Nossa faixa musical traz uma homenagem a Paulinho da Viola,
que completou 70 anos de idade no último dia 12. E retoma o tema tratado há
duas semanas, contando um velório que acabou em confusão.
Seu parceiro na canção de nossa faixa musical de hoje é Ratinho, falecido prematuramente em 2010. Ele é autor de clássicos de Zeca Pagodinho como “Vai Vadiar” e de sete sambas de enredo da Caprichosos de Pilares, entre os quais um Estandarte de Ouro em 1978.
Na música “Meu Camarada” Máximo e Ratinho fazem uma homenagem a Paulinho da Viola, que há alguns anos não compõe de forma regular. É uma bela música, interpretada na gravação que apresento aqui pelo cantor Julio Estrela, revelação das casas de samba da Lapa.
Este é um ponto pelo qual venho me batendo nestas páginas: a memória do samba carioca está morrendo com seus autores. Existe muita coisa boa não registrada em disco para a posteridade. Algo precisa ser feito para fazer o trabalho de resgate que se impõe.
Vamos à letra. O áudio pode ser ouvido no início deste post.
Como escrevi na semana passada, sábado retrasado estive no show de Paulinho da Viola realizado em apresentação única na casa de shows Vivo Rio, aqui no Rio de Janeiro.
Em uma casa absolutamente lotada, Paulinho desfiou grandes sucessos de seu repertório, algumas músicas menos conhecidas e um bloco de canções que jamais haviam sido registradas - uma delas, inclusive, teve parte da melodia aproveitada em "Dança da Solidão".
A memória musical do samba está repleta de canções que jamais foram registradas e que estão se perdendo à medida que os mais velhos estão falecendo e não se registra.
Participaram do show também os músicos João Rabello e Beatriz de Faria, filhos do cantor e compositor e que demonstraram que trazem o talento de berço. Ambos tiveram momentos solo, e João interpretou um choro de forma bastante feliz. Registre-se também a presença na plateia de Elton Medeiros, um dos maiores compositores do samba brasileiro e parceiro de Paulinho em diversas músicas.
Enfileirando sucessos, em muitos momentos a platéia cantou junto, como na própria "Dança da Solidão", "Pecado Capital", "Coração Leviano" - que fez parte do bis - "Onde a Dor Não Tem Razão" e "Foi Um Rio que Passou em Minha Vida" - estas duas, nos vídeos que registrei e disponibilizo aqui neste post.
Também merece menção o fato de Paulinho ter interpretado "Sei Lá, Mangueira" (parceria com Hermínio Belo de Carvalho) e o samba de exaltação da União de Jacarepaguá, escola que frequentou antes de chegar à Portela e na qual foi homenageado em 2009. Neste último caso me surpreendeu o fato de muita gente saber este samba e cantar junto, porque praticamente só o conhece quem frequenta o desfile do Acesso B na Terça Feira Gorda, onde a agremiação hoje desfila.
Sempre é um prazer muito grande assistir a um show do cantor e compositor - como escrevi no post da sexta feira passada - mas faria dois pequenos senões, que não empanam o brilho da apresentação mas soam perceptíveis a um fã mais acurado como eu: primeiro o fato de não ter cantado qualquer canção de compositores da Portela.
E segundo, a meu ver mais grave, foi não ter mencionado à platéia o enredo da azul e branco para 2013, do qual ele é um dos homenageados. Acho que não custaria nada fazer a gentileza de informar a um público que majoritariamente não acompanha as escolas a esta época do ano.
Apesar disso, sem dúvida alguma passei uma noite bastante agradável no último sábado, em que pese o enrolado e lento serviço da casa - é algo que pode melhorar, até porque piorou bastante em relação à minha última ida a esta casa, por ocasião do show de Chico Buarque.
Amanhã, uma vez mais, terei oportunidade de assistir a mais um show de um de meus cantores e compositores favoritos: Paulinho da Viola.
Entre shows solo e combinados com a Velha Guarda da Portela, será a sexta vez a que irei assistir a um show do sambista. Mas já faz quase uma década em que tive esta oportunidade rara pela última vez.
A canção que trazemos, de autoria de Paulinho e interpretada em dueto com Marisa Monte, é "Dança da Solidão", uma de minhas preferidas no repertório de Paulinho. É canção triste e ao mesmo tempo esperançosa, como a letra que disponibilizo abaixo.
"Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão
Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão
Camélia ficou viúva, Joana se apaixonou
Maria tentou a morte, por causa do seu amor
Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado
Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado
Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão
Quando vem a madrugada, meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura
Quem beber daquela água não terá mais amargura"
Complementando, como eu havia previsto Paulinho da Viola será o fio condutor do enredo da Portela para 2013, que enfoca os 400 anos da Freguesia de Irajá - que originou o bairro de Madureira - e os 90 anos da Portela. A sinopse, que disponibilizo abaixo, foi entregue aos compositores e a disputa de samba inicia-se dia 29 de julho.
Aliás, será curioso ver a Portela com uma disputa de samba um mês mais longa em relação aos últimos anos. A sinopse, bela e emocionante, permitirá uma vez mais grandes sambas à Águia.
“Madureira... onde o meu coração se deixou levar”
Rio de Janeiro, 1970.
Avenida Presidente Vargas.
“Nesta Avenida colorida a Portela faz seu carnaval...”
Com o rosto molhado de suor e lágrimas, vejo a minha Escola conquistar a plateia com mais um desfile. Agora com um sabor especial, se aquecendo... “senti meu coração apressado, todo o meu corpo tomado, minha alegria voltar...”
E então pensei:
“Meu coração tem mania de amor...” E que amor é esse que me conquista a cada dia? Que amor é esse que move toda essa gente? De onde vem isso tudo e como essa história começou?
E é isso que vou descobrir.
E assim, com a alma aquecida de emoções, lá fui eu para Madureira, de trem, cantando samba, assim como Paulo Benjamin fazia décadas atrás.
“Eu canto samba
Porque só assim eu me sinto contente
Eu vou ao samba
Porque longe dele eu não posso viver...”
Quero trilhar os caminhos desse povo, como um “peregrino”, descobrir sua gente, sua cultura, sua fé, o seu canto e o seu samba.
Descobrir sua história.
Pisar onde outrora pisaram tropeiros, escravos, boiadeiros, mercadores e imperadores, caminhos de trabalho e suor, onde antes só se viam fazendas, engenhos e fé, afinal toda essa história começa pela fé.
E o povo dança, o povo canta; dança o branco, dança o negro.
“Pisei na pedra
A pedra balanceou
Levanta meu povo
Cativeiro se acabou”
Negros fugidos, negros forros. Festa, jejum e esmola. Samba, dança, música e religião. Enfrentar a dor através da arte.
Casas de umbanda e casas de candomblé, liderança e mistério, atraindo a atenção para a “roça”.
Caminhos de terra, caminhos de ferro.
E o povo vai chegando, de tudo quanto é direção. Imigrantes de dentro e de fora. Os caminhos viram estradas.
Estradas de terra, estradas de ferro.
Chega o progresso e com ele os ambulantes, que depois viram mercadinhos, os mercadinhos viram mercados e os mercados viram mercadões.
E eu... vou seguindo meu caminho.
Vou ouvindo batuques, ritmos e sons. Sons sincronizados, parecendo sapateado. Mas são apenas sons de pés, que dançam, chutam e pulam. Pés que vão construindo outros caminhos. Não importa se num tablado, no asfalto ou na grama, o importante é a ginga, que por vezes me lembra a de um malandro. Como tantos que esta história construiu. Ou como tantos que aqui chegaram para construir outras histórias. Malandros loiros, brancos, mulatos, sararás, crioulos. Assim como as músicas, loiras, brancas, mulatas, sararás e crioulas, ou como se diz agora: black.
“No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança”
E o batuque continua.
Marchinhas, mascarados, coretos, baianas, blocos de sujo, carnaval...
São os caminhos da folia! Caminhos da fantasia, onde cada um é o que deseja ser, onde mulher pode virar homem e homem, virar mulher. E é através da fantasia, do sonho, que nascem duas das maiores Escolas de Samba da história.
E que orgulho hoje ver Portela e Império, juntas, a cantar que esse nosso lugar “que é eterno no meu coração. E aos poetas traz inspiração pra cantar e escrever”.
Madureira é assim. Amor, atividade intensa, vivida com orgulho suburbano, lugar de morada da altiva nobreza popular, pois aqui reside a Majestade do Samba.
“Não posso definir
Aquele azul
Não era do céu
Nem era do mar...”
Tantos são os caminhos, e por eles vou atrás de suas histórias, me sentindo cada vez mais parte integrante dela, deste lugar e destes caminhos, que hoje se encontram mais uma vez, afinal...
Sou Paulo, sou Paulinho, da Viola e da Portela.
E tenho muito orgulho em contar esta história para vocês, afinal... “o meu coração se deixou levar.”
E, agora, o mesmo trem que me trouxe, me leva de volta, e continuo batucando, não mais como Paulo Benjamin fazia, mas como todos os Portelenses continuam fazendo ainda hoje, preservando a sua memória e o seu lugar, que eternamente será conhecido como a “Capital do Samba”.
“Madureiraaa, lá lá laiá.”
Paulinho da Viola,
pelas mãos de Paulo Menezes (e mais uma vez os caminhos se cruzam).
Este enredo é dedicado aos noventa anos da Portela e a todos os portelenses que, infelizmente, não estão mais entre nós, mas que continuam abençoando a Portela lá de cima, do Olimpo dos sambistas.
Já havia algum tempo que um dos meus compositores favoritos, Paulinho da Viola, não aparecia por aqui. Então é hora de relembrar, se deleitar, aprender o supra sumo da poesia e acompanhar a história contada em "Coisas do Mundo, Minha Nega", nossa música de hoje.
A versão que apresento é do DVD "Paulo Cesar Baptista de Faria" (nome de batismo do cantor e compositor), especial de televisão de 1980 e relançado recentemente em cd.
"Coisas do Mundo, Minha Nega"
(Paulinho da Viola)
"Hoje eu vim minha nega
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso
Nas mãos a mesma viola onde eu gravei o teu nome (bis)
Venho do samba há tempo, nega
Venho parando por ai
Primeiro achei zé fuleiro que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Que está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se não dispunha de algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou de seu azar
Hoje eu vim, minha nega
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra pra não perder o valor (bis)
Depois encontrei Seu Bento, nega
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele que sorriu e adormeceu
Hoje eu vim, minha nega
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço (bis)
Por fim achei um corpo, nega
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro a causa da discussão
Foi apenas um pandeiro
Que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, fui-me embora
Ninguem compreenderia um samba naquela hora
Hoje eu vim, minha nega
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo a forma de se viver
As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender (bis)"
Carnaval chegando, semana passada foram as marchinhas... Hoje temos aquela que é a maior homenagem que uma escola de samba já recebeu: Paulinho da Viola, "Foi um Rio que Passou em mInha Vida", feita para a sua querida Portela.
Muita gente pensa que a música é um samba enredo, por causa de sua estrutura. Entretanto, não o é.
Vamos à letra, abaixo. O vídeo é o esquenta na Sapucaí em 1998, último ano em que foi apresentado como tal. Aliás, eu já perdi uma namorada por causa desta música há anos atrás, mas esta é uma história que conto depois.
Mais um final de semana se iniciando, semana de chuvas fortes, sexta feira complicada, vamos de Mestre Paulinho da Viola para iniciar bem o repouso remunerado semanal: "Timoneiro". Uma homenagem a seu aniversário, completado nesta semana.
Paulinho sempre é uma boa pedida. Em quaisquer circunstâncias.
Timoneiro (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho)
"Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
E quanto mais remo mais rezo
Pra nunca mais se acabar
Essa viagem que faz
O mar em torno do mar
Meu velho um dia falou
Com seu jeito de avisar:
- Olha, o mar não tem cabelos
Que a gente possa agarrar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
Timoneiro nunca fui
Que eu não sou de velejar
O leme da minha vida
Deus é quem faz governar
E quando alguém me pergunta
Como se faz pra nadar
Explico que eu não navego
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levar
A rede do meu destino
Parece a de um pescador
Quando retorna vazia
Vem carregada de dor
Vivo num redemoinho
Deus bem sabe o que ele faz
A onda que me carrega
Ela mesma é quem me traz"
Pra começar bem o final de semana, uma música que, para mim, é um auto-retrato.
Meu Mundo é Hoje Composição: Wilson Batista - José Batista
Eu sou assim Quem quiser gostar de mim eu sou assim Eu sou assim Quem quiser gostar de mim eu sou assim
Meu mundo é hoje Não existe amanhã pra mim E sou assim Assim morrerei um dia Não levarei arrependimentos Nem o peso da hipocrisia
Eu sou assim...
Meu mundo é hoje...
Tenho pena daqueles Que se agacham até o chão Enganando a si mesmos Com dinheiro, posição Eu nunca tomei parte Desse enorme batalhão Pois sei que além de flores Nada mais vai no caixão"
Você pode ouvir a gravação do grande Paulinho da Viola aqui.
Abaixo, o vídeo com a música, trecho do espetacular documentário "Meu Tempo é Hoje":