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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Serra, a homofobia e outras questões



Os leitores deste espaço devem ter percebido que fiquei meio fora do ar neste último feriado. Serviu apenas para se perceber como é ruim a programação da televisão aberta, a única disponível no hospital onde estava.

Mas, sem dúvida, a grande polêmica dos últimos dias, pelo que pude perceber, foi a reedição dos métodos empregados pelo candidato à prefeitura de São Paulo José Serra na campanha presidencial de 2010, estando no centro da questão, desta vez, a homofobia.

Naquela ocasião a candidatura tucana espalhou uma série de boatos infundados com atrocidades do tipo “Dilma vai permitir o aborto de oito meses”, “o homossexualismo será obrigatório”, “vão tomar casas para colocar nelas beneficiários do Bolsa Família” e estupidezas semelhantes. Era uma estrutura oficial da campanha de José Serra à época, diga-se.

A mesma coordenação de campanha que também espalhou milhares de “santinhos” de propaganda com os dizeres “Dilma 45”, com o objetivo óbvio de confundir a população e angariar votos para Serra “no grito”. Cheguei a ver alguns destes aqui no Rio de Janeiro.

Ainda em 2010 a questão do aborto foi colocada de forma histérica pela mulher do então candidato, refletindo uma pregação de setores religiosos mais conservadores. Até se descobrir que a mesma havia feito tal prática – ou seja, um caso clássico de hipocrisia.

Parêntese: pessoalmente sou contra o aborto, mas não acho certo politizarem a questão da forma como foi feita.

Neste segundo turno Serra repete os mesmos velhos e totalitários métodos em sua campanha à Prefeitura de São Paulo, em que enfrenta o petista Fernando Haddad.

Sua candidatura enfrenta problemas: a péssima avaliação do Prefeito Gilberto Kassab, lançado por ele e que o apóia, bem como a percepção por parte da população de que o poder público no mínimo está se omitindo na questão dos incêndios em favelas – que, curiosamente, diminuíram logo após o primeiro turno.

Sobre o próprio Serra pesa a desconfiança da população de que ele irá novamente se afastar do cargo para se candidatar a presidente em 2014, repetindo o que já fez como senador (eleito em 94), Prefeito (2004) e Governador (2006). Em nenhum destes casos ele concluiu o mandato.

Tal e qual 2010, Serra repete a mesma estratégia de desinformação, aliando-se a setores ultraconservadores para difundir uma corrente de medo no eleitorado e aparecer como a salvação de São Paulo.

Desta vez, o alvo é um alegado “kit gay” que Haddad, enquanto Ministro da Educação, teria mandado distribuir nas escolas. Segundo Serra e aliados como o Pastor Silas Malafaia – que defende abertamente a violência contra os homossexuais, diga-se de passagem – o tal kit seria um “estímulo à homossexualidade” e que esta “deveria ser extirpada da sociedade brasileira".

Na verdade o tal “kit gay” – que acabou não sendo distribuído devido a pressões de aliados evangélicos da presidenta Dilma – nada mais era que uma série de orientações a professores e educadores de colégios que enfrentassem problemas de discriminação a homossexuais, cada vez mais comuns em nossa sociedade.

Contudo, a fim de penetrar em um eleitorado de condições sociais mais humildes – e que jamais votaria nele – Serra aliou-se a Malafaia e a outros religiosos conservadores para brandir o tal “kit gay” de Haddad como um “desrespeito” aos valores cristãos e à família. Está sendo colocado pelo candidato como um “incentivo” ao homossexualismo, que Haddad tornaria “obrigatório” e “coisa do Capeta”.

Isso, em uma cidade onde episódios de homofobia, com situações de extrema violência, sucedem-se quase todas as semanas. São Paulo hoje é uma das cidades mais hostis a gays entre as grandes capitais, de acordo com relatos recorrentes de associações e grupos de defesa homossexual.

Serra está dando voz e vez a estes grupos homofóbicos, o que me leva a pensar o seguinte: se eleito, estabelecerá perseguições a este grupo ou então fará “vistas grossas” a episódios de violência contra homossexuais perpetrados por skinheads ou evangélicos?

Contudo, temos aí outro caso de hipocrisia eleitoral explícita: quando Governador, em 2009, Serra patrocinou kit parecido nas escolas estaduais. Ou seja, tal e qual o caso do aborto de 2010, ele critica algo que já fez.

A peroração dos evangélicos, em particular, é de que o “kit gay” iria incentivar o homossexualismo. Caso isso fosse verdade, bastaria se elaborar um kit “hétero”, como bem lembrou a jornalista Milly Lacombe no Twitter. Ora, não será uma cartilha que visa a esclarecer e prevenir a discriminação que vai definir a opção sexual de uma pessoa.

Pessoalmente, como já toquei neste blog, penso que a homofobia é apenas uma das faces visíveis de um fenômeno mais sério, chamado intolerância. Lembro aos leitores que incentivar o preconceito ou ações violentas contra homossexuais, incrivelmente, não é crime. O projeto de lei que criminaliza a homofobia está parado no Congresso devido à pressão da bancada evangélica.

Aqui no Rio tivemos dois vereadores eleitos com bandeira aberta defendendo a homofobia, um deles pupilo do Pastor Malafaia e outro filho do deputado federal Jair Bolsonaro. Este último dizia em sua campanha que “a família brasileira precisa ficar livre dos gays”, como se estes fossem uma doença. Sinceramente, lamentável que isto ainda ocorra.

Lembro aos leitores que os homossexuais pagam impostos, trabalham, cumprem seus deveres de cidadão e estão regidos pelas mesmas leis aplicadas aos heterossexuais. Por serem gays e lésbicas não podem ter os mesmos direitos?

A sociedade e a legislação brasileira tem sim de prever os mesmos direitos, em especial o de reconhecer as uniões estáveis – e aqui não me estenderei sobre o conceito de família, não é o foco – e prever que estes possam amar em liberdade sem serem alvo de episódios de violência, ou não terem perante a lei os mesmos direitos dos heterossexuais.

Violência deve ser coibida independente de quem seja o alvo. Esta pregação de que “contra os gays pode” me incomoda profundamente, especialmente se vinda de grupos religiosos ou de agentes públicos. Preconceito deve ser combatido seja qual for.

Infelizmente José Serra, ao invés de debater os problemas da cidade, parte para esta campanha difamatória e obscurantista. Espero que o povo de São Paulo aposente este sujeito no próximo dia 28.

Em tempo: sou heterossexual e religioso.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Vidas Sem Lar


Como havia comentado aqui na semana passada, tive um final de semana bastante atribulado, com idas ao hospital e outras pendências para resolver. Tanto que sequer consegui atualizar o blog ontem, no que peço desculpas aos leitores.

Entretanto, consegui ver o documentário “Vidas Sem Lar”, apresentado no último programa “Domingo Espetacular” da Rede Record. Com pouco menos de 29 minutos, o programa foi editado e dirigido pelo jornalista Marco Aurélio Mello, que comanda o ótimo blog “DoLaDoDeLá”.

É o segundo documentário apresentado neste formato: o primeiro foi sobre a vida do médico Marcelo Clemente e a Cracolândia paulista, que já foi alvo de post aqui.

A ideia era mostrar a condição de oito milhões de pessoas que não tem moradia e a luta cotidiana por tal condição, focalizando especialmente os movimentos paulistas de ocupação de imóveis abandonados no Centro de São Paulo e as dificuldades enfrentadas.

São Paulo possui uma série de imóveis abandonados em seu centro, que vem sendo alvo dos movimentos de sem teto. Normalmente são imóveis que possuem dívidas de IPTU e cuja lei determina que estas instalações podem ser desapropriados pelo governo a fim de atender à “função social da propriedade”.

Entretanto, não é isso que ocorre. A luta pela moradia destes movimentos tem de ser diária, pois normalmente o que ocorre é a reintegração de posse determinada pelos proprietários e imediatamente executada pela Polícia – sempre com muita violência. Há interesse claro dos governos municipal e estadual no sentido de expulsar os moradores pobres destes espaços e “desterrá-los”.

O documentário também mostra as precárias condições de moradia nas favelas, sem infraestrutura e sofrendo de uma estranha epidemia de incêndios: toda semana comunidades se incendeiam na capital paulista.

As histórias de vida apresentadas possuem algumas características em comum: é gente pobre, sem condição de pagar um aluguel por ganhar pouco e que busca a regularização da moradia com o consequente pagamento por isso.

Isto é algo que precisa ser deixado claro: ninguém quer nada ‘de mão beijada’. Todos os entrevistados apresentados são unânimes em afirmar que desejam a regularização das condições de moradia, com pagamento mensal.

O programa é bastante feliz em mostrar como a ausência de um endereço fixo e moradias como cortiços tira a dignidade das pessoas. Além das dificuldades normais e extensas, há dificuldade em uma condição destas de se conseguir emprego, por exemplo. Há muito preconceito.

A luta é por um programa de regularização destes prédios desocupados, sua transformação em moradias populares e a construção de uma estrutura mínima. Utiliza-se o conceito de “função social da propriedade”, que está em clara oposição ao entendimento da Justiça de que o direito dos donos deve ser defendido de qualquer forma e a qualquer custo.

Entretanto lembro ao leitor que o conceito de função social da propriedade é previsto em nossa legislação e que pelo menos no caso paulistano praticamente todos os espaços abandonados e ocupados possuem dívidas tributárias – ou seja, podem ser desapropriados.

Neste contexto, todavia, fica clara a disposição ideológica do governo de São Paulo de se posicionar ao lado dos proprietários. O Secretário de Habitação do Estado de São Paulo, Sílvio Torres – integrante da “bancada da CBF” enquanto deputado federal – é um dos entrevistados e afirmou retoricamente que há interesse do estado em uma política de habitação que contemple estes extratos mais desfavorecidos.

O documentário deixa claro a meu ver que isso é retórica pura por parte do secretário. Demagogia.

Lembremos que o Brasil ficou aproximadamente 30 anos sem uma política habitacional estruturada, retomada apenas recentemente com o Programa “Minha Casa, Minha Vida” do Governo Federal. Há um déficit de moradias e a valorização expressiva dos imóveis ocorrida nos últimos anos dificulta sobremaneira as aspirações destes extratos de menor renda.

Isso tem outra conseqüência: muitas vezes os terrenos destes imóveis abandonados no centro de São Paulo e os ocupados pelas favelas são cobiçados para novos empreendimentos voltados à classe média ou a prédios comerciais. Não me parece coincidência a relação entre os incêndios que citei no início deste post e esta atratividade de terrenos – ainda mais com o metro quadrado em alta.

Retornando aos dramas pessoais mostrados no programa, me impressionou a organização das ocupações: há um código rígido de conduta e organização comunitária a fim de melhorar a precária estrutura e tornar menos insalubre a condição. Contrastando com o drama dos cortiços, fica claro que não se tratam de “vagabundos” ou “aproveitadores”. São pessoas honestas, trabalhadoras e que buscam, apenas, um local para morar.

Local para morar que sempre sofre a ameaça das reintegrações de posse, sempre com bastante truculência. É algo que permeia o documentário e a situação em si: para o Estado, a Polícia é a solução deste problema. Pobre bom é pobre espancado – e longe, de preferência.

Não esgoto aqui os temas tratados, mas me parece claro que o conceito de função social da propriedade precisa estar à mesa dos formuladores de políticas públicas. São oito milhões de pessoas que querem apenas um teto. Querem apenas um local digno para repousar no final de uma jornada de trabalho.

Disponibilizo no alto do post a íntegra do vídeo para os leitores.

Aproveito para parabenizar a equipe e a emissora de televisão pela matéria, mostrando um lado do Brasil que muitos telespectadores interessados na gravidez da esposa de apresentadores ou na briga entre dois cantores sertanejos (apenas para citar temas do próprio Domingo Espetacular) não conhecem, ou fingem não conhecer.

Finalizo com um comentário “off topic”: me chamou a atenção no documentário uma jovem entrevistada com aparelho dentário, algo que não se deveria esperar neste tipo de comunidade devido ao custo.

Conversando com o próprio editor Marco Aurélio Mello, após a exibição do programa, descobri que o Governo Federal possui um programa denominado “Brasil Sorridente”, de cuidados com a saúde bucal e que fornece, também, aparelhos e outros tipos de próteses atendendo a certas condições. Confesso que não sabia da existência deste programa.

A propósito, este é um bom exemplo de como a comunicação deste governo precisa melhorar. Mas este é tema para um outro post.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Alguns pitacos sobre o quadro eleitoral


Leitores, não esperem um post encadeado, bonitinho, hoje. A idéia é dar alguns pitacos a praticamente um mês das eleições.

Começo por São Paulo. Em fevereiro escrevi aqui post dizendo que achava muito arriscada a aposta de José Serra de se candidatar à Prefeitura, tamanhos eram os problemas. À época fui chamado de louco, mas o que o desenrolar do quadro está mostrando é que a chance de um segundo turno sem o eterno candidato é bastante plausível, diria até bastante provável.

Além dos próprios problemas o candidato tucano enfrenta a rejeição da população paulistana à administração de Gilberto Kassab, por questões que já elenquei aqui em outras oportunidades. Acredito que a intensificação dos suspeitíssimos incêndios (foto) em favelas paulistanas – tema que abordei em janeiro de 2010 – junto com intervenções como a da Cracolândia tenham contribuído para aumentar ainda mais a impopularidade do prefeito.

Também deve se considerar que a ala do PSDB paulistano ligada ao governador Geraldo Alckmin não parece muito entusiasmada com a candidatura serrista. Uma derrota deste permitiria ao governador assumir definitivamente o comando do partido no estado, ainda mais se levando em conta que Kassab parece querer alçar vôo próprio no recém fundado PSD.

Sobram Russomano e Haddad. O primeiro parece capitalizar sua postura de defensor dos direitos do consumidor em seus programas televisivos, assumindo uma postura basicamente personalista: “sua vontade” irá resolver os problemas dos paulistanos. Pesa contra si o apoio da Igreja Universal, que certamente será explorada pela mídia.

Por outro lado Haddad tem a favor a promessa de um bom relacionamento com o Governo Federal e o carisma do ex-presidente Lula, além de explorar os problemas da prefeitura atual. Seu ponto fraco é o histórico conservadorismo da sociedade paulistana, que vem elegendo e reelegendo políticos conservadores há bastante tempo.

Certo é que Haddad tem um eleitorado cativo de cerca de 30% da população, o que deve ser suficiente para levá-lo ao segundo turno. Pessoalmente não descartaria o candidato do PMDB Gabriel Chalita, que conta com apoio discreto de políticos do PSDB ligados ao governador Geraldo Alckmin.

Curiosa será ver a postura da Rede Globo da televisão em um eventual segundo turno entre Russomano e Haddad: afinal de contas, será o candidato da Rede Record contra o PT.

No Rio de Janeiro ao que parece o atual prefeito Eduardo Paes deverá liquidar a fatura em primeiro turno, apesar do crescimento do candidato do PSOL Marcelo Freixo.

Este vem crescendo em cima do eleitorado tipicamente elitista e reacionário de classe média e alta – Zona Sul, Tijuca, Barra da Tijuca e áreas da Ilha do Governador – preenchendo o espaço deixado pelo ex-candidato Fernando Gabeira e que não é ocupado pela candidatura de Rodrigo Maia.

Para isso o PSOL vem adotando um discurso crescentemente reacionário e bastante próximo de teses defendidas por partidos como o PSDB e o DEM, em especial a respeito de um suposto “puritanismo” na prática política. Isso deve significar uma votação acima da obtida nas últimas eleições para o partido, mas à custa do afastamento de uma base de eleitores ideológicos que acompanhavam o PSOL desde o início.

Agora acho que o leitor entende o comentário que fiz em outras ocasiões, de que não votaria no PSOL nestas eleições. A guinada à direita dada pelo partido está me desagradando bastante.

Ainda não tenho intenção de voto consolidada, mas diria que a tendência, hoje, seria “tapar o nariz” e dar um voto de confiança ao atual prefeito. Sei dos vários problemas que este grupo político representa e tem, mas em minha avaliação Paes faz um governo razoável – ainda mais se sabendo que ele herdou o município destruído pelos 16 anos do mandatário anterior – e o alinhamento aos governos do Estado e Federal pesa bastante em minha avaliação.

Quanto à insólita chapa formada por Rodrigo Maia e Clarissa Garotinho, confirma-se o que escrevi em post anterior: o custo de tal aliança é muito maior que os benefícios. São eleitorados distintos e que são mutuamente excludentes.

Aproveito para deixar registrado meu protesto quanto à propaganda eleitoral desta chapa. Rodrigo Maia fala dos problemas da cidade omitindo que seu pai, Cesar Maia, foi o czar da cidade durante longos 16 anos. Alias este último declarou à Justiça Eleitoral não possuir quaisquer bens em seu nome, o que, convenhamos, é um escárnio.

Finalizando o quadro carioca, me espanta a coragem do candidato do PSDB, Otávio Leite, em apresentar Fernando Henrique Cardoso e Marcello Alencar em sua publicidade eleitoral. Dois sujeitos que são odiados pela população local - não sem motivo.

Belo Horizonte registra liderança do atual prefeito, mas não me parece fatura liquidada dado o crescimento de Patrus Ananias. Recife, outra cidade emblemática, viu a virada do candidato apoiado pelo governador Eduardo Campos sobre Humberto Costa, do PT, até de forma rápida.

Mas nesta virada pesa a boa avaliação do governador e a péssima imagem do atual prefeito nas pesquisas qualitativas.

Por falar em pesquisas de opinião, fecho o post com um assunto que me foi alertado por um leitor: no interior de São Paulo há uma máfia de pesquisas que produz resultados prontos de acordo com o gosto do freguês.

Estas empresas cobram cerca de R$ 10 mil a prefeitos da região para não publicar resultados que lhe seriam ruins (manipulados), ou então “fabricando números” para alardear um suposto favoritismo. Caso o prefeito não compre, os adversários políticos se utilizam destes números em suas propagandas – pagando o preço cobrado por estas empresas.

O detalhe é que são pesquisas registradas no TRE, apesar de tudo. A principal empresa deste esquema, sediada em Presidente Prudente, enfrenta uma série de acusações na Justiça, bem como seu sócio majoritário.

Lembro aos leitores que a possibilidade de manipulação de números é muito maior nas cidades menores, que não contam com imprensa influente ou instituições de controle fortes como a das grandes cidades. Na prática, é uma forma sofisticada de coação e desvio de recursos – muitas vezes públicos.

(Foto: Estadão)

terça-feira, 3 de julho de 2012

São Paulo, o povo escolhido e o esvaziamento da coletividade


Venho acompanhando com interesse uma série de eventos de “higienização” que os governos estadual e municipal de São Paulo vem empreendendo nos últimos tempos, guiados por interesses diversos tanto da linha política dominante como de uma elite fechada em si mesma como algo escolhido por atribuição divina..

Todos estes movimentos são guiados pela mesma motivação: “limpar” as ruas, diminuir os espaços públicos como espaços de reunião, limitar a associação, retirar os mais pobres das vistas dos mais ricos. Não sou sociólogo mas é algo bastante interessante de se observar.

O episódio mais célebre foi o corrido na Cracolândia, onde tiraram os viciados da região no centro da cidade e os colocaram para outros locais sem haver o menor acompanhamento social: foi na base do cassetete.

Cassetete também que vem sendo utilizado pela Polícia, a mando dos governantes locais, para reprimir quaisquer tipos de greves e manifestações populares. Vale lembrar que a USP, a Universidade de São Paulo, foi invadida pela Polícia em pelo menos três ocasiões no passado recente. Seu reitor, escolhido pelo Governador Geraldo Alckmin, assumidamente tem a postura de reprimir os movimentos estudantis e de professores e funcionários.

Outro bom exemplo é a repulsa aos moradores de rua. A Prefeitura instalou “rampas anti mendigos” embaixo dos viadutos da cidade, a fim de impedir que possam pernoitar ali. Também quer proibir a construção de prédios com marquises e onde não pôde estabelecer outras medidas colocou pedras e cacos de vidros.

A última medida a fim de expulsar os moradores de rua é a inacreditável tentativa de proibição da sopa que entidades de caridade distribuem a mendigos no centro da cidade (foto). O propósito original era o de responsabilizar cível e criminalmente aqueles que distribuem comida aos que tem fome.

A alegação da prefeitura era de que esta proibição “forçaria os moradores de rua a procurarem os abrigos, onde teriam atendimento adequado”. Só que tem dois detalhes: os ditos centros ficam fora do centro da cidade e há reiteradas denúncias de que não passam de “depósitos de gente”.

Lembro aos leitores que nem Hitler criminalizou a distribuição de comida. Com a repercussão na grande imprensa a prefeitura voltou atrás, mas certamente voltará à carga.

Outro bom exemplo deste fenômeno de “esvaziamento” é o fechamento de todos os locais de “saraus” existentes na periferia na capital paulista. Eram espaços de reunião das comunidades mais pobres, difusão de lazer e da cultura “hip hop”. Estão todos sendo fechados pela prefeitura sob a alegação de que “não possuem alvará”, mas me parece que o objetivo claro é impedir, ou dificultar, a organização destes grupos.

Também se deve lembrar a recente lei aprovada pela Assembléia Legislativa que proíbe o consumo de álcool ao ar livre e restringe o seu consumo em locais fechados. Mais uma vez haverá como resultado o esvaziamento dos espaços públicos e restrições ao direito de reunião.

Percebo dois grandes grupos de razões a motivar este comportamento dos políticos atualmente no poder em São Paulo.

O primeiro é limitar a organização dos movimentos sociais. Alckmin e Kassab adotaram o velho lema do ex-presidente Washington Luis de que “a questão social é caso de Polícia”, e assim vem procedendo. Qualquer tipo de demanda social é tratada da mesma forma: com a Polícia batendo nos manifestantes, ainda que não ofereçam risco à sociedade ou a ordem pública. O recente caso da invasão da USP é um bom exemplo disso.

Outro arquétipo desta forma de atuar, ainda que já um pouco distante, foi a desocupação da ocupação de Pinheirinho, em São José dos Campos, para atender à reintegração de posse de uma área grilada pelo especulador Naji Nahas.

Diga-se de passagem, esta estratégia de criminalizar as demandas sociais foi adotada pelo partido no poder em São Paulo quando esteve no poder federal – entre 1995 e 2002.

O segundo grupo de razões reside no próprio fato da elite paulistana, reacionária até o último fio de cabelo, demandar que elementos “indesejáveis” sumam de suas vistas. Com isso aqueles integrantes de classes sociais menos favorecidas devem ser “exilados” para áreas de periferia a fim de ficar fora das vistas deste público.

É uma espécie de “apartheid” não declarado: os moradores de maior renda se apropriam de seus espaços públicos contando com seu braço na municipalidade e no governo estadual. Não deixa de ser uma privatização “branca” destes locais.

Note-se que é a mesma elite que paga R$ 5 mil para comprar um cachorro, mas reclama que “as babás estão querendo ganhar muito” – quando este muito, na maioria das ocasiões, equivale a R$ 1,5 mil.

Foi a mesma classe que fez campanha contra uma estação do metrô no bairro de Higienópolis, alegando que atrairia ao bairro de classe alta a “gente diferenciada” – leia-se: pobres.

A política paulista contempla estes interesses. Então se explica a expulsão de moradores de rua, viciados em crack e todo tipo de desvalido para as periferias – bem longe das Tucsons, CRVs, Mercedes e BMWs dos “escolhidos”. Não é exagero afirmar que para setores mais radicais desta elite “pobre bom é pobre longe – de preferência morto”.

Comportam-se como o povo “escolhido”.

Não se pode esquecer também que estão sendo lançados novos empreendimentos imobiliários em áreas como a da Cracolândia e onde existiam favelas antes de serem incendiadas. Não havendo moradores de rua nem gente pobre o valor do metro quadrado sobe – é a perversa lógica do mercado.

Com tudo isso, pode-se dizer que em médio prazo o sentido de coletividade tende a se diluir na capital paulistana. Os espaços de reunião popular estão ficando cada vez mais limitados, as camadas mais pobres na medida do possível confinadas à periferia e temos o poder público subordinado aos interesses de uma minoria demófoba e excludente.

Espaços e reuniões limitados, o que se pode afirmar é que a organização popular tende a se tornar mais fragmentada e dificultada, soterrada em um mar de proibições determinadas pela administração pública – até o “ovo mole” dos botecos foi proibido, por exemplo. Um clima de opressão se torna “natural” e há o estímulo ao comportamento individualizado a partir do momento que reuniões são consideradas “fora da ordem” – logo, devem ser reprimidas.

O poder econômico e a exclusão social venceram a batalha. Infelizmente. Pensamentos classificados como “desumanos” tornam-se “normais”.

Isto é São Paulo hoje. Lamento profundamente o que ocorre.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Orun Ayé - "Rio, São Paulo e Eu"


Mais um domingo, e mais uma coluna "Orun Ayé", do compositor Aloisio Villar. O tema hoje são as duas maiores metrópoles brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo (foto)

Rio, São Paulo e Eu

Essa semana um dos amores de minha vida fez aniversário, então resolvi fazer uma coluna em sua homenagem. 

Na verdade o aniversário é de seu padroeiro, São Sebastião, mas o carioca já incorporou como sua data. Sim, estou falando do Rio de Janeiro. 

Sou o que podemos dizer 'carioca da gema'. Nasci em um hospital da Tijuca no dia 9 de agosto de 1976 e como todo bom carioca que ama a noite e a boemia nasci faltando dez minutos pra meia noite. Se existe uma coisa que sempre amei nessa cidade foi sua noite. 

Só nasci na Tijuca, logo fui levado pra minha casa na Ilha do Governador, casa que tirando os anos de 1992 e 1994 sempre morei. Sou carioca, bairrista convicto, apaixonado por minha cidade e moro naquele que eu penso como bairro perfeito pra mim. Assim como eu amo o Rio de Janeiro, amo a Ilha do Governador [N.do.E.: eu moro na Ilha. Se ele tivesse de estar às nove no Centro não sei se amaria tanto assim...]. 

A Ilha do Governador com todos os seus problemas, que não são poucos, é um bairro que me agrada muito porque faz parte de uma grande metrópole e mesmo assim conserva jeito de cidade do interior. Nada dá mais alívio a quem mora aqui que chegar à ponte do Galeão e ter a sensação que chegou em casa. 

Mas pretendo falar da Ilha em outra ocasião. 

Dificil falar no que mais gosto no Rio de Janeiro, não é a toa que ela tem o nome de “Cidade Maravilhosa”. 

Apesar de não gostar muito de Sol (é, sou diferente dos cariocas normais nesse sentido) eu sou apaixonado pelas praias de Copacabana e Ipanema. Sempre que recebo visita de outros estados em casa faço questão de levar pra conhecer. E todos saem maravilhados. 

Copacabana e Ipanema devem ter as praias mais famosas do mundo, as mais cantadas e seus calçadões exalam arte, magia. 

A sensação que eu tenho quando caminho por aqueles calçadões é que caminho pela história, pela beleza. Amo ver as pessoas felizes bebendo nos quiosques, na praia se bronzeando ou praticando esportes. 

As garotas de Ipanema com seus biquinis deixando ver toda a maravilha que nos enfeitiçam no doce balanço a caminho do mar ou em Copacabana a princesinha do mar, a nossa torre de Babel que junta várias tribos, pessoas completamente diferentes em suas belezas e perigos. Porque as belezas de seus dias se tornam um perigo excitante de noite. 

Copacabana me fascina desde criança. Aquele calçadão, aquelas luzes de noite, o seu reveillón.. 

Conheci o reveillón de Copacabana em 1997. Nunca tive vontade de ir, mas fui convencido por minha mãe e minha avó. Acabei me apaixonando de cara. 

É dificil descrever a energia que passa em uma virada de ano em Copacabana. Eu não tenho vontade nenhuma de passar em Nova York, Paris, Tóquio... Copacabana tem tudo que eu quero e preciso, pessoas felizes, música, estouro de champanhe, emoção e os fogos...

Falar o que dos fogos? Passei doze reveillóns em Copacabana e nos doze me emocionei e senti orgulho da cidade que nasci. Não dá pra passar em palavras o que são aqueles fogos, mas dá para sentir a certeza que um ano que começa daquela forma não pode ser ruim. 

O Rio de Janeiro é bem mais que Copacabana e Ipanema. Um dos meus cantos preferidos na cidade é o Arpoador. E de lá vejo toda a orla e sinto uma sensação gostosa de liberdade. O Arpoador é um lugar famoso, já cantado por Skank, Cazuza e que conheci recentemente ao pedir uma pessoa em namoro. 

Voltei algumas vezes lá depois com essa recordação para sempre na minha mente. 

Uma vista bonita e se emocionar? O Cristo Redentor taí pra isso. O nosso símbolo. Para ser um turista completo pode passar no Pão de Açúcar também. 

Mas o Rio tem outros lugares para você se divertir. Uma sexta na Lapa onde você encontra pessoas de todos os tipos e amanhecer jogando sinuca em um boteco. Um sábado na feira de São Cristóvão para comer um baião de dois e se divertir com os amigos. 

O Rio de Janeiro é uma das cidades do mundo que melhor recebe os imigrantes. As provas são a feira de São Cristóvão e o SAARA. O SAARA é um conjunto de ruas no centro da cidade que contém lojas populares. 

Tem a Barra da Tijuca e seu jeito de “novo rico”, lugar de megas shoppings e megas condomínios. Santa Teresa e seu bondinho, Leblon e seu cenário de novela, Vila Isabel e Madureira terras que fornecem samba de qualidade. 

As favelas e seus medos, mas também terra de gente guerreira e que luta por um futuro. Gente talentosa que sonha com um amanhã melhor vindo atrás das UPPs. 

O Rio de Janeiro é isso. Terra do futebol e do carnaval. Única cidade do mundo a ter quatro grandes clubes de futebol. Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo fizeram o Maracanã de grande companheiro e cúmplice de alguns dos momentos mais importantes da história do futebol - e em alguns deles eu estava lá. 

Assim como Bangu, América e outros clubes que fizeram a história futebolística de nossa cidade. 

Como Portela, Mangueira, Império Serrano, Salgueiro, Imperariz Leopoldinense, Mocidade Independente, Vila Isabel, Unidos da Tijuca, União da Ilha e outras escolas de samba fizeram na Praça Onze, Presidente Vargas, Avenida Antônio Carlos e rua Marquês de Sapucaí a história do nosso carnaval. 

Desfiles de escolas de samba que começaram como coadjuvantes dos desfiles das grandes sociedades e foram crescendo ao longo dos anos, passando das arquibancadas de madeira e tapumes até o mega evento que é hoje televisionado pra dezenas de países. 

Mas o carnaval do Rio não são somente as escolas de samba. Têm os bailes populares dos bairros, concursos de fantasias, bailes de salão, blocos com milhões de seguidores. 

O Rio de Janeiro é do Cacique de Ramos, Bafo da Onça, Cordão da Bola Preta, Monobloco, Banda de Ipanema, Suvaco de Cristo e de muitos outros blocos grandes e pequenos que fazem a alegria dos foliões cariocas e dos turistas. 

Rio de Janeiro de Noel Rosa, Tom Jobim, Chico Buaque de Holanda. Rio musical, da rádio Nacional, bossa nova, do samba, tão cantado e exaltado por milhares de artistas sendo cariocas ou não. 

Rio de Janeiro do baiano Gilberto Gil que entre a prisão e o exílio fez a música “Aquele Abraço” se despedindo da cidade e mostrando aos amigos que estava vivo. Cenário de filmes, livros, peças de teatro, novelas. Cenário de amor. 

Difícil falar o que mais gosto do Rio de Janeiro. Mas acho que o que mais gosto é do carioca. 

Pode não parecer, mas o carioca é um povo sofrido. É a violência, a desigualdade social, dengue, enchentes, falta de hospitais, cidade que não se acostumou ainda de ter visto tomada de si o título de capital federal, muitas vezes falta de amor de seu governante consigo... 

... mas nunca falta de amor do povo com a cidade. 

Nunca faltam amor e humor. O carioca encara tudo com ótimo humor, com sorriso muitas vezes desdentado nos lábios. Carioca enxuga o suor e vai a luta. Em tudo tem uma piada, tudo transforma em samba. Assim como o sertanejo, carioca antes de tudo é um forte. 

Ou como preferimos dizer aqui: carioca é maneiro. 

Falei bastante de minha cidade. Agora quero falar de outra, que faz aniversário nessa semana, dia 25. 

Assim como todo carioca sempre tive pé atrás com São Paulo. Via São Paulo como o “diferente”, tudo aquilo que o Rio não é. 

Achava São Paulo cosmopolita demais, aqueles prédios todos, o cinza no céu. São Paulo e Rio de Janeiro sempre foram o contraste. O Sol e a chuva, o Yn e o Yang, água e óleo, o Rubens Barrichello e um carro de Fórmula 1. O nada a ver. 

Até meus 31 anos tinha ido a São Paulo duas vezes na vida em excursões com familiares. Mas quis o destino que a partir de 2007 começasse a me apaixonar por suas nativas. E elas por mim. 

Entre 2007 e 2008 fui cinco vezes a Bauru, interior do estado de São Paulo, terra do melhor churros do mundo. Mas minha relação com a capital mesmo se iniciou em 2009. 

Em 2009 me apaixonei por uma paulistana e com a cara e a coragem fui até a cidade conhecê-la. Fiquei cerca de doze horas apenas na cidade e nessa viagem só conheci a rodoviária e a Avenida Paulista. 

Mas ali foi só o começo. 

Voltei mais doze vezes a São Paulo e acreditem cariocas: São Paulo não é tão estranha quanto parece. 

Eles colocam purê no cachorro quente e não botam queijo nas pizzas, mas são um povo agradável e cortês além de abrigarem lugares lindos como o Museu da Língua Portuguesa, a estação da Luz e seu concreto que assim como nossas praias e calçadões deu poesia. 

Suas meninas não têm a pele bronzeada como as nossas, mas exalam charme e simpatia. Vestem-se bem e tem um sotaque insinuante. O Mercado Municipal tem um sanduíche de mortadela delicioso e a rua Augusta assim como Copacabana a noite esconde prazeres proibidos e excitantes. 

São Paulo de Adoniran Barbosa e seu trem das onze, de Paulo Vanzolini e sua ronda que para na avenida São João, dos novos baianos que sentiram alguma coisa acontecer em seus corações. 

São Paulo de Corinthians, Palmeiras, São Paulo e também de Vai Vai, Rosas de Ouro, Nenê da Vila Matilde, Vila Maria, Peruche, Gaviões da Fiel, Mancha Verde, Império da Casa Verde, Mocidade Alegre, Leandro de Itaquera e outras escolas e sambistas que mostram que a cidade não é o túmulo do samba. 

A maior cidade do país, a mais “internacional” por receber gente do mundo inteiro pra realizar negócios e a mais “nacional” por receber em sua rodoviária no Tietê uma quantidade enorme de imigrantes de todo país que enxergam na cidade a chance de ter uma vida melhor. 

São Paulo do parque do Ibirapuera, do Zôo com Simba Safari, da Praça da Sé, do Pacaembu, do Anhembi, da Avenida Paulista e de todos os brasileiros, da lanchonete do estadão que não fecha e serve feijoada até de madrugada, do mercado da 25 de março, São Paulo terra da Garoa e dos Demônios da Garoa, do Brás e do parque Dom Pedro que me fizeram tão bem. 

Do Capão Redondo e do Morumbi, do rap da periferia à rua OscarFreire. Cidade heterogênea, cidade de todos. 

Cidade que me fez muito feliz. 

Não fui tão feliz na minha última viagem a São Paulo. Sonhos acabaram despedaçados numa melancólica madrugada na rodoviária, mas o que guardo da cidade é muito mais positivo que negativo. Fiz amigos eternos em São Paulo, fiz amores eternos em São Paulo. Sempre muito bem recebido. 

E com o tempo percebi que Rio de Janeiro e São Paulo não são assim tão diferentes. Uma completa a outra e juntas fazem muito da força de nosso país. 

Sou carioca, amo minha cidade, mas tenho carinho por São Paulo e até acredito em alguns momentos que tenho a alma paulistana. 

Duas cidades tão diferentes e próximas que até festas fazem com diferença de apenas cinco dias. 

E só me resta parabenizar e agradecer duas por tudo. Com a certeza que esse nosso triângulo amoroso ainda renderá muitos frutos.

Orun Ayé!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O "Escândalo Controlar"


Uma vez mais passou despercebida na grande imprensa um grande escândalo envolvendo a administração municipal de São Paulo e a estadual do Rio Grande do Norte, ambas do grupo político do ex-governador José Serra. Desta vez, o objeto são os contratos para a inspeção anual veicular, que se tornou obrigatória nestas localidades.

Nos dois casos o modelo é um pouco diferente do caso carioca, onde há a vistoria de ítens de segurança e de gases emitidos. É apenas feita a medição dos gases (suspensa no Rio Garnde do Norte neste momento), mas ao contrário do Rio onde a vistoria é controlada e realizada pelo Detran, são empresas particulares que prestam o serviço - mediante a cobrança de uma taxa ao contribuinte. E os escândalos residem nesta contratação.

Em São Paulo a empresa Controlar utiliza o serviço, valendo-se de um contrato de 1995 que incrivelmente recebeu um aditivo em 2007 - com efeito retroativo. Suspeita-se de que o edital tenha sido "direcionado" para que a Controlar pudesse ser a única considerada apta a executar o serviço e assim haver o insólito aditivo, apesar de pareceres contrários do Tribunal de Contas e do Ministério Público. A empresa hoje é controlada pela CCR, concessionária de rodovias, entre outros serviços. A Camargo Correa e a Serveng, acionistas da CCR, estão entre as principais doadoras da campanha do prefeito Gilberto Kassab à reeleição em 2008.

A 11ª Vara da Fazenda Pública decretou na última semana o bloqueio de bens do prefeito, do secretário de Meio Ambiente e de diretores da Controlar, objetivando o ressarcimento de cerca de R$ 1 bilhão, que teria sido recebido pela empresa nos últimos quatro anos com as inspeções cobradas pelo contrato irregular. Além disso, quem não estivesse com a inspeção no prazo poderia ser multado, o que significava outra mina de ouro aos cofres públicos.

O argumento do Ministério Público realça também que o elevado tempo de contratação e o fato da empresa Controlar ter sido condenada por improbidade administrativa neste mesmo contrato. Além disso há suspeitas de apresentação de documentos, garantias e informações falsas e além de possíveis fraudes tributárias e fiscais. A Justiça também determinou que no prazo máximo de 90 dias seja feita nova licitação, mas, como conheço um pouco destes processos, ainda deve demorar um pouco até que a Controlar seja efetivamente substituída - se é que vai ser.

Vale lembrar também que a CCR comprou a Controlar logo após a reeleição de Kassab, do empresário Carlos Suarez (ex-dono da Construtora OAS), por cerca de R$ 170 milhões de reais. O empresário também teve os bens bloqueados pela decisão da Justiça. E foi a CCR quem fez mais pressão pela aprovação do aditivo, ainda que naquele momento não fosse dona da Controlar.

Ou seja, era um esquema bastante lucrativo para as empresas - na prática, a terceirização do serviço de inspeção - para os governos - sob a forma de multas - e para os políticos, via doações de campanhas. Tanto que passou a ser exportado para outros estados controlados pelo PSDB e dseu aliado DEM.

E temos a segunda ponta do escândalo, que estourou na mesma semana passada.

Foram presas 14 pessoas em Natal acusadas de um esquema parecido para implantar a inspeção veicular no Rio Grande do Norte, suspensa em fevereiro deste ano. E um dos presos é o suplente de senador João Faustino, ninguém menos que o "caixa de campanha" do ex-governador de São Paulo José Serra na última campanha presidencial. Para o leitor ter uma idéia, ele era o responsável pela arrecadação dos recursos fora do estado de São Paulo - este ficava a cargo de "Paulo Preto", depois acusado de desviar R$ 4 milhões de contribuições para sua conta pessoal. Faustino foi escolhido suplente da vaga de José Agripino Maia por indicação do próprio José Serra.

O escândalo potiguar inclui "cartas marcadas" na licitação, ex-governadores como "sócios ocultos" na empresa que estava sendo criada para administrar a inspeção, doações de campanha e leis feitas sob inspiração de lobbistas da empresa. Obviamente o potencial de dano ao cofres públicos era elevado, além de envolver uso de verbas de "Caixa Dois" na última campanha eleitoral. Ou seja, corrupção de um lado, crime eleitoral de outro.

Parece claro que há uma conexão entre os dois casos, pelo menos a inspiração oferecida pelo governo paulista. Com o andamento da investigação, é possível que acabe respingando no prefeito e no ex-governador de São Paulo, no mínimo pelas denúncias de 'caixa 2' em campanhas eleitorais.

Voltando ao caso paulista, também há muitas reclamações sobre o serviço terceirizado, com medições inconsistentes, reprovações sem motivo e cobrança abusiva de taxas. Há sérias dúvidas se o objetivo de tornar o ar da cidade mais limpo está sendo alcançado - além do insólito que é se terceirizar uma função eminentemente do Poder Público.

Finalizando, obviamente não se vê uma única linha nos grandes órgãos de imprensa, alinhados com esta proposta política, dentro do papel eminentemente partidário adotado por estes veículos. Consiste em sonegação de informação atendendo a interesses que não os estritamente jornalísticos e torna evidente a necessidade de algum tipo de regulação a fim de separar jornalismo e política. Mas sobre isso falarei em outro post.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sobretudo - "Diversidade Cultural"


Com atraso - uma vez mais, culpa do editor - trago nesta segunda feira a coluna "Sobretudo", do publicitário, rubro-negro e neo paulista Affonso Romero. O texto de hoje é um resumo do que a capital paulistana pode oferecer em termos culturais. Ressalto que o Rio de Janeiro também possui uma série de boas opções culturais e preço acessível.

O curioso é que vou à capital paulista há mais de vinte anos e conheço pouquíssimo a cidade. Mas se o leitor me permite uma dica, o bar "FrangÓ", na Freguesia do Ò, oferece uma boa carta de cervejas e um bom galeto. Vale a visita.

"Sobretudo - Diversidade Cultural

Em São Paulo não falta o que fazer. Muito constantemente, falta tempo para fazer tudo o que se oferece. Luiz, amigo de longa data, do Rio de Janeiro, me liga e pergunta o que mais há de bom para se ver em São Paulo no final de semana do show do Paul McCartney. Respondo de imediato:

- Ora, tudo...
- Especificamente...
- O de sempre, Luiz. Teatro, shows, galerias, museus.
- A Bienal, você foi à Bienal?
- Luiz, você sabe, eu acho que artes plásticas são um perigo. Atualmente, pode tudo, eu me sinto meio burro, acabo não compreendendo a profundidade da mensagem do autor - respondi, não resistindo a uma dose de ironia.
- Bem, arranjo companhia e vou à Bienal. O que mais você me indica?
- Venha para cá e compre algum guia de final de semana. Folha, Estadão e Vejinha têm dicas melhores que as minhas.

Não foi isso que o Luiz fez. Veio no sábado, encontrou com outros amigos que tinham sugestões mais práticas e diretas, além de morarem mais próximos à área central da metrópole. Seu ingresso para o Paul era apenas para segunda-feira, então ele teve dois dias para aproveitar algumas das opções paulistanas. No domingo pela manhã, ele foi à Bienal com nossa amiga Guta. 

Encontrei-os na hora do almoço, na Liberdade. Contaram que a Bienal poderia ter sido montada no YouTube, tantos eram os trabalhos para vídeo na mostra do Pavilhão do Ibirapuera. Subimos a Rua Galvão Bueno papeando sobre isto, paramos em várias lojinhas de importados, inclusive uma em que cada um de nós comprou uma bata chinesa. Luiz também comprou alguns DVDs piratas do Kurosawa numa das centenas de bancas de camelôs que vendem produtos culturais japoneses, digamos, paralelos.

Ainda encontramos, na Praça da Liberdade, outros amigos cariocas que iriam ao show dominical do Macca e bebemos um café. Guta seguiu para seu plantão de jornalista, dei caronas ao Luiz até o MASP e ao Heitor até uma estação de trem, para que seguisse ao Morumbi. Voltei ao ABC para tomar um banho e retornar à Paulista com a Mara. Tínhamos ingressos para o teatro.

Na verdade, minha sugestão inicial ao Luiz havia sido tão inespecífica porque eu já tinha programação para aqueles dias, mas conhecendo o gosto pessoal do meu amigo, sabia que as possibilidades eram mínimas de que algo que eu fosse fazer pudesse agradá-lo. Além do quê, tenho aproveitado algumas ofertas de ingressos de oportunidade, sejam promoções, sorteios, vendas com preço rebaixado, convênios, promoções, sites de descontos, de modo que fica meio complicado conseguir um ingresso extra em cima da hora. Daquela semana para cá, eu e Mara não paramos em casa. E gastamos muito pouco para isso.

Para que o caro leitor tenha uma idéia da variedade de opções, vou dar alguns exemplos do que temos feito, atividades para gostos variados.

Sexta-feira, 20/11 - Harry Potter e as Relíquias da Morte parte 1 – Acho muito interessante a série de filmes sobre o pequeno bruxo (agora, já não tão pequeno). Não é exatamente uma história especialmente ousada, não é cinema-arte, mas é diversão de boa qualidade. Um dos trunfos é que a série supostamente infanto-juvenil, tanto nos livros quanto no cinema, é palatável ao público adulto. Esta tendência é intensificada por este recente capítulo, a primeira parte da conclusão da história, cujo clima destoa de todos os outros filmes, sendo mais sombrio. Quase um filme de terror, e eu imagino que as crianças fiquem realmente assustadas. No entanto, para o público mais maduro, ou aquele que cresceu junto com os personagens da saga, o filma agrada justamente por ser mais denso. Para os fãs, é imperdível e dá um gosto de “quero mais”. Para quem vai ao cinema só para acompanhar um fã, vale se informar sobre as circunstâncias da historinha e entrar no embalo de um filme bem realizado.

Sábado, 21/11 – Churrasco, funk e quase samba – Churrasco de final de ano da empresa é uma dessas obrigações que embotam um pouco o calendário de novembro e dezembro. No meu caso, como trabalhamos com um exército de terceirizados que eu ajudo a coordenar, tenho sempre dois desses churrascos: o dos terceirizados e o do departamento propriamente dito. No dia 21, tivemos o evento dos terceirizados. Poderia ser só um compromisso social, mas alguém sempre tem a infeliz idéia de levar um equipamento de som. A trilha sonora foi de fazer rezar para uma falta de energia elétrica, se é que o amigo leitor me compreende. No final, fomos convidados a uma roda de samba que aconteceria no mesmo local, na sequência. Foi com alívio que lembrei que tinha ingressos para um show de rock à noite e (que chato!) não pude ficar.

Sábado, 21/11 - Ultraje a Rigor, SESC Santo André – Que coisa divertida relembrar os anos 80 na companhia de Roger e seus discípulos. Uma massa sonora modulada em três acordes dominou o espaço de eventos do Sesc, sem sutilezas, sem tempo para respirar. Foram quase duas horas seguidas de rock básico. Além de desfilar todos os seus grandes sucessos, o Ultraje ainda fez citações no mesmo tom, como o igualmente divertido Ramones.

Domingo, 22/11 - Toc-Toc, Teatro Gazeta – Num domingo absolutamente corrido, em que fui e voltei duas vezes do ABC ao Centro de São Paulo, fomos ver a despedida do mega-sucesso Toc-Toc no ano de 2010. A peça é uma engraçada e desenfreada abordagem das manias dos portadores de transtorno obsessivo–compulsivo, um texto e montagem absolutamente populares, quase popularesca. Funciona bem, principalmente se você estiver avisado do que se trata e quiser apenas diversão. O elenco, sem estrelas televisivas, é correto. Uma coisa louvável é a capacidade de textos assim de levar públicos imensos ao teatro, revigorando a arte e abrindo portas a novas platéias que, adiante, quem sabe, podem vir a se interessar por temas mais densos.  

Domingo, 22/11 - Paul McCartney, TV Globo – Voltamos para casa a tempo de vermos a transmissão da Rede Globo do primeiro show paulistano de Paul McCartney. Só não foi mais decepcionante porque eu já não espero nada da Globo quando ela conquista o direito de transmissão deste tipo de evento. Fui ver o Paul no Maracanã há uns 20 anos. Então, não me empolguei de pagar uma pequena fortuna para ficar a centenas de metros do palco sentindo dores nas pernas. Alguns vão a Mecca, eu já havia visitado Macca. Pelo que vi pela televisão, o tempo passou também para o genial cantor-baixista-compositor inglês. Deve ser mesmo difícil manter o pique e a voz num espetáculo de mais de duas horas e meia para um senhor de quase 70 anos. 

Macca, sempre simpático, enfrenta a maratona cantando tudo nos tons originais. Não faz feio, muito pelo contrário; mas tampouco consegue o mesmo efeito que eu presenciei há duas décadas atrás. No entanto, o repertório é impecável, alternando os principais hits da carreira solo de Paul com os sucessos inesquecíveis dos Beatles, além de pequenas e sinceras homenagens a Lennon e Harrison. E a Globo, como sempre, resolve cortar tudo, sumir com mais de uma hora do concerto original, como se algum espectador pudesse ter pressa para degustar uma maravilha assim.

Segunda e terça-feira, 23 e 24/11
- Paul McCartney em DVD – Fiquei tão chateado por não ver de casa o show inteiro que desencavei do fundo do baú os dois últimos DVDs lançados de Paul, que eu tenho em casa. Vi um em cada dia do início da semana: Paul in Red Square e Back in U.S. O primeiro mostra o show na Praça Vermelha, em Moscou, tendo o Kremlin de cenário. O segundo é um show-documentário da mega-excursão feita pelos Estados Unidos. Em ambos os DVDs, a banda era idêntica àquela que esteve agora no Brasil (destaque para o baterista e backing vocal Abraham Laboriel Jr, filho do consagrado baixista de jazz) e o repertório praticamente o mesmo. Exceto pelas homenagens aos ex-companheiros de Beatles falecidos, e que a Globo também não colocou no ar. É ou não é para querer explodir a emissora dos Marinho? De toda forma, recomendo fortemente os DVDs para quem foi ou não ao Morumbi.

Sexta-feira, 26/11 - JazzSinfônica+Richard Galiano no Auditório Ibirapuera – Segundo encontro seguido, em menos de dois anos, entre a orquestra paulista e o arcodeonista francês que introduziu este instrumento no jazz. O concerto se iniciou com três peças do argentino Astor Piazzolla, inclusive uma emocionante versão de Adiós Noniño, e seguiu com uma homenagem a Tom Jobim, passeando pelos principais temas do compositor carioca. A maioria dos arranjos, por escolha de Galiano, foi dos maestro Cyro Pereira. Diferentemente do recente Porgy and Bess, que comentamos aqui, o concerto deste mês não chegou a empolgar, apesar de correto e pleno de beleza musical. Vamos tentar voltar a ver a JazzSinfônica aqui no ABC antes do final do ano.

Sábado, 27/11 - Lô Borges, SESC Santo André – Se você gosta do repertório da música mineira dos anos 70, que fez a fusão entre as influências do pop-rock internacional e do jazz na MPB tradicional, assistir a um show do cantor e compositor Lô Borges tem tudo para ser uma boa experiência. Tudo menos uma banda à altura das canções e arranjos originais. Lô, como se sabe, é tímido. Sendo assim, deve se sentir mais à vontade cercado de amigos, mas bem que poderia arrumar amigos dotados de mais recursos musicais. O show não chegou a ser uma decepção, ainda que Lô estivesse gripado, exatamente porque o público se empolga e participa cantando junto, e é possível esquecer um pouco a baixa qualidade da execução quase colegial. Vale mais pelo clima.

Domingo, 28/11 - Cândida, de Bernard Shaw, Teatro Augusta – Texto brilhante do autor inglês, versa sobre as idiossincrasias da sociedade vitoriana no final do século XIX, contando a história do inusitado triângulo amoroso entre um pastor, sua bela esposa e um jovem pupilo aparentemente frágil e endinheirado. Elenco em grande forma, inclusive Bia Siedl no papel-título. A nota triste fica pelo contraste de público rarefeito em relação à Toc-Toc. Ao que parece, o público está a procura de textos mais aguados. E, no entanto, o Shaw pode ser tão divertido e engraçado quanto um texto mais popular, bastaria ao púbico se dar o direito e experimentar.

Quinta-feira, 2/12 - Bailão do Ruivão, cd de Nando Reis – O ex-Titã tocava na cidade e nós quase fomos ao Citibank Hall (ou seria Credicard, ou qualquer outra marca do mercado financeiro). Como estávamos cansados de tanta rua e temerosos das chuvas que andam alagando Sampa, ficamos em casa, mas eu dediquei algum tempo para ouvir com atenção ao novo disco de Nando Reis. O cantor deixou de lado suas composições próprias e montou um show-disco-dvd com sucessos absolutamente inusitados de outros autores. Vale o passeio pela diversidade e, só para se ter uma idéia, o repertório inclui até uma interpretação de Chorando se Foi com a participação de Chimbinha e Joelma da Banda Calypso. Este é o extremo a que Nando se permite. De uma maneira geral, o disco soa como uma grande festa-show, ou, como fez-se questão de frisar já no título, um bailão de verdade.

Sexta-feira, 3/12 - Churrasco do Departamento – Segunda versão da via-crucis de final de ano. A diferença é que, desta vez, nos esquecemos propositadamente do maldito aparelhinho de som. Quanta diferença! Pessoas puderam se conhecer melhor fora do ambiente de trabalho, carne e caipirinha bem feitas foram brindadas pela ausência de pagodes e pseudo-funks. O combinado era eu sair cedo, porque tínhamos ingressos comprados para o teatro.

Sexta-feira, 3/12 - Simplesmente Eu, Clarisse Lispector, Teatro Renaissance -  Era o compromisso pós-churrasco. Mas faltamos. Choveu um pouco e a Mara ficou com preguiça de vir até a região central de São Paulo para me encontrar. Não retirei aqui do roteiro, porque pretendo remarcar, já que a montagem, uma coletânea de textos da poetisa ucraniano-brasileira está sendo elogiadíssima pela crítica, incluindo-se a atuação de Beth Goulart como Clarisse. De antemão, fica a indicação.

Sábado, 4/12 - Tango, Uma Paixão - Teatro Municipal de Mauá – Eu sempre fugi desses shows para turistas em Buenos Aires como o diabo da cruz. Mas o espetáculo serviu para matar minhas saudades do climão trágico do tango portenho. Ainda prefiro caminhar pelas ruas de Baires ouvindo casualmente a música local, passando por casais que se apresentam nas calçadas a troco de contribuições solidárias e freqüentando os fins de tarde na Confiteria Ideal, onde amadores setentões bailam informalmente. Mas o show tem bons dançarinos, cantores simpáticos e músicos bastante competentes que desfilaram clássicos. Valeu, sobretudo, pelo esforço em apresentarem uma Argentina calorosa e as versões instrumentais do Piazzolla. Interessante a interpretação tangueira de Tico-Tico no Fubá.

Domingo, 5/12 - Concerto de Natal dos Corais da OSESP - Sala São Paulo – Já tradicional concerto natalino em que os corais infantil, juvenil e adulto da Sinfônica de São Paulo recebem seu público no domingo pela manhã para o encerramento do ciclo anual. Brilhante e emocionante, fugindo das mesmices no repertório, que vai num crescendo até o clímax em que os coros cantam juntos no palco da Sala São Paulo.

Domingo, 5/12 – Decoração de Natal da Av.Paulista – Antes de voltarmos para casa, passamos pela Paulista para um almoço em família e aproveitamos para conhecer a decoração de Natal da avenida. A novidade este ano é uma passarela com enfeites e presépios quase em frente ao Conjunto Nacional, onde será também o palco do show de réveillon. Aos que moram ou visitarão Sampa até o Natal, recomendo uma ida até lá. Se você aproveitar e der uma olhada nas estantes da Livraria Cultura, como fizemos, o programa fica perfeito.

Bem, houve atividades de todos os tipos e gêneros nestas últimas semanas. Se eu ficasse esperando fechar o ciclo até escrever esta coluna, ficaríamos sem contato até o ano que vem. Porque dezembro mal está começando, e já há muito mais o que fazer antes da ceia de Natal. Temos ainda algumas opções, entre concertos, filmes, peças e um jantar japonês que eu já comprei num desses sites de desconto. Quando eu morei em São Paulo há 20 anos, já havia muita atividade cultural na cidade. Mas era praticamente impossível sair de casa sem gastar muito dinheiro. Esta é uma grande mudança, a cultura ficou mais acessível e só fica em casa quem quer. Até a próxima, com mais mini-resenhas."


domingo, 18 de abril de 2010

O Estado Paralelo do Futebol


Domingo, dia de bons textos publicados na chamada "blogosfera" e reproduzidos aqui.

Hoje transcrevo artigo do jornalista Lúcio de Castro, em seu blog na homepage da ESPN - link à direita  aqui mesmo no blog - com uma análise muito interessante dos movimentos periféricos à recente eleição do Clube dos Treze.

Obviamente, a foto de Al Capone é para "abençoar" os nossos cartolas...

"Dentro das quatro linhas o futebol brasileiro insiste em renovar nossas esperanças, paixões e alegrias. Quando alguém imagina que a fábrica secou, surge um Neymar e restitui a velha chama que faz esse jogo ser parte da nossa identidade, que faz nos enxergarmos no moleque magrelo que pode ludibriar com ginga e malícia o grandalhão. Mas os últimos acontecimentos fora dos campos não podem passar em branco. Tampouco serem dissociados um dos outros. E muito menos serem encarados e analisados isoladamente.

Vamos aos fatos das últimas semanas e veremos que os acontecimentos não podem ser isolados e dizem muita coisa. E apontam preocupantemente para a queda dos últimos resquícios de preocupação com a lei, a normalidade e qualquer possibilidade de que ilegalidades venham a ser combatidas e punidas.

Pois então vejamos: não foi normal o ritmos dos acontecimentos, que se sucederam alucinadamente. Vamos a eles, usando como recorte de tempo os momentos do ataque final da candidatura de Kléber Leite no Clube dos 13 para cá.

No dia 23 de março, contei nesse espaço sobre a articulação que unia a Santíssima Trindade: Ricardo Teixeira, Kléber Leite, e Rede Globo/Globo Esportes a abençoar a união como detentora dos direitos de transmissão do campeonato brasileiro. Uma união para tomar o poder do Clube dos 13, com tudo o que isso implica em termos de poder sobre os clubes e direitos de transmissão já referidos.

Tomemos essa data como largada então. De lá pra cá, o que vimos foi uma série de acordos nas trevas para mudança de votos, empréstimos, promessas, traições. O desdobramento disso tudo se deu em ritmo alucinante, não perca o fôlego: vinganças, retaliações, notícias vazadas como instrumento de pressão, ameaças. Coincidentemente, ao mesmo tempo em que o São Paulo confirmava o seu voto para Fábio Koff no C13, a Fifa (!) descartava o Morumbi da Copa do Mundo em definitivo (!?...,assim, como todas as pontuações que a afirmação pede). E a notícia vazava estrategicamente.

Mais dois dias, e foi a vez do Flamengo ver uma questão insuportável, que se arrasta há anos e não tem o menor sentido, se voltar contra ele. O Flamengo que através da presidenta Patrícia Amorim votou contra a Santíssima Trindade. E o corintiano Andres Sanchez, em cima dos acontecimentos, fiel escudeiro, foi anunciado chefe da delegação na Copa. Muita coisa em tão pouco tempo...Ainda veremos aqui onde isso tudo pode dar ou não dar. Mas antes vale a pena refletir sobre o modus operandi que moveu todas essas ações.

Retaliações, vinganças, casuísmos ao arrepio da lei, execuções de ações ao sabor de vontades próprias são características que apontam para um único caminho, que olhar para o passado nos faz enxergar: o despotismo, o absolutismo. E mais do que isso: todo déspota, com o andar da carruagem de seu tempo no poder, torna-se cada vez mais capaz de tomar as atitudes mais sem sentido, mais bizarras, mais ao arrepio da lei. Como ninguém o contraria, e todos os mecanismos de controle estão aos seus pés, seguidamente bota esses pés pelas mãos. Seu prazer começa a ser mostrar que pode fazer o que quiser. Sempre com alguém a cortejar e aplaudir.

É por isso tudo que chego aqui: os últimos acontecimentos não podem ser levados como mais alguns de tantos do futebol brasileiro. A incrível sequencia, em tão pouco tempo, de gestos tão significativos, envolvendo a vida de tanta gente (a maior cidade do país; a maior torcida do país), mostram que já chegamos a esse ponto de total piração, quase aquele em que Nero botou fogo em Roma.

E são estes últimos gestos que apontam para algo mais preocupante: o que vem por aí? Com Copa do Mundo de 2014 no radar, poder total na mão de quem tem acendido o fósforo e dado gargalhadas, o que vem por aí?

Isso é ainda mais grave. Não sou um cientista político, não me arriscaria em análise maior, mas acho que já é hora de demais setores da sociedade e não só nós nos debates esportivos, espicharem o olhar para o que está acontecendo fora dos campos em nosso futebol. Pois se a jovem democracia brasileira (apesar de seguir vacilante e frouxa quanto ao seu dever de investigar os criminosos da ditadura), apesar dos pesares, mostra seguidamente sua solidez e a maturidade das suas instituições, parece que estamos vendo surgir um estado dentro do estado. Um estado chamado futebol, onde tudo é possível, e onde essas instituições republicanas não conseguem penetrar, permitindo tal absolutismo.

No estado chamado futebol, não conseguem penetrar ou são cooptados boa parte do judiciário, do legislativo, e mais ainda o executivo. Mesmo instituições que tanto nos orgulham tantas vezes como Polícia Federal e Ministérios Públicos parecem longe desse reino chamado futebol e seu rei.

Para completar o quadro que parece botar nossa sólida democracia em xeque, entra a outra ponta disso tudo, a que sempre tem papel preponderante como oposição aos absolutismos: a imprensa livre. Pois se as duras penas a geração anterior conquistou e solidificou a imprensa livre e combativa, no reino do futebol e estado paralelo isso ainda vai longe. Com direitos de transmissão tão polpudos em jogo, não me falem no Granma, no Diário de Pyonyang ou nas TVs de Hugo Chaves. Quando o assunto é o estado paralelo do futebol, não ficamos longe de nenhum deles e sua chapa-branca de uma maneira geral, e por quem tem maior penetração e força.

Então, é ou não é um estado paralelo ao da democracia brasileira, e onde nossas instituições tão saudáveis não conseguem entrar? Nos próximos dias, Copa chegando, teremos certamente aquela matéria de todas as Copas: “juízes viajam como convidados da CBF”. É só aguardar, aceito apostas para ver quando vai sair. (Em geral é do mesmo autor: meu amigo e ídolo Chico Otávio, mestre dos mestres dos repórteres de minha geração. Dou o resto e aceito as apostas!).

Tudo é muito grave. E enquanto alguns seguem achando bonitinho discutir quem é o dono das bolinhas, o bicho tá pegando nas trevas do estado paralelo do futebol. Os últimos acontecimentos, a serem vistos em bloco, não deixam dúvida.

O outro lado disso tudo é o seguinte: todo império tem seu fim. Geralmente é quando os déspotas piram e se acham maiores que Deus, ou o próprio. Aconteceu algo bem significativo nessas eleições: um racha com forças maiores por trás. Como bem disse João Palomino esta semana, a tendência é que as coisas se realinhem, e tudo fique como está no estado paralelo. Mas pode ser que não... E pela primeira vez surge isso no fim do túnel.

E sabem o que pode significar o não realinhamento de Koff com a Santíssima Trindade? Renegociação de direitos de transmissão. Se a centelha for acesa, vai dar uma explosão nuclear no futebol, uma tsunami, com novas configurações para esse estado até aqui paralelo. O Bispo tá com a sacola cheia de verdes esperando o caldeirão ferver...E aí, amigo, é como uma revolução quando explode: as coisas vão perdendo a lógica, tudo pode acontecer.

O aliado de ontem vira inimigo do rei, aqueles programas com matérias investigativas de casarão em Angra e Miami voltam a ser feitos, xiiii...A ver...

De qualquer forma, os últimos dias do futebol brasileiro não podem passar em branco sem outras análises mais aprofundadas. Um terremoto pode estar no horizonte. Pode não acontecer nada, mas na dúvida, consultem o Chico Buarque. Aquele que já manifestou a necessidade de um “Ministério do Vai dar Merda”, pra que alguém avise a iminência da tsunami com alguma antecedência."

domingo, 20 de dezembro de 2009

Afogaram os pobres


Durante a semana a Rede Record repercutiu em seu jornal noturno o fato de que comunidades da Zona Leste paulistana continuam debaixo d´água após as últimas chuvas.

Domingo é dia de repercutir bons textos. Selecionei dois textos do jornalista Luiz Carlos Azenha sobre a situação, publicado em seu ótimo Viomundo. Coloco também uma matéria do Uol relatando que houve uma opção deliberada por alagar estas áreas - o que é um escândalo.

Vamos aos textos, que relacionam (des)políticas públicas, cobertura da imprensa e velhas políticas de remoção de pobres.

Combater as enchentes punindo as vítimas

"O prefeito Gilberto Kassab anunciou planos para combater as enchentes... punindo as vítimas. Encheu? É só retirar os moradores. Combater as causas do transbordamento do rio Tietê? Dá trabalho. Exige criatividade. Projeto de longo prazo. Portanto, é mais fácil remover as vítimas.

Sim, sim, sei que muitos ambientalistas acreditam que a solução é dar espaço ao rio para transbordar. Quem sabe, demolir a marginal do Tietê. E fazer um imenso parque nas margens do rio. Acho que, a longo prazo, deveria ser mesmo esse o objetivo.

Como solução para a enchente de um bairro, que persiste dias depois que o rio Tietê transbordou, o prefeito Kassab anunciou a antecipação do projeto para fazer um parque. Que vai exigir a remoção de alguns milhares de moradores. As vítimas das enchentes.

Notem, no entanto, que o prefeito não falou em outras medidas: os clubes que ficam às margens do rio, em terrenos públicos, serão retirados? Alguma medida para evitar as construções de grandes condomínios próximos à marginal? É óbvio que não, né?

Ou seja, sob o manto do ambientalismo, o que o prefeito e o governador José Serra estão promovendo é a "limpeza" dos pobres da região. Como sempre, a corda estoura do lado do mais fraco. Os ambientalistas vão saudar o prefeito, que teria dado um passo na direção certa. Vamos esperar, agora, pelos anúncios de novos empreendimentos às margens da marginal. Publicados nos mesmos jornais que vão festejar o prefeito e o governador por terem dado "um passo na direção certa".


Ali Kamel inunda os pobres
 
Não foi por opção pessoal, mas por obrigação profissional. Vi a cobertura do Jornal Nacional sobre as novas enchentes em São Paulo, na quarta-feira (16).

Choveu muito. Choveu torrencialmente. Choveu oito dias em quatro horas, de acordo com o JN.

O JN dedicou boa parte das reportagens, com gráficos e tudo, a provar que os pobres invadiram o Jardim Pantanal e, portanto, merecem o que estão sofrendo.

Sim, sim, os pobres da zona Leste de fato invadiram as várzeas do Tietê. Mas, não foram os únicos. São Paulo fez oficialmente a opção de ocupar as várzeas do rio Tietê quando construiu a marginal Tietê sobre as várzeas que serviam para a expansão do rio durante a cheia.

Ali Kamel, não o ator pornô, o guia do Jornalismo Nacional, reprisou em São Paulo a teoria que gosta de pregar, sempre de forma dissimulada, no Rio de Janeiro: a remoção dos pobres.

Eles são um estorvo. Poluem o cenário.

A certa altura o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, aparece na reportagem para dizer que não pretende mais bombear as águas do lugar alagado. Na singela explicação para o descumprimento da promessa, uma fala risível: se a gente tirar a água, mais água vem. Ora, ele não deveria ter pensado nisso antes de fazer a promessa?

Chove muito. Os pobres estão onde não deveriam estar. E sofrem por isso.

Essa é a lógica da cobertura do Jornal Nacional: culpar a população.

Assim como o governador de São Paulo, quando fala no assunto, enfatiza: a culpa é da população, que joga lixo na rua.

Aliás, onde anda o governador José Serra? Ah, sim, não vale misturar o governador com assuntos tão prosaicos como a limpeza da calha do Tietê, uma verdadeira desocupação das várzeas que atinja também os ricos ou um sistema de controle de vazão dos rios Tietê e Pinheiros que não puna apenas os bairros pobres.

Ele está em Copenhague, resolvendo os problemas climáticos do planeta.


Comportas fechadas na barragem da Penha para proteger a marginal ajudaram a alagar a zona leste
 

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias


Em São Paulo

As seis comportas da barragem da Penha, na zona leste de São Paulo, foram completamente fechadas às 2h50 do dia 8 de dezembro, dia em que a cidade enfrentou fortes temporais e viu diversos pontos alagarem como há muito tempo não se via. Somente dois dias depois, às 17h20, todas as comportas foram abertas. Os dados, fornecidos pelo engenheiro responsável pela barragem, João Sérgio, indicam que houve uma clara escolha da empresa responsável: alagar os bairros pobres da zona leste para evitar o alagamento das marginais e do Cebolão, conjunto de obras que fica no encontro dos rios Tietê e Pinheiros.

"Mesmo fechando as comportas, encheu o [córrego] Aricanduva. Se eu não tivesse fechado aqui, teria alagado as marginais e toda São Paulo", justificou Sérgio, que explicou que a decisão vem da direção da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia). Ele acrescentou ainda que no dia 9 duas comportas foram abertas às 10h10 e mais duas às 21h.

O engenheiro argumenta que cada barragem (são quatro em São Paulo: Móvel, Penha, Mogi das Cruzes, Ponte Nova) é responsável apenas por administrar o fluxo de água do local e não sabe o que acontece nos outros pontos, porque não há comunicação. Mas ele acredita que as comportas foram abertas nas barragens de cima, em Mogi, e isso influenciou no alagamento da região da zona leste.

"Não recebo informações de outras barragens. As de cima são administradas pela Sabesp e as de baixo pela Emae. Eu só respondo por essa barragem e às ordens da Emae", disse. "Também acho estranho o nível da água não baixar aqui e não sei por que está indo para os bairros, mas não precisa ser especialista para ver que está assoreado [o rio]".

Ele trabalha há quase 15 anos no local e conta que desde o governo de Orestes Quércia (1987-1991) não são colocadas dragas para desassorear o rio na parte que fica acima da barragem. "O governo tentou colocar de novo, mas a própria Secretaria de Meio Ambiente não deixou, porque não tinha bota-fora [local para despejar a terra retirada]", afirmou.

O desassoreamento do rio daria mais velocidade ao escoamento da água e aumentaria a área de reserva de água perto da barragem, o que impediria o transbordamento para os bairros adjacentes.

Para Ronaldo Delfino de Souza, coordenador do Movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal, o governo fez uma opção. "Ou alagava a marginal ou matava as pessoas no Pantanal. E matou", disse. "E ainda bota a culpa nas moradias. O Estado só se preocupa com o escoamento de mercadorias, só pensa em rodovia. Vida humana não importa".

Moradores e deputados estaduais fizeram nesta quarta-feira (17) uma inspeção no local para saber se a abertura das comportas tinha relação com o alagamento no Jardim Romano e no Jardim Pantanal, que já dura nove dias.

O movimento, formado por moradores de diversos bairros localizado na várzea do rio Tietê, acusa o governo do Estado e a prefeitura de manterem a água represada além do necessário como forma de obrigar as famílias a deixarem a região, onde será construído o Parque Linear da Várzea do Rio Tietê. Há anos, os moradores resistem em sair dali, porque dizem que o governo não apresenta um projeto habitacional concreto e apenas oferece uma bolsa-aluguel.

"Não era para as máquinas estarem trabalhando aqui? Cadê? Não tem um funcionário do governo aqui", reclamou, apontando para as ilhas que aparecem no meio do rio, logo acima da barragem da Penha. As dragas são vistas somente na parte de baixo da construção.

"Os córregos do Pantanal já estavam muito cheios três dias antes da chuva. Como não abriram a barragem sabendo que ia chover?", perguntou Souza, indignado. "O que a gente viu aqui é que não houve possibilidade de escoamento, porque a água ultrapassou o nível das comportas e não tinha velocidade para descer, não tinha gravidade", concluiu.

Segundo os registros da barragem, no dia 8 a água ficou acima do nível das comportas por 5 a 6 horas. Sérgio explicou que a queda do rio Tietê é de apenas 4% e por isso a vazão demora cerca de 72 horas desde a barragem de Mogi das Cruzes até o centro da cidade -- isso sem chuva. "É demorado, sempre foi", disse.

"Imagina o que uma hora de comportas fechadas não faz de estrago lá no Pantanal", falou Souza, diante dos dados. "Se fecha aqui, a água para de novo, perde velocidade e vai demorar mais 72 horas para descer", afirmou.

Os deputados estaduais que acompanharam a inspeção concordam con a teoria dos moradores. "Foi feita uma escolha e a corda estourou do lado mais fraco", afirmou o deputado estadual Raul Marcelo (PSOL). "É uma questão grave. A falta de comunicação e de um gerenciamento unificado são prova de uma falta de governância e de um planejamento na administração das barragens, o que levou, em grande parte, ao fato do bairro do Pantanal ter sido alagado".

"Há uma estranha coincidência de que no momento da desocupação há um alagamento desses e ninguém consegue escoar a água. Não havia uma inundação dessas há 15 anos e o nível das águas está subindo mesmo sem chuva. É muito estranho e as autoridades têm que explicar", completou o deputado estadual Adriano Diogo (PT).

Eles farão um relatório sobre a inspeção e pretendem denunciar o caso, junto com a situação da estação de tratamento de esgoto, aos Ministérios Públicos Estadual e Federal."