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domingo, 28 de outubro de 2012

Orun Ayé - "Ainda eleições e 'oi oi oi'"



Neste domingo eleitoral, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, faz um histórico pessoal da relação entre PT e PSDB, além de falar da recém encerrada novela “Avenida Brasil”.

Ainda eleições e “oi oi oi”

Algumas semanas atrás escrevi sobre eleições e sobre como a política influenciou minha vida. Tentarei, como leigo que sou, fazer uma análise mais técnica. Mas não sou especialista em nada: apenas tentarei escrever sobre o que sinto e vejo.

Aqui no Rio não tem segundo turno, haja visto que o prefeito Eduardo Paes conseguiu sua reeleição. Todavia, hoje em muitos lugares do país há segundo turno e em novembro tem uma eleição que embora pareça distante influencia nas nossas vidas, que é a eleição americana.

Começando pelas nossas.

Existe desde a queda de Fernando Collor em 1992 claramente uma disputa entre dois partidos. Oriundos do mesmo lado de política, os dois já foram aliados em algumas situações e se afastaram com o tempo e as ambições, tornando-se grandes inimigos, apesar de em alguns pontos parecerem.

Falo de PSDB e PT.

Na queda de Collor o PSDB decidiu aceitar virar governo e o PT continuou na oposição. O presidente Itamar Franco nomeou o Senador peessedebista Fernando Henrique Cardoso seu Ministro das Relações Exteriores e algum tempo depois ele ganhou o Ministério da Economia.

Na passada de Fernando Henrique na pasta foi criado o “Plano Real”, o até hoje mais bem sucedido plano econômico para combater a inflação.

A quem tem menos de vinte e cinco anos e talvez não saiba, o Brasil vivia um problema sério de hiperinflação com a inflação mensal beirando os 100% mensais. Quer dizer, o produto que você comprava hoje já tinha outro preço amanhã, depois de amanhã; o salário ficava defasado e a moeda cada vez mais fraca.

Inúmeros planos econômicos foram feitos, a moeda brasileira mudou de nome diversas vezes até o surgimento do Real e com ele a tão sonhada estabilidade econômica.

Essa estabilidade foi o carro chefe da campanha de Fernando Henrique à Presidência da República e levou o ex Ministro ao cargo, vencendo em primeiro turno o candidato petista Luis Inácio Lula da Silva.

Também venceu na eleição seguinte tendo base a estabilidade econômica e a facilidade do poder de compra da população.

A ambição do PSDB era bem clara: vinte anos no poder. Para tanto usou até de estratégias pouco claras, como o episódio da votação para aprovação da reeleição ao cargo de Presidente, Governadores e Prefeitos. Há muitas suspeitas de compras de votos de congressistas até hoje não provadas nem descartadas, fora outros escândalos que marcaram o governo como o Sivam.

[N.do.E.: sobre a compra de votos para a reeleição de FHC, há gravações telefônicas. Não sei porquê isso não foi levado à Justiça.]

Com o tempo e o aumento do desemprego, Fernando Henrique foi se desgastando com a população dando margem ao crescimento de Lula. Isso culminou com sua vitória na eleição presidencial de 2002, derrotando o candidato do PSDB José Serra.

Lula mudou seu discurso adotando um estilo “paz e amor” e parece que seu partido mudou junto. O partido que tinha como primazia a ética e a transparência afundou no que muitos consideram como o maior escândalo de corrupção da história desse país, denominado “Mensalão”. Seria a compra de votos de congressistas em troca de aprovação de itens importantes para o governo. 

Esse escândalo corroborou para a queda de muita gente importante do partido, entre eles José Dirceu. Homem forte do presidente Lula, Dirceu provavelmente seria hoje o Presidente da República caso o escândalo não estourasse. O Ministro chefe da Casa Civil que no fim dos anos sessenta pegou em armas para tentar libertar o país de uma sangrenta ditadura militar era tachado de corrupto.

José Dirceu é o retrato vivo dos versos de Cazuza “E aquele garoto que ia mudar o mundo/Agora assiste a tudo em cima do muro”.

Nessa ocasião o PSDB e a oposição erraram. Em vez de buscar o impeachment de Lula quiseram sangrá-lo até a morte e humilhar em público o presidente. Mas Lula é um sobrevivente da fome, da miséria, saiu do sertão pra ser o homem mais poderoso do país e não seria tão facilmente derrotado.

Não foi.

[N.do.E.: ressalte-se a conduta do então vice presidente José de Alencar, que quando procurado por políticos da oposição deixou claro que iria com Lula até o fim e não assumiria o cargo de presidente em caso de impeachment. Esta história é contada nas duas biografias do político, ambas resenhadas neste blog.]

No mar de corrupção em que se transformou o governo do PT veio também a onda de esperança. Um governo voltado para o social que tirou milhões da linha de pobreza e levou a classe C ao paraíso. Sua popularidade, carisma, a melhora da condução social e principalmente a falta de provas contra ele não só impediram o impeachment como lhe reelegeram em 2006.

E Lula deixou o governo em 2010 para outra petista, Dilma Rousseff, conseguindo o que FHC não obteve: fazer o sucessor e deixar o governo com popularidade recorde.   

E Dilma vem fazendo um bom governo. Mantendo a política social de Lula com mais austeridade e o projeto do PSDB de vinte anos de poder parece agora pertencer ao PT.

PT e PSDB, os inimigos que se parecem, duelam em 2012 pelas prefeituras. Um ganha em alguns lugares, outro também e tem em São Paulo a grande disputa. Aquela que pode mostrar o futuro dos dois partidos e da eleição presidencial de 2014.

José Serra, candidato do PSDB, é um político experiente. Já foi Prefeito, Governador, Ministro, Senador e duas vezes candidato a Presidente. Fernando Haddad, do PT, foi Ministro e é pouco conhecido da população. Chamado pelos oposicionistas de “poste”, assim como Dilma era chamada.

Haddad começou muito atrás nas pesquisas e foi aos poucos galgando simpatizantes com a ajuda de Lula e Dilma ao mesmo tempo em que ocorria o fenômeno Celso Russomano. Jornalista candidato de um partido pequeno que pegou a liderança das pesquisas.

Mas no fim deu a lógica e os candidatos dos dois inimigos foram ao segundo turno.

Uma vitória de Serra é uma imensa derrota da dupla Lula e Dilma e um fortalecimento do candidato do PSDB dentro do partido. Ele promete não largar a prefeitura como fez uma vez, mas mesmo não largando fica com o poder da escolha do próximo candidato do partido a Presidente. São Paulo dominaria o PSDB enquanto o PT perderia terreno justo no lugar que jogou todas suas fichas.

Uma vitória de Haddad é provavelmente o fim político de José Serra e o enfraquecimento do PSDB de São Paulo, com o poder partidário passando para Minas e o Senador Aécio Neves. Lula e Dilma ficariam ainda mais poderosos. O PT teria o poder em São Paulo e sua aliança no Rio, as duas principais capitais e isso faria que Dilma nadasse em mar de brigadeiro pra sua reeleição em 2014.

[N.do.E.: “nadar em mar de brigadeiro”? Essa para mim é nova, sempre ouvi “voar em céu de brigadeiro (risos)]

Hoje saberemos para qual lado irá o poder. Até as últimas pesquisas antes do fechamento dessa coluna Haddad liderava, mas se tem uma coisa que não podemos confiar é nas pesquisas eleitorais.

Nem aqui nem nos Estados Unidos. Os partidos Democrata e Republicano representam lá o que hoje são aqui PT e PSDB. O colunista Rafael Rafic de forma brilhante já contou durante a semana como é feita a eleição presidencial por lá e embora eu tenha entendido, graças a sua explicação, acho complicada demais.

Não entendo como a maior democracia do mundo pode eleger alguém que teve menos votos e ainda usar cédulas enquanto aqui a votação já é cem por cento eletrônica desde o século passado. Mas eles devem saber o que fazem, apesar de numa dessas ter elegido George W. Bush.

Não tenho pretensão de ditar preferências nas eleições americanas, quem acho que deva ganhar. Não tenho essa arrogância, mas de longe me parece que para o Brasil e o mundo livre Obama é melhor. Parece que ele deixou falhas como presidente, não tratou bem a economia, mas só de pensar nos republicanos com seu estilo texano, chapéu de cowboy, cigarro no canto da boca querendo guerrear e impor sua democracia na base da porrada me dá calafrios.

Lá a coisa ta mais apertada ainda. Na última pesquisa que vi estava 46% a 46% e como lá o voto não é direto e sim por delegados eleitos a coisa fica mais nebulosa ainda. Vamos torcer para que os americanos escolham certo até porque, vamos falar o português correto, eles estão elegendo o presidente do mundo. 

OI OI OI

Se teve algo que não deixou dúvidas nas pesquisas foi o sucesso da recém terminada novela “Avenida Brasil” (já citada em uma coluna minha sobre novelas). A novela transformou seu último capítulo em uma espécie de Copa do Mundo, deixando as ruas vazias, obrigando bares e restaurantes a colocar telões e criando um frenesi nos lares brasileiros e televisões durante toda a sexta-feira 19 de outubro.

O sucesso da novela fez com que a presidente Dilma adiasse um comício em São Paulo junto com seu candidato Fernando Haddad. A novela foi notícia dos principais veículos de imprensa do mundo, sendo manchete da Forbes como o programa de televisão mais lucrativo da história da América Latina - angariando dois bilhões de dólares.

A rádio Globo transmitiu ao vivo o final da novela com comentaristas e repórteres parados em frente à churrascaria que os atores e diretores assistiam o capítulo. Emissoras rivais se renderam e só falavam nela quando até um programa esportivo como o SportCenter da  ESPN Brasil enalteceu a subida do Divino, time fictício da novela, para a primeira divisão e terminando com o “congelamento” tão comum no fechamento de capítulos da novela. 

Graças a ela jogador que perde pênalti agora será chamado de “chupetinha” porque o personagem Adauto, que usava chupetas, foi chamado assim na hora de bater um pênalti e perdeu.

Avenida Brasil terminou sua história com share de 86% no último capítulo. Isto é: de cada 100 televisões ligadas na sexta feira 86 estavam na novela e em tempos de mais emissoras na tv, TV a cabo e internet é muita coisa.

Muito do sucesso da novela pode ser creditado ao que disse no começo da coluna. A subida da classe C, que se viu retratada na novela com seu jeito de falar, seu dia a dia e jeito de ser. Grandes atores, personagens carismáticos, direção cinematográfica e roteiro ágil ajudaram naquele que é o maior fenômeno desse século em telenovelas.

Parabéns a todos os envolvidos, em especial aos magistrais João Emanuel Carneiro, José de Abreu, Marcello Novaes e Adriana Esteves.

Que venham outros Prefeitos, outros Presidentes, outra novela e a vida siga seu curso, se possível melhorando. Porque precisamos sim de pão e circo, assim como governantes que nos respeitem.

oi oi oi. 

Orun Ayé!

(Foto: Veja, via Google Imagens)


quinta-feira, 14 de abril de 2011

Justo Veríssimo


Sem dúvida alguma, uma das notícias mais insólitas da seara política nos últimos tempos foi o inacreditável artigo escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso onde ele prega que o PSDB deve "abandonar o povão" e mirar nas classes médias a fim de de se recolocar no cenário político nacional.

Entre perorações desgastadas de apoio ao neo-liberalismo e críticas ao governo anterior e atual - sem perceber que a dinâmica da política, da economia e da sociedade mudou enormemente - o ex-presidente defende que a oposição se foque na "classe média", seja a antiga via canais tradicionais, seja a "nova", via conexão.

De certa forma retorna-se ao discurso pré eleitoral, onde uma verdadeira "tropa de choque" do candidato oposicionista dedicou-se a uma campanha que eu classificaria como de "ativismo cibernético", propagando informações às vezes verdadeiras, embora torcidas, outras totalmente falsas. Criou-se um clima de terror que, combinado a panfletos apócrifos, contribuiu muito para que a campanha fosse para o segundo turno.

A idéia do ex-presidente é retomar este tipo de campanha, focado no "combate à corrupção" e em ações mercadológicas no sentido de criar na população brasileira de classe média o sentimento de "passar a vassoura" nos corruptos. Não seria despropositado relacionar esta proposta de estratégia com os métodos do então governador de São Paulo Jânio Quadros, que o levaram à presidência em 1960 - e deu no que deu...

O objetivo é cooptar a chamada "nova classe média", formada por aqueles que nos dois Governos Lula saíram das classes D e E para a classe C. Pela primeira vez o país tem mais habitantes de classe média que pobres, e esta é uma revolução social sem precedentes. Fernando Henrique Cardoso afirma que "devemos cooptá-los antes que o PT o faça" e prega um estratégia baseada no combate à corrupção e no retorno de práticas econômicas neoliberais.

Outro ponto insólito foi o estímulo às classes médias "tradicionais" para que façam algo como uma "revolução cibernética", aos moldes dos últimos protestos nos países islâmicos. Testando-se as hipóteses no limite, como costumam dizer economistas matemáticos, o que pode-se depreender do artigo é que ele estaria propondo um levante extra-constitucional - em última instância, um golpe de estado à moda de 1964.

Contudo, o trecho mais incrível do artigo é aquele onde FHC "tira a máscara" e propõe que o PSDB abandone definitivamente os pobres. Nas palavras do artigo, em reprodução do site SRZD:

" (...) Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os "movimentos sociais" ou o "povão", isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo "aparelhou", cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias. (...)"

A tentativa de sofismar algo que é simples - as classes mais pobres votam com o bolso e estão sufragando a proposta de governo que propiciou melhora de suas condições de emprego e renda - esconde algo que é da práxis política do partido: o verdadeiro desprezo pelo denominado "povão". 

Como escrevi aqui várias vezes, as políticas desenvolvidas pelo PSDB enquanto foi governo tiveram como objetivo concentrar a renda em favor dos mais ricos e comprimir a massa de salários. O desemprego chegou a níveis bastante altos e os salários do setor público experimentaram uma queda de aproximadamente 60% em termos reais - o que afetou consideravelmente a economia de cidades como o Rio de Janeiro e Brasília, que possuem concentrações expressivas de funcionários públicos e estatais.

O mais incrível é que pela primeira vez um prócer do partido admite abertamente que, como dizia o personagem de Chico Anísio, "o povo que se exploda". Não é nada tão surpreendente para quem acompanha a política brasileira dos últimos anos, mas não deixa de ser uma novidade ver esta divisão de classes tão explicitamente declarada.

Fica claro, também, que em caso de retorno desta oposição ao poder todos os mecanismos de geração de emprego e renda - que foram "indutor de crescimento" nos últimos anos - serão desmantelados. 

Até porque, como bem explicou o ex-Ministro da Fazenda e ex-filiado ao PSDB Bresser Pereira em excelente entrevista ao Valor Econômico (em link do Blog do Luis Nassif, haja visto que o citado jornal abre seu site apenas para assinantes), a visão de FHC em particular e da ala dominante do partido é a de um "capitalismo associado à dependência", ou seja, as multinacionais e as potências econômicas - leia-se: Estados Unidos - como líderes do desenvolvimento nacional. Como a história mostra, este é um tipo de escolha que concentra renda, favorece os mais ricos e gera desemprego e miséria.

Finalizando, não me surpreende esta opção do PSDB pelos ricos e pela classe média, desprezando os pobres. Isto vimos nos últimos vinte anos. Surpreende a sinceridade do ex-presidente, que assim, se assume como uma espécie de "Justo Veríssimo" da vida real.

Caem as máscaras.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Estadão, Folha, Serra e FHC

Normalmente o Ouro de Tolo publica aos domingos bons textos publicados em outros espaços da blogosfera, mas como teremos uma cobertura temática de amanhã até a Quarta Feira de Cinzas, antecipo para hoje o bom texto escrito pelo jornalista Rodrigo Vianna sobre o PSDB e as diferenças entre o Estadão e a Folha de São Paulo.

Boa leitura.

"Sob comando da família Mesquita, o "Estadão" sempre foi um jornal mais "ideológico" do que a "Folha". O diário dos Frias muda de posição conforme muda o vento.

Os dois jornais estiveram a favor do golpe de 64. O "Estadão" - como boa parte da elite brasileira - queria uma intervenção rápida dos militares, "limpando" o país dos "comuno-petebistas". Depois, o poder cairia no colo da UDN. Era o sonho da família Mesquita.

Quando a ditadura mostrou que viria pra ficar, o "Estadão" teve a coragem de rever suas posições, e foi pra oposição. Viveu sob censura, teve que publicar receitas e poemas no lugar de textos censurados. A "Folha", não.

A "Folha" (há várias testemunhas disso) chegou a emprestar seus carros para transporte de presos, e para uso do DOI-Codi em São Paulo.

Quando o vento mudou, nos anos 80, aí a "Folha" virou "democrata", botou faixa amarela na capa, e fez campanha pelas Diretas-Já. Teve um papel importante naquela época. Isso não se nega. E conquistou muitos jovens leitores com essa posição de "vanguarda".

Por que relembro isso tudo?

Porque, nos últimos dias, ficou claro que apito "Folha" e "Estadão" tocam em relação à candidatura tucana.

O "Estadão" publicou o artigo de FHC, no domingo - chamando o PT para a briga (o que Lula e Dilma adoraram).

A "Folha", nesta terça, deixa claro que a tática de FHC desagradou a Serra. O jornal dos Frias não ouviu o Serra em "on". E não precisa. O recado foi dado na capa: "Críticas de FHC ao presidente contrariam a tática de Serra".

O "Estadão" fala por FHC. De forma aberta - como manda a boa tradição do jornal (lembro que, hoje, o diário nem está mais sob comando dos Mesquita, mas de um comitê de credores que - segundo alguns - incluiria também gente muito próxima a FHC).

A "Folha" fala por Serra. De forma velada.

É um pouco mais que isso.

Os dois jornais, claro, querem a vitória de Serra. Mas, para o "Estadão, não basta uma vitória qualquer. Precisa ser uma vitória que reafirme o ideário (neo) liberal: a candidatura tucana deveria levantar as bandeiras, defendendo o legado de FHC.Para o "Estadão", não vale uma vitória envergonhada, que esconda FHC e legitime o "Estado forte" do segundo mandato lulista. FHC foi o sujeito que prometeu "enterrar a era Vargas". É o velho sonho do "Estadão", que até hoje não digere a derrota para Vargas em 32.

A "Folha", como sempre, parece mais pragmática. Se for preciso esconder FHC para que Serra vença, ótimo.

Não é por outro motivo que o jornal dos Frias escalou o (bom) repórter Gustavo Patu para mostrar como FHC omitiu os erros do governo dele no artigo escrito para o "Estadão". É um recado da "Folha" (e de Serra) para FHC: se falar demais, até nós vamos desconstruir o seu governo!

FHC já percebeu que - se não brigar para defender sua biografia - ela será jogada no lixo, inclusive pelos correligionários tucanos.

Lula quer que a eleição vire um "choque de programas" (governo Lula x governo FHC).

Serra quer "choque de biografias" (o ex-ministro e governador "experiente" x a ministra "inexperiente").

O problema é o choque de egos entre os tucanos.

Quem vai guardar o ego de FHC no apartamento dele, em Higienópolis? Só Dona Ruth conseguiria...

Pensando bem, não é justo exigir tal esforço de FHC, a essa altura da vida.

Deixa o FHC falar à vontade! Faz bem pra ele. E, certamente, fará um bem enorme ao país..."

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

FHC, o morto-vivo

A imprensa 'psdebista' brasileira publicou com grande estardalhaço um artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso onde ele chama o governo Lula de "neoperonista" e defende o modelo mercado-americanófilo.

Vamos relembrar um pouco o que foi o Governo Fernando Henrique Cardoso.

Eleito sob a esteira do Plano Real e reeleito sob o câmbio apreciado - o país quebraria dias após a eleição - seu governo foi marcado pela aplicação das teses do chamado "Consenso de Washington", conjunto de dez teses ideológicas revestidas de viés econômico:

1) Disciplina fiscal
2) Redução dos gastos públicos
3) Reforma tributária
4) Juros de mercado
5) Câmbio de mercado
6) Abertura comercial
7) Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições
8) Privatização das estatais
9) Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas)
10) Direito à propriedade intelectual


Destes dez preceitos, diria que sete foram cumpridos na íntegra, um parcialmente (privatização) e dois não foram aplicados (reforma tributária e direito à propriedade intelectual).

Além disso, esmagou o sindicalismo - a ponto de o funcionalismo público e categorias como os petroleiros terem ficado os oito anos do mandato sem um único reajuste salarial - e se utilizou das privatizações para privilegiar grupos e gerar uma nova casta empresarial.

Sua política social pode ser resumida na clássica frase "a questão social é caso de polícia". O desemprego e a concentração de renda atingiram níveis alarmantes. Em 2002, no último ano de mandato, o desemprego bateu recorde histórico e a inflação estava em cerca de 20% ao ano. A economia não crescia mais que 1% ao ano e as taxas de juros estavam em níveis catastróficos - destruindo emprego e renda.

Empenhou-se em destruir a Petrobras e sucatear o serviço público. Ignorou Educação e Saúde. Mesmo a tão elogiada gestão de Serra à frente deste último ministério primou mais pela pirotecnia que pelo atendimento básico e universal.

Na política externa, notabilizou-se pela total subserviência aos Estados Unidos e o apoio à ALCA, que fatalmente destruiria a indústria nacional a médio prazo e nos tornaria uma grande Guatamela ou Honduras.

Pois bem. É este cidadão, que não se elege nem vereador em Itaboraí, que se arroga o papel de "farol iluminado brasileiro" e escreve artigos dizendo o que o governo deve ou não fazer. Ora, se quer fazer isso, dispute e ganhe as eleições !

Na verdade, a reação e os artigos deste senhor são a resposta conservadora à nova política que está aí. Repugna a idéia de que aqueles fora da elite possam viver dignamente sem mendigar migalhas junto aos donos do poder.

A cada dia, a cada minuto, mais ele guina suas posições na direção da defesa de políticas excludentes e que representem o Estado a serviço de uns poucos. Não sou crédulo a afirmar que isto não existe hoje, mas pelo menos os mais desassistidos hoje possuem condição de ter um emprego.

Na comparação de indicadores, não há um único ítem onde os Anos FHC levem vantagem.

Pois é. Ao invés de estar aposentado e cuidando do filho menor de idade que tem, FHC se arvora a porta-voz do que temos de mais retrógrado em política.

Só que suas palavras, emitidas como o último Santo Graal, somente encontram ressonância na imprensa cada vez mais conservadora do país. Nem mesmo os próceres tucanos querem ver a sua imagem atrelada a do ex-presidente, pois bem sabem que este é o "beijo da morte".

FHC, o morto-vivo. Lamentável é ainda darem importância a figura tão nociva aos interesses nacionais. Aliás, chega a ser engraçado vê-lo chamando o Brasil de hoje de "república sindicalista" se lembrarmos que seus tempos tiveram a marca indelével do ódio ao trabalhador.

Se formar um mercado interno e aumentar o poder de compra do trabalhador - que irá consumir e, consequentemente, tornar mais próspera a indústria e os capitalistas - é ser partidário de uma "república sindicalista", então eu preciso rasgar o meu diploma.

Velha ordem, velhas políticas, velha história. Daqui a pouco o veremos defendendo os incêndios nas favelas como política social - de preferência, com os moradores dentro.