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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Made in USA - "Enredos 2013 e suas sinopses: Parte I"


Mostrando a sua versatilidade, a coluna "Made in USA", assinada pelo advogado Rafael Rafic, dedica dois artigos a analisar as sinopses que guiam os enredos das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, que ficaram completas após a divulgação do texto da Grande Rio na última segunda feira.

Confesso que não tenho muita paciência para a leitura destes textos, embora especificamente neste 2013 tenha lido até mais sinopses que em outras oportunidades.

Hoje teremos as escolas que desfilam domingo e amanhã, na segunda parte, as de segunda feira. A faixa musical das sextas feiras também falará um pouco das disputas de samba, que estão se iniciando. Mas já aviso que teve parceria repetindo o grande samba apresentado em 2012.

Enredos 2013 e suas sinopses: Parte I

Pedi ao editor do blog um espaço extra, fora da minha coluna esportiva, para finalmente poder escrever sobre uma das minhas paixões. Entretanto sempre é difícil falar aqui porque temos dois colunistas que são bambas no assunto: Escolas de Samba, as quais tenho o prazer de acompanhar desde meus 4 anos (hoje tenho 23).

É engraçado, porque apesar de ser carioca, amar nossa Portela, o samba-enredo e as escolas de samba, sempre fui um amante à distância, pela TV. Nunca assisti a um desfile ao vivo na Sapucaí (espero fazê-lo em 2013) e, até o ano passado sequer tinha ido a um ensaio. Também não tenho qualquer conhecimento mais profundo sobre música além das três marcações de surdo.

Por isso, apesar de ter razoáveis conhecimentos sobre harmonia, evolução, conjunto e bateria, não tenho a menor condição de discutir com os experts Pedro Migão e Aloísio Villar. Sobre samba-enredo meus comentários acabam sendo mais baseados no senso comum e na experiência de 18 anos de safras (além dos sambas históricos que qualquer iniciado TEM que conhecer). Por isso, não comentei sobre os sambas-enredo esse ano nem sobre os desfiles, o que o Migão fez magistralmente.

Porém tem uma área que eu conheço bastante: enredos e suas sinopses. Seja pelos anos a fio que fiz questão ler todas as sinopses do Grupo Especial, seja pelos anos de treino intenso em redação, seja pelos conhecimentos gerais que acumulei nos meus anos de formação. Com isso acho que posso comentar sobre os enredos com a propriedade que o Ouro de Tolo merece.

Para piorar, a partir do ano que vem também virarei vidraça e farei minha estréia escrevendo a sinopse da Escola Virtual Estrela D’Alva, que desfila no Grupo de Elite do Virtuafolia.

É justamente a análise das sinopses do especial para 2013 é que faço aqui, aproveitando o fato que a última sinopse, Grande Rio, foi divulgada no início desta semana.

Para começar já posso dizer que estou decepcionado. Depois de ótimos enredos que tivemos ano passado, que propiciou com sobras a melhor safra dos últimos 20 anos (com direito a um samba antológico da Portela e outro quase da Vila Isabel), achava que as escolas tinham aprendido a lição.

Ledo engano.

A safra de 2013 é medonha, com poucas salvações. Alias, existem duas ou três escolas que conseguiram se “superar” e talvez fosse mais fácil tirar "Danoninho" de pedra do que fazer samba para alguns enredos propostos. Também temos uma profusão de enredos CEP (cidade, estado, país ou, se o leitor quiser, em referência ao código postal dos Correios). Mas vamos à análise escola por escola em ordem de desfile.

Em tempo: as notas que atribuo se referem apenas à qualidade da sinopse, seja em coerência, correção ou em estrutura; e a possibilidade dela facilitar ou não o trabalho dos compositores. Não levei em consideração a capacidade da escola ou de cada carnavalesco individualmente falando em transformar a sinopse em fantasias e alegorias.

Começamos hoje com as escolas de domingo, como o Editor Chefe informou na introdução deste artigo.

1. Inocentes de Belford Roxo

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves

O enredo tem a intenção de comemorar os 50 anos de imigração sul-coreana no Brasil, algo muito parecido com o que a Porto da Pedra fez em 2008 com o centenário da imigração japonesa. Mas dizer que o resultado saiu muito ruim ainda seria um elogio.

Eu li e reli a sinopse, mas até agora não entendi onde ela quis começar, nem onde ela tenta terminar, muito menos tive qualquer pista sobre o que as sete confluências do rio tem a ver com isso.

A Coréia do Sul já não é tão fácil de carnavalizar quanto o Japão, nem sua cultura está tão enraizada nas mentes dos cariocas. Talvez por isso, a sinopse tenta ser algo mais aberta, dizendo a importância da água para o povo sul-coreano e, aqui e ali, joga algumas informações sobre o país que não encontram qualquer encaixe no enredo. Em um ano de enredos ruim, ele parecia conseguir ser a proeza de ser o pior deles, e por muito. Isso até o último dia 23 (amanhã os leitores entenderão o que quero dizer).

Esse enredo ruim complica ainda mais a situação de uma escola que já é péssima em virtude dos acontecimentos estranhos de sua vitória no grupo de acesso em 2012. É quase pule de dez para o rebaixamento - e ainda estamos em agosto...

Nota: 2.

2. Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage

Mal começamos e já chegamos na polêmica do ano.

Depois de anos batendo nas escolas que tinham enredos bem ruins mas patrocinados, os salgueirenses até agora não se adaptaram ao papel de vidraça do ano. Com isso atormentam a paciência de qualquer um que ouse cometer a heresia de dizer que o enredo não é “culturalmente relevante” (seja lá o que isso signifique), formando uma patrulha ideológica que deixaria com inveja qualquer fã-clube de banda adolescente. Para piorar, a agremiação caiu em uma posição de desfile horripilante, a pior possível das que estavam disponíveis para sorteio aberto.

Desde quando o tema foi anunciado, com o patrocínio da Revista Caras (via lei Rouanet), as brincadeiras, galhofas e decepções com a escolha já pululavam nas redes sociais. O Salgueiro completa 60 anos em 2013 e por isso era esperado que ele mesmo fosse o enredo, ou ainda a homenagem a Xangô.

Quando o tema foi lançado, eu já esperava uma sinopse fraca. Mas sua divulgação superou minhas péssimas expectativas: a sinopse é muito ruim e só não a classifico como a pior do ano, principalmente quanto à estrutura, porque superar a Inocentes era uma tarefa hercúlea.

Ela tenta ser aberta, mais insinuando do que explicando, mas ao mesmo tempo tenta fazer uma abordagem histórica da fama que exigiria bastante explicação para se tornar coerente. Apenas como exemplo segue uma estrofe da sinopse que, a exemplo da excelente sinopse de 2012, foi feita em versos:

“Ora se esconde, ora se revela
A máscara no rosto é uma interrogação
Não sei se a mocinha é princesinha bela
Se diz uma mentira, e tem cara de fera!”

Alguém entendeu o que isso tem a ver com fama? Se entendeu, favor me explicar. Mesmo quando claramente identificamos o propósito, falta qualquer tipo de ligação com o anterior e o posterior, fazendo ao invés de enredo mini-contos sem nexo.

Assim como não entendi, os compositores também não e em uma escola que já gosta de um samba “pula-pula” isso foi traduzido como “Ihh, a sinopse está aberta, estamos livres, pode tudo”. Ou seja, lá teremos mais um samba em que o Salgueiro irá “sacudir, levantar e explodir a fama no ritmo da bateria furiosa”...

Só o talento infinito de Renato Lage e uma possível obra milagrosa do compositor Dudu Botelho (o único que não pula na área) terão o poder de consertar esse samba do crioulo-doido famoso armado no “caldeirão”. [N.do.E.: ao que parece o talentoso compositor abriu mão de disputar samba na Academia este ano.]

Nota: 3,5

3. Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Eu juro que enquanto eu lia a sinopse da Tijuca me passavam pela cabeça flashes do Caronte de 2011.

Diferentemente da viagem maluca de Paulo Barros sobre o medo de 2011 que só ele entendeu, pois ninguém ainda encontrou o nexo entre medo e Priscila, Rainha do Deserto, a sinopse desse ano sobre a Alemanha em mais um enredo CEP é bem enxuta.

Porém sofre da mesma falta de nexo que percebi na sinopse de “Esta noite levarei sua alma” e que foi mostrada nua e crua na avenida. A transição entre o deus Thor, da tradição nórdica, para a Alemanha da pujança científico-cultural dos sec. XIX e XX, que claramente é o ponto crucial desse enredo patrocinado pelo Instituto Goethe, é muito fraca - para não dizer inexistente.

Em um enredo com muitas informações relevantes, esse problema de introdução pode até passar despercebido ou bastante minimizado na avenida, mas está lá e é um obstáculo...

A Alemanha por si só já tem elementos para fazer um enredo interessante e a abordagem é um tanto diferente do “padrão CEP”. Mas não achei no enredo algum traço genial de Paulo Barros para contar o enredo, tal como o “desembarque da corte para coroar o rei Luis do Sertão” do ano passado. Alias, até agora estou procurando a marca de Paulo Barros nessa sinopse e pela primeira vez desde 2004 não achei isso. Pode ser um problema.

Por fim, a Tijuca tem que fazer de tudo para conseguir fugir do Fusca, evitando menções a Hitler (que seriam necessárias nesse caso) e problemas com a comunidade judaica carioca - sempre alerta contra as escolas de samba. A boa notícia é que a sinopse me pareceu ser concebida exatamente para isso e dá o espaço necessário para falar dos automóveis, indispensáveis em um enredo sobre Alemanha, mas sem identificá-los.

Em resumo: não é um ótimo enredo, mas em se escapando de algumas armadilhas que ele concebe, é até interessante. Porém, como já é tradição na Tijuca de Paulo Barros, será uma tarefa complicada para a ala de compositores.

Nota: 6,5.

4. União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Finalmente, depois de algumas homenagens em grupos de acesso (a última em 2011 em um conturbado desfile do Império Serrano), alguma escola leva o poetinha Vinícius de Moraes para o Grupo Especial.

Vinícius é uma pessoa densa, com várias facetas, muitas coisas para contar e uma ligação especial com o carnaval e com o bairro da Ilha do Governador, o que sempre acaba sendo uma faca de dois gumes. Se por um lado dá um enredo muito interessante e inspirativo, pode acabar se perdendo no gigantismo e na falta de uma estrutura dependendo da viga mestra da história que se conta no enredo. Porém o enredo não deixa nada a desejar: fala de todos os pontos de Vinícius com uma lógica que o amarra e dá sentido.

Alias, é de se destacar o que foi a grande inovação desse ano em sinopses: a mesma foi elaborada em forma de uma entrevista fictícia entre a União da Ilha e o homenageado, buscando suas respostas em várias outras entrevistas concedidas pelo homenageado e pelo que ele próprio escreveu em seus livros. Acho que foi inclusive essa solução que deu um jeito de, mesmo com tantas informações, o enredo fazer sentido.

Inicialmente, fiquei com apenas uma ressalva conta ele: sua extensão exagerada. Não me lembro de ver enredo tão grande (deve dar umas 7 ou 8 páginas) e fiquei com receio dos compositores se perderem no meio de tanta coisa para se colocar em apenas um samba.

Porém, o colunista deste Ouroi de Tolo Aloísio Villar, que é atual vencedor de samba-enredo da Ilha, elogiou bastante o enredo: disse que isso não é o menor problema e que ele adoraria ter mais quatro ou cinco enredos assim. Se ele afirma isso, quem sou eu para contradizer?

Mas fica aqui a nota triste, que nada tem a ver com a sinopse, pela direção da escola transformar o jornalista e insulano apaixonado Anderson Baltar “persona non grata” simplesmente por ele aderir a um movimento de modernização do carnaval. Ei, não era a Ilha a escola mais democrática do Rio?

Nota: dez, dez, nota 10!

5. Mocidade Independente de Padre Miguel

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada

A Mocidade foi a primeira escola a anunciar o tema de seu enredo para 2013, ainda em setembro de 2011. Não me lembro de nenhuma escola divulgar seu tema com tanta antecedência. Quando o mesmo foi anunciado, os detratores de plantão já vieram reclamar que “Rock não dá samba” e que a Mocidade jogou fora o carnaval com mais de um ano de antecedência.

Eu já achava o contrário, que eles poderiam fazer um ótimo enredo sobre os grandes momentos das várias edições do evento: grande show do AC DC, a ressureição de James Taylor, o fato de todo carioca ter um lado sambista que gosta de rock - entre outros.

Mas quando vi a sinopse me decepcionei mais uma vez. Um texto inacreditavelmente longo que simplesmente faz uma declamação laudatória histórico-institucional da marca Rock in Rio. A típica sinopse que não é nada carnavalizável e que os compositores terão que rimar Lisboa com Madri e Rio de Janeiro. Uma pena para uma escola que estava buscando a recuperação e tinha surpreendido com um lindo Portinari ano passado.

Nota: 5

6. Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes

Se esse ano nós portelenses pudemos nos gabar de ter o samba do ano, para 2013 podemos nos gabar de termos o enredo do ano, junto com a Ilha. Além disso, diferentemente do ano passado em que fomos lanternas convictos [N.do.E.: na verdade não, a Porto da Pedra entregou ainda depois], agora a Portela é a segunda escola a entregar a sinopse.

Paulo Menezes, em mais uma tacada genial, juntou três datas importantes para qualquer amante da escola. Oficialmente o enredo é sobre o bairro no qual a escola cresceu, Madureira, que completa os 400 anos da freguesia que lhe deu origem em 2013. Pasmem: mesmo tendo duas grandes escolas Madureira nunca foi tema de nenhuma escola a passar nem no Especial, nem o Acesso A, nem no B.

Como falar de Madureira sem falar de Portela é impossível (junto com o Mercadão são os dois traços que identificam o bairro perante qualquer carioca), é óbvio que iremos nos auto-referenciar por uma boa parte do tempo para comemorar nossos 90 anos. Alias, a sinopse até abre uma bela brecha para ter “mais 90 e menos 400” como diz o nosso editor. Além disso o Império Serrano também estará presente como um dos homenageados.

Por fim, assim como Clara Nunes foi o fio condutor do enredo desse ano sobre a Bahia, quem melhor que Paulinho da Viola para ser o desse ano? É claro que Paulo Menezes, que não é bobo, usou desse artifício e assim também comemora os 70 anos de idade do grande compositor portelense.

Ou seja, é um enredo com a cara da escola e nesse ponto ele é imbatível esse ano.

Para melhorar, a sinopse foi escrita em estilo bem aberto, típico do carnavalesco, apostando apenas nas ligações de campos semânticos mais cognitivos do que estruturais, justamente para deixar os compositores livres para criar e não se amarrar em qualquer ordem. Foi assim que saiu o “Madureira sobe o Pelô” ano passado.

Confesso que ao terminar de lê-la meu coração portelense chorou um bocado. Ah, e antes que eu me esqueça: como diz a sinopse a capital do samba é Madureira e samba bom é aqui na Portela.

Nota: dez, dez, nota 10!

Amanhã teremos as escolas de segunda feira. Até lá!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Grupo Especial - Segunda - Impressões


Bom, final dos desfiles do Grupo Especial, vamos a um panorama da segunda noite de desfiles, que a meu ver de forma geral acabou sendo inferior à primeira. Muitos erros, em especial nos quesitos considerados "de pista" deram o tom das escolas.

Penso que o desfile termina sem um favorito destacado, mas acredito que, apesar nos problemas nas alegorias, Vila Isabel e Portela foram bem superiores nos quesitos "de chão" às demais escolas e devem disputar ponto a ponto o título. A Tijuca correria por fora a meu ver, e só - assim mesmo forçando bastante a barra.

Vamos a uma análise escola por escola.

1 - São Clemente


Vi somente a arrancada da escola, pois tinha de ir para a concentração da União da Ilha. Achei as alegorias bem fracas pelo que vi.

2 - União da Ilha


A concentração foi bastante confusa, e a Harmonia não foi perfeita: minha ala, que era uma das últimas, teve de correr um pouco. Ainda haviam integrantes sem bandeiras, e isso deve incorrer em desconto de pontos. Ainda assim fez um bom desfile, e briga pela sexta vaga no Desfile das Campeãs.

Os carros, pelo menos na concentração, pareciam bem interessantes.

3 - Salgueiro


Pelo segundo ano seguido a Harmonia da escola impediu que se conquistasse um campeonato até com certa facilidade. Demora para a entrada dos carros, quebras de elementos e buracos deram o tom da apresentação.

Pena. Renato Lage fez uma vez mais um ótimo trabalho. Ainda assim deve voltar no desfile do próximo sábado.

4 - Mangueira


Vergonhoso. É assim que classifico o desfile da verde e rosa, que foi um equívoco completo. A começar por suas alegorias e fantasias (acima, o indigno abre alas) típicas de Grupo de Acesso B e passando pelas presepadas com o sistema de som e as "paradinhas", que transformaram a Sapucaí em uma mesa de (ruim) pagode.

Além disso, estas "inovações" fizeram com que a saraivada de turistas que compunham suas alas atravessasse o samba, penalizando ainda mais os quesitos.

Por mim - e não só por mim - seria rebaixada em último lugar, mas acho pouco provável que isso ocorra. Mas seu presidente tem de explicar como recebe R$ 7 milhões e apresenta um carnaval deste naipe. Lamentável.

5 - Tijuca


Alternou bons e maus momentos. Excelente comissão de frente, alguns carros bons e outros com problemas evidentes de acabamento, um enredo meio confuso e um samba fraco.

Minha avaliação é que voltaria nas Campeãs apenas, mas se a proposta do júri for desvalorizar os quesitos de pista e privilegiar a Broadway pode entrar na briga.

6 - Grande Rio


Burocrática. Assim definiria a escola de Caxias, que patinou em problemas de Evolução e Harmonia, trouxe alegorias com problemas e fantasias fracas - com direito a alas de short e camiseta - e o pior samba do ano.

Foi desfile para oitavo, nono lugar, mas com a força que a agremiação dispõe não me surpreenderia voltando entre as seis.

Minha avaliação seria a seguinte, já avisando que é polêmica:

Título: Vila e Portela, com Tijuca correndo por fora.
Campeãs: Tijuca, Salgueiro, Mocidade e talvez a Ilha - embora duvide que Beija Flor e Grande Rio fiquem fora, embora mereçam.
Marola: Beija Flor, Grande Rio, São Clemente;
Disputando o rebaixamento: para mim as piores nos quesitos foram a Imperatriz e disparada a Mangueira, mas acho pouco provável que uma das duas seja rebaixada, embora mereçam. Deve sobrar mesmo para Renascer e Porto da Pedra.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Resultado da Promoção - Camisas do Salgueiro 2012


Apesar de um pouco de demora no resultado, temos finalmente os vencedores da promoção das camisas oficiais do Salgueiro. Dois dos vencedores foram escolhidos pela assessoria de imprensa da escola e o terceiro por mim.

A ganhadora do Rio deverá retirar o prêmio na quadra da escola, na Rua Silva Teles 104 Andaraí, em horário comercial. Os demais serão contactados sobre a forma de envio.

Os vencedores e suas frases são:

Cida Gomes - RJ (camisa preta): "O Salgueiro entrou na minha vida, antes de eu nascer. Fui feita com o mais puro DNA q existe: pai e mãe, rubro-negros e apaixonados pela Academia. Sou somente diferente, nem melhor, nem pior. Sou Salgueiro gente."

Michael Victor Grillo - Petrópolis/RJ (camisa branca): "Minha 'fia', Salgueiro chegou de mansinho e conquistou meu coração. Sorrateiro, como caipora em noite de luar no sertão... Desde entao, coroou a minha vida com alegria e paixão. E pela rainha da Academia suspirei...o nosso amor eternizei...

Eu e Salgueiro, o repente que deu certo no reisado que idealizei."

Pedro Ernesto - Brasília/DF (camisa laranja): "O Ouro de Tolo é o tesouro encantado que o rei mandou buscar quando o sol estava nascendo. Êta bloguezinho arretado de bom!!!" 

Desde já parabenizo os vencedores e aviso que na primeira semana de novembro, por ocasião do meu aniversário, teremos sorteio de uma camisa do Flamengo autografada por Ronaldinho Gaúcho.


Aproveitando, informo que o Salgueiro escolheu no último dia 11 o samba com o qual irá desfilar na noite de segunda feira de carnaval na Marquês de Sapucaí. Os autores do samba são Marcelo Motta, Tico do Gato, Ribeirinho, Dílson Marimba, Domingos PS e Diego Tavares e é uma composição muito boa, acima da média da escola tijucana nos últimos anos.

O leitor pode ouvi-lo - na gravação de trabalho dos compositores - acima, e abaixo coloco a letra. É composição que em outro ano menos inspirado poderia concorrer ao posto de melhor do carnaval, mas deu azar de cair no mesmo 2012 do espetacular samba da Portela e da excelente composição escolhida pela Vila Isabel - embora este último, a meu juízo, não fosse o melhor da disputa.

"SOU "CABRA DA PESTE"
OH MINHA "FIA", EU VIM DE LONGE PRO SALGUEIRO
EM TROVAS, ERRANTE, GUARDEI
RAINHAS E REIS E ATÉ HERÓICO BANDOLEIRO
NA FEIRA VI O MEU REINADO QUE SURGIA
QUAL FOLHETIM, MAIS UM "CADIM, VIXE MARIA!"
OS DOZE DO IMPERADOR
QUE CONQUISTOU O ROMANCEIRO POPULAR
VIAGEM NA BARCA, A AVE ENCANTADA
AMOR QUE VENCE NA LENDA
MISTÉRIO PAIRANDO NO AR
 
CABRA MACHO JUSTICEIRO
VIRGULINO, É LAMPIÃO!
SALVE, ANTÔNIO CONSELHEIRO
O PROFETA DO SERTÃO
 
VÁ DE RETRO, SAI ASSOMBRAÇÃO
VOLTA PRA ILUSÃO DO ALÉM
NO REPENTE DO VERSO
O "BICHO" PERVERSO NÃO PEGA NINGUÉM
OH MEU "PADINHO", VENHA ME ABENÇOAR
MEU SANTO É FORTE, DESSE "CÃO" VAI ME APARTAR
QUERO CHEGAR AO CÉU NUM SONHO DIVINAL...
É CARNAVAL! É CARNAVAL!
SALGUEIRO, TEUS TROVADORES SÃO POETAS DA CANÇÃO
TRAZ SUA CÔRTE, É DIA DE COROAÇÃO
NÃO SE "AVEXE" NÃO

SALGUEIRO É AMOR QUE MORA NO PEITO
COM TODO RESPEITO, O REI DA FOLIA
EU SOU O CORDEL BRANCO E ENCARNADO
"DANADO" PRA VERSAR NA ACADEMIA

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Promoção - Camisas do Salgueiro 2012


O leitor do Ouro de Tolo estava com saudade de nossas promoções, não é mesmo? Pois elas voltaram.

Em parceria com a Assessoria de Comunicação da Acadêmicos do Salgueiro, representado pela sua assessora Flávia Cirino - entrevistada recentemente aqui - estaremos sorteando três camisas da agremiação, referentes ao enredo da agremiação para o carnaval 2012.


A Academia do Samba virá com o enredo "Cordel Branco e Encarnado", sobre a literatura de cordel, de autoria do grande carnavalesco Renato Lage.

Para participar é simples: basta deixar na área de comentários uma mensagem com nome, cidade, endereço de e-mail e deixar uma frase  - que pode ser sobre o Salgueiro, sobre escolas de samba ou este Ouro de Tolo - além de qual delas prefere: a branca, a laranja ou a preta - nas fotos.


As três melhores frases, que serão selecionadas em conjunto por mim e pela assessora de imprensa da escola levam a camisa. O resultado sai, no máximo, até segunda feira.

A promoção está aberta a todos, com exceção de parentes meus. Participe!


Abaixo o leitor pode conferir a sinopse do enredo do Salgueiro para 2012:

"Cordel Branco e Encarnado"

SALGUEIRO 2012

(Cheio de poesia, imaginação e encantamento) apresenta:

Cordel Branco e Encarnado

Minha “fia”, meu senhor
Deixa eu me apresentar
Sou poeta e meu valor
Vai na avenida passar
Basta imaginação
Um “cadim” de inspiração
Que eu começo a versar

Vou cantar a minha arte
Que nasceu bem lá distante
Num lugar que hoje é parte
Da nossa origem errante
Vim das bandas da Europa
Nas feiras, a boa trova
Era demais importante!


Foi assim que o mar cruzei
Na barca da encantaria
Chegou por aqui um Rei
Com bravura e poesia
Carlos Magno o os doze pares
Desfilando pelos mares
Da mais real fidalguia

E veio toda a nobreza
Que um dia eu imaginei
Rainha, duque, princesa
E até quem eu não chamei:
Um medonho de um dragão
Irreal assombração
Dessa corte que eu sonhei

Também tem causo famoso
Que nasceu lá no Oriente
De um tal misterioso
Pavão alado imponente
Que cruza o céu de relance
Dois jovens, e um só romance
Vencendo o Conde inclemente

Todas essas histórias
Renasceram no sertão
Onde vive na memória
O eterno Lampião
E não houve um brasileiro
Que de Antônio Conselheiro
Não tivesse informação

Pra viajar no meu verso
É preciso ter “corage”
Vai que um bicho perverso
Surge que nem “visage”?
Nas matas sertão afora
Lobisomem, caipora
Que medo dessas “image”!!

Pra findar esse rebuliço
Rezar é a solução!
Valei-me meu “padim” Ciço!
Vá de retro, tentação!
Nossa Senhora eu não quero
(Tô sendo muito sincero)
Cair nas garras do cão!

E não é que meu santo é forte?
Cheguei ao céu divinal
É tamanha a minha sorte
A minha vitória afinal
É cantar com alegria
Fazer verso todo dia
Na terra do carnaval


Ao ver chegar a tal hora
Da minha “alegre” partida
Saudade, palavra agora
Tem posição garantida
Mas não se avexe meu irmão
Que hoje a coroação
Acontece é na avenida

Pois eles hão de herdar
Todo esse sertão sonhado
Monarcas que vão reinar
Na corte do Sol dourado
Poetas de tradição
Recebam de coração
Um cordel Branco e Encarnado

E agora eu vou sem medo
Fazer festa “de repente”
Vai nascer um samba-enredo
Pra animar toda a gente
Afinal, não sou melhor
Muito menos sou pior
Só um poeta diferente!

Renato Lage, Márcia Lage, Departamento Cultural

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Jogo Misto - Flávia Cirino


Flávia Cirino, jornalista, salgueirense, sambista e messiânica. Assessora de imprensa do Acadêmicos do Salgueiro, é uma das pessoas responsáveis por este trabalho de divulgação do nosso carnaval e das nossas escolas.

Conheço a jornalista há mais de dez anos, desde os tempos da extinta lista de discussão por e-mail "Academia do Samba". Além disso, somos unidos na Fé Messiânica e, ainda que às vezes distantes, sempre mantivemos contato.

Flávia Cirino é a entrevistada de hoje da coluna "Jogo Misto" deste Ouro de Tolo.


1 - Partindo do princípio. Como descobriu sua paixão pelo carnaval?

FC - Não houve descoberta… foi natural. Nasci e cresci nesse meio.

Meus pais eram passistas, ele da Mangueira, ela da Mocidade Independente e se conheceram nas quadras. A minha infância toda foi à base de sambas enredo, dia após dia. Lembro de nas aulas de história do colégio “mandar muito bem” nas provas recordando de célebres sambas para responder às questões.  E nas aulas de música eu era tachada de “fora de época” porque sabia muito de compositores que a turma desconhecia, o que logo me tornou xodó do professor.

2 - E pelo Salgueiro?


FC - Demorou um pouco!

Quando criança, eu era Portela. Amava a águia e chorava ao ver a azul e branca na avenida. Até entrar para a faculdade em 1992. Um colega de turma era ritmista do Salgueiro e me convidou. Fui e fiquei…

3 - Que caminho profissional seguiu até se tornar assessora de imprensa da escola?

FC - Já exercia o jornalismo subliminarmente antes mesmo do bacharelado. Fazia jornalzinho de condomínio, de fã clube, sempre fui muito curiosa.

Ainda durante a formação acadêmica, trabalhei no jornal DC News, em Caxias, a minha grande escola. E fiz uma prova para um jornal até então inexistente, que tinha o nome fantasia de 'Jpop'. Somente após a aprovação soubemos que se tratava do então novato Jornal Extra. Recebia sempre convite da escola para atuar na assessoria de imprensa, mas eu era passista e não queria jamais deixar de sambar!

Recusei diversas vezes até que no finalzinho de 2003, já casada, meu marido me aconselhou a arriscar. Ele queria era me ver longe da ala de passistas…

4 - Você já esteve "do outro lado", como repórter de carnaval do Extra e de outros veículos. Quais as principais diferenças entre um posicionamento e outro?

FC - A consciência do que é pertinente ou não para determinados públicos-alvo.

Acho bárbaro, na condição de componente e sambista, o interesse e a vontade de ver o samba verdadeiro nas páginas de jornais. Quem não quer exaltar o samba em sua essência, em detrimento de sambeiros e oportunistas?

Mas na condição de profissional, nos grandes veículos por onde passei, entendo que não é assim que a banda toca. Somo sim condicionados ao que é vendável, ao que o leitor quer - não apenas às vésperas do desfile. E por isso o sambista deve valorizar demais os veículos que existem atualmente, especializados em carnaval. Que venham mais e mais!

5 - A gente vem assistindo a uma invasão de "celebridades" nas escolas de samba. Como funciona esta aproximação entre a escola e a celebridade? Qual a sua função enquanto assessora de imprensa neste processo?

FC - Posso falar pelo caso específico do Acadêmicos do Salgueiro. Digo com propriedade que lá priorizamos “o nosso povo” (mesmo que se insista em dizer que não temos chão, comunidade, que a escola tem cor tal…).

Se um famoso quer desfilar, ele precisa ter um mínimo de afinidade com a escola. Não temos alas de artistas, camisas de famosos. Quem conosco desfila, tem que no mínimo frequentar os ensaios, inclusive os técnicos, onde não há flashes. Quem não se adeque, não fica. E dispensamos quem se convida…  [N.do.E.: não posso deixar de registrar minha surpresa: pelo menos neste último desfile o Salgueiro era um mar de camisas. Ressalte-se, também, que este não é um "privilégio" da vermelha e branca]

Eu sou repórter de entretenimento, atuo justamente no jornalismo de celebridades e por ter mais contato com esse meio acabo ajudando nisso - e fico responsável por elas. 

6 - Nota-se uma crescente mercantilização do posto de "Rainha de Bateria". Qual o benefício que a escola ganha colocando uma pessoa de fora da comunidade no posto?

FC - Tivemos até hoje cinco rainhas de bateria: a primeira, não tinha ainda esse título, foi Roxinha, nos anos 60. Depois dela em 1990 o Pelé trouxe uma miss, Flávia Cavalcanti… Daí só voltamos a ter rainha no desfile de 2004, a Ana Claudia Soares. Nos dois anos seguintes, Carol Castro, que foi uma querida e permanence componente. Gracyanne ficou em 2007 e desde 2008 a Viviane Araújo reina absoluta.

Benefício, propriamente dito? Mídia. Mas depende da rainha… estar ali por estar é doído…

A Viviane manda muito bem seu recado, não tem rótulos e se identificou com a escola.

7 - E qual o benefício de uma rainha destas em pagar R$ 300 mil ou até mais pelo posto, como informado na imprensa?

FC - No Salgueiro não há esse comércio. A rainha não paga. E também não recebe. Elas arcam com suas fantasias.  

8 - O Salgueiro que conhecemos nos anos 60, 70 e 80 se orgulhava muito do seu lema: nem melhor, nem pior, apenas diferente. A escola fazia da garra da comunidade a sua marca registrada. O Salgueiro de hoje aparenta ser uma escola elitizada, sempre com muitos componentes e voltada para um público com pouca identificação com a agremiação. O Salgueiro pode até ser melhor, mas deixou de ser diferente. Por que essa mudança ocorreu?

FC - Para nós que estamos ali acompanhando de perto o dia a dia da escola, o lema está cada vez mais evidente.

Muitas vezes a olhos nus, no geral, os pré-julgamentos acabam nos impedindo de ver os detalhes, os pormenores. É claro que não podemos ser hipócritas e dizer que nada mudou. É preciso mudar, modernizar sem perder a essência! Há alguns anos estamos resgatando a comunidade e dando-lhes mais espaço em nossos desfiles.

Atualmente das 35 alas 23 são da comunidade. As diferenças estão aí sim, mas talvez não tão evidentes para quem está de fora. Mas devagar a gente chega lá. O estigma de escola elitizada se dá por recebermos muitas pessoas da Zona Sul em nossos ensaios e eventos. Isso não impede que sejamos sambistas e não saibamos separar o joio do trigo quando necessário…

Lugar de salgueirense é no Salgueiro, e não importa a sua origem. 

9 - Qual sua avaliação sobre o trabalho de assessoria de imprensa no carnaval como um todo?

FC - Estamos evoluindo cada vez mais, cada um ao seu modo; o importante é que o samba, o carnaval, está ganhando cada vez mais vez e voz.

Só acho que em algumas agremiações falta mais liberdade ao assessor para exercer seu trabalho. Felizmente não tenho esse problema, acho que um dos fatores é o fato de eu ser originalmente da escola. Mas vejo colegas dispostos e capazes de fazer muito mais, porem são tolhidos - talvez por falta de visão.

10 - Como funciona a relação com a emissora que detém os direitos de transmissão do desfile? Existe um roteiro de eventos pré-determinado? Como funciona a logística?

FC - Sem script. Matérias são marcadas, umas com mais antecedencia, outras, menos, e nós as realizamos. Não há nada pré-estabelecido.

Tem algumas coisas que mesmo que possamos imaginar que serão sempre as mesmas mudam sempre no operacional, como a gravação da vinheta. Eles sempre nos dão boas condições para que o trabalho seja bem realizado.

11 - Existe algum tipo de monitoramento ou acompanhamento sobre as declarações dadas por segmentos da escola?

FC - Não necessariamente monitoramento. Na gestão da presidente Regina Celi nos reunimos semanalmente para discutir assuntos diversos e sempre os assuntos relacionados a divulgação são colocados. Há um respeito muito grande na escola quanto a isso. Para divulgação de rádio conto com o apoio da incansável Regina Célia, uma parceira muito querida. E todo mundo ajuda.

12 - Qual sua avaliação sobre os rumos tomados atualmente pelo desfile das escolas de samba?

FC - Dá um pouco de tristeza ver que ainda há agremiação que se contenta em apenas passar na avenida. As condições, no geral, são dadas a todas para fazer um carnaval digno. Cabe a cada uma corer atrás do que acredita ser certo e do diferencial (financeiro, inclusive) que pretende… 

13 - O que pensa sobre a influência da internet e das mídias sociais sobre as escolas de samba?

FC - É assustadora! A vida moderna se pauta pela internet… Não se espera mais a notícia ser veiculada no jornal no dia seguinte.

E como citei anteriormente a existência de veículos especializados - o que não tínhamos há bem pouco tempo - colaborou muito. A nossa presidente Regina Celi se rendeu ao Facebook e é uma loucura! Ela está impossível e a repercussão tem sido impressionante.

14 - O que recomendaria a alguém que queira trabalhar com jornalismo e carnaval?

FC - Persistência e comprometimento.

15 - Como conheceu a Fé Messiânica? O que diria a uma pessoa que não conheça Meishu Sama?

FC - Através da Márcia Lage! [N.do.E.: uma das carnavalescas da escola, ao lado do marido Renato Lage]

Minha mãe faleceu em 2007, eu estava totalmente sem rumo, perdida, disposta a ir com ela. No dia seguinte ao funeral a Marcia viu meu auto-flagelo e me deu um “banho de luz”, como à época ela chamou o Johrei. Na manhã seguinte, eu caminhava sem destino pela rua, próximo a minha casa, e quando me dei conta, estava dentro de uma Igreja Messiânica.

Sem cobranças, sem questionamentos, sem exigências, me encontrei de imediato. E principalmente encontrei muitas respostas para a avalanche de sentimentos que pairava. A fé Messiânica mudou a minha vida em todos os aspectos. O altruísmo é a maior lição que aprendi. Servir é o mais importante. É o servir que dá vida e energia ao corpo espiritual.


16 - Um samba inesquecível. por quê?

FC - "E Por Que Não?"(1987, acima). Em nem era da escola, mas sempre amei esse samba, não sei explicar! Sempre brinco – e as pessoas me mandam calar a boca! – que quando eu morrer, quero que cantem no meu enterro!

17 - Um samba do Salgueiro inesquecível. Por quê?

FC - Apesar de não ser um sambão, “Parintins, a Ilha do Boi Bumbá – Garantido e Caprichoso” é um marco para os passistas da antiga, como eu. Nunca me diverti tanto e na época o grupo era unha e carne, não nos desgrudávamos. Ainda hoje nos ensaios quando os intérpretes cantam esse samba é a maior emoção.

18 - Qual o momento de maior realização vivido na função? Por quê?

FC - Eu não sou apenas assessora do Salgueiro. Na verdade, não considero trabalho, até porque sou componente da escola há dezenove anos, e há oito cuido da Comunicação, numa contrinbuição para mim natural diante do trabalho que exerço no dia-a-dia.

Sou correspondente internacional, trabalho para 18 revistas de Portugal, da Editora Impala. E coordeno a equipe do site O Fuxico aqui no Rio de Janeiro, onde também sou reporter. E sou sócia de uma Assessoria de Comunicação.  A minha maior realização é ser respeitada pela minha conduta profissional e ser reconhecida pelo meu trabalho.

19 - O que acha da literatura disponível sobre carnaval?

FC - Em expansão, salve Felipe Ferreira, Haroldo Costa,  Júlio César Farias, Helena Teodoro, Hiran Araújo… que venha mais!

20 - Livro ou filme? Por quê?

FC - Livro, sempre. Leio vários ao mesmo tempo. Sempre um deles messiânico. 

21 - Finalizando, com os agradecimentos do Ouro de Tolo, algumas palavras sobre o blog ou seu editor/autor.

FC - Migão é daquelas gratas surpresas que o samba nos proporciona. Na dele, chega como quem não quer nada e mostra a que veio. Ele não é tolo nem nada, aos poucos, mostra seu ouro…

P.S. - Em parceria com a Assessoria de Comunicação do Salgueiro faremos brevemente promoção de camisas da escola. Aguarde.

sábado, 5 de março de 2011

História & Outros Assuntos: "Carnaval. Doce Ilusão?"


Dando seguimento à nossa programação carnavalesca, o tema de hoje da coluna do historiador Fabrício Gomes é a relação entre samba e História.

Carnaval. Doce ilusão?

“Carnaval
Doce ilusão
Dê-me um pouco de magia
De perfume e fantasia
E também de sedução
Quero sentir nas asas do infinito
Minha imaginação...”


Os primeiros versos do samba-de-enredo “Os cinco bailes da história do Rio”, composição de Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Bacalhau, apresentado em 1965 pelo Império Serrano, não são apenas uma constatação. A imaginação que o samba fala vai muito de como é a percepção de cada um sobre o que, de fato, representa o desfile das escolas de samba.

Entra ano e sai ano vêm os desfiles das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Mais do que o espetáculo inconteste das escolas, das baterias, das fantasias e dos gigantescos carros alegóricos, desfilam pela Avenida um festival de celebridades e mulheres bonitas, praticamente seminuas, em busca de seus 15, 20 minutos de fama – podendo ganhar uma “sobrevida” caso alguma revista masculina convide alguma para ser garota da capa numa próxima edição.

Mas.. cabe a pergunta: “o carnaval é apenas contemplar corpos bonitos, bumbuns e paetês?”

Acredito que por trás do desfile das escolas de samba do carnaval carioca (e sem querer cair no erro do bairrismo, do carnaval paulista também), haja algo muito maior: não somente a embalagem, mas também conteúdo. Muito conteúdo. Além de ser uma manifestação cultural sem precedentes, o nosso carnaval (aí estendendo para outras praças, como Salvador, Recife, Olinda, Ouro Preto, entre outras) retrata também a riqueza antropológica, sociológica e musical de um povo.

No caso do desfile de uma escola de samba, muitas coisas estão implícitas. Assistir uma escola desfilando é como se estivéssemos numa aula de cultura, aprendendo o ponto de vista que o professor (o carnavalesco) daquela disciplina (escola/enredo) quisesse expressar aos alunos (o público presente na Sapucaí e na TV – OK, na TV ainda há um certo “intermediário”, os comentaristas, que inevitavelmente comentam seus pontos de vista e acabam por influenciar a “aula”). Variados enredos são apresentados, e no fim de uma, duas noites, temos a impressão de estarmos extasiados com a quantidade de informação disponibilizada.

Aí geralmente cabe a reflexão: “que prazer assistir a essa aula, não?”


Recentemente dois discos foram lançados no mercado fonográfico: “Aula de samba: a História do Brasil através do samba-enredo” (com simpática capa - acima - desenhada pelo cartunista Ziraldo, com diversas personagens importantes da História do Brasil) e “História do Brasil através do samba-enredo: o Negro no Brasil” (este na verdade, um relançamento, já que o original data de 1976). Em ambos os discos, há uma primorosa seleção de sambas-de-enredo que:

1) Abordaram personagens históricos, contando sua saga, suas lutas e influências;
2) Sambas-de-enredo que tiveram foco na questão do negro, na escravidão, no tráfico de escravos e na abolição da escravatura.

Realmente quem ouve os discos tem a impressão de estar numa aula de História. Estes discos são tão importantes que são constantemente utilizados em metodologias em História, nas salas de aula, como forma de aprendizado alternativo e mais simpático aos alunos, fugindo do velho recurso já batido de acreditar que monólogos e decorebas são as maneiras mais corretas de fazer com que alunos aprendam História.

Como percebemos então, o carnaval não é apenas uma “festa pagã”, lasciva e do pecado. Carnaval também é cultura. Muita cultura.

Ao longo de décadas, o desfile das escolas de samba teve muita história pra contar. Desde o Estado Novo, quando os desfiles eram utilizados como forma de “propaganda” do regime ditatorial de Vargas – as escolas levavam temas nacionais, geralmente contando a vida e obra de grandes personagens, na maioria das vezes simpáticos à causa republicana – mas atenção: quase nada sobre a República Velha (ou Primeira República, de acordo com a nova historiografia), já que a Revolução de 1930, da qual Vargas foi um dos principais nomes, queria justamente enterrar um passado identificado com militares jacobinistas associados a oligarcas (coronéis do agreste e antigos barões do café). Então era possível identificar Tiradentes, um dos principais símbolos que a República utilizou) em enredos, assim como nomes que fossem simpáticos ao regime.

A utilização de temas históricos foi se aprimorando. A Mangueira em 1956 apresentou o enredo “Homenagem a Getúlio Vargas, o grande presidente”, ficando em terceiro lugar; em 1958 a Portela foi campeã com o enredo “Vultos e efemérides do Brasil”, e no mesmo ano a Tupi de Brás de Pina apresentou o enredo “Inconfidência Mineira”, ficando em oitavo lugar. No desfile de 1962, por exemplo, praticamente todas as escolas desfilaram com enredos históricos – a Portela foi campeã com o enredo “Rugendas ou Viagens Pitorescas através do Brasil”. 

Nesta mesma década de 1960, o Salgueiro inaugurou uma nova concepção de desfiles, com Fernando Pamplona no comando, e levou vários de enredos históricos de causar inveja, sempre relacionados com a escravidão: “Quilombo dos Palmares” (1960), “Chica da Silva” (1963), “Chico Rei” (1964), “História da Liberdade no Brasil” (1967) e “Bahia de Todos os Deuses” (1969) – a escola ainda apresentaria enredos relacionados durante a década de 1970, como “Festa para um rei negro” (1971) – que ficou popularmente conhecido com o fabuloso refrão “Pega no Ganzê, Pega no Ganzá” – e “Valongo” (1976) – nome que era dado ao mercado de escravos próximo à região da Gamboa, centro do Rio, onde muitos que chegavam da África, em más condições físicas e de saúde, eram alocados à espera de senhores que os comprassem – a maioria morria ali mesmo, e o Valongo parecia um “açougue” humano.

No caso do Salgueiro é importante ressaltar o papel que a escola teve nos anos 1960, de levar enredos que falassem de temas arriscados como “liberdade”, “abolição”, “exploração de trabalho escravo”, justamente numa época onde, na política, temas como nacionalismo e anti-imperialismo eram belicosos. E depois de 1964, com a ascensão do regime militar, parecia mesmo uma provocação que a escola apresentasse, em 1967, um enredo que falasse sobre... “A História da Liberdade no Brasil”. E era mesmo.

Assim como o Império Serrano apresentou-se (e ainda se apresenta) sob a égide de ser uma escola de “resistência” – seu enredo de 2001 apresentou a história do Cais do Porto do Rio de Janeiro, e um dos versos do samba falava justamente sobre a estiva (trabalho de carga e descarga de navios ali parados), o que motivou, no início do século XX o surgimento do sindicato dos estivadores – o primeiro sindicato do Brasil. A trajetória imperiana em muito se confunde com isso: com a luta contra os poderosos dirigentes que comandam o carnaval, sempre buscando ressaltar valores como samba e tradição, entre outros, em detrimento de modernidades nem sempre tão saudáveis aos desfiles.

Certamente se eu fosse listar todas as escolas e enredos históricos, ao longo desses praticamente 80 anos de desfiles, só terminaria de escrever após o carnaval do ano que vem.

Entretanto, cabe chamarmos a atenção para a questão da letra dos sambas-de-enredo. 


Muitas delas hoje estão defasadas, tendo em vista que a historiografia se aprimora a cada ano, pesquisas e novos estudos são feitos sobre temas da nossa história. Um samba em especial merece destaque: “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós”, que elevou a Imperatriz Leopoldinense ao título máximo do carnaval em 1989, num desfile primoroso, recheado de emoção, com um samba considerado por muitos como antológico, tanto na letra, como na melodia. O enredo falava sobre o centenário da Proclamação da República (1889-1989).

Mas... se hoje a Imperatriz desfilasse com aquele samba, perderia preciosos pontos, já que o samba possui trechos que não soam mais verdadeiros. Em 1989 ainda não tínhamos estudos muito esclarecedores sobre o que foi realmente a Proclamação da República. Ainda não tínhamos a primeira eleição democrática para presidente, ainda vivíamos sob influência de ementas escolares que datavam das décadas anteriores (elaboradas pelo regime militar), ainda dava-se Educação Moral e Cívica nas escolas – uma disciplina que prezava e exaltava feitos militares, patriotismo etc – e certos temas ainda eram obscuros e muito complexos para fazer com que alunos entendessem.

Então era muito normal acreditar que o Marechal Deodoro da Fonseca tivesse proclamado a República com extremo vigor e que sua figura estivesse descolada por completo da Família Real. E que a abolição da escravatura em 1888 tivesse representado a liberdade, de fato, de todos os escravos. Convido o leitor então, para alguns comentários em torno da letra do samba da Imperatriz de 1989:

“Vem ver, vem reviver comigo amor
O centenário em poesia
Nesta pátria, mãe querida
O império decadente, muito rico, incoerente
Era fidalguia”


(Quanto a esse trecho em si, nenhum problema, embora fosse uma visão estritamente jacobinista republicana encarar a monarquia como sendo “incoerente”. Alguns jornais republicanos chegaram a publicar charges de D.Pedro II dormindo, refestelado em poltronas, como se estivesse alheio aos problemas do Brasil. Muitos acusavam-no de viajar pelo mundo, não tendo dom para governar o país. Em muitas ocasiões, a mandatária, de fato, era sua filha, a Princesa Isabel.)

“Surgem os tamborins, vem emoção
A bateria vem no pique da canção
E a nobreza enfeita o luxo do salão
Vem viver o sonho que sonhei
Ao longe faz-se ouvir
Tem verde e branco por aí
Brilhando na Sapucaí”


(Quando a letra diz que “a nobreza enfeita o luxo do salão”, refere-se ao último baile do Império, realizado na Ilha Fiscal, em 9 de novembro de 1889, a seis dias da Proclamação da República, e foi oferecido pelo Visconde de Ouro Preto à nação chilena e aos comandantes e oficiais, através do encouraçado “Almirante Cochrane”, que se encontrava atracado na Baía de Guanabara,. O evento acontecia como forma de agradecimento à recepção do navio brasileiro, quando este chegou a Valparaíso, no Chile. Os republicanos criticaram esse baile em exaustão, acusando o Império de esbanjar dinheiro e suntuosidade desnecessárias.)

Da guerra nunca mais
Esqueceremos do patrono, o duque imortal
A imigração floriu de cultura o Brasil
A música encanta e o povo canta assim”


(Exaltação à Guerra do Paraguai? Uma guerra que provocou baixas, onerou o Estado e tornou-se uma pedra no sapato para o Império? Certamente uma visão republicana de contar a história. E sobre o Duque de Caxias, alguns livros questionam sua verdadeira atitude dentro do Exército. Para muitos, era um homem “de gabinete”, cabendo ao General Osório, de fato, ser um oficial mais próximo dos combatentes. Quanto à imigração, a letra não erra quando ressalta a importância de novas culturas entrarem no Brasil.)

“Pra Isabel, a heroína
Que assinou a lei divina
Negro, dançou, comemorou o fim da sina”
 

(É inquestionável a importância que a Lei Áurea teve no processo histórico brasileiro. É correto também afirmar que os negros, antigos escravos, dançaram e comemoraram a abolição da escravatura. Mas a realidade imediatamente após a abolição, já com a República implantada no Brasil, foi bem diferente. Aí fazendo um gancho com o samba da Mangueira do ano anterior, que questionava também os 100 anos de liberdade (“Cem anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?”), onde a escola em certo trecho dizia que o negro estava “livre do açoite da senzala e preso na miséria da favela”, o samba da Imperatriz em 1989 soa como desconhecimento ou provocação, já que a maioria dos ex-escravos não tinha pra onde ir após estarem livres, indo viver nas favelas, e foi aos poucos sendo colocado debaixo do tapete pela aristocracia republicana.)

“Na noite quinze reluzente
Com a bravura, finalmente
O marechal que proclamou
Foi presidente”
 

(Outro erro histórico, analisado nos dias de hoje. A noite de 15 de novembro de 1889 foi tudo, menos reluzente como diz o samba. A Proclamação da República foi um golpe de estado onde a população apenas assistiu, bestializada, a tomada do poder por um grupo de militares. O próprio marechal Deodoro da Fonseca era amigo pessoal do imperador D. Pedro II e hesitou muito antes de se levantar da cama, enfermo, no meio da noite, para fazer a Proclamação. Isso está longe de ser um ato de bravura, não?)

Não é objetivo aqui falar que o este samba não possui méritos. E seria de uma total injustiça querer, 22 anos após aquele desfile, criticá-lo, inclusive porque seria uma atitude anacrônica fazer isso. Inclusive porque, como disse anteriormente, pesquisas históricas foram aprimoradas. O que fizemos aqui foi apenas um exercício de comparar uma letra de samba antigo com a realidade que a História hoje nos apresenta.

Portanto, carnaval é historia e os desfiles proporcionam verdadeiras aulas para nosso povo, tão carente de cultura e informação. Pena que seja apenas explorado sob o ponto de vista da festa, da lascividade e que o conteúdo que possam proporcionar ainda precise ser... proclamado!

Bom carnaval a todos! Estarei aqui comentando a transmissão televisiva dos desfiles. Até lá!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Jogo Misto - Luiz Fernando Reis


Luiz Fernando Reis, cinquentão, carnavalesco que revolucionou o carnaval carioca com enredos irreverentes como "E Por Falar em Saudade", na Caprichosos, e com temas reflexivos como "Templo Negro em Tempo de Consciência Negra", no Salgueiro - ambos retratados na série "Samba de Terça". Professor de matemática, boêmio e comentarista. 

E meu amigo há mais de dez anos, inclusive me propiciando uma experiência ímpar no carnaval carioca - desfilar de grego, em uma roupa transparente, em um carro alegórico da Inocentes da Baixada em 2004... 

Luiz Fernando Reis, um dos próceres da história do carnaval carioca, é o entrevistado de hoje da coluna "Jogo Misto". Sua entrevista foi dada em áudio, que disponibilizo em duas partes aqui. Entretanto, faço um resumo das declarações abaixo, mas que não substitui o riquíssimo depoimento gravado.

Parte I:



Parte II



1 - De que forma o matemático e professor virou carnavalesco?

LFR - Explica que anteriormente ouvia os sambas e os imaginava em alegorias e fantasias. Ao ver a feira de Vila Isabel a imaginou como enredo e o apresentou na Unidos do Cabuçú e na Unidos de Cosmos até ser aceito na Caprichosos de Pilares (1982)

2 - "E Por Falar em Saudade" é um dos pontos altos de sua carreira. Como foi o processo de criação daquele carnaval? É verdade que Castor de Andrade estava preocupado na apuração?

LFR - O enredo surgiu em uma conversa com o parceiro Flávio Tavares em uma rodada de chope. Conta que a solidariedade do público foi muito grande - a escola iniciou o desfile às onze e meia da manhã  - e que o filho de Castor de Andrade temeu perder para a Caprichosos.

Relata também os elogios que ganhou do grande Fernando Pinto e que preferiu que a escola fosse declarada "campeã do povo" ao invés de ser campeã oficial.

3 - Como surgiu a idéia da faixa "Nem melhor, nem pior, apenas roubado" para o desfile das campeãs de 1989?

LFR - Afirma que a idéia foi do falecido patrono Miro Garcia e dá a entender que achou justa a colocação da escola. Elogia o Salgueiro e diz que foi seu melhor carnaval em termos plásticos.



4 - Como você avaliaria o momento atual da Caprichosos de Pilares?

LFR - Critica o Presidente Paulo de Almeida, diz que o tempo dele "já passou" e que a escola se ressentiu muito da última colocação em 2009 (acima), apesar do não rebaixamento.

5 - Como você avaliaria o desfile das escolas de samba nos dias de hoje? O que precisaria mudar?

LFR - critica o politicamente correto, os enredos burocráticos, a falta de ousadia e o conservadorismo. Diz que o modelo atual de poder onde o presidente "tem a chave da quadra em um bolso e o dinheiro no outro; às vezes usa o dinheiro na escola".

6 - Qual é a influência da internet sobre os desfiles atuais?

LFR - afirma que as pessoas sérias da internet devem ser mais ouvidas pelas escolas como uma forma de democracia. Cita textualmente o autor deste Ouro de Tolo, Fábio Fabato, Fábio Pavão, Eugênio Leal e Luis Carlos Magalhães como autores que devem e merecem ser lidos.

7 - O que você pensa a respeito da literatura disponível sobre carnaval?

LFR - diz que não é o mais importante e que tem "muito acadêmico que vai às quadras três vezes e acha que pode escrever sobre samba". Também diz que não há público leitor e que as escolas de samba são consideradas pela elite uma "coisa menor".



8 - Um desfile inesquecível. Por quê?

LFR - Caprichosos 82 e 85 e o inesquecível "Kizomba" - Vila Isabel 1988 (acima).

9 - Um samba inesquecível. Por quê?

LFR - "Chico Rei", Salgueiro 1964.

10 - Um livro inesquecível. Por quê ?

LFR - Declara que leu "meia dúzia de livros na vida", questiona o conceito de que aqueles que lêem são mais inteligentes e acha suas apostilas de Matemática inesquecíveis.

11- Uma canção inesquecível. Por quê ?

LFR - "Andança" e "Pra Não Dizer que Não Falei das Flores".

12- Livro ou filme ? Por quê?

LFR - filme, mas não gosta de ficção;

13 - Finalizando, com os agradecimentos do Ouro de Tolo, algumas poucas palavras sobre o blog ou seu autor/editor

LFR - elogia o trabalho que venho desenvolvendo aqui e no Galeria do Samba e pede que o Ministério Público veja o que ocorre nas escolas de samba.

(Foto: Acesso B, 2007)


terça-feira, 6 de julho de 2010

Samba de Terça - "Candaces"



O pessoal das listas de discussão por e-mail das quais participo costuma dizer que não gosto do Salgueiro. Isso se explica porque no pré - e pós - carnaval de 2009 eu 'desci a lenha' no samba da escola, que achava fraco - apesar das notas máximas - e igual a todos os sambas da escola desde 1993. À exceção de um.

É justamente este samba que é o tema de nossa coluna de hoje. "Candaces", Salgueiro 2007.

A vermelha e branca da Tijuca vinha daquela que é a pior classificação de sua vitoriosa história. O décimo primeiro lugar do ano anterior era reflexo de um enredo mal compreendido e do fato da escola ter aberto os desfiles do Grupo Especial, auxiliados por um samba não particularmente brilhante. Durante a apuração a escola chegou a correr risco de rebaixamento.

O carnavalesco Renato Lage para 2007 optou por um resgate das origens da escola, que sempre se notabilizou e se destacou por enredos com temática africana. A idéia era motivar novamente o salgueirense e "sacudir a poeira" após o péssimo resultado de 2006. "Candaces" foi o enredo escolhido, contando a saga da dinastia de rainhas da África Oriental, muito antes de Cristo. Nas palavras da sinopse:


"Falar de Candace ... É preciso olhar pra trás para ir pra frente. Porque atrás de nós tem um espelho e é nele que está nossa cara verdadeira. Nosso espelho é um espelho de Rainhas. Rainhas-Mães, Rainhas Guerreiras. Candaces. Somos herdeiros dessas Rainhas, temos a fala de nossos ancestrais". (Trecho da peça Candaces - A Reconstrução do Fogo)

A partir desta inspiração inicial, o Salgueiro vem desvendar em seu enredo a história das Candaces, dinastia de rainhas da África Oriental que comandaram, antes da era cristã, um dos mais prósperos impérios do continente.

Mais do que uma linhagem de rainhas, Candace torna-se um conceito, através do qual a força da mulher negra se faz presente em lutas, conquistas e no legado matriarcal que venceu o tempo e as distâncias.


As Mães Feiticeiras

Do grande continente africano trazemos não só a origem, mas também toda uma crença ancestral que exalta a figura feminina como a grande provedora que principiou a vida do Homem.

Um desses mitos conta que no início de tudo, ligadas às origens da Terra, havia as Mães Feiticeiras. Donas do destino da humanidade, elas eram o ventre do mundo. Conhecedoras dos segredos da vida, continham em si a capacidade de manipular os opostos e, assim, manter o equilíbrio do universo. Traziam consigo a força criadora e criativa do planeta. Raízes de um misticismo que abrigava em sua sabedoria a dualidade do cosmos, detinham o poder sobre a vida e a morte, o bem o mal, o amor e a cólera, o princípio e o fim.


As Ascendentes Candaces

Do mito à história, através do exemplo de duas grandes rainhas da Antigüidade, exaltamos o comando de mulheres negras sobre seus povos. Assim, evocamos a primeira ascendente Candace: Mekeda, ou Rainha de Sabá.

Reino das mil fragrâncias, confluência das culturas árabe e africana, Sabá era uma terra rica e mantinha uma sociedade matrilinear, em que o poder era passado aos descendentes pela via feminina. Ali viveu a exuberante Rainha Negra. A traída pela fama de riqueza e sabedoria que envolvia Salomão, o rei dos judeus, Mekeda adentrou Jerusalém com uma comitiva de camelos, levando uma infinidade de aromas e grande quantidade de ouro e pedras preciosas. Desse encontro nasceu a reverência à mulher que cativou com beleza, inteligência e diplomacia um dos soberanos mais importantes de sua época.

Do Oriente, rumo ao império dos faraós, surge mais um exemplo do po der feminino negro. Nefertiti reinou no Egito por mais de uma década durante o apogeu de uma civilização que iria influenciar toda a humanidade. Reverenciada por sua beleza, governou ao lado de Amenófis IV (Akhenaton) com status equivalente ao dele. Juntos, implementaram reformas culturais e religiosas, dentre elas o culto ao Deus Sol Aton. Foi imortalizada em templos mais do que qualquer outra rainha egípcia.


Candaces

Ao sul do Egito, banhado pelo Nilo, havia o Império Meroe. Era governado por uma dinastia de soberanas negras que exerciam o poder civil e milit ar. Imortalizadas pela história como Candaces, estas bravas guerreiras nasceram sob o signo da coragem para ocupar posição de poder e prestígio. Numa forma de conexão com as tradições matriarcais da África, reinavam sobre seu povo por direito próprio, e não na qualidade de esposas.

Viviam o apogeu de uma era de esplendor e fartura, abençoadas pelo grande rio e impulsionadas pelo comércio com o Oriente Médio. A localização do império permitia um intenso intercâmbio com outros povos - hebreus, assírios, persas, gregos e indianos. Em suas terras, ricas em ferro e metais preciosos, ergueram-se pirâmides e fortalezas.

Seus exércitos usavam armas de ferro e cavalaria, ferramentas e habilidades herdadas dos povos núbios, que lhes davam vantagem no campo de batalha. A idolatria daquela civilização pelos cavalos era tanta que estes animais eram enterrados junto com seus guerreiros, para servi-los por toda a eternidade. Esta imagem, misto de homem e cavalo, alcançou a Grécia, inspirando o surgimento da figura mitológica do Centauro. Na religião, cultuavam Apedemek, Deus da guerra e da vitória, representado por um homem com cabeça de leão.

A prosperidade de Meroe, que deu prosseguimento ao domínio Núbio na região, atraiu a ira dos senhores do mundo, o Império Romano. Aqui tem início o episódio que marcou a história das Candaces.

Líderes de um movimento de resistência contra o poderio bélico dos invasores, enfrentaram o forte exército, aliando técnicas de guerrilha e diplomacia. Uniram seu povo na luta contra o jugo romano movidas pela sede de justiça e liberdade.

Após a invasão de Petronius, a Rainha Candace esperou que as tropas do general adormecessem e os surpreendeu com um ataque. Este movimento abriu a possibilidade para uma negociação diplomática, comandada pela soberana negra. O resultado foi a retirada dos soldados romanos e a demarcação do território de Meroe, devolvendo a paz ao seu povo. Assim foi escrito o mais importante episódio que marcou a nobre dinastia de guerreiras naquele império africano.

Mas os exemplos de comando e resistência de bravas negras continuaram a florescer por outras eras e civilizações. Para além de seus próprios domínios, emergiu a saga das Candaces, Rainhas Mães que se fizeram deusas, reinando na crença de suas descendentes espalhadas pela Terra, porta-vozes da sua luta por toda a história.


As Descendentes

Várias luas se ergueram e se puseram no céu do continente negro. Um dia, rainhas e princesas de tribos e reinos se viram obrigadas ao trabalho forçado no novo mundo. Mas foi ali que fizeram multiplicar o sangue Candace. Em uma terra tão distante, ligadas ao passado, mulheres negras geraram o valor da bravura herdada de suas ancestrais.

A palavra liberdade ganhou um significado mítico no Brasil, dando um novo sentido à vida levada entre a clausura e o trabalho forçado. A bravura da dinastia Candace foi eternizada pela tradição oral africana, que tratou de espalhar aos quatro cantos os grandes feitos das suas soberanas, inspirando a luta de guerreiras que subverteram a força dos seus senhores e lutaram pela liberdade.

Para elas, ser livre era também reverenciar seus costumes, reviver o passado soberano, encenar a memória dos seus antepassados. Em folguedos, foram eternizadas na glória real da corte negra. No novo continente, há o despertar para o misticismo trazido do outro lado do Atlântico. A construção da identidade africana no Brasil encontra nas celebrações e ritos toda uma reverência à mulher como mediadora entre os deuses e a humanidade.

Na Bahia, as escravas ganhadeiras vendiam o excedente de produção em feiras e mercados como em sua terra natal. O lucro era poupado para comprar suas alforrias e a dos maridos, tornando-as mulheres com voz ativa. No chão brasileiro, era revivida a tradição das feiras iorubanas, um espaço não só para trocas de mercadorias, mas também para trocas simbólicas. A mulher concentrava o poder de fechar negócios, disseminar notícias, modas, receitas, músicas, e, sobretudo, aconselhar.

Assim, tornaram-se as grandes mães negras, sacerdotisas que tiveram suprimido o poder real na África, mas que passaram a exercer o poder espiritual no novo mundo.

Os elos entre arte e religião se tornaram mais fortes. As mães de santo se transformam em mães de samba. Tia Ciata, a mais conhecida, era respeitada por sua sabedoria religiosa. Celebrava os orixás em cerimônias em sua própria casa, que sucediam festas regadas a muita música, batuques e quitutes. Um misto de consagração da música e dos deuses afro-brasileiros.

Salve as Candaces do Candomblé , evocadas na saudação às entidades femininas.

Odoyá, Iemanjá!, rainha das águas do mar;
Saluba, Nanã!, deusa da Terra;
Eparrei, Iansã!, senhora dos raios;
Orayê-yê o, Oxum!, guardiã da beleza e do amor;
Oba-xi, Obá!, senhora das águas revoltas.

Celebração de religião e do puro prazer de dar ao corpo o gingado malemolente, fruto da persistência destas rainhas, sacerdotisas, baianas, pastoras, mães negras do carnaval.


A Imortalidade
 

Mulher. Negra. Gênero e raça. São as Candaces dos nossos dias, herdeiras do laço afro e da missão de semear esperança na Terra. Provedoras da força que nos acompanha desde os primeiros passos. Detentoras do relicário da arte em prol do coletivo.

Majestade, soberana, guardiã da sagrada chama da vida, dona do carnaval. Derrama teu talento ao interpretar a história da raça; enfeitiça os sentidos com tua beleza negra, libertando corpo e alma. Eleva-te ao panteon das matriarcas ancestrais da África e invoca a Candace dentro de ti. Resgata a força feminina das guerreiras imortais, Rainhas Mães de todos os tempos, para abençoar e iluminar teus filhos, emanando o Axé, poder vital da bondade e do afeto, energia que comanda o mundo.

Hoje, recontamos as glórias de quem um dia cumpriu seu destino e fez história, revivida sempre que alguém invocar teu nome. Salve as Candaces! Raça e gênero num só coração.

Renato Lage, Márcia Lavia e Diretoria Cultural"

(Fonte: Galeria do Samba)


Antes da escolha do samba, havia muitta curiosidade sobre a composição que seria escolhida. Desde o título de 1993 a escola vinha "em busca do Ita perdido", repetindo, com muito menos brilhantismo, a fórmula do samba campeão naquela oportunidade. Eram sambas "fáceis", com melodia e refrões "animados" e que eram esquecidos imediatamente após o desfile. Sambas descartáveis. Nem o enredo sobre o cinquentenário da escola em 2003 escapou desta fórmula de samba - o que, em minha opinião, foi uma pena.

Nos fóruns da internet brincava-se dizendo que o Salgueiro iria colocar os orixás para "zoar" e "sacudir" na Sapucaí. E que o carnavalesco Renato Lage faria uma "senzala com neón" - em alusão óbvia ao estilo 'high tec" no qual o brilhante artista notabilizou-se. Não estaríamos mais enganados.

A escolha do samba resgatou o bom e velho Salgueiro de antigamente: um samba denso, cativante, de letra poética e contando o enredo; e melodia que permitia ao componente cantar e se emocionar, não somente o salgueirense como aquele admirador do bom samba e da "Academia". O refrão final com a saudação aos orixás femininos era o arremate de ouro ao samba.

Antes do carnaval quem visitava a Cidade do Samba percebia que o carnavalesco estava "a fim de jogo". À medida em que as alegorias tomavam forma, o comentário unânime era de que nada chegava nem perto da escola tijucana em termos de bom gosto e requinte. Eu me lembro que estive no barracão na sexta feira antes do carnaval e saí de lá absolutamente sem palavras com o que havia visto.

O Salgueiro foi a terceira escola a pisar na avenida na noite de segunda feira de carnaval, 19 de fevereiro. Pisou na passarela disposto a fazer história.

Cada alegoria que passava, cada fantasia de ala mostrava a busca do resgate pela escola e o grito ao mundo de que o Salgueiro estava sim vivo, estava sim disposto a quebrar o jejum de catorze anos sem títulos. O samba casou-se maravilhosamente bem com o visual, permitindo um outro tipo de evolução à escola. Isso apesar do puxador, que decididamente não estava à altura da composição escolhida - além de enfiar "cacos" desnecessários.

A agremiação encerrou seu desfile como uma das grandes candidatas ao título, ao lado da Beija Flor. A Academia estava viva, mais do que nunca.

Só que a apuração... em um resultado absolutamente incompreensível, a escola obteve apenas o sétimo lugar, com 396,4 pontos, ficando fora inclusive do Desfile das Campeãs. O samba perdeu pontos, inacreditavelmente - de acordo com as justificativas, devido aos "cacos" incluídos pelo puxador e que são nítidos nos dois vídeos que disponibilizamos aqui.

A consequência foi funesta: a escola voltou ao gênero de sambas descartáveis nos anos seguintes, obtendo o título em 2009 com uma composição que, apesar das notas máximas, eu acho horroroso. E igual a todos os sambas da escola desde 1994 - a ponto do Salgueiro ter feito o "esquenta" este ano com o samba campeão de 2009 e eu ter achado que já era o samba oficial. É tudo igual mesmo...

"Candaces" acabou sendo um ponto fora da curva. Entretanto é muito superior a todos os sambas da escola entre 1994 e os dias atuais.


Vamos à letra, de autoria de Dudu Botelho, Marcelo Motta, Zé Paulo e Pião:

"Majestosa África
Berço dos meus ancestrais
Reflete no espelho da vida
A saga das negras e seus ideais
Mães feiticeiras, donas do destino...
Senhoras do ventre do mundo
Raiz da criação
Do mito a história
Encanto e beleza
Seduzindo a realeza

Candaces mulheres, guerreiras
Na luta... Justiça e liberdade
Rainhas soberanas
Florescendo pra eternidade

Novo mundo, novos tempos.
O suor da escravidão
A bravura persistiu
Aportaram em nosso chão
Na Bahia... Alforria
Nas feiras tradição
Mães de santo, mães do samba!
Pedem proteção
E nesse canto de fé
Salgueiro traz o axé
E faz a louvação

Odoyá Iemanjá; Saluba Nanã!
Eparrei Oyá;
Orayê Yê o, Oxum!
Oba Xi Oba"


Fotos: Walkir Fernandes Jr.