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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Samba de Terça - "O Velho Chico"



Depois de uma longa ausência devido à absoluta falta de tempo para fazer a pesquisa adequada, nossa coluna "Samba de Terça" está de volta.

Atendendo à sugestão do jornalista e comentarista de carnaval Fábio Fabato, meu colega no site "Galeria do Samba", nosso tema de hoje é uma composição pouco lembrada, mas que tem o seu valor: "O Velho Chico", Mocidade Independente 1982. Fabato também cedeu as imagens do post, a quem agradeço desde já.

E antes de entrar no tema de nosso post, uma informação aos leitores: o "Jornal do Brasil" digitalizou todo o seu arquivo de 1930 a 2000, em parceria com o Google. É uma fonte de pesquisa preciosa, ainda mais em termos de escolas de samba, onde o jornal O Globo, dono de um acervo riquíssimo, não o disponibiliza ao público.

Em 1982 a Mocidade optou por contar a história do Rio São Francisco como se fosse um ser humano: "O Velho Chico". O genial Fernando Pinto, que assinara o carnaval da escola nos dois anos anteriores, optara por se transferir para a Mangueira, o que não deixa de ser curioso - uma escola tão tradicional com um carnavalesco tão inovador.


A escola vinha de um sexto lugar no ano anterior, com um enredo sobre o carnaval. A verde e branca ainda se ressentia da morte do inesquecível Mestre André, que inventou a "paradinha de bateria" e tornara a bateria da escola de Padre Miguel a mais famosa da cidade. Ele faleceu prematuramente em 1980, aos 48 anos, e sua perda tirara a principal referência da agremiação - apesar de naquele momento a escola já se notabilizasse também pela marca imposta for Fernando Pinto.

Naquele ano, inclusive, Andrezinho - este mesmo que foi do grupo Molejo e hoje é um dos diretores da bateria da escola - com 10 anos de idade veio à frente dos ritmistas, junto com os Mestres Cinco, Coteca e Bira. A carnavalesca seria Maria Carmen de Souza.

Ao contrário do que se pensa, naquela época as sinopses também eram bastante extensas. Na série de imagens que disponibilizo abaixo, estão a sinopse, a ficha técnica e o roteiro de desfile, além do samba - que colocarei mais à frente. A idéia foi dividir o enredo em três partes, o "menino" (representado pela nascente, o "moço" (o médio rio) e o "velho", a parte final. Isso atendia também á exigência do regulamento daquele ano, de que somente poderia haver três carros alegóricos.








Uma curiosidade é que aparecem os nomes dos profissionais de barracão na ficha técnica, o que hoje seria absolutamente impensável dada a quantidade de trabalhadores. É uma boa medida de como o carnaval gradativamente foi dando maior importância à parte plástica com o decorrer do tempo.

A preparação para este carnaval de 1982 passou por alguns percalços. Antes do desfile houve uma operação de repressão por parte do Estado ao jogo do bicho, o que diminuiu a verba destinada às escolas - naquela época a dependência das agremiações de seus "patronos" era muito maior.

Outro ponto é que devido a um acidente ocorrido no ano anterior foram proibidos destaques vivos sobre os carros alegóricos, bem como estes foram reduzidos a apenas três. Como veremos no final do texto, isso causaria uma grande confusão na apuração deste ano.


O pré carnaval daquele ano também foi marcado pelo sucesso absoluto do samba do Império Serrano, "Bumbum baticumbum prugurundum", que era uma crítica aos rumos que os desfiles estavam tomando, sob a liderança naquele momento de Joãosinho Trinta.

A Mocidade Independente foi a nona escola a desfilar na manhã de segunda feira de carnaval, 22 de fevereiro de 1982. Castor de Andrade, patrono da escola, retardou a entrada da Mocidade na avenida, a fim de diminuir o impacto causado pelo grande desfile da Portela, a agremiação anteriora.

À frente da escola, junto a Castor veio o diretor da Globo Edvaldo Pacote, que já fora vice presidente da escola e hoje "era apenas diretor", nas palavra do Jornal do Brasil. Como o leitor pode notar, a estratégia atual da Grande Rio não é exatamente nova...


A bateria fez as suas famosas "paradinhas" apenas no início do desfile, mantendo-se preocupada com a cadência no restante. Foram 2,8 mil componentes, com três carros e dez destaques de chão. Com a restrição a três carros alegóricos, as escolas optaram por alegorias de mão,e a Mocidade não foi diferente - como se pode ver na foto acima.

Note o leitor também, aliás, que as arquibancadas desmontáveis daquele ano possuíam cobertura. Por que então trinta anos depois somos obrigados a pegar chuva no Sambódromo? Só porque o projeto de Oscar Niemeyer é intocável?

E olha que o ingresso não é barato...


Voltando ao desfile da verde e branca, a escola desfilou compacta e se credenciou a um bom resultado na apuração da quarta feira de cinzas, embora não fosse uma das principais favoritas - Imperatriz, Portela e Império Serrano dividiam as atenções dos analistas,coma Beija Flor um pouco abaixo e então Ilha e Mocidade. O samba passou a contento, sendo um dos pontos altos do desfile.

A contagem de pontos foi rodeada por uma grande confusão. Imperatriz e Beija Flor desrespeitaram o ítem do regulamento que proibia pessoas vivas em cima dos carros alegóricos, bem como a última trouxe sete alegorias, ignorando o limite determinado.

Isso custou caro à Imperatriz, que foi punida em seis pontos no quesito Alegorias e acabou perdendo o título exclusivamente por causa disto. A Beija Flor também sofreu punições devido a isto e acabou no sexto lugar, a pior colocação desde que Joaosinho chegara à escola. No final do post o leitor poderá ver o mapa de notas naquele ano.

A Mocidade acabou apenas no sétimo lugar, com 176 pontos e a 11 da campeã Império Serrano. Os quesitos Mestre Sala e Porta Bandeira e Conjunto tinham peso menor que os outros naquele ano, e a Mocidade foi punida especialmente nos quesitos Evolução e Fantasia.

O curioso foi o protesto dos patronos da Beija Flor e da Imperatriz, respectivamente Anísio e Luizinho Drummond, dizendo que foram "roubados". Anísio, inclusive, dizia que em 83 desfilaria apenas em Nilópolis. Pois é, nada como o tempo...

Minha avaliação é de que o "insólito" título da Beija Flor em 83 tem muito a ver com o resultado de 82, inclusive.

Vamos ao samba, que pode ser ouvido abaixo em sua versão do LP:


Autores: Adil, Dico da Viola e Roça
Puxador: Ney Vianna 

No meu tempo de criança 
Dei de beber, ouvi cantar os passarinhos 
Dei cambalhota pela casca danta 
Atravessando o sertão com alegria 
E as cascatas 
Murmuravam sinfonia 
Anunciando o Velho Chico que surgia 
Mas é que o tempo passou 
Minha vida mudou ... 
Assim

Vem mergulhar 
No meu mundo de água doce 
O navegante foi quem trouxe 
Gaiola, batelão e ubá

Bate batéia, na peneira fica o ouro 
O que cai não é tesouro 
Deixa a água carregar 
Casei donzelas 
Me fizeram oferendas 
Fiz mistérios 
Criei lendas 
Decidi meu caminhar

Oô, oô, oô, oô 
Até carranca no meu leito navegou 
Lindo cortejo para o mar me carregou 
Lá vou eu 
Mar afora 
Num barquinho prateado 
Iemanjá me leva embora


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Samba de Terça - "Cama, Mesa e Banho de Gato"


Nossa coluna "Samba de Terça" de hoje traz um samba e desfile que hoje, em 2011, já seria bastante polêmico. Imagina em 1986.

"Cama, Mesa e Banho de Gato", da Unidos da Tijuca, é o nosso tema de hoje da coluna. Originalmente era um enredo sobre os sete pecados capitais, mas como a sinopse deixa claro era focado em um deles: a luxúria.

1986 seria um ano histórico para o carnaval carioca. Após longos 21 anos de ditadura, seria o primeiro carnaval sob a regência da democracia, sem amarras de quaisquer espécie sobre a liberdade de expressão e sem a censura sobre a mesma.

O resultado é que tivemos alguns enredos e sambas que testavam a permissividade recém-conquistada. Um bom exemplo era a Vila Isabel, que trazia um "não venha agora me sacanear" na letra do samba. Ou mesmo a vetusta Portela, com um insólito enredo crítico.

Contudo, coube à Unidos da Tijuca testar os limites não somente da nascente liberdade como da sociedade como um todo. O enredo proposto pelo carnavalesco Wany Araújo - que fora auxiliar de Joãozinho Trinta nos áureos tempos de Beija Flor de Nilópolis - buscava mostrar a luxúria como vértebra que movia todos os demais pecados capitais. Nas palavras da sinopse e do roteiro de desfile:

Sinopse:

Entrando em ritmo de Nova República, de liberação da censura, de reavaliação do instinto e reposição do prazer em seu espaço legítimo, nosso desfile torna como referência a sucessão de "Pecados Capitais", que são sete, mas que no nosso filtro se equilibram sob uma única vértebra, a da luxúria.

Os "Pecados Capitais", assim denominados, passam aqui como fonte de alegria e de expressão plena, relacionando a parceria bíblica (homem/mulher) e suas variantes, com o senso de humor das circunstâncias mais conhecidas: 

a conquista da beleza jovem e seu teste de competência sexual (orgulho); 

a defesa do ciúme e da área competitiva de sua atuação (avareza); 

a passagem do amor oficial para o amor alternativo (luxúria); 

situações agressivas geradas pelo ciúme e a insegurança (ira); 

as variações mais bizarras, representadas na metáfora da mesa "qualquer prato satisfaz a quem tem fome" (gula); 

o olhar dissimulado para a visão ideal, no corpo que passa fora do nosso alcance (inveja); 

o fazer que alimenta todas as idéias, que cobre a imaginação, que extenua o corpo saciado, incapaz, muitas vezes, de cumprir o dever conjugal, no dia-a-dia da rotina (preguiça). 

A vida é o grande palco desses acontecimentos: Seus espaços vitais, a casa, o motel, a literatura erótica, o mercado dos prazeres, passam diante dos olhos do público, em tempo de cornucópia, derramando a euforia sem repressão, na hora de dizer sim aos desejos.

Os corpos, molhados de suor, parecem celebrados pela língua do carnaval, que canta a beleza do instante, deixando nos nervos e músculos dos carnavalescos aquele sabor molhado de liberdade e êxtase.

Nos propomos a uma obra aberta sobre a liberação da carne, sem os subterfúgios dos disfarces, com a pureza da entrega que não se culpa, contra a discriminação que avilta, em favor da presença do que é humano em seu instante de extroversão.

Delírio, coração aberto, sensualidade e humor, são os temperos desta grande mesa oferecida a todos os apetites e, na verdade, atendendo ao apetite básico do homem, pelo qual se multiplica e perpetua a espécie, ao mesmo tempo que exercita a imaginação, valorizando a breve caminhada planetária.

Organograma de Desfile:

Comissão de Frente: "Gatões" 
"Abre Alas "Pavão" - Representa o símbolo da Agremiação em desfile,
Destaque: Fernando Ramos como conquistador. 
1° Setor de Alas "Conquistadores" 
1° Destaque de chão Rosana Estrassy 
2° Setor de Alas "Panteras" 
1° Quadripé "Avareza"
Destaques: Antonio dos Santos, Shirlen Machado e Sônia Machado - Representam a Poligamia 
3° Setor de Alas "Matriz" 
2° Quadripé "Matriz"
Destaque: Edmela 
1° Tripé "orgulho" 
2° Tripé "avareza" 
4° Setor de Alas "filial" 
3° Quadripé "filial"
Destaques: Ana Mirtes, Carla Fernanda Horta, Jane Vieira de Sá e Raquel Vieira de Sá 
2° Destaque da chão: Tereza - Representando a "Noiva" 
5° Setor de Alas "Noivos" 
3° Destaque de chão: Isaias - Representando Rosas do Jardim da Vida 
4° Destaque de chão: Luiz Carlos - Representando Rosas do Jardim da Vida 
5° Destaque de chão: Julio César e Fernando - Representando Rosas do Jardim da Vida 
6° Setor de Alas "Jardim da Vida" 
6° Destaque de Chão: Representando "Prato Predileto" 
3° Tripé "luxúria" 
4° Tripé "ira" 
7° Setor de Alas "Pratos Prediletos" 
5° Tripé "gula" 
1° Carro Alegórico "Gula"
Destaques de complemento "Coelhas" 
8° Setor de Alas "Pratos Prediletos" 
4°, 5° e 6° quadripé "Pratos Prediletos"
Destaques: Jacy, Ricardo Alam e Roberto - Representam pratos feitos 
9° Setor de Alas "Trincha" 
7° Quadripé
Destaque Elsio - Representando a Trincha 
6° Tripé "inveja" 
10° Setor de Alas "Laminas" 
8° Quadripé
Destaque: Atié - Representando a Lâmina 
7° Tripé "preguiça" 
11° Setor de Alas "Cupidos Emissários do Amor" - Ala das Crianças 
12° Setor de Alas "Vedetes" 
13° Setor de Alas "Caricatas" - Mercado dos Prazeres 
9° Quadripé "revista e TV"
Destaques: Linda Amorim, Carla Bruninha e Ana Paula 
14° Setor de Alas "Sapatão" 
15° Setor de Alas "Caricatas" - Mercado dos Prazeres 
16° Setor de Alas "Amantes Profissionais" 
2° Carro Alegórico "Motel dos Prazeres"
Destaques: Toni Fernandes como "Amante Profissional"
Criste Sauer de "Viúva Alegre" 
17° Setor de Alas "Enfermeiros" 
7° Destaque de chão Regina Hammeltt, Iracema - Representam o "êxtase" (Baianas) 
18° Setor de Alas "Êxtase" - Ala de Baianas 
3° Carro Alegórico "Êxtase"
Destaque Jhousse Maia
Destaque de complemento como "Prazer Prolongado" 
19° Setor de Alas Passo Marcado 
Bateria "conquistadores" 
Mestres Sala e Portas Bandeiras como "noivos""

(Fonte: Galeria do Samba)

A escola da Tijuca tinha sido promovida ao Grupo 1A (hoje Especial) com o vice campeonato no segundo grupo ano anterior. Era um ano com quinze escolas no grupo, por causa da confusão no ano anterior envolvendo a questão da cronometragem: nem União da Ilha nem Unidos do Cabuçú aceitaram ser rebaixadas, de modo que para 1986 o grupo teria quinze escolas. 

Uma apenas seria rebaixada e viriam duas agremiações do segundo grupo, de forma a se ter dezesseis escolas para o carnaval de 1987.

O período pré-carnavalesco foi complicado para a agremiação tijucana. Além de passar pelos percalços habituais às escolas promovidas de grupo, a escola enfrentou uma campanha muito forte por parte de setores conservadores da sociedade. A abordagem de Wany Araújo era claramente transgressora, em um Brasil que ainda vivia seus primeiros passos como libertado das amarras autoritárias.

Dizia-se que o enredo e o samba da escola eram "indecentes" e atentavam à moral e aos bons costumes. A composição mostrava uma série de situações amorosas que são perfeitamente corriqueiras, mas que ainda hoje recebem um tratamento preconceituoso, à margem da sociedade.

O discurso era que o samba era "indecente" e que era um atentado aos bons costumes da família brasileira. Setores mais reacionários defendiam o rebaixamento sumário da escola.

Realmente, o samba possui algumas passagens que, ainda hoje, podem causar reações de repúdio de setores mais conservadores. Trechos como:

"A hora é essa e vamos admitir
Uma só mulher é pouco 
Deixa o homem no sufoco 
Com tantas que andam por aí"

E:

"Lá vai o trouxa
Crente que está numa boa 
Mas não sabe que a patroa 
Está com o Ricardão 
E sua filha tem fama de sapatão"

Certamente seriam considerados "atentados à moral e aos bons costumes". Particularmente, não deixa de ser uma boa medida da hipocrisia que, muitas vezes, permeia as relações em sociedade. Pode-se discutir a qualidade do samba, mas as situações retratadas são corriqueiras - fingir que não existe não adianta nada.

E foi neste clima que a Unidos da Tijuca abriu a noite de 10 de fevereiro de 1986, segunda feira de carnaval. A escola trazia alegorias e fantasias simples, mas que passavam o recado proposto no enredo: de que a luxúria era algo normal na vida moderna. Muitos componentes semi-nus - inclusive a transsexual Roberta Close - ilustravam o tema escolhido.

Bom, o que passou para a história é que na apuração a escola acabou rebaixada com a última colocação, obtendo apenas 169 pontos. A família brasileira, há pouco tempo libertada do jugo da ditadura, estava salva. Foi um rebaixamento anunciado e, a meu ver, injusto.

O curioso é que a escola venceria o Grupo de Acesso no ano seguinte com um samba sobre o Plano Cruzado claramente datado, ao contrário desta composição de 1986, atual até hoje. O samba, de Carlinhos Anchieta, Vicente das Neves, Manelzinho Poeta e Azeitona, expressa questões que em 2011 ainda são alvo de patrulhamento por parte de setores mais conservadores.

Vamos ao samba, que pode ser ouvido aqui em versão ao vivo e, abaixo, em estúdio:


O homem orgulhoso como quê 
Não se sente feliz com a sua matriz 
Montou uma filial 
Mostra os pecados capitais no carnaval 
A hora é essa e vamos admitir 
Uma só mulher é pouco 
Deixa o homem no sufoco 
Com tantas que andam por aí 
O arroz com feijão 
Lá de casa é bom 
Mas o cozido da vizinha é melhor 
Dizem que eu sou machista 
Com pinta de egoísta 
Polígamo conquistador 
Mas isso vem do tempo do vovô 
Lá vai o trouxa 
Crente que está numa boa 
Mas não sabe que a patroa 
Está com o Ricardão 
E sua filha tem fama de sapatão 

Tem piranha no almoço 
Tem virado no jantar 
Pra quem tem fome 
Qualquer prato é caviar 

Vida, palco desses acontecimentos 
Desfilando pelo tempo 
Hoje eu quero me banhar 
No prazer mais prolongado 
Que o banho de gato dá 
Gingam cabrochas e ritmistas 
Passistas e vigaristas 
Artistas de revista e TV 
Que não se importam 
Com o que vocês vão dizer 

Bota o prato na mesa 
Tudo que vier eu traço 
Prepare a cama 
Que hoje tem banho de gato"

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Samba de Terça - "Gueledés, o Retrato da Alma"


Nossa coluna "Samba de Terça" hoje será uma homenagem àquele que considero um dos maiores compositores de escola de samba de todos os tempos e que completará sessenta anos de idade no próximo dia 26: Juan Espanhol, "cria" do Arranco do Engenho de Dentro e com sambas vencedores também na Portela e na Unidos da Tijuca. Sua parceria com o também compositor Sylvio Paulo é uma das mais prolíficas da história do samba de enredo carioca.

Espanhol será o entrevistado da próxima sexta feira da coluna de entrevistas "Jogo Misto" do Ouro de Tolo. E o samba abordado hoje é um dos indicados pelo compositor como preferidos: "Guelédés, o Retrato da Alma" - Arranco 2006.

O Arranco do Engenho de Dentro é uma escola bastante tradicional da Zona Norte carioca. Era um bloco que se transformou em escola de samba no início da década de setenta, chegando a desfilar no hoje chamado "Grupo Especial" em 1978 e em 1989. Também foi uma das escolas onde o hoje laureado Paulo Barros trabalhou antes de ir para a Unidos da Tijuca.

A agremiação, após alguns anos no Grupo B, retornava em 2006 ao Acesso A, o chamado "segundo grupo". Alcançara tal feito com o vice campeonato no ano anterior, quando reeditara "Quem Vai Querer", seu samba mais famoso e com o qual a escola havia desfilado em 1989 no Olimpo do samba. Algumas mudanças foram feitas na equipe: vieram o carnavalesco Jorge Caribé - que depois teria uma passagem razoavelmente bem sucedida por Portela e Mangueira - e o puxador Zé Paulo, hoje na Mangueira, faria sua estréia como primeiro intérprete.

O enrtedo proposto não era exatamente inédito. Contar a história das máscaras e da personalidade humana através delas já havia sido enredo da Unidos da Ponte e da Tradição em naos anteriores. A perspectiva do carnavalesco era a de acrescentar toques místicos e afro brasileiros à proposta de enredo. Como podemos ver na curtíssima sinopse:


"Vamos cantar a história da personalidade humana, através das máscaras, desde a África antiga até o novo mundo.

O homem da pré-história, com cabeças e peles de animais adquirindo força e poder;
A morte e a vida na mesma direção;
O culto do Egungun da África para o mundo; As bruxas e seus encantos, feiticeiras e curandeiras;
Máscaras ritualísticas, dança e crença na ressureição;
Egito dos faraós, múmias, Anúbis e sarcófagos mortuários; tudo sobre a proteção de Anúbis;
Oriente, budas, gueixas, dragões, quimeras;
As mil e uma noites de Ali Babá, Xeiques e Odaliscas;
Grécia da Medusa, Minotauro;
Veneza, o Zorro, Máscara Negra;
Super-heróis infantis;
Operações transexuais;
Conduta, comportamento, liberdade de expressão;
Carnaval, posso ser tudo o que quiser, desde que seja fantasiado e tenha alegria;
Com a máscara no rosto posso ser tudo o que quiser e puder." 
(Fonte: Galeria do Samba)


A disputa de samba desde o início foi polarizada entre as parcerias de Juan Espanhol/Sýlvio Paulo e Carlinhos Maciel, apesar de ter contado com dez parcerias concorrentes e pelo menos a metade deles com bons sambas. Espanhol e Sylvio Paulo retornavam à disputa da escola após vários anos afastados por discordar dos rumos que as disputas de samba estavam tomando. Entretanto, a reedição do ano anterior possibilitou o retorno da dupla ao concurso como uma forma de retribuir a homenagem recebida por parte da escola em 2005.

Segundo Espanhol, ao contrário do que vemos hoje a sinopse de Caribé possibilitou muita liberdade criativa aos compositores. Segundo seu relato - que faz parte da entrevista - muitas coisas que compunham o samba não estavam originalmente na sinopse, e as palestras para a dissolução de dúvidas aos carnavalescos também trouxeram elementos novos, como o pássaro "Eleié". Novamente de acordo com o relato do compositor, a impressão que ele tem é que Caribé montou o roteiro de desfile e a parte plástica a partir do samba - impressão que também foi manifestada à época em grupos de discussão pela internet.

Juan Espanhol e Sylvio Paulo venceram a disputa, ao lado de Fernando, Bola e Bira Só Pagode. Era a décima terceira vitória de Espanhol no Arranco - recorde na escola - e até o momento em que escrevo foi a última. E o samba foi considerado o melhor inédito daquele grupo pela maioria e, por muitos, o melhor samba do carnaval 2006.

A preparação da escola seguiu com dificuldades financeiras. A escola não tem patrono e a subvenção deste grupo é claramente insuficiente para um desfile competitivo - embora tenha melhorado, ainda hoje o é. E a escola disputaria com agremiações muito mais estruturadas como a União da Ilha, a São Clemente e a Estácio de Sá, esta também voltando do Acesso B mas com patrono forte. Sua luta seria para se manter no grupo.

O Arranco foi a sétima escola a desfilar na noite de 25 de fevereiro de 2006, sábado de carnaval. O carnavalesco optou por um desfile em tons escuros, utilizando-se de materiais reciclados e fantasias mais simples a fim de driblar a falta de recursos. A bateria cometru um erro durante o desfile, "atravessando", e depois optou por passar "reta" sem efetuar paradinhas ou coisas correlatas. O puxador Zé Paulo não mostrou o brilhantismo que desenvolveria nos anos seguintes mas não comprometeu o ótimo samba escolhido.


Nas palavras do jornal O Globo no dia seguinte ao desfile (assinadas pelo jornalista Bernardo Araújo):

"O Arranco, que também voltava ao grupo, animou o público com o ótimo samba "Gueledés, o retrato da alma", mas a parte visual do desfile não ajudava em sua compreensão. O público ficou sem saber se os Gueledés eram uma entidade, uma lenda ou apenas alguma espécie de ser onipresente, que passeava pela Índia, pelo Extremo Oriente e pelo Brasil. Mas a escola do Engenho de Dentro deve conseguir permanecer na Segundona do Samba."

Havia uma certa apreensão na escola com o resultado, mas em uma apuração cuja vitória da Estácio de Sá não surpreendeu àqueles que acompanham com mais atenção o dia a dia pré-carnavalesco a escola obteve a sétima colocação entre dez escolas, com 236 pontos.

O melhor estava guardado para o final: o samba ganhou os dois principais prêmios carnavalescos cariocas, o Estandarte de Ouro e o Prêmio Sambanet - ambos na categoria "Melhor Samba do Grupo de Acesso A". Eram dois prêmios que os dois grandes compositores não tinham, corrigindo grave injustiça.



Vamos à letra do samba, que pode ser ouvido acima em sua versão ao vivo.

"E foi-se a luz: trevas, raios, bruxaria...
E foi-se a paz: pesadelos e agonia...
E desde então, os Orixás,
Ou aliados ou rivais,
Formam correntes de paixão
Nos Rituais...
Aí eu personalizei
O Bem, o Mal de cada ser
Que eu ajudei a definir sem escolher..

Mascarei a Liberdade
E pintei poder e fé,
Semeei Desigualdade
Sob o olhar de Eleié

Assim, na Grécia Filosofei...
Em Roma eu conquistei...
Lá no Egito fui Rei...
Vesti Ali Babá, fui ladrão...
Já fui Gueixa no Japão...
No Nordeste Lampião...
Mas, não me leve a mal,
Hoje sou Poeta, é Carnaval...

Sou a Alma, sou a cara
Sou o retrato
Que retrata o que na Alma
Eu sou de fato!"

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Samba de Terça - "O Magnífico Niemeyer, ou Quero ver Cuba lançar"


Nossa coluna "Samba de Terça" de hoje enfoca um daqueles sambas que a gente lê a letra, ouve o samba e se pergunta: como este samba venceu a disputa?

Por quê? Logo o leitor saberá.

A escola é a Unidos de Lucas, uma agremiação bastante tradicional no carnaval carioca e que já esteve nesta coluna por duas ocasiões, com "Sublime Pergaminho" e "Mar Baiano em Noite de Gala". Uma das representantes da Zona da Leopoldina, possui tradição de grandes sambas no carnaval carioca. Infelizmente está no Acesso D, sendo um dos alvos do "facão" a que me referi no texto sobre o neoliberalismo do samba.

Desta vez, o samba abordado será o de 1990, que tinha como enredo uma homenagem ao arquiteto Oscar Niemeyer, já então contando com 82 anos de idade.

Lucas vinha de três carnavais seguidos como terceira colocada do Grupo de Acesso A, a uma colocação de retornar ao Grupo Especial - do qual não participava desde 1976. Inclusive em 1988 a escola chegou a comemorar seu retorno, mas no final da apuração houve uma suspeitíssima "queda de luz" e, quando a energia voltou, a escola misteriosamente tinha sido relegada ao terceiro lugar.

Os carnavalescos Luiz Orlando Baptista e José Leal propuseram um enredo calcado especialmente nas ligações políticas do grande arquiteto, sem se esquecer de suas grandes obras. A escola seria a quinta a desfilar e a expectativa era e de finalmente buscar o tão sonhado retorno ao Olimpo do samba. Uma das novidades, também, era a contratação do puxador Marcos Moran (abaixo, durante o desfile), que fizera história na Unidos de Vila Isabel.


Bom, o leitor deve estar se perguntando o porquê de ter aberto o texto comentando sobre a coragem de ter escolhido este samba, não é mesmo? Simples.

A composição escolhida,de autoria do compositor Uéber - bons tempos em que não haviam os "condomínios" de autores - trazia um "cacófato" inacreditável em seu refrão intermediário, acompanhado de versos que, para se dizer o menos, não eram muito felizes em descrever os exílios de Niemeyer:

"Quero ver Cuba lançar 
Êta rabo de foguete ! 
Camarada Gorbachov 
Em Paris ou em Argel 
Tempo ruim é quando chove"

No próprio vídeo do desfile que disponibilizo o comentarista faz severas críticas a este trecho do samba, enfatizando tratar-se de "mau gosto" - até porque Marcos Moran enfatizava na divisão silábica o cacófato, se é que o leitor me entende.

Não sei exatamente os motivos que levaram a escola a escolher esta composição, mas no mínimo faltou bom senso na diretoria de então a fim de alterar a letra. E isso sem contar a intragável rima "Gorbatchov / chove"...

Ou seja, era um legítimo representante da dinastia "trash" do samba de enredo...

Bom, o fato é que a escola desfilou com este samba, sendo a quinta escola a se apresentar na noite de 24 de fevereiro de 1990, sábado de carnaval. O abre alas lembrou o monumento aos operários de Volta Redonda, feito em homenagem aos mortos na ocupação da CSN em novembro de 1988. 

A seguir, a escola mostrou a construção de Brasília e trouxe até uma alegoria representando um tanque de guerra. O carnaval foi lembrado com o carro que trazia o símbolo da praça da apoteose, que como se pode ver nas imagens tinha problemas de acabamento.

O fato é que a Unidos de Lucas não fez uma boa apresentação e não tinha grandes aspirações na quarta feira de Cinzas. Em um resultado onde, diz a lenda, o patrono da campeã Unidos do Viradouro teria enviado garrafas de uísque escocês (artigo raro naqueles tempos) para a casa dos jurados após o resultado, independente da nota, Lucas obteve o oitavo lugar, com 199 pontos - a uma posição do rebaixamento.


Acima pode-se ouvir o samba, em sua versão de estúdio. Infelizmente não tenho as notas obtidas pelo mesmo, mas não acredito que tenham sido muito altas... Vamos à letra:

"Chegou a hora o Galo cantou 
Liberdade, liberdade 
Brasília você é bonita 
Cartão de visitas do meu país 
Candango, deputado, senador ôô 
O Brasil virou menino 

Amor de Juscelino de Oliveira 
Era chão, era poeira 
A arte fez brotar 

Quero ver Cuba lançar 
Êta rabo de foguete ! 
Camarada Gorbachov 
Em Paris ou em Argel 
Tempo ruim é quando chove 

Baiana, baiana, baiana 
Roda que eu quero ver (quero ver) 
Na Apoteose do Samba 
Obra de bamba 
Com pimenta e dendê 
Sangue latino na veia 
Oscar Niemeyer Lucas é você 
No teu compasso eu passo traço 

Quero ver você riscar 
No meu riscado eu vou fazer você sambar"

Em 2003 a Unidos de Vila Isabel também homenagearia o arquiteto, com um samba muito mais bonito - que pode ser ouvido aqui. E outro resultado complicado - em novembro do ano anterior, bom, deixa para lá...

terça-feira, 5 de julho de 2011

Samba de Terça - "Afoxé"


Após o recesso pós carnavalesco, a seção "Samba de Terça" finalmente está de volta. Deverá seguir o mesmo calendário do ano passado: quinzenal até dezembro e semanal depois disto.

E na volta de uma das mais tradicionais colunas deste Ouro de Tolo, abriremos a "temporada 2012" com um samba que já esteve aqui, aliás abrindo a série: "Afoxé", Acadêmicos do Cubango 1979 e depois 2009.

O leitor deve estar se perguntando o porquê da repetição. Simples: quando a coluna foi formatada se limitava ao áudio com a letra, mas depois foi se modificando a fim de contar a história do desfile. E assim faremos.


Depois de seis carnavais seguidos no Grupo de Acesso A, a escola havia sido rebaixada em 2008 para o Acesso B, que corresponde à terceira divisão do samba. Diga-se de passagem, em uma apuração estranha: em que pesem os problemas enfrentados no desfile, causados pela chuva, a escola chegou nos dois últimos quesitos fora da zona de rebaixamento. 

Entretanto, mesmo tendo o melhor samba inédito do grupo naquele ano - atrás apenas da reedição de "É Hoje", da União da Ilha - a escola tomou um estranhíssimo 9,1 neste quesito que decretou o seu rebaixamento. Aliás, este mesmo jurado considerou o samba da escola de Niterói e a reedição insulana - que é simplesmente um dos maiores sambas de enredo da história do carnaval - como os piores sambas do grupo. Vá entender...


Para o carnaval de 2009 a escola completaria seu cinquentenário de fundação. A Acadêmicos do Cubango era uma tradicionalíssima agremiação do carnaval de Niterói, disputando com a Unidos da Viradouro a primazia nos desfiles daquela cidade - que eram considerados inferiores apenas aos da capital carioca.

Talvez como uma resposta aos jurados do ano anterior, a escola decidiu que para 2009 na tentativa de retornar ao Grupo de Acesso A iria reeditar aquele que é considerado um dos dois maiores sambas de sua história: "Afoxé". O leitor pode ouvir abaixo uma preciosidade: a versão original de 1979, em cortesia da jornalista Paula Ranieri:


Como diz a sinopse - que pode ser lida na íntegra no site Galeria do Samba - a escola niteroiense tinha três objetivos com esta reedição: relembrar o enredo que lhe deu o pentacampeonato no carnaval de Niterói, homenagear o mais popular dos afoxés, o "Filhos de Gandhy", e, finalmente, celebrar seu próprio cinquentenário de fundação, a se completar em dezembro daquele ano de 2009.

Dizia a introdução da sinopse:


"No carnaval em que celebra seu jubileu de ouro, o G.R.E.S. Acadêmicos do Cubango, reafirmando suas origens e tradições afro-brasileiras, presta justa e merecida homenagem à cultura e religiosidade presentes no trecho ocidental do continente africano, recuperando a temática dos afoxés e reeditando o samba de enredo com os quais a escola dos Morros São Luiz, Mangueirinha, Abacaxi, Serrão e Rala-Côco, sagrou-se pentacampeã do carnaval niteroiense no ano de 1979.

Pretende desta maneira, reverenciar e reapresentar ao grande público manifestação inspirada em festejos lúdico-religiosos originários de Lagos, antiga capital da Nigéria, manifestação esta popularizada no Brasil a partir de finais do século XIX, expandida para outras regiões tendo como referência a cidade de Salvador.

Os afoxés representam um dos traços de resistência das camadas populares da sociedade brasileira que, através da lapidação espontânea do caldo de cultura, preservam e a todos brindam com parte do vastíssimo legado gestado no continente também chamado de "Berço da Humanidade".

Que este mágico momento para a agremiação do bairro do Cubango e para os afoxés, homenageados nesta ocasião por intermédio da sexagenária "Associação Cultural Recreativa e Carnavalesca Filhos de Gandhy", possa ser inscrito na história dos desfiles da Marquês de Sapucaí com a marca da alegria, da inventividade e da convivência pacífica, tão características dos grupos étnicos de matriz africana que, decisivamente contribuíram para a formação do povo da terra Brasil."

(Fonte: Galeria do Samba)


A escola tinha algumas alterações em relação ao ano anterior: o carnavalesco Wagner Gonçalves, que assinara o enredo sobre a bailarina Mercedes Batista, fora substituído pela dupla Leo Morais e Sérgio Silva. O puxador Tiãozinho Cruz foi trocado pelo "prata da casa" Júnior Duarte.

O puxador, a propósito, é sobrinho do grande sambista Mauro Duarte, falecido precocemente em 1989.


Outra mudança importante é que a escola passava a ter um novo "patrono" auxiliando o presidente Olivier Vieira - mais conhecido como "Pelé". A injeção de recursos em um grupo onde a subvenção naquela época (hoje é um pouco superior, embora insuficiente) tornava absolutamente inviável se fazer um carnaval competitivo fazia a escola ascender automaticamente ao grupo das favoritas.

Comentava-se que a entrada deste novo patrono era uma resposta aos problemas políticos enfrentados pela Viradouro, onde o então presidente Marco Lira era muito questionado por todos aqueles que o cercavam. Verdade ou não, faço o registro aqui.


Além disso, o Acesso B vinha de uma apuração tão ou mais complicada que a do Acesso A no ano anterior, onde a Unidos de Padre Miguel, que havia feito disparado o melhor desfile do grupo incrivelmente não havia conquistado a ascensão ao Grupo A, "ficando" com a terceira colocação - contei esta história aqui.

O Grupo A, que como citei anteriormente também tivera um resultado estranho, tinha uma nova entidade organizando seu desfile em substituição à Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro: a Lesga - Liga das Escolas de Samba do Grupo de Acesso.

E o que tem a ver isto com o Acesso B? Tudo.


Alegando que "a crise econômica norte americana impediu as escolas de prepararem bons desfiles", a Lesga decidiu que ninguém cairia do Acesso A naquele ano. A desculpa era uma esfarrapada cascata: na verdade, a Inocentes de Belford Roxo e a Caprichosos de Pilares, escolas do presidente e do vice da entidade estavam com a preparação muito ruim e havia o medo de que uma das duas fosse rebaixada - no final as duas ocuparam as duas últimas colocações.

Parêntese: a Lesga desde a sua fundação vem batendo todos os recordes da esculhambação e da cara de pau em sua organização de desfiles e em especial nos seus resultados. Fecha o parêntese.

Com isso, a Lesga decidiu que somente uma escola ascenderia do Acesso B - ainda então organizado pela Aescrj - para o Grupo A. Firmou-se um impasse, pois o regulamento do Grupo B previa que duas escolas subiriam - e a Riotur, órgão da prefeitura que deveria mediar a situação não conseguia fazer com que se chegasse a um acordo.


Para completar o quadro, dizia-se que a Unidos de Padre Miguel, ainda inconformada com o verdadeiro 'assalto' que sofrera no resultado do ano anterior - o termo parece forte, leitores, mas não há outro, porque foi caso de Polícia - estava fazendo pressão nos bastidores a respeito do resultado deste ano. Mais uma vez não pode-se afirmar peremptoriamente, mas os acontecimentos posteriores darão razão a esta tese.

A Cubango preparava-se para o carnaval a fim de poder alcançar um resultado que a devolvesse ao Grupo de Acesso A. Com o grande samba escolhido e sem grandes preocupações financeiras, a preocupação era fazer um grande trabalho tanto dentro como fora da pista de desfiles.

O Grupo de Acesso B chegou para seu desfile na noite da "Terça feira Gorda", 24 de fevereiro, sem uma definição precisa sobre quantas escolas seriam promovidas. A Aescrj dizendo que iriam duas; a Lesga, uma, e a Riotur sem conseguir se impor como entidade reguladora, em última instância, do carnaval.


A Acadêmicos do Cubango foi a décima primeira - em um inchado grupo de catorze escolas na mesma noite - agremiação a desfilar naquela noite.

O seu início de desfile foi arrebatador: as alegorias e fantasias eram das mais luxuosas da noite e o belo samba - o melhor do grupo daquele ano, e me arriscaria a dizer que era o melhor entre todos os grupos da Sapucaí - causou frisson em uma platéia ainda bastante numerosa nas frisas e arquibancadas.

A escola passou bela, motivada e fez um desfile que a credenciava a disputar o título - junto com a Unidos de Padre Miguel e, em um degrau abaixo, Boi da Ilha e Alegria da Zona Sul.

Os dois setores finais da escola estavam inferiores aos dois primeiros - o carro que representava o cinquentenário, como o leitor pode ver na foto que disponibilizo, era bem abaixo dos demais.


O julgamento daquele grupo privilegiava os quesitos plásticos ao juntar em um único quesito Harmonia, Evolução e Conjunto. Por isso, como disse à época em listas de discussão, em que pese a Cubango ter sido a escola que mais havia me agradado, me parecia que Padre Miguel estaria em vantagem no resultado final - apesar do horroroso - e bota horroroso nisso - samba, a escola estava muito bonita plasticamente.

O leitor quer saber mesmo como foi a apuração? Como escrevi no último texto desta série, que trata do mesmo Acesso B de 2009, foi esquisito. Muito esquisito.

Em 2009 o regulamento previa que cada quesito teria cinco notas, de cinco jurados, das quais a menor e maior nota seriam descartadas para cada ítem julgado. As regras também previam que só poderia haver empate na primeira colocação, e se as duas escolas obtivessem notas válidas máximas em todos os quesitos - alcançando o total de pontos máximo possível, 240.

Adivinha o que aconteceu? Acadêmicos do Cubango e Unidos de Padre Miguel "empataram" em primeiro lugar, com... 240 pontos! Com isso as duas conquistaram o título e criaram um fato "consumado" para a Lesga: como não havia desempate, as duas teriam de subir - como efetivamente aconteceu.

Incrível, não? Que coincidência...

Mas ainda tem mais: Boi da Ilha e Alegria da Zona Sul, que seriam as ameaças às duas escolas, foram jogadas lá para baixo - a escola insulana em um incompreensível oitavo lugar, e a agremiação de Copacabana em décimo primeiro, a uma posição do que seria um inacreditável rebaixamento.

Aliás, uma curiosidade desta apuração: se todas as notas fossem válidas a Cubango ficaria apenas na terceira colocação, atrás da já citada Padre Miguel e da União do Parque Curicica.

Sendo bem sincero: parece muito difícil de acreditar que este "empate" veio naturalmente das notas dos jurados, embora não se tenha provas materiais de que houve algum tipo de ajuste no resultado. Ainda mais se tendo o histórico dos anos anteriores, com alguns resultados bastante estranhos - para se dizer o menos.


No final das contas as duas agremiações ascenderam ao Acesso A para 2010, conforme era o objetivo inicial.

Contudo, a Lesga se "vingaria": as duas tiveram de dividir o valor da subvenção que seria destinada a uma escola (o que não foi grande problema para as agremiações, ambas com patronos endinheirados); e no resultado de 2010 a Padre Miguel foi mandada de volta para o Acesso B e a Cubango só não tomou o mesmo caminho porque a Paraíso do Tuiuti fez um desfile desastroso.

Bom, o que fica para nós sambistas é que a Acadêmicos do Cubango fez um grande desfile com um dos grandes sambas de sua história, resgatado a fim de se tornar mais conhecido pelos sambistas. Hoje,"Afoxé" é o que eu chamo de um de meus "sambas de cabeceira", pois sempre gosto de ouvir. Ao fim e ao cabo, é isso o que realmente vale nisso tudo.

Vamos à letra, de autoria do grande Heraldo Faria, em parceria com João Belém. Abaixo o leitor pode ouvir a versão de estúdio de 2009 e também a gravada ao vivo durante o desfile.

Estúdio - CD Oficial:



Ao Vivo:



Vamos à letra: 

"Afoxé" 

Abrindo o portão imaginário 
Do longínquo solo africano 
A Cubango traz para o cenário 
Afoxé, tema original 
Do reino de Oloxum 
Na festa de Domurixá 
Em homenagem a Oxun 
Deusa da nação Ijexá 
Onde a figura principal 
Era o boneco Babalotim 
Mensageiro da alegria, da força do axé 
Um ídolo menino, levado por menino em sua fé 
E assim teve origem o afoxé 

Afoxé lorin, é lorin 
Afoxé loriô, é loriô (BIS) 

Nesta festa desfilavam com riquezas 
Os soberanos orientais 
O advinho joga búzios com presteza 
Desvendando o futuro e o que ficou pra traz 
Tem as cortes dos Reis Lobossi e Obá Alaké 
Xangô em seu camelo sagrado 
Esta é a história do afoxé 
Que hoje desfila pelas ruas em rituais 
Louvando os orixás 

Ofi la laê, Olê loá 
Ofi la laê, Olê loá (BIS)


(Fotos: Fabrício Gomes)
 

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Samba de Terça - "A toda hora rola uma história, com samba e chorinho de Paulinho da Viola"



Nesta última coluna antes do carnaval - semana que vem teremos um "guia prático do desfilante" - a coluna traz um samba e desfile que eu estive presente como integrante, tal e qual ano passado.

Após algumas semanas tratando de escolas que estão em nosso Grupo Especial ou nela estiveram muito tempo, voltamos a enfatizar uma escola do grupo de acesso: a União de Jacarepaguá e sua homenagem ao grande Paulinho da Viola no carnaval de 2009.

A escola de Campinho vinha mantendo uma regularidade nesta primeira década do terceiro milênio. Após atravessar uma década de 90 nos grupos inferiores, a escola voltou à Marquês de Sapucaí em 2000 e esteve se alternando entre os Acesso A - entre 2001 e 2005 - e depois o Acesso B.


Com poucos recursos, após o rebaixamento de 2005 a escola vinha sofrendo para se manter no Grupo de Acesso B, tendo sido quase rebaixada em 2006 e ocupado colocações na metade inferior da tabela nos carnavais de 2007 e 2008.

Para 2009, a escola optou por escolher um enredo forte, de apelo, e que trazia uma história que pouca gente conhecia: antes de se eternizar na azul e branco de Madureira, Paulinho da Viola havia sido integrante da União de Jacarepaguá. 

O grande compositor foi escolhido como enredo pela verde e branca, a fim de resgatar a auto estima da agremiação, contar uma história e  angariar a simpatia do povo que assiste ao desfiles da terça feira "gorda". A escola não dispunha de grandes recursos e apostava na emoção a fim de alcançar o seu objetivo naquele carnaval, que seria o de ficar longe do rebaixamento ao Grupo C e à passarela da Avenida Intendente Magalhães - onde, curiosamente, fica a sede da escola. A verde e branca, também conhecida como "arroz com couve", por causa das cores, buscava tão somente manter-se no grupo em um ano onde a diferença entre as escolas de "patronos" e as que não o tinham era assustadora - pareciam dois grupos diferentes.


O carnavalesco Wagner Almeida optou por contar passagens da vida e obra do grande cantor e compositor, de forma simples a fim de adequar aos quatro carros alegóricos que formam, no máximo, o desfile do Grupo de Acesso B. Na verdade, apesar da sinopse dividir o enredo em quatro setores houve que se trabalhar com ainda mais simplificações haja visto que a agremiação trouxe apenas três carros alegóricos para seu desfile.

Nas palavras da sinopse:

A toda hora rola uma história, com samba e chorinho de Paulinho da Viola

Justificativa:

Bem próximo ao morro do Corcovado, sob os braços do Cristo Redentor, no bairro de Botafogo, nele registramos o primeiro palco, aquele que por mérito se tornaria um dos maiores artistas do nosso País, nosso homenageado Paulinho da Viola.

Este genial artista da Música Popular Brasileira reúne em sua trajetória, momentos de tamanha importância na história da arte. Possui a sensibilidade de perpetuar dois grandes gêneros musicais o Samba e o Choro.

Em suas obras, resgata nomes de renomados poetas, muitos desses já esquecidos no passado. Desenvolve inovações melódicas e harmônicas sem perder a tradição, mantendo seus princípios e valores estéticos, evitando que muitos gêneros fiquem congelados no tempo.

Este enredo vai nos proporcionar uma viagem a um passado distante; vamos passar pela formação da Pequena África, dançar o maxixe e o samba nas casas das Mães Baianas; então, aguçaremos nossos ouvidos, para os imaculados chorinhos e vamos até aos salões dos antológicos Saraus. Já em uma viagem mais próxima; vamos juntos cantar, torcer e nos emocionar com as canções dos inesquecíveis festivais de música; reviveremos os antigos carnavais das Escolas de Samba e, nos deixaremos envolver com uma sedutora história de amor.

Com esta proposta, o Grêmio Recreativo Escola de Samba União de Jacarepaguá, deseja não só prestar sua homenagem, mas também, deixar através deste enredo uma contribuição cultural, para todos aqueles que de forma direta ou indiretamente, admiram uma das maiores festas populares, o Carnaval.

Este é o caminho escolhido pela Agremiação, a ser desbravado, rumo ao carnaval 2009.

Sinopse:

1º Parte: “Das raízes do samba e do chorinho, nasce mais um filho da Pequena África”

Afinem os instrumentos, abram as cortinas e acendam as luzes, para juntos com o Grêmio Recreativo Escola de Samba União de Jacarepaguá, possamos participar de uma grande e merecida homenagem a um dos grandes nomes da nossa música Popular Brasileira.

Para entendermos melhor o refinado gosto musical do artista, nos transportaremos ao passado, em importantes momentos de dois resistentes gêneros da nossa cultura Musical o Samba e o Choro.

O Samba nos transporta ao ano de 1870, quando negros iorubanos começaram a migrar do Recôncavo Baiano com destino ao Rio de Janeiro, trazendo com eles manifestações culturais, como a dança e a música. Formando na região compreendida pela Cidade Nova, uma comunidade que mais tarde ficou conhecida como Pequena África. Contribuíram com a música carioca, nas reuniões festivas que aconteciam nas casas das chamadas tias baianas, entre elas a famosa Tia Ciata e com a criação dos ranchos carnavalescos por Hilário Jovino Ferreira.

Em 1888, chegam ao Rio de Janeiro os Bantos, oriundos das plantações de café do Vale do Paraíba, improvisando moradias em morros dando origem as famosas favelas. De acordo com a evolução, esses acabaram criando, um samba diferenciado dos maxixes que os habitantes da Pequena África chamavam de samba. Tratava-se de um samba mais lento, mais dolente, a ser cantado nas reuniões ao pé do barraco ou até mesmo nos desfiles dos blocos organizados por aquela comunidade pobre na época de carnaval.

No Choro, nos transportaremos que num dado momento de sua história foi considerado música de branco, mas que na verdade foi enriquecido por negros como o mulato Joaquim Callado e o gênio Pixinguinha, não deixando de citar dois expoentes, brancos na verdade, pertencentes à classe média baixa; Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga.

Podemos ratificar que os gêneros musicais destacados fazem parte, da vida deste genial artista que nasceu no bairro de Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, filho de um dos maiores violonistas do nosso País integrante do grupo de choro “Época de Ouro”. Na infância usava a criatividade para confeccionar seus próprios brinquedos. Sempre que podia acompanhava o seu pai nas reuniões musicais, quando essas não aconteciam em sua própria casa, com essa influência, em pouco tempo já tentava os primeiros acordes no violão.

Na sua juventude, freqüentava a casa da sua tia Trindade, no bairro de Vila Valqueire, onde brincou diversos carnavais, chegando até, junto com alguns amigos fundar o bloco carnavalesco “Foliões da Rua Anália Franco”, para o qual compôs seu primeiro samba.

Os jovens foliões recebem da Escola de Samba União de Jacarepaguá o convite para integrar a agremiação, foi o primeiro contato do nosso homenageado com uma escola de samba, onde participou como ritmista e, compôs seu segundo samba, chamado “Pode ser Ilusão”, assim começou sua trajetória e história como Sambista.


2ª Parte: “Com arte nas mãos, do Zicartola para a canção”

Paulinho jamais imaginava em seu caminho a profissionalização através da música. Ainda na infância descobre sua habilidade na marcenaria e, junto com ela desenvolve sua capacidade de concentração, um exercício autodisciplinador, uma arte que em determinadas peças podem perpetuar histórias de muitas outras histórias.

Depois de completar o curso de contabilidade, almeja a carreira de economista.

Mas, aos 19 anos consegue seu primeiro emprego no Banco. Um dia no seu trabalho reencontra o poeta Hermínio Bello de Carvalho, dessa amizade, surgiram às primeiras parcerias do jovem compositor com o jovem poeta, precisamente duas composições.

Hermínio Bello de Carvalho convida Paulinho para conhecer o Zicartola, um restaurante localizado na Rua da Carioca que pertencia a Angenor de Oliveira, o Cartola e sua mulher Dona Zica. Muitos artistas cantavam no restaurante, como; Cartola, Zé Ketti, Elton Medeiros entre outros. Paulinho, na sua estréia cantou sambas de outros autores, causando forte impressão em muitos, inclusive em Cartola, Zé Ketti e Sérgio Cabral, mestre de cerimônia da casa, por quem foi rebatizado com o nome de Paulinho da Viola.

Por sugestão de Luís Bittencourt, diretor musical da gravadora Musidisc, Paulinho da Viola, Oscar Bigode, Zé Ketti, Anescar do Salgueiro, Nelson Sargento, Elton Medeiros e Jair do Cavaquinho, formam o grupo “A Voz do Morro”. O grupo alcança o sucesso e a partir daí, Paulinho da Viola inicia sua discografia que enriquece nossa cultura musical até o presente momento, compondo grandes obras em parcerias com consagrados nomes da nossa música.

3ª Parte: “Como a beleza do mar em sua calmaria, o poeta chega ao seu apogeu”

Paulinho da Viola consagra-se um dos maiores nomes da música popular de todos os tempos, por ser um excelente instrumentista, genial compositor e um sensível poeta. Demonstrando sua capacidade de inovar e modernizar as melodias e harmonias do samba e choro, evitando que os mesmos fiquem esquecidos no passado. Mesmo tendo convivido com artistas que seguiam outros gêneros musicais, nunca deixou de seguir seu coração, pois como ele mesmo diz; “Não vivo no passado, o passado vive em mim”.

Paulinho participou de diversos festivais de música, alcançando em alguns o prêmio máximo, com sucessos que são cantados até nos dias atuais. Em muitas de suas composições, percebemos que nosso poeta fala do dia a dia das pessoas de uma forma bastante especial, cantou a ecologia antes de o assunto virar moda. Canta divinas canções falando do mar, para ele, trata-se de uma entidade que oculta mistérios, podemos vê-lo tranqüilo, belo e em paz, mas, também, em seu momento de uma imponente revolta quando na sua fúria. Seria uma relação metafórica entre o mar e o homem?

Paulinho da Viola viajou por diversos países, recebendo o reconhecimento do público, crítica e até de órgãos Governamentais.

Ao longo de sua carreira, criou shows que foram verdadeiros espetáculos teatrais, consagrados sucessos pelo público e pela crítica, resgatando e revelando lendários artistas do nosso País. Alguns desses shows, rederam a Paulinho da Viola importantes premiações no Exterior e no Brasil, 1997 foi recordista do Premio Sharp de musica, sendo contemplado com nove troféus, recentemente arrebatou quatro Prêmios TIM de música 2008.

No ano em que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, completa 100 anos de existência, cabe lembrar que no dia 1º de maio de 2004, ocupam o palco; Paulinho da Viola junto com Velha Guarda da Portela e a Orquestra Petrobrás Pró-Música, num show em homenagem ao dia do trabalhador.



4ª Parte: “No raiar do dia, desponta uma paixão em azul e branco”

Na manhã do carnaval de 1958, o coração de Paulinho da Viola foi definitivamente arrebatado pelo suave azul que tomava conta da Avenida Rio Branco, foi o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela.

Mas só no ano de 1964, a convite do seu primo Oscar Bigode é que Paulinho conhece a sede da Escola que se alojou em seu coração. Foi numa tarde de domingo, quando foi apresentado a Ala de Compositores, na ocasião, ainda freqüentava a União de Jacarepaguá, neste dia o poeta cantarolou a primeira parte de um samba incompleto e, para seu espanto, viu a segunda parte surgir pelos versos de Casquinha, batizado com o titulo “Recado”.

Já incorporado a Ala dos Compositores da Portela, no ano de 1966 Paulinho da Viola apresenta na quadra o samba “Memórias de Um Sargento de Milícias”, a música foi escolhida como samba enredo daquele ano [N.doE.: o único samba de enredo escrito por Paulinho da Viola para a Portela] e a Portela sagrou-se Campeã do carnaval.

No ano de 1968, com o seu parceiro Hermínio Bello de Carvalho compõe a música “Sei Lá Mangueira”, inscrita pelo seu parceiro na terceira edição do festival de música da TV Record. O fato causou preocupação em Paulinho da Viola, pois temia a uma reação negativa da Família Azul e Branca, ficando uma dívida que só foi paga com a composição da música “Foi um Rio que Passou em minha vida”, Paulinho vê a composição como um pedido de perdão.
         
Em dezembro de 1975, junto com outros parceiros fundaram o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo, com a proposta de preservar as raízes do samba e recuperar manifestações musicais menos conhecidas que o samba (capoeira, jongo, afoxé e o maculelê).
         
Como todo bom Brasileiro, Carioca e ainda Batizado em Roda de Samba, não poderia deixar de admirar um dos maiores esportes do nosso País, portanto, é torcedor do Vasco da Gama.
         
Paulinho da Viola, nosso homenageado, é reconhecido e consagrado como um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira, considerado um elo entre diversas manifestações populares." 

(Fonte: Academia do Samba)



O roteiro do desfile original dava uma mostra do que seria o enredo e, também, das dificuldades de uma escola deste grupo. Se o leitor observar as fotos dos carros verá que o terceiro carro, na prática, acabou se referindo à Portela e ao Vasco da Gama, outra das paixões do grande compositor, com as premiações apenas tangencialmente representadas pela escadaria do Teatro Municipal:

"Roteiro

Comissão de Frente: Tem a função de representar o choro, e os primeiros acordes de Paulinho da Viola no violão de seu pai.


1ª Alegoria:  “Das raízes do samba e do chorinho, nasce mais um filho da Pequena África”: Representa o Choro, o Sarau, o Grupo Época de Ouro que teve grande influência na infância do nosso homenageado, O Deus Apolo (Deus da Música), a formação do Samba na Pequena África, os Gêneros musicais que deram origem ao samba e as Tias Baianas.

1° Setor: “Das raízes do samba e do chorinho, nasce mais um filho da Pequena África”

1 - Os criadores do samba: A partir da década de 1870 negros iorubanos começaram a migrar do Recôncavo para o Rio de Janeiro, mais tarde em 1888, chegam ao Rio de Janeiro os Bantos oriundos das plantações de café localizadas no Vale do Paraíba, os Bantos fluminenses acabaram criando de evolução em evolução um samba diferenciado dos maxixes que os habitantes da Pequena África chamavam de samba. Assim, os Bantos criaram nos morros um samba mais lento, mais dolente, a ser cantado nas reuniões ao pé do barraco.

2 - As tias baianas: As maiores contribuições a música carioca foram as reuniões festivas que aconteciam nas casas das chamadas tias baianas, entre elas a famosa Tia Ciata.

3 - Jogo de Botões: Brinquedo que a criançada na infância de Paulinho da Viola utilizava a criatividade na confecção deste, portanto, o jogo de botão era feito de coco.

4 - Bola de Meia: Outra brincadeira onde as crianças utilizavam sua criatividade era o futebol, para este lazer as crianças faziam suas bolas utilizando meias.    

5 - Influência Musical: Na juventude, Paulinho acompanhava o pai em diversas ocasiões, oportunidades em que presenciou importantes reuniões musicais, algumas realizadas na sua própria moradia.

6 - Antigos Carnavais: Além de manter contato com o mundo do choro, na sua juventude, Paulinho da Viola brincou diversos carnavais no bairro de Vila Valqueire, onde junto com seus amigos fundaram o Bloco Carnavalesco Foliões da Rua Anália Franco.


2ª Alegoria: “Com arte nas mãos, do Zicartola para a canção”

Representa o primeiro trabalho de Paulinho da Viola no Banco Nacional de Minas Gerais, o Restaurante Zicartola onde foi batizado por Sérgio Cabral, as personalidades que participaram da sua carreira artística, o instrumento tocado por Paulinho da Viola que encantou o público do Zicartola.

2° Setor: “Com arte nas mãos, do Zicartola para a canção”

7 - Marcenaria a arte com amor: ainda na sua infância, Paulinho da Viola desenvolveu uma habilidade manual, a marcenaria e nela descobre sua capacidade de concentração.

8 - Discografia: Paulinho da Viola, algumas vezes em parceria com outros iluminados poetas, enriquece nossa cultura musical, gravando discos memoráveis, com grandes sucessos ainda cantados por muitos brasileiros.

9 - Solar da Fossa: Paulinho da Viola chegou a dividir o aluguel de um quarto no Solar Santa Terezinha, em Botafogo, mais conhecido como Solar da Fossa, onde conviveu com estudantes, escritores, jornalistas, empregados do comércio, artistas plásticos, boêmios, poetas e muitos outros, todos em busca de um lugar ao sol.

10 - Ditadura: Paulinho da Viola teve várias músicas censuradas durante a ditadura militar.

1° Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Ecologia - Sua música fala do dia a dia das pessoas com uma poesia toda especial, gravou músicas falando de ecologia antes mesmo de o assunto virar moda

11 - Tributo a Heitor dos Prazeres (Bateria): No espetáculo Zumbido a figura central que inspirou Paulinho foi de Heitor dos Prazeres, cuja importância na cultura popular começa no samba e se estende às artes plásticas, com foco em sua apresentação no 1º Festival de Arte Negra no ano de 1960, em Dakar, quando o artista dançou fazendo referências com lenço. Este show lhe rendeu o prêmio da APCA de melhor show do ano de 1981.

12 - O mar em fúria (Ala de Passistas): Em muitas de suas composições, Paulinho da Viola fala em mar. Mas, não ainda o mar como metáfora predileta para pensar o homem em geral, o mar do poeta é uma entidade que oculta mistérios; tanto pode estar tranqüilo, belo em sua paz, como se revoltar imponente em sua fúria.

13 - O mar em calmaria: Esta fantasia representa a outra visão de Paulinho da Viola em relação ao mar que pode estar tranqüilo, belo em sua paz. Mas será sempre uma relação metafórica, o poeta gostando de olhar o mar, de admirá-lo, de pensar nele, mas nunca de navegá-lo.

14 - Timoneiro: Representa um dos maiores sucessos de Paulinho da Viola, com esta música o poeta ratifica sua admiração pelo mar.


3ª Alegoria:  “Consagração - Momentos de glórias e reconhecimento”

Representa a Discografia, os Festivais de música Popular Brasileira, a consagração de Paulinho da Viola e as premiações recebidas.

3° Setor: “Como a beleza do mar em sua calmaria, o poeta chega ao seu apogeu”

15 - Sinal Fechado: Representa a composição de Paulinho da Viola, canção que lhe rendeu o 1º lugar no último festival de Música Popular Brasileira da TV Record no ano de 1969.

16 - Premiações e reconhecimento: Paulinho da Viola viajou por diversos países como França, Alemanha, Itália, Noruega, Portugal, Espanha, Estados Unidos, Argentina e outros, divulgando a importância da nossa cultura musical. Em muitos deles recebendo premiações. No ano de 1997, Paulinho da Viola é contemplado com nove troféus do prêmio Sharp, o maior evento do gênero na música brasileira nos anos 90. Recentemente na sexta edição do Prêmio TIM de Música 2008, tem seu trabalho reconhecido com mais quatro prêmios.

17 - Theatro Municipal 100 anos de glória: Homenagem ao centenário do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde Paulinho da Viola no ano de 2004, realizou um show em comemoração ao dia do trabalhador.

18 - Golfinho de Ouro: Paulinho da Viola recebeu o prêmio Golfinho de Ouro no ano de 1968, de música popular conferido pelo Museu da imagem e do Som, considerado um dos mais importantes de sua carreira.

19 - Chocalhos do Salgueiro: Na manhã de carnaval do ano de 1958, duas imagens ficaram gravadas em sua lembrança, a primeira foi uma Ala de Chocalhos formada por mulheres que se apresentavam pela G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro.

20 - Sei lá Mangueira: Em 1968, Hermínio Bello de Carvalho resolveu fazer uma surpresa a Paulinho e inscreveu a música “Sei Lá Mangueira” na terceira edição do histórico festival de música da TV Record. A letra de Hermínio, musicada por Paulinho, exaltava a Mangueira.
2° Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Paixão em azul e branco - Representa a paixão de Paulinho da Viola pela Portela

21 - Estrela da manhã: Representa a PORTELA naquela manhã foi com a última estrela de uma constelação a se esconder, mas essa estrela fica a brilhar em todos os momentos de Paulinho da Viola.

4° Setor: “No raiar do dia, desponta uma paixão em azul e branco”

22 - Preservação Cultural - Jongo: Representa o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo, fundada com a proposta de conservar e recuperar nossa cultura nas manifestações musicais menos conhecidas que o samba.

23 - Compositores (Ala dos Compositores) - Compositores

24 - Galeria de Velha Guarda"

(Fonte: Site Academia do Samba, com simplificações)


O samba escolhido foi a da parceria composta por Alexandre Valle, Humberto Carlos, Elizeu, Jarbas da Freguesia e Paulo Cabeça Branca. Valle é um dos autores do magnífico samba enredo de 2004 sobre o Rio de Janeiro, que deu à escola a melhor classificação na década à escola, quarto lugar no Acesso A. O samba escolhido, poético, era, ao lado da composição do Boi da Ilha do Governador, considerados os melhores inéditos da safra daquele grupo em 2009. Obviamente, o melhor samba daquele ano era o fenomenal "Afoxé", da Acadêmicos do Cubango; mas este era reedição. O samba teria o privilégio de ser puxado pelo "Pavarotti" do samba, o cantor Rixxa.

O homenageado desfilou no último carro, ao lado de figuras poeminentes da Portela e com familiares desfilando como simples foliões em alas da escola.

A escola foi a terceira a desfilar na Marquês de Sapucaí na noite de terça feira de carnaval, 24 de fevereiro daquele ano. Fantasias e alegorias estavam simples, mas o belo samba foi muito bem puxado e possibilitou boas Evolução e Harmonia à escola.


Aliás, por falar em Harmonia: eu havia conseguido junto a meu (hoje ex) concunhado uma camisa de "Apoio", que na prática é uma forma de um "bicão" desfilar sem ter de usar fantasia. Eu estava no Setor 1 esperando a ala onde estavam minha cunhada e o dito cujo em questão para acompanhá-los (que era a última) quando, umas três alas antes, uma diretora da escola vira pra mim e fala:

 - Ei você ! Tá vendo esta ala aí? Faz a Harmonia dela e não deixa embolar com a ala da frente !

Para quem não conhece, "Harmonia" é o setor da escola que prima pelo canto da escola e pela organização das alas.

Pois é. Eu nunca havia desfilado como Diretor de Harmonia antes, mas até que dei conta do recado cuidando da ala "Chocalhos do Salgueiro" - apesar do sujeito completamente sem noção que, não sei porquê, colocaram na ponta da fila. Entretanto, o gestual exagerado de que me utilizei para me fazer entender pelos componentes parecia que tinha saído diretamente do primeiro ano da faculdade de flanelinhas... Mas o desfile foi delicioso e repetiria a dose como Diretor de Harmonia no Boi da Ilha em 2010.


Com fantasias e carros simples, até pelas dificuldades financeiras e em um regulamento que privilegiava os quesitos plásticos (Evolução, Harmonia e Conjunto estavam naquele ano reunidos em um único quesito), a escola deixou a avenida com a sensação de que ficaria na metade inferior da tabela, mas provavelmente fora do rebaixamento.

Entretanto, em uma apuração esquisita, com um empate mais esquisito ainda entre Unidos de Padre Miguel e Cubango na primeira colocação - havia uma disputa com a organizadora do Acesso A para saber se subiriam uma ou duas escolas - e com duas outras escolas que haviam feito bons desfiles jogadas lá embaixo na classificação final, a escola obteve um excelente sétimo lugar, com 238,6 pontos. Era até aquele momento a melhor colocação da escola neste grupo - que seria suplantada pelo quinto lugar obtido em 2010, com outra equipe de carnaval e muito mais recursos financeiros.

Aliás, a verde e branco é uma escola onde gosto muito de desfilar, sempre acolhedora e onde sempre se pode brincar carnaval. Este ano de 2011 estarei indo para meu quarto desfile pela escola - e seriam cinco não fosse a camisa de 2010 ter chegado nas minhas mãos nas frisas da Sapucaí depois que a escola desfilou...



Vamos ao belo samba, que o leitor pode ouvir em sua versão de estúdio acima:

"Sublime inspiração
Emana do poeta e cantador
Que pelas cordas de uma viola
Entoa verdadeiras declarações de amor
"Toda hora rola uma história"
E o samba se renova sem perder sua raiz
Presente e passado abraçados
Lembrando aquele tempo tão feliz
Das tias baianas, do samba
E do choro bem brasileirinho
Fundo musical da infância
Do "arteiro" menino Paulinho
"Época de Ouro", turbilhão de acordes musicais
Da "Anália Franco" à União, tantos carnavais!...

Nas mãos, a arte
O palco da vida emoldurou
No Zicartola impressionou os bambas
"A voz do morro" fez sucesso e deu um show!


Navegando pela vida
Esse amante do misterioso mar
Levou a cultura do povo
Ao templo erudito do teatro secular
Através de um prisma luminoso
O gênio vê sua luz refletir
Faz o seu choro sambar, o mundo lhe premiar
E todo o povo aplaudir

"Meu coração tem mania de amor"
Pela azul e branco se deixou levar
E esse rio de amor nasceu
Na União de Jacarepaguá
"


(Fotos: Fabrício Gomes)