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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte I"



Nesta segunda feira de uma semana que é bem curta para muita gente – embora para mim não seja – o colunista Rafael Rafic em sua “Made in USA” traça uma comparação entre as sinopses das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro e os sambas resultantes.

A coluna será apresentada em duas partes: hoje as agremiações que desfilam no domingo e, amanhã, as de segunda feira.

Sambas vs Sinopses – Parte I

Depois de analisar e dar notas as sinopses de enredo do Grupo Especial, o que é incomum no mundo carnavalesco, quero propor aqui no Ouro de Tolo outra análise incomum.

Analisarei os sambas-enredos escolhidos pelas Escolas do Grupo Especial. Mas não quero analisar os sambas-enredo por eles próprios, simplesmente lhes dando notas ou ranqueando-os. Esse tipo de análise teremos aos montes assim que o CD sair, em dezembro.

Quero, aproveitando a análise dos enredos que fiz aqui em julho, comparar a avaliação de qualidade do samba-enredo escolhido pela escola em relação à sinopse da mesma. O intuito é ver o quanto a qualidade da sinopse influenciou (ou não) o samba-enredo.

Mais uma vez, a análise será feita pela ordem de desfile. Começaremos hoje com as escolas de domingo. Amanhã, as de segunda feira.

Domingo

1 – Inocentes:

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves
Nota dada à sinopse na avaliação de julho: 2
Autores do samba-enredo: Billy Conti, Dominguinhos, Ildo dos Santos, Juarez Rosseto, Mará, J.J. Santos e Miri Matéria

A Inocentes vem com um enredo difícil de explicar sobre a história, cultura e imigração coreanas; todas as três desconhecidas no Brasil. Não bastasse, o enredo foi mal elaborado. Porém, mesmo o samba-enredo não sendo um grande samba, ficando no terço final da safra 2013, é apresentável para grupo especial.

Aqui temos o primeiro exemplo do ano no qual os compositores tiraram leite de pedra. Vocês verão que tivemos outros vários, reforçando a tese da “ressurreição” do gênero samba-enredo, já comentada aqui no Ouro de Tolo.

Resultado: samba consideravelmente acima do enredo. Mas ainda sim ambos na segunda metade do Grupo Especial. Influência negativa da sinopse..

2 – Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage
Nota da sinopse: 3,5
Autores do samba-enredo: Marcelo Motta, João Ferreira, GE Lopes e Thiago Daniel

Sinopse complicada, polêmica e, em minha análise, ruim. Isso se refletiu na safra medíocre que tivemos no Salgueiro esse ano. Ao final ganhou o único samba digno de Grupo Especial. Ainda sim é um samba para ficar tranquilamente na segunda metade do grupo e, claro, como eu já adivinhara é um autêntico pula-pula.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos na segunda metade do grupo. Influência negativa clara da sinopse.

3 – Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Nota da sinopse: 6,5

Autores do samba-enredo: Julio Alves, Totonho, Dudu e Elson Ramires

A sinopse é correta, mas sem grandes destaques. Mediana e, pareceu-me, sem o toque especial de Paulo Barros. A safra tijucana foi sofrível, mas um samba se salvou: justamente o campeão. Como cada escola só precisa de um samba por ano, tudo bem.

O samba é mediano, com uma segunda parte até bem ruim (como sempre é difícil fazer letra para enredo de Paulo Barros). Mas teve uma sacada genial no refrão (“metade do meu coração é Tijuca/ A outra metade Tijuca também”) que o faz disputar posições medianas no Grupo.

Resultado: samba acompanhou par e passo a qualidade da sinopse, ambas medianas.

4 - União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Ginho, Junior, Vinicius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra

Aqui, tivemos uma inovação brilhante e uma aula de como se fazer uma sinopse, dada pelo carnavalesco Alex de Souza. Porém, para variar, a Ilha pegou a sinopse, amassou, fez bolinha de papel dela e a usou como bola de basquete para um arremesso certeiro de 3 pontos - direto para a lata do lixo.

O problema aqui é muito mais complicado do que uma simples análise “sinopse x samba-enredo”.

Para começar, a ala de compositores insulana está muito maltratada há anos por sua diretoria, o que fez com que sumissem vários talentos dela. Assim, a qualidade dos sambas vem caindo e não é de hoje.

A isso credito o fato de não surgir aqui um samba fantástico em toda a safra, diferentemente das outras duas escolas que ganharam excelente avaliação de suas sinopses: Portela e Vila Isabel.

Não satisfeita com isso, a Ilha conseguiu a “proeza” de ser a única escola em 2012 que não escolheu o samba que a comunidade queria (e fez isso pelo segundo ano consecutivo). O samba vencedor era o único da final que não tinha qualquer apoio relevante, seja da comunidade, seja da diretoria, seja dos segmentos.

[N.do.E.: mas era o samba preferido do Presidente Ney Fillardi. Samba que, aliás, sofreu mudanças em sua melodia]

Assim, ela simplesmente jogou fora pelo menos quatro sambas bons (sambas de Aloísio Vilar, Almir da Ilha, Marquinhos do Banjo e Carlinhos Fuzil) que, por mais que não chegassem ao “Top 10” da sinopse, ainda salvariam a pátria e disputariam vaga na primeira metade do Grupo.

A Ilha escolheu mal demais o samba e, mesmo com a melhor sinopse do ano (em conjunto com a Portela), ela disputa o “título” de pior samba do ano com a Mocidade.

Resultado: samba infinitamente inferior à sinopse. Prova de que sinopse não é sinônimo imediato de bom samba.

5 – Mocidade

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada
Nota da Sinopse: 5
Autores do samba-enredo: Jefinho Rodrigues, Jorginho Medeiros, Marquinho Indio, Domingos PS, Moleque Silveira e Gustavo Henrique

Já comentei o desastre que foi a sinopse da Mocidade frente ao tema e indiquei que seria complicadíssima para se fazer um samba bom.

Dito e feito. A Mocidade teve 45 sambas concorrentes, mas podia juntar os 45 que não daria um mísero samba digno. Até compositores gabaritados como Diego Nicolau (campeão de 2012) fizeram sambas sofríveis, muito abaixo do que costumam fazer.

No final, levou aquele que a comunidade queria e era o menos pior, mas ainda sim fecha a raia do Grupo Especial - em uma disputa árdua com a Ilha pela lanterna.

Alias, essa é a única nota de sinopse da qual me arrependi. Hoje daria uma ainda menor: 3,5.

Resultado: samba do nível da sinopse, ambos muito ruins. Influência negativa clara da sinopse.

6 – Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do Posto 7

Dessa safra posso falar com bastante propriedade. Pude acompanhar a disputa de samba-enredo desde sua primeira eliminatória até a final. Em um momento inicial, disse que a safra era sofrível com apenas um samba espetacular - justamente o que se sagraria vencedor.

Porém, tenho que admitir que o desenrolar da disputa me fez mudar de idéia. Não quanto ao samba sensacional, que continuo achando sensacional (mesmo com as mudanças horripilantes e insensíveis feitas em sua letra e melodia após o fim da disputa), mas quanto à qualidade da safra.

Hoje classifico mais dois sambas como dignos de irem à avenida se não fosse a obra-prima que o quarteto vencedor aprontou mais uma vez. Além desses, teve mais 2 ou 3 sambas razoáveis na disputa. No que acabou sendo uma safra melhor do que a Portela teve nos últimos anos - e tenho que destacar o papel da sinopse nesse fato.

[N.do.E.: discordo do colunista. A safra da Portela foi bastante fraca e, com boa vontade, além do vencedor somente mais um samba poderia ir para a avenida]

Para a comparação proposta em relação ao samba vencedor, uma excelente sinopse terá um samba a sua altura para representá-la na avenida.

Não coloco o samba acima da sinopse (como se isso ainda fosse possível) por causa das mudanças posteriores (feitas por diretoria e puxador) que pioraram consideravelmente o samba em relação a sua versão concorrente.

Será bastante interessante ver o que ocorrerá com a Portela e o seu sambão vindo logo depois dos dois piores sambas do ano, que virão juntos logo antes de sua entrada na avenida.

Resultado: samba pari passu com a sinopse, ambos em altíssimo nível.

[N.do.E.: infelizmente, as notícias que chegam do barracão da Portela são MUITO preocupantes.]

Até amanhã, com as escolas de segunda feira.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Made in USA - "Enredos 2013 e suas sinopses: Parte I"


Mostrando a sua versatilidade, a coluna "Made in USA", assinada pelo advogado Rafael Rafic, dedica dois artigos a analisar as sinopses que guiam os enredos das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, que ficaram completas após a divulgação do texto da Grande Rio na última segunda feira.

Confesso que não tenho muita paciência para a leitura destes textos, embora especificamente neste 2013 tenha lido até mais sinopses que em outras oportunidades.

Hoje teremos as escolas que desfilam domingo e amanhã, na segunda parte, as de segunda feira. A faixa musical das sextas feiras também falará um pouco das disputas de samba, que estão se iniciando. Mas já aviso que teve parceria repetindo o grande samba apresentado em 2012.

Enredos 2013 e suas sinopses: Parte I

Pedi ao editor do blog um espaço extra, fora da minha coluna esportiva, para finalmente poder escrever sobre uma das minhas paixões. Entretanto sempre é difícil falar aqui porque temos dois colunistas que são bambas no assunto: Escolas de Samba, as quais tenho o prazer de acompanhar desde meus 4 anos (hoje tenho 23).

É engraçado, porque apesar de ser carioca, amar nossa Portela, o samba-enredo e as escolas de samba, sempre fui um amante à distância, pela TV. Nunca assisti a um desfile ao vivo na Sapucaí (espero fazê-lo em 2013) e, até o ano passado sequer tinha ido a um ensaio. Também não tenho qualquer conhecimento mais profundo sobre música além das três marcações de surdo.

Por isso, apesar de ter razoáveis conhecimentos sobre harmonia, evolução, conjunto e bateria, não tenho a menor condição de discutir com os experts Pedro Migão e Aloísio Villar. Sobre samba-enredo meus comentários acabam sendo mais baseados no senso comum e na experiência de 18 anos de safras (além dos sambas históricos que qualquer iniciado TEM que conhecer). Por isso, não comentei sobre os sambas-enredo esse ano nem sobre os desfiles, o que o Migão fez magistralmente.

Porém tem uma área que eu conheço bastante: enredos e suas sinopses. Seja pelos anos a fio que fiz questão ler todas as sinopses do Grupo Especial, seja pelos anos de treino intenso em redação, seja pelos conhecimentos gerais que acumulei nos meus anos de formação. Com isso acho que posso comentar sobre os enredos com a propriedade que o Ouro de Tolo merece.

Para piorar, a partir do ano que vem também virarei vidraça e farei minha estréia escrevendo a sinopse da Escola Virtual Estrela D’Alva, que desfila no Grupo de Elite do Virtuafolia.

É justamente a análise das sinopses do especial para 2013 é que faço aqui, aproveitando o fato que a última sinopse, Grande Rio, foi divulgada no início desta semana.

Para começar já posso dizer que estou decepcionado. Depois de ótimos enredos que tivemos ano passado, que propiciou com sobras a melhor safra dos últimos 20 anos (com direito a um samba antológico da Portela e outro quase da Vila Isabel), achava que as escolas tinham aprendido a lição.

Ledo engano.

A safra de 2013 é medonha, com poucas salvações. Alias, existem duas ou três escolas que conseguiram se “superar” e talvez fosse mais fácil tirar "Danoninho" de pedra do que fazer samba para alguns enredos propostos. Também temos uma profusão de enredos CEP (cidade, estado, país ou, se o leitor quiser, em referência ao código postal dos Correios). Mas vamos à análise escola por escola em ordem de desfile.

Em tempo: as notas que atribuo se referem apenas à qualidade da sinopse, seja em coerência, correção ou em estrutura; e a possibilidade dela facilitar ou não o trabalho dos compositores. Não levei em consideração a capacidade da escola ou de cada carnavalesco individualmente falando em transformar a sinopse em fantasias e alegorias.

Começamos hoje com as escolas de domingo, como o Editor Chefe informou na introdução deste artigo.

1. Inocentes de Belford Roxo

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves

O enredo tem a intenção de comemorar os 50 anos de imigração sul-coreana no Brasil, algo muito parecido com o que a Porto da Pedra fez em 2008 com o centenário da imigração japonesa. Mas dizer que o resultado saiu muito ruim ainda seria um elogio.

Eu li e reli a sinopse, mas até agora não entendi onde ela quis começar, nem onde ela tenta terminar, muito menos tive qualquer pista sobre o que as sete confluências do rio tem a ver com isso.

A Coréia do Sul já não é tão fácil de carnavalizar quanto o Japão, nem sua cultura está tão enraizada nas mentes dos cariocas. Talvez por isso, a sinopse tenta ser algo mais aberta, dizendo a importância da água para o povo sul-coreano e, aqui e ali, joga algumas informações sobre o país que não encontram qualquer encaixe no enredo. Em um ano de enredos ruim, ele parecia conseguir ser a proeza de ser o pior deles, e por muito. Isso até o último dia 23 (amanhã os leitores entenderão o que quero dizer).

Esse enredo ruim complica ainda mais a situação de uma escola que já é péssima em virtude dos acontecimentos estranhos de sua vitória no grupo de acesso em 2012. É quase pule de dez para o rebaixamento - e ainda estamos em agosto...

Nota: 2.

2. Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage

Mal começamos e já chegamos na polêmica do ano.

Depois de anos batendo nas escolas que tinham enredos bem ruins mas patrocinados, os salgueirenses até agora não se adaptaram ao papel de vidraça do ano. Com isso atormentam a paciência de qualquer um que ouse cometer a heresia de dizer que o enredo não é “culturalmente relevante” (seja lá o que isso signifique), formando uma patrulha ideológica que deixaria com inveja qualquer fã-clube de banda adolescente. Para piorar, a agremiação caiu em uma posição de desfile horripilante, a pior possível das que estavam disponíveis para sorteio aberto.

Desde quando o tema foi anunciado, com o patrocínio da Revista Caras (via lei Rouanet), as brincadeiras, galhofas e decepções com a escolha já pululavam nas redes sociais. O Salgueiro completa 60 anos em 2013 e por isso era esperado que ele mesmo fosse o enredo, ou ainda a homenagem a Xangô.

Quando o tema foi lançado, eu já esperava uma sinopse fraca. Mas sua divulgação superou minhas péssimas expectativas: a sinopse é muito ruim e só não a classifico como a pior do ano, principalmente quanto à estrutura, porque superar a Inocentes era uma tarefa hercúlea.

Ela tenta ser aberta, mais insinuando do que explicando, mas ao mesmo tempo tenta fazer uma abordagem histórica da fama que exigiria bastante explicação para se tornar coerente. Apenas como exemplo segue uma estrofe da sinopse que, a exemplo da excelente sinopse de 2012, foi feita em versos:

“Ora se esconde, ora se revela
A máscara no rosto é uma interrogação
Não sei se a mocinha é princesinha bela
Se diz uma mentira, e tem cara de fera!”

Alguém entendeu o que isso tem a ver com fama? Se entendeu, favor me explicar. Mesmo quando claramente identificamos o propósito, falta qualquer tipo de ligação com o anterior e o posterior, fazendo ao invés de enredo mini-contos sem nexo.

Assim como não entendi, os compositores também não e em uma escola que já gosta de um samba “pula-pula” isso foi traduzido como “Ihh, a sinopse está aberta, estamos livres, pode tudo”. Ou seja, lá teremos mais um samba em que o Salgueiro irá “sacudir, levantar e explodir a fama no ritmo da bateria furiosa”...

Só o talento infinito de Renato Lage e uma possível obra milagrosa do compositor Dudu Botelho (o único que não pula na área) terão o poder de consertar esse samba do crioulo-doido famoso armado no “caldeirão”. [N.do.E.: ao que parece o talentoso compositor abriu mão de disputar samba na Academia este ano.]

Nota: 3,5

3. Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Eu juro que enquanto eu lia a sinopse da Tijuca me passavam pela cabeça flashes do Caronte de 2011.

Diferentemente da viagem maluca de Paulo Barros sobre o medo de 2011 que só ele entendeu, pois ninguém ainda encontrou o nexo entre medo e Priscila, Rainha do Deserto, a sinopse desse ano sobre a Alemanha em mais um enredo CEP é bem enxuta.

Porém sofre da mesma falta de nexo que percebi na sinopse de “Esta noite levarei sua alma” e que foi mostrada nua e crua na avenida. A transição entre o deus Thor, da tradição nórdica, para a Alemanha da pujança científico-cultural dos sec. XIX e XX, que claramente é o ponto crucial desse enredo patrocinado pelo Instituto Goethe, é muito fraca - para não dizer inexistente.

Em um enredo com muitas informações relevantes, esse problema de introdução pode até passar despercebido ou bastante minimizado na avenida, mas está lá e é um obstáculo...

A Alemanha por si só já tem elementos para fazer um enredo interessante e a abordagem é um tanto diferente do “padrão CEP”. Mas não achei no enredo algum traço genial de Paulo Barros para contar o enredo, tal como o “desembarque da corte para coroar o rei Luis do Sertão” do ano passado. Alias, até agora estou procurando a marca de Paulo Barros nessa sinopse e pela primeira vez desde 2004 não achei isso. Pode ser um problema.

Por fim, a Tijuca tem que fazer de tudo para conseguir fugir do Fusca, evitando menções a Hitler (que seriam necessárias nesse caso) e problemas com a comunidade judaica carioca - sempre alerta contra as escolas de samba. A boa notícia é que a sinopse me pareceu ser concebida exatamente para isso e dá o espaço necessário para falar dos automóveis, indispensáveis em um enredo sobre Alemanha, mas sem identificá-los.

Em resumo: não é um ótimo enredo, mas em se escapando de algumas armadilhas que ele concebe, é até interessante. Porém, como já é tradição na Tijuca de Paulo Barros, será uma tarefa complicada para a ala de compositores.

Nota: 6,5.

4. União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Finalmente, depois de algumas homenagens em grupos de acesso (a última em 2011 em um conturbado desfile do Império Serrano), alguma escola leva o poetinha Vinícius de Moraes para o Grupo Especial.

Vinícius é uma pessoa densa, com várias facetas, muitas coisas para contar e uma ligação especial com o carnaval e com o bairro da Ilha do Governador, o que sempre acaba sendo uma faca de dois gumes. Se por um lado dá um enredo muito interessante e inspirativo, pode acabar se perdendo no gigantismo e na falta de uma estrutura dependendo da viga mestra da história que se conta no enredo. Porém o enredo não deixa nada a desejar: fala de todos os pontos de Vinícius com uma lógica que o amarra e dá sentido.

Alias, é de se destacar o que foi a grande inovação desse ano em sinopses: a mesma foi elaborada em forma de uma entrevista fictícia entre a União da Ilha e o homenageado, buscando suas respostas em várias outras entrevistas concedidas pelo homenageado e pelo que ele próprio escreveu em seus livros. Acho que foi inclusive essa solução que deu um jeito de, mesmo com tantas informações, o enredo fazer sentido.

Inicialmente, fiquei com apenas uma ressalva conta ele: sua extensão exagerada. Não me lembro de ver enredo tão grande (deve dar umas 7 ou 8 páginas) e fiquei com receio dos compositores se perderem no meio de tanta coisa para se colocar em apenas um samba.

Porém, o colunista deste Ouroi de Tolo Aloísio Villar, que é atual vencedor de samba-enredo da Ilha, elogiou bastante o enredo: disse que isso não é o menor problema e que ele adoraria ter mais quatro ou cinco enredos assim. Se ele afirma isso, quem sou eu para contradizer?

Mas fica aqui a nota triste, que nada tem a ver com a sinopse, pela direção da escola transformar o jornalista e insulano apaixonado Anderson Baltar “persona non grata” simplesmente por ele aderir a um movimento de modernização do carnaval. Ei, não era a Ilha a escola mais democrática do Rio?

Nota: dez, dez, nota 10!

5. Mocidade Independente de Padre Miguel

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada

A Mocidade foi a primeira escola a anunciar o tema de seu enredo para 2013, ainda em setembro de 2011. Não me lembro de nenhuma escola divulgar seu tema com tanta antecedência. Quando o mesmo foi anunciado, os detratores de plantão já vieram reclamar que “Rock não dá samba” e que a Mocidade jogou fora o carnaval com mais de um ano de antecedência.

Eu já achava o contrário, que eles poderiam fazer um ótimo enredo sobre os grandes momentos das várias edições do evento: grande show do AC DC, a ressureição de James Taylor, o fato de todo carioca ter um lado sambista que gosta de rock - entre outros.

Mas quando vi a sinopse me decepcionei mais uma vez. Um texto inacreditavelmente longo que simplesmente faz uma declamação laudatória histórico-institucional da marca Rock in Rio. A típica sinopse que não é nada carnavalizável e que os compositores terão que rimar Lisboa com Madri e Rio de Janeiro. Uma pena para uma escola que estava buscando a recuperação e tinha surpreendido com um lindo Portinari ano passado.

Nota: 5

6. Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes

Se esse ano nós portelenses pudemos nos gabar de ter o samba do ano, para 2013 podemos nos gabar de termos o enredo do ano, junto com a Ilha. Além disso, diferentemente do ano passado em que fomos lanternas convictos [N.do.E.: na verdade não, a Porto da Pedra entregou ainda depois], agora a Portela é a segunda escola a entregar a sinopse.

Paulo Menezes, em mais uma tacada genial, juntou três datas importantes para qualquer amante da escola. Oficialmente o enredo é sobre o bairro no qual a escola cresceu, Madureira, que completa os 400 anos da freguesia que lhe deu origem em 2013. Pasmem: mesmo tendo duas grandes escolas Madureira nunca foi tema de nenhuma escola a passar nem no Especial, nem o Acesso A, nem no B.

Como falar de Madureira sem falar de Portela é impossível (junto com o Mercadão são os dois traços que identificam o bairro perante qualquer carioca), é óbvio que iremos nos auto-referenciar por uma boa parte do tempo para comemorar nossos 90 anos. Alias, a sinopse até abre uma bela brecha para ter “mais 90 e menos 400” como diz o nosso editor. Além disso o Império Serrano também estará presente como um dos homenageados.

Por fim, assim como Clara Nunes foi o fio condutor do enredo desse ano sobre a Bahia, quem melhor que Paulinho da Viola para ser o desse ano? É claro que Paulo Menezes, que não é bobo, usou desse artifício e assim também comemora os 70 anos de idade do grande compositor portelense.

Ou seja, é um enredo com a cara da escola e nesse ponto ele é imbatível esse ano.

Para melhorar, a sinopse foi escrita em estilo bem aberto, típico do carnavalesco, apostando apenas nas ligações de campos semânticos mais cognitivos do que estruturais, justamente para deixar os compositores livres para criar e não se amarrar em qualquer ordem. Foi assim que saiu o “Madureira sobe o Pelô” ano passado.

Confesso que ao terminar de lê-la meu coração portelense chorou um bocado. Ah, e antes que eu me esqueça: como diz a sinopse a capital do samba é Madureira e samba bom é aqui na Portela.

Nota: dez, dez, nota 10!

Amanhã teremos as escolas de segunda feira. Até lá!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Grupo Especial - Segunda - Impressões


Bom, final dos desfiles do Grupo Especial, vamos a um panorama da segunda noite de desfiles, que a meu ver de forma geral acabou sendo inferior à primeira. Muitos erros, em especial nos quesitos considerados "de pista" deram o tom das escolas.

Penso que o desfile termina sem um favorito destacado, mas acredito que, apesar nos problemas nas alegorias, Vila Isabel e Portela foram bem superiores nos quesitos "de chão" às demais escolas e devem disputar ponto a ponto o título. A Tijuca correria por fora a meu ver, e só - assim mesmo forçando bastante a barra.

Vamos a uma análise escola por escola.

1 - São Clemente


Vi somente a arrancada da escola, pois tinha de ir para a concentração da União da Ilha. Achei as alegorias bem fracas pelo que vi.

2 - União da Ilha


A concentração foi bastante confusa, e a Harmonia não foi perfeita: minha ala, que era uma das últimas, teve de correr um pouco. Ainda haviam integrantes sem bandeiras, e isso deve incorrer em desconto de pontos. Ainda assim fez um bom desfile, e briga pela sexta vaga no Desfile das Campeãs.

Os carros, pelo menos na concentração, pareciam bem interessantes.

3 - Salgueiro


Pelo segundo ano seguido a Harmonia da escola impediu que se conquistasse um campeonato até com certa facilidade. Demora para a entrada dos carros, quebras de elementos e buracos deram o tom da apresentação.

Pena. Renato Lage fez uma vez mais um ótimo trabalho. Ainda assim deve voltar no desfile do próximo sábado.

4 - Mangueira


Vergonhoso. É assim que classifico o desfile da verde e rosa, que foi um equívoco completo. A começar por suas alegorias e fantasias (acima, o indigno abre alas) típicas de Grupo de Acesso B e passando pelas presepadas com o sistema de som e as "paradinhas", que transformaram a Sapucaí em uma mesa de (ruim) pagode.

Além disso, estas "inovações" fizeram com que a saraivada de turistas que compunham suas alas atravessasse o samba, penalizando ainda mais os quesitos.

Por mim - e não só por mim - seria rebaixada em último lugar, mas acho pouco provável que isso ocorra. Mas seu presidente tem de explicar como recebe R$ 7 milhões e apresenta um carnaval deste naipe. Lamentável.

5 - Tijuca


Alternou bons e maus momentos. Excelente comissão de frente, alguns carros bons e outros com problemas evidentes de acabamento, um enredo meio confuso e um samba fraco.

Minha avaliação é que voltaria nas Campeãs apenas, mas se a proposta do júri for desvalorizar os quesitos de pista e privilegiar a Broadway pode entrar na briga.

6 - Grande Rio


Burocrática. Assim definiria a escola de Caxias, que patinou em problemas de Evolução e Harmonia, trouxe alegorias com problemas e fantasias fracas - com direito a alas de short e camiseta - e o pior samba do ano.

Foi desfile para oitavo, nono lugar, mas com a força que a agremiação dispõe não me surpreenderia voltando entre as seis.

Minha avaliação seria a seguinte, já avisando que é polêmica:

Título: Vila e Portela, com Tijuca correndo por fora.
Campeãs: Tijuca, Salgueiro, Mocidade e talvez a Ilha - embora duvide que Beija Flor e Grande Rio fiquem fora, embora mereçam.
Marola: Beija Flor, Grande Rio, São Clemente;
Disputando o rebaixamento: para mim as piores nos quesitos foram a Imperatriz e disparada a Mangueira, mas acho pouco provável que uma das duas seja rebaixada, embora mereçam. Deve sobrar mesmo para Renascer e Porto da Pedra.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Samba de Terça - "Cama, Mesa e Banho de Gato"


Nossa coluna "Samba de Terça" de hoje traz um samba e desfile que hoje, em 2011, já seria bastante polêmico. Imagina em 1986.

"Cama, Mesa e Banho de Gato", da Unidos da Tijuca, é o nosso tema de hoje da coluna. Originalmente era um enredo sobre os sete pecados capitais, mas como a sinopse deixa claro era focado em um deles: a luxúria.

1986 seria um ano histórico para o carnaval carioca. Após longos 21 anos de ditadura, seria o primeiro carnaval sob a regência da democracia, sem amarras de quaisquer espécie sobre a liberdade de expressão e sem a censura sobre a mesma.

O resultado é que tivemos alguns enredos e sambas que testavam a permissividade recém-conquistada. Um bom exemplo era a Vila Isabel, que trazia um "não venha agora me sacanear" na letra do samba. Ou mesmo a vetusta Portela, com um insólito enredo crítico.

Contudo, coube à Unidos da Tijuca testar os limites não somente da nascente liberdade como da sociedade como um todo. O enredo proposto pelo carnavalesco Wany Araújo - que fora auxiliar de Joãozinho Trinta nos áureos tempos de Beija Flor de Nilópolis - buscava mostrar a luxúria como vértebra que movia todos os demais pecados capitais. Nas palavras da sinopse e do roteiro de desfile:

Sinopse:

Entrando em ritmo de Nova República, de liberação da censura, de reavaliação do instinto e reposição do prazer em seu espaço legítimo, nosso desfile torna como referência a sucessão de "Pecados Capitais", que são sete, mas que no nosso filtro se equilibram sob uma única vértebra, a da luxúria.

Os "Pecados Capitais", assim denominados, passam aqui como fonte de alegria e de expressão plena, relacionando a parceria bíblica (homem/mulher) e suas variantes, com o senso de humor das circunstâncias mais conhecidas: 

a conquista da beleza jovem e seu teste de competência sexual (orgulho); 

a defesa do ciúme e da área competitiva de sua atuação (avareza); 

a passagem do amor oficial para o amor alternativo (luxúria); 

situações agressivas geradas pelo ciúme e a insegurança (ira); 

as variações mais bizarras, representadas na metáfora da mesa "qualquer prato satisfaz a quem tem fome" (gula); 

o olhar dissimulado para a visão ideal, no corpo que passa fora do nosso alcance (inveja); 

o fazer que alimenta todas as idéias, que cobre a imaginação, que extenua o corpo saciado, incapaz, muitas vezes, de cumprir o dever conjugal, no dia-a-dia da rotina (preguiça). 

A vida é o grande palco desses acontecimentos: Seus espaços vitais, a casa, o motel, a literatura erótica, o mercado dos prazeres, passam diante dos olhos do público, em tempo de cornucópia, derramando a euforia sem repressão, na hora de dizer sim aos desejos.

Os corpos, molhados de suor, parecem celebrados pela língua do carnaval, que canta a beleza do instante, deixando nos nervos e músculos dos carnavalescos aquele sabor molhado de liberdade e êxtase.

Nos propomos a uma obra aberta sobre a liberação da carne, sem os subterfúgios dos disfarces, com a pureza da entrega que não se culpa, contra a discriminação que avilta, em favor da presença do que é humano em seu instante de extroversão.

Delírio, coração aberto, sensualidade e humor, são os temperos desta grande mesa oferecida a todos os apetites e, na verdade, atendendo ao apetite básico do homem, pelo qual se multiplica e perpetua a espécie, ao mesmo tempo que exercita a imaginação, valorizando a breve caminhada planetária.

Organograma de Desfile:

Comissão de Frente: "Gatões" 
"Abre Alas "Pavão" - Representa o símbolo da Agremiação em desfile,
Destaque: Fernando Ramos como conquistador. 
1° Setor de Alas "Conquistadores" 
1° Destaque de chão Rosana Estrassy 
2° Setor de Alas "Panteras" 
1° Quadripé "Avareza"
Destaques: Antonio dos Santos, Shirlen Machado e Sônia Machado - Representam a Poligamia 
3° Setor de Alas "Matriz" 
2° Quadripé "Matriz"
Destaque: Edmela 
1° Tripé "orgulho" 
2° Tripé "avareza" 
4° Setor de Alas "filial" 
3° Quadripé "filial"
Destaques: Ana Mirtes, Carla Fernanda Horta, Jane Vieira de Sá e Raquel Vieira de Sá 
2° Destaque da chão: Tereza - Representando a "Noiva" 
5° Setor de Alas "Noivos" 
3° Destaque de chão: Isaias - Representando Rosas do Jardim da Vida 
4° Destaque de chão: Luiz Carlos - Representando Rosas do Jardim da Vida 
5° Destaque de chão: Julio César e Fernando - Representando Rosas do Jardim da Vida 
6° Setor de Alas "Jardim da Vida" 
6° Destaque de Chão: Representando "Prato Predileto" 
3° Tripé "luxúria" 
4° Tripé "ira" 
7° Setor de Alas "Pratos Prediletos" 
5° Tripé "gula" 
1° Carro Alegórico "Gula"
Destaques de complemento "Coelhas" 
8° Setor de Alas "Pratos Prediletos" 
4°, 5° e 6° quadripé "Pratos Prediletos"
Destaques: Jacy, Ricardo Alam e Roberto - Representam pratos feitos 
9° Setor de Alas "Trincha" 
7° Quadripé
Destaque Elsio - Representando a Trincha 
6° Tripé "inveja" 
10° Setor de Alas "Laminas" 
8° Quadripé
Destaque: Atié - Representando a Lâmina 
7° Tripé "preguiça" 
11° Setor de Alas "Cupidos Emissários do Amor" - Ala das Crianças 
12° Setor de Alas "Vedetes" 
13° Setor de Alas "Caricatas" - Mercado dos Prazeres 
9° Quadripé "revista e TV"
Destaques: Linda Amorim, Carla Bruninha e Ana Paula 
14° Setor de Alas "Sapatão" 
15° Setor de Alas "Caricatas" - Mercado dos Prazeres 
16° Setor de Alas "Amantes Profissionais" 
2° Carro Alegórico "Motel dos Prazeres"
Destaques: Toni Fernandes como "Amante Profissional"
Criste Sauer de "Viúva Alegre" 
17° Setor de Alas "Enfermeiros" 
7° Destaque de chão Regina Hammeltt, Iracema - Representam o "êxtase" (Baianas) 
18° Setor de Alas "Êxtase" - Ala de Baianas 
3° Carro Alegórico "Êxtase"
Destaque Jhousse Maia
Destaque de complemento como "Prazer Prolongado" 
19° Setor de Alas Passo Marcado 
Bateria "conquistadores" 
Mestres Sala e Portas Bandeiras como "noivos""

(Fonte: Galeria do Samba)

A escola da Tijuca tinha sido promovida ao Grupo 1A (hoje Especial) com o vice campeonato no segundo grupo ano anterior. Era um ano com quinze escolas no grupo, por causa da confusão no ano anterior envolvendo a questão da cronometragem: nem União da Ilha nem Unidos do Cabuçú aceitaram ser rebaixadas, de modo que para 1986 o grupo teria quinze escolas. 

Uma apenas seria rebaixada e viriam duas agremiações do segundo grupo, de forma a se ter dezesseis escolas para o carnaval de 1987.

O período pré-carnavalesco foi complicado para a agremiação tijucana. Além de passar pelos percalços habituais às escolas promovidas de grupo, a escola enfrentou uma campanha muito forte por parte de setores conservadores da sociedade. A abordagem de Wany Araújo era claramente transgressora, em um Brasil que ainda vivia seus primeiros passos como libertado das amarras autoritárias.

Dizia-se que o enredo e o samba da escola eram "indecentes" e atentavam à moral e aos bons costumes. A composição mostrava uma série de situações amorosas que são perfeitamente corriqueiras, mas que ainda hoje recebem um tratamento preconceituoso, à margem da sociedade.

O discurso era que o samba era "indecente" e que era um atentado aos bons costumes da família brasileira. Setores mais reacionários defendiam o rebaixamento sumário da escola.

Realmente, o samba possui algumas passagens que, ainda hoje, podem causar reações de repúdio de setores mais conservadores. Trechos como:

"A hora é essa e vamos admitir
Uma só mulher é pouco 
Deixa o homem no sufoco 
Com tantas que andam por aí"

E:

"Lá vai o trouxa
Crente que está numa boa 
Mas não sabe que a patroa 
Está com o Ricardão 
E sua filha tem fama de sapatão"

Certamente seriam considerados "atentados à moral e aos bons costumes". Particularmente, não deixa de ser uma boa medida da hipocrisia que, muitas vezes, permeia as relações em sociedade. Pode-se discutir a qualidade do samba, mas as situações retratadas são corriqueiras - fingir que não existe não adianta nada.

E foi neste clima que a Unidos da Tijuca abriu a noite de 10 de fevereiro de 1986, segunda feira de carnaval. A escola trazia alegorias e fantasias simples, mas que passavam o recado proposto no enredo: de que a luxúria era algo normal na vida moderna. Muitos componentes semi-nus - inclusive a transsexual Roberta Close - ilustravam o tema escolhido.

Bom, o que passou para a história é que na apuração a escola acabou rebaixada com a última colocação, obtendo apenas 169 pontos. A família brasileira, há pouco tempo libertada do jugo da ditadura, estava salva. Foi um rebaixamento anunciado e, a meu ver, injusto.

O curioso é que a escola venceria o Grupo de Acesso no ano seguinte com um samba sobre o Plano Cruzado claramente datado, ao contrário desta composição de 1986, atual até hoje. O samba, de Carlinhos Anchieta, Vicente das Neves, Manelzinho Poeta e Azeitona, expressa questões que em 2011 ainda são alvo de patrulhamento por parte de setores mais conservadores.

Vamos ao samba, que pode ser ouvido aqui em versão ao vivo e, abaixo, em estúdio:


O homem orgulhoso como quê 
Não se sente feliz com a sua matriz 
Montou uma filial 
Mostra os pecados capitais no carnaval 
A hora é essa e vamos admitir 
Uma só mulher é pouco 
Deixa o homem no sufoco 
Com tantas que andam por aí 
O arroz com feijão 
Lá de casa é bom 
Mas o cozido da vizinha é melhor 
Dizem que eu sou machista 
Com pinta de egoísta 
Polígamo conquistador 
Mas isso vem do tempo do vovô 
Lá vai o trouxa 
Crente que está numa boa 
Mas não sabe que a patroa 
Está com o Ricardão 
E sua filha tem fama de sapatão 

Tem piranha no almoço 
Tem virado no jantar 
Pra quem tem fome 
Qualquer prato é caviar 

Vida, palco desses acontecimentos 
Desfilando pelo tempo 
Hoje eu quero me banhar 
No prazer mais prolongado 
Que o banho de gato dá 
Gingam cabrochas e ritmistas 
Passistas e vigaristas 
Artistas de revista e TV 
Que não se importam 
Com o que vocês vão dizer 

Bota o prato na mesa 
Tudo que vier eu traço 
Prepare a cama 
Que hoje tem banho de gato"

sexta-feira, 11 de março de 2011

Cinecasulofilia Especial - "O silêncio como motor do verso"



Em edição especial dedicada ao carnaval, a coluna "Cinecasulofilia", de autoria do cineasta Marcelo Ikeda, sai um pouco do cinema e faz uma comparação entre modelos de samba enredo.

"O silêncio como motor do verso

O desfile das escolas de samba de 2011 pode ser visto entre dois aspectos, entre duas opções que se materializam nos desfiles e nas opções de duas escolas: a Unidos da Tijuca e a Mangueira. 

De um lado, o carnaval-espetáculo, de surpresas e de impacto visual; de outro, o carnaval tradicional, empurrado pelo canto e pelo chão da comunidade. É inegável que Paulo Barros trouxe um outro nível ao Carnaval carioca, criando um desfile de imediata comunicação ao público, compondo traquitanas que se revelam e se escondem ao público, como um quebra-cabeças visual que se revela ao vivo, diante dele, dialogando com os espetáculos de variedade, o circo, o teatro, o ilusionismo. 

Existe ali uma marca própria de um artista visual que estabelece um desfile de plena comunicação com o público pela facilidade de leitura do seu enredo. No entanto, a participação não se dá num sentido carnavalesco, em que o público é levado a “desfilar” com a escola, mas a interação ocorre pelo espanto e pela surpresa – o público fica boquiaberto, deve “prestar atenção” nos efeitos que surgem e desaparecem, o que precisa de um tempo de fruição: todos os olhos precisam estar fixos para o espetáculo, e não para o outro, o sambista ao seu lado. 

A renovação que Paulo Barros trouxe aos desfiles das escolas de samba é bem-vinda: a partir de seu sucesso, outros presidentes do mundo do samba tomaram coragem para trazer carnavalescos dos grupos de acesso, como hoje estão Cahê Rodrigues, Fábio Ricardo – e até mesmo a Estácio, que neste ano, trouxe um canavalesco de 26 anos oriundo dos carnavais virtuais, da internet. 

Mas esse tipo de espetáculo possui as suas contraindicações: a Tijuca destruiu sua enorme tradição de sambas-enredo, que agora tornam-se meras leituras corretas que ilustram um enredo, tanto que sua principal chave é a letra e os refrões, e não as variações melódicas, como os melhores sambas da Tijuca (vide “o dono da terra” e “agudás”, só para ficar nos mais recentes, entre tantos outros). A renovação de Paulo Barros – um novo carnavalesco, uma nova escola, uma nova estética – aponta acima de tudo para “um novo padrão” de desfiles, uma nova visão da administração das escolas de samba promovida pela Liesa, uma “profissionalização da gestão” no sentido de atrair estrangeiros e as emissoras de televisão, as verdadeiras “consumidoras” do Carnaval carioca.

De outro lado existe uma reação romântica e conservadora representada pelo desfile da Mangueira. A eleição de Ivo Meireles – que causou uma tensão no mundo do samba por ser um novo (velho) episódio das relações entre o morro e o asfalto travadas pelas diretorias da escola – trouxe uma transição do estilo democrático que regia a escola para um regime centralizador, em que o novo presidente era responsável por todas as decisões. 

Uma das mais expressivas foi a dissolução do Conselho que escolhia o samba-enredo da escola, transformando-o em um mero conselho consultivo – o presidente ouve a todos, mas ele sozinho toma as decisões. Caminho que parece o contrário dos rumos de profissionalização do Carnaval atual, que a gestão do Elmo – representado por Alvinho e Chininha – tanto representou para a Verde-e-Rosa, que escapando à sina das “grandes de Madureira”, conseguiu se reestruturar, dados os “novos tempos”. 

Acontece que Ivo tem duas coisas a seu favor: é uma personalidade midiática e, claro, também é compositor. Ivo Meireles gosta de lembrar que quando ganhou seu primeiro samba pela Mangueira todos diziam pelas suas costas que a Mangueira iria cair com um samba que cantava “tem xinxim e acarajé, tamborim e samba no pé”. Mas a Mangueira foi campeã, “com um desfile pobre e simples, mas com alma de Mangueira”. Como compositor e, acima de tudo, como um apaixonado às tradições mangueirenses – dessa forma contrário à visão grandiosa da antiga gestão, sintetizada pelos enormes carros abre-alas acoplados, nunca antes vistos na Mangueira – Ivo Meireles surpreendeu a todos quando escolheu o samba menos cotado da disputa, em contraposição ao samba de um dos principais “escritórios” da atualidade, que tinha a preferência da quadra. 

Mas Ivo preteriu o samba do escritório não por teimosia ou por uma postura política ou ideológica, mas simplesmente porque o “samba dos paulistas” era o que curiosamente mais se alinhava com o seu novo padrão de gestão: uma gestão menos profissional e mais afetiva. Na semana seguinte à escolha do samba, o presidente disse à comunidade que queria fazer uma oração. E simplesmente recitou a letra do samba escolhido. 

Ali era o início de uma opção radical, por uma forma de resistência de se fazer carnaval. No carnaval da Mangueira – antítese do carnaval-espetáculo da Tijuca – o musical não estava meramente subordinado ao visual. O samba e as alegorias e fantasias servem ao enredo, e não meramente o enredo é uma “desculpa” para uma enumeração de efeitos especiais. A essência do carnaval passa a ser o canto e o samba, seus itens de base, de fundo, ligados à formação do sambista: suas tradições, o samba como música e como dança. O desfile da escola de samba passa a ser vivido e não visto. 

O envolvimento do espectador passa a ser através da emoção e não da surpresa ou do espanto. Ou ainda, através do sentimento e da solidariedade. Se na Tijuca o momento mais impressionante é a transformação da comissão de frente em homens sem cabeça (o efeito, o espanto, o espectáculo mágico), o mais impressionante no desfile da Mangueira é quando a bateria e os intérpretes se calam (o silêncio como motor do verso). Recurso simples, ligado ao que poderia ser visto como uma ausência (uma suposta falha no carro de som), torna-se símbolo de uma potência, porque é na falta que descobrimos a presença do outro. 

Quando o surdo um da bateria da Mangueira para, o coração continua batendo. Talvez seja essa a essência do carnaval, ou melhor, essência, mais do que simplesmente do carnaval, de toda uma comunidade, que dribla a precariedade do dia-a-dia com a busca de algo que os una, que vá além do silêncio. Por isso é brava a romântica opção de Ivo Meireles, em tornar o desfile da Mangueira acima de tudo um desfile de resistência.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Samba de Terça - "Macobeba, o que dá pra rir, dá pra chorar"

Nossa coluna "Samba de Terça", no dia de hoje, irá falar de um dos carnavais do início da carreira do atual campeão do carnaval: Renato Lage.

Ele estreou como carnavalesco solo em 1980, trazendo a Unidos da Tijuca para o Grupo 1A (atual Grupo Especial) com um enredo sobre Delmiro Gouveia, industrial que resistiu aos coronéis alagoanos do início do Século XX.

Para 1981, objeto de nosso texto, Renato Lage trouxe para a reestréia da Unidos da Tijuca entre as principais escolas de samba o enredo "Macobeba, o que dá pra rir, dá pra chorar". Baseado no livro de Manoel Cavalcanti Proença "Manuscrito Holandês", o enredo conta a história do herói Mitavaí contra o malvado Macobeba.


"O Manuscrito Holandês se aproxima de uma epopéia por apresentar um herói que enfrenta obstáculos sobrenaturais. Porém, este herói não o faz em nome de uma nação e sim em nome de um amor. A imagem de herói de Mitavai fora criada por interesses políticos e econômicos e por esses mesmos interesses essa imagem foi denegrida. Se Mitavaí foi herói, este reconhecimento verdadeiro ele só teve por parte da natureza, de quem ele recebera amizade verdadeira e desinteressada. Quando o caboclo adentra a cidade, é manipulado pela astucia dos poderosos. Mitavaí é um herói de gestos e palavras simples a quem o povo caboclo admira."

Naqueles tempos de pré-abertura política, o enredo pode ser visto como a luta do povo oprimido, mas forte, contra a opressão política e o poder do dinheiro que já então reinava. Era uma metáfora da situação da época.

Macobeba era o dinheiro, o poder, a força que oprimia o povo mas não o vencia. Mitavaí era a representação deste povo represado desde 1964, mas que não poderia contido ser por muito mais tempo.

Eram tempos alegóricos, liberdade vigiada.

O samba soube traduzir bem este espírito e navega entre o livro e a situação nacional com grande desenvoltura, permitindo-se, ainda, um trocadilho no refrão final - que pode ser cantado com um palavrão no último verso.

Como campeã do Grupo 1B (atual Acesso A), a Unidos da Tijuca abriu o desfile do domingo de carnaval, primeiro de março de 1981. Trazia como novidades a estréia do puxador Sobrinho como intérprete oficial e o depois afamado Laíla na direção de Harmonia. A passarela de desfiles já era a atual Marquês de Sapucaí, com arquibancadas desmontáveis.

A escola fez um valente desfile e conquistou o oitavo lugar na apuração com 131 pontos, cumprindo o seu objetivo de permanecer no grupo principal. Eram tempos onde não se rebaixavam automaticamente as escolas que vinham do grupo de Acesso...

Vamos à letra do samba, que pode ser ouvido, em sua versão original, aqui:

Autores:
Celso Trindade, Negâ, Azeitona, Ronaldo, Ivar, Buquinha e Edmundo Araujo Santos

"É tão sublime exaltar
Neste dia de folia
(E cantar) a odisséia de um valente brasileiro
Contra o monstro estrangeiro
Que com todo o seu dinheiro
Quer calar a nossa voz (e o nosso herói)
E o nosso herói sai no rastro da maldade
Pelos campos e cidades
Atrás do gafanhoto feroz

Tetaci, Tetaci, agasalha com seu manto
O nosso herói Mitavaí

Mitavaí, bom lavrador e vaqueiro
Deixa o sertão brasileiro
Vai combater Macobeba Maldita
Que devora o mato e o mito
Rádio, jornal e TV
Lança e com certeiro bote
Fere o monstro no cangote, pra valer !
E ferido assim de morte
Bicho ruim não quer morrer
E o caboclo injuriado
Toma o caminho do mar
Jurando que um dia vai voltar
Tira daqui, leva pra lá
O que hoje dá pra rir
Amanhã dá pra chorar

Maldito bicho
Se me ouviu
E não gostou do meu samba
Vai pra longe do Brasil"

Abaixo, o leitor pode ver um vídeo com parte do desfile da escola.



Semana que vem, iremos brincar de roda: "Parece até que foi ontem", Unidos de Vila Isabel 1985. Até lá.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ordem de Desfile - Especial 2010

Saiu a ordem de desfile para o Carnaval 2010 do Grupo Especial.

Domingo, temos pela ordem: União da Ilha, Imperatriz, Unidos da Tijuca, Viradouro, Salgueiro e Beija Flor.

Segunda feira: Mocidade, Unidos do Porto da Pedra, Portela, Grande Rio, Unidos de Vila Isabel e Mangueira.

Gostei da posição de desfile da Portela. Primeiro porque é uma das posições nobres, segundo porque me permite desfilar tanto na União da Ilha do meu bairro quanto na Portela do meu coração.

Por outro lado, com concentração no "Balança mas não Cai", acredito que a montagem da escola seja um tanto quanto complicada. É trabalhar direitinho para se ter uma armação tranqüila da escola antes de adentrar a passarela.

Mas
confesso que aguardo o anúncio do enredo da Portela. Se for o enredo sobre segurança pública, como perguntado na transmissão a um dos diretores da escola, irei pensar seriamente se irei desfilar. Aguardar.

Fotos: Fabrício Gomes

terça-feira, 23 de junho de 2009

Samba de Terça

Hoje, em nossa coluna "Samba de Terça", um samba que é amado por nove entre dez fissurados pelo tema: "O Dono da Terra", Unidos da Tijuca 1999.

A escola vinha em um panorama complicado. Havia sido rebaixada para o Acesso A no ano anterior, com um enredo polêmico sobre o centenário do Vasco da Gama.

Reza a lenda, jamais confirmada, de que a influência do então vice-presidente do clube Eurico Miranda na escola teria contribuído para o descenso da escola em 1998.

O saudoso carnavalesco Oswaldo Jardim elaborou um tema indígena, mesclando os costumes dos povos da floresta com suas lendas. Em suas palavras:

"A UNIDOS DA TIJUCA vem falar exatamente da essência, comportamento e mitologia deste nosso irmão mais velho. Falar de seus costumes, hábitos e principalmente seus sonhos.

Vamos propor a todos uma mágica viagem rio acima, onde o cicerones são pajés, que com a sua magia nos farão, porque não dizer virtualmente, mergulhar nesse mundo mágico de nosso irmão mais velho com intuito de conhece-lo melhor, dando a nós oportunidade de amá-lo de verdade, respeitando-o em sua essência e compreendendo sua verdadeira missão neste abençoado pedaço do Planeta."


(Fonte: Galeria do Samba)

O samba soube captar o espírito dos pajés e embalou a escola rumo a um desfile antológico no sábado de carnaval, 13 de fevereiro de 1999. Muitos afirmam que, se passasse no Grupo Especial, a escola figuraria tranqüilamente no Desfile das Campeãs.

A escola foi campeã do Acesso A naquele ano, com 180 pontos e notas máximas em todos os quesitos, assim conquistando o direito de retornar ao Grupo Especial no ano seguinte.


Vamos à letra do samba:

Autor: Vicente das Neves, Carlinhos Melodia, Haroldo Pereira, Rono Maia e Alexandre

Puxador: David do Pandeiro

"Hoje a Tijuca canta,
Sacode e balança esta cidade
Viaja no conto do índio
O dono da Terra, que felicidade
No cantar do Uirapuru
Tantas lendas pra contar
Sob as ordens de Rudá
Iara mandou, Jaci clarear
E seu caminho iluminar

Veja, o orvalho vem caindo
Cheiro das matas vem surgindo
Vou navegar meu rio, o mar
Mistérios que vou desvendar

Por essas matas verdejantes
Têm seres sobrenaturais
Mulheres metade serpentes
Curumins dançantes
E vi estranhos animais
Farturas encontrei, com as plantas conversei
Com as bênçãos de Rairu
Sentei pra meditar

Se a lua for minguante eu peço a proteção
Me deixa com as guerreiras festejar

Pedras preciosas quero me enfeitar
Encantar a índia com o meu olhar
Só Tupã sabia
Que eu não podia me apaixonar"


Você pode ouvir o samba aqui. Abaixo, o vídeo do desfile:






Semana que vem, vamos viajar ao Acesso C, 2007, Acadêmicos do Dendê. Samba do qual tenho o privilégio de ser um dos autores.