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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte II"


Nesta terça feira, o colunista Rafael Rafic em sua "Made in USA" conclui a análise comparativa entre as sinopses e os sambas das escolas do Grupo Especial para 2013.

Sambas vs Sinopses – Parte II

Continuemos a análise com as escolas que desfilam na segunda feira.

Segunda-feira

1 - São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo
Nota da Sinopse: 8,5
Autores do samba-enredo: Gabriel Mansilha, Nelson Amatuzzi Victor Alves, Floriano do Caranguejo, Beto Savana, Guguinha e Fabio Portugal

Com um ótimo tema e boa sinopse (porém um tanto quanto confusa e esparsa), a São Clemente foi a única escola que optou por uma fusão para 2013. Foi uma fusão clássica: 1 refrão e 1 estrofe de um samba colado com 1 refrão e 1 estrofe de outro – e alterada após a disputa.

O samba é de mediano para bom, não tendo grandes passagens. Tem apenas um refrão final que pega, mesmo não sendo uma maravilha poética nem melódica. É um samba que luta para completar a primeira metade do Grupo, enquanto a sinopse é claramente a quarta melhor do grupo.

Talvez tenha faltado um grande samba. Isso pode ter ocorrido devido à forma confusa com que as idéias foram lançadas na sinopse; ou talvez pela porcentagem absurda que a São Clemente exige dos direitos autorais dos compositores (na ordem de 60%). Mas o fato é que apesar do samba interessante não houve na safra um samba que ombreasse a nota alta obtida pela sinopse.

Resultado: samba mediano inferior a sinopse boa.

2 - Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho
Nota da Sinopse: 4,5
Autores do samba-enredo: Lequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalho

A sinopse mangueirense, não bastasse ser a típica sinopse CEP (louvando um lugar do Brasil), ainda foi pessimamente estruturada.

Porém, a tradicional parceria multicampeã mangueirense capitaneada pelo Lequinho, salvou a Mangueira. Típico caso que o talento do compositor tira samba de onde não tem na sinopse.

É um samba com a cara da Mangueira (cara essa que alguns queriam dar a Portela esse ano também... sorte que não foram bem sucedidos) que fica tranquilamente na primeira metade do grupo em 2013.

Não é por acaso que o samba praticamente não fala da sinopse, porque se começasse a falar demais fatalmente ficaria ruim.

Resultado: samba bom bastante superior a sinopse ruim.

3 – Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari
Nota da Sinopse: 4
Autores do samba-enredo: J Veloso, Ribeirinho, Marquinho Beija-Flor, Gilberto, Silvio Romai e Dilson Marimba

Enredo complicado e falho da Beija-Flor. Ganhou um samba normal que, se não faz parte da primeira metade do grupo para 2013, é melhor do que a sinopse e a trata com certa beleza poética em letra bastante interessante. Afinal essa era a única forma de fazer um samba competitivo na Beija-Flor, abordando o tema, mas sem ser o “pão, pão, queijo, queijo” que mataria o samba.

Resultado: samba razoável, ligeiramente melhor do que sinopse ruim. Possível interferência negativa da sinopse.

4 – Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa”… “Contra a injustiça em defesa do Rio”
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki
Nota da Sinopse: 1
Autores do samba-enredo: Mingau, Deré, Junior Fragga, Mingauzinho e Arlindo Neto

Da sinopse ruim, muito ruim, longa, insossa, longa, chata, doente e quase morta, saiu um samba até aceitável.

Não é um grande samba e provavelmente fica no terço final do Especial de 2013, mas é digno de Especial, tem um refrão final interessante (alias, também se utiliza de três refrões) e é um samba até certa medida legal de se cantar.

Para o desastre que foi a sinopse (tendo comentários inclusive que minha nota 1 foi boazinha, porque o certo seria o 0) esse samba, mesmo nem sendo mediano está acima de qualquer expectativa.

Resultado: samba de ruim para mediano infinitamente superior a um enredo absolutamente desastroso. Culpa total da sinopse.

5 – Imperatriz

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro
Nota da Sinopse: 6

Autores do samba-enredo: Me Leva, Gil Branco, Tião Pinheiro, Drummond e Maninho do Ponto

A Imperatriz trouxe uma sinopse mediana ao estilo CEP. Mas a ala de compositores da Imperatriz é sensacional e faz limonada de qualquer limão.

Mais uma vez tivemos uma disputa bastante acirrada, com 4 ou 5 sambas muito bons. A escolha foi um pouco contestada, mas qualquer escolha seria tendo em vista a quantidade de sambas bons na safra (mais uma vez em Ramos).

O samba da minha preferência (e de muitos outros), um samba ousado do incansável Zé Katimba, caiu ainda na semifinal. Porém os quatro sambas finalistas também tinham apoios consideráveis e chegaram justamente à final.

Dos finalistas, ganhou o meu preferido. É um ótimo samba. Não sei se dá para classificá-lo como o terceiro melhor do ano (atrás de Portela e Vila Isabel), mas com certeza está no terço inicial do Especial.

Resultado: bom samba, superior à sinopse mediana. Influência da qualidade dos compositores.

6 – Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães
Nota da Sinopse: 9,5
Autores do samba-enredo: André Diniz, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Tunico da Vila e Leonel.

Na Vila quando se junta André Diniz, Martinho e Arlindo (já apelidados de “Galácticos da Vila”) não se tem uma competição de samba-enredo: é praticamente um samba encomendado que já se sabe que irá ganhar.

A sinopse é muito boa e foi a surpresa agradável dessa safra. O samba que o representa não fica devendo nada à sinopse. Um samba de altíssima qualidade, que disputaria com a Portela o título de samba-enredo do ano.

Mas não é esse samba que todos andam falando. Para mim inclusive é inferior ao samba da Vila Isabel de 2012, sobre Angola (de André Diniz e Arlindo Cruz), e não teria toda essa repercussão se fosse assinado por Pedro Migão e Rafael Rafic. Mas é uma grande composição, sem dúvidas.

Por fim quero registrar uma incoerência de opiniões influentes do carnaval.

Várias pessoas que incensam o samba da Vila e proliferam aos quatro cantos que esse samba levará a Vila ao título (o que não duvido, ela é a favorita do momento), são as mesmas que defendiam na Portela o samba de Neyzinho. O argumento apresentado é que pela posição de desfile da Portela, última de domingo, ela precisaria de um samba mais “para cima” a fim não deixar o povo cair.

Mas será que essas pessoas não percebem que a Vila ocupa a mesma posição, até pior, já que a Vila encerra o último dia? E será que elas também não percebem que o samba do André Diniz & Cia é até mais cadenciado e “para baixo” do que o próprio samba da Portela?

Então porque para uma o samba cai como uma luva e para a outra não caia?

Alias, se guiando por esse argumento usado em Madureira, o samba escolhido na terra de Noel nem deveria ser esse, já que existiam outros dois sambas “mais para cima” do que o escolhido em Vila Isabel.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos de altíssima qualidade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte I"



Nesta segunda feira de uma semana que é bem curta para muita gente – embora para mim não seja – o colunista Rafael Rafic em sua “Made in USA” traça uma comparação entre as sinopses das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro e os sambas resultantes.

A coluna será apresentada em duas partes: hoje as agremiações que desfilam no domingo e, amanhã, as de segunda feira.

Sambas vs Sinopses – Parte I

Depois de analisar e dar notas as sinopses de enredo do Grupo Especial, o que é incomum no mundo carnavalesco, quero propor aqui no Ouro de Tolo outra análise incomum.

Analisarei os sambas-enredos escolhidos pelas Escolas do Grupo Especial. Mas não quero analisar os sambas-enredo por eles próprios, simplesmente lhes dando notas ou ranqueando-os. Esse tipo de análise teremos aos montes assim que o CD sair, em dezembro.

Quero, aproveitando a análise dos enredos que fiz aqui em julho, comparar a avaliação de qualidade do samba-enredo escolhido pela escola em relação à sinopse da mesma. O intuito é ver o quanto a qualidade da sinopse influenciou (ou não) o samba-enredo.

Mais uma vez, a análise será feita pela ordem de desfile. Começaremos hoje com as escolas de domingo. Amanhã, as de segunda feira.

Domingo

1 – Inocentes:

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves
Nota dada à sinopse na avaliação de julho: 2
Autores do samba-enredo: Billy Conti, Dominguinhos, Ildo dos Santos, Juarez Rosseto, Mará, J.J. Santos e Miri Matéria

A Inocentes vem com um enredo difícil de explicar sobre a história, cultura e imigração coreanas; todas as três desconhecidas no Brasil. Não bastasse, o enredo foi mal elaborado. Porém, mesmo o samba-enredo não sendo um grande samba, ficando no terço final da safra 2013, é apresentável para grupo especial.

Aqui temos o primeiro exemplo do ano no qual os compositores tiraram leite de pedra. Vocês verão que tivemos outros vários, reforçando a tese da “ressurreição” do gênero samba-enredo, já comentada aqui no Ouro de Tolo.

Resultado: samba consideravelmente acima do enredo. Mas ainda sim ambos na segunda metade do Grupo Especial. Influência negativa da sinopse..

2 – Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage
Nota da sinopse: 3,5
Autores do samba-enredo: Marcelo Motta, João Ferreira, GE Lopes e Thiago Daniel

Sinopse complicada, polêmica e, em minha análise, ruim. Isso se refletiu na safra medíocre que tivemos no Salgueiro esse ano. Ao final ganhou o único samba digno de Grupo Especial. Ainda sim é um samba para ficar tranquilamente na segunda metade do grupo e, claro, como eu já adivinhara é um autêntico pula-pula.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos na segunda metade do grupo. Influência negativa clara da sinopse.

3 – Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Nota da sinopse: 6,5

Autores do samba-enredo: Julio Alves, Totonho, Dudu e Elson Ramires

A sinopse é correta, mas sem grandes destaques. Mediana e, pareceu-me, sem o toque especial de Paulo Barros. A safra tijucana foi sofrível, mas um samba se salvou: justamente o campeão. Como cada escola só precisa de um samba por ano, tudo bem.

O samba é mediano, com uma segunda parte até bem ruim (como sempre é difícil fazer letra para enredo de Paulo Barros). Mas teve uma sacada genial no refrão (“metade do meu coração é Tijuca/ A outra metade Tijuca também”) que o faz disputar posições medianas no Grupo.

Resultado: samba acompanhou par e passo a qualidade da sinopse, ambas medianas.

4 - União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Ginho, Junior, Vinicius do Cavaco, Eduardo Conti, Professor Hugo e Jair Turra

Aqui, tivemos uma inovação brilhante e uma aula de como se fazer uma sinopse, dada pelo carnavalesco Alex de Souza. Porém, para variar, a Ilha pegou a sinopse, amassou, fez bolinha de papel dela e a usou como bola de basquete para um arremesso certeiro de 3 pontos - direto para a lata do lixo.

O problema aqui é muito mais complicado do que uma simples análise “sinopse x samba-enredo”.

Para começar, a ala de compositores insulana está muito maltratada há anos por sua diretoria, o que fez com que sumissem vários talentos dela. Assim, a qualidade dos sambas vem caindo e não é de hoje.

A isso credito o fato de não surgir aqui um samba fantástico em toda a safra, diferentemente das outras duas escolas que ganharam excelente avaliação de suas sinopses: Portela e Vila Isabel.

Não satisfeita com isso, a Ilha conseguiu a “proeza” de ser a única escola em 2012 que não escolheu o samba que a comunidade queria (e fez isso pelo segundo ano consecutivo). O samba vencedor era o único da final que não tinha qualquer apoio relevante, seja da comunidade, seja da diretoria, seja dos segmentos.

[N.do.E.: mas era o samba preferido do Presidente Ney Fillardi. Samba que, aliás, sofreu mudanças em sua melodia]

Assim, ela simplesmente jogou fora pelo menos quatro sambas bons (sambas de Aloísio Vilar, Almir da Ilha, Marquinhos do Banjo e Carlinhos Fuzil) que, por mais que não chegassem ao “Top 10” da sinopse, ainda salvariam a pátria e disputariam vaga na primeira metade do Grupo.

A Ilha escolheu mal demais o samba e, mesmo com a melhor sinopse do ano (em conjunto com a Portela), ela disputa o “título” de pior samba do ano com a Mocidade.

Resultado: samba infinitamente inferior à sinopse. Prova de que sinopse não é sinônimo imediato de bom samba.

5 – Mocidade

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada
Nota da Sinopse: 5
Autores do samba-enredo: Jefinho Rodrigues, Jorginho Medeiros, Marquinho Indio, Domingos PS, Moleque Silveira e Gustavo Henrique

Já comentei o desastre que foi a sinopse da Mocidade frente ao tema e indiquei que seria complicadíssima para se fazer um samba bom.

Dito e feito. A Mocidade teve 45 sambas concorrentes, mas podia juntar os 45 que não daria um mísero samba digno. Até compositores gabaritados como Diego Nicolau (campeão de 2012) fizeram sambas sofríveis, muito abaixo do que costumam fazer.

No final, levou aquele que a comunidade queria e era o menos pior, mas ainda sim fecha a raia do Grupo Especial - em uma disputa árdua com a Ilha pela lanterna.

Alias, essa é a única nota de sinopse da qual me arrependi. Hoje daria uma ainda menor: 3,5.

Resultado: samba do nível da sinopse, ambos muito ruins. Influência negativa clara da sinopse.

6 – Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes
Nota da Sinopse: 10
Autores do samba-enredo: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do Posto 7

Dessa safra posso falar com bastante propriedade. Pude acompanhar a disputa de samba-enredo desde sua primeira eliminatória até a final. Em um momento inicial, disse que a safra era sofrível com apenas um samba espetacular - justamente o que se sagraria vencedor.

Porém, tenho que admitir que o desenrolar da disputa me fez mudar de idéia. Não quanto ao samba sensacional, que continuo achando sensacional (mesmo com as mudanças horripilantes e insensíveis feitas em sua letra e melodia após o fim da disputa), mas quanto à qualidade da safra.

Hoje classifico mais dois sambas como dignos de irem à avenida se não fosse a obra-prima que o quarteto vencedor aprontou mais uma vez. Além desses, teve mais 2 ou 3 sambas razoáveis na disputa. No que acabou sendo uma safra melhor do que a Portela teve nos últimos anos - e tenho que destacar o papel da sinopse nesse fato.

[N.do.E.: discordo do colunista. A safra da Portela foi bastante fraca e, com boa vontade, além do vencedor somente mais um samba poderia ir para a avenida]

Para a comparação proposta em relação ao samba vencedor, uma excelente sinopse terá um samba a sua altura para representá-la na avenida.

Não coloco o samba acima da sinopse (como se isso ainda fosse possível) por causa das mudanças posteriores (feitas por diretoria e puxador) que pioraram consideravelmente o samba em relação a sua versão concorrente.

Será bastante interessante ver o que ocorrerá com a Portela e o seu sambão vindo logo depois dos dois piores sambas do ano, que virão juntos logo antes de sua entrada na avenida.

Resultado: samba pari passu com a sinopse, ambos em altíssimo nível.

[N.do.E.: infelizmente, as notícias que chegam do barracão da Portela são MUITO preocupantes.]

Até amanhã, com as escolas de segunda feira.

domingo, 21 de outubro de 2012

Orun Ayé - "Os Autônomos e os Sambas 2013"



Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, traça um perfil preliminar dos sambas de enredo do Grupo Especial para o carnaval 2013.

Complementando a informação do colunista, Cláudio Russo sagrou-se campeão na Beija Flor na última quinta feira.

Por outro lado, por determinação exclusiva da diretoria da escola o samba da Portela sofreu alterações significativas para a gravação oficial, que tiraram boa parte do brilhantismo da composição. Continua sendo um dos melhores para 2013, mas perdeu qualidade, infelizmente.

Os Autônomos e os Sambas 2013

Nesse momento em que escrevo (final da noite de quarta) faltam apenas dois sambas no Grupo Especial do Rio de Janeiro para serem escolhidos. Nessa última madrugada duas escolas fizeram suas finais: Imperatriz Leopoldinense e Inocentes de Belford Roxo. Ainda faltam duas, Beija-Flor e Unidos da Tijuca.

E o que acho dos sambas pra 2013?

Sei lá, não conheço quase nenhum.

Bom, pelo que disse acima devia encerrar aqui essa coluna sobre os sambas do ano que vem, né?  É, poderia, mas dá para avaliar assim mesmo até porque o estilo dos sambas, as parcerias que venceram e a qualidade que cada escola nos oferece não mudaram muito durante os anos. Além disso, está tudo muito parecido com 2012.

A diferença é que não estou no CD. 

Algumas surpresas aconteceram, como a escolha da Inocentes nessa madrugada. Cláudio Russo perdeu. Ganhou a parceria do Billy. Ainda não ouvi o samba, mas ele foi bastante elogiado na escolha.

Essa eu acho que ninguém esperava. Cláudio Russo, compositor oriundo da Portela, é um dos melhores compositores da atualidade. Costuma escrever com qualidade e grande estrutura para várias escolas de quase todos os grupos do carnaval carioca.

Apesar de negar, o Cláudio é um dos símbolos do que chamamos hoje em dia de firma ou escritório. Compositores que sem assinar colocam sambas em várias escolas, pegando compositores dessas escolas para assinar seus sambas. O esquema firma/pombo (nome dado a quem assina sem escrever) ainda tem seus segredos e obscuridades muito por culpa desses compositores que não assumem a prática - que não é ilegal.

Vários sambas escolhidos no Especial do Rio esse ano e em outros anos chegam ao público com essa suspeita de pertencer a firmas.

Não vou aqui apontar quais sambas são de firmas ou suspeitos de ser, apesar de saber alguns. Seria leviano e antiético. Quem acompanha de perto os concursos de samba-enredo sabe só de ver qual cantor defende o samba na quadra e o estilo da melodia.

Antigamente a gente ouvia um samba e dizia só na audição que era de escola A ou B; hoje ouvimos e falamos que é de compositor A ou B.

Mas se tudo caminhar bem o Russo ainda deve emplacar um samba assinando no Especial. Na Beija-Flor de Nilópolis é  franco favorito e pode significar a primeira vitória de Miguel Menezes na agremiação. Ele foi bicampeão na União da Ilha em 2003/2004 e há anos busca esse título em Nilópolis.

Na Tijuca não ouvi muita coisa, mas como sempre deve ficar entre as parcerias do Josemar Manfredini e do Totonho (detalhe, todos os sambas já estarão escolhidos quando a coluna for ao ar). Ouvi o do Josemar e gostei, é padrão dos últimos anos da Tijuca - que mesmo com algumas pessoas torcendo o nariz leva ao título.

Mangueira foi a primeira a escolher e escolheu samba da parceria do Lequinho, compositor tradicional da escola e campeão não só nela como em muitas escolas. São Clemente inovou e fez junção. A junção propriamente dita não foi novidade: a novidade fica por conta de Gabriel Mansilha que em sua estreia como compositor, assinando sozinho, conseguiu vencer um concurso no grupo especial. Isso é algo dificílimo.

Salgueiro e Mocidade a meu ver escolheram sambas melhores que seus enredos e principalmente ouvindo o que suas comunidades queriam. Fico feliz especialmente pelo amigo Marcelo Motta. Cara formidável, humilde, um dos caras mais bacanas que já conheci no samba - que chega ao seu quarto título na Academia.

Imperatriz escolheu o samba da parceria do Me Leva. Apesar de muita gente da escola preferir o samba do Zé Katimba, o samba é bom e foi bem aceita sua vitória. Nas duas últimas vezes que essa parceria venceu o concurso venceu também o Estandarte de Ouro de melhor samba, provando que tem qualidade.

A Grande Rio também escolheu uma parceria tradicional de sua escola, a de Mingau e Cia. Esta era pule de dez na disputa da agremiação e a escola cantará seu bom samba em defesa do Rio.

Agora vou falar das três escolhas que mais me chamam a atenção. Por minha proximidade com a escola ou pela qualidade dos sambas.

A escolha da União da Ilha surpreendeu quase todo o mundo do samba e mais uma vez, como em quase todos os anos, provocou polêmica.

Mas só quem não acompanha o Ouro de Tolo se surpreendeu com essa vitória. Na coluna que escrevi aqui semana passada eu apontei o favoritismo para o samba do Ronald, mas disse que crescia muito o rumor da conquista desse samba. Disse que os quatro podiam vencer, mas foquei mais o favoritismo nesses dois - quando a grande mídia apontava os outros dois.  

Pois bem, os outros dois, os que a mídia e as pessoas que acompanhavam pela internet esperavam chegaram sem chances na final. Eram bons sambas, como o samba do Marcinho que era o que eu mais gostava, mas pesou contra as duas parcerias os quatro anos de vitórias que seus líderes tinham.

Ficou entre os outros dois, mas logo no começo da final vazou o campeão. O samba do Ginho é um samba correto, com uma letra muito bonita, mas em alguns pontos a melodia cansa. Confio em seu crescimento na voz do Ito Melodia e a ressaltar a alegria de ver o Ginho, uma pessoa muito digna, correta e talentosa vencer na Ilha usando sua experiência de vida. Além de estar aliado à juventude e garra do Junior que nunca desiste da luta e tem um grande futuro pela frente.

Falar o que de Vila e Portela? Ganharam os sambas que eu previ e fiz coluna aqui há um bom tempo atrás. De novo as duas escolas, de novo as duas parcerias, de novo comandando o carnaval carioca.

As parcerias campeãs de Portela e Vila são iguais e muito diferentes e nessa diferença se completam e formam uma nova rivalidade no carnaval carioca, mas uma rivalidade sadia. É boa porque em cada canto de quadra ou roda de samba vem a discussão “qual o melhor samba?”.

A Vila formou uma parceria que o Migão apelidou de “galáctica” e é uma super parceria sim. É comandada por Arlindo Cruz, um dos maiores nomes do samba atual, Martinho da Vila, um dos grandes nomes da história do samba e de Vila Isabel e André Diniz, um dos melhores do nosso carnaval atual e dono de sambas memoráveis.

Sobre o André vem a pecha também de ser comandante de uma firma de samba-enredo. Mas seu talento suplanta todo o ‘disse me disse’, principalmente com os sambas que fez nos últimos 20 anos pra Vila Isabel e a junção desses três craques e seus parceiros fez um dos grandes sambas do ano.

Na Portela é o contrário. São nomes que já contavam com respeito no samba, na MPB, mas que do ano passado pra cá decidiram virar o mundo do carnaval de cabeça pra baixo.

Wanderley Monteiro e Luiz Carlos Máximo foram os donos do carnaval 2012 com o “Madureira sobe o Pelô” que apelidei numa coluna aqui de “Barcelona dos sambas”. Conseguiram repetir a dose esse ano abrindo a roda e anunciando que lá vinha Madureira.  

Em um carnaval que hoje é dominado pelas firmas, posso dizer que Wanderley, Máximo e seus parceiros são os “autônomos do samba”, trabalhando por conta própria, fazendo seus sambas sem inspiração vir de gente de fora.

E por incrível que pareça isso é raro hoje em dia. Uma parceria que assina o samba e onde sabemos que foram eles que escreveram o mesmo.

Qual o melhor samba? Não sei e sinceramente nem me interessa muito. Em vez de discutir essas coisas prefiro apreciar os dois grandes sambas.

Não dá ainda para fazer um ranking dos sambas 2013, dividir entre bons e ruins. As escolas ainda estão na fase de gravação do coro, ainda farão gravação oficial com os cantores, mixagem, lançamento das faixas, ensaios técnicos.

Mas a princípio me parece seguir uma tendência que vem desde 2010. Um bom cd com alguns sambas se destacando e mostrando enorme qualidade. 

Enquanto você fica aí ansioso esperando as gravações oficiais, vá em www.sambaderaiz.net. No site tem meu concorrente no Boi da Ilha e meu concorrente junto com o Migão no Acadêmicos do Dendê. As duas finais serão realizadas nessa próxima semana.

Começou o carnaval 2013. Orun Ayé!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Abre a roda, chegou Madureira!


Antes de mais nada, peço desculpas aos leitores por somente estar colocando o resultado aqui hoje. Passei o final de semana acompanhando parente internado em hospital e pouco pude estar em casa.

Feita a necessária explicação, é com alegria que informo aos leitores que mais uma vez a Portela escolheu aquele que pode ser o samba do ano, tal e qual 2012.  A parceria de Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Tuninho Nascimento e André do Posto Sete é quem assina o samba para o carnaval 2013, para gáudio dos verdadeiros portelenses e do escriba deste post.

Aliás, na última quinta feira este blog acertou na mosca o resultado.

Não nego que sou amigo de um dos autores do samba, mas em termos de Portela sempre torço para aquela que é a melhor composição a nos representar na avenida. Quando coincide, como ocorreu nestes dois últimos anos, melhor ainda.

Vale lembrar que este resultado portelense sinaliza uma mudança importante na política da escola. O Diretor de Carnaval Júnior Scafura, imbatível outrora, é derrotado pelo segundo ano consecutivo. Isso deve ter reflexos nas eleições que se aproximam na escola, logo após o carnaval de 2013.

O samba campeão ainda teve de superar uma apresentação problemática da bateria para obter a vitória na última sexta feira. Mas o Portelão lotado levou o samba no gogó e deixou claro que era a melhor opção para representar a Águia no desfile oficial.

Este resultado também é importante por significar a resistência portelense às chamadas "firmas" de samba enredo, grandes ajuntamentos de compositores que escrevem em várias escolas. Os autores do samba portelense para 2013 são da casa, e, mais importante: quem assina é quem realmente faz.

Vamos à letra do samba campeão, que deve sofrer pequenos ajustes na melodia para sua gravação oficial:

"E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios 
Por onde me deixo levar 
Laiá 
Nossa história começa por lá 
No engenho da fazenda 
Dos cantos de “canaviá” 

Bate o sino da capela 
Ôi... Que é dia de santo, sinhá

Tem mironga de jongueiro 
O tambor me chamou pra dançar

Tempo rodou na roda do trem e veio 
A inspiração do partideiro 
Que versou no mercadão 
Foi nesse chão 
Que a estrela brilhou no tablado 
O “madura” pisou no gramado 
O malandro charmoso dançou 
No pagode com outro gingado 
Quando o bloco chegou 
Agitou o suingue do black 
E a nega baiana girou

Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia
Vai como pode quem quer

Surgiu a Serrinha imperial 
Em outros caminhos para o mesmo ritual 
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar 
É a capital de um sonho que me faz sambar

Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar
O batuque ginga ioiô
Ginga iaiá"


Sobre outras escolas, como já se sabia desde priscas eras, a parceria "galáctica" da Vila Isabel (André Diniz, Martinho da Vila e Arlindo Cruz) venceu a disputa e deve disputar com o samba portelense os prêmios de melhor do carnaval 2013.

A meu juízo, é um samba muito bom, mas que talvez não obtivesse a repercussão que teve se não tivesse as assinaturas famosas que tem. Por outro lado, a disputa da Vila se configura complicada, porque André Diniz, dono de um imenso talento, possui uma posição de poder bastante monolítica dentro da agremiação, o que torna bastante desigual a disputa.

O leitor pode ver abaixo a apresentação do samba vencedor.


Na União da Ilha, uma vez mais a política prevaleceu na escolha e, em minha opinião e na de muitos analistas, se escolheu aquele que era o pior samba da final, o da parceria de Junior, Ginho e outros. Vinícius de Moraes merecia um samba mais melodioso e, acima de tudo, menos chato. Pena.

Aliás, este é um ponto que se deve frisar: as escolhas como um todo vem privilegiando fatores políticos acima de outros fatores, com raras exceções como a ocorrida na Portela. A qualidade do samba, decididamente, vem ficando em segundo plano na maioria das agremiações.

Além disso as chamadas "firmas" de samba enredo este ano estão consolidando seu domínio absoluto, em especial no principal grupo de escolas cariocas.

Ressalte-se também a escolha da Grande Rio, que optou por uma composição até bastante razoável tendo em vista o enredo panfletário sobre os royalties do petróleo.

A safra de samba 2013 vem se configurando até bastante razoável tendo em vista a quantidade de enredos disparatados escolhida este ano. Dois sambas de antologia (Portela e Vila, novamente) e alguns bastante interessantes.



(Vídeos: Carnavalesco)

domingo, 2 de setembro de 2012

Orun Ayé - "Portela e Vila - de novo"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, versa sobre os dois sambas que vem galvanizando a preferência dos amantes do samba neste período de disputas: o da parceria campeã da Portela – que já foi tema neste blog, acima – e o samba “galáctico” da Vila Isabel (no final deste post), com nada menos que Martinho da Vila, André Diniz e Arlindo Cruz na mesma parceria.

Pessoalmente acho o samba “galáctico” inferior à composição de 2012 da mesma Vila, mas reconheço que é questão de gosto. Também é um grande samba.

Complemento esta introdução dizendo que a Imperatriz, dependendo do que escolher, pode ter uma composição muito próxima a estas duas.

Portela e Vila - de novo

Ano passado tivemos uma boa safra de sambas, provenientes de uma boa safra de enredos. Dois sambas se destacaram dos demais e entraram para a antologia dos sambas de enredo desse século.

Um era o samba da Unidos de Vila Isabel feito por Evandro Bocão, Arlindo Cruz, André Diniz, Leonel e Artur das Ferragens para o enredo “Você sembo lá, que eu sambo cá! O canto livre de Angola” da carnavalesca multi-campeã Rosa Magalhães.

O samba tem como um dos autores André Diniz, o maior vencedor da história da agremiação e considerado por muitos o melhor compositor de samba-enredo da atualidade. André criou sambas primorosos para a escola - como em 1994 e 2000 - e se juntando ao renomado Arlindo Cruz fez um sambaço para contar a saga do povo de Angola.

Ter temática afro já ajuda muito: dificilmente você vai ouvir um samba afro ruim. Além disso, a parceria inovou com uma segunda de samba espetacular com perguntas e respostas - onde algumas pessoas erradamente definiram como “contracanto”.

Muitos duvidaram do sucesso da fórmula e deu certo demais. O samba da Vila passou com grande força, tirou nota máxima e entrou para a história do carnaval. Foi quase tudo perfeito para ele...

... Se não fosse o Barcelona dos sambas.

Eu fiz uma coluna para o samba da Portela do carnaval desse ano e dei à composição o apelido de “Barcelona”, me orgulhando do mesmo ter pegado.

O samba de Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Naldo para o enredo “..e o povo na rua cantando, é feito uma reza, um ritual” do carnavalesco Paulo Menezes se tornou uma grande febre logo na inscrição. A internet só falava nele, o mundo do samba só falava nele. 

Um samba diferente, que lembrava sambas-enredo dos anos 70, com uma pitada de “Bahia de todos os Deuses”. Encantou e venceu.

Continuou sendo o grande samba do pré-carnaval e no desfile não decepcionou. Conseguiu as notas máximas e levou nada mais nada menos que oito prêmios de melhor samba do carnaval 2012, mostrando o porquê de ser o Barcelona.

Findou-se o carnaval 2012 e começaram os preparativos para 2013. A grande mudança foi a decepção com os enredos. Os belos e culturais enredos de 2012 viraram enredos bisonhos, com exaltação a coisas fúteis ou que nada tem a ver com nossa cultura. Em um ano grandioso de Portela e Vila quem acabou virando tendência foi o iogurte do Porto da Pedra – aliás, rebaixado para o Grupo de Acesso.

Mas eis que de novo Portela e Vila nos presenteiam com dois grandes sambas. Nenhum dos dois foi escolhido ainda, as eliminatórias ainda estão na metade, mas os sambas já tomaram conta do boca a boca como se fossem os sambas oficiais das agremiações e a pergunta que domina o mundo do samba é uma somente.

Qual é o melhor?

Na Portela tem um que promete ser o Barcelona versão 2013. A parceria é praticamente a mesma de 2012, sendo formada por Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do posto 7.

O enredo celebra o berço da Portela e tem como título “Madureira...Onde o meu coração se deixou levar” do carnavalesco Paulo Menezes.

A parceria conseguiu algo mais difícil que fazer um samba antológico: fazer um samba antológico logo depois de um samba antológico. O samba concorrente tem a incrível e gostosa incoerência de ser igual e diferente do anterior.

Igual porque é diferente, por mais contraditório que isso pareça. Como o samba anterior a parceria procurou buscar o diferente, algo que não trouxesse a fórmula dos sambas atuais e conseguiu vir diferente dessa fórmula e diferente do que fizeram anteriormente.

O samba concorrente tem uma levada mais anos 80, lembra os partidos alto da época. Eu comentei com o Pedro Migão que lembra muito os sambas do Almir Guineto e em algumas partes parecia que eu conseguia ouvir a “dança do caxambu”. Não, não é plágio, eu falo de estilos.

E esse sambão conseguiu me conquistar mais rapidamente que o samba do ano passado. Que a parceria tenha sorte na disputa.

[N.do.E.: sem entrar em detalhes, diria que este samba tem excelentes chances de ir para a avenida.]

A única diferença pra mim em relação a 2012 é que para mim existe em outra escola um samba do mesmo nível. Como em 2012, a Vila Isabel pode ter o samba a se confrontar com a Portela, só que dessa vez acho que é de igual para igual.

Assim como na Portela, o grande samba vem da parceria campeã de 2012 somada com o lendário Martinho da Vila. Martinho da Vila, André Diniz, Arlindo Cruz, Tunico da Vila e Leonel assinam a obra prima que conta a história do homem do campo.

O nome do enredo é “A Vila canta o Brasil celeiro do mundo – Água no feijão que chegou mais um” da carnavalesca Rosa Magalhães. O enredo conta a história do homem do campo e a parceria de forma magistral consegue passar a vida do campo na letra. É como se sentíssemos o cheiro do café e do bolo.

A letra tem umas jogadas geniais, como no falso refrão que na primeira passada fala em plantar e na segunda em colher. Mas eu acho que o principal mérito do samba é a simplicidade.

O mesmo mérito que eu disse ser o principal do “Madureira sobe o Pelô”. Compositores hoje em dia gostam de inventar muito, de fazer firulas. O simples sempre deixa tudo mais bonito, como dizia a Imperatriz: “Mais vale a simplicidade, a buscar mil novidades e criar complicações”.

Esses sambas vão ganhar? Irão à avenida? Nenhum deles foi escolhido ainda como eu disse acima, mas aí que eles começam a se diferenciar.

Apesar do papo de jogador de futebol que “o adversário é difícil e vamos lutar até o final para conquistar os três pontos”, ninguém acredita na derrota da parceria da Vila. Arlindo Cruz, André Diniz e Martinho da Vila não se unem para perder e não vão perder.

A questão da Vila é polêmica. A falta de competição da escola nesses últimos anos pode trazer problemas futuros para a escola e eu como presidente da agremiação faria de tudo para que não ficasse tão desigual a competição na minha agremiação. Isso afasta adversários e inibe a renovação da ala de compositores.

Mas é um sambão e enquanto for permitido que grandes compositores assim se unam, não há nada a fazer a não ser aplaudir.

Na Portela há sim competição. Tem sambas fortes como o do Neyzinho e não é impossível que perca, mas sinceramente eu não acredito e acho que os dois sambas irão para o duelo na avenida. O da Vila eu tenho certeza.

Por que Vila e Portela de novo como no ano passado?

Simples, basta ver os enredos que escolhem. Bons enredos dão bons sambas, enredos ruins dão sambas ruins e algum milagre de vez em quando. Mas milagre é milagre e se milagre fosse coisa frequente de acontecer não teria esse nome.

E por que as mesmas parcerias? Isso só o talento explica.

Se festa no arraiá é pra lá de bom, então ginga iaiá, ginga ioiô.

E habemus samba pra 2013. Orun Ayé!

Ps. Escrevi uma peça de teatro. É, uma peça estou ficando metido mesmo, me aventurando até nessa área. Enfim, ela se chama “Folhetim” e quem quiser dar uma olhada pra ver se escrevo bem ou é uma grande bobagem. Ela está no site “Recanto das letras”, passo abaixo seu link para baixar.


Ps 2 – A vida imitando a arte. Essa confusão toda que ocorre agora entre o candidato a prefeito Marcelo Freixo e as escolas de samba me lembrou do conto que escrevi sobre a escola de samba Acadêmicos do Gato Molhado e seu enredo sobre esterco. Será que o Freixo como prefeito daria a verba municipal pra comunidade “gatomolhadense”?


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Made in USA - "Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II"


Nesta sexta feira, temos a segunda parte da coluna do advogado Rafael Rafic com as sinopses das escolas do Grupo Especial. Nossa faixa musical hoje irá falar mais tarde de outra faceta: as disputas de samba.

Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II

1. São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo

A São Clemente é uma das poucas que se salvam na safra desse ano. O enredo tratará sobre um assunto extremamente popular e altamente carnavalizável, mas que por algum motivo nunca foi para a avenida de maneira direta: as novelas brasileiras.

Porém aqui temos um problema: não sabemos se por causa de algum patrocínio (o que a escola nega), se por uma censura da Globo, que tem os direitos de transmissão exclusivos do desfile. Ou ainda se simplesmente por uma opção questionável da escola, só serão abordadas novelas da TV Globo.

[N.do.E.: quando do lançamento do enredo foi dito que haveria apoio institucional da emissora carioca.]

Isso deixa algumas pérolas novelísticas que seriam pivotais para o enredo - como Pantanal (TV Manchete) - de fora. Claro que isso se reflete em um problema na sinopse, mas nada que a inviabilize.

A sinopse em si, para mim, deixou um pouco a desejar porque apesar de apresentar alguns poucos personagens que ficaram na memória do povo e algumas novelas, ela focou mais no fluxo de uma novela em teoria.

Fala apenas da abertura, do final eletrizante, emoção e da fábrica de sonhos (apelido do PROJAC, o que aumentou a especulação da existência de patrocínio). Sinceramente eu acredito que no desfile muitas coisas que não estiveram na sinopse estarão na avenida. Isso pode a princípio causar perda de pontos para a escola da Zona Sul/Centro.

Ainda sim, é um ótimo enredo que na mão do carnavalesco Fábio Ricardo poderá colocar a São Clemente mais uma vez como a surpresa do Carnaval. Como vários compositores também são grandes noveleiros, não deverão ter qualquer dificuldade para ter inspiração.

Nota: 8,5

2. Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho

Aqui chegamos enredo escrito por aquele se tornou um engana... ops, escritor de enredos semi-profissional: Marcos Roza. Marcos é o mesmo que idealizou o “Roteiro dos Desfiles”, que é distribuído aos espectadores na Sapucaí explicando o enredo e o que representam as fantasias de cada escola.

Talvez ele tenha tido essa idéia para que alguém consiga entender o que ele escreve, sinceramente. Mais um enredo que parte do nada e chega ao lugar algum, passando por todos os lugares comuns do enredo CEP. Alias, troca Cuiabá por Bole-Bole e trem por esterco, e já temos a sinopse para o samba-enredo do conto do Aloísio Villar publicado aqui no Ouro de Tolo há semanas atrás.

O enredo pega como fio condutor uma viagem de trem partindo da Estação Primeira de Mangueira e passando por cada característica de Cuiabá que se quer ressaltar (mesmo que ela não tenha na realidade), que é representada por uma estação - tais como as lendas locais e a culinária. Exatamente como um típico enredo CEP tem. O problema é que Cuiabá NUNCA teve trem.

Foi exatamente nesse desejo de Cuiabá de ter um trem que nunca teve é que o enredo tenta se estruturar. Mas se a intenção é mostrar o que a cidade tem, com que lógica o enredo se arvora em algo que ela clamorosamente nunca teve?

Por fim, ainda há uma polêmica: vários trechos da sinopse seriam plágio do enredo mangueirense campeão de 2002, ‘Brasil com Z é pra Cabra da Peste. Brasil com S é a Nação do Nordeste’. Marcos Roza nega o plágio.

Plágio ou apenas coincidência, a verdade é que vários trechos são muito parecidos mesmo.

[N.do.E.: há um outro trecho praticamente idêntico à sinopse do Salgueiro do carnaval de 2010.]

Nota: 4,5

3. Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari

O tema, o segundo na ordem e anunciado ainda no sábado das Campeãs é sobre o cavalo mangalarga marchador. Claro, conta com um polpudíssimo patrocínio da associação de criadores desses animais.

Aqui minha reação foi bem parecida com a que tive com a Mocidade. Enquanto todos baixavam o sarrafo no tema, eu dizia que a Beija-flor estava com um problema na mão, mas que o tema se fosse bem trabalhado poderia render um belíssimo desfile. Outra esperança que foi defenestrada assim que li a sinopse.
No início ela tenta usar o próprio cavalo como narrador de sua história, ainda o tratando de modo generalizado, sem mencionar raças e começa aquela viagem na história pelo mundo que todo enredo genérico faz - só mudando o objeto do patrocínio.

Então fala do cavalo no deserto árabe da pré-história, que passa pelo seu uso na agricultura do neolítico, do seu uso como transporte de guerra, passando pelo Cavalo de Tróia...

Epa, Cavalo de Tróia? É, aqui está o primeiro grande problema de foco do enredo. Se a intenção era mostrar a história e importância do animal cavalo, o que uma estrutura oca de madeira está fazendo aqui?

Depois de Tróia, ele volta para a mitologia, apesar de não ficar claro que tipo de mitologia é abordada. Mas tudo me indica que seja Pégasus e aqui temos outro problema na linha histórica. Era para ele ter vindo antes do Cavalo de Tróia.

A viagem ao mundo não podia terminar sem uma passagem no lugar comum dos mouros e árabes e seus enormes exércitos de cavalaria. Hei, e a parte que já trata das guerras lá em cima? Pois é, o enredo não se decide.

Como fala de guerra a todo momento e estamos na Beija-Flor, podem esperar um enredo de sofrimento, dor, sangue e, já que estamos falando em cavalos, muita chicotada.

Para terminar, de repente e sem aviso, a sinopse dá uma giro total e passa a abordar o Brasil e a raça “homenageada” mais especificamente, aproveitando a ligação do cavalo com a coroa portuguesa e dessa com o Brasil - olha o clichê da Família Real no Brasil aí!

Aqui o enredo se perde completamente. Ele começa a trazer para a história alguns elementos que necessariamente precisariam de explicação. Por exemplo, o trecho “No então chamado Novo Mundo aportei, sendo presenteado pelo rei português ao Barão de Alfenas, e do cruzamento com as raças ibéricas, que aqui chegaram na época da colonização, renasci como o sangue puro do Brasil, no sul de Minas Gerais”.
Espera aí, como o cavalo foi cruzado com o cavalo, já que até aqui o enredo não faz qualquer distinção de raças de cavalo?

Pelos erros mil entrecortados por todos os clichês possíveis e imaginários, terei que ser muito duro na minha nota. Isso sem falar na total falta de inspiração poética gerada por essa sinopse insossa.

Nota: 4

4. Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa” … “Contra a injustiça em defesa do Rio”…
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki

Depois de achar que já tinha lido de tudo possível nesse ano após ler as sinopse da Inocentes, da Beija-flor e do Salgueiro, me aparece aos 48 do 2° tempo (dia 23 de julho, última segunda feira. Ah, se fosse a Portela...) a sinopse da Grande Rio e ela me fez lembrar que eu ainda não tinha lido a sinopse da escola do polonês (apelido de Roberto Szaniecki, carnavalesco da escola e nascido no país europeu).

Depois de namorar bastante com a Volkswagen para contar a história do Fusca apenas para ser recusado pela TV Globo - e recusa da Globo, ainda mais na Grande Rio, é veto, a Grande Rio abraçou um enredo altamente político sobre a disputa do Rio pela manutenção dos royalties para os governos estaduais e municipais como estão.

O enredo não se sai bem em nenhum aspecto.

Para começar é um enredo politicamente panfletário de uma forma que eu nunca vi e que simplesmente não combina com carnaval da forma totalmente explícita com que foi feito. Deixa Portela 2010 e São Clemente 2009 no chão. Talvez nenhum enredo tenha chegado tão perto da total vassalagem profana e insana dos fatídicos carnavais da Beija-Flor de 1974 e, principalmente, 1975.
 
Além disso, ele é longo e modorrento, totalmente diferente do longo-instigativo, da Ilha. Depois ele não é nada, nada, nada carnavalizável, muito menos inspirativo para a ala de compositores. Alias, haja inspiração nessa temporada para os compositores caxienses. Aposto que eles estão se perguntando onde estão o iogurte ou as lentes de contato que eram mais fáceis (lembrando que esses enredos polêmicos também foram obra do polonês, sendo o segundo em São Paulo).

O polonês ainda não largou a mania irritante de dividir a sinopse em setores, o que acaba engessando totalmente a ala dos compositores. Esta tem que seguir exatamente o pensamento do carnavalesco, sob pena de um rápido jubilamento nas eliminatórias.

Os enredos de Szaniecki nunca ajudam o compositor em uma vírgula em seu trabalho e ainda o enquadra em uma sequência certa inquebrável que atrapalha ainda mais. Para transformar o trabalho em algo hercúleo, sempre que ele não adota a linha temporal, a sequência de setores não apresenta nenhuma lógica e complica de vez qualquer possibilidade de ser criar algum samba que pelo menos consiga levar a escola.

É exatamente o caso: o enredo se perde totalmente.

Tem uma intenção longa e desnecessária, para depois ter outra introdução tão longa e desnecessária. Em ambos os textos a sinopse diz que versará sobre o petróleo e seus royalties. Mas de petróleo mesmo só temos dois setores, os primeiros. Que para variar ainda contem erros técnicos crassos, visíveis até para uma pessoa leiga no assunto. Imagino que o nosso editor, especialista, deve ter quase enfartado quando leu.

[N.do.E.: o enredo tem diversos erros conceituais, inclusive sobre a própria natureza dos royalties. Lamentável.]

Os quatro setores finais são apenas para louvar os benefícios dos royalties do petróleo nas cidades que o recebem. Só que eles falam de tantas coisas, até certo ponto supérfluas considerando as necessidades dos rincões brasileiros como um todo, que, ao terminar de ler a sinopse eu tenho certeza que os royalties realmente devem ser repartidos com os estados não-produtores porque não temos mais onde investir tanto dinheiro.
Exatamente ao contrário do que o enredo se propõe - e olha que sou defensor ferrenho do Rio nessa disputa política.

Em resumo: um desastre total. Conseguiu a proeza de roubar da Inocentes o título de pior sinopse do ano.

Nota: 1

5. Imperatriz Leopoldinense

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro

Continuamos a profusão de enredos patrocinados, mais uma vez na modalidade CEP. Dominguinhos do Estácio mais uma vez aproveita suas ligações paraenses e consegue emplacar outro enredo sobre o Pará em uma escola sua para que ele solte a voz.

O enredo é mais do mesmo que já vimos na avenida trocentas vezes: sobre a Amazônia (que, sejamos sinceros, após tanto desmatamento, é mais história do que realidade no Pará), matas vastas e verdes, lendas indígenas, Tupã, ouro, borracha - e,para terminar a culinária paraense. Tudo entremeado com inúmeras palavras em tupi, para as quais há um enorme glossário ao final da sinopse.

Enredo ruim, porém até onde pode, honesto. Dá pelo menos para fazer um samba, se não bonito, na média. A excelente ala de compositores da Imperatriz deve ajudar.

Nota: 6

6. Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães

Para encerrar o carnaval, a boa surpresa do ano para mim. Quando a Vila disse que iria falar do “Brasil Rural” e, para piorar com patrocínio da BASF, especializada em agrotóxicos, pensei logo no pior.

Mas quando li a sinopse, que surpresa agradável!

O enredo simplesmente fala do jeito “caipira” de ser, introvertido, mas sempre simpático e acolhedor. Exata a figura do agricultor, o que não é muito comum no carnaval, de uma forma simples, mas que acertou em cheio

Apesar de passar também por alguns clichês, como as três raças que se irmanam para criar o brasileiro, as quais se agregam os imigrantes; a sinopse se salva por fazer um quadro bem completo do estilo caipira de ser, o trabalho da terra que é fundamental para a economia brasileira e a música sertaneja. Alias, o enredo acaba até enveredando pela história da viola no Brasil, sob o argumento (corretíssimo) que não tem como falar do lado cultural do agricultor sem tratar de sua inseparável viola.

Ainda aborda a religiosidade do homem do campo e sua relação muitas vezes difícil com o ciclo de chuvas do cerrado e do sertão.

Enfim, um enredo muito legal, que fugiu do óbvio e com a cara de Rosa Magalhães. É um enredo que dá para a ala de compositores brincar muito e ainda traz, a pretexto de inspiração, várias músicas relacionadas ao homem do campo e algumas frases que marcaram época ao descrevê-lo.

Após a leitura da sinopse, espero bastante da Vila.

Nota: 9