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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte II"


Nesta terça feira, o colunista Rafael Rafic em sua "Made in USA" conclui a análise comparativa entre as sinopses e os sambas das escolas do Grupo Especial para 2013.

Sambas vs Sinopses – Parte II

Continuemos a análise com as escolas que desfilam na segunda feira.

Segunda-feira

1 - São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo
Nota da Sinopse: 8,5
Autores do samba-enredo: Gabriel Mansilha, Nelson Amatuzzi Victor Alves, Floriano do Caranguejo, Beto Savana, Guguinha e Fabio Portugal

Com um ótimo tema e boa sinopse (porém um tanto quanto confusa e esparsa), a São Clemente foi a única escola que optou por uma fusão para 2013. Foi uma fusão clássica: 1 refrão e 1 estrofe de um samba colado com 1 refrão e 1 estrofe de outro – e alterada após a disputa.

O samba é de mediano para bom, não tendo grandes passagens. Tem apenas um refrão final que pega, mesmo não sendo uma maravilha poética nem melódica. É um samba que luta para completar a primeira metade do Grupo, enquanto a sinopse é claramente a quarta melhor do grupo.

Talvez tenha faltado um grande samba. Isso pode ter ocorrido devido à forma confusa com que as idéias foram lançadas na sinopse; ou talvez pela porcentagem absurda que a São Clemente exige dos direitos autorais dos compositores (na ordem de 60%). Mas o fato é que apesar do samba interessante não houve na safra um samba que ombreasse a nota alta obtida pela sinopse.

Resultado: samba mediano inferior a sinopse boa.

2 - Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho
Nota da Sinopse: 4,5
Autores do samba-enredo: Lequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalho

A sinopse mangueirense, não bastasse ser a típica sinopse CEP (louvando um lugar do Brasil), ainda foi pessimamente estruturada.

Porém, a tradicional parceria multicampeã mangueirense capitaneada pelo Lequinho, salvou a Mangueira. Típico caso que o talento do compositor tira samba de onde não tem na sinopse.

É um samba com a cara da Mangueira (cara essa que alguns queriam dar a Portela esse ano também... sorte que não foram bem sucedidos) que fica tranquilamente na primeira metade do grupo em 2013.

Não é por acaso que o samba praticamente não fala da sinopse, porque se começasse a falar demais fatalmente ficaria ruim.

Resultado: samba bom bastante superior a sinopse ruim.

3 – Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari
Nota da Sinopse: 4
Autores do samba-enredo: J Veloso, Ribeirinho, Marquinho Beija-Flor, Gilberto, Silvio Romai e Dilson Marimba

Enredo complicado e falho da Beija-Flor. Ganhou um samba normal que, se não faz parte da primeira metade do grupo para 2013, é melhor do que a sinopse e a trata com certa beleza poética em letra bastante interessante. Afinal essa era a única forma de fazer um samba competitivo na Beija-Flor, abordando o tema, mas sem ser o “pão, pão, queijo, queijo” que mataria o samba.

Resultado: samba razoável, ligeiramente melhor do que sinopse ruim. Possível interferência negativa da sinopse.

4 – Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa”… “Contra a injustiça em defesa do Rio”
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki
Nota da Sinopse: 1
Autores do samba-enredo: Mingau, Deré, Junior Fragga, Mingauzinho e Arlindo Neto

Da sinopse ruim, muito ruim, longa, insossa, longa, chata, doente e quase morta, saiu um samba até aceitável.

Não é um grande samba e provavelmente fica no terço final do Especial de 2013, mas é digno de Especial, tem um refrão final interessante (alias, também se utiliza de três refrões) e é um samba até certa medida legal de se cantar.

Para o desastre que foi a sinopse (tendo comentários inclusive que minha nota 1 foi boazinha, porque o certo seria o 0) esse samba, mesmo nem sendo mediano está acima de qualquer expectativa.

Resultado: samba de ruim para mediano infinitamente superior a um enredo absolutamente desastroso. Culpa total da sinopse.

5 – Imperatriz

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro
Nota da Sinopse: 6

Autores do samba-enredo: Me Leva, Gil Branco, Tião Pinheiro, Drummond e Maninho do Ponto

A Imperatriz trouxe uma sinopse mediana ao estilo CEP. Mas a ala de compositores da Imperatriz é sensacional e faz limonada de qualquer limão.

Mais uma vez tivemos uma disputa bastante acirrada, com 4 ou 5 sambas muito bons. A escolha foi um pouco contestada, mas qualquer escolha seria tendo em vista a quantidade de sambas bons na safra (mais uma vez em Ramos).

O samba da minha preferência (e de muitos outros), um samba ousado do incansável Zé Katimba, caiu ainda na semifinal. Porém os quatro sambas finalistas também tinham apoios consideráveis e chegaram justamente à final.

Dos finalistas, ganhou o meu preferido. É um ótimo samba. Não sei se dá para classificá-lo como o terceiro melhor do ano (atrás de Portela e Vila Isabel), mas com certeza está no terço inicial do Especial.

Resultado: bom samba, superior à sinopse mediana. Influência da qualidade dos compositores.

6 – Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães
Nota da Sinopse: 9,5
Autores do samba-enredo: André Diniz, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Tunico da Vila e Leonel.

Na Vila quando se junta André Diniz, Martinho e Arlindo (já apelidados de “Galácticos da Vila”) não se tem uma competição de samba-enredo: é praticamente um samba encomendado que já se sabe que irá ganhar.

A sinopse é muito boa e foi a surpresa agradável dessa safra. O samba que o representa não fica devendo nada à sinopse. Um samba de altíssima qualidade, que disputaria com a Portela o título de samba-enredo do ano.

Mas não é esse samba que todos andam falando. Para mim inclusive é inferior ao samba da Vila Isabel de 2012, sobre Angola (de André Diniz e Arlindo Cruz), e não teria toda essa repercussão se fosse assinado por Pedro Migão e Rafael Rafic. Mas é uma grande composição, sem dúvidas.

Por fim quero registrar uma incoerência de opiniões influentes do carnaval.

Várias pessoas que incensam o samba da Vila e proliferam aos quatro cantos que esse samba levará a Vila ao título (o que não duvido, ela é a favorita do momento), são as mesmas que defendiam na Portela o samba de Neyzinho. O argumento apresentado é que pela posição de desfile da Portela, última de domingo, ela precisaria de um samba mais “para cima” a fim não deixar o povo cair.

Mas será que essas pessoas não percebem que a Vila ocupa a mesma posição, até pior, já que a Vila encerra o último dia? E será que elas também não percebem que o samba do André Diniz & Cia é até mais cadenciado e “para baixo” do que o próprio samba da Portela?

Então porque para uma o samba cai como uma luva e para a outra não caia?

Alias, se guiando por esse argumento usado em Madureira, o samba escolhido na terra de Noel nem deveria ser esse, já que existiam outros dois sambas “mais para cima” do que o escolhido em Vila Isabel.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos de altíssima qualidade.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Made in USA - "Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II"


Nesta sexta feira, temos a segunda parte da coluna do advogado Rafael Rafic com as sinopses das escolas do Grupo Especial. Nossa faixa musical hoje irá falar mais tarde de outra faceta: as disputas de samba.

Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II

1. São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo

A São Clemente é uma das poucas que se salvam na safra desse ano. O enredo tratará sobre um assunto extremamente popular e altamente carnavalizável, mas que por algum motivo nunca foi para a avenida de maneira direta: as novelas brasileiras.

Porém aqui temos um problema: não sabemos se por causa de algum patrocínio (o que a escola nega), se por uma censura da Globo, que tem os direitos de transmissão exclusivos do desfile. Ou ainda se simplesmente por uma opção questionável da escola, só serão abordadas novelas da TV Globo.

[N.do.E.: quando do lançamento do enredo foi dito que haveria apoio institucional da emissora carioca.]

Isso deixa algumas pérolas novelísticas que seriam pivotais para o enredo - como Pantanal (TV Manchete) - de fora. Claro que isso se reflete em um problema na sinopse, mas nada que a inviabilize.

A sinopse em si, para mim, deixou um pouco a desejar porque apesar de apresentar alguns poucos personagens que ficaram na memória do povo e algumas novelas, ela focou mais no fluxo de uma novela em teoria.

Fala apenas da abertura, do final eletrizante, emoção e da fábrica de sonhos (apelido do PROJAC, o que aumentou a especulação da existência de patrocínio). Sinceramente eu acredito que no desfile muitas coisas que não estiveram na sinopse estarão na avenida. Isso pode a princípio causar perda de pontos para a escola da Zona Sul/Centro.

Ainda sim, é um ótimo enredo que na mão do carnavalesco Fábio Ricardo poderá colocar a São Clemente mais uma vez como a surpresa do Carnaval. Como vários compositores também são grandes noveleiros, não deverão ter qualquer dificuldade para ter inspiração.

Nota: 8,5

2. Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho

Aqui chegamos enredo escrito por aquele se tornou um engana... ops, escritor de enredos semi-profissional: Marcos Roza. Marcos é o mesmo que idealizou o “Roteiro dos Desfiles”, que é distribuído aos espectadores na Sapucaí explicando o enredo e o que representam as fantasias de cada escola.

Talvez ele tenha tido essa idéia para que alguém consiga entender o que ele escreve, sinceramente. Mais um enredo que parte do nada e chega ao lugar algum, passando por todos os lugares comuns do enredo CEP. Alias, troca Cuiabá por Bole-Bole e trem por esterco, e já temos a sinopse para o samba-enredo do conto do Aloísio Villar publicado aqui no Ouro de Tolo há semanas atrás.

O enredo pega como fio condutor uma viagem de trem partindo da Estação Primeira de Mangueira e passando por cada característica de Cuiabá que se quer ressaltar (mesmo que ela não tenha na realidade), que é representada por uma estação - tais como as lendas locais e a culinária. Exatamente como um típico enredo CEP tem. O problema é que Cuiabá NUNCA teve trem.

Foi exatamente nesse desejo de Cuiabá de ter um trem que nunca teve é que o enredo tenta se estruturar. Mas se a intenção é mostrar o que a cidade tem, com que lógica o enredo se arvora em algo que ela clamorosamente nunca teve?

Por fim, ainda há uma polêmica: vários trechos da sinopse seriam plágio do enredo mangueirense campeão de 2002, ‘Brasil com Z é pra Cabra da Peste. Brasil com S é a Nação do Nordeste’. Marcos Roza nega o plágio.

Plágio ou apenas coincidência, a verdade é que vários trechos são muito parecidos mesmo.

[N.do.E.: há um outro trecho praticamente idêntico à sinopse do Salgueiro do carnaval de 2010.]

Nota: 4,5

3. Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari

O tema, o segundo na ordem e anunciado ainda no sábado das Campeãs é sobre o cavalo mangalarga marchador. Claro, conta com um polpudíssimo patrocínio da associação de criadores desses animais.

Aqui minha reação foi bem parecida com a que tive com a Mocidade. Enquanto todos baixavam o sarrafo no tema, eu dizia que a Beija-flor estava com um problema na mão, mas que o tema se fosse bem trabalhado poderia render um belíssimo desfile. Outra esperança que foi defenestrada assim que li a sinopse.
No início ela tenta usar o próprio cavalo como narrador de sua história, ainda o tratando de modo generalizado, sem mencionar raças e começa aquela viagem na história pelo mundo que todo enredo genérico faz - só mudando o objeto do patrocínio.

Então fala do cavalo no deserto árabe da pré-história, que passa pelo seu uso na agricultura do neolítico, do seu uso como transporte de guerra, passando pelo Cavalo de Tróia...

Epa, Cavalo de Tróia? É, aqui está o primeiro grande problema de foco do enredo. Se a intenção era mostrar a história e importância do animal cavalo, o que uma estrutura oca de madeira está fazendo aqui?

Depois de Tróia, ele volta para a mitologia, apesar de não ficar claro que tipo de mitologia é abordada. Mas tudo me indica que seja Pégasus e aqui temos outro problema na linha histórica. Era para ele ter vindo antes do Cavalo de Tróia.

A viagem ao mundo não podia terminar sem uma passagem no lugar comum dos mouros e árabes e seus enormes exércitos de cavalaria. Hei, e a parte que já trata das guerras lá em cima? Pois é, o enredo não se decide.

Como fala de guerra a todo momento e estamos na Beija-Flor, podem esperar um enredo de sofrimento, dor, sangue e, já que estamos falando em cavalos, muita chicotada.

Para terminar, de repente e sem aviso, a sinopse dá uma giro total e passa a abordar o Brasil e a raça “homenageada” mais especificamente, aproveitando a ligação do cavalo com a coroa portuguesa e dessa com o Brasil - olha o clichê da Família Real no Brasil aí!

Aqui o enredo se perde completamente. Ele começa a trazer para a história alguns elementos que necessariamente precisariam de explicação. Por exemplo, o trecho “No então chamado Novo Mundo aportei, sendo presenteado pelo rei português ao Barão de Alfenas, e do cruzamento com as raças ibéricas, que aqui chegaram na época da colonização, renasci como o sangue puro do Brasil, no sul de Minas Gerais”.
Espera aí, como o cavalo foi cruzado com o cavalo, já que até aqui o enredo não faz qualquer distinção de raças de cavalo?

Pelos erros mil entrecortados por todos os clichês possíveis e imaginários, terei que ser muito duro na minha nota. Isso sem falar na total falta de inspiração poética gerada por essa sinopse insossa.

Nota: 4

4. Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa” … “Contra a injustiça em defesa do Rio”…
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki

Depois de achar que já tinha lido de tudo possível nesse ano após ler as sinopse da Inocentes, da Beija-flor e do Salgueiro, me aparece aos 48 do 2° tempo (dia 23 de julho, última segunda feira. Ah, se fosse a Portela...) a sinopse da Grande Rio e ela me fez lembrar que eu ainda não tinha lido a sinopse da escola do polonês (apelido de Roberto Szaniecki, carnavalesco da escola e nascido no país europeu).

Depois de namorar bastante com a Volkswagen para contar a história do Fusca apenas para ser recusado pela TV Globo - e recusa da Globo, ainda mais na Grande Rio, é veto, a Grande Rio abraçou um enredo altamente político sobre a disputa do Rio pela manutenção dos royalties para os governos estaduais e municipais como estão.

O enredo não se sai bem em nenhum aspecto.

Para começar é um enredo politicamente panfletário de uma forma que eu nunca vi e que simplesmente não combina com carnaval da forma totalmente explícita com que foi feito. Deixa Portela 2010 e São Clemente 2009 no chão. Talvez nenhum enredo tenha chegado tão perto da total vassalagem profana e insana dos fatídicos carnavais da Beija-Flor de 1974 e, principalmente, 1975.
 
Além disso, ele é longo e modorrento, totalmente diferente do longo-instigativo, da Ilha. Depois ele não é nada, nada, nada carnavalizável, muito menos inspirativo para a ala de compositores. Alias, haja inspiração nessa temporada para os compositores caxienses. Aposto que eles estão se perguntando onde estão o iogurte ou as lentes de contato que eram mais fáceis (lembrando que esses enredos polêmicos também foram obra do polonês, sendo o segundo em São Paulo).

O polonês ainda não largou a mania irritante de dividir a sinopse em setores, o que acaba engessando totalmente a ala dos compositores. Esta tem que seguir exatamente o pensamento do carnavalesco, sob pena de um rápido jubilamento nas eliminatórias.

Os enredos de Szaniecki nunca ajudam o compositor em uma vírgula em seu trabalho e ainda o enquadra em uma sequência certa inquebrável que atrapalha ainda mais. Para transformar o trabalho em algo hercúleo, sempre que ele não adota a linha temporal, a sequência de setores não apresenta nenhuma lógica e complica de vez qualquer possibilidade de ser criar algum samba que pelo menos consiga levar a escola.

É exatamente o caso: o enredo se perde totalmente.

Tem uma intenção longa e desnecessária, para depois ter outra introdução tão longa e desnecessária. Em ambos os textos a sinopse diz que versará sobre o petróleo e seus royalties. Mas de petróleo mesmo só temos dois setores, os primeiros. Que para variar ainda contem erros técnicos crassos, visíveis até para uma pessoa leiga no assunto. Imagino que o nosso editor, especialista, deve ter quase enfartado quando leu.

[N.do.E.: o enredo tem diversos erros conceituais, inclusive sobre a própria natureza dos royalties. Lamentável.]

Os quatro setores finais são apenas para louvar os benefícios dos royalties do petróleo nas cidades que o recebem. Só que eles falam de tantas coisas, até certo ponto supérfluas considerando as necessidades dos rincões brasileiros como um todo, que, ao terminar de ler a sinopse eu tenho certeza que os royalties realmente devem ser repartidos com os estados não-produtores porque não temos mais onde investir tanto dinheiro.
Exatamente ao contrário do que o enredo se propõe - e olha que sou defensor ferrenho do Rio nessa disputa política.

Em resumo: um desastre total. Conseguiu a proeza de roubar da Inocentes o título de pior sinopse do ano.

Nota: 1

5. Imperatriz Leopoldinense

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro

Continuamos a profusão de enredos patrocinados, mais uma vez na modalidade CEP. Dominguinhos do Estácio mais uma vez aproveita suas ligações paraenses e consegue emplacar outro enredo sobre o Pará em uma escola sua para que ele solte a voz.

O enredo é mais do mesmo que já vimos na avenida trocentas vezes: sobre a Amazônia (que, sejamos sinceros, após tanto desmatamento, é mais história do que realidade no Pará), matas vastas e verdes, lendas indígenas, Tupã, ouro, borracha - e,para terminar a culinária paraense. Tudo entremeado com inúmeras palavras em tupi, para as quais há um enorme glossário ao final da sinopse.

Enredo ruim, porém até onde pode, honesto. Dá pelo menos para fazer um samba, se não bonito, na média. A excelente ala de compositores da Imperatriz deve ajudar.

Nota: 6

6. Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães

Para encerrar o carnaval, a boa surpresa do ano para mim. Quando a Vila disse que iria falar do “Brasil Rural” e, para piorar com patrocínio da BASF, especializada em agrotóxicos, pensei logo no pior.

Mas quando li a sinopse, que surpresa agradável!

O enredo simplesmente fala do jeito “caipira” de ser, introvertido, mas sempre simpático e acolhedor. Exata a figura do agricultor, o que não é muito comum no carnaval, de uma forma simples, mas que acertou em cheio

Apesar de passar também por alguns clichês, como as três raças que se irmanam para criar o brasileiro, as quais se agregam os imigrantes; a sinopse se salva por fazer um quadro bem completo do estilo caipira de ser, o trabalho da terra que é fundamental para a economia brasileira e a música sertaneja. Alias, o enredo acaba até enveredando pela história da viola no Brasil, sob o argumento (corretíssimo) que não tem como falar do lado cultural do agricultor sem tratar de sua inseparável viola.

Ainda aborda a religiosidade do homem do campo e sua relação muitas vezes difícil com o ciclo de chuvas do cerrado e do sertão.

Enfim, um enredo muito legal, que fugiu do óbvio e com a cara de Rosa Magalhães. É um enredo que dá para a ala de compositores brincar muito e ainda traz, a pretexto de inspiração, várias músicas relacionadas ao homem do campo e algumas frases que marcaram época ao descrevê-lo.

Após a leitura da sinopse, espero bastante da Vila.

Nota: 9

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Grupo Especial - Domingo - Impressões


A primeira noite de desfiles do Grupo Especial marcou um confronto claro entre a emoção dos melhores sambas (Portela e Vila Isabel), com alegorias mais tímidas, e as escolas de ostentação e riqueza (Mocidade e Beija Flor), com clara vantagem para o primeiro grupo.

É quase unanimidade que Portela e Vila Isabel fizeram os melhores desfiles, embora não perfeitas, em especial no quesito alegorias. Para meu gosto (e torcida) pessoal colocaria a Portela à frente da Vila, mas reconheço que é páreo duro.

Imperatriz, Porto da Pedra e Renascer fizeram desfiles abaixo das outras - a primeira com muitos problemas - e me arriscaria a dizer que as duas rebaixadas sairão destas três escolas.

Vamos a algumas impressões escola a escola:

1 - Renascer de Jacarepaguá


Só vi a "arrancada" da escola, mas a agremiação sentiu claramente o peso da estreia no Grupo Especial, além de abrir o desfile. Fez claramente um desfile inferior às outras e deve retornar ao Grupo de Acesso A para 2013.

2 - Portela


Leitor, estou de alma lavada. Digo sem medo de errar que em nove anos este foi meu melhor desfile pela escola. Solto, alegre, com muita garra, brincando carnaval mas comprometido com a escola. E mais uma vez vim ajudando na Harmonia de minha ala.

A escola passou feito um furacão pela avenida, apesar de alegorias desiguais e alguns problemas nas fantasias. Ainda assim foi o melhor barracão dos anos da administração atual com folga.

Arriscaria a dizer que se o presidente da escola tivesse investido no projeto original do carnavalesco a Portela seria campeã deste ano com sobras. Mas ainda assim, caro leitor portelense: nós temos um compromisso na noite do Sábado das Campeãs.

O mais importante é que a partir de hoje podemos voltar a andar de cabeça erguida, e isso não tem preço. Estou muito feliz.

3 - Imperatriz Leopoldinense


Muitos problemas em seu desfile, com quebras de carros e esculturas que propiciaram troca de ordem com alas (o que penaliza o quesito Enredo) e prejudicaram a Evolução. Uma penas, pois estes estavam bonitos, embora a sequência de cores das fantasias não estivesse bem resolvida.

A não ser que haja uma catástrofe no desfile de hoje briga ponto a ponto com a Porto da pedra para não descer.

4 - Mocidade


O enredo sobre Portinari (acima) foi muito imponente em relação à plástica, em bom trabalho do carnavalesco Alexandre Louzada - apesar de algumas fantasias bastante pesadas.

Entretanto, faltou alma ao componente. A escola passou fria. O lindo samba caiu muito no decorrer do desfile.

5 - Porto da Pedra


O insólito enredo sobre o iogurte ganhou uma leitura no meio caminho entre o irreverente e o institucional, mas sem empolgar. Passou sem grandes erros apesar do insuportável samba, com algumas soluções interessantes e outras nem tanto. Destaque absoluto para a bateria.

Lamentável o momento "eu sou foda" do puxador Wander Pires no grito de guerra da escola.

6 - Beija Flor


Irreconhecível. Assim definiria a Beija Flor, que em termos de quesitos de pista fez fácil seu pior desfile nos últimos 15 anos, com direito até a buracos (foto). Escola parada, correria desenfreada, a comissão de frente não se apresentou para o primeiro julgador e a roupa da porta bandeira teve problemas.

A estética, apesar de imponente, eram os mesmos monstros de sempre. Em um julgamento normal não ficaria nem entre as cinco primeiras, mas é a Beija Flor.

7 - Vila Isabel


Início arrebatador já na Comissão de Frente e no esquenta com "Kizomba". A escola fez um desfile muito semelhante ao da Portela em qualidades e defeitos, com alegorias que, salvo o abre alas, eram bem tímidas.

Ainda assim, como a Portela, fez um desfile de escola de samba, embora um pouco menos empolgado. Mas gostei muito.

Aliás, acho que a noite de ontem deixou clara a importância que é de se escolher um bom samba.

Na minha avaliação, seria:

1 - Portela
2 - Vila Isabel
3 - Mocidade
4 - Beija Flor
5 - Porto da Pedra
6 - Imperatriz
7 - Renascer

sábado, 5 de março de 2011

História & Outros Assuntos: "Carnaval. Doce Ilusão?"


Dando seguimento à nossa programação carnavalesca, o tema de hoje da coluna do historiador Fabrício Gomes é a relação entre samba e História.

Carnaval. Doce ilusão?

“Carnaval
Doce ilusão
Dê-me um pouco de magia
De perfume e fantasia
E também de sedução
Quero sentir nas asas do infinito
Minha imaginação...”


Os primeiros versos do samba-de-enredo “Os cinco bailes da história do Rio”, composição de Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Bacalhau, apresentado em 1965 pelo Império Serrano, não são apenas uma constatação. A imaginação que o samba fala vai muito de como é a percepção de cada um sobre o que, de fato, representa o desfile das escolas de samba.

Entra ano e sai ano vêm os desfiles das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Mais do que o espetáculo inconteste das escolas, das baterias, das fantasias e dos gigantescos carros alegóricos, desfilam pela Avenida um festival de celebridades e mulheres bonitas, praticamente seminuas, em busca de seus 15, 20 minutos de fama – podendo ganhar uma “sobrevida” caso alguma revista masculina convide alguma para ser garota da capa numa próxima edição.

Mas.. cabe a pergunta: “o carnaval é apenas contemplar corpos bonitos, bumbuns e paetês?”

Acredito que por trás do desfile das escolas de samba do carnaval carioca (e sem querer cair no erro do bairrismo, do carnaval paulista também), haja algo muito maior: não somente a embalagem, mas também conteúdo. Muito conteúdo. Além de ser uma manifestação cultural sem precedentes, o nosso carnaval (aí estendendo para outras praças, como Salvador, Recife, Olinda, Ouro Preto, entre outras) retrata também a riqueza antropológica, sociológica e musical de um povo.

No caso do desfile de uma escola de samba, muitas coisas estão implícitas. Assistir uma escola desfilando é como se estivéssemos numa aula de cultura, aprendendo o ponto de vista que o professor (o carnavalesco) daquela disciplina (escola/enredo) quisesse expressar aos alunos (o público presente na Sapucaí e na TV – OK, na TV ainda há um certo “intermediário”, os comentaristas, que inevitavelmente comentam seus pontos de vista e acabam por influenciar a “aula”). Variados enredos são apresentados, e no fim de uma, duas noites, temos a impressão de estarmos extasiados com a quantidade de informação disponibilizada.

Aí geralmente cabe a reflexão: “que prazer assistir a essa aula, não?”


Recentemente dois discos foram lançados no mercado fonográfico: “Aula de samba: a História do Brasil através do samba-enredo” (com simpática capa - acima - desenhada pelo cartunista Ziraldo, com diversas personagens importantes da História do Brasil) e “História do Brasil através do samba-enredo: o Negro no Brasil” (este na verdade, um relançamento, já que o original data de 1976). Em ambos os discos, há uma primorosa seleção de sambas-de-enredo que:

1) Abordaram personagens históricos, contando sua saga, suas lutas e influências;
2) Sambas-de-enredo que tiveram foco na questão do negro, na escravidão, no tráfico de escravos e na abolição da escravatura.

Realmente quem ouve os discos tem a impressão de estar numa aula de História. Estes discos são tão importantes que são constantemente utilizados em metodologias em História, nas salas de aula, como forma de aprendizado alternativo e mais simpático aos alunos, fugindo do velho recurso já batido de acreditar que monólogos e decorebas são as maneiras mais corretas de fazer com que alunos aprendam História.

Como percebemos então, o carnaval não é apenas uma “festa pagã”, lasciva e do pecado. Carnaval também é cultura. Muita cultura.

Ao longo de décadas, o desfile das escolas de samba teve muita história pra contar. Desde o Estado Novo, quando os desfiles eram utilizados como forma de “propaganda” do regime ditatorial de Vargas – as escolas levavam temas nacionais, geralmente contando a vida e obra de grandes personagens, na maioria das vezes simpáticos à causa republicana – mas atenção: quase nada sobre a República Velha (ou Primeira República, de acordo com a nova historiografia), já que a Revolução de 1930, da qual Vargas foi um dos principais nomes, queria justamente enterrar um passado identificado com militares jacobinistas associados a oligarcas (coronéis do agreste e antigos barões do café). Então era possível identificar Tiradentes, um dos principais símbolos que a República utilizou) em enredos, assim como nomes que fossem simpáticos ao regime.

A utilização de temas históricos foi se aprimorando. A Mangueira em 1956 apresentou o enredo “Homenagem a Getúlio Vargas, o grande presidente”, ficando em terceiro lugar; em 1958 a Portela foi campeã com o enredo “Vultos e efemérides do Brasil”, e no mesmo ano a Tupi de Brás de Pina apresentou o enredo “Inconfidência Mineira”, ficando em oitavo lugar. No desfile de 1962, por exemplo, praticamente todas as escolas desfilaram com enredos históricos – a Portela foi campeã com o enredo “Rugendas ou Viagens Pitorescas através do Brasil”. 

Nesta mesma década de 1960, o Salgueiro inaugurou uma nova concepção de desfiles, com Fernando Pamplona no comando, e levou vários de enredos históricos de causar inveja, sempre relacionados com a escravidão: “Quilombo dos Palmares” (1960), “Chica da Silva” (1963), “Chico Rei” (1964), “História da Liberdade no Brasil” (1967) e “Bahia de Todos os Deuses” (1969) – a escola ainda apresentaria enredos relacionados durante a década de 1970, como “Festa para um rei negro” (1971) – que ficou popularmente conhecido com o fabuloso refrão “Pega no Ganzê, Pega no Ganzá” – e “Valongo” (1976) – nome que era dado ao mercado de escravos próximo à região da Gamboa, centro do Rio, onde muitos que chegavam da África, em más condições físicas e de saúde, eram alocados à espera de senhores que os comprassem – a maioria morria ali mesmo, e o Valongo parecia um “açougue” humano.

No caso do Salgueiro é importante ressaltar o papel que a escola teve nos anos 1960, de levar enredos que falassem de temas arriscados como “liberdade”, “abolição”, “exploração de trabalho escravo”, justamente numa época onde, na política, temas como nacionalismo e anti-imperialismo eram belicosos. E depois de 1964, com a ascensão do regime militar, parecia mesmo uma provocação que a escola apresentasse, em 1967, um enredo que falasse sobre... “A História da Liberdade no Brasil”. E era mesmo.

Assim como o Império Serrano apresentou-se (e ainda se apresenta) sob a égide de ser uma escola de “resistência” – seu enredo de 2001 apresentou a história do Cais do Porto do Rio de Janeiro, e um dos versos do samba falava justamente sobre a estiva (trabalho de carga e descarga de navios ali parados), o que motivou, no início do século XX o surgimento do sindicato dos estivadores – o primeiro sindicato do Brasil. A trajetória imperiana em muito se confunde com isso: com a luta contra os poderosos dirigentes que comandam o carnaval, sempre buscando ressaltar valores como samba e tradição, entre outros, em detrimento de modernidades nem sempre tão saudáveis aos desfiles.

Certamente se eu fosse listar todas as escolas e enredos históricos, ao longo desses praticamente 80 anos de desfiles, só terminaria de escrever após o carnaval do ano que vem.

Entretanto, cabe chamarmos a atenção para a questão da letra dos sambas-de-enredo. 


Muitas delas hoje estão defasadas, tendo em vista que a historiografia se aprimora a cada ano, pesquisas e novos estudos são feitos sobre temas da nossa história. Um samba em especial merece destaque: “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós”, que elevou a Imperatriz Leopoldinense ao título máximo do carnaval em 1989, num desfile primoroso, recheado de emoção, com um samba considerado por muitos como antológico, tanto na letra, como na melodia. O enredo falava sobre o centenário da Proclamação da República (1889-1989).

Mas... se hoje a Imperatriz desfilasse com aquele samba, perderia preciosos pontos, já que o samba possui trechos que não soam mais verdadeiros. Em 1989 ainda não tínhamos estudos muito esclarecedores sobre o que foi realmente a Proclamação da República. Ainda não tínhamos a primeira eleição democrática para presidente, ainda vivíamos sob influência de ementas escolares que datavam das décadas anteriores (elaboradas pelo regime militar), ainda dava-se Educação Moral e Cívica nas escolas – uma disciplina que prezava e exaltava feitos militares, patriotismo etc – e certos temas ainda eram obscuros e muito complexos para fazer com que alunos entendessem.

Então era muito normal acreditar que o Marechal Deodoro da Fonseca tivesse proclamado a República com extremo vigor e que sua figura estivesse descolada por completo da Família Real. E que a abolição da escravatura em 1888 tivesse representado a liberdade, de fato, de todos os escravos. Convido o leitor então, para alguns comentários em torno da letra do samba da Imperatriz de 1989:

“Vem ver, vem reviver comigo amor
O centenário em poesia
Nesta pátria, mãe querida
O império decadente, muito rico, incoerente
Era fidalguia”


(Quanto a esse trecho em si, nenhum problema, embora fosse uma visão estritamente jacobinista republicana encarar a monarquia como sendo “incoerente”. Alguns jornais republicanos chegaram a publicar charges de D.Pedro II dormindo, refestelado em poltronas, como se estivesse alheio aos problemas do Brasil. Muitos acusavam-no de viajar pelo mundo, não tendo dom para governar o país. Em muitas ocasiões, a mandatária, de fato, era sua filha, a Princesa Isabel.)

“Surgem os tamborins, vem emoção
A bateria vem no pique da canção
E a nobreza enfeita o luxo do salão
Vem viver o sonho que sonhei
Ao longe faz-se ouvir
Tem verde e branco por aí
Brilhando na Sapucaí”


(Quando a letra diz que “a nobreza enfeita o luxo do salão”, refere-se ao último baile do Império, realizado na Ilha Fiscal, em 9 de novembro de 1889, a seis dias da Proclamação da República, e foi oferecido pelo Visconde de Ouro Preto à nação chilena e aos comandantes e oficiais, através do encouraçado “Almirante Cochrane”, que se encontrava atracado na Baía de Guanabara,. O evento acontecia como forma de agradecimento à recepção do navio brasileiro, quando este chegou a Valparaíso, no Chile. Os republicanos criticaram esse baile em exaustão, acusando o Império de esbanjar dinheiro e suntuosidade desnecessárias.)

“Da guerra nunca mais
Esqueceremos do patrono, o duque imortal
A imigração floriu de cultura o Brasil
A música encanta e o povo canta assim”


(Exaltação à Guerra do Paraguai? Uma guerra que provocou baixas, onerou o Estado e tornou-se uma pedra no sapato para o Império? Certamente uma visão republicana de contar a história. E sobre o Duque de Caxias, alguns livros questionam sua verdadeira atitude dentro do Exército. Para muitos, era um homem “de gabinete”, cabendo ao General Osório, de fato, ser um oficial mais próximo dos combatentes. Quanto à imigração, a letra não erra quando ressalta a importância de novas culturas entrarem no Brasil.)

“Pra Isabel, a heroína
Que assinou a lei divina
Negro, dançou, comemorou o fim da sina”
 

(É inquestionável a importância que a Lei Áurea teve no processo histórico brasileiro. É correto também afirmar que os negros, antigos escravos, dançaram e comemoraram a abolição da escravatura. Mas a realidade imediatamente após a abolição, já com a República implantada no Brasil, foi bem diferente. Aí fazendo um gancho com o samba da Mangueira do ano anterior, que questionava também os 100 anos de liberdade (“Cem anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?”), onde a escola em certo trecho dizia que o negro estava “livre do açoite da senzala e preso na miséria da favela”, o samba da Imperatriz em 1989 soa como desconhecimento ou provocação, já que a maioria dos ex-escravos não tinha pra onde ir após estarem livres, indo viver nas favelas, e foi aos poucos sendo colocado debaixo do tapete pela aristocracia republicana.)

“Na noite quinze reluzente
Com a bravura, finalmente
O marechal que proclamou
Foi presidente”
 

(Outro erro histórico, analisado nos dias de hoje. A noite de 15 de novembro de 1889 foi tudo, menos reluzente como diz o samba. A Proclamação da República foi um golpe de estado onde a população apenas assistiu, bestializada, a tomada do poder por um grupo de militares. O próprio marechal Deodoro da Fonseca era amigo pessoal do imperador D. Pedro II e hesitou muito antes de se levantar da cama, enfermo, no meio da noite, para fazer a Proclamação. Isso está longe de ser um ato de bravura, não?)

Não é objetivo aqui falar que o este samba não possui méritos. E seria de uma total injustiça querer, 22 anos após aquele desfile, criticá-lo, inclusive porque seria uma atitude anacrônica fazer isso. Inclusive porque, como disse anteriormente, pesquisas históricas foram aprimoradas. O que fizemos aqui foi apenas um exercício de comparar uma letra de samba antigo com a realidade que a História hoje nos apresenta.

Portanto, carnaval é historia e os desfiles proporcionam verdadeiras aulas para nosso povo, tão carente de cultura e informação. Pena que seja apenas explorado sob o ponto de vista da festa, da lascividade e que o conteúdo que possam proporcionar ainda precise ser... proclamado!

Bom carnaval a todos! Estarei aqui comentando a transmissão televisiva dos desfiles. Até lá!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Samba de Terça: "Nem Todo Pirata Tem Perna de Pau, o Olho de Vidro e a Cara de Mau"



Bom, a coluna "Samba de Terça" de hoje retoma o assunto da última coluna, onde tivemos o caso de uma composição que foi totalmente alterada entre a disputa e o desfile. Hoje retomamos o tema, de uma forma ainda mais impressionante dado o fato de não terem havido os percalços que limitaram o tempo do concurso no caso anterior.

A Imperatriz Leopoldinense vivia uma fase onde era odiada pelo povão que gostava de carnaval. A escola fora tricampeã entre 1999 e 2001, com desfiles muito contestados; exatamente no tempo do mandato de seu patrono Luiz Pacheco Drummond como mandatário máximo da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), entidade que organiza o carnaval e controla, especialmente, o corpo de jurados.

Pois bem: a escola vinha de um título em 99 onde sequer no Desfile das Campeãs deveria figurar. Outro em 2000 onde, para se usar um termo do mundo do samba, foi no "limite do tolerável" - haviam escolas melhores mas não foi absurdo. E um tricampeonato em 2001 onde o desfile foi bastante inferior a outros do citado ano - em especial o antológico "Agotime", da Beija Flor.

Somando-se os três desfiles, a escola perderia apenas um único ponto no julgamento dos jurados. Ressalte-se que Luiz Pacheco Drummond deu uma entrevista na Quarta Feira de Cinzas do ano anterior dizendo "que seria tricampeão no ano seguinte (2001)". E foi, com nota máxima em todos os quesitos. Quem viu o desfile sabe que a escola esteve longe de ser perfeita, mas manda quem pode e obedece quem tem juízo...

Além disso, para justificar o injustificável a diretoria da escola criou a lenda do "tecnicamente perfeito": desfiles frios, visando atender aos ítens do regulamento. Em uma frase clássica, o então diretor de carnaval da escola afirmou que "desfilamos para os jurados, o povo que se dane". Repercutida, a afirmação gerou ainda mais antipatia à escola, antipatia esta que foi assumida por seus dirigentes.

Obviamente, a escola e seus componentes não tinham culpa dos títulos questionáveis e da arrogância dos seus diretores. Mas foram eles que pagaram.

Desfile de 2002.

A Imperatriz, quinta escola a desfilar na segunda feira de carnaval, aninha-se na cabeceira da pista para iniciar o seu desfile, buscando um tetracampeonato que somente a Portela lograra obter. Só que não contava com o público do Setor 1.

Os diretores da escola começaram a distribuir prospectos com a letra do samba e fardos com bandeiras da escola para as pessoas que assistiam neste setor - um dos únicos onde a presença era majoritariamente de cariocas. Em uma reação espontânea, os prospectos e as bandeiras começaram a ser jogados de volta à pista, além de latas de cerveja e refrigerantes, muitas cheias, em direção aos componentes.

A comissão de frente da escola, com medo dos objetos que voavam em direção à pista correu para se esconder atrás do carro abre-alas. Foi a senha: aumentou a quantidade de bandeiras, prospectos, latas e garrafas atiradas, bem como as vaias e os gritos se intensificaram. A arquibancada vaiava alucinadamente a escola na Armação e gritava em coro:

"Ão ão ão, escola de ladrão!" "Ão ão ão, bando de ladrão!"

As pessoas faziam com as mãos aquele gesto típico indicando roubo, do polegar girando na palma da outra mão. Precisou o filho do patrono da escola ir ao microfone e, no sistema de som, pedir calma às pessoas dizendo que "o desfile é pra vocês". Mais vaias... Aliás, naquele ano a escola foi vaiada antes mesmo do início da noite de desfiles, quando seu nome foi anunciado no sistema de som do Sambódromo.

O público só se acalmou quando o samba do ano começou a ser tocado. De minha parte posso testemunhar que estava no Setor 1 e foi absolutamente espontâneo o movimento das pessoas. Era como se dissessem: "na cara dura de novo, não".

O leitor deve estar se perguntando: "o que estes fatos tem a ver com o samba de 2003"? Tudo.

A diretoria da escola, depois dos fatos, decidiu que a Imperatriz deveria ter uma cara mais simpática ao povão. A avaliação era de que o resultado de 2002, terceiro lugar, havia sido impactado não somente pelos protestos como na ressonância na imprensa pré-carnavalesca de toda esta arrogância. Acrescentaria eu o fato de Luiz Pacheco Drummond não estar mais na Presidência da Liesa, embora tirando a campeã Mangueira o resultado dali para baixo não tenha sido nada justo.


Definiu-se o enredo "nem Todo Pirata Tem Perna de Pau, o Olho de Vidro e a Cara de Mau", da carnavalesca Rosa Magalhães. Nas palavras da sinopse:

Sinopse

"Diz-se que os piratas foram encantados pelo alaranjado do sol, pelo azul do mar e pela virtude das belas mulheres. Por conta disso, sempre viveram errantes, a procura de um porto seguro onde fosse possível encontrar o graal da felicidade só então alcançado através das aventuras pelos oceanos"

Nem todo pirata tem a perna de pau, o olho de vidro e a cara de mau ...

" Nenhuma lufada de vento agita as velas do navio, completamente imobilizadas. Silenciosamente uma chalupa se aproxima, pela traseira do grande barco. O chefe faz sinal para os seus homens escalarem a gigantesca embarcação ... Em alguns minutos ele se precipita em direção da cabine do capitão... E seus homens conquistam o galeão espanhol... "

Como os grandes bandidos, a pirataria fascina. A ficção cria uma bruma sobre a realidade. No imaginário coletivo, a pirataria é indissociável das ilhas paradisíacas onde repousam tesouros escondidos. Tabernas sórdidas, pernas de pau, abordagens sanguinárias, torturas refinadas, formam todo arsenal da mitologia pirata. Escritores a partir do século XVIII ajudam a criar esta mitologia que transforma em personagens simpáticos, tipos totalmente abomináveis.

O imaginário infantil encanta-se com livros de aventuras como Peter Pan escrito por James Barrie ou ainda A Ilha do tesouro de Robert Louis Steveson, que não só cria os atributos obrigatórios para o perfeito pirata, inclusive a perna de pau e o papagaio no ombro, como também o enche de mistério, de simbolismo e de sonho.

Desde que o mundo é mundo, a pilhagem e o roubo já existiam. Mas a era mais conhecida da pirataria se inicia junto com a exploração do novo mundo, marcando o fim dos mares livres e selvagens. Piratas eram salteadores que atacavam até os navios do próprio país, os corsários tinham seus barcos financiados pelos seus soberanos e com eles dividiam o lucro da pilhagem. O termo flibusteiro tem a mesma conotação, empregado para os saqueadores dos mares das Américas.

Os portugueses e espanhóis dominavam o comércio marítimo. Outras nações com menor poderio naval, como a França, a Inglaterra e a Holanda começam a estimular a pilhagem dessas riquezas extraídas do novo mundo, sobretudo o ouro, o açúcar, o tabaco e as madeiras nobres também não eram desprezadas.

A rainha Elizabeth I, da Inglaterra, Louis XIV de França foram soberanos que apoiaram e estimularam a flibusteria.

O Brasil desde os primórdios de sua formação sofria ataques de corsários e piratas. As madeiras brasileiras, trezentos papagaios, e cinquenta macacos faziam parte de mercadoria listada e pirateada lá pelos idos de 1556 e vendida nos mercados de Londres.

Os franceses, que atacaram desde a América do Norte até a América do Sul, fizeram várias tentativas de conquistar o Rio de Janeiro. Duclere, corsário que invadiu o Rio com o intento de saqueá-lo , não teve sucesso, mas para vingá-lo, surge Duguay Trouin, um corsário apoiado por sua majestade Luis XIV.

Em 1711, 17 navios surgiram na Baia de Guanabara protegidos pela densa cerração. As fortalezas da barra não atiraram e quando deram pela invasão, a cidade já havia sido tomada. Na fortaleza de Santa Cruz, apenas 30 soldados estavam de prontidão e na de São João, nada mais , nada menos que 5 soldados tinham a incumbência de defendê-la. A cidade foi saqueada em suas riquezas. Não escaparam nem os pertences dos cidadãos comuns que tiveram suas casas invadidas e o mobiliário, trajes, utensílios domésticos, tudo levado pelos invasores. Duguay Trouin, ainda exigiu um resgate para sair da cidade O preço pago foi alto 610 mil cruzados, duzentos bois, cem caixas de açúcar , além dos bens pilhados , em torno de doze milhões de cruzados. De volta a França foi nomeado chefe de esquadra e lugar-tenente da armada naval em 1728.

Séculos mais tarde vemos que a pirataria continua a fazer seus estragos pelo mundo afora inclusive, aqui no Brasil. São pirateados cds, livros, tênis, peças do setor automotivo, transportes, remédios, ervas medicinais, componentes eletrônicos, computadores e por incrível que pareça, tal como idos de 1500, a nossa madeira ainda continua sendo extraída e pirateada.

O único personagem que não nos atemoriza é o pirata da perna de pau, do olho de vidro e da cara de mau, que ataca no carnaval, com sua alegria, sem trazer nenhum estrago ou prejuízo; tripulada por mulheres bonitas, sua galera que nos sete mares não tem igual...

Rosa Magalhães"

(Fonte: Galeria do Samba)

Pois é. A disputa do samba foi recheada de polêmicas e a meu ver havia a preocupação clara da escola em adotar um samba mais "alegre" a fim de melhorar a comunicação com o público. Além disso, a escola encerraria os desfiles de 2003 e temia-se que a escola passasse com o Sambódromo às moscas.

Poderia falar sobre a disputa, mas recorro a duas testemunhas oculares do processo, os amigos e torcedores da escola Luis Fernando Júnior e Marcos Paulo Freitas. Embora um pouco longos, reproduzo os depoimentos na íntegra - e o leitor terá uma idéia precisa do que houve naquela ocasião. Lembro apenas que "cair" é o termo utilizado para os sambas que são eliminados do concurso.

O relato de Luis Fernando Jr.:

"Era uma tarde fria de Agosto de 2002. Um dia de festa para muitos Gresilenses: O dia da gravação dos concorrentes é motivo de comemoração para a nação verde e branca.

O enredo? "Nem todo o pirata tem a perna de pau, o olho de vidro e a cara de mau". Um enredo assinado mais uma vez, por Rosa Magalhães. Caiu no gosto popular (pelo menos dos Gresilenses.... risos). A gravação, como sempre com vários momentos de risos, lendo as "pérolas" criadas por nossos poetinhas de Ramos...

A expectativa era grande... tínhamos a volta de um "medalhão" à ala de compositores da Imperatriz. O nome dele? Darcy do Nascimento! Sucesso na década de 80, com as  vitórias de 1979, 1980 e 1982. O compositor também assina o "excelente" samba de 1998. Naquela tarde fria, quase noite, Darcy e seu samba foram os últimos a se apresentarem no palco de Ramos. Além da volta de um grande medalhão, ele trazia como intérprete do seu samba o consagradíssimo Dominguinhos do Estácio. Era, para muitos, um grande samba que vinha por aí.

Mas, para nossa surpresa, o samba era... digamos assim: estranho! Achamos graça de sua letra um tanto debochada, com melodia estranha. Nem o mostro sagrado do samba Dominguinhos do Estácio conseguira interpretar o samba! Fim de festa, sambas gravados: a sorte estava lançada! ... para os compositores e para a nação Leopoldinense.

Uma semana após a gravação dos sambas, começa a disputa na quadra da escola. E, logo de cara a parceria formada por Maninho do Ponto, Renatinho do Sambola e Cia desponta como uma das favoritas para vencer o concurso de samba-enredo na Imperatriz Leopoldinense para o carnaval 2003.

E assim as apresentações, como sempre, muito bem freqüentadas em Ramos foram avançando. Porém, para nosso espanto, o samba do Darcy do Nascimento seguia firme na disputa... Procurávamos sempre uma desculpa para a sua permanência no concurso. Mas, acredito que essas desculpas ocorriam por desespero mesmo (risos)... Ao longo de dois meses de disputa, o samba não se apresentou bem uma única vez. Não entendíamos o porquê desse samba na disputa. A letra era considerada ruim... a melodia não encaixava com a bateria. Enfim... uma catástrofe resumida em forma de samba-enredo. E o pior: considerado por muitos "entendidos" fora das características da Imperatriz.

Os Leopoldinenses temiam esse samba. E, além dessa "pérola", tínhamos no caminho um outro samba bem ruinzinho, assinado por outro medalhão: Zé Katimba. A "luta" era contra os medalhões e a favor do samba que se apresentava de forma magistral domingo a domingo: Maninho do Ponto e cia. Era quase unanimidade:  um grande samba, de letra envolvente, melodia primorosa.

E a disputa avançando e as "pedras no calo", Katimba e Darcy não caíam. Ao longo do mês de Setembro de 2002, o desespero era total. Os boatos corriam soltos, dizendo que o samba não era do Darcy, que vinha "importado" de Niterói... Enfim, boatos de todos os lados tentavam "derrubar" o concorrente mais frágil/forte daquela disputa. Até que o concurso em sua semifinal deixa para trás uma das pedras: Zé Katimba. A quadra comemorou!!! Para os torcedores era um alívio: com a queda de um grande medalhão e com uma grande apresentação do samba favoritíssimo, a certeza por uma vitória e um grande samba era quase certa!!

Mas onde estava a outra pedra? (risos)... Na altura do campeonato, não podíamos pensar em derrota: Passamos a considerar a ida do Darcy à final como uma forma de reconhecimento a um grande nome da ala de compositores da Imperatriz Leopoldinense. E assim, saímos da quadra Luiz Pacheco Drumond, festejando a queda do samba do Katimba e a possível vitória do samba do Maninho do Ponto.

Chegando o dia da grande final, festa! Muita festa! O nosso favorito (e o da grande maioria) se apresentou de forma brilhante. A noite parecia que foi feita para aquele samba. Deu tudo certo!!! O samba foi bem interpretado pelo Wander Pires, Mestre Beto mandou ver no comando da bateria, a torcida no tom certo e o nosso papel foi cumprido: apoio a um grande samba do início ao fim.

Para deixar a festa com gosto amargo, o último samba daquela tarde/noite fria de Agosto também foi o último a se apresentar naquela noite fria/estranha de Outubro de 2002. Foi um momento de grande frustração para todos. Ficamos ali, no canto da quadra observando a "passagem" do samba. E um filme passava em nossas cabeças. Uma única pergunta pairava sob nossas mentes: o que esse samba está fazendo aqui?!!! Tensão, medo, raiva... eram os sentimentos mais presentes naquele momento. Tínhamos uma certeza de que o "nosso" samba seria o vencedor... mas, o medo de uma decepção era maior.

Num determinado momento dos seus vinte longos minutos de apresentação, um gesto nos chamou a atenção. A carnavalesca da escola, a brilhante Rosa Magalhães, cantarolava aquele "samba"! Era o início de um desespero sem tamanho! O assunto correu a quadra! Para muitos, era aquele o samba que a carnavalesca queria para contar o seu carnaval!

Após a apresentação (muito ruim, diga-se de passagem) do samba, mais tensão. Como é tradição na escola, Luiz Pacheco Drumond, Wagner de Araújo e Rosa Magalhães se reúnem na sala "do corte" (uma sala da diretoria, onde são decididos os sambas eliminados durante a disputa). Foram talvez os dez, quinze minutos mais longos daquele ano!

Wagner Araújo presidente da agremiação à época, sai da sala com uma cara desanimada... Estava decidido o futuro da escola! Todos se olhavam com aquela sensação de medo... Era quase impossível acreditar no que os nossos olhos mostravam! Como de costume, o diretor de carnaval chama todos os finalistas para o palco para anunciar o resultado da disputa de samba na Imperatriz Leopoldinense no carnaval de 2003. Pela cara descontente do Wagner, percebia-se que algo muito ruim estava para ser anunciado!

E assim foi: Ele pediu desculpas, pediu também que a direção de harmonia entendesse a escolha da escola, pediu a união dos componentes e anunciou: O samba que a Imperatriz levará para avenida no carnaval de 2003 é de autoria de: Darcy do Nascimento, Brandãozinho, Rubens Napoleão e Jorge Rita!

A quadra, que antes tomada pela festa, ficou paralisada! Parecia um funeral! Os únicos a comemorar foram de fato, os compositores campeões! Um deles, o Brandãozinho, jogou-se no palco, onde o barulho foi perceptível (tamanho silêncio na quadra)... Todos com aquelas caras de: "Não acredito no que está acontecendo"... A bateria não tocou... O portão principal da quadra foi aberto... a festa acabou! Não houve comemoração! Componentes, compositores perdedores, torcidas... andando em direção a rua... parecia uma procissão fúnebre!

Um triste final para uma novela tão boa... E assim foi escolhido o famoso: "Vem meu amor, vem me beijar... hoje eu tô que tô e você tá que tá".

Tamanha frustração com a escolha, houve uma baixa na escola na semana seguinte: Sérgio Professor, que na época era diretor geral de Harmonia pediu dispensa da escola, alegrando que seria impossível fazer Harmonia com um samba daquele..."

Nas palavras de Marcos Paulo Freitas:

"Dia de gravação dos sambas. Primeiro samba a se apresentar, de compositores desconhecidos na escola, surpreende a todos por sua qualidade e beleza. O samba defendido pelo Wander Pires despertou o interesse e a atenção de muitos naquele primeiro dia. Será que vai longe? Alguns se perguntaram.

Época de eliminatória de samba sabe que rola muito tititi, naquele primeiro dia já rolavam vários. Os compositores tri-campeões, Tuninho Professor e Marquinho Lessa, haviam se separado, como ficaria a disputa então com os sempre favoritos agora separados? Diziam também que Darcy do Nascimento estaria de volta e seu samba seria defendido pelo Dominguinhos do Estácio.

As gravações rolavam, e nada do samba se apresentar. No meio do dia, mais tititi. Surgia o boato (nunca se confirmou boato algum em disputa de samba em Ramos, mas o povo não desiste) que já tinha vencedor, que não sabia porque os outros sambas se inscreveriam: Zé Katimba estava de volta e o samba seria dele, como ocorreu em 97.

O samba foi gravado, causando um sentimento estranho, pois não parecia ser muito bom, e várias pessoas ficaram com medo de 97 se repetir. O samba passou a ser o maior temor de muitos naquele ano. Mais sambas sendo gravado e nada do Darcy. Já no finalzinho, sobe ao palco Dominguinhos, as poucas pessoas que resitiram a maratona de gravação desde as 10:00h daquele domingo estavam curiosas para o ouvir o samba da volta do compositor de grandes sambas. Não sei se as pessoas ficaram tristes, surpresas, decepcionadas, só sei que o samba não era nada do que se esperava. A letra era confusa, uma mistureba do enredo e a melodia bem estranha. Todos acharam que não seria ano dele. Mínima chance de vencer.

Com o decorrer da disputa, o samba dos compositores desconhecidos foi crescendo, ganhando adeptos em todos os segmentos da escola. Suas apresentações eram verdadeiras explosões. O tri-campeão Lessa não passou do primeiro corte. Partes mais agressivas de sua lera incomodaram diversas pessoas, e no momento "politicamente correto" que vivemos não dava para ele. (eu curtia muito o samba.... defendido pelo Anderson Paz, tá explicado o corte prematuro - N do E: o puxador em questão tem fama de 'pé-frio' pelos vários rebaixamentos de escolas que já defendeu na avenida).

O outro tri-campeão continuava na briga e assustava muitos. O samba não tinha muitos torcedores espontâneos. Dizia-se que levaria. Até que chegou o dia que o samba caiu, a vibração foi grande. A tensão tinha passado. Não seria ele.

Mas o samba do Cubiça de Ouro continuava na briga, ninguém sabia porque. Várias versões para sua permanência, mas ninguém apostava um centavo que seria o vencedor. Todos, menos os compositores, achavam que o samba estava apenas fazendo número.

Chegou o dia da final, e lá estavam o samba de Niltinho Tristeza e cia, apreciado por poucos (eu um deles), o samba de Jeferson Lima e cia, tb com poucos adeptos, o samba Maninho do Ponto e cia - o tal samba que surpreendeu no dia da gravação - que era o preferido de 8 ou 9 em cada 10 pessoas na quadra e o samba de Darcy do Nascimento e cia, fazendo número. A apresentação do primeiro samba citado (não lembro a ordem de apresentação) foi boa, mas sem contagiar. O segundo samba teve problemas de entrosamento com a bateria, passou muito mal. O samba preferido destruiu tudo, foi uma apoteose. Ninguém deu a menor bola para a apresentação do último samba.

Todas as fichas eram apostadas no samba de Maninho do Ponto e cia. Wagner pega o microfone para anunciar o vencedor. Sua cara não era das melhores. Como costume, ele anuncia falavam "A Imperatriz irá para a avenida cantando o samba dos compositores...."

Nessa hora todos esperavam que ele falasse Maninho do Ponto..... Porém para surpresa de todos ele anuncia um nome iniciado com a letra J, Jorge Rita.... Alguns segundos para processar a informação. Que samba era esse?

SILÊNCIO ensurdecedor na quadra. Apenas os compositores comemoravam. Brandãozinho se jogou no palco, com seus muitos quilos, causando um grande estrondo. As pessoas se olhavam sem acreditar no que tinha cabado de acontecer. A bateria rateou para começar a tocar, e tocou apenas meia boca. Todos na quadra se voltaram para o portão de saída e seguiram como se estivessem acompanhando um cortejo fúnebre. A final mais deprimente que presenciei. Muito triste. O que se ouviu depois foram depoimentos de revolta, irritação com a decisão da escola.

O samba foi gravado e no dia da festa dos protótpos, foi apresentado oficialmente para todos, isso menos de uma semana após a escolha. O samba cantado naquele dia não era o mesmo que havia vencido. A letra foi modificada. Trechos do samba foram mudado de posição na letra para que ficasse correta dentro do enredo. Refrão deixou de ser refrão. O que não era refrão virou refrão. Uma beleza!!!"

Meu palpite é que o samba foi escolhido por ter uma melodia "para cima" e com uma alegria que não estava presente nos sambas anteriores da agremiação. Coloco abaixo - com áudio - a letra original e depois a letra que foi para a avenida com as muitas modificações, bem como o samba que era o preferido da quadra - com áudio:



Autores
Darcy do Nascimento, Brandãozinho, Rubens Napoleão e Jorge Rita

Letra Original:

"Cobiça de Ouro
Madeira, Pedra e animais
São faces do primórdio da história
Que a Imperatriz refaz

Nem todo pirata tem a perna de pau
O olho de vidro e a cara de mau

Foi-se o tempo longe está
Pirataria de além-mar
Vejam só a covardia
Parte dessa tirania
Era destinada aos reis (aos reis)
Por corsários portugueses
Holandeses, Franceses, Ingleses
Tudo que era saqueado
Protegido era levado
Ao domínio da nação

(Mas hoje...)

Hoje a coisa ficou preta
Muito preta e com razão
Pirara se queixando de pirata
De terno e gravata na televisão
Pirateando cd até a fé
O comércio e a nação

Mas hoje eu quero ser
Pirata do prazer
Dançando um baile com você
Vem meu amor, vem me beijar
Hoje eu to que que to e você ta que ta
Vem meu amor, vem meu beijar
Beijo escondido pra ninguém clonar"

Versão Oficial:

"Cobiça de ouro
Madeira, pedra e animais
São fases do primórdio da história
Que a Imperatriz refaz
Foi-se o tempo, longe está
Pirataria de além-mar
Vejam só a covardia
Parte dessa tirania
Era destinada aos reis (aos reis)
Franceses, ingleses e holandeses
Tudo era saqueado
Protegido era levado
Ao domínio da nação

Nem todo pirata tem perna de pau,
O olho de vidro e a cara de mau

Hoje a coisa ficou preta
Muito preta e com razão
Pirata se queixando de pirata
De terno e gravata na televisão
Pirateando CD, até a fé
O comércio e a nação

Mas hoje quero ser
Pirata do prazer
Dançando um baile com você

Vem meu amor, vem me beijar
Hoje eu tô que tô , você tá que tá
Vem meu amor, vem me beijar
Beijo escondido pra ninguém clonar"

O samba favorito na disputa e que acabou derrotado:


"Névoa sobre o mar...
Um infinito para navegar
Nos livros temidos, tesouros perdidos...
No mastro a caveira, estampa a negra bandeira
Ilhas abordam sonhos, papagaio nos ombros
Olho de vidro, perna de pau
Imperatriz nessa festa, reafirma e contesta:
Nem todo o pirata tem essa cara de mau

Fogo nos canhões, ouro, tentações
Era preciso navegar... atacar!
Espanha e Portugal, riqueza tropical
Fez a cobiça despertar... tem combate no mar!

A Virgem Inglesa, o Sol Francês
As companhias de comércio do Holandês
Incentivavam corsários e invasões
E recompensavam os tais ladrões
Até minha Guanabara foi invadida e a cidade saqueada
A pirataria não cessou naqueles dias
Chega aos atuais...
CDs, livros, tênis, madeira
Mas sem tapa olho e bandeira...
Dos livros e tempos coloniais

Hoje o ataque é no meu carnaval
Nos sete mares não há nada igual
O meu pirata inocente e feliz
E rouba a cena com a Imperatriz"

A escola foi a última a se apresentar, já na manhã de terça feira de carnaval, quatro de março. Apesar do que se temia, o Sambódromo ainda estava razoavelmente cheio, mais ou menos com a mesma lotação que esperou a Portela no dia anterior. No grito de guerra a diretoria da escola (não me lembro exatamente quem foi) deu a ordem: "vamos brincar carnaval!"

A Imperatriz fez um desfile bem mais solto que nos anos anteriores, preocupada em agradar ao público e apagar a péssima imagem do ano anterior. O samba funcionou bem e foi bastante adequado ao cenário bolado pela carnavalesca, com alegorias e fantasias voltadas a aproveitar a luz do dia. Particularmente, gosto do samba, até porque ele me traz boas lembranças do pré-carnaval daquele ano.

Saí da Sapucaí achando que a escola seria vice-campeã, atrás somente da Mangueira - que fez uma apresentação muito acima a de qualquer outra escola. Entretanto, na abertura dos envelopes dos jurados a escola ficou com o quarto lugar, com 395,8 pontos.

Em um resultado tão esquisito quanto o de 1999 a Beija Flor sagrou-se campeã com um desfile que na opinião de todos aqueles que acompanham carnaval não conseguiria sequer retornar para o Sábado das Campeãs. Pois é... ainda mais quando se sabe que o patrono da escola nilopolitana tornara-se vice presidente da Liesa.

Aliás, o período de 1998 a 2006 é muito complicado para a história dos desfiles, com resultados finais sempre bastante questionados e que não refletiam o que se via na avenida. Mas esta é outra história...