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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Bissexta - "Universidades Públicas – Vagas Para Brancos e Ricos"


Nesta quinta, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, fala sobre o recente projeto de lei aprovado que versa sobre as cotas nas universidades públicas. É artigo que eu assinaria de ponta a ponta.

Me recordo de que saí de um colégio público para a prestigiosa Economia da UFRJ, mas fiz Colégio Pedro II, que é uma exceção no quadro geral.

Universidades Públicas – Vagas Para Brancos e Ricos

O Senado Federal acaba de aprovar um projeto de lei que reserva 50% das vagas para estudantes egressos da rede pública de ensino. Dentro dessas vagas, há um conjunto de regras que tratam de questões especiais, criando cotas para negros, pardos, índios e estudantes com renda inferior a 1,5 salário mínimo per capita. O projeto é fruto de um acordo entre as principais lideranças políticas, tanto do governo quanto da oposição.

De quebra, serve para amenizar as críticas dos opositores das cotas raciais, que sempre tiravam da cartola o argumento de que não há racismo ou negros no Brasil e que, se cota houvesse, esta deveria ser de origem social, jamais racial.

Pois seja feita a vossa vontade: as cotas agora são, prioritariamente, de origem social (o ensino público) e há, digamos assim, “sub-cotas”, pois parte da metade reservada deverá ser preenchida por critérios raciais e de renda. Negros mais aquinhoados – ou seja, vindos das escolas particulares – perdem o direito à cota.

Se todos os que se opunham as cotas raciais estivessem sendo sinceros quando advogavam sua substituição por cotas econômicas o debate deveria ter se encerrado.

Mas, ao contrário, ele ressurgiu com muito mais força. Porque, claro, estavam todos mentindo. O sonho da elite brasileira é sempre o mesmo: manter as universidades públicas como um espaço amplamente dominado por brancos ricos. “Ricos” entre aspas, significando gente que teve condições de estudar a vida inteira em escolas de elite.

Eu fiz minha graduação em uma universidade pública e fiz alguns cursos de pós graduação, uns em universidades públicas, outro em privadas. De forma empírica, afirmo que não há muita diferença na qualidade de ensino entre as boas universidades particulares e as públicas. Há professores talentosos e medíocres em ambas, que são igualmente lenientes na cobrança séria de rotinas de estudo mais avançado - o que nivela por baixo o serviço educacional. Contudo, em termos de instalações físicas, todas as universidades privadas onde estudei são muito superiores às públicas.

Ora, se o ensino é semelhante, mas as privadas levam imensa vantagem no conforto proporcionado aos alunos (o que, convenhamos, tem lá sua influência no aprendizado), por que razão gente que tem dinheiro para pagar o ensino superior faz tanta questão de ir estudar de graça na rede pública?

Não é por dinheiro, creio. Tenho uma filha de 14 anos, que cursa o primeiro ano do ensino médio e faço contagem regressiva do dia em que ela for para a universidade, porque mesmo que ela vá para a PUC ainda assim economizarei uma boa grana na mensalidade. Custa muito mais caro colocar os filhos em escolas de elite do que em universidades particulares.

O que alimenta o desejo de estudar em universidade pública é o que eu chamo de “inclusão intelectual”.

Nos cursos mais disputados e nas universidades de mais prestígio, é difícil entrar.  Em termos gerais, as vagas ofertadas atendem a 10% da procura, mas há casos em que a concorrência é ainda maior. Na minha antiga faculdade, há pouco mais de 300 vagas e quase 5.000 candidatos.

Logo, quem entra em um curso desses – e, melhor ainda, quem sai de lá formado – ganha uma espécie de selo de reconhecimento para o resto da vida. Toda vez que eu conheço um advogado e descobrimos que ambos viemos da UERJ, há uma identificação imediata e o mútuo respeito se estabelece. Não raro ainda vem a segunda parte da pergunta: manhã ou tarde? Sim, porque sendo o turno da manhã mais disputado, ali estão os alunos que atingiram as melhores colocações no sistema de acesso.

Minha turma tinha 70 alunos, mas me lembro bem de uns 50 e tantos, que foram os que se formaram comigo. Não me recordo de nenhum negro, de nenhum pobre e de ninguém que morasse longe. Claro, estudávamos pela manhã, ninguém precisava trabalhar para reforçar o orçamento doméstico, nos contentávamos com estágios vespertinos. E que a memória não me traia, mas vínhamos todos de escolas particulares.

A Constituição do Rio de Janeiro determina que o estado repasse à UERJ 6% de sua receita - o que nem sempre é cumprido, revelando mais uma faceta curiosa da administração pública, que faz pouco caso da lei maior. Convenhamos: é dinheiro para caramba, para menos de 20.000 alunos. Simplificando muito (inclusive porque tem o hospital universitário no meio desta verba), daria para dizer que a população fluminense gasta mais de R$ 4 mil por mês com cada aluno.

Ora, se são os cidadãos brasileiros quem patrocinam com o suado dinheiro dos impostos as universidades públicas, qual a razão de causar tanto espanto que se introduzam mecanismos de inclusão para a maioria da população? Afinal, dados do MEC revelam que menos de 10% dos alunos brasileiros vêm de escolas particulares. Logo, ao competirem por metade das vagas, eles ainda terão uma concorrência muito menor do que a turma da rede pública na outra metade.

Mas a elite brasileira sabe se defender muito bem. Bastou o projeto ser aprovado que a gritaria começou. As escolas particulares prometem entrar na Justiça para combater a nova lei. O presidente da entidade que as reúne, depois de todo aquele lenga-lenga de que é preciso “melhorar a qualidade da rede pública para dar igualdade de condições aos meninos”, disse que não se pode “fechar a entrada dos alunos das escolas particulares”, fazendo do exagero retórico uma verdade absoluta.

Riquinhos do meu Brasil (ok, eu tô aí nesse bolo), façamos assim: quem sabe agora vocês não param de gastar uma fortuna nessas escolas metidas à besta com o objetivo único de garantir aos filhos um passaporte para uma universidade pública e passem a considerar a chance de colocar os filhos na escola pública?

Chega de faculdades públicas de população hegemônica (e bem nascida). Diversidade faz bem e não há lugar melhor que uma universidade para aprender a exercer a convivência entre diferentes.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Degustação de Cervejas e Cultura Cervejeira


No post de ontem havia escrito que ainda faltava o sábado, onde estive em Campinas para fazer o curso de "Degustação de Cervejas e Cultura Cervejeira" ministrado pelo Mestre em Estilos de Cerveja e Avaliação Maurício Beltramelli, uma das maiores autoridades brasileiras no assunto - e já entrevistado neste blog anteriormente.

Então hoje temos o relato do agradável dia transcorrido em Campinas, nas dependências do Bar Brejas. Além do bar há um espaço reservado a eventos onde se transcorreu a parte teórica do curso, dividido em dois módulos: o de cultura cervejeira e o de degustação.

Éramos aproximadamente 25 participantes, curiosamente praticamente todos de fora de Campinas. Somente aqui do Rio haviam cerca de dez, inclusive o pessoal das lojas de venda de cervejas online Beer Shop e Cerveja Social Clube. 90% do grupo já tinha conhecimento prévio da cultura cervejeira, o que segundo o próprio Beltramelli era um grupo bastante diferente de outros que ele já havia ministrado o curso - era a oitava turma.

No primeiro módulo, teórico, Beltramelli sistematiza a história da cerveja desde os primeiros registros comprovados nos povos sumérios, por volta de 4.000 anos antes de Cristo. Nestes tempos e até a Revolução Industrial as mulheres tinham papel preponderante na fabricação da bebida. Na Idade Média os monges cuidaram de transcrever e manter o registro das receitas cervejeiras.

Conta-se também a história da cerveja no Brasil, iniciada com os holandeses em Recife. Em 1654 com a sua saída haveria um hiato de 150 anos sem a bebida em terras nacionais. Somente na vinda da Família Real em 1808 é que voltaria a haver a bebida no Brasil, trazida por D. João VI em sua comitiva.

A partir de 1830 passa a haver uma produção incipiente por parte de algumas famílias, para consumo próprio, com uma produção de estilos ingleses. Havia uma grande dificuldade para se produzir em massa pois todo o malte e o lúpulo eram importados, a maquinaria, também importada era cara ou inexistente e o clima quente dificultava o armazenamento e a conservação.

Somente em 1888 se inicia a saga das grandes cervejarias brasileiras, com duas grandes fábricas: a Cia Cervejaria Brahma - que ficava na Rua Visconde de Sapucaí, hoje Marquês - e a Cia Antarctica Paulista. Hoje ambas fazem parte da Inbev.


Após o panorama histórico o curso passou pelo processo de fabricação da cerveja e explicou os  ingredientes e suas características.

Uma curiosidade: o termo "chope" para expressar a cerveja de barril existe apenas no Brasil. Vem da expressão em alemão, que significava um copo de aproximadamente meio litro. Os mestres cervejeiros  nos tempos idos pediam "o chope" direto dos tanques de maturação e por analogia o termo pegou. Em inglês chope é "beer on tap" e em alemão, "von fass".

Outra boa explicação é a dos adjuntos, que podem ser de "produtividade" ou de "estilo" na classificação de Beltramelli. Os primeiros servem apenas para diminuir o custo, diminuindo o sabor e não acrescentando nuances de sabor - pelo contrário. São fontes de amido com o o milho e o arroz nas Américas, o painço na África e o mesmo arroz na Ásia.

Os adjuntos de estilo são aqueles que acrescentam sabor à cerveja, e podem ser de vários tipos, como o coentro das witbiers, frutas ou vegetais como a abóbora e o gengibre. Também pode-se ter sal, açúcar, mel, chocolate, café...

A parte teórica se encerra com as escolas cervejeiras: a alemã (no vídeo temos a explicação, junto com uma introdução às outras escolas), a inglesa, a belga e a americana. Maurício também mostra que estamos longe de ter uma "escola cervejeira" brasileira.


Ao final da parte teórica fomos para o bar, que fica anexo, para a degustação propriamente dita. Algumas dicas são dadas no princípio, tais como:

- Atenção desde o momento de sentir e servir;
- Observar a coloração e a espuma;
- Sentir o aroma;
- Sorver pequenos goles, e após, gole generoso, preenchendo toda a boca;
- Expirar levemente pelo nariz;
- Tentar identificar o final;

Foram doze cervejas degustadas: cinco lagers e sete ales, a saber abaixo - em ordem crescente de degustação:

Lager:

- Standard American Lager: Antarctica Sub Zero (Brasil);
- German Pilsner: Krombacher (Alemanha);
- Bohemian Pilsner: Pilsner Urquell (República Tcheca);
- Schwarzbier: Falke Ouro Preto (Brasil);
- Rauchbier: Bamberg Rauchbier (Brasil)

Ales:

- Hefeweizen/Hefeweissbier: Paulaner Hefe (Alemanha);
- Extra Special Bitter (ESB): Anderson Valley Boont ESB (EUA)
- India Pale Ale (IPA): Colorado Indica (Brasil);
- Stout: Guiness (Irlanda);
- Belgian Golden Strong Ale: Brigard (Bélgica);
- Fruit Beer: Floris Morango (Bélgica);
- Lambic/Gueuze: Parfait Marriage Gueuze (Bélgica);


O leitor deve estar estranhando a presença da Antarctica Sub Zero abrindo a degustação. Mas a ideia foi justamente mostrar os problemas que as cervejas de massa possuem - e quando se degustam duas pilsneres alemãs e tchecas na sequência a diferença é gritante.

Como se vê na foto havia água em abundância para se beber entre uma cerva e outra, a fim de limpar o paladar e retardar o efeito do álcool. Mas tenho de confessar que nas duas últimas estava mais interessado em bater papo que propriamente prestar atenção nas explicações... Das doze selecionadas eu somente não conhecia a Krombacher e a Brigard.

Percebi também que vinha fazendo tudo errado nas degustações que vinha empreendendo. Estou ansioso para colocar em prática aqui no Rio de Janeiro, com amigos.

O curso finalizou por volta de 18:15 com a entrega dos certificados (abaixo) e a confraternização geral. Eu ainda fiquei conversando com Beltramelli e outros participantes até bem mais tarde.


Me chamou bastante a atenção a diferença da Colorado Vixnu que bebi em garrafa no Brejas com o chope que havia degustado em porto Alegre. Surpreendentemente a cerveja de garrafa me pareceu bem melhor. Também fotografei uma garrafa da Samuel Adams Utopias, uma das brejas mais alcoólicas do mundo (47%), abaixo, mas não me atrevi a experimentá-la - até pelo alto custo.

Digo ao leitor que valeu muito a pena ter feito o curso. Sistematizei conhecimentos, aprendi a fazer uma degustação e passei um dia bastante agradável em Campinas. De acordo com o site Brejas, a próxima turma será dia 14 de julho. É uma boa dica.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Sobretudo - Crime e Castigo

Hoje a coluna "Sobretudo", do publicitário Affonso Romero, traz um texto enfocando um aspecto muito curioso: a mudança do que significaria um "castigo" na educação de nossos filhos.

Minhas filhas ainda não chegaram na fase enfocada pelo colunista. Mas já sei que não será nada muito diferente.

Crime e Castigo

Vivemos uma época que confirma as teorias do filósofo canadense Marshall MacLuhan em sua “Galáxia de Gutemberg”. Tal qual fofoqueiras de vila sentadas sob os portais de suas casinhas, nossas redes sociais e grupos de discussões via chat e e-mail discutem a vida alheia em tempo real.

Cotidianamente, eu, o Editor Chefe e alguns outros colunistas deste blog, juntamente com amigos das mais diversas partes do Brasil, conversamos sobre futebol, sobre o Flamengo e sobre tudo – e também, às vezes, sobre a Sobretudo.

Alguém postou, por exemplo, que o Sr. Joseph Gonzalez, de Denver, Colorado, obrigou seu filho de 12 anos a segurar publicamente um cartaz que dizia “Sou um ladrão, eu peguei dinheiro de um membro da família”. O garoto tirou US$ 100,00 da carteira de um primo. É o próprio pai que afirma, na reportagem do Denver Post, que o adolescente é um bom garoto e era a primeira vez que fazia algo do tipo. Mas, apesar de reconhecer que “todo mundo comete erros quando jovem”, seu filho merecia aquele castigo.

A notícia correu mundo, traduzida em mil sites e blogs, debatida em milhões de listas. Não vi ninguém que relativizasse o erro do jovem, nem que defendesse que ele não merecia algum castigo. Entretanto, há dúvidas se a estratégia paterna seria eficiente ou não. Há até quem imagine que o trauma da humilhação pública possa criar uma espécie de revolta juvenil e marcar negativamente sua personalidade.

Pesquisei em dois cliques e encontrei a estória da Sra. Dynesha Lax, de Fort Wayne, Indiana, que castigou um filho obrigando-o a usar um cartaz onde se lê “eu minto, roubo e vendo drogas”, depois que outros castigos não o haviam endireitado. 

Há claras diferenças entre os dois casos. No segundo, o adolescente era reincidente. Mas o detalhe principal passou despercebido da matéria do portal G1: o menino andava traficando drogas. Ora, não seria o castigo uma forma de propaganda?

Eu e outros escrevemos que era difícil julgar a reação dos pais, principalmente por não conseguirmos imaginar nossos filhos em situações semelhantes. Daí, o debate passou a ser sobre a eficiência das várias formas possíveis de punir/educar adolescentes.

Meu filho já tem 17 anos. A missão de pai está quase cumprida, agora seremos cada vez mais parceiros, amigos, aprenderemos juntos através da troca. Mas pode ser que eu ainda tenha que agir, aqui e ali, como pai, no sentido de ter que impor uma autoridade, educar, instruir. 

E, apesar de ter o respeito do meu filho, claro que sempre pinta a dúvida de qual ferramenta eu ainda teria à mão. Não cabe mais colocar de castigo, palmadinha na bunda, falar mais alto, aplicar meu outrora fatal olhar de fúria (que, normalmente, substituía qualquer outro artifício). E se eu precisar usar uma ferramenta de imposição da ordem paterna, qual me resta?

Imaginei uma forma bizarra: “filho, se você não fizer assim (ou continuar a fazer assado) eu espero você estar reunido com seus amigos (e amigas), passo perto com ar casual, e te chamo de Geovênia Katherine.” Assim, sem mais, nada de explicações, saindo em seguida, deixando o pepino nas mãos dele. 

O que o amigo leitor acha? Será que um adolescente tímido arriscaria passar uma vergonha tão grande, seja em nome do que for? Pois muitos amigos na internet opinaram que seria inócuo. Eu não entendo nada sobre o que realmente importa para esta geração.

Foi um amigo meu, rubro-negro de Brasília, quem deu a dica através de uma ótima estorinha:

“Um dia desses eu dei um castigo pro meu filho. Enchi o peito e mandei: “eu te avisei, você não escutou, então vai ficar sem o PS3 por uma semana!”

Saí andando, esperando que ele me seguisse desesperado, implorando por piedade. Nada. Pensei: tenho que tirar este puto do sério. Já sei, a tevê. “Olha, e sem tevê também!”

Ele não piscou. Eu jurava que havia um sorriso no canto da boca. Apelei. Fiz algo que não faria nem com o pior inimigo: “E sem computador”. Mexeu um pouco com ele: “Pô. pai...” Mas eu sabia que ele estava fingindo.

E eu pensando: 'onde eu estou errando?' Até que... já sei!

'O celular, me dê já o seu celular. Vai ficar sem celular!'

Em menos de um segundo havia um adolescente fora de si, transtornado, desesperado, implorando perdão, clemência, prometendo que se corrigiria. Mas ficar sem celular, não. Ficar sem o acesso móvel à internet, sem o sms com as gatinhas, aí era demais. É como tirar o ar do cara. Vai por mim, pior que Geovênia Katherine.”

Ok, recado entendido. Obrigado pela ajuda. Os colunistas da Ouro de Tolo Adriana Martins e Walter Monteiro também apoiam seu método com depoimentos pessoais. 

A mão da lei familiar tirará seus celulares se vocês saírem da linha.

Tremei, adolescentes do mundo! 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Bissexta - "O Paraíso é Aqui Mesmo, não nos Outlets da Veja"


Excepcionalmente esta semana dose dupla da coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro. Hoje o colunista desmistifica tese antiga da classe média colonizada brasileira, de que todos os produtos são mais baratos nos Estados Unidos.

Sobre a Veja em si, adotei como lema um epíteto que é atribuído como de autoria do Senador Roberto Requião: "Não compre a Veja. Se comprou, não leia. Se leu, não acredite. Se acreditar, relinche." Para o leitor entender bem a atual dinâmica deste legítimo representante do jornalismo de esgoto, vale a leitura deste dossiê preparado pelo jornalista Luis Nassif, que pode ser acessado aqui.

Ah, leitor, se enontrar a cerveja da foto do post, a americana Anderson Valley, compre. Passemos à coluna.

O Paraíso é Aqui Mesmo, não nos Outlets da Veja

Fazia um tempão que eu não comprava a Veja, mas hoje fui picado pela mosca da curiosidade, vendo a capa da revista comparar os preços do IPhone no Brasil e nos EUA. Para meu espanto, a reportagem em si não é de todo ruim, mas desconfio que o leitor médio da revista não perca seu tempo com os textos – fica só nos gráficos, resumos e ilustrações. Os quais, vejam só, contradizem opiniões expressas pelos especialistas entrevistados pela própria revista.

Os malditos gráficos fazem aquelas comparações tão ao gosto da classe média brasileira, essa que viaja regularmente aos EUA e volta com a mala lotada de bugigangas (não estou criticando ninguém, eu mesmo sou adepto e entusiasta da prática). Cinco séculos se passaram e ainda temos, em relação às mercadorias do além-mar, o mesmo deslumbramento de nossos antepassados indígenas.

Voltando aos gráficos comparativos de preços entre os EUA e o Brasil. Por eles é possível saber que uma calça Calvin Klein custa R$ 70,00 lá fora e R$ 220,00 aqui, um perfume Givenchy R$ 120,00 contra R$ 300,00, um tênis Asics R$ 350,00 contra R$ 800,00.

Eu poderia argumentar que essa comparação não é exatamente justa. Eu tenho calças jeans importadas, mas também adoro comprar calças na Renner, da marca genérica da loja. E elas custam entre R$ 50,00 e R$ 90,00, dependendo do tecido e do corte. Ou que uso um perfume azul da Natura, que minha esposa comprou para mim com a sua manicure, pagando menos do que os americanos pagam pelo Givenchy. Ou que um Olympikus top de linha custa menos que um Asics lá fora, com o benefício adicional de dar uma mãozinha para o patrocinador do Maior do Mundo.

Logo, os brasileiros têm sim um arsenal de ótimos produtos à disposição por preços semelhantes ao que encontram nos EUA – a diferença é a síndrome do colonizado, que enxerga menos valor nas coisas feitas por aqui e um valor desmedido aos itens de grifes estrangeiras.

Mas há coisas que não se pode trazer na mala. Essas as pessoas não querem comparar. A Veja, em nome do bom jornalismo, poderia fazê-lo, mas isso a obrigaria a falar mal dos EUA ou bem do Brasil, coisas que ela detesta. Mas como aqui no Ouro de Tolo a gente adora, eu vou satisfazer a curiosidade alheia.

Que tal começar pelo custo da saúde? Nem vou lembrar que no Brasil a saúde é pública, gratuita e universal. Vou direto ao ponto que interessa aos endinheirados que lotam os shoppings de desconto na Florida: os planos de saúde top de linha, como é o meu. Eu pago, para cada uma das minhas filhas, quase R$ 250,00 por mês em um plano, digamos, premium. Pois bem...um plano semelhante custaria cerca de R$ 360,00 por mês nos EUA (confiram em health.usnews.com) Eu tenho 3 filhas...façam a conta de quanto eu gastaria a mais até que elas deixassem de ser minhas dependentes.

E uma latinha de cerveja? R$ 5,50 contra R$ 1,70 no Brasil. Deve ser por isso que a ninguém ocorreu trazer umas latinhas de Budweiser na bagagem (dados em pint/price).

Podia continuar uma lista longa, com molho de tomate, carne, restaurantes, e muito, muito mais, mas a minha comparação favorita é sempre o custo da educação. Em Pindorama, como se sabe, há educação pública e gratuita até o nível superior – eu mesmo fui beneficiário dela na faculdade de direito, assim como o Editor Chefe na faculdade de Economia. Mas vamos imaginar que não houvesse e que só nos restassem as faculdades pagas. Escolhi logo a mais cara, a PUC. Um aluno irá gastar cerca de R$ 75.000,00 para se formar em direito por lá.

Mas se fosse para uma universidade PÚBLICA americana (como a Florida State University, mais barata que as universidades privadas) os custos subiriam para mais de R$ 230.000,00. Isso computando-se apenas os 3 anos da faculdade de direito, onde só se entra depois de cursar um outro curso superior (nos EUA, o direito é uma espécie de pós-graduação). Essa conta eu nem fiz, mas parece óbvio que um americano não se forma em direito sem antes gastar uns R$ 400 mil.

Que tal? Pense nisso da próxima vez que se escandalizar com o preço do IPad. Talvez seja melhor gastar uns caraminguás a mais na compra dessas traquitanas, mas não se desesperar para pagar o plano de saúde ou a mensalidade escolar. E vamos comemorar tomando uma cervejinha... afinal, podemos beber três vezes mais do que eles, pagando exatamente a mesma coisa.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Bissexta - "A Rebeldia Sem Causa dá as Caras na USP"


Nesta segunda feira, a coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro, analisa os recentes protestos ocorridos na Universidade de São Paulo (USP). Confesso que não venho acompanhando o noticiário sobre este assunto, ou seja não tenho opinião, mas lembro que ano pasado já houve um episódio onde a Reitora da universidade mandou a PM invadir o campus para bater em empregados, professores e alunos.

Vamos ao texto.

A Rebeldia Sem Causa dá as Caras na USP

Um ou dois anos antes do meu ingresso na UERJ os estudantes botaram a PM para correr. A ditadura militar vivia o seu crepúsculo e a mobilização pelas Diretas animava as universidades Brasil afora.

O Proderj, empresa de processamento de dados do governo fluminense, ocupava o segundo andar do Campus da UERJ. Seus empregados decidiram entrar em greve e armaram um piquete ferrenho para impedir a entrada dos trabalhadores do turno da noite. A direção da empresa resolveu chamar a polícia para reprimir os grevistas.

Só que os estudantes, que mal sabiam que uma estatal era sua vizinha, desconfiaram que a PM tinha ido até lá por conta das mobilizações políticas da época. O boato se espalhou rapidamente e o DCE conseguiu parar as aulas, reunindo uma multidão na entrada da universidade pronta para resistir à ocupação.

Em menor número e sabedores que um confronto indesejado com estudantes acarretaria consequências muito graves, a PM recuou e bateu em retirada. Dizem até que o então Secretário Vivaldo Barbosa teria ido a UERJ no dia seguinte pedir desculpas às lideranças estudantis e desfazer o mal entendido. Todo militante do movimento repetia essa história com orgulho.

Muitos anos depois eu me envolvi em um segundo episódio relacionado à polícia na universidade, quando fazia o meu MBA na UFRJ, no campus da Ilha do Fundão. Em 2002 o Rio de Janeiro vivia um de seus muitos momentos de pânico na área de segurança pública e arrastões nas Linhas Vermelha e Amarela tinham se tornado frequentes. Como nossas aulas terminavam ao anoitecer e alguns colegas já haviam sido assaltados, os alunos pressionaram a direção da universidade para aumentar o policiamento no campus, pois ninguém se sentia confortável para sair de lá às 19h. A universidade, polidamente, respondeu que não tinha ingerência sobre as rotinas policiais e ofereceu uma mudança no calendário das aulas, para que saíssemos de lá ainda com dia claro, o que acabou ocorrendo.

Fiz esses dois relatos pessoais para ilustrar que a presença da polícia dentro de um campus universitário não pode ser tratada como um dogma. É óbvio que se ela vai até lá para interferir em aspectos políticos é um dever cívico da estudantada resistir até o limite de suas forças. Mas, se ao revés, a PM ingressa no campus para cuidar da segurança pública, só nos resta apoiar.

Eu não conheço a Cidade Universitária da USP, por isso tenho medo de falar besteira. Agora, se o seu traçado interno guardar alguma semelhança com a Cidade Universitária da UFRJ na Ilha do Fundão (o que o mapa divulgado na Internet sugere), eu não sei como se pode conceber que por ali se transite à noite sem policiamento.

Dada essa constatação, é chocante o método empregado pelos alunos da USP para rechaçarem a presença da PM no campus. Tudo começou com a tentativa de prisão de três alunos de História, que estariam consumindo ou portando maconha. Para evitar que os alunos fossem conduzidos à delegacia, a turba resolveu simplesmente ocupar o prédio da faculdade e depois o da reitoria. E os estudantes estão lá, mesmo depois que a Justiça determinou a reintegração de posse, em nome da suposta autonomia universitária.

Mas, afinal, o que querem esses estudantes?

Ninguém sabe ao certo. O DCE da USP, que dá toda pinta de não ter o menor controle sobre a ruidosa manifestação,  acena com uma enigmática defesa de “uma política alternativa de segurança, construída e controlada pela comunidade universitária”. O que está por trás dessa palavra de ordem obscura? Não sei e acho que eles também não sabem, é apenas uma frase retórica.

Não sejamos ingênuos. Todos sabem como as coisas funcionam na prática. É possível, ou melhor, é até provável que alguns policiais, cientes do largo consumo da erva santa entre a população universitária, tenham enxergado aí uma bela oportunidade para os costumeiros achaques e pequenas extorsões. E que daí para tornar frequentes as revistas de jovens com aparência suspeita é um pulo, o que certamente causaria tensão e revolta na rapaziada.

Vamos admitir que essa hipótese seja verdadeira.

Aí caberia a liderança estudantil procurar a Reitoria e o comando da PM exigindo moderação nas atitudes da polícia e definição de metas claras na política de segurança. Ao invés disso, o que todos assistimos, perplexos, é uma reação inexplicável, desmedida e infeliz, que só pode atrair antipatia à causa defendida pelos alunos da USP.

Aliás, que causa é essa?

A impressão que fica é de que os invasores reivindicam, tão somente, a saída da PM do campus para que possam consumir drogas sem serem molestados. Sequer é uma tentativa de defender a descriminalização da prática ou coisa que o valha. É pura e simplesmente a defesa do direito à transgressão sem qualquer limite.

Ora, façam-me o favor!

O fato de uma universidade ser um espaço de convivência democrática e de costumes liberais não torna os alunos da USP imunes às restrições que todos somos obrigados a respeitar. Ademais, a universidade não é um celeiro de maconheiros, por mais tolerância que se possa ter a essa prática. Há um contingente enorme de alunos inteiramente refratários às drogas, que realmente esperam que a repressão funcione e impeça o consumo dentro da Cidade Universitária.

Ao ocuparem o prédio, recusarem-se a cumprir a ordem judicial de reintegração, negarem-se a dar entrevistas, agirem com truculência em relação a imprensa e não terem nenhum horizonte a defender, os alunos da USP dão um péssimo exemplo e atraem a antipatia da sociedade, agindo como meninos mimados que não aceitam serem contrariados.

Por mais que eu tente ser simpático às causas estudantis, dessa vez fica impossível apoiar o vandalismo puro. Só lamento que algo tão belo e histórico, como a resistência estudantil, tenha sido distorcida para dar amparo a essa sandice.

(Foto: Uol)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Algumas notas sobre o "Massacre de Realengo"


Escrevo ainda absolutamente arrasado pelos fatos ocorridos na manhã de hoje no bairro de Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, ainda mais por ser pai de duas meninas em idade escolar e imaginar o sofrimento destes pais e mães que perderam seus pequenos diamantes sob a mira de um estúpido egoísta.

Para quem não é daqui, Realengo fica a aproximadamente 45 quilômetros do centro do Rio de Janeiro e é considerada uma zona de subúrbio, de classe média baixa - um típico local da "Classe C".

Um número ainda não determinado exatamente de crianças (no momento em que escrevo) teve a vida ceifada por um atirador que adentrou o colégio (foto acima) utilizando-se de sua prerrogativa de ex-aluno e saiu atirando em dezenas de crianças e pré adolescentes, se suicidando depois. As motivações do assassinato em série ainda são em parte desconhecidas: sabe-se que o assassino deixou uma carta onde dizia ser portador do vírus HIV e que era uma pessoa bastante solitária.

Soube da tragédia no final da manhã e assim que terminou a reunião onde estava corri para a internet para saber mais. Depois no restaurante onde almocei vi algumas imagens na televisão, embora a distância em que estava não me permitisse ouvir o som. De cara a impressão que eu tenho é de que a cobertura preliminar da imprensa se preocupou mais em "informar em tempo real" do que propriamente tentar passar corretamente o que estava correto. Em vários veículos as versões e os números divergiam assombrosamente, o que deixa claro que não houve uma apuração cuidadosa do fato - o importante era "passar na frente" do concorrente. Aliás, o post do DoLadoDeLá sobre o assunto é bem esclarecedor.

Também vi um determinado órgão de imprensa tentar (lamentavelmente) politizar a tragédia, determinando culpabilidades à presidente, ao governador e ao prefeito. Sinceramente, não consigo ver nenhuma ação por parte de órgãos públicos a fim de deter um psicopata que entra em um colégio, bem vestido e com uma justificativa convincente - de que daria palestra em um programa de ex-alunos que a instituição efetivamente vinha mantendo.

Eu tive o cuidado de telefonar para uma pessoa próxima que trabalha em um colégio municipal aqui do Rio de Janeiro e esta me explicou que apesar de haver seguranças não há como fazer revistas detalhadas ou barrar ex-alunos. Até por ter sido um fato não ocorrido anteriormente no país e alvo de um verdadeiro psicopata, ou seja, não havia histórico de ocorrência de crimes desta magnitude.

Por outro lado, apesar do comportamento "mata e esfola" que vi em muita gente no Twitter a atitude do sargento PM que imobilizou o assassino com um tiro na perna foi absolutamente correta. Executá-lo à queima roupa seria um comportamento também bárbaro e a atitude de atirar em parte do corpo não letal cumpria o objetivo de impedi-lo de perpetrar mais assassinatos e preparar uma eventual prisão. Entretanto, o criminoso optou por se matar neste momento com um tiro na cabeça.

Penso que não cabe procurar culpados nesta tragédia. A ação de um indivíduo com desvios de conduta claros - não se sabe ainda se estava sob o efeito de drogas, e talvez nunca se saberá - não me parece reflexo de desleixo das autoridades os da escola. Talvez deve-se pensar no comércio clandestino de armas, muitas vezes estimulado por maus integrantes das forças policiais do Estado - que em prática conhecida repassam armas apreendidas no mercado negro - mas para um indivíduo com esta tendência se não encontrasse arma de fogo à disposição talvez se valesse de outro tipo de arma.

Como bem escreveu no Twitter o jornalista Gustavo Poli, mais importante que procurar eventuais culpados é pensar nas consequências. Umas das coisas que mais me chocou em toda esta manhã chocante fou parar para almoçar em um restaurante, ver a televisão ligada com as imagens do fato e observar todo o salão - aproximadamente umas quarenta pessoas - conversando, rindo e absolutamente indiferentes ao fato. Confesso que tal cena me deixou profundamente triste, quase revoltado.

Diversas vezes eu e os colunistas deste blog batemos na tecla do individualismo cada vez maior que move as pessoas. O importante é se dar bem, independente dos meios a serem utilizados ou se está ou não prejudicando a outros. O importante é ver o próprio interesse. Conceitos como altruísmo, solidariedade, cooperação, hoje, são considerados "demodé". Só vale ser competitivo ao extremo e alcançar uma "vitória" muitas vezes duvidosa.

Outro ponto que deve ser observado é a superficialidade cada vez maior das relações humanas e da vida como um todo. O importante é a frivolidade, é o consumo, é o hedonismo a qualquer preço. Os valores da honestidade, da bondade e da ética são considerados "fora de moda" e ao invés de indispensáveis se tornaram apenas "qualidades", muitas vezes consideradas "empecilhos" por um duvidoso senso comum.

Se a sociedade é complacente com pequenas transgressões abre espaço para que sejam praticados grandes crimes, ao tornar "aceito" um certo grau de práticas condenáveis pela lei. É a "cervejinha" ao guarda, o "jeitinho" na empresa, é ocupar os bancos reservados a maiores de sessenta anos nos transportes, é o preconceito... São todos atos que posssuem em menor ou maior grau algo transgressor, mas são considerados aceitos, pelo menos por parte da sociedade. Haja visto o fato do deputado Jair Bolsonaro ter sempre em torno de 120 mil votos a cada eleição parlamentar - ou seja, suas teses preconceituosas e no limite do crime possuem, queiramos ou não, ressonância em setores da sociedade.

Sinceramente espero que a morte destes inocentes sirva para que todos nós façamos uma reflexão sobre o mundo que estamos construindo e o que queremos. Neste caminho em que trilhamos atualmente de egoísmo, individualismo e transgressão a tendência é que infelizmente tragédias destas repitam-se cada vez mais frequentemente. A escolha é nossa e cabe a nós mudarmos este quadro, não ao governo ou a quem quer que seja.

Mas há esperança: basta ver o desempenho correto do sargento PM que atuou de forma correta no episódio - sem sucumbir a tentações midiáticas de executar o psicopata - e a solidariedade da população que correu ao Hemorio para doar sangue para se ver que sim, a sociedade tem salvação.

Depende de nós, leitor. No momento a dor é muita.

(Foto: Terra/O Dia)


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Dia de Prova

Segunda feira muito corrida, retirando ingressos de carnaval e tentando resolver um probleminha de trabalho neste penúltimo dia de férias.

Mas queria falar da experiência de voltar a fazer prova depois de um longo tempo. Resolvi encarar a prova do concurso do Banco Central, organizada pela Fundação Cesgranrio. Sempre se pode tentar progredir.

Minha última experiência, em 2005, havia sido traumática, com ameaça de voz de prisão devido à desorganização geral. Desta vez, todavia, disso não posso me queixar.

A fundação foi muito feliz em marcar as provas para o Campus da Universidade Estácio de Sá no shopping Nova América. Como as provas durariam o dia inteiro, facilitou muito a logística de estacionamento e, especialmente, de alimentação.

A estrutura da universidade é simples, mas até que bastante funcional. Pelo menos o ar condicionado estava funcionando, o que foi uma façanha e tanto para o calor escaldante do domingo ensolarado que fez.

Levando-se em conta que não consegui estudar praticamente nada, não achei as provas difíceis. Ainda dei sorte do tema da redação - sobre as declarações do economista Paul Krugman referentes ao Brasil - já ter sido objeto deste blog. Obviamente fui muito mal em estatística e econometria, e a experiência de seis anos com rating me ajudou muito nas questões sobre contabilidade bancária.

Por outro lado, os anos recentes trabalhando mais com administração e gestão cobraram seu preço na parte destinada à teoria econômica.

Um fato curioso é que aproximadamente 20% dos candidatos que fizeram a prova matutina não voltaram para o segundo tempo, à tarde. Outra coisa é a paranóia do concurso: as moças, por exemplo, não podiam manter os cabelos soltos e relógios não analógicos também foram proibidos, por exemplo.

Vendo o gabarito na noite desta segunda descubro que fiz a metade dos pontos na parte geral e um terço na prova específica - isto se anotei certo as minhas respostas. Não deverá ser suficiente para classificação, mas não considero ruim. Lamentável, apenas, minha nota em português, onde esperava gabaritar e errei a metade.

Vida que segue.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Nélson Rodrigues & o Colégio Pedro II


Como escrevi aqui anteriormente, sou ex-aluno do Colégio Pedro II. Como também sabem, domingo é dia de o Ouro de Tolo reproduzir bons textos publicados durante a semana.

Pois é. Nosso amigo Rodrigo Mattar, dono do blog "A Mil Por Hora", em post sobre a tradicional feijoada anual do colégio - que se realizou ontem, e infelizmente não pude estar presente - nos brindou com um texto do grande dramaturgo Nélson Rodrigues sobre o colégio.

Pois este é o nosso texto de hoje. Ressalto que originalmente ele foi publicado em 1963 no jornal Diário Carioca.

"Amigos, a manchete é um dos vícios fatais da nossa época. Se um jornal anunciar o fim do mundo em uma coluna, ninguém vai se assustar. Pelo seguinte: – porque o homem só sabe vibrar em oito colunas. E a catástrofe que não venha no alto da página, aberta de fora a fora, perde todo o impacto. É a obsessão da manchete.

E, no entanto, vejam vocês: – a poesia do jornal está, por vezes. Na notícia miúda, no registro pequeno, em tipo liliputiano. Ainda ontem, por exemplo, eu li um simples texto-legenda que é uma preciosidade. Imaginem vocês que o Pedro II ganhou os Jogos da Primavera (N. do blog – evento criado por Mário Filho, um dos irmãos de Nelson Rodrigues e que batiza o Maracanã), a maior olimpíada do mundo! Claro que houve, lá no velho e eterno Colégio, uma euforia brutal.

E o Pedro II resolveu trazer para a rua sua alegria fabulosa. Houve passeata, escarcéu, correrias, o diabo. Amigos, o brasileiro servil teve a reputação de povo triste. E, de fato, o sujeito não dá um passo, aqui, sem esbarrar numa melancolia, sem tropeçar numa depressão. Nas esquinas, nos botecos, há sempre um brasileiro pingando hipocondria. Lembro-me de um turista que perguntava intrigadíssimo: – ‘Quem é que morreu?’

De fato, temos por vezes o ar de quem chora um imaginário defunto. Mas se este povo é triste, há uma imensa, jucunda, deslumbrante exceção: – o aluno do Pedro II. Tenho um amigo meu que vive rosnando: – Nesta terra, até as cadeiras são neuróticas.  Ao que eu responderia: – Menos as cadeiras do Pedro II -. Porque, lá, os móveis também são coniventes no humor dos alunos.

Uma das mágoas que eu tenho na vida é a de não ter sido, na minha infância ou juventude, aluno do Pedro II.  Andei por colégios mais lúgubres do que a casa do Agra. Mas há, em mim, até hoje, a nostalgia de não ter estudado ou fingido que estudava lá. A rigor, não são os professores que me interessam no Pedro II. Nem os seus problemas de ensino. O que me deslumbra no aluno do Pedro II não é o estudante, mas o tipo humano. Ele deve ser um mau aluno (tomara que seja), mas que natureza cálida, que apetite vital, que ferocidade dionisíaca.

Olhem para as nossas ruas. Em cada canto, há alguém conspirando contra a vida. Não o aluno do Pedro II. Há quem diga, e eu concordo, que ele é a única sanidade mental do Brasil. E, realmente, não há por lá os soturnos, os merencórios, os augustos dos anjos. Os outros brasileiros deveriam aprender a rir com os alunos do Pedro II.

Volto ao texto-legenda. Em poucas linhas está descrita a comemoração da vitória. E não se lê, no jornal, uma palavra de simpatia, e pelo contrário: – é evidente a irritação. Quem redigiu a nota está indignado com a euforia total dos estudantes. Mas reparem como o jornal hipocondríaco está sendo bem brasileiro. De fato, nós somos uns ressentidos contra a alegria, e repito: – a alegria ofende e humilha os impotentes do sentimento.

Por fim, o colega chama os meninos de ‘pequenos vândalos’. Não se pode desejar uma incompreensão mais nostálgica. Por que ‘vândalos’? Porque andaram quebrando umas cadeiras e, sobretudo, porque andaram chupando Chicabon sem pagar. Vamos admitir, risonhamente, que é lamentável. Mas nunca houve um 7 de setembro, ou um 14 de junho, sem atropelos inevitáveis. Os apertões cívicos derrubam senhoras, asfixiam menores. E nas procissões há quem bata carteira, ou atropele, ou desmaie. Vamos concluir que os patriotas e os devotos são vândalos?

Numa terra de deprimidos, o alegre devia ser carregado na bandeja como um leitão assado. E devíamos subvencionar o Pedro II para inundar a cidade, diariamente, com a sua alegria total, ululante. E vamos arrancar a máscara de nossa hipocrisia. Pois, no fundo, invejamos amargamente a garotada que lambeu de graça tanto Chicabon."

domingo, 29 de novembro de 2009

Ficção Universitária


Essa é da série que, como diria o Marco Aurélio Mello, são "histórias de ficção".

Digamos que uma grande universidade brasileira tenha feito seleção para ingresso de mestrandos em determinado curso. Em uma seleção destas, são aceitos candidatos com origem de graduação de todas as instituições a oferecer cursos que atendam aos requisitos de determinado mestrado.

Também tomemos como fato que os candidatos a mestrandos tenham de apresentar um projeto de dissertação a ser desenvolvido durante o curso, muitas vezes derivados dos trabalhos finais apresentados no final da graduação.

Pois é: dos dez aprovados após as provas, entrevistas e análise de currículos, oito fizeram graduação no mesmo departamento da grande universidade que oferece o referido curso de mestrado.

Mais: destes oito, cinco foram orientados no trabalho final de graduação por  professores da banca julgadora do concurso.

Restaram dois aprovados, certo ?

Um deles veio com o projeto de dissertação já acertado para ser orientado por um dos professores da banca, e o outro é um jornalista estrangeiro que presta serviços de tradução a este departamento, por um lado, e consegue livros importados na referida língua, por outro.

Mais: como a classificação acabou exatamente desta forma ? A diferenciação foi feita pela nota da prova; a suspeita é de que tais foram 'corrigidas' tendo ao lado o currículo dos candidatos. Como se diz em contabilidade, a boa e velha "marreta".

Isto é Brasil. Mas, se me perguntarem se é verdade, nego até a morte.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Mais concursos universitários

O post sobre o concurso do Departamento de História da UFF gerou certa polêmica. E hoje recebi um e-mail, de pessoa que pede para não se identificar - mas autorizando a publicação - contando sobre o procedimento em concurso da UFRRJ:

"Olá Pedro,

Sua resposta acabou me incentivando a redigir uma explicação completa sobre o caso. Lembrando que este fato aconteceu na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro há cerca de dois meses, em um concurso para o Departamento de Administração.

Normalmente, em qualquer concurso público para docente, é procedimento regular divulgar os nomes do inscritos com antecedência. Isso acontece por alguns motivos. Primeiramente, nós professores de ensino superior temos um registro de nossos currículos em uma plataforma internacional chamada Plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Com a divulgação dos nomes dos inscritos, temos como saber qual o nível dos concorrentes. Isso pode fazer com que eu, que atualmente moro em Minas Gerais, desista de participar do Concurso caso veja algum candidato com maior experiência.

O custo de deslocamento é alto e caso algum concorrente seja "muito gabaritado", ele leva ampla vantagem na avaliação chamada "Prova de Títulos". Pois bem, no concurso para a área de Marketing da Rural eles não divulgaram o nome dos inscritos. Isto causou certa estranheza, já que além de procedimento normal, TODOS os outros concursos realizados pela Rural tiveram o nome dos inscritos publicados no site oficial. Como você pode conferir no link a seguir, isto não foi feito (
http://www.ufrrj.br/concursos/av.adm-merc02_2009.htm).

Em segundo lugar, normalmente é feita uma "leitura pública" da prova. Normalmente, a prova de docência envolve o sorteio de um tema com realização de prova escrita com duração médioa de três horas. A leitura pública exime pequenas distorções na caligrafia ou utilização de termos técnicos e teóricos que podem decidir a avaliação. Este procedimento também foi retirado pela banca examinadora, que também revelou que o resultado da prova escrita seria informado via telefone. Um absurdo.

Agora a cereja do bolo é a seguinte: na data da prova, eu fui um dos três últimos a terminá-la. Como procedimento de praxe em concursos, você deve aguardar os outros dois candidatos terminarem a prova e todos deixarem a sala de provas em conjunto. Pois bem, isso foi feito. Agora, qual foi a minha surpresa ao descobrir, no fim da prova, que um dos candidatos trabalhava justamente no Departamento de Administração como Professor Substiuto. O Professor Substituto possui um contrato de dois anos apenas com as instituições de ensino. Resumindo: como não foram divulgados os nomes dos inscritos, somente eu e outro candidato soubemos do fato. No dia seguinte, recebi o telefonema informando de que não havia sido aprovado. Perguntei sobre as notas das avaliações e eles disseram que divulgariam no site oficial. Estou esperando minhas notas até hoje...
"