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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte II"


Nesta terça feira, o colunista Rafael Rafic em sua "Made in USA" conclui a análise comparativa entre as sinopses e os sambas das escolas do Grupo Especial para 2013.

Sambas vs Sinopses – Parte II

Continuemos a análise com as escolas que desfilam na segunda feira.

Segunda-feira

1 - São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo
Nota da Sinopse: 8,5
Autores do samba-enredo: Gabriel Mansilha, Nelson Amatuzzi Victor Alves, Floriano do Caranguejo, Beto Savana, Guguinha e Fabio Portugal

Com um ótimo tema e boa sinopse (porém um tanto quanto confusa e esparsa), a São Clemente foi a única escola que optou por uma fusão para 2013. Foi uma fusão clássica: 1 refrão e 1 estrofe de um samba colado com 1 refrão e 1 estrofe de outro – e alterada após a disputa.

O samba é de mediano para bom, não tendo grandes passagens. Tem apenas um refrão final que pega, mesmo não sendo uma maravilha poética nem melódica. É um samba que luta para completar a primeira metade do Grupo, enquanto a sinopse é claramente a quarta melhor do grupo.

Talvez tenha faltado um grande samba. Isso pode ter ocorrido devido à forma confusa com que as idéias foram lançadas na sinopse; ou talvez pela porcentagem absurda que a São Clemente exige dos direitos autorais dos compositores (na ordem de 60%). Mas o fato é que apesar do samba interessante não houve na safra um samba que ombreasse a nota alta obtida pela sinopse.

Resultado: samba mediano inferior a sinopse boa.

2 - Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho
Nota da Sinopse: 4,5
Autores do samba-enredo: Lequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalho

A sinopse mangueirense, não bastasse ser a típica sinopse CEP (louvando um lugar do Brasil), ainda foi pessimamente estruturada.

Porém, a tradicional parceria multicampeã mangueirense capitaneada pelo Lequinho, salvou a Mangueira. Típico caso que o talento do compositor tira samba de onde não tem na sinopse.

É um samba com a cara da Mangueira (cara essa que alguns queriam dar a Portela esse ano também... sorte que não foram bem sucedidos) que fica tranquilamente na primeira metade do grupo em 2013.

Não é por acaso que o samba praticamente não fala da sinopse, porque se começasse a falar demais fatalmente ficaria ruim.

Resultado: samba bom bastante superior a sinopse ruim.

3 – Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari
Nota da Sinopse: 4
Autores do samba-enredo: J Veloso, Ribeirinho, Marquinho Beija-Flor, Gilberto, Silvio Romai e Dilson Marimba

Enredo complicado e falho da Beija-Flor. Ganhou um samba normal que, se não faz parte da primeira metade do grupo para 2013, é melhor do que a sinopse e a trata com certa beleza poética em letra bastante interessante. Afinal essa era a única forma de fazer um samba competitivo na Beija-Flor, abordando o tema, mas sem ser o “pão, pão, queijo, queijo” que mataria o samba.

Resultado: samba razoável, ligeiramente melhor do que sinopse ruim. Possível interferência negativa da sinopse.

4 – Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa”… “Contra a injustiça em defesa do Rio”
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki
Nota da Sinopse: 1
Autores do samba-enredo: Mingau, Deré, Junior Fragga, Mingauzinho e Arlindo Neto

Da sinopse ruim, muito ruim, longa, insossa, longa, chata, doente e quase morta, saiu um samba até aceitável.

Não é um grande samba e provavelmente fica no terço final do Especial de 2013, mas é digno de Especial, tem um refrão final interessante (alias, também se utiliza de três refrões) e é um samba até certa medida legal de se cantar.

Para o desastre que foi a sinopse (tendo comentários inclusive que minha nota 1 foi boazinha, porque o certo seria o 0) esse samba, mesmo nem sendo mediano está acima de qualquer expectativa.

Resultado: samba de ruim para mediano infinitamente superior a um enredo absolutamente desastroso. Culpa total da sinopse.

5 – Imperatriz

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro
Nota da Sinopse: 6

Autores do samba-enredo: Me Leva, Gil Branco, Tião Pinheiro, Drummond e Maninho do Ponto

A Imperatriz trouxe uma sinopse mediana ao estilo CEP. Mas a ala de compositores da Imperatriz é sensacional e faz limonada de qualquer limão.

Mais uma vez tivemos uma disputa bastante acirrada, com 4 ou 5 sambas muito bons. A escolha foi um pouco contestada, mas qualquer escolha seria tendo em vista a quantidade de sambas bons na safra (mais uma vez em Ramos).

O samba da minha preferência (e de muitos outros), um samba ousado do incansável Zé Katimba, caiu ainda na semifinal. Porém os quatro sambas finalistas também tinham apoios consideráveis e chegaram justamente à final.

Dos finalistas, ganhou o meu preferido. É um ótimo samba. Não sei se dá para classificá-lo como o terceiro melhor do ano (atrás de Portela e Vila Isabel), mas com certeza está no terço inicial do Especial.

Resultado: bom samba, superior à sinopse mediana. Influência da qualidade dos compositores.

6 – Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães
Nota da Sinopse: 9,5
Autores do samba-enredo: André Diniz, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Tunico da Vila e Leonel.

Na Vila quando se junta André Diniz, Martinho e Arlindo (já apelidados de “Galácticos da Vila”) não se tem uma competição de samba-enredo: é praticamente um samba encomendado que já se sabe que irá ganhar.

A sinopse é muito boa e foi a surpresa agradável dessa safra. O samba que o representa não fica devendo nada à sinopse. Um samba de altíssima qualidade, que disputaria com a Portela o título de samba-enredo do ano.

Mas não é esse samba que todos andam falando. Para mim inclusive é inferior ao samba da Vila Isabel de 2012, sobre Angola (de André Diniz e Arlindo Cruz), e não teria toda essa repercussão se fosse assinado por Pedro Migão e Rafael Rafic. Mas é uma grande composição, sem dúvidas.

Por fim quero registrar uma incoerência de opiniões influentes do carnaval.

Várias pessoas que incensam o samba da Vila e proliferam aos quatro cantos que esse samba levará a Vila ao título (o que não duvido, ela é a favorita do momento), são as mesmas que defendiam na Portela o samba de Neyzinho. O argumento apresentado é que pela posição de desfile da Portela, última de domingo, ela precisaria de um samba mais “para cima” a fim não deixar o povo cair.

Mas será que essas pessoas não percebem que a Vila ocupa a mesma posição, até pior, já que a Vila encerra o último dia? E será que elas também não percebem que o samba do André Diniz & Cia é até mais cadenciado e “para baixo” do que o próprio samba da Portela?

Então porque para uma o samba cai como uma luva e para a outra não caia?

Alias, se guiando por esse argumento usado em Madureira, o samba escolhido na terra de Noel nem deveria ser esse, já que existiam outros dois sambas “mais para cima” do que o escolhido em Vila Isabel.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos de altíssima qualidade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte I"



Nesta segunda feira de uma semana que é bem curta para muita gente – embora para mim não seja – o colunista Rafael Rafic em sua “Made in USA” traça uma comparação entre as sinopses das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro e os sambas resultantes.

A coluna será apresentada em duas partes: hoje as agremiações que desfilam no domingo e, amanhã, as de segunda feira.

Sambas vs Sinopses – Parte I

Depois de analisar e dar notas as sinopses de enredo do Grupo Especial, o que é incomum no mundo carnavalesco, quero propor aqui no Ouro de Tolo outra análise incomum.

Analisarei os sambas-enredos escolhidos pelas Escolas do Grupo Especial. Mas não quero analisar os sambas-enredo por eles próprios, simplesmente lhes dando notas ou ranqueando-os. Esse tipo de análise teremos aos montes assim que o CD sair, em dezembro.

Quero, aproveitando a análise dos enredos que fiz aqui em julho, comparar a avaliação de qualidade do samba-enredo escolhido pela escola em relação à sinopse da mesma. O intuito é ver o quanto a qualidade da sinopse influenciou (ou não) o samba-enredo.

Mais uma vez, a análise será feita pela ordem de desfile. Começaremos hoje com as escolas de domingo. Amanhã, as de segunda feira.

Domingo

1 – Inocentes:

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves
Nota dada à sinopse na avaliação de julho: 2
Autores do samba-enredo: Billy Conti, Dominguinhos, Ildo dos Santos, Juarez Rosseto, Mará, J.J. Santos e Miri Matéria

A Inocentes vem com um enredo difícil de explicar sobre a história, cultura e imigração coreanas; todas as três desconhecidas no Brasil. Não bastasse, o enredo foi mal elaborado. Porém, mesmo o samba-enredo não sendo um grande samba, ficando no terço final da safra 2013, é apresentável para grupo especial.

Aqui temos o primeiro exemplo do ano no qual os compositores tiraram leite de pedra. Vocês verão que tivemos outros vários, reforçando a tese da “ressurreição” do gênero samba-enredo, já comentada aqui no Ouro de Tolo.

Resultado: samba consideravelmente acima do enredo. Mas ainda sim ambos na segunda metade do Grupo Especial. Influência negativa da sinopse..

2 – Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage
Nota da sinopse: 3,5
Autores do samba-enredo: Marcelo Motta, João Ferreira, GE Lopes e Thiago Daniel

Sinopse complicada, polêmica e, em minha análise, ruim. Isso se refletiu na safra medíocre que tivemos no Salgueiro esse ano. Ao final ganhou o único samba digno de Grupo Especial. Ainda sim é um samba para ficar tranquilamente na segunda metade do grupo e, claro, como eu já adivinhara é um autêntico pula-pula.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos na segunda metade do grupo. Influência negativa clara da sinopse.

3 – Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Nota da sinopse: 6,5

Autores do samba-enredo: Julio Alves, Totonho, Dudu e Elson Ramires

A sinopse é correta, mas sem grandes destaques. Mediana e, pareceu-me, sem o toque especial de Paulo Barros. A safra tijucana foi sofrível, mas um samba se salvou: justamente o campeão. Como cada escola só precisa de um samba por ano, tudo bem.

O samba é mediano, com uma segunda parte até bem ruim (como sempre é difícil fazer letra para enredo de Paulo Barros). Mas teve uma sacada genial no refrão (“metade do meu coração é Tijuca/ A outra metade Tijuca também”) que o faz disputar posições medianas no Grupo.

Resultado: samba acompanhou par e passo a qualidade da sinopse, ambas medianas.

4 - União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Ginho, Junior, Vinicius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra

Aqui, tivemos uma inovação brilhante e uma aula de como se fazer uma sinopse, dada pelo carnavalesco Alex de Souza. Porém, para variar, a Ilha pegou a sinopse, amassou, fez bolinha de papel dela e a usou como bola de basquete para um arremesso certeiro de 3 pontos - direto para a lata do lixo.

O problema aqui é muito mais complicado do que uma simples análise “sinopse x samba-enredo”.

Para começar, a ala de compositores insulana está muito maltratada há anos por sua diretoria, o que fez com que sumissem vários talentos dela. Assim, a qualidade dos sambas vem caindo e não é de hoje.

A isso credito o fato de não surgir aqui um samba fantástico em toda a safra, diferentemente das outras duas escolas que ganharam excelente avaliação de suas sinopses: Portela e Vila Isabel.

Não satisfeita com isso, a Ilha conseguiu a “proeza” de ser a única escola em 2012 que não escolheu o samba que a comunidade queria (e fez isso pelo segundo ano consecutivo). O samba vencedor era o único da final que não tinha qualquer apoio relevante, seja da comunidade, seja da diretoria, seja dos segmentos.

[N.do.E.: mas era o samba preferido do Presidente Ney Fillardi. Samba que, aliás, sofreu mudanças em sua melodia]

Assim, ela simplesmente jogou fora pelo menos quatro sambas bons (sambas de Aloísio Vilar, Almir da Ilha, Marquinhos do Banjo e Carlinhos Fuzil) que, por mais que não chegassem ao “Top 10” da sinopse, ainda salvariam a pátria e disputariam vaga na primeira metade do Grupo.

A Ilha escolheu mal demais o samba e, mesmo com a melhor sinopse do ano (em conjunto com a Portela), ela disputa o “título” de pior samba do ano com a Mocidade.

Resultado: samba infinitamente inferior à sinopse. Prova de que sinopse não é sinônimo imediato de bom samba.

5 – Mocidade

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada
Nota da Sinopse: 5
Autores do samba-enredo: Jefinho Rodrigues, Jorginho Medeiros, Marquinho Indio, Domingos PS, Moleque Silveira e Gustavo Henrique

Já comentei o desastre que foi a sinopse da Mocidade frente ao tema e indiquei que seria complicadíssima para se fazer um samba bom.

Dito e feito. A Mocidade teve 45 sambas concorrentes, mas podia juntar os 45 que não daria um mísero samba digno. Até compositores gabaritados como Diego Nicolau (campeão de 2012) fizeram sambas sofríveis, muito abaixo do que costumam fazer.

No final, levou aquele que a comunidade queria e era o menos pior, mas ainda sim fecha a raia do Grupo Especial - em uma disputa árdua com a Ilha pela lanterna.

Alias, essa é a única nota de sinopse da qual me arrependi. Hoje daria uma ainda menor: 3,5.

Resultado: samba do nível da sinopse, ambos muito ruins. Influência negativa clara da sinopse.

6 – Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do Posto 7

Dessa safra posso falar com bastante propriedade. Pude acompanhar a disputa de samba-enredo desde sua primeira eliminatória até a final. Em um momento inicial, disse que a safra era sofrível com apenas um samba espetacular - justamente o que se sagraria vencedor.

Porém, tenho que admitir que o desenrolar da disputa me fez mudar de idéia. Não quanto ao samba sensacional, que continuo achando sensacional (mesmo com as mudanças horripilantes e insensíveis feitas em sua letra e melodia após o fim da disputa), mas quanto à qualidade da safra.

Hoje classifico mais dois sambas como dignos de irem à avenida se não fosse a obra-prima que o quarteto vencedor aprontou mais uma vez. Além desses, teve mais 2 ou 3 sambas razoáveis na disputa. No que acabou sendo uma safra melhor do que a Portela teve nos últimos anos - e tenho que destacar o papel da sinopse nesse fato.

[N.do.E.: discordo do colunista. A safra da Portela foi bastante fraca e, com boa vontade, além do vencedor somente mais um samba poderia ir para a avenida]

Para a comparação proposta em relação ao samba vencedor, uma excelente sinopse terá um samba a sua altura para representá-la na avenida.

Não coloco o samba acima da sinopse (como se isso ainda fosse possível) por causa das mudanças posteriores (feitas por diretoria e puxador) que pioraram consideravelmente o samba em relação a sua versão concorrente.

Será bastante interessante ver o que ocorrerá com a Portela e o seu sambão vindo logo depois dos dois piores sambas do ano, que virão juntos logo antes de sua entrada na avenida.

Resultado: samba pari passu com a sinopse, ambos em altíssimo nível.

[N.do.E.: infelizmente, as notícias que chegam do barracão da Portela são MUITO preocupantes.]

Até amanhã, com as escolas de segunda feira.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sabinadas - "Sambas melhores do que os enredos"



Nesta quinta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista Fred Sabino, faz uma análise dos sambas escolhidos pelas escolas de samba do Grupo Especial para o carnaval 2013.

Eu irei esperar o cd oficial sair para escrever minhas opiniões – até porque não ouvi as versões finais de todos os sambas ainda – mas nos próximos dias teremos dois posts do colunista Rafael Rafic comparando os sambas às suas sinopses.

Aproveito para registrar o meu protesto quanto às desnecessárias mudanças sofridas pelo samba da Portela (acima, a versão definitiva), que continua sensacional mas que, indubitavelmente, teve bastante do seu brilhantismo podado. Passemos ao texto.

Sambas melhores do que os enredos

Como prometi, segue a avaliação dos sambas-enredo para o próximo desfile do Grupo Especial do Rio de Janeiro.

Admito que quando tomei conhecimento dos enredos, fiquei preocupado. Afinal, nos últimos anos vimos o começo de uma recuperação da qualidade dos sambas e temia por um empobrecimento das obras.

Mas, se o número de ótimos sambas ficou reduzido a dois, pelo menos não temos nenhum daqueles sambas horrorosos que tanto infestaram os desfiles nos últimos dez anos.

Os destaques absolutos da safra, mais uma vez, são Portela e Unidos de Vila Isabel. Os sambas das demais escolas variam entre bons e razoáveis. Como curiosidade o fato de Tinga e Wander Pires terem se destacado nas defesas dos sambas vencedores nas eliminatórias - até perdi a conta de quantas vezes eles cantam.

Preferi não dar notas, pois ainda gostaria de ouvir as versões do CD: sempre há modificações. Mas aqui segue a minha ordem de preferência em relação às obras que vão embalar as escolas em 2013.

Lembrando que é puramente uma preferência pessoal de alguém que curte o gênero samba-enredo e respeita imensamente os responsáveis por escrever e dar melodia à maior festa popular deste país.

1) PORTELA - Mais uma vez os compositores Wanderley Monteiro e Luiz Carlos Máximo presentearam os amantes do samba com uma obra envolvente e que não vai morrer na quarta-feira de Cinzas.

O refrão de cabeça, além da ótima sacada "Abre a roda, chegou Madureira", tem um balanço irresistível. A receita do excelente samba de 2012, com algumas repetições curtas de versos, é feita com precisão ao longo da letra, que casa bem com a sinopse e facilita o canto do componente. E as variações melódicas também se mostram envolventes.

Eu prefiro a versão original das eliminatórias que o samba (desnecessariamente a meu ver) alterado e gravado na voz do ótimo cantor Gilsinho. Mas é o melhor samba de 2013. Por fim, torço para que Wanderley e Máximo continuem rompendo com os padrões e liderem um definitivo resgate do gênero samba-enredo enquanto música popular e não uma trilha perecível.

2) UNIDOS DE VILA ISABEL - A superparceria formada por Martinho da Vila, André Diniz e Arlindo Cruz, como se esperava, nadou de braçada nas eliminatórias e produziu um dos melhores sambas da safra.

A letra conta com precisão a proposta do enredo e tem momentos bem inspirados, como os versos "Agradeço a Deus por ver o dia raiar", "A lua se ajeita, enfeita a procissão" e "A Vila vem plantar felicidade no amanhecer". A melodia também é envolvente e gostosa de ouvir.

Resta saber como o samba ficará na gravação e no desfile com o estilo mais aguerrido e "vibrante” de Tinga em relação ao "romântico" de Wander Pires. Em 2010 o samba de Martinho sobre Noel Rosa foi bastante modificado e gostaria que isso não acontecesse.

3) IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE - Fiquei decepcionado com a escolha do samba da tradicional e laureada escola de Ramos.

Calma! Não que o samba vencedor do Me Leva (vencedor recente de dois prêmios Estandarte de Ouro) e seus parceiros seja ruim: muito pelo contrário, melodia e letra são de grande qualidade. Aliás, a interpretação do jovem Thiago Britto na versão das eliminatórias foi extraordinária.

Mas a obra do Zé Katimba, que ficou pelo caminho, era daquelas para serem lembradas por muito tempo. De qualquer forma, como já vem sendo rotina, a GRESIL, que a meu ver tem a melhor ala de compositores da atualidade, terá uma obra muito competente na passarela.

Vamos ver se os problemas de desfile vistos nos últimos anos se repetirão. Tomara que não e a escola de Ramos faça uma apresentação digna de seus grandes momentos.

4) ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA - Confesso que, enquanto mangueirense, fiquei inicialmente preocupado com o samba devido à escolha do enredo sobre Cuiabá.

Mas a obra de Lequinho e seus parceiros me deixou muito mais tranquilo para o desfile (risos). Embora o samba não esteja no nível dos dois anos anteriores, o resultado ficou bem positivo. O refrão de cabeça tem ótima pegada, com a teoricamente óbvia - mas bem-feita - rima entre Jequitibá (remetendo ao clássico samba "Jequitibá") e Cuiabá.

A melodia também mescla essa pegada característica dos sambas mangueirenses com uma letra direta e de momentos inspirados. A Estação Primeira muito bem representada no desfile em samba. Tomara que o acabamento das alegorias, ponto fraco dos últimos desfiles, melhore com a verba generosa do governo local.

5) UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR - Numa das eliminatórias mais disputadas do ano, o samba composto pelo Ginho e seus parceiros venceu.

A obra que contará a vida de Vinícius de Moraes é bastante correta e tem bons momentos, mas, como o enredo da agremiação insulana é um dos melhores do ano, esperava um pouquinho mais da letra e da melodia no geral. Mas, com a competência do Ito Melodia e a garra dos componentes, o samba deve crescer e a Ilha (uma escola pela qual tenho grande simpatia e sempre torço para ir bem) tem tudo para fazer um belo desfile.

6) ACADÊMICOS DO GRANDE RIO - O samba do Mingau e cia. também era o melhor das eliminatórias e vai representar bem a escola.

A obra me agradou principalmente na sua segunda parte, com letra e melodia superiores à da primeira. Como curiosidade, o curtíssimo refrão principal lembra a ideia daquele do Império Serrano de 1988  ("Dá cá o meu, dá cá, me dá o meu!/ O povo carioca quer aquilo que perdeu").

O enredo foi outro que não me agradou, pois me pareceu panfletário demais. Mas vamos ver no desfile, já que a Grande Rio tem uma bela estrutura de carnaval e faz desfiles sólidos.

[N.do.E.: o samba a meu ver tem um problema sério que não é dele, vem da sinopse: os erros conceituais na definição de royalties.]

7) BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS - É um samba no padrão Beija-Flor.

Ou seja, bem feito de letra, com boa melodia (na versão da eliminatória, vale exaltar, muito bem cantado por Tinga e Luizinho Andanças), mas que não causa lá uma grande emoção, até porque o enredo, para meu gosto, não combina com samba.

A não ser que Neguinho esteja num dia muito inspirado e a escola faça uma apresentação de impacto, o que nos últimos anos não aconteceu mesmo no desfile sobre Roberto Carlos, é um samba que vai render boas notas, mas não sei se vai cair no gosto popular.

Posso estar errado, claro, até porque não se pode duvidar de nada vindo da gigante Beija-Flor.

8) INOCENTES DE BELFORD ROXO - Depois da polêmica vitória no Acesso em 2012, a escola da Baixada chega ao Grupo Especial com um samba do Billy e parceiros, vencedores numa disputa com nada menos do que o campeoníssimo Cláudio Russo.

E a obra ficou muito interessante, com uma melodia agradável e letra correta sobre a Coreia do Sul. A escola tem a ingrata missão de abrir o desfile, vamos ver se o samba consegue funcionar com todo mundo ainda frio. Mas foi uma boa escolha e quero ver como vai ficar na voz do excelente cantor Wantuir no CD.

9) UNIDOS DA TIJUCA - O enredo sobre a Alemanha rendeu um samba que descreve bem o enredo, mas sem o impacto que se deseja para uma escola campeã.

Sinceramente, se eu fosse desfilante teria certa dificuldade para memorizar a letra. Na versão das eliminatórias, o Wander Pires deu aquela caprichada nas reverberações. Vamos ver como o samba vai se adaptar na voz do Bruno Ribas, que, costumam dizer por aí, tem um estilo parecido.

Mas esperava mais da Tijuca, tomara que o samba não se arraste no desfile.

10) ACADÊMICOS DO SALGUEIRO - Como vem sendo rotina no Salgueiro, é uma obra "pra cima".

Só que, ao contrário dos últimos quatro anos, quando os sambas funcionaram muitíssimo bem (a ponto de renderem um título em 2009, vices em 2008 e 2012 e um potencial título em 2011), é uma obra que não me agradou tanto, apesar de o refrão principal ser daqueles "grudentos" e de fácil canto.

É que realmente prefiro sambas mais clássicos, sem versos como "se vacilar, cair na rede, vão criticar, o que é que tem?", "tá na capa da revista", "se você quer saber, espera" e "vida de celebridade é um vai e vem".

De qualquer forma, o samba até que supera o enredo sobre fama e o Salgueiro, capitaneado pelo excepcional carnavalesco Renato Lage, obviamente vai fazer um desfile para brigar em cima apesar da péssima posição de desfile. Vamos ver como o samba e a escola se comportam.

11) MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL - É uma análise parecida com a do Salgueiro.

Embora abaixo de obras anteriores da agremiação, o samba do Jefinho e seus parceiros era o melhor das eliminatórias e se mostra um tanto melhor que o enredo sobre o Rock in Rio.

Isso, apesar de também ter versos como "a minha popstar chegou rasgando o céu" e "na apoteose e nova edição, overdose de emoção". A cabeça do samba e o refrão central são elogiáveis, mas será que o rock vai dar samba?

12) SÃO CLEMENTE - Mais uma vez a escola da Zona Sul aposta num samba leve e de letra simples para contar a história das novelas.

Samba, aliás, oriundo de uma junção, que ficou aceitável. Confesso que o enredo não me agrada, mas pelo menos ficou uma obra irreverente com a cara da São Clemente. Porém, tecnicamente fica devendo aos outros sambas da safra.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Sabinadas - "Enredo Complexo"


Excepcionalmente nesta sexta feira, a coluna "Sabinadas", do jornalista - e mangueirense - Fred Sabino, fala um pouco sobre os enredos do carnaval 2013 e sua característica "mercantilista".

Enredo Complexo

Mais um Carnaval está chegando e, depois de um 2012 com alguns bons enredos, veremos na Marquês de Sapucaí temas com conteúdo duvidoso. Enredos que, para falar o Português claro, não acrescentam ou acrescentam pouquíssimo, ou mesmo nem sequer servem para proporcionar um desfile no qual o componente se divirta.
 
É evidente que cada escola tem liberdade para escolher seu próprio enredo e elas não precisam repetir uma fórmula todo ano. Entendo ainda que as agremiações precisam de recursos. Mas reflitamos: enredos sobre Alemanha, Rock in Rio, Cuiabá, Coreia do Sul, mangalarga marchador, novelas, petróleo são mesmo condizentes com essa festa popular?

Isso, como já foi amplamente explanado aqui no Ouro de Tolo, só confirma a mercantilização de muitos aspectos numa escola de samba: desde a escolha do tema em si (hoje, enredos de verdade são poucos), do samba-enredo e até dos profissionais (alguns, muitíssimo bem pagos).

Nos últimos anos, a Estação Primeira de Mangueira até que teve bons enredos sobre música, Nelson Cavaquinho e Cacique de Ramos, mas também temas totalmente "merchan" como energia (2005). Em 2013 falará sobre Cuiabá, com contribuição generosa do governo local. E, em 2008, a escola deixou de homenagear o centenário de Cartola para cantar o frevo. Com aporte financeiro, claro.

[N.do.E.: vale lembrar que a Mangueira preteriu o centenário do grande Jamelão para 2013. O magistral intérprete será enredo da Unidos do Jacarezinho, na Série Ouro, escola que é uma espécie de "filial" da verde e rosa.]
 
A Portela, a grande Portela, ano passado renasceu com o enredo sobre as festas da Bahia e, em 2013, levará a história de Madureira para a avenida. Muito bacana! Só que, mesmo tendo estes enredos mais culturais, nos anos anteriores também repetiu esta forma de enredos patrocinados. 
 
Ainda que tenha havido esta mudança de orienrtação, são enredos abaixo de momentos clássicos da Majestade do Samba, que infelizmente não faz um desfile épico desde 1995. O desfile de 2012 foi empolgante, mas ainda aquém do que a Portela pode pela sua grandeza, mesmo indo na contramão dessa tendência mercantilista.
 
A Vila Isabel também é outra que vem alternando bons e maus enredos. Chegou a exaltar o centenário de Noel Rosa, mas fez enredos pagos sobre a Venezuela, sobre cabelos e sobre Angola, embora este último tenha proporcionado um belo desfile porque a escola foi muito competente e tem tradição em falar das raízes africanas

Outras escolas como Salgueiro, Tijuca, São Clemente, Mocidade, entre outras, também vêm alternando boas e más escolhas de enredos, motivadas por dinheiro ou não.

O que temo (e por enquanto vai acontecendo) é que esse decréscimo da importância dos desfiles de escola de samba cresça a cada ano. Afinal, se os enredos já são natimortos, os sambas na maioria das vezes também não atraem o público (ou telespectadores) para o desfile e o Carnaval vira meramente um concurso de escola de samba e não uma confraternização popular, o que seguraria a atenção do público?
 
[N.do.E.: tanto eu quanto o colunista Aloisio Villar, compositor de samba enredo, divergimos em parte. De 2010 para cá começa a haver um tímido renascimento do gênero samba de enredo.]
 
Será que apenas a grana, seja dos ingressos, da TV ou dos patrocinadores, será suficiente para manter o Carnaval do Rio no imaginário popular?

Ou ninguém está aí para isso?

P.S.: na semana que vem comentarei os sambas de 2013 do Grupo Especial do Rio.

domingo, 21 de outubro de 2012

Orun Ayé - "Os Autônomos e os Sambas 2013"



Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, traça um perfil preliminar dos sambas de enredo do Grupo Especial para o carnaval 2013.

Complementando a informação do colunista, Cláudio Russo sagrou-se campeão na Beija Flor na última quinta feira.

Por outro lado, por determinação exclusiva da diretoria da escola o samba da Portela sofreu alterações significativas para a gravação oficial, que tiraram boa parte do brilhantismo da composição. Continua sendo um dos melhores para 2013, mas perdeu qualidade, infelizmente.

Os Autônomos e os Sambas 2013

Nesse momento em que escrevo (final da noite de quarta) faltam apenas dois sambas no Grupo Especial do Rio de Janeiro para serem escolhidos. Nessa última madrugada duas escolas fizeram suas finais: Imperatriz Leopoldinense e Inocentes de Belford Roxo. Ainda faltam duas, Beija-Flor e Unidos da Tijuca.

E o que acho dos sambas pra 2013?

Sei lá, não conheço quase nenhum.

Bom, pelo que disse acima devia encerrar aqui essa coluna sobre os sambas do ano que vem, né?  É, poderia, mas dá para avaliar assim mesmo até porque o estilo dos sambas, as parcerias que venceram e a qualidade que cada escola nos oferece não mudaram muito durante os anos. Além disso, está tudo muito parecido com 2012.

A diferença é que não estou no CD. 

Algumas surpresas aconteceram, como a escolha da Inocentes nessa madrugada. Cláudio Russo perdeu. Ganhou a parceria do Billy. Ainda não ouvi o samba, mas ele foi bastante elogiado na escolha.

Essa eu acho que ninguém esperava. Cláudio Russo, compositor oriundo da Portela, é um dos melhores compositores da atualidade. Costuma escrever com qualidade e grande estrutura para várias escolas de quase todos os grupos do carnaval carioca.

Apesar de negar, o Cláudio é um dos símbolos do que chamamos hoje em dia de firma ou escritório. Compositores que sem assinar colocam sambas em várias escolas, pegando compositores dessas escolas para assinar seus sambas. O esquema firma/pombo (nome dado a quem assina sem escrever) ainda tem seus segredos e obscuridades muito por culpa desses compositores que não assumem a prática - que não é ilegal.

Vários sambas escolhidos no Especial do Rio esse ano e em outros anos chegam ao público com essa suspeita de pertencer a firmas.

Não vou aqui apontar quais sambas são de firmas ou suspeitos de ser, apesar de saber alguns. Seria leviano e antiético. Quem acompanha de perto os concursos de samba-enredo sabe só de ver qual cantor defende o samba na quadra e o estilo da melodia.

Antigamente a gente ouvia um samba e dizia só na audição que era de escola A ou B; hoje ouvimos e falamos que é de compositor A ou B.

Mas se tudo caminhar bem o Russo ainda deve emplacar um samba assinando no Especial. Na Beija-Flor de Nilópolis é  franco favorito e pode significar a primeira vitória de Miguel Menezes na agremiação. Ele foi bicampeão na União da Ilha em 2003/2004 e há anos busca esse título em Nilópolis.

Na Tijuca não ouvi muita coisa, mas como sempre deve ficar entre as parcerias do Josemar Manfredini e do Totonho (detalhe, todos os sambas já estarão escolhidos quando a coluna for ao ar). Ouvi o do Josemar e gostei, é padrão dos últimos anos da Tijuca - que mesmo com algumas pessoas torcendo o nariz leva ao título.

Mangueira foi a primeira a escolher e escolheu samba da parceria do Lequinho, compositor tradicional da escola e campeão não só nela como em muitas escolas. São Clemente inovou e fez junção. A junção propriamente dita não foi novidade: a novidade fica por conta de Gabriel Mansilha que em sua estreia como compositor, assinando sozinho, conseguiu vencer um concurso no grupo especial. Isso é algo dificílimo.

Salgueiro e Mocidade a meu ver escolheram sambas melhores que seus enredos e principalmente ouvindo o que suas comunidades queriam. Fico feliz especialmente pelo amigo Marcelo Motta. Cara formidável, humilde, um dos caras mais bacanas que já conheci no samba - que chega ao seu quarto título na Academia.

Imperatriz escolheu o samba da parceria do Me Leva. Apesar de muita gente da escola preferir o samba do Zé Katimba, o samba é bom e foi bem aceita sua vitória. Nas duas últimas vezes que essa parceria venceu o concurso venceu também o Estandarte de Ouro de melhor samba, provando que tem qualidade.

A Grande Rio também escolheu uma parceria tradicional de sua escola, a de Mingau e Cia. Esta era pule de dez na disputa da agremiação e a escola cantará seu bom samba em defesa do Rio.

Agora vou falar das três escolhas que mais me chamam a atenção. Por minha proximidade com a escola ou pela qualidade dos sambas.

A escolha da União da Ilha surpreendeu quase todo o mundo do samba e mais uma vez, como em quase todos os anos, provocou polêmica.

Mas só quem não acompanha o Ouro de Tolo se surpreendeu com essa vitória. Na coluna que escrevi aqui semana passada eu apontei o favoritismo para o samba do Ronald, mas disse que crescia muito o rumor da conquista desse samba. Disse que os quatro podiam vencer, mas foquei mais o favoritismo nesses dois - quando a grande mídia apontava os outros dois.  

Pois bem, os outros dois, os que a mídia e as pessoas que acompanhavam pela internet esperavam chegaram sem chances na final. Eram bons sambas, como o samba do Marcinho que era o que eu mais gostava, mas pesou contra as duas parcerias os quatro anos de vitórias que seus líderes tinham.

Ficou entre os outros dois, mas logo no começo da final vazou o campeão. O samba do Ginho é um samba correto, com uma letra muito bonita, mas em alguns pontos a melodia cansa. Confio em seu crescimento na voz do Ito Melodia e a ressaltar a alegria de ver o Ginho, uma pessoa muito digna, correta e talentosa vencer na Ilha usando sua experiência de vida. Além de estar aliado à juventude e garra do Junior que nunca desiste da luta e tem um grande futuro pela frente.

Falar o que de Vila e Portela? Ganharam os sambas que eu previ e fiz coluna aqui há um bom tempo atrás. De novo as duas escolas, de novo as duas parcerias, de novo comandando o carnaval carioca.

As parcerias campeãs de Portela e Vila são iguais e muito diferentes e nessa diferença se completam e formam uma nova rivalidade no carnaval carioca, mas uma rivalidade sadia. É boa porque em cada canto de quadra ou roda de samba vem a discussão “qual o melhor samba?”.

A Vila formou uma parceria que o Migão apelidou de “galáctica” e é uma super parceria sim. É comandada por Arlindo Cruz, um dos maiores nomes do samba atual, Martinho da Vila, um dos grandes nomes da história do samba e de Vila Isabel e André Diniz, um dos melhores do nosso carnaval atual e dono de sambas memoráveis.

Sobre o André vem a pecha também de ser comandante de uma firma de samba-enredo. Mas seu talento suplanta todo o ‘disse me disse’, principalmente com os sambas que fez nos últimos 20 anos pra Vila Isabel e a junção desses três craques e seus parceiros fez um dos grandes sambas do ano.

Na Portela é o contrário. São nomes que já contavam com respeito no samba, na MPB, mas que do ano passado pra cá decidiram virar o mundo do carnaval de cabeça pra baixo.

Wanderley Monteiro e Luiz Carlos Máximo foram os donos do carnaval 2012 com o “Madureira sobe o Pelô” que apelidei numa coluna aqui de “Barcelona dos sambas”. Conseguiram repetir a dose esse ano abrindo a roda e anunciando que lá vinha Madureira.  

Em um carnaval que hoje é dominado pelas firmas, posso dizer que Wanderley, Máximo e seus parceiros são os “autônomos do samba”, trabalhando por conta própria, fazendo seus sambas sem inspiração vir de gente de fora.

E por incrível que pareça isso é raro hoje em dia. Uma parceria que assina o samba e onde sabemos que foram eles que escreveram o mesmo.

Qual o melhor samba? Não sei e sinceramente nem me interessa muito. Em vez de discutir essas coisas prefiro apreciar os dois grandes sambas.

Não dá ainda para fazer um ranking dos sambas 2013, dividir entre bons e ruins. As escolas ainda estão na fase de gravação do coro, ainda farão gravação oficial com os cantores, mixagem, lançamento das faixas, ensaios técnicos.

Mas a princípio me parece seguir uma tendência que vem desde 2010. Um bom cd com alguns sambas se destacando e mostrando enorme qualidade. 

Enquanto você fica aí ansioso esperando as gravações oficiais, vá em www.sambaderaiz.net. No site tem meu concorrente no Boi da Ilha e meu concorrente junto com o Migão no Acadêmicos do Dendê. As duas finais serão realizadas nessa próxima semana.

Começou o carnaval 2013. Orun Ayé!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Abre a roda, chegou Madureira!


Antes de mais nada, peço desculpas aos leitores por somente estar colocando o resultado aqui hoje. Passei o final de semana acompanhando parente internado em hospital e pouco pude estar em casa.

Feita a necessária explicação, é com alegria que informo aos leitores que mais uma vez a Portela escolheu aquele que pode ser o samba do ano, tal e qual 2012.  A parceria de Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto Sete é quem assina o samba para o carnaval 2013, para gáudio dos verdadeiros portelenses e do escriba deste post.

Aliás, na última quinta feira este blog acertou na mosca o resultado.

Não nego que sou amigo de um dos autores do samba, mas em termos de Portela sempre torço para aquela que é a melhor composição a nos representar na avenida. Quando coincide, como ocorreu nestes dois últimos anos, melhor ainda.

Vale lembrar que este resultado portelense sinaliza uma mudança importante na política da escola. O Diretor de Carnaval Júnior Scafura, imbatível outrora, é derrotado pelo segundo ano consecutivo. Isso deve ter reflexos nas eleições que se aproximam na escola, logo após o carnaval de 2013.

O samba campeão ainda teve de superar uma apresentação problemática da bateria para obter a vitória na última sexta feira. Mas o Portelão lotado levou o samba no gogó e deixou claro que era a melhor opção para representar a Águia no desfile oficial.

Este resultado também é importante por significar a resistência portelense às chamadas "firmas" de samba enredo, grandes ajuntamentos de compositores que escrevem em várias escolas. Os autores do samba portelense para 2013 são da casa, e, mais importante: quem assina é quem realmente faz.

Vamos à letra do samba campeão, que deve sofrer pequenos ajustes na melodia para sua gravação oficial:

"E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios 
Por onde me deixo levar 
Laiá 
Nossa história começa por lá 
No engenho da fazenda 
Dos cantos de “canaviá” 

Bate o sino da capela 
Ôi... Que é dia de santo, sinhá

Tem mironga de jongueiro 
O tambor me chamou pra dançar

Tempo rodou na roda do trem e veio 
A inspiração do partideiro 
Que versou no mercadão 
Foi nesse chão 
Que a estrela brilhou no tablado 
O “madura” pisou no gramado 
O malandro charmoso dançou 
No pagode com outro gingado 
Quando o bloco chegou 
Agitou o suingue do black 
E a nega baiana girou

Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer

Surgiu a Serrinha imperial 
Em outros caminhos para o mesmo ritual 
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar 
É a capital de um sonho que me faz sambar

Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá"


Sobre outras escolas, como já se sabia desde priscas eras, a parceria "galáctica" da Vila Isabel (André Diniz, Martinho da Vila e Arlindo Cruz) venceu a disputa e deve disputar com o samba portelense os prêmios de melhor do carnaval 2013.

A meu juízo, é um samba muito bom, mas que talvez não obtivesse a repercussão que teve se não tivesse as assinaturas famosas que tem. Por outro lado, a disputa da Vila se configura complicada, porque André Diniz, dono de um imenso talento, possui uma posição de poder bastante monolítica dentro da agremiação, o que torna bastante desigual a disputa.

O leitor pode ver abaixo a apresentação do samba vencedor.


Na União da Ilha, uma vez mais a política prevaleceu na escolha e, em minha opinião e na de muitos analistas, se escolheu aquele que era o pior samba da final, o da parceria de Junior, Ginho e outros. Vinícius de Moraes merecia um samba mais melodioso e, acima de tudo, menos chato. Pena.

Aliás, este é um ponto que se deve frisar: as escolhas como um todo vem privilegiando fatores políticos acima de outros fatores, com raras exceções como a ocorrida na Portela. A qualidade do samba, decididamente, vem ficando em segundo plano na maioria das agremiações.

Além disso as chamadas "firmas" de samba enredo este ano estão consolidando seu domínio absoluto, em especial no principal grupo de escolas cariocas.

Ressalte-se também a escolha da Grande Rio, que optou por uma composição até bastante razoável tendo em vista o enredo panfletário sobre os royalties do petróleo.

A safra de samba 2013 vem se configurando até bastante razoável tendo em vista a quantidade de enredos disparatados escolhida este ano. Dois sambas de antologia (Portela e Vila, novamente) e alguns bastante interessantes.



(Vídeos: Carnavalesco)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Finalistas da Portela 2013


Amanhã, dia 12 de outubro, feriado da Padroeira do Brasil, a Portela irá escolher o samba enredo que será o hino oficial da escola para o carnaval de 2013.

Devido ao feriado e ao fato de que a feijoada oficial será realizada no dia 13, sábado, a final será realizada em horário alternativo: irá se iniciar às 19 horas, com o resultado previsto para algo em torno de uma hora da manhã. Pessoalmente, faria ainda mais cedo, mas achei uma boa iniciativa da diretoria da escola.

Como escrevi nos dois posts de agosto, após a primeira eliminatória, a safra de 23 sambas acabou se revelando aquém do que se poderia esperar pelo enredo. Como também escrevi naquela ocasião, o afastamento de vários dos principais compositores da disputa portelense acabou se refletindo diretamente na disputa de samba deste ano.

Temos quatro composições nesta grande final de amanhã. Já digo ao leitor que pelo menos duas delas, a meu ver, não apresentaram desempenho para estarem presentes nesta final, mas temos de respeitar o critério utilizado.

Ainda assim a Portela tem tudo para levar um samba extraordinário para a avenida. Um a um, vamos aos concorrentes, lembrando que tudo que está escrito neste post é minha opinião pessoal em cima do que vi na quadra nas duas eliminatórias a que estive presente e em demais fatores que observei.

Vamos aos finalistas, um a um.

1) Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto Sete.



A parceria atual campeã (no alto em gravação das oitavas de final e acima, da semifinal), como já escrevi aqui outras vezes, conseguiu fazer uma composição ainda melhor que o espetacular samba de 2012. Remetendo à curimba e ao partido alto em sua melodia, trilha um caminho diferenciado em sua melodia. A letra descreve o enredo sem se prender à descrição da sinopse.

Não diria que a fatura está totalmente liquidada, mas a meu ver é a franca favorita à vitória, pela altíssima qualidade do samba e por suas últimas apresentações. Abaixo o leitor pode ver a letra:

"E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios 
Por onde me deixo levar 
Laiá 
Nossa história começa por lá 
No engenho da fazenda 
Dos cantos de “canaviá” 

Bate o sino da capela 
Ôi... Que é dia de santo, sinhá

Tem mironga de jongueiro 
O tambor me chamou pra dançar

Tempo rodou na roda do trem e veio 
A inspiração do partideiro 
Que versou no mercadão 
Foi nesse chão 
Que a estrela brilhou no tablado 
O “madura” pisou no gramado 
O malandro charmoso dançou 
No pagode com outro gingado 
Quando o bloco chegou 
Agitou o suingue do black 
E a nega baiana girou

Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer

Surgiu a Serrinha imperial 
Em outros caminhos para o mesmo ritual 
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar 
É a capital de um sonho que me faz sambar

Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá"

2) Neyzinho do Cavaco, Flavio Viana, Charles Braga, Celso Lopes e Fadico



Este é o outro samba que pode se sagrar vencedor, embora a meu juízo com menores chances que a parceria anterior. Segundo a "rádio corredor", na verdade a composição seria de autoria de uma das maiores firmas de samba enredo do Rio de Janeiro. Embora obviamente nada se fale de forma oficial, faço o registro do burburinho - coisas de disputas.

Além disso, seu refrão principal é muito semelhante ao de um outro samba (parceria de Marquinho Marino), que é finalista na Mocidade Independente também para 2013 e que tem os seguintes versos, bastante semelhante ao do samba em questão: 

"Eu sou Mocidade e quero respeito!
São cinco estrelas bordadas no peito
Nós vamos à luta... Fazer diferente
É rock in rio... Sou a ''tribo independente''

O refrão do finalista portelense é o seguinte:

"Vinte e uma estrelas gravadas no peito
Com todo respeito, meu nome é Portela!
A majestade, celeiro de bambas !    
Cantando a capital do samba"

Estão presentes duas ideias comuns, a alusão ao número de títulos "bordada no peito" e o pedido de respeito. Quem "se inspirou" em quem não sabemos, mas faço o registro.

É o samba apoiado pelo Diretor de Carnaval Júnior Scafura e pelos segmentos da escola a ele ligados. É um samba bastante convencional, com diversos clichês em sua letra, embora não seja ruim. Tem algo que particularmente me incomoda: sua melodia parece de samba da Mangueira.

Pode até sair com a vitória, em especial devido aos seus apoios políticos. Mas está distante de ser favorito - é zebra.

Passemos à letra:

"Lá... Onde o samba faz morada
Lá... Encontrei o meu lugar
Um manto azul e branco em fantasia
Riscando todo o chão de poesia
Por tão rara beleza o meu coração... Se deixou levar...
Viajo pelos trilhos do passado
De novo o coração bate apressado
Lembrando a minha escola a desfilar... E o povo a cantar...
Naquela batucada brasileira
De Paulo Benjamim de Oliveira
Ao longe ouço o som de um tambor... Quando alguém anunciou... 

Madureira... Num jardim de poesia a fina flor 
Dos malandros e mulatas...
Do mercado à boemia
A minha eterna mania de amor

Teatro, cinema
Tem jongo à luz do luar
Bom futebol, cerveja no bar
Um charme pra gente dançar
Na fé... Dos meus orixás
Seguindo caminhos de paz
De um povo que tem a alma guerreira
E leva o samba na veia
Império de poetas imortais
Não posso conter a emoção
Orgulho que sinto ao pisar nesse chão
Ah meu lugar! Difícil é saber terminar

Vinte e uma estrelas gravadas no peito
Com todo respeito, meu nome é Portela!
A majestade, celeiro de bambas !    
Cantando a capital do samba"

3) Jurandy Santanna, Almir Lua, Dico da Portela, Carlos Alberto e Barriga



O terceiro samba da final manteve uma regularidade durante toda a disputa, sem se destacar mas também sem ter defeitos evidentes. Eu pessoalmente faria a final com apenas três sambas, mas com quatro esta composição e o samba do compositor Naldo - eliminado nas oitavas de final - disputariam a quarta vaga.

É composição correta, com uma segunda parte a meu ver como o ponto alto do samba. Mas a meu ver faz figuração na disputa.

Passemos à letra.

"Se um dia...
Um dia, esse manto azul e branco
Entrou em minha vida e me fez marejar
Conquistou meu coração, fez o povo delirar
Qual Paulo Benjamim já fez um dia
Peguei o trem da alegria fui parar em Madureira
Chegando lá, senti a força dessa gente
A raiz vem da semente, cultura, fé e devoção
Cantando fui, me embalar na batucada
Para trilhar a caminhada, sem o samba não posso ficar...

Na ginga o malandro, levou a mulata
Mercadinho virou mercadão
Teatro, cinema, mistura de raças
Tem futebol e religião

Caminhando...
Caminhando nos caminhos da folia
Vesti a fantasia e fui me acabar
Nos blocos, coretos e cordões
Pierros e colombinas
Envolvendo os salões
No carnaval...
Sem ter orgulho nem vaidade
Hoje o sonho é realidade
Portela e Império em plena comunhão
Portela...
Tu és, amor, felicidade
No samba és a majestade
Madureira sempre foi teu lugar

A minha Portela me fez viajar
O meu coração se deixou levar
Encontrei meu lugar, celeiro de bambas
Eterna capital do samba"

4) Gérson PM, Beto da Portela, Marlene Flôres, Pepita Abrantes e Marcos Glorioso


Fechando os finalistas, um samba que a meu juízo deveria ter sido cortado ainda na primeira eliminatória, dois meses atrás: o da parceria de Gerson PM.

É uma composição cuja melodia está mais para música sertaneja que para samba de enredo, o que lhe valeu o apelido de "sambanejo" nas redes sociais. A vontade que ele suscita é de se dançar quadrilha de São João e não desfilar na Sapucaí.

Sinceramente não entendo como ele está na final, ainda mais quando se sabe que o bom samba da parceria de Edson Batista, que cresceu muito durante a disputa, caiu na semifinal. Menos mal que, ao que tudo indica, somente fará número.

Vamos à letra.

"Nesta linda noite de magias
Emoções e fantasias
Bailam poesias no ar
Portela...
Minha paixão virou mania
Nesse encanto em harmonia
Deixa a águia guerreira te levar 

Que amor é esse que me faz sambar?
Veste o azul e branco, você vai gostar
Vem no trem da alegria
Da senzala ao dia a dia
Nesse balanço vou me apaixonar 

Assim lá vou eu...
Pelos caminhos dessa rica trajetória
A arte e a cultura dessa gente
E o comércio envolvente
Engrandecem o meu lugar
Das boêmias ao luar
Dádivas da inspiração
Recanto da coroa imperial
Reduto de bambas
E da majestade do samba
De Paulinho da Viola
Poetas e sambistas geniais
De orgulho e tradição dos carnavais 

Me leva...Madureira!
Deixa o meu coração festejar...festejar!
Noventa anos de histórias
Lindas páginas de glórias
Portela faz o povo cantar"

Termino acreditando que a diretoria da escola leve para a avenida o samba da parceria de Wanderley Monteiro, por ser o melhor da disputa e ter totais condições de repetir o sucesso do samba de 2012. Outro resultado, a meu ver, seria bem inesperado.

Não poderei ir à final amanhã por estar com problemas de saúde na família, mas ao leitor que se animar a ir, um conselho: chegue cedo. De qualquer forma, sites especializados farão a cobertura em tempo real e colocarei aqui o resultado.

(Vídeos: Carnavalesco)