuca mais que desejava e por seu mérito conseguiu alcançar.

Mas premiações são assim: concordamos, discordamos, tecemos teses, a polêmica flutua e invade em tempos tecnológicos as redes sociais, as mais variadas delas.

Admiro a Revista Placar. Lia a revista, às vezes escondida dos colegas, que na época não aceitavam bem uma mulher, mesmo com toda a sua feminilidade e sensibilidade, gostar de revista de futebol.

Tive apenas um exemplar, a do Flamengo campeão da Copa União de1987, porque gostava do lateral-esquerdo Leonardo - hoje executivo do milionário Paris Saint Germain. Infelizmente dei a revista ao meu melhor amigo, o tricolor André, que precisava dela para completar a sua histórica coleção.

Mas a revista poderia ter ficado sem essa.

Hors Concours só Pelé e Clovis Bornay nos lendários desfiles de fantasias na época do Carnaval, nos áureos tempos de TV Manchete. Nunca essas duas palavrinhas ficaram tão em voga.

Fica o registro, apesar de concordarem patê com o título dado a Neymar. Sou fã do jogador. Eu o acho extraordinário e olha que era mais fã de Ganso antigamente. Para mim, ele só perde para Messi, Cristiano Ronaldo, Xavi, Iniesta, mas é questão de tempo. Não sei se superará Messi, mas isso é tema para outro post.

Abaixo o leitor pode ver a relação completa de vencedores.

Forte abraço a todos!
Anna Barros

Vencedores:

Goleiro
Diego Cavalieri (Fluminense)

Lateral-direito
Marcos Rocha (Atlético-MG) 

Zagueiros
Leonardo Silva (Atlético-MG)
Revér (Atlético-MG)

Lateral-esquerdo
Carlinhos (Fluminense)
   
Volantes
Ralf (Corinthians)
Paulinho (Corinthians)

Meias
Ronaldinho Gaúcho (Atlético-MG)
Zé Roberto (Grêmio)

Atacantes
Lucas (São Paulo)
Fred (Fluminense)

Revelação
Bernard (Atlético-MG)

Chuteira de Ouro
Neymar (Santos)

Hors Concours
Neymar (Santos)

(Foto: Placar)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Sabinadas - "A temporada de boatos e o jornalismo esportivo"


Nesta sexta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista esportivo Fred Sabino, toca em um ponto importante: esta “temporada de boatos” das férias futebolísticas e a forma como a imprensa trata o tema.

Eu, pessoalmente, não ligo muito para esta temporada. Mas o post é um guia de referência para se entender o que é notícia e o que é especulação ou puro chute. Lembro aos leitores que o colunista não trabalha mais no jornal citado no texto.

A temporada de boatos e o jornalismo esportivo

Terminado o Brasileirão, começa uma nova temporada: a das especulações de transações entre os times até o começo dos Estaduais.

Por incrível que pareça, ao contrário do que se pode pensar, tais especulações vendem - e vendem muito - em sites e jornais esportivos brasileiros. Muitas vezes mais pela expectativa que um possível reforço leva ao torcedor que pela veracidade da informação.

Evidentemente há aquelas notícias de negociações com embasamento, em que existem realmente tratativas e o material publicado condiz com o que, de fato, ocorre. Mas, por outro lado, há também notícias falsas: seja por apuração insuficiente por parte do repórter, por "chute" do jornalista em busca de um furo (é o famoso "se colar, colou"), por preocupação do veículo em "vender" de qualquer forma ou até por aquelas notícias "plantadas" por dirigentes.

Posso relatar dois exemplos altamente positivos que vi de perto quando trabalhava no Diário LANCE!: as contratações de Vagner Love pelo Flamengo em 2010 e a de Seedorf pelo Botafogo em 2012.

Em ambos os casos, vi de perto os repórteres apurando exaustivamente as informações e trocando ideias com os editores que, entre eles, também discutiam a validade de se publicar determinada notícia nova sobre a negociação até que outras fontes fossem ouvidas.

Nos dois casos, o LANCE! publicou primeiro - e com correção - a notícia da negociação e também da contratação. As matérias saíram sempre com muitas informações de bastidores, como tempo de contrato, valores, entre outras coisas, e não simplesmente uma notícia vazia, sem embasamento.

Mas infelizmente há casos em que tais premissas são deixadas de lado.

Por exemplo, nos anos 90 um jornal carioca - sinceramente não me lembro qual - estampou em letras garrafais: "BATISTUTA NO FLAMENGO". Na época, a internet ainda engatinhava e eu nem engatinhava enquanto jornalista, já que comecei a faculdade no ano seguinte. Inocentemente comprei o jornal e a matéria quase não tinha informações. Então, ou era "chute", ou notícia plantada ou má apuração. É claro que Batistuta (foto) nunca jogou no Mengão.

Com o passar dos anos, e da profissão, passei a saber filtrar melhor aqueles veículos (jornais, TVs, rádios, sites, etc) que passavam mais informações com correção e, principalmente, comparar o tipo de texto de uma notícia que se revelou verdadeira com uma que se mostrou equivocada.

Por exemplo, leitor: desconfie quando um clube X estiver numa crise e, de repente, surgir uma notícia de uma negociação bombástica. Normalmente os dirigentes plantam essas notícias para desviar o foco dos problemas da equipe naquele momento.

Desconfie também quando um clube Y estiver com um elenco péssimo e aparecer a informação de que o craque Z está a caminho. Um craque nunca negocia com um clube de elenco ruim; enquanto para o dirigente é importante dar uma satisfação à torcida para arrefecer as cobranças.

Preste atenção também no histórico do repórter. Caso o jornalista seja conhecido pelo excessivo número de "barrigas" (quando o jornalista publica ou divulga uma informação errada), desconfie quando ele anunciar um grande troca-troca entre clubes.

E, principalmente: desconfie quando as matérias não houver muitas informações de bastidores ou quando o contexto publicado for esquisito demais.

Existem ainda os casos em que a negociação começa de forma verdadeira, mas a transação não se confirma por N motivos. Um exemplo foi quando o meia Márcio Mossoró se destacou no Paulista de Jundiaí. Na semana em que o clube paulista bateu o Fluminense na decisão da Copa do Brasil, Flamengo e Vasco efetivamente negociavam com o jogador.

Mas aí alguns dirigentes de ambos os clubes começaram a passar informações truncadas e tentar tirar partido disso na negociação. No fim, ninguém contratou o jogador.

[N.do.E.: o atleta em questão foi contratado posteriormente pelo Internacional de Porto Alegre. Hoje joga em Portugal.]

Ao longo dos últimos anos, com sites, blogs e redes sociais, a quantidade de notícias imprecisas cresceu ainda mais, devido à necessidade de se ‘subir’ logo alguma matéria antes do concorrente. Como é possível ir editando as matérias publicadas, muitas vezes se acrescenta ou corrige o texto sem que o leitor seja informado dos erros.

Eu, sinceramente, conforme fui ganhando experiência no jornalismo, cada vez menos passei a ler o noticiário de futebol nessa entressafra. Prefiro esperar as confirmações e o jogador vestir a camisa.

Mas para você, leitor: recomendo acompanhar bem de perto essa fase para aprender a separar o joio do trigo a partir de agora.

Flamengo em novas mãos

Na semana em que os rubro-negros (eu inclusive) comemoram o terceiro aniversário do hexacampeonato, Eduardo Bandeira de Mello derrotou Patricia Amorim na eleição para o triênio vindouro.

Minha avaliação sobre gestão Patricia é bem simples. Houve avanços inegáveis na sede social e no centro de treinamento, mas, nas questões relativas ao futebol, o desastre só não foi de 100% porque o Mais Querido não foi rebaixado no Brasileirão. Nunca o Flamengo foi tão achincalhado e motivo de chacota como nesses três anos, pela incompetência dessa diretoria.

Fui sócio do clube por duas décadas, mas, por compromissos profissionais e, principalmente, por estar morando em São Paulo nos últimos anos não acompanhei de perto o processo eleitoral como em outras ocasiões.

Diante disso, só posso dizer o seguinte: espero que a Chapa Azul, vencedora no pleito após o apoio de ícones como Zico e Júnior, retome a tradição democrática do clube e seja 100% transparente, além de cumprir as (inúmeras) promessas de campanha, principalmente a da ruptura com os atuais conceitos de gestão.

Torço muito pelo sucesso de Eduardo Bandeira de Mello e seus parceiros. O sucesso deles nessa jornada será o sucesso de um dos amores da minha vida.

sábado, 10 de novembro de 2012

A Médica e a Jornalista - "Michael Phelps no Complexo do Alemão"



Neste sábado, a coluna “A Médica e a Jornalista”, da Anna Barros, relata a visita recente que o nadador Michael Phelps fez ao Rio de Janeiro.

Aliás, confesso que este post deu a medida exata de como ando alienado: eu só soube que ele tinha visitado o Rio de Janeiro ao ler a prévia da coluna para edição... Lamentável de minha parte.

Michael Phelps no Complexo do Alemão

Foi uma terça realmente muito especial a da semana retrasada, dia 30 de outubro. O grande campeão olímpico da natação Michael Phelps visitou a Vila Olímpica Carlos Castilho, no Complexo do Alemão.

Eu estava a trabalho, mas confesso que fiquei nervosa. Poucas vezes tremi nas bases, e essa foi uma delas: quando o vi se aproximar, ao descer as escadas e ficar muito perto de mim.

Phelps é simpático e sorria o tempo todo. As crianças estavam eufóricas com a sua chegada. A visita ao Brasil tinha o objetivo de divulgar ações de sua fundação, a Michael Phelps Foundation, como dos primordiais. Além de compromissos com seu patrocinador (Visa), que tem uma parceria com o Banco de Desenvolvimento, o BID, e a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer.

Michael fez uma clínica com vinte crianças que praticam natação na vila: ensinou técnica e mostrou isto na prática, ao cair com elas brincando de fazer revezamento. Prestou homenagens: ao secretário de Esportes e Lazer, Romário Gavão, à secretária estadual da mesma pasta, Márcia Lins, e doou 600 kits com maiô, sunga e touca. Não parava de sorrir.

Na coletiva de imprensa, disse que não há limites para se buscar um sonho. Ele nunca se deixou abater ou escutou o que as pessoas diziam. Colocou uma meta em sua vida e a perseguiu até o fim: quebrar o recorde de oito medalhas numa mesma edição olímpica, a de Pequim 2008. Também quebrar o recorde de medalhas conquistadas, 22, em Londres 2012.

Decidiu se aposentar - mas uma vez nadador, sempre nadador. Foi o que mostrou com desenvoltura na piscina da vila olímpica do Complexo do Alemão. Michael estava totalmente despojado, uma pessoa simples, um campeão que tinha muito a doar de seu tempo, carinho e carisma para aquelas crianças.

E acrescentou com humildade: "O que você quer na vida, você tem condições de conseguir. Eu nunca desisto. Essa é a minha filososfia, a filosofia da minha fundação. Quero difundir a natação e trazer segurança para dentro da água e quero levar a isso a todos os lugares", relatou o nadador norte-americano.

Michael não estará competindo a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, mas espera estar aqui, de alguma forma. Docilmente revelou que pretende trazer a sua mãe para vivenciar tudo, o espírito olímpico e a calorosa recepção que teve no Rio, apesar da visita-relâmpago.

Michael Phelps pode até não ser tão rápido como Usain Bolt, o jamaicano que esteve na Vila Olímpica Manoel Tubino, no Mato Alto, uma semana antes, mas seu brilho é tão fulgurante quanto.

Foi um dia especial para mim, de muita sorte. Agradeci, de coração, a Deus por ser jornalista, e por ele me permitir estar tão perto do meu ídolo. Não tiramos fotos juntos, mas só aquela proximidade e o carinho que emanava dele em direção a todos, sem distinção me engrandeceram, valeram o meu dia, minha semana.

O próximo objetivo: comprar o seu livro "Sem limites", que escreveu junto com Alan Abrahamson. E conhecer mais a fundo uma pessoa realmente especial.

Michael Phelps arrematou: "Experiências como essa, tive várias em minha vida. Me divirto bastante. Para mim é uma oportunidade de chegar até elas, é uma honra para mim. Eu estava animado, feliz. É muito especial. Eu me comunico corporalmente com as crianças e foi muito divertido. As crianças vão caminhar nos nossos sapatos no futuro".

Não precisa dizer mais nada, não é? Ele já disse tudo.

Forte abraço e até a próxima,
Anna Barros


(Fotos: Anna Barros)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Bissexta - "O Fantástico Mundo dos ‘Analistas’ Políticos"


Nesta quarta feira, conforme antecipei ontem, a coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro, discorre sobre o papel da imprensa nestas eleições municipais que se encerraram no último domingo, torcendo e distorcendo os fatos para se chegar a conclusões previamente estabelecidas - e, a meu juízo, sofísticas.

O Fantástico Mundo dos ‘Analistas’ Políticos

Na minha adolescência – bota tempo nisso – minha diversão dominical era assistir às mesas redondas que dominavam a programação noturna, marcando a transição do descanso para a volta à escola. Quase sempre uma coletânea de bobagens.

Nunca me esqueço do programa logo a seguir a autorização da CBF (ou será que ainda era CBD?) para que os clubes exibissem propagandas nas suas camisas. Um comentarista de porte (está aí até hoje, embora com menos glamour) vaticinava que a televisão iria se recusar a transmitir jogos, para não fazer propaganda gratuita. Sabichão, não é mesmo?

O domingo, mundialmente conhecido como o Dia do Flamenguista, não teve futebol graças ao segundo turno das eleições municipais, mas nem por isso as mesas redondas foram menos divertidas do que as da minha adolescência. E nem menos fartas de asneiras como a previsão acerca da relação da TV com a propaganda estática.

Na verdade, a diversão começou antes: eu gastei mais de 1 hora do meu tempo ocioso e não criativo para assistir um programa humorístico.

A revista Veja, moderninha como ela só, anda fazendo experimentos em multimídia. Todo dia onde há sessão no STF julgando o Mensalão, o folhetim hebdomadário junta uma patota no estúdio para tecer loas às condenações e descer a lenha na turma do PT.

Infelizmente, alguma coisa deu errado no calendário e o novo herói da Nação precisou interromper o julgamento para ir à Alemanha. Logo, à falta de melhor assunto, os cronistas se dedicaram a fazer previsões sobre os futuros prefeitos.

O programa era dividido em dois blocos: nas cidades onde candidatos oposicionistas lideravam, como Salvador ou Belém, os debatedores vibravam com as projeções e enfatizavam a inexorável derrota de Lula. Já em São Paulo, onde até os ETs sabiam que o candidato petista liderava por ampla margem, a ênfase era lembrar erros históricos dos institutos de pesquisa e dizer que “as ruas” mostravam uma eleição muito disputada.

Eu sinceramente fiquei estarrecido como três pessoas podem mudar de opinião tão rapidamente em algo que está sendo gravado, mas isso não parece incomodar os fãs da Veja. Estes escutam o Reinaldo Azevedo da mesma forma que os vascaínos ouviam o Áureo Ameno no Canal 9: os fatos e a opinião em si são meros detalhes, o que conta é o ódio ao Flamengo – ou, no caso, ao PT.

Abertas as urnas, desconfio que perdi o melhor da festa. Eu liguei a TV na Globo News antes mesmo da eleição acabar e o Imortal Merval já estava por lá, prontinho para explicar a essa gente tola que nada sabe que o resultado das urnas não é tão simples como se poderia pensar.

Por exemplo: a eleição do pedetista Gustavo Fruet em Curitiba não poderia ser encarada como uma vitória dos ministros petistas que bancaram sua candidatura. Afinal, o pedetista eleito, em 2005, foi um empedernido inquisitor de Lula na CPI dos Correios. E o candidato derrotado, Ratinho Jr, é filho do famoso apresentador, esse sim, amigo de longa data do Lula.

Logo, em Curitiba, onde todo mundo pensa que o PT e Dilma venceram, eles, na verdade, perderam. Ah, tá!

Por mim, que sou dado a uns gostos estranhos, ficaria o resto da noite grudado na telinha vendo aquela gente falar das eleições, mas tive uma festinha de criança no meio e fui expulso do sofá para cumprir minhas obrigações de pai.

Não sei bem a que horas voltei, mas já passava muito das 22 horas e o Merval ainda estava lá. Tive a sorte de chegar bem na hora onde ele arrotava indignação pela presença do Maluf na festa do Haddad.

Caramba, o Merval deve ter passado mais de 5 horas ao vivo, falando mal do PT e ensinando aos telespectadores que a Arena, ops, o eixo Demo/Tucano, venceu por ampla margem.

E olha que eu tinha achado que na tal festinha do meu compadre eu tinha presenciado o diálogo mais surreal do ano.

Tinha um palmeirense por lá. Se flamenguista já é raro em Porto Alegre, imagina palmeirense: é o terceiro que conheço, em mais de cinco anos de auto exílio.

O cara perdeu um tempão, para espanto de uns, gargalhadas de outros, tentando nos convencer que a partida entre Inter e Palmeiras seria anulada pelo STJD. Tudo porque o árbitro invalidou um gol de mão do atacante palmeirense, mas só o fez depois de muitas reclamações dos colorados e ouvindo a opinião do quarto árbitro.

Notaram bem o raciocínio?

O juiz anulou um GOL DE MÃO, mas como tinha validado de início, não poderia corrigir o erro. Como o fez, a partida precisa ser jogada novamente, em nome da lisura.

Pena que só tive a ideia agora, mas se há leitores palmeirenses aqui, façam a sugestão chegar aos ouvidos do presidente Arnaldo Tirone: que tal contratar o Merval Pereira e o Reinaldo Azevedo para defender esta causa no STJD?

Não pode haver gente mais habilitada para essa missão inglória,

Primeiro, porque depois de passarem tantos dias comentando o Mensalão, ambos falam de temas jurídicos com muito mais propriedade do que meus antigos professores na Faculdade de Direito.

Segundo, porque ninguém vai ter a cara de pau deles. Pode passar o replay do lance um milhão de vezes mostrando o Barcos fazendo o gol com a mão, mas eles arrumarão um jeito de dizer que o gol foi legal.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

As eleições e o quadro político brasileiro



Eis que, finalmente, as eleições municipais de 2012 já tem todos os seus vencedores conhecidos. Vencedores nas urnas, como candidatos, e vencedores no jogo político do Brasil.

O primeiro deles, indubitavelmente, é o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva. Demonstrando uma vez mais uma análise política aguçadíssima, montou toda a estratégia que permitiu a vitória de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, cidade que vinha sendo mantida como bastião do PSDB e de legendas satélites.

Lula anteviu que o PT somente conseguiria disputar de forma competitiva a cidade paulista com um candidato que soubesse dialogar com a classe média menos reacionária, além de representar uma oposição consistente ao projeto do prefeito Gilberto Kassab, muito mal avaliado.

A indicação de Haddad mostra, também, outra faceta da estratégia petista engendrada por Lula: a de apostar em nomes novos, forçando uma renovação no partido e assim “descolando” a imagem do partido ao julgamento do Mensalão. Esta foi uma aposta vista em várias cidades, tendo na capital paulista seu maior sucesso, inequivocamente.

Quanto ao derrotado José Serra, sua derrota talvez seja boa para que em médio prazo a oposição se reestruture e busque um projeto de poder alternativo. Como bem observou um analista ontem, bastava ver a foto de seu discurso (acima) após o resultado ontem para se perceber que o PSDB, hoje, tem um perfil branco, masculino, idoso e de elite, pelo menos em seus dirigentes e lideranças. Só faltaria ter seu “Tea Party” para ficar igual ao Partido Republicano americano.

Serra emperrou a renovação do partido nestes últimos anos e sua derrota, ainda que ele diga que não irá se aposentar, certamente o tira do quadro para candidaturas ao Executivo. O PSDB irá se renovar na marra, mas é algo que visa a 2018. Aécio Neves deverá ser o candidato do partido à Presidência em 2014, mas é uma luta bastante inglória – até porque ele tem alguns “telhados de vidro” bastante evidentes.

Entretanto, se o PSDB quiser ser uma alternativa competitiva sua doutrina precisa voltar ao espectro de centro, ainda que conservador. Sendo contra as cotas, contra políticas sociais, contra a melhoria do poder de compra dos trabalhadores e pró-americano, como o é hoje, suas chances de voltar ao poder caem consideravelmente. Não me parece haver mais espaço para políticas elitistas ou excludentes em termos de propostas públicas – graças a Deus o Brasil mudou.

A propósito, esta política demófoba implantada por Serra e Kassab sucessivamente em São Paulo parece ter influência considerável neste resultado eleitoral. Vale lembrar que em São José dos Campos, onde ocorreu o lamentável episódio da desocupação de “Pinheirinho”, o PT venceu as eleições após um longo domínio tucano.

Também se ressalte que o PT conquistou importantes prefeituras paulistas e parece estar em uma posição mais confortável na busca pelo governo paulista para 2014. Ainda mais se o próprio Lula vier candidato ao governo estadual, conforme se especula.

Outro resultado muito expressivo para a base governista, onde uma vez mais se viu o dedo do ex-presidente, foi em Curitiba. Candidato pelo PDT com o apoio do PT, após ter sido defenestrado do PSDB, Gustavo Fruet se elegeu prefeito em uma cidade que possui um anti petismo e um anti lulismo arraigados.

Lula teve o mérito de comprar a sugestão dada pela senadora Gleice Hoffman de lançar Fruet e, dado o desgaste do governador Beto Richa, não é mais impossível se pensar que a base governista possa ganhar o governo do estado em 2014. O PT perdeu nas outras cidades em que esteve no segundo turno no estado, mas por margens bem menores que as verificadas em outros anos.

Quanto à oposição, obteve vitórias em capitais de peso menor como Manaus e Belém (com o PSDB), perdeu de forma apertada em Rio Branco e arrasadora em João Pessoa (ambas o PSDB para o PT) e conquistou uma vitória importante em Salvador, ainda mais por significar algum oxigênio ao DEM.

Este resultado de Salvador pode ser explicado pela concomitante má avaliação do governador Jacques Wagner e do prefeito atual João Henrique. Lamento, apenas, que a doutrina representada pelo carlismo arenista tenha renascido devido a isso.

Aqui no Rio é digna de nota a demonstração de força dada pelo ex-governador Garotinho na eleição de São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado. Neilton Mullim, correligionário do ex-governador, ganha uma plataforma consistente para manter Garotinho com importância no quadro político do estado.

Dos municípios do estado do Rio merecem destaque também a eleição do presidente da Inocentes de Belford Roxo Reginaldo Gomes como vice prefeito – em uma chapa encabeçada pelo PCdoB – e a derrota do ex-prefeito e deputado estadual Washington Reis em Caxias, este apoiado pelo governador e pelo prefeito da cidade do Rio.

Outra grande derrotada, ainda que não tenha concorrido diretamente, foi a grande mídia. Esta colheu derrotas expressivas apesar de ter jogado às favas o jornalismo para fazer propaganda partidária aberta e escancarada, mesmo na televisão - que é uma concessão pública.

Mesmo martelando o “Mensalão” de forma tonitruante contra o PT e os candidatos da base governista, o efeito nas votações foi pequeno. O recado do eleitorado em geral foi claro: ao contrário da jurisprudência formada pelo Supremo Tribunal Federal, a corrupção no Brasil não foi inventada em 2003 e os partidos são mais ou menos semelhantes nesta questão. Uma vez mais o povão votou com o bolso.

Contudo esta campanha eleitoral deixou claro que algum tipo de regulação da mídia precisa ser estabelecido, a fim de equiparar o poder da imprensa ao dos poderes constituídos. Não digo moderar conteúdo, mas sim democratizar os meios de comunicação coibindo coisas como a propriedade cruzada e o monopólio de um mesmo grupo nos diversos veículos.

Por exemplo, a Globo aqui no Rio tem televisão, TV a cabo, jornal, rádios, a empresa que distribui TV paga e a estrutura física. Em lugar nenhum do mundo isso é permitido, nem nos Estados Unidos.

A mídia brasileira é a mais desregulamentada do mundo, e qualquer tentativa de se atacar estas questões logo é bombardeada sob o manto da “liberdade de imprensa”. A questão é que hoje, no Brasil, não existe liberdade de imprensa: existe “liberdade de empresa”, que é algo muito diferente – e profundamente anti-democrático.

Mas, sobre imprensa, o colunista Walter Monteiro tratará no post de amanhã de sua coluna “Bissexta”.

Finalizando, cabe destacar que o PSB se afirmou como uma espécie de “oposição de centro”, flutuando dentro e fora da base governista em função de suas conveniências. Não me parece ter organicidade para uma candidatura competitiva à Presidência em 2014, mas pode representar a médio prazo o principal espaço de oposição ao Governo Federal – ocupando o espaço de centro e, consequentemente, o lugar do PSDB.

Entretanto é algo que onde somente mais perto das próximas eleições haverá condições para uma análise mais aprofundada.

(Foto: Estadão)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Sabinadas - "Coberturas bem diferentes"



Excepcionalmente nesta quarta feira, devido ao feriadão, a coluna “Sabinadas”, do jornalista Fred Sabino, toca em um ponto bastante sensível do jornalismo brasileiro: as diferenças de cobertura “in loco” e a partir da sede do veículo, entre outros.

Isto me lembra um entrevero que tive com um destes “jornalistas especializados” em automobilismo (o qual obviamente não cito o nome) pelo Twitter, que terminou com o mesmo recebendo a alcunha de “kicker” (chutador). Ao que parece, o apelido que dei pegou no meio automobilístico...

Mas vamos à aula dada pelo colunista.

Coberturas bem diferentes

A cobertura do automobilismo no Brasil é muito diferente da que é praticada pelos veículos europeus, tanto os impressos quanto os eletrônicos. Não podemos cair na tentação de dizer que aqui os veículos especializados não são confiáveis e lá são acima de qualquer suspeita.

Mas, com o tempo, pude filtrar em quem se pode confiar e, principalmente, quem faz uma cobertura mais técnica.

Este ponto, aliás, é fundamental nesta análise. O público brasileiro não tem o embasamento técnico do europeu. Afinal, nossa cobertura jornalística começou para valer em 1970, quando Emerson Fittipaldi estreou na Fórmula 1 - 20 anos após o começo da categoria (foto). Com uma cobertura de tanto tempo na Europa, o público pôde ser educado.

Todavia o leitor pode se perguntar, e com razão: como até hoje não somos educados tecnicamente?

É um tanto simples responder: como em outras modalidades, tirando o futebol, a cobertura dos jornais e da TV sempre foi focada nos brasileiros, sobretudo nas suas vitórias, e não na competição em si e seus meandros, salvo exceções. Isso continua até hoje.

O automobilismo é um esporte muito visto no Brasil, tem a sua parcela grande de apaixonados, mas os números estratosféricos vistos na época de Piquet e Senna foram turbinados pelos que queriam ver os brasileiros ganhando e não as corridas em si. De qualquer forma, ainda são números importantes. O automobilismo só perde em audiência para o futebol em TV e internet.

[N.do.E.: pessoalmente, não sou destes. Gosto do automobilismo enquanto esporte, independente de termos brasileiros ou não.]

Diga-se de passagem, com o surgimento da internet, vieram a reboque muitos sites especializados e uma nova geração de jornalistas. Só que esses sites (e a maioria dos jornais), até por uma evidente questão de custos, não realizam as coberturas da F-1 in loco e muitas vezes acabam reproduzindo o que sai na Europa.

Aí está a armadilha. Seja por cometerem erros de tradução ou por não vivenciarem o ambiente das corridas no exterior, alguns profissionais acabam não sabendo filtrar o que é certo ou errado, em qual informação se pode confiar e até mesmo qual é a análise mais precisa.

Quando a notícia contaminada vai ao ar, um abraço pro gaiteiro, como diz aquele apresentador popular.

Outro problema é uma prática que infelizmente acontece aqui por parte de alguns "redatores". Consiste em pegar um contexto que se desenha, por exemplo, que um piloto X está em negociação com a equipe Y, e "cravar" a informação em seu veículo mesmo sem ter apurado tal notícia.

No fim, se o chute vai ao gol, o "profissional vaidoso" em seu veículo clama pelo "furo que deu". Quando é a chamada "barriga" não se admite o erro... Ou seja, é mais um aspecto que não ajuda em nada a tal educação a que me referi no começo do texto.

Por isso, afirmo com a tranquilidade de quem já cobriu muitas corridas no Brasil e exterior que uma cobertura técnica, isenta e, principalmente precisa, é praticada na maioria das vezes pelos profissionais que estão nos autódromos, de preferência o ano todo.

[N.do.E.: percebi isso quando estive cobrindo a Stock Car este ano no Rio de Janeiro.]

No jornalismo, infelizmente as imprecisões acabam acontecendo, seja por apuração errada, vaidade do repórter ou por este querer "dar o furo" de qualquer forma. Mas, com o jornalista estando no local, a chance de isso acontecer é menor, pois o profissional aprende a filtrar o que se passa e a entender o lado técnico.

E nisso, por questões históricas e geográficas, ainda estamos muito defasados...