Mostrando postagens com marcador Mocidade Independente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mocidade Independente. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte I"



Nesta segunda feira de uma semana que é bem curta para muita gente – embora para mim não seja – o colunista Rafael Rafic em sua “Made in USA” traça uma comparação entre as sinopses das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro e os sambas resultantes.

A coluna será apresentada em duas partes: hoje as agremiações que desfilam no domingo e, amanhã, as de segunda feira.

Sambas vs Sinopses – Parte I

Depois de analisar e dar notas as sinopses de enredo do Grupo Especial, o que é incomum no mundo carnavalesco, quero propor aqui no Ouro de Tolo outra análise incomum.

Analisarei os sambas-enredos escolhidos pelas Escolas do Grupo Especial. Mas não quero analisar os sambas-enredo por eles próprios, simplesmente lhes dando notas ou ranqueando-os. Esse tipo de análise teremos aos montes assim que o CD sair, em dezembro.

Quero, aproveitando a análise dos enredos que fiz aqui em julho, comparar a avaliação de qualidade do samba-enredo escolhido pela escola em relação à sinopse da mesma. O intuito é ver o quanto a qualidade da sinopse influenciou (ou não) o samba-enredo.

Mais uma vez, a análise será feita pela ordem de desfile. Começaremos hoje com as escolas de domingo. Amanhã, as de segunda feira.

Domingo

1 – Inocentes:

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves
Nota dada à sinopse na avaliação de julho: 2
Autores do samba-enredo: Billy Conti, Dominguinhos, Ildo dos Santos, Juarez Rosseto, Mará, J.J. Santos e Miri Matéria

A Inocentes vem com um enredo difícil de explicar sobre a história, cultura e imigração coreanas; todas as três desconhecidas no Brasil. Não bastasse, o enredo foi mal elaborado. Porém, mesmo o samba-enredo não sendo um grande samba, ficando no terço final da safra 2013, é apresentável para grupo especial.

Aqui temos o primeiro exemplo do ano no qual os compositores tiraram leite de pedra. Vocês verão que tivemos outros vários, reforçando a tese da “ressurreição” do gênero samba-enredo, já comentada aqui no Ouro de Tolo.

Resultado: samba consideravelmente acima do enredo. Mas ainda sim ambos na segunda metade do Grupo Especial. Influência negativa da sinopse..

2 – Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage
Nota da sinopse: 3,5
Autores do samba-enredo: Marcelo Motta, João Ferreira, GE Lopes e Thiago Daniel

Sinopse complicada, polêmica e, em minha análise, ruim. Isso se refletiu na safra medíocre que tivemos no Salgueiro esse ano. Ao final ganhou o único samba digno de Grupo Especial. Ainda sim é um samba para ficar tranquilamente na segunda metade do grupo e, claro, como eu já adivinhara é um autêntico pula-pula.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos na segunda metade do grupo. Influência negativa clara da sinopse.

3 – Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Nota da sinopse: 6,5

Autores do samba-enredo: Julio Alves, Totonho, Dudu e Elson Ramires

A sinopse é correta, mas sem grandes destaques. Mediana e, pareceu-me, sem o toque especial de Paulo Barros. A safra tijucana foi sofrível, mas um samba se salvou: justamente o campeão. Como cada escola só precisa de um samba por ano, tudo bem.

O samba é mediano, com uma segunda parte até bem ruim (como sempre é difícil fazer letra para enredo de Paulo Barros). Mas teve uma sacada genial no refrão (“metade do meu coração é Tijuca/ A outra metade Tijuca também”) que o faz disputar posições medianas no Grupo.

Resultado: samba acompanhou par e passo a qualidade da sinopse, ambas medianas.

4 - União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Ginho, Junior, Vinicius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra

Aqui, tivemos uma inovação brilhante e uma aula de como se fazer uma sinopse, dada pelo carnavalesco Alex de Souza. Porém, para variar, a Ilha pegou a sinopse, amassou, fez bolinha de papel dela e a usou como bola de basquete para um arremesso certeiro de 3 pontos - direto para a lata do lixo.

O problema aqui é muito mais complicado do que uma simples análise “sinopse x samba-enredo”.

Para começar, a ala de compositores insulana está muito maltratada há anos por sua diretoria, o que fez com que sumissem vários talentos dela. Assim, a qualidade dos sambas vem caindo e não é de hoje.

A isso credito o fato de não surgir aqui um samba fantástico em toda a safra, diferentemente das outras duas escolas que ganharam excelente avaliação de suas sinopses: Portela e Vila Isabel.

Não satisfeita com isso, a Ilha conseguiu a “proeza” de ser a única escola em 2012 que não escolheu o samba que a comunidade queria (e fez isso pelo segundo ano consecutivo). O samba vencedor era o único da final que não tinha qualquer apoio relevante, seja da comunidade, seja da diretoria, seja dos segmentos.

[N.do.E.: mas era o samba preferido do Presidente Ney Fillardi. Samba que, aliás, sofreu mudanças em sua melodia]

Assim, ela simplesmente jogou fora pelo menos quatro sambas bons (sambas de Aloísio Vilar, Almir da Ilha, Marquinhos do Banjo e Carlinhos Fuzil) que, por mais que não chegassem ao “Top 10” da sinopse, ainda salvariam a pátria e disputariam vaga na primeira metade do Grupo.

A Ilha escolheu mal demais o samba e, mesmo com a melhor sinopse do ano (em conjunto com a Portela), ela disputa o “título” de pior samba do ano com a Mocidade.

Resultado: samba infinitamente inferior à sinopse. Prova de que sinopse não é sinônimo imediato de bom samba.

5 – Mocidade

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada
Nota da Sinopse: 5
Autores do samba-enredo: Jefinho Rodrigues, Jorginho Medeiros, Marquinho Indio, Domingos PS, Moleque Silveira e Gustavo Henrique

Já comentei o desastre que foi a sinopse da Mocidade frente ao tema e indiquei que seria complicadíssima para se fazer um samba bom.

Dito e feito. A Mocidade teve 45 sambas concorrentes, mas podia juntar os 45 que não daria um mísero samba digno. Até compositores gabaritados como Diego Nicolau (campeão de 2012) fizeram sambas sofríveis, muito abaixo do que costumam fazer.

No final, levou aquele que a comunidade queria e era o menos pior, mas ainda sim fecha a raia do Grupo Especial - em uma disputa árdua com a Ilha pela lanterna.

Alias, essa é a única nota de sinopse da qual me arrependi. Hoje daria uma ainda menor: 3,5.

Resultado: samba do nível da sinopse, ambos muito ruins. Influência negativa clara da sinopse.

6 – Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do Posto 7

Dessa safra posso falar com bastante propriedade. Pude acompanhar a disputa de samba-enredo desde sua primeira eliminatória até a final. Em um momento inicial, disse que a safra era sofrível com apenas um samba espetacular - justamente o que se sagraria vencedor.

Porém, tenho que admitir que o desenrolar da disputa me fez mudar de idéia. Não quanto ao samba sensacional, que continuo achando sensacional (mesmo com as mudanças horripilantes e insensíveis feitas em sua letra e melodia após o fim da disputa), mas quanto à qualidade da safra.

Hoje classifico mais dois sambas como dignos de irem à avenida se não fosse a obra-prima que o quarteto vencedor aprontou mais uma vez. Além desses, teve mais 2 ou 3 sambas razoáveis na disputa. No que acabou sendo uma safra melhor do que a Portela teve nos últimos anos - e tenho que destacar o papel da sinopse nesse fato.

[N.do.E.: discordo do colunista. A safra da Portela foi bastante fraca e, com boa vontade, além do vencedor somente mais um samba poderia ir para a avenida]

Para a comparação proposta em relação ao samba vencedor, uma excelente sinopse terá um samba a sua altura para representá-la na avenida.

Não coloco o samba acima da sinopse (como se isso ainda fosse possível) por causa das mudanças posteriores (feitas por diretoria e puxador) que pioraram consideravelmente o samba em relação a sua versão concorrente.

Será bastante interessante ver o que ocorrerá com a Portela e o seu sambão vindo logo depois dos dois piores sambas do ano, que virão juntos logo antes de sua entrada na avenida.

Resultado: samba pari passu com a sinopse, ambos em altíssimo nível.

[N.do.E.: infelizmente, as notícias que chegam do barracão da Portela são MUITO preocupantes.]

Até amanhã, com as escolas de segunda feira.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Made in USA - "Enredos 2013 e suas sinopses: Parte I"


Mostrando a sua versatilidade, a coluna "Made in USA", assinada pelo advogado Rafael Rafic, dedica dois artigos a analisar as sinopses que guiam os enredos das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, que ficaram completas após a divulgação do texto da Grande Rio na última segunda feira.

Confesso que não tenho muita paciência para a leitura destes textos, embora especificamente neste 2013 tenha lido até mais sinopses que em outras oportunidades.

Hoje teremos as escolas que desfilam domingo e amanhã, na segunda parte, as de segunda feira. A faixa musical das sextas feiras também falará um pouco das disputas de samba, que estão se iniciando. Mas já aviso que teve parceria repetindo o grande samba apresentado em 2012.

Enredos 2013 e suas sinopses: Parte I

Pedi ao editor do blog um espaço extra, fora da minha coluna esportiva, para finalmente poder escrever sobre uma das minhas paixões. Entretanto sempre é difícil falar aqui porque temos dois colunistas que são bambas no assunto: Escolas de Samba, as quais tenho o prazer de acompanhar desde meus 4 anos (hoje tenho 23).

É engraçado, porque apesar de ser carioca, amar nossa Portela, o samba-enredo e as escolas de samba, sempre fui um amante à distância, pela TV. Nunca assisti a um desfile ao vivo na Sapucaí (espero fazê-lo em 2013) e, até o ano passado sequer tinha ido a um ensaio. Também não tenho qualquer conhecimento mais profundo sobre música além das três marcações de surdo.

Por isso, apesar de ter razoáveis conhecimentos sobre harmonia, evolução, conjunto e bateria, não tenho a menor condição de discutir com os experts Pedro Migão e Aloísio Villar. Sobre samba-enredo meus comentários acabam sendo mais baseados no senso comum e na experiência de 18 anos de safras (além dos sambas históricos que qualquer iniciado TEM que conhecer). Por isso, não comentei sobre os sambas-enredo esse ano nem sobre os desfiles, o que o Migão fez magistralmente.

Porém tem uma área que eu conheço bastante: enredos e suas sinopses. Seja pelos anos a fio que fiz questão ler todas as sinopses do Grupo Especial, seja pelos anos de treino intenso em redação, seja pelos conhecimentos gerais que acumulei nos meus anos de formação. Com isso acho que posso comentar sobre os enredos com a propriedade que o Ouro de Tolo merece.

Para piorar, a partir do ano que vem também virarei vidraça e farei minha estréia escrevendo a sinopse da Escola Virtual Estrela D’Alva, que desfila no Grupo de Elite do Virtuafolia.

É justamente a análise das sinopses do especial para 2013 é que faço aqui, aproveitando o fato que a última sinopse, Grande Rio, foi divulgada no início desta semana.

Para começar já posso dizer que estou decepcionado. Depois de ótimos enredos que tivemos ano passado, que propiciou com sobras a melhor safra dos últimos 20 anos (com direito a um samba antológico da Portela e outro quase da Vila Isabel), achava que as escolas tinham aprendido a lição.

Ledo engano.

A safra de 2013 é medonha, com poucas salvações. Alias, existem duas ou três escolas que conseguiram se “superar” e talvez fosse mais fácil tirar "Danoninho" de pedra do que fazer samba para alguns enredos propostos. Também temos uma profusão de enredos CEP (cidade, estado, país ou, se o leitor quiser, em referência ao código postal dos Correios). Mas vamos à análise escola por escola em ordem de desfile.

Em tempo: as notas que atribuo se referem apenas à qualidade da sinopse, seja em coerência, correção ou em estrutura; e a possibilidade dela facilitar ou não o trabalho dos compositores. Não levei em consideração a capacidade da escola ou de cada carnavalesco individualmente falando em transformar a sinopse em fantasias e alegorias.

Começamos hoje com as escolas de domingo, como o Editor Chefe informou na introdução deste artigo.

1. Inocentes de Belford Roxo

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves

O enredo tem a intenção de comemorar os 50 anos de imigração sul-coreana no Brasil, algo muito parecido com o que a Porto da Pedra fez em 2008 com o centenário da imigração japonesa. Mas dizer que o resultado saiu muito ruim ainda seria um elogio.

Eu li e reli a sinopse, mas até agora não entendi onde ela quis começar, nem onde ela tenta terminar, muito menos tive qualquer pista sobre o que as sete confluências do rio tem a ver com isso.

A Coréia do Sul já não é tão fácil de carnavalizar quanto o Japão, nem sua cultura está tão enraizada nas mentes dos cariocas. Talvez por isso, a sinopse tenta ser algo mais aberta, dizendo a importância da água para o povo sul-coreano e, aqui e ali, joga algumas informações sobre o país que não encontram qualquer encaixe no enredo. Em um ano de enredos ruim, ele parecia conseguir ser a proeza de ser o pior deles, e por muito. Isso até o último dia 23 (amanhã os leitores entenderão o que quero dizer).

Esse enredo ruim complica ainda mais a situação de uma escola que já é péssima em virtude dos acontecimentos estranhos de sua vitória no grupo de acesso em 2012. É quase pule de dez para o rebaixamento - e ainda estamos em agosto...

Nota: 2.

2. Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage

Mal começamos e já chegamos na polêmica do ano.

Depois de anos batendo nas escolas que tinham enredos bem ruins mas patrocinados, os salgueirenses até agora não se adaptaram ao papel de vidraça do ano. Com isso atormentam a paciência de qualquer um que ouse cometer a heresia de dizer que o enredo não é “culturalmente relevante” (seja lá o que isso signifique), formando uma patrulha ideológica que deixaria com inveja qualquer fã-clube de banda adolescente. Para piorar, a agremiação caiu em uma posição de desfile horripilante, a pior possível das que estavam disponíveis para sorteio aberto.

Desde quando o tema foi anunciado, com o patrocínio da Revista Caras (via lei Rouanet), as brincadeiras, galhofas e decepções com a escolha já pululavam nas redes sociais. O Salgueiro completa 60 anos em 2013 e por isso era esperado que ele mesmo fosse o enredo, ou ainda a homenagem a Xangô.

Quando o tema foi lançado, eu já esperava uma sinopse fraca. Mas sua divulgação superou minhas péssimas expectativas: a sinopse é muito ruim e só não a classifico como a pior do ano, principalmente quanto à estrutura, porque superar a Inocentes era uma tarefa hercúlea.

Ela tenta ser aberta, mais insinuando do que explicando, mas ao mesmo tempo tenta fazer uma abordagem histórica da fama que exigiria bastante explicação para se tornar coerente. Apenas como exemplo segue uma estrofe da sinopse que, a exemplo da excelente sinopse de 2012, foi feita em versos:

“Ora se esconde, ora se revela
A máscara no rosto é uma interrogação
Não sei se a mocinha é princesinha bela
Se diz uma mentira, e tem cara de fera!”

Alguém entendeu o que isso tem a ver com fama? Se entendeu, favor me explicar. Mesmo quando claramente identificamos o propósito, falta qualquer tipo de ligação com o anterior e o posterior, fazendo ao invés de enredo mini-contos sem nexo.

Assim como não entendi, os compositores também não e em uma escola que já gosta de um samba “pula-pula” isso foi traduzido como “Ihh, a sinopse está aberta, estamos livres, pode tudo”. Ou seja, lá teremos mais um samba em que o Salgueiro irá “sacudir, levantar e explodir a fama no ritmo da bateria furiosa”...

Só o talento infinito de Renato Lage e uma possível obra milagrosa do compositor Dudu Botelho (o único que não pula na área) terão o poder de consertar esse samba do crioulo-doido famoso armado no “caldeirão”. [N.do.E.: ao que parece o talentoso compositor abriu mão de disputar samba na Academia este ano.]

Nota: 3,5

3. Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Eu juro que enquanto eu lia a sinopse da Tijuca me passavam pela cabeça flashes do Caronte de 2011.

Diferentemente da viagem maluca de Paulo Barros sobre o medo de 2011 que só ele entendeu, pois ninguém ainda encontrou o nexo entre medo e Priscila, Rainha do Deserto, a sinopse desse ano sobre a Alemanha em mais um enredo CEP é bem enxuta.

Porém sofre da mesma falta de nexo que percebi na sinopse de “Esta noite levarei sua alma” e que foi mostrada nua e crua na avenida. A transição entre o deus Thor, da tradição nórdica, para a Alemanha da pujança científico-cultural dos sec. XIX e XX, que claramente é o ponto crucial desse enredo patrocinado pelo Instituto Goethe, é muito fraca - para não dizer inexistente.

Em um enredo com muitas informações relevantes, esse problema de introdução pode até passar despercebido ou bastante minimizado na avenida, mas está lá e é um obstáculo...

A Alemanha por si só já tem elementos para fazer um enredo interessante e a abordagem é um tanto diferente do “padrão CEP”. Mas não achei no enredo algum traço genial de Paulo Barros para contar o enredo, tal como o “desembarque da corte para coroar o rei Luis do Sertão” do ano passado. Alias, até agora estou procurando a marca de Paulo Barros nessa sinopse e pela primeira vez desde 2004 não achei isso. Pode ser um problema.

Por fim, a Tijuca tem que fazer de tudo para conseguir fugir do Fusca, evitando menções a Hitler (que seriam necessárias nesse caso) e problemas com a comunidade judaica carioca - sempre alerta contra as escolas de samba. A boa notícia é que a sinopse me pareceu ser concebida exatamente para isso e dá o espaço necessário para falar dos automóveis, indispensáveis em um enredo sobre Alemanha, mas sem identificá-los.

Em resumo: não é um ótimo enredo, mas em se escapando de algumas armadilhas que ele concebe, é até interessante. Porém, como já é tradição na Tijuca de Paulo Barros, será uma tarefa complicada para a ala de compositores.

Nota: 6,5.

4. União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Finalmente, depois de algumas homenagens em grupos de acesso (a última em 2011 em um conturbado desfile do Império Serrano), alguma escola leva o poetinha Vinícius de Moraes para o Grupo Especial.

Vinícius é uma pessoa densa, com várias facetas, muitas coisas para contar e uma ligação especial com o carnaval e com o bairro da Ilha do Governador, o que sempre acaba sendo uma faca de dois gumes. Se por um lado dá um enredo muito interessante e inspirativo, pode acabar se perdendo no gigantismo e na falta de uma estrutura dependendo da viga mestra da história que se conta no enredo. Porém o enredo não deixa nada a desejar: fala de todos os pontos de Vinícius com uma lógica que o amarra e dá sentido.

Alias, é de se destacar o que foi a grande inovação desse ano em sinopses: a mesma foi elaborada em forma de uma entrevista fictícia entre a União da Ilha e o homenageado, buscando suas respostas em várias outras entrevistas concedidas pelo homenageado e pelo que ele próprio escreveu em seus livros. Acho que foi inclusive essa solução que deu um jeito de, mesmo com tantas informações, o enredo fazer sentido.

Inicialmente, fiquei com apenas uma ressalva conta ele: sua extensão exagerada. Não me lembro de ver enredo tão grande (deve dar umas 7 ou 8 páginas) e fiquei com receio dos compositores se perderem no meio de tanta coisa para se colocar em apenas um samba.

Porém, o colunista deste Ouroi de Tolo Aloísio Villar, que é atual vencedor de samba-enredo da Ilha, elogiou bastante o enredo: disse que isso não é o menor problema e que ele adoraria ter mais quatro ou cinco enredos assim. Se ele afirma isso, quem sou eu para contradizer?

Mas fica aqui a nota triste, que nada tem a ver com a sinopse, pela direção da escola transformar o jornalista e insulano apaixonado Anderson Baltar “persona non grata” simplesmente por ele aderir a um movimento de modernização do carnaval. Ei, não era a Ilha a escola mais democrática do Rio?

Nota: dez, dez, nota 10!

5. Mocidade Independente de Padre Miguel

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada

A Mocidade foi a primeira escola a anunciar o tema de seu enredo para 2013, ainda em setembro de 2011. Não me lembro de nenhuma escola divulgar seu tema com tanta antecedência. Quando o mesmo foi anunciado, os detratores de plantão já vieram reclamar que “Rock não dá samba” e que a Mocidade jogou fora o carnaval com mais de um ano de antecedência.

Eu já achava o contrário, que eles poderiam fazer um ótimo enredo sobre os grandes momentos das várias edições do evento: grande show do AC DC, a ressureição de James Taylor, o fato de todo carioca ter um lado sambista que gosta de rock - entre outros.

Mas quando vi a sinopse me decepcionei mais uma vez. Um texto inacreditavelmente longo que simplesmente faz uma declamação laudatória histórico-institucional da marca Rock in Rio. A típica sinopse que não é nada carnavalizável e que os compositores terão que rimar Lisboa com Madri e Rio de Janeiro. Uma pena para uma escola que estava buscando a recuperação e tinha surpreendido com um lindo Portinari ano passado.

Nota: 5

6. Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes

Se esse ano nós portelenses pudemos nos gabar de ter o samba do ano, para 2013 podemos nos gabar de termos o enredo do ano, junto com a Ilha. Além disso, diferentemente do ano passado em que fomos lanternas convictos [N.do.E.: na verdade não, a Porto da Pedra entregou ainda depois], agora a Portela é a segunda escola a entregar a sinopse.

Paulo Menezes, em mais uma tacada genial, juntou três datas importantes para qualquer amante da escola. Oficialmente o enredo é sobre o bairro no qual a escola cresceu, Madureira, que completa os 400 anos da freguesia que lhe deu origem em 2013. Pasmem: mesmo tendo duas grandes escolas Madureira nunca foi tema de nenhuma escola a passar nem no Especial, nem o Acesso A, nem no B.

Como falar de Madureira sem falar de Portela é impossível (junto com o Mercadão são os dois traços que identificam o bairro perante qualquer carioca), é óbvio que iremos nos auto-referenciar por uma boa parte do tempo para comemorar nossos 90 anos. Alias, a sinopse até abre uma bela brecha para ter “mais 90 e menos 400” como diz o nosso editor. Além disso o Império Serrano também estará presente como um dos homenageados.

Por fim, assim como Clara Nunes foi o fio condutor do enredo desse ano sobre a Bahia, quem melhor que Paulinho da Viola para ser o desse ano? É claro que Paulo Menezes, que não é bobo, usou desse artifício e assim também comemora os 70 anos de idade do grande compositor portelense.

Ou seja, é um enredo com a cara da escola e nesse ponto ele é imbatível esse ano.

Para melhorar, a sinopse foi escrita em estilo bem aberto, típico do carnavalesco, apostando apenas nas ligações de campos semânticos mais cognitivos do que estruturais, justamente para deixar os compositores livres para criar e não se amarrar em qualquer ordem. Foi assim que saiu o “Madureira sobe o Pelô” ano passado.

Confesso que ao terminar de lê-la meu coração portelense chorou um bocado. Ah, e antes que eu me esqueça: como diz a sinopse a capital do samba é Madureira e samba bom é aqui na Portela.

Nota: dez, dez, nota 10!

Amanhã teremos as escolas de segunda feira. Até lá!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Grupo Especial - Domingo - Impressões


A primeira noite de desfiles do Grupo Especial marcou um confronto claro entre a emoção dos melhores sambas (Portela e Vila Isabel), com alegorias mais tímidas, e as escolas de ostentação e riqueza (Mocidade e Beija Flor), com clara vantagem para o primeiro grupo.

É quase unanimidade que Portela e Vila Isabel fizeram os melhores desfiles, embora não perfeitas, em especial no quesito alegorias. Para meu gosto (e torcida) pessoal colocaria a Portela à frente da Vila, mas reconheço que é páreo duro.

Imperatriz, Porto da Pedra e Renascer fizeram desfiles abaixo das outras - a primeira com muitos problemas - e me arriscaria a dizer que as duas rebaixadas sairão destas três escolas.

Vamos a algumas impressões escola a escola:

1 - Renascer de Jacarepaguá


Só vi a "arrancada" da escola, mas a agremiação sentiu claramente o peso da estreia no Grupo Especial, além de abrir o desfile. Fez claramente um desfile inferior às outras e deve retornar ao Grupo de Acesso A para 2013.

2 - Portela


Leitor, estou de alma lavada. Digo sem medo de errar que em nove anos este foi meu melhor desfile pela escola. Solto, alegre, com muita garra, brincando carnaval mas comprometido com a escola. E mais uma vez vim ajudando na Harmonia de minha ala.

A escola passou feito um furacão pela avenida, apesar de alegorias desiguais e alguns problemas nas fantasias. Ainda assim foi o melhor barracão dos anos da administração atual com folga.

Arriscaria a dizer que se o presidente da escola tivesse investido no projeto original do carnavalesco a Portela seria campeã deste ano com sobras. Mas ainda assim, caro leitor portelense: nós temos um compromisso na noite do Sábado das Campeãs.

O mais importante é que a partir de hoje podemos voltar a andar de cabeça erguida, e isso não tem preço. Estou muito feliz.

3 - Imperatriz Leopoldinense


Muitos problemas em seu desfile, com quebras de carros e esculturas que propiciaram troca de ordem com alas (o que penaliza o quesito Enredo) e prejudicaram a Evolução. Uma penas, pois estes estavam bonitos, embora a sequência de cores das fantasias não estivesse bem resolvida.

A não ser que haja uma catástrofe no desfile de hoje briga ponto a ponto com a Porto da pedra para não descer.

4 - Mocidade


O enredo sobre Portinari (acima) foi muito imponente em relação à plástica, em bom trabalho do carnavalesco Alexandre Louzada - apesar de algumas fantasias bastante pesadas.

Entretanto, faltou alma ao componente. A escola passou fria. O lindo samba caiu muito no decorrer do desfile.

5 - Porto da Pedra


O insólito enredo sobre o iogurte ganhou uma leitura no meio caminho entre o irreverente e o institucional, mas sem empolgar. Passou sem grandes erros apesar do insuportável samba, com algumas soluções interessantes e outras nem tanto. Destaque absoluto para a bateria.

Lamentável o momento "eu sou foda" do puxador Wander Pires no grito de guerra da escola.

6 - Beija Flor


Irreconhecível. Assim definiria a Beija Flor, que em termos de quesitos de pista fez fácil seu pior desfile nos últimos 15 anos, com direito até a buracos (foto). Escola parada, correria desenfreada, a comissão de frente não se apresentou para o primeiro julgador e a roupa da porta bandeira teve problemas.

A estética, apesar de imponente, eram os mesmos monstros de sempre. Em um julgamento normal não ficaria nem entre as cinco primeiras, mas é a Beija Flor.

7 - Vila Isabel


Início arrebatador já na Comissão de Frente e no esquenta com "Kizomba". A escola fez um desfile muito semelhante ao da Portela em qualidades e defeitos, com alegorias que, salvo o abre alas, eram bem tímidas.

Ainda assim, como a Portela, fez um desfile de escola de samba, embora um pouco menos empolgado. Mas gostei muito.

Aliás, acho que a noite de ontem deixou clara a importância que é de se escolher um bom samba.

Na minha avaliação, seria:

1 - Portela
2 - Vila Isabel
3 - Mocidade
4 - Beija Flor
5 - Porto da Pedra
6 - Imperatriz
7 - Renascer

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Samba de Terça - "O Velho Chico"



Depois de uma longa ausência devido à absoluta falta de tempo para fazer a pesquisa adequada, nossa coluna "Samba de Terça" está de volta.

Atendendo à sugestão do jornalista e comentarista de carnaval Fábio Fabato, meu colega no site "Galeria do Samba", nosso tema de hoje é uma composição pouco lembrada, mas que tem o seu valor: "O Velho Chico", Mocidade Independente 1982. Fabato também cedeu as imagens do post, a quem agradeço desde já.

E antes de entrar no tema de nosso post, uma informação aos leitores: o "Jornal do Brasil" digitalizou todo o seu arquivo de 1930 a 2000, em parceria com o Google. É uma fonte de pesquisa preciosa, ainda mais em termos de escolas de samba, onde o jornal O Globo, dono de um acervo riquíssimo, não o disponibiliza ao público.

Em 1982 a Mocidade optou por contar a história do Rio São Francisco como se fosse um ser humano: "O Velho Chico". O genial Fernando Pinto, que assinara o carnaval da escola nos dois anos anteriores, optara por se transferir para a Mangueira, o que não deixa de ser curioso - uma escola tão tradicional com um carnavalesco tão inovador.


A escola vinha de um sexto lugar no ano anterior, com um enredo sobre o carnaval. A verde e branca ainda se ressentia da morte do inesquecível Mestre André, que inventou a "paradinha de bateria" e tornara a bateria da escola de Padre Miguel a mais famosa da cidade. Ele faleceu prematuramente em 1980, aos 48 anos, e sua perda tirara a principal referência da agremiação - apesar de naquele momento a escola já se notabilizasse também pela marca imposta for Fernando Pinto.

Naquele ano, inclusive, Andrezinho - este mesmo que foi do grupo Molejo e hoje é um dos diretores da bateria da escola - com 10 anos de idade veio à frente dos ritmistas, junto com os Mestres Cinco, Coteca e Bira. A carnavalesca seria Maria Carmen de Souza.

Ao contrário do que se pensa, naquela época as sinopses também eram bastante extensas. Na série de imagens que disponibilizo abaixo, estão a sinopse, a ficha técnica e o roteiro de desfile, além do samba - que colocarei mais à frente. A idéia foi dividir o enredo em três partes, o "menino" (representado pela nascente, o "moço" (o médio rio) e o "velho", a parte final. Isso atendia também á exigência do regulamento daquele ano, de que somente poderia haver três carros alegóricos.








Uma curiosidade é que aparecem os nomes dos profissionais de barracão na ficha técnica, o que hoje seria absolutamente impensável dada a quantidade de trabalhadores. É uma boa medida de como o carnaval gradativamente foi dando maior importância à parte plástica com o decorrer do tempo.

A preparação para este carnaval de 1982 passou por alguns percalços. Antes do desfile houve uma operação de repressão por parte do Estado ao jogo do bicho, o que diminuiu a verba destinada às escolas - naquela época a dependência das agremiações de seus "patronos" era muito maior.

Outro ponto é que devido a um acidente ocorrido no ano anterior foram proibidos destaques vivos sobre os carros alegóricos, bem como estes foram reduzidos a apenas três. Como veremos no final do texto, isso causaria uma grande confusão na apuração deste ano.


O pré carnaval daquele ano também foi marcado pelo sucesso absoluto do samba do Império Serrano, "Bumbum baticumbum prugurundum", que era uma crítica aos rumos que os desfiles estavam tomando, sob a liderança naquele momento de Joãosinho Trinta.

A Mocidade Independente foi a nona escola a desfilar na manhã de segunda feira de carnaval, 22 de fevereiro de 1982. Castor de Andrade, patrono da escola, retardou a entrada da Mocidade na avenida, a fim de diminuir o impacto causado pelo grande desfile da Portela, a agremiação anteriora.

À frente da escola, junto a Castor veio o diretor da Globo Edvaldo Pacote, que já fora vice presidente da escola e hoje "era apenas diretor", nas palavra do Jornal do Brasil. Como o leitor pode notar, a estratégia atual da Grande Rio não é exatamente nova...


A bateria fez as suas famosas "paradinhas" apenas no início do desfile, mantendo-se preocupada com a cadência no restante. Foram 2,8 mil componentes, com três carros e dez destaques de chão. Com a restrição a três carros alegóricos, as escolas optaram por alegorias de mão,e a Mocidade não foi diferente - como se pode ver na foto acima.

Note o leitor também, aliás, que as arquibancadas desmontáveis daquele ano possuíam cobertura. Por que então trinta anos depois somos obrigados a pegar chuva no Sambódromo? Só porque o projeto de Oscar Niemeyer é intocável?

E olha que o ingresso não é barato...


Voltando ao desfile da verde e branca, a escola desfilou compacta e se credenciou a um bom resultado na apuração da quarta feira de cinzas, embora não fosse uma das principais favoritas - Imperatriz, Portela e Império Serrano dividiam as atenções dos analistas,coma Beija Flor um pouco abaixo e então Ilha e Mocidade. O samba passou a contento, sendo um dos pontos altos do desfile.

A contagem de pontos foi rodeada por uma grande confusão. Imperatriz e Beija Flor desrespeitaram o ítem do regulamento que proibia pessoas vivas em cima dos carros alegóricos, bem como a última trouxe sete alegorias, ignorando o limite determinado.

Isso custou caro à Imperatriz, que foi punida em seis pontos no quesito Alegorias e acabou perdendo o título exclusivamente por causa disto. A Beija Flor também sofreu punições devido a isto e acabou no sexto lugar, a pior colocação desde que Joaosinho chegara à escola. No final do post o leitor poderá ver o mapa de notas naquele ano.

A Mocidade acabou apenas no sétimo lugar, com 176 pontos e a 11 da campeã Império Serrano. Os quesitos Mestre Sala e Porta Bandeira e Conjunto tinham peso menor que os outros naquele ano, e a Mocidade foi punida especialmente nos quesitos Evolução e Fantasia.

O curioso foi o protesto dos patronos da Beija Flor e da Imperatriz, respectivamente Anísio e Luizinho Drummond, dizendo que foram "roubados". Anísio, inclusive, dizia que em 83 desfilaria apenas em Nilópolis. Pois é, nada como o tempo...

Minha avaliação é de que o "insólito" título da Beija Flor em 83 tem muito a ver com o resultado de 82, inclusive.

Vamos ao samba, que pode ser ouvido abaixo em sua versão do LP:


Autores: Adil, Dico da Viola e Roça
Puxador: Ney Vianna 

No meu tempo de criança 
Dei de beber, ouvi cantar os passarinhos 
Dei cambalhota pela casca danta 
Atravessando o sertão com alegria 
E as cascatas 
Murmuravam sinfonia 
Anunciando o Velho Chico que surgia 
Mas é que o tempo passou 
Minha vida mudou ... 
Assim

Vem mergulhar 
No meu mundo de água doce 
O navegante foi quem trouxe 
Gaiola, batelão e ubá

Bate batéia, na peneira fica o ouro 
O que cai não é tesouro 
Deixa a água carregar 
Casei donzelas 
Me fizeram oferendas 
Fiz mistérios 
Criei lendas 
Decidi meu caminhar

Oô, oô, oô, oô 
Até carranca no meu leito navegou 
Lindo cortejo para o mar me carregou 
Lá vou eu 
Mar afora 
Num barquinho prateado 
Iemanjá me leva embora


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Samba de Terça - "Tupinicópolis"



Hoje a coluna vem com um samba que nem é um dos maiores da história de Padre Miguel, mas que representa um desfile histórico - e, por que não dizer, revolucionário.

Atendendo à sugestão do leitor Emerson Braz, o tema de hoje é o fantástico "Tupinicópolis", apresentado pela Mocidade Independente de Padre Miguel no carnaval de 1987.

Revelado no Império Serrano  - trazido pelo também carnavalesco e diretor de carnaval Ernesto do Nascimento - o carnavalesco Fernando Pinto (abaixo) era considerado um dos talentos mais revolucionários do carnaval carioca.

Campeão em 1972 na escola da Serrinha, com "Alo alo, Taí Carmem Miranda", o artista era considerado uma estrela em ascenção. Trabalhou na escola de Madureira de 1971 a 1976 e em 1978.

Foi contratado pela Mocidade Independente para o carnaval de 1980 e deu uma nova cara à escola, com enredos delirantes, criativos e absolutamente geniais. Originalmente tropicalista, em 1985 chega ao ápice da carreira em um carnaval ao mesmo tempo tropicalista, futurista e extremamente "clean": "Ziriguidum 2001". Garoto que eu era, jamais me esquecerei da comissão de frente daquele ano formada por astronautas empunhando a bandeira do Brasil.

Fica afastado em 1986 devido a desentendimentos com a direção da escola de Padre Miguel, e a escola não obtém um bom resultado com um enredo sobre asssombrações, crendices e coisas correlatas.

Então para o carnaval de 1987 o carnavalesco retorna à escola e propõe um enredo alegórico, onde os índios "ganham" uma cidade própria, um país independente. Estava criada "Tupinicópolis".

Fernando Pinto imaginou uma cidade voltada ao imaginário indígena, a uma nova cultura inspirada nos povos da floresta, a um novo tropicalismo. Como podemos ver na sinopse do enredo:


Sinopse:

"O enredo Tupinicópolis tem no reaproveitamento da cultura da civilização indígena brasileira seu principal objetivo e conteúdo. Utiliza o termo tupiniquim não somente para designar uma tribo, mas também como um coletivo indígena e principalmente para traduzir uma filosofia típica nacional; o Tupiniquismo: De tudo que é ou passa a ser tupiniquim. Do ato de Tupiniquizar. Tupinicopolizar.

Tupinicópolis, o carnaval, é a visualização de uma grande metrópole indígena. Tupinicópolis, a taba de pedra. É um carnaval de ficção científica tupiniquim, retro-futurista, pós indígena. O New Eldorado.
Tupinicópolis tem sua pseudo-origem baseada na justa e real demarcação das terras indígenas. Nessas terras, ricas terras, foram descobertas riquezas naturais infinitas, que foram comercializadas e industrializadas pelos próprios índios. E as ocas se multiplicaram e as tabas se agigantaram e assim nasceu Tupinicópolis; a lendária cidade índia do Terceiro Milênio.

O desfile segue o cotidiano da cidade. Dia, noite e dia, enfocando o dever, o lazer, o prazer dos tupinicopolitanos. E o lixo.

O carnaval utiliza a forma e linguagem da própria literatura indígena, onde os índios convivem e se relacionam com os animais, conduzindo, assim, o carnaval para uma empostação fabulista que dá mais tropicalismo e brasilidade ao espetáculo.

A arte indígena brasileira é revisitada e revivida na estética pós-Marajoara Tupinicopolitana. A moda é o Tupi Look. É a Era do Tupi Power. É a cultura Tupiniquim falando para o mundo via Tupinicópolis."



Perceba o leitor que, ao contrário dos imensos textos a que vemos hoje em dia, a sinopse do enredo era curta e permitia aos compositores criar em cima do enredo, sem seguir aquela receita de "musicar a sinopse" ou ter a sua liberdade criativa engessada.

Notem também que havia a preocupação com a questão da demarcação das terras indígenas. No enredo, as riquezas naturais nas terras demarcadas e preservadas permitem à Tupinicópolis crecer economicamente e desenvolver-se.


O samba escolhido, de autoria de Gibi, Chico Cabeleira, Nino Batera e J. Muinhos e defendido pelo saudoso Ney Vianna, optou pelo caminho de comparar o que seria uma cidade indígena às modernidades da vida citadina de então. Ainda faz uma blague com o cacique Raoni, líder indígena em voga no noticiário àqueles tempos.


A Mocidade Independente seria a oitava e última escola a desfilar naquela segunda feira de carnaval, na verdade manhã de terça feira, 03 de março.

Aquela fora uma noite bastante forte de desifles, com grandes apresentações do Império Serrano, da Unidos de Vila Isabel - com o único samba sem rimas da história dos desfiles de escolas de samba - e da Portela, outra que apresentara um samba extraordinário - Estandarte de Ouro daquele ano.


Mas o carnavalesco da escola da Zona Oeste mostrava que não estava para brincadeira. Sua cidade indígena tinha tudo o que um país precisava: moeda, indústria, comércio, entretenimento.

A escola ia passando e se via algo absolutamente novo, revolucionário, ápice de uma trajetória iniciada em 1980 na escola. Criatividade em estado puro, inovação, inteligência e ousadia. Isto era Fernando Pinto, esta era a marca da Mocidade Independente naqueles tempos: liderança e vanguarda.


Nas fotos que trago aqui podemos ver sacadas geniais como o tanque em formato de tatu (acima) e a citação à Zona Franca de Manaus e suas motocicletas (abaixo). No carro em que aparece a moeda (segunda deste post) há uma brincadeira mencionando que "1 guarani" (a moeda indígena), valia mais que 500 cruzados, com a efígie de Villa Lobos. Trocadilho óbvio com a ópera de mesmo nome, de autoria de Carlos Gomes.

Seu desfile apresentaria dois grandes senões: o samba, inferior a de outras concorrentes, e o segundo casal de mestre sala e porta bandeira, que desfilou sem chapéu. No vídeo que abre este texto podemos ver a revolta do comentarista Fernando Pamplona com o fato.


Em um ano de desfiles de altíssimo nível, a Mocidade Independente saiu da Marquês de Sapucaí como uma das grandes favoritas ao título, ao lado das já citadas Portela, Vila Isabel e Império Serrano. Também eram apontadas, com menores chances, o Estácio de Sá e o Salgueiro.

Pois é. Em um resultado contestadíssimo - e, dizem os mais antigos, "de cartas marcadas" - a Mangueira conquistou o campeonato, um ponto à frente da Mocidade Independente de Padre Miguel e três acima de Portela e Império. A Vila Isabel parou apenas em um inacreditável sétimo lugar, empatado com o Salgueiro.

O resultado foi tão escandaloso que a Mangueira foi campeã com um samba sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade que em seu refrão rimava "achei" com "imaginei", de uma pobreza poética indigna do homenageado. Foi tão injusto quanto 1999 e 2003, outros resultados absurdos e inexplicáveis que tivemos recentemente.


O que ninguém imaginava naquela tumultuada Quarta Feira de Cinzas é que Tupinicópolis seria o "canto do cisne" de Fernando Pinto. O genial artista faleceria precocemente aos 42 anos em um acidente de carro em novembro daquele 1987, após um ensaio da escola.

O carnaval de 1988 ainda foi executado de acordo com as instruções deixadas pelo carnavalesco, mas sem o mesmo brilho. Era o fim de uma era brilhante, que deixou muitas saudades em quem gosta dos desfiles.



Vamos à letra do samba, que pode ser ouvido em sua versão de estúdio acima e, aqui baixado em uma versão ao vivo. É uma samba de estrutura diferente, curto e com nada menos que quatro refrões - bem diferente da pasteurização de "refrão, dez linhas, refrão, dez linhas" dos sambas atuais.

"Vejam
Quanta alegria vem aí
É uma cidade a sorrir
Parece que estou sonhando
Com tanta felicidade
Vendo a Mocidade desfilando
Contagiando a cidade

E a oca virou taba
A taba virou metrópole
Eis aqui a grande Tupinicópolis


Boate Saci
Shopping Boitatá
Chá do Raoni
Pó de guaraná


No comércio e na indústria
No trabalho e na diversão

É Tupi amando este chão


Até o lixo é um luxo
Quando é real
Tupi Cacique
Poder geral
Minha cidade
Minha vida
Minha canção
Faz mais verde meu coração

Laiá, laiá, laiá, laiá
Lá, lá laiá, lá, laia, lá
"


Este ano, a Renascer de Jacarepaguá trouxe um carnaval inspirado neste enredo da Mocidade, chamado "Aquaticópolis" - de autoria de Paulo Barros e Wagner Gonçalves. Embora muitos discordem, em minha opinião foi um desfile que lembrou Fernando Pinto, com referências adequadas e muito criativas.

O leitor poderá tirar as suas próprias conclusões nesta coluna: este desfile da Renascer será o próximo samba enfocado nesta série.


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Samba de Terça - "Rapsódia de Saudade"


Ainda tenho "rescaldos" de domingo para escrever, mas hoje é terça feira e não podia faltar a nossa já tradicional coluna sobre samba.

Hoje farei uma homenagem a um dos maiores compositores do samba enredo carioca, capaz de ganhar um samba em 1957 e outro cinquenta anos depois, em 2007 - ele faleceu em novembro de 2006, sendo, na prática, um "samba póstumo". Falo de Mestre Toco (foto abaixo), maior vencedor de sambas da Mocidade com 12 vitórias.


Antes de passarmos ao nosso samba de hoje, queria agradecer o inestimável auxílio da Vice-Presidência Cultural da Mocidade, na figura do Fábio Fabato, que cedeu todas as imagens da matéria de hoje; além de informações sobre o carnaval.

Nosso samba é de 1971. A Mocidade já era conhecida por ser "uma bateria cercada por uma escola de samba", comandada pelo grande Mestre André. Entretanto, tinha grandes sambas naquela época, e "Rapsódia de Saudade" é um exemplar significativo.

Chega a ser uma injustiça se dizer que a verde e branca da Zona Oeste não possui sambas dignos de entrar no panteão dos melhores de todos os tempos.

O enredo, de autoria de Gabriel do Nascimento e desenvolvido por Clóvis Bornay, buscava contar a saudade e o sentimento através de uma série de músicas e poemas relacionadas ao tema. Relaciono abaixo parte do folheto explicativo do enredo, datilografado:



 


Reparem nos agradecimentos às autoridades na primeira página. Este material também é interessante para mostrar que, naqueles tempos, também haviam sinopses longas. Ou seja, não é exatamente devido a isto que os sambas atuais vem perdendo em qualidade.

Mestre Toco, em um samba curto - vinte versos - soube sintetizar o sentimento presente no enredo, compondo um dos maiores sambas da história da verde e branca de Padre Miguel. Não é exagero dizer que não fica nada a dever a outros sambas enfocados nesta série, como "Sublime Pergaminho", por exemplo.

Uma curiosidade é que a palavra "célica" é um neologismo do compositor. Em sua visão, significa "celestial", e foi criada a fim de se encaixar com a bela melodia do samba sem atrapalhar sua métrica.

Eram tempos em que não se precisava de "condomínios" nem de investimentos multimilionários. Bastavam o talento e a caneta.

A Mocidade foi a sétima escola a desfilar no domingo de carnaval, 21 de fevereiro. A análise do grande Albino Pinheiro, publicada na revista "Manchete", fala por si mesma:

“Já se ouve o som fantástico. Nosso governador (Negrão de Lima) se entusiasma: "Esta é realmente uma das melhores baterias da cidade”. E, não resistindo ao apelo quentíssimo daquele som, acompanha com gestos ritmados a escola que se aproxima. O Rei do Carnaval, Joaquim Meneses, que se mantém há horas ao lado do governador, acha-se também na obrigação de se empolgar. Mas o bastão real, a coroa, a fantasia, as botas e a sua própria figura frustram a alegria que ele pretende mostrar. É o maior momento do desfile até agora. A bateria da Mocidade Independente há muito é um dos mais caros patrimônios da cultura popular de nossa cidade. O que Mestre André cria e recria sobre o ritmo de sua bateria é impossível de se descrever. Basta que se diga que aquele povo todo, amassado, esmagado, empurrado há mais de treze horas, se levanta inteiro, lepidamente. Enquanto o som da bateria é ouvido, é impossível permanecer quieto. Pela primeira vez vejo o gordo do imenso farnel levantar-se. A bateria foi mais forte que seu apetite. A pista continua a congestionar-se. Mas o secretário de Turismo, Levi Neves, comenta: “Se não houver invasão, não é carnaval”. Com isso, ele quis dizer que o grande desfile tem público cada vez maior e não há avenida que suporte tal entusiasmo. A massa acompanha o bonito samba da Mocidade e quando chega no verso: "Então componho um poema singular", o coro cresce e a Avenida inteira se une. A harmonia de povo, bateria e escola de samba marca um dos mais belos momentos do carnaval de 71. A emoção foi grande. O bem que a Mocidade nos fez se reflete no comentário geral. O policial do meu lado, que há quarenta minutos reagia com cara feia à invasão da pista, está com outra fisionomia. Ele é jovem ainda e não parece ser carioca. Olha para o meu braço, vê meu nome e o da revista e quase humildemente olha para mim e diz: "Que coisa, hein, moço?". Um bom samba acaba com qualquer tendência para a violência. O espetáculo continua."


A bateria da escola (foto acima) contribuiu para este clima de devaneio vivido durante a passagem da escola pela Candelária.

Apesar do belíssimo samba e do bom desifle, a escola obteve apenas o nono e penúltimo lugar na apuração, com 86 pontos. Entretanto, não houve rebaixamento naquela ocasião. Uma curiosidade: a décima e última colocada foi a Unidos de Padre Miguel, sua "rival" e praticamente vizinha de quadra.

Aqui você pode ouvir e se deleitar com o samba, em sua versão original. Abaixo, a letra dele. O puxador era o famoso Ney Viana, de grande sucesso posterior nos primeiros dois títulos da escola de Padre Miguel.

"Canto
Faço do samba minha prece
Sinto que a musa me aquece
Com o manto da inspiração
Ao transportar-me pelas asas da poesia
Ao som de linda melodia
Que vai fundo no meu coração

Então componho um poema singular
Rememorando obras célicas
Do cancioneiro popular


Oh, divina música
Tua magia nos envolve a alma
Tua sutileza nos seduz
Pois emanas a luz que inebria e acalma
Tu és a linguagem dos cantores
Tuas entonações nos inspiram amores

Música
Nos traz saudades coloridas
Dos trovadores e serestas
E das canções sentidas"



Semana que vem, vamos à década de 80, com um dos sambas da excelente série da Unidos da Tijuca da época: "Macobeba - O que dá para rir, dá para chorar". Até lá.