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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sobretudo - "As novelas, a inveja e a dissimulação"


De volta após intervalo, a coluna “Sobretudo”, do publicitário Affonso Romero, fala também da novela Avenida Brasil a partir das características do autor do folhetim, João Emanuel Carneiro.

As novelas, a inveja e a dissimulação

Como já diz o bordão, "a inveja é uma m...".

Pior que a inveja é a dissimulação da inveja. Eu assumo a minha: como escreve rápido meu companheiro de blog Walter Monteiro!

Eu tenho boa aututoestima de texto, mas sou um misto de lerdo e preguiçoso para escrever. O Walter não: ele está em um minuto "conversando" por email conosco sobre um assunto qualquer, de maneira descontraída e quase sempre superficial e, no minuto seguinte, se sai com uma coluna prontinha, com uma bordagem adequada do tema. Sempre com uma visão distinta, na profundidade certa, texto enxuto e direto.

E aí eu vejo que o meu processo criativo é sofrido, espremido. Perco as desculpas, porque o Walter é ainda mais ocupado do que eu, estamos dividindo - e o Editor Chefe ajudando - os desgastes de uma campanha político-clubística e, ainda por cima, ele também acompanha a novela das 21h00. Ou seja, eu não escrevo no mesmo ritmo frenético porque sou lento mesmo.

Inveja e dissimulação, aliás, são dois artifícios recorrentes em novelas, e eu vou aproveitar e pegar uma carona no texto do Walter. "Avenida Brasil" realmente é um sucesso; e a maior parte dele vem da boa utilização destes temas pelo seu autor, João Emanuel Carneiro.

João, aos 42 anos, é ainda jovem no universo batido dos autores de novelas. Domina a técnica do folhetim eletrônico, mas vai incorporando novidades, parte delas inovações de estilo pessoal, parte delas reflexo das mudanças no perfil do público.

Sua carreira na Globo, de pouco mais de dez anos, iniciou-se como colaborador de Maria Adelaide Amaral nas excelentes minisséries de época "A Muralha" e "Os Maias". As séries e mininovelas são uma grande oportunidade de aprendizado porque reúnem as formidáveis condições técnicas desenvolvidas pela teledramaturgia comercial brasileira, o nível excepcional de atuação e direção, os recursos estruturais e financeiros da superprodução. Por outro lado as cobranças de audiência são menos rigorosas, dado que estas obras são programadas para horários menos competitivos. Isso abre espaço para que se possa ousar um pouco mais e fugir dos lugares-comuns do modelo folhetinesco.

Entretanto, quando jogaram Emanuel aos humores do grande público, sua primeira novela como autor titular, "Da Cor do Pecado" (2004), com supervisão de outro craque - Silvio de Abreu - teve média de 43 pontos no Ibope, recorde do horário neste século e marca digna de novela das 21h00. De quebra, fez Taís Araújo emplacar a primeira protagonista negra da história das novelas brasileiras.

Tamanho sucesso o credenciou em 2006 a tentar recuperar o share do horário, desgastado pelo fracasso da desastrada "Bang-Bang" (inovadora demais, mas na direção errada), de Mario Prata. Esta última coincidiu com a evolução da Record no ramo, capitaneada por Tiago Santiago, outro inovador. Pois "Cobras e Lagartos" emplacou uma média de 39 pontos, só perdendo para a marca de "Da Cor...". Novamente, os núcleos "pobre" e "rico" da trama se misturavam com naturalidade, tipos físicos característicos da população comum enriqueciam sem perder seus modos e costumes. Ao contrário, o comportamento novo-rico era objeto de comédia, do ridículo.

Desde suas primeiras obras, na faixa das 19h00, João Emanuel espelhava um Brasil que começou, neste século, e se reconhecer como um país ascendente, sem abrir mão de suas características e contradições. O brasileiro médio deixou de recorrer às novelas como uma vitrine dos hábitos de uma classe superior, uma forma de macaquear e invejar uma riqueza distante. Passou a ter objetivos de consumo bem mais mensuráveis, acessíveis, realizáveis. E quis ver isso na telinha.

João foi o autor que melhor identificou e traduziu isso, de modo que suas novelas trabalham o tema da inveja com um novo enfoque. E o público gosta.

"Avenida Brasil" já é o seu segundo sucesso no horário das 21h00, no qual o autor estreou com "A Favorita" (2008). Nas duas tramas, há um confronto entre duas personagens femininas que se alternam na vilania, movidas seja por malvadeza ou necessidade de vingança/justiça.

Assim como Carminha é humanizada por sua fragilidade, apesar de vilã,  Nina/Rita é, apesar de mocinha, mal comportada, capaz de crueldades e manipulações - coisa impensável numa novela de até uma década atrás. O mesmo jogo de espelhos era protagonizado por Cláudia Raia e Patrícia Pilar (Donatela e Flora) em "A Favorita". Dissimulação, portanto, passa a ser um artifício de vilãs e mocinhas, indistintamente, deixando as novelas de João Emanuel distantes da tradição maniqueista do folhetim clássico. 

Esta proximidade da ambivalência observada na vida real traz nuances ainda mais sintonizadas com o hiperrealismo já anteriormente presente na proposta de atuação e na estrutura técnica (cenários, figurinos, ambientação, som, imagem etc.) das novelas brasileiras - padrão que foi perseguido pela Globo por mais de 40 anos, e copiado pelas demais emissoras. Muito diferente dos dramalhões latino americanos e das sitcoms norte-americanas, estas últimas focadas na caricatura da realidade.

Como foi muito bem definido aqui pelo Walter, o folhetim está para a cultura assim como o hambúrguer está para a gastronomia. Normalmente, eu chego do trabalho bastante tarde. Da mesma forma que eu faço uma refeição leve, normalmente um lanche, desacelero a mente vendo a vida dos personagens passar pela tela.

Quanto mais aquilo me parecer banal, natural, cotidiano - com a honrosa exceção do humor caricatural e despretensioso - menos reflexiva será a minha atitude em frente à tela. A novela não requer minha atenção exclusiva, minha compenetração. Ao contrário, sua reprodução da vida cotidiana, em tons mais ou menos carregados, me lembra de assuntos igualmente comuns, permitem o diálogo familiar livre, leve e solto.

Continuo sem compreender quem assiste às novelas com fervor religioso, gente que não pode assumir compromissos no horário das 21h00, de segunda a sábado, para quem não se pode fazer uma ligação telefônica, nem falar pessoalmente. Para mim, novela segue sendo aquela coisa que a gente deixa passar na tevê enquanto o sono não vem.

E as novelas do João Emanuel são perfeitas para isso.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Bissexta: "Avenida Brasil - A incomparável emoção de torcer"


Nesta quarta feira, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, fala do mais novo fenômeno na televisão brasileira: a novela “Avenida Brasil”.

Avenida Brasil - A incomparável emoção de torcer

Nos círculos que eu frequento (ou melhor, nos que eu valorizo), pega muito mal gostar de novela. Novela é associada a um tipo de cultura muito precária, para paladares intelectuais de baixa exigência – a novela representaria, no universo cultural, o mesmo que o Big Mac representa no ramo da gastronomia. Tanto assim que a última novela que eu acompanhei de verdade foi Vale Tudo, que foi ao ar em 1988 - eu ainda estava na faculdade.

Vi a estreia de Avenida Brasil.

Meu projeto era ver apenas a estreia e ainda assim por uma razão muito particular, que me tocava o coração: o protagonista da novela interpretava um jogador do Flamengo, que faria um gol decisivo em uma final contra um time cheio de referências ao Vasco.

Percebi, de cara, que havia algo de diferente naquela novela: as cenas eram filmadas como em película, assim como nos filmes. E o primeiro capítulo tinha um ritmo frenético, com muita coisa relevante acontecendo. Mas foi só, deixei a novela de lado...

O que sempre me incomodou em novelas é que muda o cenário, mudam os atores, mas não muda a história. Tem um núcleo de milionários, que vivem uma vida de sonhos. Tem um vilão muito mal, que a todos maltrata, em especial a algum personagem muito sofredor. A novela fica um ano no ar, com o malvado praticando todas as malvadezas e a vítima indefesa vai se redimir na última hora. Em paralelo, um monte de histórias inúteis, para encher linguiça.

Percebi que alguma coisa de diferente estava acontecendo em Avenida Brasil quando duas das pessoas mais noveleiras que conheço estavam se queixando da novela. Dei asas para a desconfiança e passei a acompanhar.

Pois olhem: como se diz hoje em dia, ‘garrei amor’ pela novela.

Creio que deva ser a novela com o menor número de personagens. Isso concentra a ação naquilo que realmente importa, que é o embate entre Adriana Esteves e Débora Falabella (essa, a meu ver, um tom abaixo do desempenho espetacular da primeira). Claro que há umas escorregadelas nonsense e desagradáveis, como um bobalhão cercado de três mulheres estúpidas, mas dá para relevar [N.do.E.: não dá para chamar de estúpida a Camila Morgado (risos)].

A melhor surpresa é que não há o insuportável núcleo dos milionários. Todos os ricos desta trama têm origem no subúrbio e tirando o tal bobalhão que vendeu uma empresa para uns espanhóis, ainda moram lá mesmo.

Tufão, o ex-jogador que é o mais rico de todos, tem o mesmo jeitão simples de suburbano: não tem helicóptero, não viaja para a Europa, não tem o típico comportamento de novo rico. Isso gera uma identificação imediata em todos nós: é possível ascender socialmente, seja jogando bola, seja montando uns salões de beleza, sem perder a essência que nos moldou.

E não há propriamente mocinhos ou vilões.

A briga de Carminha x Nina/Rita é uma disputa de muita malícia, com cada uma delas carregando seu fardo de sofrimento e sua cota de maldades. É impossível assistir aquilo e não se envolver. Eu, a cada noite, enquanto lancho, torço para Nina como se fosse possível intervir nos destinos da história.

Só não esqueço de vez essa chatice de Mensalão exatamente porque Carminha está para mim assim como José Dirceu estava para Roberto Jeffferson, ou seja, mexendo com meus instintos mais primitivos.

Impressiona também o grau de verossimilhança do enredo.

Em geral, novelas se pautam por combinar situações absurdas, para conectar núcleos de milionários ao núcleo dos pobres de forma forçada. Desse mal ficamos livres, os personagens se unem de modo natural. Além disso, os suburbanos não são estereotipados: são pessoas de carne e osso, gente como se vê na vida real cotidianamente.

Em resumo, é impossível ficar indiferente à Avenida Brasil.

Uma diversão de muita qualidade, em ritmo acelerado, atores inspirados e cenografia de primeira. Só torço para que acabe logo, para que eu possa me libertar do hábito tão logo as novelas voltem ao seu curso normal, ou seja, um monte de personagens apatetados, plastificados e irreais. Avenida Brasil, com seu sopro de modernidade, é, certamente, uma bela exceção em um gênero que já deu o que tinha que dar.

domingo, 29 de julho de 2012

Orun Ayé - "O País Das Novelas"

Na coluna Orun Ayé de hoje, o compositor Aloísio Villar fala um pouco do novo sucesso das telenovelas brasileiras, “Avenida Brasil” – além de ‘cavar’ o samba de sua autoria na União da Ilha.

O País Das Novelas

Sábado dia 21 de julho de 2012, 21 horas.

Normalmente em um horário desses as ruas “bombam” com gente saindo de casa para se divertir. Mas não nesse dia: as ruas estavam desertas.

Quem estava na rua procurava por uma televisão. Em bares, restaurantes e mesmo na rua todos prestavam atenção no que se passava na telinha.

Uma final de campeonato claro...

... Não, não era. Era uma novela.

Todos, homens e mulheres, velhos e crianças se acotovelavam na frente da televisão e se espantavam em redes sociais com a cena em que a personagem Nina da atriz Debora Falabella era enterrada viva por Adriana Esteves, exuberante no papel da vilã Carminha.

A novela se chama Avenida Brasil, escrita por João Emanuel Carneiro, um sucesso de crítica e público.

Mas por que isso ocorre?

João Emanuel Carneiro, ou JEC como é conhecido nas redes sociais, é um escritor moderno. Começou no cinema sendo roteirista de filmes como “Orfeu” e o consagrado “Central do Brasil”. Fez novelas interessantes como “Da cor do pecado” e “Cobras e lagartos” para o horário das 19 horas e então galgado ao horário nobre.

No novo horário escreveu a novela “A favorita” com uma situação diferente do que se espera delas. Até quase metade da novela não se sabia quem era a mocinha e a vilã entre os personagens de Patrícia Pillar e Cláudia Raia.

A novela foi um grande sucesso: o maior dos últimos anos do horário, assim como suas duas das 19 horas se destacaram entre as maiores audiências do horário dos últimos dez anos.

Até que veio Avenida Brasil.

Avenida Brasil tem algumas situações por traz dela. A primeira que a novela é um gênero que parecia cansado. A falta de renovação nos autores e na linguagem fez com que se tornasse repetitiva. Os grandes novelistas como Gilberto Braga, Gloria Perez, Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa, Silvio de Abreu parecem acomodados, cansados. Já estão consagrados e já ganharam dinheiro suficiente pra viver muito bem.

A última novela foi “Fina Estampa” de Aguinaldo Silva, outro grande nome do gênero. Ele fez uma novela popular, com bons índices de audiência, mas fraca, algumas vezes risível e que não conseguiu agradar.

Aí na reta final dos embates entre as personagens Griselda e Teresa Cristina (respectivamente Lilia Cabral e Christiane Torloni) que algumas vezes lembravam as brigas de dona Florinda e seu Madruga do seriado Chaves começaram as chamadas de Avenida Brasil.

As chamadas já impressionavam. A história de vingança de uma moça que criança foi abandonada em um lixão já despertava a curiosidade do público pela temática diferente. Assim ansiosamente o telespectador esperou o fim de Fina Estampa - que terminou como filme pastelão - esperando a tal novela do lixão.

E João Emanuel Carneiro, considerado por alguns o ‘Paulo Barros’ das novelas, deu uma de Joãosinho Trinta e transformou o lixo em luxo.

Por que essa novela é um sucesso?

Primeiro porque o autor da história consegue colocar nas telas o maior acontecimento nacional da atualidade. Dias Gomes em “Roque Santeiro” mostrou a religião utilizada em fraude e questões políticas. “Vale Tudo”, questões sociais, a falta de limite ético, a corrupção e “Avenida Brasil” mostra a classe C indo ao paraíso: pessoas que subiram na vida vindas da pobreza.

Fora isso, direção irrepreensível, ótima fotografia e atuações espetaculares como de Adriana Esteves, Débora Falabella, José de Abreu, Vera Holtz e Marcelo Novaes entre outros. O autor conseguiu criar uma trama em que a vilã é carismática, a mocinha não é tão mocinha assim e o embate entre as duas já entrou pra história das telenovelas. Carminha e Nina nunca serão esquecidas.

Muita gente torce o nariz para as novelas, tratam como subcultura e alienação. Eu não concordo. Dou minhas rabiscadas e penso que escrever uma novela é mais difícil que escrever um filme ou um livro.

Um livro você escreve com umas duzentas, trezentas páginas, um filme com cento e cinquenta, uma peça de teatro com umas sessenta. Uma novela são cinquenta páginas por dia.

Contando que uma novela tenha mais de duzentos capítulos pode chegar a dez mil páginas!! Imagine você ter que manter uma história com qualidade por dez mil páginas!!

A desvantagem da novela em relação a outras formas de entretenimento é que ela perece. Um livro de Machado de Assis é lido até hoje, como peça de Shakespeare é encenada, “E o vento levou” assistido e Noel Rosa ouvido.

Mas novela quando sai do ar acaba. No máximo depois passa no “vale a pena ver de novo” e agora no “Canal Viva”. Há que ser uma novela boa demais pra sobreviver na lembrança das pessoas e essa parece que vai ficar.

Como algumas ficaram provando que o Brasil é o país das novelas.

Desde “O direito de nascer”, passando por “Beto Rockfeller”, “Irmãos Coragem”, “O bem amado”, “Gabriela”, “Saramandaia”, “O astro”, “Pecado capital”, “Dancing Days”, “Guerra dos Sexos”, “Roque Santeiro”, “Que rei sou eu?”, “Tieta”, “Vale Tudo”, “Barriga de aluguel”,  “Mulheres de areia”, “Renascer”, “A viagem”, “O rei do gado”, “Pantanal”, “Kananga do Japão”, “Xica da Silva”, “A próxima Vítima”, “Terra Nostra” e “A favorita” entre outras..

Agora, “Avenida Brasil”. O brasileiro ama novelas, seus atores, histórias e personagens, não é a toa que será o enredo da São Clemente para o carnaval 2013.

Como disse Carminha e Nina já estão na história da cultura do Brasil assim como algumas falas suas. Isso ocorre mesmo com intelectuais torcendo o nariz achando muitas vezes que novela é coisa para empregada doméstica vendo no quartinho dos fundos. Só que como a própria novela passa, o quartinho dos fundos cresceu e agora assiste novela em tv LCD.

E saiu desses quartinhos ganhando salas, bares e restaurantes como ficou provado sábado. Então caro intelectual que ouvir um “me serve vadia” e não entender: tente descobrir porque falaram.

Porque ignorância não é ter gosto popular, é não entender e nem tentar descobrir o que ocorre a sua volta.

Oi oi oi.

União da Ilha 2013

Como vocês leitores já estão cansados de saber sou compositor de samba-enredo... oh novidade. Ontem começou a disputa na Tom Maior, escola de samba paulistana onde estou concorrendo junto com o Pedro Migão e outros parceiros.

Ontem também começou a disputa na União da Ilha do Governador onde tento o bicampeonato. O Migão postou anteontem letra e áudio do samba, mas claro, faço minha “cavada” e peço para irem até sua postagem ouvir nossa humilde obra.

Foi uma confecção tranquila de samba, com uma parceria muito competente, organizada e me sinto num momento feliz. Já conhecia Vinicius de Moraes. tanto que escrevi uma coluna sobre ele. Mas agora conheço muito mais e posso dizer que estou apaixonado pelo “poetinha”. Que história fantástica, recomendo que todos conheçam mais sobre a vida de um dos maiores brasileiros da história.

A benção, saravá, até um dia. Orun Ayé!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Novela, estímulo ao mal

Antes de mais nada: não, a foto da Ísis Valverde neste post não tem nada a ver com o título. Usei apenas para ilustrar o texto.

Minha esposa, infelizmente, é viciada neste negócio. Se ela estiver em casa, é televisão ligada na novela, com certeza. Normalmente, pego alguma coisa para ler ou pulo para o computador.

Entretanto, basta ouvir cinco minutos que se percebe que a novela - qualquer uma - é um manual de crimes.

Ensina a roubar, ensina a sequestrar, ensina a mentir, a matar, a fugir, a dar golpes financeiros, a usar armas, a enganar e, quase sempre, os que destes recursos se utilizam acabam tendo sucesso. Nas "óperas de sabão", o crime (quase) sempre compensa.

Não me parece coincidência a decadência moral da sociedade e a queda de nível moral das nossas produções. É relação causal. O grosso da população, que não tem acesso à leitura de qualidade, muitas vezes com uma formação familiar, moral e religiosa fracas, acaba se "educando" através da televisão.

Então, o que ocorre ? Ocorre que o cidadão vê a novela, aprende que o certo é enganar, mentir e roubar para subir na vida. Não tem uma formação adequada e reproduz o que vê. Por isso o título deste texto.

Outra coisa é a pobreza das produções atuais. A Índia da novela atual é idêntica ao Marrocos da estória anterior da mesma autora - que, a propósito, só se tornou uma escritora considerada top depois do assassinato da filha.

As tramas básicas são mais ou menos as mesmas: tem o mocinho, o bandido, a mocinha, a bandida, aquele personagem fluido que sempre vive de golpes e sempre "se dá bem", o boa praça que não tem grana, as empregadas (sempre negras ou de idade), o vovô bonachão que sempre é enganado e por aí vai.

Viu cinco minutos de uma, viu todas.

Muito me preocupa a sociedade que esta fábrica de canalhas está gerando. Sem referencial de bons exemplos, tende a reproduzir o que vê na televisão, e aí temos um mundo onde todos reclamamos da falta de ética e de caráter.

Mas aplaudimos estes caras... e xingamos os políticos. Santa coerência...

P.S. - Que fique claro que nem todos serão maus caráteres por assistirem novelas. Taí o exemplo da minha esposa que não me deixa mentir. Uma boa formação nos torna imunes a este tipo de coisa.