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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Recapitulando a questão dos royalties


Há praticamente um ano atrás - dia 03 de novembro de 2011 - escrevi post sobre a controversa questão dos royalties e a nova lei que foi aprovada ontem pelo Congresso Nacional.

Li e ouvi ontem um bocado de disparates sobre a questão ontem, especialmente em redes sociais. Muita gente dando palpite sem conhecer minimamente o assunto, reproduzindo opiniões distorcidas sobre o tema.

Reproduzo a partir do parágrafo abaixo o post a fim de acrescentar dados ao debate da questão, com pequenas alterações e muitas adições. Lembro que o projeto de lei acabou aprovado da forma original, o que a meu ver é algo bastante preocupante.

O Projeto de Lei do Senado 448/2011 prevê a redução das fatias dos estados produtores, dos municípios também produtores e da União nos royalties em favor dos estados e municípios que não produzem petróleo. Estes últimos passarão a ter uma fatia de 47% do total dos royalties pagos em 2020, enquanto que os produtores terão queda de 53% para 24% no mesmo ano de 2020. Além disso, a fatia da União cai de 30% para 20%. Resumindo, é isto.

Entretanto, além de me parecer inconstitucional - pois o projeto mexe na divisão dos recursos do petróleo "pós sal", ou seja, da Bacia de Campos e outras de menor expressão - em meu entender existe um sério erro conceitual neste projeto. Explico.

O conceito de royalties remonta ao início da exploração de petróleo na Arábia Saudita, na primeira metade do século XX. Para quem não conhece este país árabe possui petróleo quase que ao nível do solo, em grandes quantidades - é a maior reserva mundial, ainda hoje.

O nome "royaltie" significa literalmente "gravata real". Quando os americanos e ingleses negociavam para deter os direitos sobre a exploração de petróleo no país, estranharam a maneira de se vestir do rei do país. Então determinaram que o reino receberia uma taxa sobre o petróleo extraído, para que o soberano pudesse se vestir melhor usando gravatas - daí o nome dado à taxa, "royal tie" - "gravata real".

Hoje os royalties não servem para comprar gravatas, mas o nome ficou. É uma taxa paga à União, aos estados e municípios pelas empresas petrolíferas para compensar o uso da terra - ou mar territorial - e os danos ambientais advindos da exploração do ouro negro.

Portanto, soa como uma impropriedade a proposta em aprovação de redividir estes recursos com municípios que não possuem uma gota do líquido em seus domínios territoriais. Claramente é uma forma de fazer demagogia com o dinheiro alheio. Pior: estados e municípios que não são afetados pela exploração de petróleo terão renda maior que os estados e municípios produtores, o que é absolutamente insólito.

Na redivisão dos recursos do pré-sal, algo diferente, o valor destes cai substancialmente mas respeita o sentido original desta taxa. Na verdade o próprio conceito de "estado e município produtor" é bastante relativo, haja visto que os poços em operação se encontram no limite da plataforma continental brasileira - a aproximadamente 300 quilômetros da costa, em média.

Complementando, à exceção do município de Santos e entorno, o que inclui parte do estado do Rio de Janeiro, não faz muito sentido a tese de compensar os impactos causados aos municípios produtores pela exploração do óleo, sejam ambientais, econômicos ou de qualidade de vida.

Santos é a sede das operações da Petrobras para o pré sal e sofrerá impactos significativos dado o afluxo de pessoas atrás dos empregos oferecidos pela Petrobras e empresas satélites para a exploração do petróleo da camada pré sal, o que vai demandar uma oferta adicional de serviços públicos por parte de Santos e cidades da região.

Ou seja, seria muito mais razoável manter a divisão atual nos campos do "pós sal" e alterar esta distribuição nos novos campos do pré sal - que tendem a responder pela maior parte da produção brasileira em poucos anos - até de forma a não ferir o conceito original de "royalties". Entretanto é mais fácil fazer demagogia com o dinheiro alheio.

Vale lembrar, também, que a chamada "participação especial", paga em campos de maior produtividade, também poderia ser redistribuída em favor dos estados e municípios não produtores. Há até analistas conceituados fazendo confusão entre "royalties" e "participação especial", repetindo um vício original do projeto de lei - e que é reproduzido até no enredo da Acadêmicos do Grande Rio para o carnaval 2013.

Leitor, para resumir: "royaltie" é para estados e municípios produtores de petróleo. Participação Especial é taxa paga à União - esta sim pode ser redividida.

Também é um disparate querer propor que 100% dos royalties do pré sal sejam destinados à Educação, como foi proposto e felizmente derrubado na votação de ontem. Primeiro porque royaltie, como explicado, é para ressarcir municípios e estados produtores.

Segundo, porque o valor projetado dos royalties do pré sal é imenso e muito acima das necessidades demandadas para se fazer uma revolução na educação. Os valores provenientes da participação especial serão suficientes para vários tipos de investimento a fim de redinamizar a economia brasileira em vários setores.

E olha que não falo aqui na "doença holandesa" da economia, provocada pela enxurrada de recursos provenientes da exploração. É assunto mais complexo e será alvo de post futuro neste espaço.

Aliás e a propósito, se é para se tocar no assunto: vale a pena também rediscutir a questão do pagamento do ICMS no destino, determinada pela Constituição de 1988 e que favoreceu fortemente o estado de São Paulo em prejuízo do Rio de Janeiro. O petróleo é a única mercadoria cujo pagamento deste imposto é feito no local de destino e não de origem.

Por outro lado, os municípios que dispõem destes recursos incorreram no erro de não diversificar suas economias a fim de diminuir a dependência deste dinheiro. Um bom exemplo é Macaé, que tem até academia com equipamentos de última geração em praça pública, mas não diminuiu a dependência da economia da cidade do petróleo.

Entretanto acredito que a lei, ainda que seja sancionada pela Presidente Dilma Roussef (no momento em que atualizo o post há dúvidas sobre se isto será feito), não deverá entrar em vigor pelo menos no curto prazo, até por alterar contratos há muito estabelecidos - o que seria, em meu entendimento, inconstitucional.

Contudo, ainda que os valores mantenham-se nos valores originais, serve como advertência aos municípios. Até porque tende a cair a importância relativa destes na produção total de petróleo e os valores recebidos a título de royalties, no médio prazo, tendem a ser decrescentes. Cabe a estes diversificar sua economia e diminuir a dependência de um recurso natural que sabemos finito.

Finalizando, não posso deixar de comentar a postura política dos atores envolvidos no processo, atropelando o bom senso a fim de fazer demagogia com a carteira alheia. Espero que a Presidenta Dilma Roussef vete a lei de forma integral a fim de se permitir um debate mais conclusivo e que atenda a todas as demandas.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Final de Semana - "Meu Lugar"


Nesta sexta feira, em que a Portela faz a sua semifinal de samba enredo (na quadra, a partir de 23 horas), nossa faixa musical traz a canção que homenageia o bairro de Madureira, que também é o enredo da escola: "Meu Lugar", de Arlindo Cruz.

Tenho ligações sentimentais com o bairro, pois nasci e fui criado em Cascadura, coladinho a Madureira. Ou seja, a canção - e o enredo da escola - também exaltam as minhas raízes suburbanas, das quais muito me orgulho.

Meu Lugar

O meu lugar,
é caminho de Ogum e Iansã,
lá tem samba até de manhã,
uma ginga em cada andar.

O meu lugar,
é cercado de luta e suor,
esperança num mundo melhor,
e cerveja pra comemorar.

O meu lugar,
tem seus mitos e seres de luz,
é bem perto de Oswaldo Cruz,
Cascadura, Vaz Lobo, Irajá.

O meu lugar,
é sorriso é paz e prazer,
o seu nome é doce dizer,
Madureira, lá, laiá.
Madureira, lá, laiá.

O meu lugar,
é caminho de Ogum e Iansã,
lá tem samba até de manhã,
uma ginga em cada andar.

O meu lugar,
é cercado de luta e suor,
esperança num mundo melhor,
e cerveja pra comemorar.

O meu lugar,
tem seus mitos e seres de luz,
é bem perto de Oswaldo Cruz,
Cascadura, Vaz Lobo, Irajá.

O meu lugar,
é sorriso é paz e prazer,
o seu nome é doce dizer,
Madureira, lá, laiá.
Madureira, lá, laiá.

Ah que lugar,
a saudade me faz relembrar,
os amores que eu tive por lá,
é difícil esquecer.

Doce lugar,
que é eterno no meu coração,
e aos poetas traz inspiração,
pra cantar e escrever.

Ah meu lugar,
quem não viu a Tia Eulália dançar,
Vó Maria o terreiro benzer,
e ainda tem jongo ao luz do luar.

Ah meu lugar,
tem mil coisas pra gente dizer,
o difícil é saber terminar,
Madureira, lá, laiá.
Madureira, lá, laiá.

Em cada esquina um pagode um bar,
em Madureira.
Império e Portela também são de lá,
Em madureira.

E no Mercadão você pode comprar,
por uma pechincha você vai levar,
um dengo, um sonho pra quem quer sonhar,.
Em madureira.

e quem se habilita até pode chegar,
tem jogo de ronda, caipira e bilhar,
buraco sueca pro tempo passar,
Em madureira.

E uma fezinha até posso fazer,
no grupo dezena, centena e milhar,
pelos setes lados eu vou te cercar,
Em madureira.

La la la la ialalaialalaia, em Madureira
Lalalaialalalalalaia, em Madureira

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

São Cosme e São Damião: uma tradição que está se perdendo


Amanhã é o dia popularmente consagrado a São Cosme e São Damião.

É uma data bastante arquetípica do sincretismo religioso brasileiro, por envolver adeptos da Igreja Católica, do Candomblé e da Umbanda - embora a primeira, oficialmente, comemore hoje, dia 26, após a Reforma Litúrgica realizada pelo Vaticano em 1969 ter alterado a data de 27 para 26 de setembro.

Cosme e Damião, segundo a tradição, eram médicos gêmeos que viveram no Século III e que praticavam a medicina de forma caridosa, sem exigir pagamento. Ainda de acordo com a convenção ambos foram martirizados na Síria durante a perseguição feita pelo imperador Diocleciano - o mesmo que teria sido algoz de São Jorge - e após suas mortes o povo transportou seus corpos para Roma.

Objetivamente há dúvidas sobre a maneira como os irmãos pereceram e, até mesmo, sobre sua existência. Alguns grupos de pesquisadores argumentam que Cosme e Damião são a versão romana da lenda grega dos filhos gêmeos de Zeus.

Mas isto não vem ao caso.

Cosme e Damião são os padroeiros dos médicos, dos farmacêuticos (ato falho: havia escrito "feiticeiros" originalmente) e diz-se que a Fé nos santos ajuda mulheres que tenham dificuldade a engravidar.

Na Bahia os santos são cultuados especialmente pelos adeptos do Candomblé, que possuem como tradição o denominado "caruru de Cosminho", oferecido em Igrejas, Templos e nas casas dos fiéis - mais ou menos similar ao hábito carioca de oferecer doces.

Na tradição baiana Cosme e Damião são associados aos ibejis, divindades gêmeas do Candomblé. Nos cultos afro-brasileiros Cosme e Damião estão sincretizados a entidades infantis, apesar de sua representação como adultos por parte da Igreja Católica.

No Rio de Janeiro, outro local onde o culto a São Cosme e São Damião é bastante forte, há - melhor dizer havia, explico mais abaixo - uma prática bastante antiga, principalmente no subúrbio: distribuir doces nesta data na rua.

É tradição tanto de adeptos da Igreja Católica que fazem promessas aos santos ou simplesmente querem agradecer quanto de fiéis de cultos afro-brasileiros. Estes últimos, especialmente adeptos da Umbanda - mas não somente esta.

Eu me lembro que quando era garoto esperava ansiosamente por este dia. Até porque não tinha muita grana para comprar doces no restante do ano: era muito de vez em quando que me sobravam uns trocados para tal.

Fazendo um parêntese, talvez este seja o motivo pelo qual até hoje não ligo muito para doces.

Normalmente, quem nos levava para a caça de guloseimas em Cascadura (onde eu morava) e adjacências era minha avó, a saudosa Dona Germana. Andávamos o dia inteiro atrás das casas ou carros que distribuíam doces e, ao final, fazíamos a contabilidade dos saquinhos auferidos na expedição.

Naquela época (década de 80) a média era em torno de trinta a trinta e cinco saquinhos conseguidos a cada ano. Era bala para uns vinte, trinta dias de consumo.

Haviam também as pessoas que efetuavam a distribuição antecipada de cartões para a festa do dia 27. Normalmente, estes saquinhos de balas e doces eram os de melhor qualidade, mas somente aqueles que possuíam os cartões é que tinham direito a um exemplar.

Porque também tinha isso.

Eu costumava apartar quando chegava em casa os saquinhos de doces "bons" e os "mais ou menos", dentro da qualidade que eu percebia. Quando tinha "Batom" ou pastilha de hortelã da Garoto (aquela embalagem verdinha) era uma festa. Chocolate de boa qualidade, então, era uma bênção.

Hoje, infelizmente, esta tradição caiu muito: resiste apenas no subúrbio, mas muito menos que há 20, 30 anos atrás. Nos demais locais da cidade praticamente desapareceu. Acredito que devido a dois fatores: ao crescimento das igrejas pentecostais evangélicas e à crescente sensação de insegurança da cidade - não necessariamente real, mas esta é outra história.

O segundo fator é auto-explicativo.

Sobre o primeiro, vale uma nota.

Como disse no início deste texto, esta distribuição de doces é feita basicamente por fiéis de duas religiões: a Católica, obviamente - muitos fiéis entregam balas e bombons em pagamento de promessas aos santos - e os adeptos de religiões afro-brasileiras, em particular a Umbanda.

O crescimento das seitas neo-pentecostais, que acreditam que esta distribuição de doces "é coisa do Capeta", diminuiu tanto o número de pessoas que correm atrás nas ruas quanto o de gente que faz a distribuição.

O avanço destas denominações pentecostais e neo pentecostais sobre a sociedade carioca não somente diminuiu o número daqueles que ofereciam os doces de "Cosme e Damião" como também efetuou influência bastante perceptível na quantidade de crianças que saem dia 27 de setembro "correndo atrás de doces". É um caso evidente de como estas alterações no mapa religioso carioca estão alterando e até suprimindo manifestações culturais do Rio de Janeiro.

Uma pena, porque é muito mais uma tradição carioca, em especial do subúrbio, que infelizmente está se perdendo e, se não for resgatada, tende a se extinguir ou se tornar "gueto" no mais tardar em uma ou duas gerações. Por outro lado, este é um exemplo clássico de sectarismo religioso - e isso não é bom.

A cultura brasileira tem como marca o sincretismo desde a formação do país e a postura excludente dos dirigentes, teólogos e adeptos destas seitas acaba causando uma transformação na sociedade com o sentido de homogeneizá-la de forma compulsória. E perda de cultura e de tradições culturais - pois mais que religiosa, é uma tradição cultural antes - nunca pode ser considerada salutar, ainda mais em nome de um duvidoso sectarismo.

E em dias como hoje é que sinto saudades dos meus tempos de criança...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Alguns pitacos sobre o quadro eleitoral


Leitores, não esperem um post encadeado, bonitinho, hoje. A idéia é dar alguns pitacos a praticamente um mês das eleições.

Começo por São Paulo. Em fevereiro escrevi aqui post dizendo que achava muito arriscada a aposta de José Serra de se candidatar à Prefeitura, tamanhos eram os problemas. À época fui chamado de louco, mas o que o desenrolar do quadro está mostrando é que a chance de um segundo turno sem o eterno candidato é bastante plausível, diria até bastante provável.

Além dos próprios problemas o candidato tucano enfrenta a rejeição da população paulistana à administração de Gilberto Kassab, por questões que já elenquei aqui em outras oportunidades. Acredito que a intensificação dos suspeitíssimos incêndios (foto) em favelas paulistanas – tema que abordei em janeiro de 2010 – junto com intervenções como a da Cracolândia tenham contribuído para aumentar ainda mais a impopularidade do prefeito.

Também deve se considerar que a ala do PSDB paulistano ligada ao governador Geraldo Alckmin não parece muito entusiasmada com a candidatura serrista. Uma derrota deste permitiria ao governador assumir definitivamente o comando do partido no estado, ainda mais se levando em conta que Kassab parece querer alçar vôo próprio no recém fundado PSD.

Sobram Russomano e Haddad. O primeiro parece capitalizar sua postura de defensor dos direitos do consumidor em seus programas televisivos, assumindo uma postura basicamente personalista: “sua vontade” irá resolver os problemas dos paulistanos. Pesa contra si o apoio da Igreja Universal, que certamente será explorada pela mídia.

Por outro lado Haddad tem a favor a promessa de um bom relacionamento com o Governo Federal e o carisma do ex-presidente Lula, além de explorar os problemas da prefeitura atual. Seu ponto fraco é o histórico conservadorismo da sociedade paulistana, que vem elegendo e reelegendo políticos conservadores há bastante tempo.

Certo é que Haddad tem um eleitorado cativo de cerca de 30% da população, o que deve ser suficiente para levá-lo ao segundo turno. Pessoalmente não descartaria o candidato do PMDB Gabriel Chalita, que conta com apoio discreto de políticos do PSDB ligados ao governador Geraldo Alckmin.

Curiosa será ver a postura da Rede Globo da televisão em um eventual segundo turno entre Russomano e Haddad: afinal de contas, será o candidato da Rede Record contra o PT.

No Rio de Janeiro ao que parece o atual prefeito Eduardo Paes deverá liquidar a fatura em primeiro turno, apesar do crescimento do candidato do PSOL Marcelo Freixo.

Este vem crescendo em cima do eleitorado tipicamente elitista e reacionário de classe média e alta – Zona Sul, Tijuca, Barra da Tijuca e áreas da Ilha do Governador – preenchendo o espaço deixado pelo ex-candidato Fernando Gabeira e que não é ocupado pela candidatura de Rodrigo Maia.

Para isso o PSOL vem adotando um discurso crescentemente reacionário e bastante próximo de teses defendidas por partidos como o PSDB e o DEM, em especial a respeito de um suposto “puritanismo” na prática política. Isso deve significar uma votação acima da obtida nas últimas eleições para o partido, mas à custa do afastamento de uma base de eleitores ideológicos que acompanhavam o PSOL desde o início.

Agora acho que o leitor entende o comentário que fiz em outras ocasiões, de que não votaria no PSOL nestas eleições. A guinada à direita dada pelo partido está me desagradando bastante.

Ainda não tenho intenção de voto consolidada, mas diria que a tendência, hoje, seria “tapar o nariz” e dar um voto de confiança ao atual prefeito. Sei dos vários problemas que este grupo político representa e tem, mas em minha avaliação Paes faz um governo razoável – ainda mais se sabendo que ele herdou o município destruído pelos 16 anos do mandatário anterior – e o alinhamento aos governos do Estado e Federal pesa bastante em minha avaliação.

Quanto à insólita chapa formada por Rodrigo Maia e Clarissa Garotinho, confirma-se o que escrevi em post anterior: o custo de tal aliança é muito maior que os benefícios. São eleitorados distintos e que são mutuamente excludentes.

Aproveito para deixar registrado meu protesto quanto à propaganda eleitoral desta chapa. Rodrigo Maia fala dos problemas da cidade omitindo que seu pai, Cesar Maia, foi o czar da cidade durante longos 16 anos. Alias este último declarou à Justiça Eleitoral não possuir quaisquer bens em seu nome, o que, convenhamos, é um escárnio.

Finalizando o quadro carioca, me espanta a coragem do candidato do PSDB, Otávio Leite, em apresentar Fernando Henrique Cardoso e Marcello Alencar em sua publicidade eleitoral. Dois sujeitos que são odiados pela população local - não sem motivo.

Belo Horizonte registra liderança do atual prefeito, mas não me parece fatura liquidada dado o crescimento de Patrus Ananias. Recife, outra cidade emblemática, viu a virada do candidato apoiado pelo governador Eduardo Campos sobre Humberto Costa, do PT, até de forma rápida.

Mas nesta virada pesa a boa avaliação do governador e a péssima imagem do atual prefeito nas pesquisas qualitativas.

Por falar em pesquisas de opinião, fecho o post com um assunto que me foi alertado por um leitor: no interior de São Paulo há uma máfia de pesquisas que produz resultados prontos de acordo com o gosto do freguês.

Estas empresas cobram cerca de R$ 10 mil a prefeitos da região para não publicar resultados que lhe seriam ruins (manipulados), ou então “fabricando números” para alardear um suposto favoritismo. Caso o prefeito não compre, os adversários políticos se utilizam destes números em suas propagandas – pagando o preço cobrado por estas empresas.

O detalhe é que são pesquisas registradas no TRE, apesar de tudo. A principal empresa deste esquema, sediada em Presidente Prudente, enfrenta uma série de acusações na Justiça, bem como seu sócio majoritário.

Lembro aos leitores que a possibilidade de manipulação de números é muito maior nas cidades menores, que não contam com imprensa influente ou instituições de controle fortes como a das grandes cidades. Na prática, é uma forma sofisticada de coação e desvio de recursos – muitas vezes públicos.

(Foto: Estadão)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Vereadores Cariocas: Dificuldade de Escolha


Normalmente, caro eleitor, sempre chego a 40 dias das eleições com meus votos todos definidos, em especial para os cargos legislativos. Já tive dúvidas quanto a cargos majoritários, mas no Legislativo jamais.

Entretanto, a chapa de candidatos a vereador carioca está absolutamente desanimadora. Está bastante complicado achar um candidato que seja digno do meu voto.

Olhando a propaganda eleitoral na televisão, vemos que são os mesmos políticos de sempre. As “novidades” em sua maioria são filhos ou parentes de próceres cariocas. Outro ponto assustador é perceber que entre os candidatos competitivos existem inúmeros envolvidos em escândalos diversos, milicianos e traficantes, entre outros.

Ainda que a 40 dias aproximadamente do pleito e sabendo-se que o eleitor médio somente define seu voto às vésperas da eleição, pode-se dizer que a Câmara carioca será predominantemente composta por três tipos de políticos: os pastores evangélicos, os picaretas habituais e fichas policiais com crimes mais graves - como tráfico e milícia.

Três partidos, particularmente, possuem chapas completas que poderiam perfeitamente ser indiciadas por formação de quadrilha. É muito picareta junto, a meu ver. Não são ilações: basta levantar a atuação dos sujeitos em suas vidas pregressas e os leitores entenderão o que estão dizendo.

Mesmo a chapa do PT, que é normalmente onde me refugio e escolho meus candidatos, não empolga. Como nestas eleições não votarei no PSOL de forma alguma – por fatores que mais à frente explicarei – fiquei sem opção. A situação está tão complicada que eu, que não misturo política com futebol, somente não votarei no ex-jogador Andrade por ele ser do PSDB – e eu, por princípio, não voto neste partido.

Basta lembrar que provavelmente o vereador mais votado deverá ser o ex-Prefeito Cesar Maia, czar carioca durante 16 anos e que somente este ano recebeu duas condenações por improbidade administrativa, teoricamente estando inelegível. Acredito que ele deverá ser o mais sufragado, mas não acredito que ele tenha os 200 a 300 mil votos que alguns analistas atribuem a ele – pessoalmente, acho que não chegará a 100 mil.

Outro fato curioso é vermos em partidos diferentes o deputado e apresentador de TV Wagner Montes e o filho dele – um está no PSD e o outro no PRB, se não me engano. Outro filho é o do Deputado Jair Bolsonaro, que está fazendo da homofobia a sua plataforma política – lamentável.

Penso que esta falta de renovação na política carioca se deve ao excessivo tempo no qual as principais correntes políticas do estado mantém as mesmas lideranças. Há pelo menos duas décadas que os caciques são os mesmos: Cesar Maia, Garotinho, Benedita da Silva, Jorge Picciani, Marcello Alencar, Sérgio Cabral e representando os evangélicos, Marcello Crivella.

Pergunto ao leitor: quantas novas lideranças surgiram na política carioca nos últimos dez anos? Lindbergh Farias e, com boa vontade, Eduardo Paes – embora este esteja abaixo de outros caciques do PMDB. É muito pouco.

Embora não seja nosso escopo, o próprio quadro de candidatos a prefeito espelha isso: Eduardo Paes é representante da oligarquia peemedebista e tem como vice Adilson Pires, antigo burocrata do PT. Da chapa dos filhos de Garotinho e Cesar Maia não preciso nem dizer nada e Marcelo Freixo é originário de Niterói.

Evidentemente, o longo domínio de correntes de direita levou também a este estrangulamento de novas lideranças: Cesar Maia reinou durante 16 anos e no estado de 1998 para cá só existem Garotinho e Cabral (Picciani). As práticas adesistas da Assembléia Legislativa e da Câmara Municipal do Rio também propiciaram este quadro de poucas lideranças.

Vale lembrar também que, embora tenha claramente refluído nas eleições de 2010, o segmento evangélico tem um peso considerável na formação de bancadas legislativas, embora não pareça ter fôlego para pleitos majoritários. Basta lembrar que Crivella só se reelegeu senador em 2010 devido a uma parcela expressiva de votos úteis ideológicos de esquerda, contra Picciani e Cesar Maia – por mais insólito quanto pareça.

Ainda assim, acredito que cerca de 30% da Câmara a se formar em outubro seja composta de elementos vindos do eleitorado evangélico. Isto significa que deverá continuar havendo dificuldades para a aprovação de leis progressistas, em especial no campo dos costumes.

Outra questão a ser considerada é que cada vez mais deveremos ter uma formação regionalizada da Câmara, ou seja, vereadores com votações concentradas em determinadas regiões. Na prática este componente paroquial não deixa de ser uma espécie de voto distrital, até porque os candidatos representantes do chamado “voto de opinião” praticamente inexistem neste pleito de 2012.

Concluindo, é esta a Câmara que devemos esperar: muitos pastores, muitos detentores de extensas fichas corridas, muitos “paroquiais” e fisiológicos, algumas exceções a este quadro.

Isso leva a nos pensar duas coisas: primeiro o quão interessado em política está o carioca e, segundo, até que ponto esta composição é reflexo direto da maneira de ser e proceder da população. Os políticos não surgem por geração espontânea, ou seja, alguém os coloca lá.

Enquanto faço esta reflexão, continuo buscando um candidato a vereador que mereça o meu voto. Está difícil.

P.S. – Leitores de outras cidades e estados: o quadro é o mesmo? Está ruim de achar um bom candidato a vereador para se votar? Respostas na área de comentários.

terça-feira, 6 de março de 2012

Garotinho e Cesar Maia: Uma Análise de Ganhos e Perdas


O leitor deve se lembrar que semana passada comentei em post aqui a decisão do ex-candidato a presidente José Serra em se candidatar a Prefeito de São Paulo. Hoje quero falar de aliança para lá de insólita que está ocorrendo aqui no Rio de Janeiro, entre o ex-governador Antony Garotinho e o ex-prefeito da cidade do Rio Cesar Maia (na foto). O filho deste último, Rodrigo Maia, será candidato a prefeito, com a filha de Garotinho, Clarissa, na vice.

Além disso, o acordo inclui candidaturas conjuntas nos outros municípios do Estado, sempre que isto for possível e não ferir interesses da dinâmica municipal própria. Claramente é uma tentativa de enfrentar com algum sucesso o grupo dominante atualmente na política carioca.

É o tipo de acordo que não faz o menor sentido para o eleitor, mas perfeitamente explicável pela dinâmica da política em si. O que mostra que na maioria das vezes o jogo político e eleitoral está completamente dissociado do interesse público.

Cesar Maia vem em baixa após mandar por 16 anos na Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1992 e 2008 - e, a meu juízo, praticamente destruí-la. Foi candidato a Senador em 2010 e derrotado inapelavelmente. Sua densidade eleitoral claramente está em queda, tanto que só reelegeu o filho deputado federal graças a uma manobra que fez Índio da Costa vice na chapa presidencial de José Serra. Nas próximas eleições deverá ser candidato a vereador, o que mostra bem como diminuiu seu cacife. Ainda enfrenta desconfianças de probidade dado o episódio da Cidade da Música - que contei em post no ano de 2010 - obra até hoje não concluída.

Garotinho foi governador entre 1998 e 2006 - neste segundo mandato através da esposa Rosinha - mas está em baixa devido a acusações de corrupção. Foi o deputado federal mais votado em 2010 - com 700 mil votos, mas quase não assumiu o cargo devido à Lei da Ficha Limpa. Sua esposa é atual Prefeita de Campos, mas teve de enfrentar uma batalha judicial para ser investida no cargo pelo mesmo motivo. Aliás, a Prefeitura de Campos é a única ocupada pela aliança PR/DEM no estado do Rio de Janeiro.

Para os eleitores, a aliança não faz o menor sentido. Os dois políticos sempre foram adversários políticos, sempre empreenderam políticas de governo antagônicas e sempre trocavam acusações mútuas. Chega a ser engraçado ver a deputada Clarissa Garotinho afirmar, conforme matéria do portal Terra, que "existem semelhanças do ponto de vista administrativo (entre Cesar e Garotinho). Quando brigavam, todos reclamavam. Agora, temos que ficar felizes pela aliança do prefeito que mais fez pelo Rio, e do governador que mais fez pelo Estado".

Como diria aquela canção antiga, o eleitor não está interessado em "mentiras sinceras". Cesar Maia é típico representante das classes mais altas e abastadas, resvalando, quase, na "demofobia". Garotinho é o típico populista de almanaque, com políticas conjunturais mas que não resolviam efetivamente os problemas.

Politicamente, contudo, este acordo entre o PR de Garotinho e o DEM de Cesar Maia faz sentido. A política carioca vem sendo dominada pelo grupo do ex-candidato a senador Jorge Picciani, cuja face pública é o Governador Sergio Cabral. Além disso, o PT carioca também faz parte do arco de alianças do Governador, de forma que a hegemonia política representada por este grupo, hoje, é inquestionável. Além de deter o Governo do Estado e a maioria esmagadora das prefeituras Cabral e seu grupo político ainda contam com o apoio do Governo Federal, o que vem se materializando em investimentos bastante expressivos tanto na cidade como no Estado.

Isoladamente, tanto Garotinho quanto Maia tem poucas chances de empreender oposição consistente ao grupo político dominante. Então, o cálculo, embora pareça estranho ao eleitor, é perfeitamente coerente: aliar-se a fim de enfrentarem juntos o mesmo adversário. Algo na linha do "inimigo do meu inimigo é meu amigo".

Teoricamente os dois grupos possuiriam eleitorados complementares, com Garotinho nas camadas mais populares e Cesar Maia nas classes média e alta. Entretanto, algo a ser visto é se a aversão dos respectivos grupos ao "neo aliado" não impactará diretamente as chances de sucesso de tal empreitada. Além disso, o grupo político de Cabral avançou bastante nos dois eleitorados, até porque o prefeito do Rio Eduardo Paes e o senador eleito Lindibergh Farias (possível candidato a governador em 2014 com o apoio de Cabral) possuem perfis que transitam bem nos dois grandes grupos do eleitorado.

Vale lembrar que, como dito acima, os dois políticos tem a imagem arranhada por denúncias de corrupção e por governos que se encerraram bastante impopulares, tanto no município como no Estado. Além disso, no imaginário da população representam o "velho", enquanto que Paes, Cabral e aliados representariam o "novo" - apoiados por um marketing bastante eficiente, diga-se de passagem. Outro ponto que ameaça o sucesso desta parceria é a recente tendência do eleitorado de retornar a uma posição política de centro, após uma guinada à direita nos últimos anos.

Também há que se notar que Garotinho sempre teve a imagem associada a um eleitorado majoritariamente evangélico, que é rejeitado pelo eleitor médio de Cesar Maia. O grupo político do Senador e hoje Ministro da Pesca Marcello Crivella ocupou vastos espaços nesta parcela do eleitorado, mas o feudo de Garotinho ainda é expressivo.

Pelas palavras da deputada Clarissa Garotinho na mesma matéria há a intenção de se apropriar de parte do discurso de Cabral: "ninguém fica 16 anos no poder, na mesma cidade, se não for aprovado pela população. Assim como Garotinho, que saiu com 80% de aprovação popular. Nosso projeto, inclusive, ajudou a eleger o governador Cabral". Entretanto, uma vez mais acho que as chances de sucesso desta estratégia são, para se dizer o menos, duvidosas.

O leitor mais antigo deste espaço sabe que não sou um entusiasta do projeto político do Governador Cabral e de seu grupo, em especial por estar preocupado demais com a imagem e recorrentes e mal explicadas denúncias de corrupção e de vantagens pessoais - um bom exemplo são as relações com a Construtora Delta, hoje quase onipresente nas obras públicas. Entretanto, não acredito que a aliança anunciada entre Garotinho e Cesar Maia vá ter um sucesso considerável, pois, como vemos, os problemas me parecem maiores que as vantagens pelo ponto de vista do eleitorado.

Finalizando, a mudança de postura do PSOL - que caminha para a radicalização por um lado e por outro com alguns posicionamentos no mínimo inusitados nos últimos meses - e o fato do PT estar coligado ao grupo dominante deixam o eleitor de centro esquerda como eu meio sem opção para sufragar seu voto, pelo menos aqui na capital do Estado. Acredito que muitos acabem "tapando o nariz" e votando em Eduardo Paes por considerá-lo uma opção "menos pior" que esta chapa "Rodrigo Maia e Clarissa Garotinho", que de nova só tem a idade.

Por isso mesmo considero que a aliança entre Garotinho e Cesar Maia possui escassas chances de sucesso que não sejam em municípios pontuais, bem como acredito que no município do Rio Eduardo Paes deverá ter uma tranquila reeleição, ainda mais se tiver um vice petista como se especula.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

História & Outros Assuntos: "O Pedigree boêmio e sua (re)valorização: o moderno versus o tradicional nas mesas dos bares do Rio"


Nesta quarta pós carnaval, a coluna "História & Outros Assuntos", do Mestre em História Fabrício Gomes, faz algumas digressões sobre a progressiva transformação dos botequins cariocas, em especial no eixo Centro-Zona Sul. Algo para se pensar.

O Pedigree boêmio e sua (re)valorização: o moderno versus o tradicional nas mesas dos bares do Rio

Houve um tempo em que existiam cafés, botequins e leiterias no Rio de Janeiro.

Lugares onde jazia um verdadeiro inventário de receitas gastronômicas, hábitos e costumes de convivência, quando ir a um bar não correspondia a ser um programa e sim um ponto de encontro, em que se ia de bermuda e chinelo. As profundas transformações ocorridas no Rio – e não somente aqui, mas também no que tange ao habitus urbano e social, traduzem também as mudanças nesses lugares e não somente ao meio físico, mas também aos seus funcionários – garçons, cozinheiros, entre outros.

Antes, um chopp cremoso e tirado na medida podia ser marca registrada de um estabelecimento; hoje, com a pasteurização dos serviços – e a pressa do mundo contemporâneo, um cliente é apenas mais um no meio da multidão de frequentadores dos bares - muitos que vão apenas para assistir jogos em pay-per-view.

Até o final da década de 1990, a palavra botequim era cercada de negatividade e preconceito. Os próprios donos dos estabelecimentos tinham essa visão, que refletia, no fundo, o que a sociedade pensava: lugares de ócio, alcoolismo, desvio social, malandragem… vagabundagem. Estado e Igreja condenavam os “botecos” que eram exaltados nas canções de Noel Rosa (em “Conversa de Botequim” – veja video no final desse texto), por exemplo.

Patrimônio que era obliterado pelo preconceito, o botequim era, na verdade, local de sociabilidades e legítimo representante de nossa riqueza cultural, conforme aponta o jornalista e antropólogo Paulo Thiago de Mello, autor das primeiras edições do Guia Rio Botequim. Afinal, se Madri possui as bodegas, se Londres tem os pubs, se Munique tem as suas famosas choperias e se Paris possui os bistrôs, o botequim carioca era a marca registrada de nossa cultura etílico-alimentar.


O tempo passou e a situação se inverteu – pelo menos na aceitação da palavra e denominação “botequim”.

A grife ganhou  legitimidade e até quem não é bar ou botequim, se autodenomina. Entretanto, essa aceitação veio acompanhada das tais transformações: o antes botequim familiar, pertencente a um modelo de comércio hoje inexistente – os clãs familiares, foi vendido para empreendedores e empresários dispostos a atuar nesse ramo. E vieram as reformas, as transformações, as descaracterizações. O serviço é moderno e impecável, a gosto do freguês.

E o profissionalismo transformou o botequim em programa, que consta no Rioshow e em Guias Gastronômicos, com a valorização do pedigree boêmio feita de outra maneira. Por outro lado, nos tornamos experts em técnicas cervejeiras, em marcas de cervejas feitas em longínquos monastérios dos tempos feudais na Europa, a ponto de sabermos a exata medida que um colarinho deve ter. Porque recorremos aos bares do centro do Rio Antigo (Rua do Ouvidor, Rua do Rosário), às brasseries, às leiterias (boticas diurnas, onde eram servidos mingaus, coalhada, manteigas e cafés, acompanhados com torradas Petrópolis) estas cada vez mais raras?

Até que ponto então a descaracterização de um local histórico, ponto de encontro e de convivência dos cariocas, pode afetar a sua verdadeira essência?


domingo, 22 de janeiro de 2012

Orun Ayé - "Rio, São Paulo e Eu"


Mais um domingo, e mais uma coluna "Orun Ayé", do compositor Aloisio Villar. O tema hoje são as duas maiores metrópoles brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo (foto)

Rio, São Paulo e Eu

Essa semana um dos amores de minha vida fez aniversário, então resolvi fazer uma coluna em sua homenagem. 

Na verdade o aniversário é de seu padroeiro, São Sebastião, mas o carioca já incorporou como sua data. Sim, estou falando do Rio de Janeiro. 

Sou o que podemos dizer 'carioca da gema'. Nasci em um hospital da Tijuca no dia 9 de agosto de 1976 e como todo bom carioca que ama a noite e a boemia nasci faltando dez minutos pra meia noite. Se existe uma coisa que sempre amei nessa cidade foi sua noite. 

Só nasci na Tijuca, logo fui levado pra minha casa na Ilha do Governador, casa que tirando os anos de 1992 e 1994 sempre morei. Sou carioca, bairrista convicto, apaixonado por minha cidade e moro naquele que eu penso como bairro perfeito pra mim. Assim como eu amo o Rio de Janeiro, amo a Ilha do Governador [N.do.E.: eu moro na Ilha. Se ele tivesse de estar às nove no Centro não sei se amaria tanto assim...]. 

A Ilha do Governador com todos os seus problemas, que não são poucos, é um bairro que me agrada muito porque faz parte de uma grande metrópole e mesmo assim conserva jeito de cidade do interior. Nada dá mais alívio a quem mora aqui que chegar à ponte do Galeão e ter a sensação que chegou em casa. 

Mas pretendo falar da Ilha em outra ocasião. 

Dificil falar no que mais gosto no Rio de Janeiro, não é a toa que ela tem o nome de “Cidade Maravilhosa”. 

Apesar de não gostar muito de Sol (é, sou diferente dos cariocas normais nesse sentido) eu sou apaixonado pelas praias de Copacabana e Ipanema. Sempre que recebo visita de outros estados em casa faço questão de levar pra conhecer. E todos saem maravilhados. 

Copacabana e Ipanema devem ter as praias mais famosas do mundo, as mais cantadas e seus calçadões exalam arte, magia. 

A sensação que eu tenho quando caminho por aqueles calçadões é que caminho pela história, pela beleza. Amo ver as pessoas felizes bebendo nos quiosques, na praia se bronzeando ou praticando esportes. 

As garotas de Ipanema com seus biquinis deixando ver toda a maravilha que nos enfeitiçam no doce balanço a caminho do mar ou em Copacabana a princesinha do mar, a nossa torre de Babel que junta várias tribos, pessoas completamente diferentes em suas belezas e perigos. Porque as belezas de seus dias se tornam um perigo excitante de noite. 

Copacabana me fascina desde criança. Aquele calçadão, aquelas luzes de noite, o seu reveillón.. 

Conheci o reveillón de Copacabana em 1997. Nunca tive vontade de ir, mas fui convencido por minha mãe e minha avó. Acabei me apaixonando de cara. 

É dificil descrever a energia que passa em uma virada de ano em Copacabana. Eu não tenho vontade nenhuma de passar em Nova York, Paris, Tóquio... Copacabana tem tudo que eu quero e preciso, pessoas felizes, música, estouro de champanhe, emoção e os fogos...

Falar o que dos fogos? Passei doze reveillóns em Copacabana e nos doze me emocionei e senti orgulho da cidade que nasci. Não dá pra passar em palavras o que são aqueles fogos, mas dá para sentir a certeza que um ano que começa daquela forma não pode ser ruim. 

O Rio de Janeiro é bem mais que Copacabana e Ipanema. Um dos meus cantos preferidos na cidade é o Arpoador. E de lá vejo toda a orla e sinto uma sensação gostosa de liberdade. O Arpoador é um lugar famoso, já cantado por Skank, Cazuza e que conheci recentemente ao pedir uma pessoa em namoro. 

Voltei algumas vezes lá depois com essa recordação para sempre na minha mente. 

Uma vista bonita e se emocionar? O Cristo Redentor taí pra isso. O nosso símbolo. Para ser um turista completo pode passar no Pão de Açúcar também. 

Mas o Rio tem outros lugares para você se divertir. Uma sexta na Lapa onde você encontra pessoas de todos os tipos e amanhecer jogando sinuca em um boteco. Um sábado na feira de São Cristóvão para comer um baião de dois e se divertir com os amigos. 

O Rio de Janeiro é uma das cidades do mundo que melhor recebe os imigrantes. As provas são a feira de São Cristóvão e o SAARA. O SAARA é um conjunto de ruas no centro da cidade que contém lojas populares. 

Tem a Barra da Tijuca e seu jeito de “novo rico”, lugar de megas shoppings e megas condomínios. Santa Teresa e seu bondinho, Leblon e seu cenário de novela, Vila Isabel e Madureira terras que fornecem samba de qualidade. 

As favelas e seus medos, mas também terra de gente guerreira e que luta por um futuro. Gente talentosa que sonha com um amanhã melhor vindo atrás das UPPs. 

O Rio de Janeiro é isso. Terra do futebol e do carnaval. Única cidade do mundo a ter quatro grandes clubes de futebol. Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo fizeram o Maracanã de grande companheiro e cúmplice de alguns dos momentos mais importantes da história do futebol - e em alguns deles eu estava lá. 

Assim como Bangu, América e outros clubes que fizeram a história futebolística de nossa cidade. 

Como Portela, Mangueira, Império Serrano, Salgueiro, Imperariz Leopoldinense, Mocidade Independente, Vila Isabel, Unidos da Tijuca, União da Ilha e outras escolas de samba fizeram na Praça Onze, Presidente Vargas, Avenida Antônio Carlos e rua Marquês de Sapucaí a história do nosso carnaval. 

Desfiles de escolas de samba que começaram como coadjuvantes dos desfiles das grandes sociedades e foram crescendo ao longo dos anos, passando das arquibancadas de madeira e tapumes até o mega evento que é hoje televisionado pra dezenas de países. 

Mas o carnaval do Rio não são somente as escolas de samba. Têm os bailes populares dos bairros, concursos de fantasias, bailes de salão, blocos com milhões de seguidores. 

O Rio de Janeiro é do Cacique de Ramos, Bafo da Onça, Cordão da Bola Preta, Monobloco, Banda de Ipanema, Suvaco de Cristo e de muitos outros blocos grandes e pequenos que fazem a alegria dos foliões cariocas e dos turistas. 

Rio de Janeiro de Noel Rosa, Tom Jobim, Chico Buaque de Holanda. Rio musical, da rádio Nacional, bossa nova, do samba, tão cantado e exaltado por milhares de artistas sendo cariocas ou não. 

Rio de Janeiro do baiano Gilberto Gil que entre a prisão e o exílio fez a música “Aquele Abraço” se despedindo da cidade e mostrando aos amigos que estava vivo. Cenário de filmes, livros, peças de teatro, novelas. Cenário de amor. 

Difícil falar o que mais gosto do Rio de Janeiro. Mas acho que o que mais gosto é do carioca. 

Pode não parecer, mas o carioca é um povo sofrido. É a violência, a desigualdade social, dengue, enchentes, falta de hospitais, cidade que não se acostumou ainda de ter visto tomada de si o título de capital federal, muitas vezes falta de amor de seu governante consigo... 

... mas nunca falta de amor do povo com a cidade. 

Nunca faltam amor e humor. O carioca encara tudo com ótimo humor, com sorriso muitas vezes desdentado nos lábios. Carioca enxuga o suor e vai a luta. Em tudo tem uma piada, tudo transforma em samba. Assim como o sertanejo, carioca antes de tudo é um forte. 

Ou como preferimos dizer aqui: carioca é maneiro. 

Falei bastante de minha cidade. Agora quero falar de outra, que faz aniversário nessa semana, dia 25. 

Assim como todo carioca sempre tive pé atrás com São Paulo. Via São Paulo como o “diferente”, tudo aquilo que o Rio não é. 

Achava São Paulo cosmopolita demais, aqueles prédios todos, o cinza no céu. São Paulo e Rio de Janeiro sempre foram o contraste. O Sol e a chuva, o Yn e o Yang, água e óleo, o Rubens Barrichello e um carro de Fórmula 1. O nada a ver. 

Até meus 31 anos tinha ido a São Paulo duas vezes na vida em excursões com familiares. Mas quis o destino que a partir de 2007 começasse a me apaixonar por suas nativas. E elas por mim. 

Entre 2007 e 2008 fui cinco vezes a Bauru, interior do estado de São Paulo, terra do melhor churros do mundo. Mas minha relação com a capital mesmo se iniciou em 2009. 

Em 2009 me apaixonei por uma paulistana e com a cara e a coragem fui até a cidade conhecê-la. Fiquei cerca de doze horas apenas na cidade e nessa viagem só conheci a rodoviária e a Avenida Paulista. 

Mas ali foi só o começo. 

Voltei mais doze vezes a São Paulo e acreditem cariocas: São Paulo não é tão estranha quanto parece. 

Eles colocam purê no cachorro quente e não botam queijo nas pizzas, mas são um povo agradável e cortês além de abrigarem lugares lindos como o Museu da Língua Portuguesa, a estação da Luz e seu concreto que assim como nossas praias e calçadões deu poesia. 

Suas meninas não têm a pele bronzeada como as nossas, mas exalam charme e simpatia. Vestem-se bem e tem um sotaque insinuante. O Mercado Municipal tem um sanduíche de mortadela delicioso e a rua Augusta assim como Copacabana a noite esconde prazeres proibidos e excitantes. 

São Paulo de Adoniran Barbosa e seu trem das onze, de Paulo Vanzolini e sua ronda que para na avenida São João, dos novos baianos que sentiram alguma coisa acontecer em seus corações. 

São Paulo de Corinthians, Palmeiras, São Paulo e também de Vai Vai, Rosas de Ouro, Nenê da Vila Matilde, Vila Maria, Peruche, Gaviões da Fiel, Mancha Verde, Império da Casa Verde, Mocidade Alegre, Leandro de Itaquera e outras escolas e sambistas que mostram que a cidade não é o túmulo do samba. 

A maior cidade do país, a mais “internacional” por receber gente do mundo inteiro pra realizar negócios e a mais “nacional” por receber em sua rodoviária no Tietê uma quantidade enorme de imigrantes de todo país que enxergam na cidade a chance de ter uma vida melhor. 

São Paulo do parque do Ibirapuera, do Zôo com Simba Safari, da Praça da Sé, do Pacaembu, do Anhembi, da Avenida Paulista e de todos os brasileiros, da lanchonete do estadão que não fecha e serve feijoada até de madrugada, do mercado da 25 de março, São Paulo terra da Garoa e dos Demônios da Garoa, do Brás e do parque Dom Pedro que me fizeram tão bem. 

Do Capão Redondo e do Morumbi, do rap da periferia à rua OscarFreire. Cidade heterogênea, cidade de todos. 

Cidade que me fez muito feliz. 

Não fui tão feliz na minha última viagem a São Paulo. Sonhos acabaram despedaçados numa melancólica madrugada na rodoviária, mas o que guardo da cidade é muito mais positivo que negativo. Fiz amigos eternos em São Paulo, fiz amores eternos em São Paulo. Sempre muito bem recebido. 

E com o tempo percebi que Rio de Janeiro e São Paulo não são assim tão diferentes. Uma completa a outra e juntas fazem muito da força de nosso país. 

Sou carioca, amo minha cidade, mas tenho carinho por São Paulo e até acredito em alguns momentos que tenho a alma paulistana. 

Duas cidades tão diferentes e próximas que até festas fazem com diferença de apenas cinco dias. 

E só me resta parabenizar e agradecer duas por tudo. Com a certeza que esse nosso triângulo amoroso ainda renderá muitos frutos.

Orun Ayé!

sábado, 12 de novembro de 2011

Cinecasulofilia - "Rio"

Após um intervalo, a coluna "Cinecasulofilia", do cineasta, crítico e professor de cinema Marcelo Ikeda, retorna com alguns breves comentários sobre o filme "Rio". Como sempre, coluna publicada em conjunto com o blog de mesmo nome.

Rio

Nada me atraiu o interesse em Rio, de Carlos Saldanha, um pára-institucional da cidade do Rio de Janeiro, na trajetória de realização de eventos de grande porte, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Em termos narrativos, o filme me pareceu uma mistura diluída das estratégias de 'Procurando Nemo' e 'Toy Story'. Mas, voltando um pouco atrás, existiu uma, uma única cena, em que o filme me cativou. É quando a mulher estrangeira, dona do pássaro, está no alto do carro alegórico de uma escola de samba em plena Sapucaí, e um diretor de harmonia brasileiro pede para ela sambar.

Ela naturalmente não consegue requebrar. Então ela percebe que seu amado pássaro está lá embaixo na pista e tenta descer pelo carro alegórico. Para descer pelo carro, ela precisa enfrentar a topografia irregular da superfície do carro, cheia de altos e baixos. Enquanto desce, ela acaba requebrando de uma forma possível. Ou seja, ela tem uma aula prática do que é o samba.

Monarco dizia que as passistas da Mangueira sambam de uma forma diferente das do Borel, porque a geografia dos dois morros é diferente. No dia-a-dia, enquanto elas descem ou sobem o morro, equilibrando-se de pedra em pedra, elas estão inventando uma forma de sambar. A beleza da assimetria do samba é a mesma dessa realidade desigual: é o balanço do dia-a-dia e da topografia do morro.

Quando a gringa do filme Rio desce o carro alegórico, ela procura seu amor: ela inventa uma forma de sambar. Ali, Carlos Saldanha (ou seus roteiristas) conseguem traduzir em termos visuais e narrativos uma experiência íntima do que é o Carnaval e o Rio de Janeiro, para além das representações estereotipadas da cidade-evento em busca de patrocínio$$$ e turista$$$.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Finalmente, o Delirium Café


O leitor mais atento deste Ouro de Tolo sabe que já escrevi posts sobre o Bar Brejas e, na semana passada, do Clube do Malte e do Taco del Pancho. O primeiro em Campinas, os outros dois em Curitiba. Sabe também que estou prometendo uma visita ao Delirium Café, primeira franquia nas Américas do famoso bar belga.

Pois finalmente consegui fazer a tão prometida visita ao bar, que fica no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro. Aqui é um pouco mais complicado por vários motivos: primeiro porque fica do outro lado da cidade, segundo porque a logística envolvida é um pouco complicada e terceiro porque com esta história de "Lei Seca" acabava comprando para beber em casa.

Mas no último sábado estive na casa com a família, não sem antes ir a uma peça infantil. Detalhe: a tal tinha ingressos de inteira a R$ 60 para um espetáculo de exatos 45 minutos. Coloque aí dois adultos e duas crianças e o leitor tem idéia de como esta brincadeira saiu cara.

Fiz a reserva no dia anterior, mas no horário em que cheguei, um pouco depois das 18 horas, ainda haviam mesas disponíveis. A casa tem cerca de 60 lugares e sua decoração remete à cerveja Delirium Tremens, que é do mesmo grupo do bar original. São cerca de 300 rótulos e tal e qual o Clube do Malte há cervejas para se levar à residência com um custo 20% menor que se consumidas geladas no bar. Abaixo o leitor pode ter uma idéia geral da casa e observar a "parede" de rótulos à direita.


Infelizmente, o chope Delirium não estava disponível. São cerca de dez opções de chope além dos rótulos em garrafa. O Delirium Café tem também opções de petiscos, alguns belgas (que acabei não experimentando) e coisas bastante interessantes como os pastéis de gorgonzola e o delicioso bolinho de aipim com camarão.

Dito isso, vamos aos rótulos experimentados. 


1 - Chope Old Speckled Hen: uma legítima bitter ale inglesa, amarga mas com boa "drinkability". O curioso é que na forma em que foi servida o copo forma um grande creme, que vai diminuindo aos poucos. Bastante interessante.


2 - Anderson Valley Pale Ale - americana, cerveja bem difícil de ser encontrada aqui no Rio. Havia bebido dela em Campinas e não tive dúvidas em escolhê-la ao encontrá-la. Interpretação americana do estilo inglês, é mais lupulada e deliciosa.


3 - Lúcifer - a cerveja belga, do estilo "Belgian Strong Golden Ale", rendeu algumas brincadeiras no Twitter quando postei a foto, por causa de seu nome. Apesar de um pouco menos gelada que o ideal - a foto deixa isso claro - é sem dúvida alguma uma "cerveja do capeta": o alto teor de álcool se esconde sorrateiro por trás de suas muitas qualidades.


4 - Hoegaarden Grand Cru - para quem só conhecia a "witbier" da marca belga, esta aqui (que, confesso, também não sabia de sua existência) foi uma excelente surpresa. Seu estilo é meio difícil de se definir, por ser alcóolica e encorpada demais para uma witbier e ao memso tempo estar um pouco fora de outros estilos. Por aproximação pode-se dizer que também é uma Golden Strong Ale. 

A cerveja é meio "seca" em seu paladar, mas é deliciosa. É outra que pretendo degustar com mais calma em outra oportunidade.


5 - Anderson Valley Boont Amber Ale - outra cerveja da marca californiana, esta no estilo amber ale. Bastante lupulada, traz todos os toques florais típicos desta forte presença de lúpulo.


6 - St. Feuillien Trippel - cerveja tripel, aos moldes de várias trapistas famosas - embora não o seja - foi uma saideira digna do nome. Encorpada e com alto teor de álcool, é uma cerveja bastante equilibrada. Um clássico.

Note o leitor que não bebi nenhuma cerveja lager, a mais consumida aqui no Brasil. Isto é uma mostra do quão diverso pode ser o mundo e a diversidade da cerveja. Também foi bastante interessante conversar um pouco sobre a cultura cervejeira com os integrantes da mesa ao lado, trocando impressões e classificações. Curioso é que um dos integrantes trabalha apenas um andar acima do meu - mundo pequeno esse. Com certeza, novas amizades proporcionadas pelas trapistas e ales.

Ainda levei algumas cervas para casa, logicamente um exemplar da Delirium Tremens entre elas. Foi uma noite bastante interessante e pretendo voltar ao bar com mais calma para explorar menlhor as marcas da casa. Agradeço ainda ao Tom - na foto comigo abaixo - gerente da casa, que providenciou a minha reserva e que se esforçou para que minha visita e da minha família fosse a mais agradável possível.


O Delirium Café carioca fica na Rua Barão da Torre 183, Ipanema. O telefone para reservas é o 2502-0029 e o bar funciona todos os dias da semana. O site pode ser visto aqui.

Sem dúvida alguma, é altamente recomendável. Legítimo representante do fantástico mundo da cerveja.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Aspirinas Teatrais - "Duas Breves Dicas"


Buscando sempre trazer o melhor para o leitor, nosso Ouro de Tolo tem a partir de hoje uma nova coluna. É a "Aspirinas Teatrais", assinada pela atriz e professora de educação física - além de "tabladiana" e rubro-negra, claro - Nívea Richa. A nova colunista mantém um excelente blog sobre o "Mais Querido", cujo link está na lista de blogs deste Ouro de Tolo.

A coluna terá dicas de teatro, televisão e outros assuntos relevantes, além de trazer aqui e ali pequenos perfis de peças, autores e atores teatrais. Terá periodicidade quinzenal e sempre estará publicada às sextas feiras.

Excepcionalmente a coluna de estréia estará nesta quarta, tendo em vista as dicas do texto serem para peças que ocorrem hoje e amanhã.

A coluna de estréia da série sobre as cidades da Copa de 2014 sobe ainda hoje, mas mais tarde. 

Seja bem vinda !


"Duas Breves Dicas

Leitora assídua do Ouro de Tolo, fui convidada pelo querido Pedro Migão para falar um pouco de teatro - e outros assuntos - aqui. Me esforçarei para estar a altura do blog, mas de vez em quando vocês me encontrarão neste espaço às sextas feiras. 

Essa semana tenho duas dicas para vocês. Vamos lá! 

A primeira dica é a peça “O Gato Branco” (acima), um suspense de Jô Bilac, com direção de João Fonseca. 

Na trama, 7 pessoas (Michel – Bruno Ferrari, Arthur – Camilo Bevilacqua, Letícia – Fernanda Nobre, Tadeu – Leandro Almeida, Ana Paula – Luciana Magalhães, Erik – Pablo Falcão e Vic – Paloma Duarte) são convidados para um jantar em uma embarcação, mas não sabem o motivo do convite e nem ainda quem convidou. Mesmo assim comparecem e o suspense começa. 

Como o próprio Jô Bilac disse: “No gato branco existe uma discussão sobre ética e princípios, num jogo de detetive às avessas, onde o objetivo é descobrir quem é o inocente.” 

Destaque para as atuações de Paloma Duarte e Pablo Falcão. 

“O Gato Branco” está em cartaz toda quarta e quinta, até 25 de agosto, no Teatro das Artes, às 21 horas. O teatro fica no Shopping da Gávea, na Rua Marquês de São Vicente, 52. Ingressos a R$ 50.


A segunda dica é a peça “Eu e os meninos” (foto). Escrita por André Pellegrino, João Sant’Anna e Daniel Zubrinsky, com direção de Bernardo Jablonski e Cico Caseira, a peça é uma paródia da vida de Jesus desde a sua infância até a última ceia. 

Bem leve e engraçada. Todos os envolvidos são ou foram alunos do teatro O Tablado. É difícil destacar uma atuação somente, mas o João Sant’Anna como Judas é hilário. Vale a pena.

A peça terá uma única apresentação, nesta quinta, dia 21 de julho, às 19 horas, no Teatro do SESI. E ótima notícia: de graça! O Teatro do SESI fica na Rua Graça Aranha, 1 – Centro – RJ. As senhas devem ser retiradas uma hora antes do início do espetáculo

Espero que gostem das dicas! Até nossa próxima coluna, dia cinco de agosto! 

Merda!"

[N.doE.: "Merda" é uma gíria do mundo teatral que significa simplesmente "sorte"]

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Polícia para quem precisa de Polícia


Sem dúvida alguma, o assunto palpitante da última semana foi a crise na Polícia Civil carioca, com a prisão de delegados da cúpula da instituição e depois a queda de toda esta na chamada "Operação Guilhotina", da Polícia Federal.

Os mandados de prisão visavam prender policiais envolvidos em crimes como roubo, corrupção e em proteção a traficantes - dos quais Nem, o chefe do tráfico na favela da Rocinha e considerado o principal "dono de morro" em liberdade hoje.

Posteriormente, o ex-chefe de Polícia Civil Alan Turnowski foi exonerado e indiciado por estar envolvido no repasse e vazamento de informações sobre a operação. Seu braço direito, o sub chefe operacional Carlos Oliveira, foi preso acusado de fazer parte de uma quadrilha que desviava armas apreendidas em operações para traficantes e milicianos.

Como consequência desta operação da Polícia Federal, toda a cúpula da Polícia Civil do Rio de Janeiro foi afastada e iniciou-se não somente uma sangrenta luta pelo poder quanto uma série de "denúncias em cascata", envolvendo a corporação em um mar de lama.

A primeira vítima foi o delegado titular da Draco - Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas - Cláudio Ferraz, que é acusado de ter sido o delator dos colegas à Polícia Federal e que teve a delegacia lacrada por ordem do ex-Chefe.

Se o leitor não está ligando o nome à pessoa, Ferraz é um dos autores de "Elite da Tropa 2", livro sobre as milícias - e as polícias - e que resenhei aqui. O livro também deu origem ao sucesso "Tropa de Elite 2", arrasa  quarteirão dos cinemas brasileiros.

Policiais militares que sigo no Twitter afirmaram, de forma pública, que algumas das histórias do livro faziam parte da "Operação Guilhotina" e foram vazadas pelo delegado no livro. Realmente, como comentei na resenha, algumas histórias relatadas são muito próximas de casos famosos - o que leva a crer que foram colocadas ali de propósito.


Um ponto que a operação e seus corolários deixam claro é como o crime está entranhado nos órgãos que deveriam combatê-lo. Nos dias seguintes, diversas denúncias de corrupção e de crimes atribuídos a policiais surgiram na imprensa, entre elas: propina de R$ 100 mil mensais para manter aberto o "Camelódromo" da Rua Uruguaiana, no Centro do Rio, a tentativa de assassinato do contraventor Rogério Andrade (patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel), crimes diversos e a atuação de milícias.

Por outro lado, surgiram diversas denúncias referentes à recente ocupação do Complexo do Alemão, não somente do "butim" encontrado - o local foi apelidado sugestivamente de "Serra Pelada", em referência ao garimpo - como de ocorrências referente à facilitação da fuga dos principais traficantes do complexo de favelas.

Outra situação preocupante foi a afirmação do delegado Ferraz de que os dados do "Disque Denúncia" não somente não são sigilosos como maus policiais em acesso aos dados dos denunciantes - utilizando-os para intimidar os mesmos.

O Disque Denúncia é um serviço de auxílio às polícias, mantido pela iniciativa privada, que tem como objetivo coletar dados sobre crimes. O sigilo é garantido teoricamente, mas pelo visto é apenas teórico. PMs no twitter afirmaram a mesma coisa, que o sigilo é uma peça de ficção. E isto é altamente problemático.

Parece claro, também, que brevemente haverá operação semelhante na Polícia Militar, que tem muitos de seus membros envolvidos notoriamente em práticas criminosas. Isso era comentado de forma aberta por integrantes da corporação, inclusive com referências jocosas ao número de presos - do tipo "vai precisar da Praça da Apoteose para servir de cadeia" e coisas do tipo.

Também deve-se estranhar a conduta do Secretário de Segurança José Mariano Beltrame, que alegou que não tinha conhecimento de nada mesmo com auxiliares diretos e de confiança envolvidos em crimes. Caso curioso de miopia... 

Um pouco complicada de comprar esta versão, a meu ver. Mas...

Sem dúvida alguma, minha expectativa é de que esta iniciativa da Polícia Federal, além de explicitar a briga pelo poder no comando da Segurança Pública carioca, possa empreender um debate sobre como diminuir a incidência e o envolvimento das forças de segurança com o crime. Também deve-se notar o envolvimento de esferas mais influentes de poder com atividades ilícitas e buscar uma forma de prevenir este fenômeno.

Será o tema de um próximo post.

(Fotos: O Globo)


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A Hipocrisia da Sociedade e o Estado de Direito


Não irei comentar os acontecimentos desta "Quinta Feira Negra" aqui no Rio de Janeiro, porque muito já foi dito e especialmente mostrado.

Mas quero escrever sobre algo que me incomodou muito durante o dia de hoje: o clima de "mata e esfola" que se instalou em boa parte da dita "sociedade esclarecida". Eu passei boa parte do meu tempo livre nesta quinta pendurado no Twitter defendendo que a lei deveria ser respeitada e que matar indiscriminadamente não é melhor solução.

Veja a imagem acima, caro leitor - do jornal O Dia. De acordo com o que li de muitas pessoas, os ocupantes do carro deveriam ter sido sumariamente executados pelos policiais. Se estão em estrada de chão moram em favelas, e se moram em favelas, devem ser exterminados - pois são, necessariamente, bandidos.

Também debati o dia inteiro com pessoas que diziam que "bandido não deve ser preso, e sim assassinado na hora"; "bandido bom é bandido morto", e coisas correlatas. Além de ver a defesa incontinenti da pena de morte, se possível após julgamento sumário.

Como já escrevi em outra ocasião e conforme já explanado brilhantemenete pelo advogado Walter Monteiro em uma das edições da coluna "Bissexta", a pena de morte no Brasil além de ser mais cara convive com uma série de problemas legais e éticos. Além disso, com o Poder Judiciário injusto e elitista que temos, muito provavelmente além de inocentes a pena de morte institucional somente atingiria pobres, pretos e putas...

Entretanto, quero chamar a atenção àqueles que defendem execuções sumárias. Lembro aos leitores que o Brasil é um estado de direito, regido por leis e que garante àqueles acusados de algum crime ampla defesa. As penas previstas nos Códigos se constituem na punição indicada para cada caso.

Se as penas de prisão ou alternativas são adequadas ou não, é outra história. Particularmente penso que algum tipo de rigidez poderia ser introduzido em nosso Código Penal, mas de nada adianta termos leis mais duras se nosso Judiciário continuar injusto como o é. Uma reforma neste poder necessita ser feita antes de qualquer tipo de mudança em códigos.

Outro ponto que quero chamar a atenção é que, concentrando a captura, julgamento, sentença e execução em um único indivíduo, se abre um leque de possibilidades bastante sinistro. Hoje é o bandido ou o favelado executado, amanhã pode ser você, morador do asfalto, que se negou a pagar a "cervejinha" do guarda - propina. Ainda mais com uma Polícia que, sabemos todos, tem focos alargados de corrupção em seu seio.

Neste momento entra a hipocrisia da sociedade. Ela não vê problema em ver um favelado sendo executado por policiais sumariamente, mas vai para Copacabana fazer passeatas se um morador do asfalto falece nas mesmas circunstâncias. No fundo, é o mesmo preconceito de classe mal disfarçado ao qual me referi anteriormente.

Preconceito mórbido e injusto, ainda mais quando sabemos que aproximadamente dois terços dos mortos pela Polícia em incursões a favelas não possuem antecedentes criminais. E depois de mortos são obrigados a conviver com o "kit apreensão" que denigre nomes, muitas vezes, limpos.

Este caminho de justiça pelas próprias mãos é bastante perigoso, pois leva à barbárie. O país possui leis, que devem ser respeitadas e seguidas. Bandido bom é bandido preso, julgado de acordo com os trâmites, com direito de defesa pleno e sua integridade física respeitada. O Brasil é regido por leis.

Pense sempre que, ao defender a execução sumária de bandidos, a vítima amanhã pode ser você leitor. Execução sumária é assassinato, seja de quem for. É crime e como tal deve ser punido.

Em tempo, é por causa deste tipo de postura, também, que o câncer chamado milícia se alastrou pelo Rio de Janeiro. Milícia é máfia.

Pense nisso. Barbárie não se combate com barbárie. Barbárie é combatida com inteligência.