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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte II"


Nesta terça feira, o colunista Rafael Rafic em sua "Made in USA" conclui a análise comparativa entre as sinopses e os sambas das escolas do Grupo Especial para 2013.

Sambas vs Sinopses – Parte II

Continuemos a análise com as escolas que desfilam na segunda feira.

Segunda-feira

1 - São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo
Nota da Sinopse: 8,5
Autores do samba-enredo: Gabriel Mansilha, Nelson Amatuzzi Victor Alves, Floriano do Caranguejo, Beto Savana, Guguinha e Fabio Portugal

Com um ótimo tema e boa sinopse (porém um tanto quanto confusa e esparsa), a São Clemente foi a única escola que optou por uma fusão para 2013. Foi uma fusão clássica: 1 refrão e 1 estrofe de um samba colado com 1 refrão e 1 estrofe de outro – e alterada após a disputa.

O samba é de mediano para bom, não tendo grandes passagens. Tem apenas um refrão final que pega, mesmo não sendo uma maravilha poética nem melódica. É um samba que luta para completar a primeira metade do Grupo, enquanto a sinopse é claramente a quarta melhor do grupo.

Talvez tenha faltado um grande samba. Isso pode ter ocorrido devido à forma confusa com que as idéias foram lançadas na sinopse; ou talvez pela porcentagem absurda que a São Clemente exige dos direitos autorais dos compositores (na ordem de 60%). Mas o fato é que apesar do samba interessante não houve na safra um samba que ombreasse a nota alta obtida pela sinopse.

Resultado: samba mediano inferior a sinopse boa.

2 - Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho
Nota da Sinopse: 4,5
Autores do samba-enredo: Lequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalho

A sinopse mangueirense, não bastasse ser a típica sinopse CEP (louvando um lugar do Brasil), ainda foi pessimamente estruturada.

Porém, a tradicional parceria multicampeã mangueirense capitaneada pelo Lequinho, salvou a Mangueira. Típico caso que o talento do compositor tira samba de onde não tem na sinopse.

É um samba com a cara da Mangueira (cara essa que alguns queriam dar a Portela esse ano também... sorte que não foram bem sucedidos) que fica tranquilamente na primeira metade do grupo em 2013.

Não é por acaso que o samba praticamente não fala da sinopse, porque se começasse a falar demais fatalmente ficaria ruim.

Resultado: samba bom bastante superior a sinopse ruim.

3 – Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari
Nota da Sinopse: 4
Autores do samba-enredo: J Veloso, Ribeirinho, Marquinho Beija-Flor, Gilberto, Silvio Romai e Dilson Marimba

Enredo complicado e falho da Beija-Flor. Ganhou um samba normal que, se não faz parte da primeira metade do grupo para 2013, é melhor do que a sinopse e a trata com certa beleza poética em letra bastante interessante. Afinal essa era a única forma de fazer um samba competitivo na Beija-Flor, abordando o tema, mas sem ser o “pão, pão, queijo, queijo” que mataria o samba.

Resultado: samba razoável, ligeiramente melhor do que sinopse ruim. Possível interferência negativa da sinopse.

4 – Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa”… “Contra a injustiça em defesa do Rio”
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki
Nota da Sinopse: 1
Autores do samba-enredo: Mingau, Deré, Junior Fragga, Mingauzinho e Arlindo Neto

Da sinopse ruim, muito ruim, longa, insossa, longa, chata, doente e quase morta, saiu um samba até aceitável.

Não é um grande samba e provavelmente fica no terço final do Especial de 2013, mas é digno de Especial, tem um refrão final interessante (alias, também se utiliza de três refrões) e é um samba até certa medida legal de se cantar.

Para o desastre que foi a sinopse (tendo comentários inclusive que minha nota 1 foi boazinha, porque o certo seria o 0) esse samba, mesmo nem sendo mediano está acima de qualquer expectativa.

Resultado: samba de ruim para mediano infinitamente superior a um enredo absolutamente desastroso. Culpa total da sinopse.

5 – Imperatriz

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro
Nota da Sinopse: 6

Autores do samba-enredo: Me Leva, Gil Branco, Tião Pinheiro, Drummond e Maninho do Ponto

A Imperatriz trouxe uma sinopse mediana ao estilo CEP. Mas a ala de compositores da Imperatriz é sensacional e faz limonada de qualquer limão.

Mais uma vez tivemos uma disputa bastante acirrada, com 4 ou 5 sambas muito bons. A escolha foi um pouco contestada, mas qualquer escolha seria tendo em vista a quantidade de sambas bons na safra (mais uma vez em Ramos).

O samba da minha preferência (e de muitos outros), um samba ousado do incansável Zé Katimba, caiu ainda na semifinal. Porém os quatro sambas finalistas também tinham apoios consideráveis e chegaram justamente à final.

Dos finalistas, ganhou o meu preferido. É um ótimo samba. Não sei se dá para classificá-lo como o terceiro melhor do ano (atrás de Portela e Vila Isabel), mas com certeza está no terço inicial do Especial.

Resultado: bom samba, superior à sinopse mediana. Influência da qualidade dos compositores.

6 – Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães
Nota da Sinopse: 9,5
Autores do samba-enredo: André Diniz, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Tunico da Vila e Leonel.

Na Vila quando se junta André Diniz, Martinho e Arlindo (já apelidados de “Galácticos da Vila”) não se tem uma competição de samba-enredo: é praticamente um samba encomendado que já se sabe que irá ganhar.

A sinopse é muito boa e foi a surpresa agradável dessa safra. O samba que o representa não fica devendo nada à sinopse. Um samba de altíssima qualidade, que disputaria com a Portela o título de samba-enredo do ano.

Mas não é esse samba que todos andam falando. Para mim inclusive é inferior ao samba da Vila Isabel de 2012, sobre Angola (de André Diniz e Arlindo Cruz), e não teria toda essa repercussão se fosse assinado por Pedro Migão e Rafael Rafic. Mas é uma grande composição, sem dúvidas.

Por fim quero registrar uma incoerência de opiniões influentes do carnaval.

Várias pessoas que incensam o samba da Vila e proliferam aos quatro cantos que esse samba levará a Vila ao título (o que não duvido, ela é a favorita do momento), são as mesmas que defendiam na Portela o samba de Neyzinho. O argumento apresentado é que pela posição de desfile da Portela, última de domingo, ela precisaria de um samba mais “para cima” a fim não deixar o povo cair.

Mas será que essas pessoas não percebem que a Vila ocupa a mesma posição, até pior, já que a Vila encerra o último dia? E será que elas também não percebem que o samba do André Diniz & Cia é até mais cadenciado e “para baixo” do que o próprio samba da Portela?

Então porque para uma o samba cai como uma luva e para a outra não caia?

Alias, se guiando por esse argumento usado em Madureira, o samba escolhido na terra de Noel nem deveria ser esse, já que existiam outros dois sambas “mais para cima” do que o escolhido em Vila Isabel.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos de altíssima qualidade.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Resenha Literária - "Cadernos de Samba"


Quarta feira passada estive no lançamento da série "Cadernos de Samba", série de pequenos livros que visam a resgatar a memória do carnaval carioca e especialmente das nossas escolas de samba. Coordenada pelo jornalista Aydano André Motta, os livros buscam registrar uma história que, muitas vezes, acaba se perdendo com a morte dos sambistas mais antigos das agremiações.

Os três primeiros livros são "Tantas Páginas Belas", sobre a Portela, do historiador Luiz Antonio Simas; "Maravilhosa e Soberana", do já citado Aydano, sobre a Beija Flor, e finalizando "Marcadas para Viver", do jornalista João Pimentel. Este último conta a saga de cinco escolas pequenas: Unidos de Lucas, Em Cima da Hora, Vizinha Faladeira (onde já desfilei, em 2008), Unidos do Jacarezinho e a extinta Tupy de Braz de Pina.

O lançamento, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, contou com a presença de jornalistas, formadores de opinião do carnaval e representantes das escolas enfocadas. A se lamentar a ausência da Portela, representada de forma não oficial apenas por três integrantes do site PortelaWeb - entre os quais este blogueiro, por Mestre Monarco, pelo autor do samba de 2013 Luiz Carlos Máximo e pelo sócio Marcos Vieira de Souza, conhecido pelo apelido de "Falcon" - e que é esposo da porta bandeira da Beija Flor Selminha Sorriso.

Para o leitor ter uma ideia, somente a Beija Flor trouxe três ônibus com componentes para prestigiar o lançamento. Outro exemplo é que eu tive a oportunidade de conversar com o Presidente da Unidos de Lucas, também representado de forma oficial.

Os livros (na foto, da esquerda para a direita, Simas, Pimentel e Aydano) tem formato pouco maior que uma edição de bolso e tem cada um deles cerca de 120 páginas. Escritos em uma linguagem acessível, são lidos rapidamente - eu levei cerca de duas horas para completar a leitura no último sábado.

A noite também contou com a presença do Prefeito Eduardo Paes - que chegou depois que eu havia saído - e teve cobertura televisiva e de sites especializados. Inclusive em uma das matérias, que pode ser vista no Youtube, Luiz Antonio Simas chega a afirmar que sem a Portela o desfile tal como conhecemos talvez não existisse desta forma.

Faço abaixo uma pequena resenha de cada um deles, pela ordem de leitura.

Tantas Páginas Belas

Simas optou por contar a história da águia altaneira a partir da formação do subúrbio de Oswaldo Cruz, base da escola. Ao contrário de outras agremiações a Portela é uma "escola de planície", ou seja, não está baseada em nenhum morro.

São mostradas as circunstâncias de formação da agremiação, os bons tempos de Natal - que ganha uma espécie de mini perfil bastante interessante, as grandes crises e o momento de renascimento da escola trazido pelas feijoadas da Velha Guarda e outras iniciativas semelhantes.

Este blogueiro e o Ouro de Tolo são citados como referência bibliográfica, em especial a coluna "Samba de Terça" que escrevi sobre o desastroso desfile de 2005. É um fato que muito me honra.

O site PortelaWeb, do qual faço parte da equipe, também foi uma fonte de pesquisa valiosa. É um belo exemplar àqueles que pretendem conhecer um pouco da bela história da minha escola.

Maravilhosa e Soberana

Aydano André Motta - que, devo avisar aos leitores, é fanático torcedor da escola de Nilópolis, a ponto de achar que o título de 2003 foi justo (risos) - optou por uma leitura mista: ao mesmo tempo em que mostra a história da agremiação (que eu mesmo não conhecia), também conta um pouco do "modo Beija Flor de desfilar", que é quase religioso, messiânico.

Alternando passado e presente, tradição e modernidade, Aydano ajuda a desnudar este fenômeno representado pela sua comunidade e sua devoção à escola, a seu patrono e seus comandantes. O modelo de carnaval representado pela azul e branca, confesso, não me agrada totalmente, mas tem de ser respeitado. É um misto de "despotismo esclarecido" com paixão genuína de seus integrantes, que resultou em uma receita muito vitoriosa.

O autor também conta histórias como as de Laíla, Joãozinho Trinta, Anísio Abraão David e o carnavalesco Milton Cunha, entre outros. Pelo menos para mim, que conheço pouco o que ocorre na escola fora dos 82 minutos de avenida, se mostrou um valioso documento - aprendi bastante, e, somado ao que vi no lançamento, passei a admirar a organização e a força da agremiação.

Apesar de ser um livro escrito por um apaixonado, há ligeiras críticas ao adesismo político da Beija Flor - que tem dois a meu ver inacreditáveis enredos defendendo o Regime Militar nos Anos 70 e, recentemente, homenageou o Governo Lula. Aydano também demonstra preocupação com a sucessão na escola.


Marcadas para Viver

Contar a história de cinco pequenas agremiações deu um certo trabalho de pesquisa ao autor João Pimentel. Os registros escritos são muito tênues e os detentores da história oral nem sempre se encontravam disponíveis.

A história de cada uma das agremiações é contada de forma a entender o porquê de não terem se firmado no grupo das grandes, bem como resgatar sambas como "Os Sertões", da Em Cima da Hora, "Sublime Pergaminho", de Lucas (ambos enfocados na série "Samba de Terça" deste blog) e "Seca do Nordeste", da Tupy de Braz de Pina - acima em versão com Clara Nunes.

Algo que impressiona nas histórias contadas é a relação com a questão da violência. Lucas, Tupy, Vizinha Faladeira e o Jacarezinho foram muito afetados por esta questão em algum momento.

Também se contam versões conflitantes da escolha de "Os Sertões", para mim o maior samba de enredo da história do carnaval carioca.

O livro tem alguns equívocos de datas: a Vizinha desfilou com o enredo sobre Gilberto Gil em 2004 e não 2005, quando foi rebaixada - inclusive fui finalista de samba daquele ano. E a homenagem de Lucas a Elisete Cardoso foi em 1974, não 75.

Mas é documento indispensável para aqueles que pensam que as escolas de samba se resumem ao "mundo encantado da Sapucaí".

Em resumo, os três livros valem bastante a pena. Recomendo.


Cine Debate PortelaWeb

Acabei não conseguindo escrever o post na semana passada, mas quero registrar aqui a iniciativa do Centro Cultural Cartola e do site PortelaWeb de trazer alguns dos principais personagens do desfile de 95 para relembrar a preparação do mesmo e falar um pouco sobre o carnaval atual.

Diga-se de passagem, o acervo do Centro Cultural sobre o carnaval (que eu não conhecia) e sobre o grande gênio Cartola são dignas de aplausos, com itens representativos.

O vídeo acima, com cerca de nove minutos, fala sobre a bateria de 95 - e a então inédita "paradinha" na Portela - e sobre o trabalho do mestre sala Jerônimo, que aliás deu ótimas declarações durante o debate.

Ótima iniciativa.

Promoção

Pensa que acabou, leitor?

O Ouro de Tolo tem três exemplares autografados dos livros para sortear: um de cada. Para participar baixa deixar na área de comentários deste post nome completo, cidade, e-mail, escola de samba pela qual torce e indicar qual dos livros gostaria de ganhar.

Publicarei o resultado na próxima segunda feira, dia 12. Participe!

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Made in USA - "Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II"


Nesta sexta feira, temos a segunda parte da coluna do advogado Rafael Rafic com as sinopses das escolas do Grupo Especial. Nossa faixa musical hoje irá falar mais tarde de outra faceta: as disputas de samba.

Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II

1. São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo

A São Clemente é uma das poucas que se salvam na safra desse ano. O enredo tratará sobre um assunto extremamente popular e altamente carnavalizável, mas que por algum motivo nunca foi para a avenida de maneira direta: as novelas brasileiras.

Porém aqui temos um problema: não sabemos se por causa de algum patrocínio (o que a escola nega), se por uma censura da Globo, que tem os direitos de transmissão exclusivos do desfile. Ou ainda se simplesmente por uma opção questionável da escola, só serão abordadas novelas da TV Globo.

[N.do.E.: quando do lançamento do enredo foi dito que haveria apoio institucional da emissora carioca.]

Isso deixa algumas pérolas novelísticas que seriam pivotais para o enredo - como Pantanal (TV Manchete) - de fora. Claro que isso se reflete em um problema na sinopse, mas nada que a inviabilize.

A sinopse em si, para mim, deixou um pouco a desejar porque apesar de apresentar alguns poucos personagens que ficaram na memória do povo e algumas novelas, ela focou mais no fluxo de uma novela em teoria.

Fala apenas da abertura, do final eletrizante, emoção e da fábrica de sonhos (apelido do PROJAC, o que aumentou a especulação da existência de patrocínio). Sinceramente eu acredito que no desfile muitas coisas que não estiveram na sinopse estarão na avenida. Isso pode a princípio causar perda de pontos para a escola da Zona Sul/Centro.

Ainda sim, é um ótimo enredo que na mão do carnavalesco Fábio Ricardo poderá colocar a São Clemente mais uma vez como a surpresa do Carnaval. Como vários compositores também são grandes noveleiros, não deverão ter qualquer dificuldade para ter inspiração.

Nota: 8,5

2. Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho

Aqui chegamos enredo escrito por aquele se tornou um engana... ops, escritor de enredos semi-profissional: Marcos Roza. Marcos é o mesmo que idealizou o “Roteiro dos Desfiles”, que é distribuído aos espectadores na Sapucaí explicando o enredo e o que representam as fantasias de cada escola.

Talvez ele tenha tido essa idéia para que alguém consiga entender o que ele escreve, sinceramente. Mais um enredo que parte do nada e chega ao lugar algum, passando por todos os lugares comuns do enredo CEP. Alias, troca Cuiabá por Bole-Bole e trem por esterco, e já temos a sinopse para o samba-enredo do conto do Aloísio Villar publicado aqui no Ouro de Tolo há semanas atrás.

O enredo pega como fio condutor uma viagem de trem partindo da Estação Primeira de Mangueira e passando por cada característica de Cuiabá que se quer ressaltar (mesmo que ela não tenha na realidade), que é representada por uma estação - tais como as lendas locais e a culinária. Exatamente como um típico enredo CEP tem. O problema é que Cuiabá NUNCA teve trem.

Foi exatamente nesse desejo de Cuiabá de ter um trem que nunca teve é que o enredo tenta se estruturar. Mas se a intenção é mostrar o que a cidade tem, com que lógica o enredo se arvora em algo que ela clamorosamente nunca teve?

Por fim, ainda há uma polêmica: vários trechos da sinopse seriam plágio do enredo mangueirense campeão de 2002, ‘Brasil com Z é pra Cabra da Peste. Brasil com S é a Nação do Nordeste’. Marcos Roza nega o plágio.

Plágio ou apenas coincidência, a verdade é que vários trechos são muito parecidos mesmo.

[N.do.E.: há um outro trecho praticamente idêntico à sinopse do Salgueiro do carnaval de 2010.]

Nota: 4,5

3. Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari

O tema, o segundo na ordem e anunciado ainda no sábado das Campeãs é sobre o cavalo mangalarga marchador. Claro, conta com um polpudíssimo patrocínio da associação de criadores desses animais.

Aqui minha reação foi bem parecida com a que tive com a Mocidade. Enquanto todos baixavam o sarrafo no tema, eu dizia que a Beija-flor estava com um problema na mão, mas que o tema se fosse bem trabalhado poderia render um belíssimo desfile. Outra esperança que foi defenestrada assim que li a sinopse.
No início ela tenta usar o próprio cavalo como narrador de sua história, ainda o tratando de modo generalizado, sem mencionar raças e começa aquela viagem na história pelo mundo que todo enredo genérico faz - só mudando o objeto do patrocínio.

Então fala do cavalo no deserto árabe da pré-história, que passa pelo seu uso na agricultura do neolítico, do seu uso como transporte de guerra, passando pelo Cavalo de Tróia...

Epa, Cavalo de Tróia? É, aqui está o primeiro grande problema de foco do enredo. Se a intenção era mostrar a história e importância do animal cavalo, o que uma estrutura oca de madeira está fazendo aqui?

Depois de Tróia, ele volta para a mitologia, apesar de não ficar claro que tipo de mitologia é abordada. Mas tudo me indica que seja Pégasus e aqui temos outro problema na linha histórica. Era para ele ter vindo antes do Cavalo de Tróia.

A viagem ao mundo não podia terminar sem uma passagem no lugar comum dos mouros e árabes e seus enormes exércitos de cavalaria. Hei, e a parte que já trata das guerras lá em cima? Pois é, o enredo não se decide.

Como fala de guerra a todo momento e estamos na Beija-Flor, podem esperar um enredo de sofrimento, dor, sangue e, já que estamos falando em cavalos, muita chicotada.

Para terminar, de repente e sem aviso, a sinopse dá uma giro total e passa a abordar o Brasil e a raça “homenageada” mais especificamente, aproveitando a ligação do cavalo com a coroa portuguesa e dessa com o Brasil - olha o clichê da Família Real no Brasil aí!

Aqui o enredo se perde completamente. Ele começa a trazer para a história alguns elementos que necessariamente precisariam de explicação. Por exemplo, o trecho “No então chamado Novo Mundo aportei, sendo presenteado pelo rei português ao Barão de Alfenas, e do cruzamento com as raças ibéricas, que aqui chegaram na época da colonização, renasci como o sangue puro do Brasil, no sul de Minas Gerais”.
Espera aí, como o cavalo foi cruzado com o cavalo, já que até aqui o enredo não faz qualquer distinção de raças de cavalo?

Pelos erros mil entrecortados por todos os clichês possíveis e imaginários, terei que ser muito duro na minha nota. Isso sem falar na total falta de inspiração poética gerada por essa sinopse insossa.

Nota: 4

4. Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa” … “Contra a injustiça em defesa do Rio”…
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki

Depois de achar que já tinha lido de tudo possível nesse ano após ler as sinopse da Inocentes, da Beija-flor e do Salgueiro, me aparece aos 48 do 2° tempo (dia 23 de julho, última segunda feira. Ah, se fosse a Portela...) a sinopse da Grande Rio e ela me fez lembrar que eu ainda não tinha lido a sinopse da escola do polonês (apelido de Roberto Szaniecki, carnavalesco da escola e nascido no país europeu).

Depois de namorar bastante com a Volkswagen para contar a história do Fusca apenas para ser recusado pela TV Globo - e recusa da Globo, ainda mais na Grande Rio, é veto, a Grande Rio abraçou um enredo altamente político sobre a disputa do Rio pela manutenção dos royalties para os governos estaduais e municipais como estão.

O enredo não se sai bem em nenhum aspecto.

Para começar é um enredo politicamente panfletário de uma forma que eu nunca vi e que simplesmente não combina com carnaval da forma totalmente explícita com que foi feito. Deixa Portela 2010 e São Clemente 2009 no chão. Talvez nenhum enredo tenha chegado tão perto da total vassalagem profana e insana dos fatídicos carnavais da Beija-Flor de 1974 e, principalmente, 1975.
 
Além disso, ele é longo e modorrento, totalmente diferente do longo-instigativo, da Ilha. Depois ele não é nada, nada, nada carnavalizável, muito menos inspirativo para a ala de compositores. Alias, haja inspiração nessa temporada para os compositores caxienses. Aposto que eles estão se perguntando onde estão o iogurte ou as lentes de contato que eram mais fáceis (lembrando que esses enredos polêmicos também foram obra do polonês, sendo o segundo em São Paulo).

O polonês ainda não largou a mania irritante de dividir a sinopse em setores, o que acaba engessando totalmente a ala dos compositores. Esta tem que seguir exatamente o pensamento do carnavalesco, sob pena de um rápido jubilamento nas eliminatórias.

Os enredos de Szaniecki nunca ajudam o compositor em uma vírgula em seu trabalho e ainda o enquadra em uma sequência certa inquebrável que atrapalha ainda mais. Para transformar o trabalho em algo hercúleo, sempre que ele não adota a linha temporal, a sequência de setores não apresenta nenhuma lógica e complica de vez qualquer possibilidade de ser criar algum samba que pelo menos consiga levar a escola.

É exatamente o caso: o enredo se perde totalmente.

Tem uma intenção longa e desnecessária, para depois ter outra introdução tão longa e desnecessária. Em ambos os textos a sinopse diz que versará sobre o petróleo e seus royalties. Mas de petróleo mesmo só temos dois setores, os primeiros. Que para variar ainda contem erros técnicos crassos, visíveis até para uma pessoa leiga no assunto. Imagino que o nosso editor, especialista, deve ter quase enfartado quando leu.

[N.do.E.: o enredo tem diversos erros conceituais, inclusive sobre a própria natureza dos royalties. Lamentável.]

Os quatro setores finais são apenas para louvar os benefícios dos royalties do petróleo nas cidades que o recebem. Só que eles falam de tantas coisas, até certo ponto supérfluas considerando as necessidades dos rincões brasileiros como um todo, que, ao terminar de ler a sinopse eu tenho certeza que os royalties realmente devem ser repartidos com os estados não-produtores porque não temos mais onde investir tanto dinheiro.
Exatamente ao contrário do que o enredo se propõe - e olha que sou defensor ferrenho do Rio nessa disputa política.

Em resumo: um desastre total. Conseguiu a proeza de roubar da Inocentes o título de pior sinopse do ano.

Nota: 1

5. Imperatriz Leopoldinense

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro

Continuamos a profusão de enredos patrocinados, mais uma vez na modalidade CEP. Dominguinhos do Estácio mais uma vez aproveita suas ligações paraenses e consegue emplacar outro enredo sobre o Pará em uma escola sua para que ele solte a voz.

O enredo é mais do mesmo que já vimos na avenida trocentas vezes: sobre a Amazônia (que, sejamos sinceros, após tanto desmatamento, é mais história do que realidade no Pará), matas vastas e verdes, lendas indígenas, Tupã, ouro, borracha - e,para terminar a culinária paraense. Tudo entremeado com inúmeras palavras em tupi, para as quais há um enorme glossário ao final da sinopse.

Enredo ruim, porém até onde pode, honesto. Dá pelo menos para fazer um samba, se não bonito, na média. A excelente ala de compositores da Imperatriz deve ajudar.

Nota: 6

6. Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães

Para encerrar o carnaval, a boa surpresa do ano para mim. Quando a Vila disse que iria falar do “Brasil Rural” e, para piorar com patrocínio da BASF, especializada em agrotóxicos, pensei logo no pior.

Mas quando li a sinopse, que surpresa agradável!

O enredo simplesmente fala do jeito “caipira” de ser, introvertido, mas sempre simpático e acolhedor. Exata a figura do agricultor, o que não é muito comum no carnaval, de uma forma simples, mas que acertou em cheio

Apesar de passar também por alguns clichês, como as três raças que se irmanam para criar o brasileiro, as quais se agregam os imigrantes; a sinopse se salva por fazer um quadro bem completo do estilo caipira de ser, o trabalho da terra que é fundamental para a economia brasileira e a música sertaneja. Alias, o enredo acaba até enveredando pela história da viola no Brasil, sob o argumento (corretíssimo) que não tem como falar do lado cultural do agricultor sem tratar de sua inseparável viola.

Ainda aborda a religiosidade do homem do campo e sua relação muitas vezes difícil com o ciclo de chuvas do cerrado e do sertão.

Enfim, um enredo muito legal, que fugiu do óbvio e com a cara de Rosa Magalhães. É um enredo que dá para a ala de compositores brincar muito e ainda traz, a pretexto de inspiração, várias músicas relacionadas ao homem do campo e algumas frases que marcaram época ao descrevê-lo.

Após a leitura da sinopse, espero bastante da Vila.

Nota: 9

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Grupo Especial - Domingo - Impressões


A primeira noite de desfiles do Grupo Especial marcou um confronto claro entre a emoção dos melhores sambas (Portela e Vila Isabel), com alegorias mais tímidas, e as escolas de ostentação e riqueza (Mocidade e Beija Flor), com clara vantagem para o primeiro grupo.

É quase unanimidade que Portela e Vila Isabel fizeram os melhores desfiles, embora não perfeitas, em especial no quesito alegorias. Para meu gosto (e torcida) pessoal colocaria a Portela à frente da Vila, mas reconheço que é páreo duro.

Imperatriz, Porto da Pedra e Renascer fizeram desfiles abaixo das outras - a primeira com muitos problemas - e me arriscaria a dizer que as duas rebaixadas sairão destas três escolas.

Vamos a algumas impressões escola a escola:

1 - Renascer de Jacarepaguá


Só vi a "arrancada" da escola, mas a agremiação sentiu claramente o peso da estreia no Grupo Especial, além de abrir o desfile. Fez claramente um desfile inferior às outras e deve retornar ao Grupo de Acesso A para 2013.

2 - Portela


Leitor, estou de alma lavada. Digo sem medo de errar que em nove anos este foi meu melhor desfile pela escola. Solto, alegre, com muita garra, brincando carnaval mas comprometido com a escola. E mais uma vez vim ajudando na Harmonia de minha ala.

A escola passou feito um furacão pela avenida, apesar de alegorias desiguais e alguns problemas nas fantasias. Ainda assim foi o melhor barracão dos anos da administração atual com folga.

Arriscaria a dizer que se o presidente da escola tivesse investido no projeto original do carnavalesco a Portela seria campeã deste ano com sobras. Mas ainda assim, caro leitor portelense: nós temos um compromisso na noite do Sábado das Campeãs.

O mais importante é que a partir de hoje podemos voltar a andar de cabeça erguida, e isso não tem preço. Estou muito feliz.

3 - Imperatriz Leopoldinense


Muitos problemas em seu desfile, com quebras de carros e esculturas que propiciaram troca de ordem com alas (o que penaliza o quesito Enredo) e prejudicaram a Evolução. Uma penas, pois estes estavam bonitos, embora a sequência de cores das fantasias não estivesse bem resolvida.

A não ser que haja uma catástrofe no desfile de hoje briga ponto a ponto com a Porto da pedra para não descer.

4 - Mocidade


O enredo sobre Portinari (acima) foi muito imponente em relação à plástica, em bom trabalho do carnavalesco Alexandre Louzada - apesar de algumas fantasias bastante pesadas.

Entretanto, faltou alma ao componente. A escola passou fria. O lindo samba caiu muito no decorrer do desfile.

5 - Porto da Pedra


O insólito enredo sobre o iogurte ganhou uma leitura no meio caminho entre o irreverente e o institucional, mas sem empolgar. Passou sem grandes erros apesar do insuportável samba, com algumas soluções interessantes e outras nem tanto. Destaque absoluto para a bateria.

Lamentável o momento "eu sou foda" do puxador Wander Pires no grito de guerra da escola.

6 - Beija Flor


Irreconhecível. Assim definiria a Beija Flor, que em termos de quesitos de pista fez fácil seu pior desfile nos últimos 15 anos, com direito até a buracos (foto). Escola parada, correria desenfreada, a comissão de frente não se apresentou para o primeiro julgador e a roupa da porta bandeira teve problemas.

A estética, apesar de imponente, eram os mesmos monstros de sempre. Em um julgamento normal não ficaria nem entre as cinco primeiras, mas é a Beija Flor.

7 - Vila Isabel


Início arrebatador já na Comissão de Frente e no esquenta com "Kizomba". A escola fez um desfile muito semelhante ao da Portela em qualidades e defeitos, com alegorias que, salvo o abre alas, eram bem tímidas.

Ainda assim, como a Portela, fez um desfile de escola de samba, embora um pouco menos empolgado. Mas gostei muito.

Aliás, acho que a noite de ontem deixou clara a importância que é de se escolher um bom samba.

Na minha avaliação, seria:

1 - Portela
2 - Vila Isabel
3 - Mocidade
4 - Beija Flor
5 - Porto da Pedra
6 - Imperatriz
7 - Renascer

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Samba de Terça - "A Grande Constelação das Estrelas Negras"



Mais uma terça feira, ares soteropolitanos, e a nossa coluna "Samba de Terça" traz um samba - sugestão do leitor Emerson Braz - que nem é brilhante, mas é personagem de um dos resultados mais polêmicos da história do carnaval carioca: Beija Flor 1983.

A Beija Flor era uma escola pequena, que transitava entre o primeiro e o segundo grupos do carnaval carioca. Em 1974 e 1975 desfilou com enredos de exaltação à ditadura militar, o que granjeou antipatias extremas em setores da intelectualidade carioca.

Em 1976 o banqueiro do jogo do bicho Anisio Abrahão David assumiu a escola - onde se encontra até hoje - e investiu fortemente para colocá-la no grupo das grandes. Trouxe do Salgueiro o carnavalesco bicampeão Joãozinho Trinta e gastou muito dinheiro a fim de revolucionar o visual dos desfiles.

Com isso, a escola foi tricampeã em 1976, 77 e 78, vice em 1979, campeã de novo em 1980 - junto com a Portela e a Imperatriz Leopoldinense - e vice em 1981.

Entretanto, em 1982 a escola foi apenas a sexta colocada, ainda tendo de enfrentar um desconto de pontos como punição por ter desfilado com pessoas vivas em suas alegorias - isso era proibido no regulamento daquele ano.

Para o ano seguinte a escola de Nilópolis optaria por um enredo de fácil comunicação com o público: "A Grande Constelação das Estrelas Negras". O objetivo era listar personalidades negras de destaque como Pelé, Clementina de Jesus, Ganga Zumba e a passista da escola Pinah - que havia deixado embasbacado o Príncipe Charles da Inglaterra em evento aqui no Brasil.

A escola não tinha tradição de grandes sambas, à exceção de 1976 - e o samba escolhido para o carnaval de 83 também não era dos melhores daquele ano. Ainda mais comparando-se com sambas como o do Império Serrano, o da Portela e o da Mocidade Independente, entre outros.

Aliás, Joãozinho Trinta e Paulo Barros, dois dos grandes revolucionadores artísticos do carnaval têm a característica de que as escolas onde passam não possuem grandes sambas enquanto estão lá. Curioso.

Os autores da composição eram o puxador Neguinho da Beija Flor e seu irmão, Nego - este mesmo que hoje é intérprete da Mocidade. Era um samba curto e que estava a serviço do visual proposto pelo carnavalesco.

A Beija Flor foi a décima segunda e última escola a desfilar, já na no final da manhã da segunda feira de carnaval, 14 de fevereiro - sob um sol escaldante. Toda em branco e prata, a agremiação encerrou os desfiles daquele ano. Se o leitor observar o vídeo com atenção verá que os carros da escola nada mais eram que plataformas para mulatas e destaques - como Jesus Henrique e a cantora Clementina de Jesus - sem esculturas que contassem o enredo - mais tema que enredo.

A expectativa para a apuração era de que a Mocidade Independente, o Império Serrano e a Portela duelariam ponto a ponto pelo título. Mas...

Em um resultado surpreendente a escola de Nilópolis conquistou o título, com 204 pontos, três à frente da Portela e quatro do Império Serrano. A Mocidade parou apenas em sexto, mais de dez pontos atrás da campeã.

Logo depois começaram a aparecer as histórias da apuração. A primeira delas foi a de um jurado de samba enredo, que deu nota sete para o Império Serrano (um escândalo) e  dez somente para a Beija Flor. O sujeito, que não tinha muitas condições financeiras, apareceu na semana seguinte ao carnaval com um Monza 0km - o carro considerado "chique" à época - dado por não se sabe quem.

E tivemos o "Fator Messias Neiva". Jurado de alegorias, decidiu o carnaval ao dar Nota Dez apenas para a Beija Flor - que só tinha pessoas em cima dos carros, mais nada - e seis para Portela e Mocidade. Como a diferença final foi de três pontos, ele deu o título à Beija Flor. 

Ele foi acusado de ter recebido 1 milhão de cruzeiros - a moeda da época - para dar estas notas. Mas vamos à matéria publicada no jornal O Globo em 19 de fevereiro de 1983, sábado seguinte ao desfile, que uma boa alma digitalizou, colocou em uma das listas de discussão e eu tive o cuidado de guardar. Ela fala por si só - os grifos são meus:

"Messias nem se lembra dos enredos das escolas

O jurado Messias Neiva afirmou ontem ter "esquecido" até o enredo da Portela e só poderá explicar por que lhe deu nota seis em Alegorias e Adereços se ver o teipe do desfile. Ele disse ter esquecido também o enredo e a razão da nota oito à Imperatriz Leopoldinense e não se lembra sequer do enredo do Império Serrano. Reconheceu que não entende de samba e disse que, se a Mocidade Independente tivesse colocado o tatu no chão, e não em cima da árvore "levaria mais dois pontos".

Artista plástico, morador de Caxias, Messias Neiva disse não ter recebido qualquer orientação da Riotur sobre como votar: "Fui lá e dei nota de acordo como que senti na hora". Ele informou que foi convidado para o júri por um freguês de seus quadros, o juiz José Cauipe, que o apresentou ao Coronel Annibal Uzêda. Nas reuniões a que compareceu, soube apenas que não poderia dar nota zero.

Justificativas

Ele mostrou ao GLOBO o papel no qual justificou as notas dadas à Unidos da Tijuca, União da Ilha, Mocidade Independente e Mangueira - únicas escolas que mereceram anotações ao lado da nota. A Unidos da Tijuca, por exemplo, tirou sete porque "um cidadão empurrava um carro à paisana":

- Esse cara matou o desfile da escola, porque ela merecia mais, mas ele empurrava um carro alegórico sem estar fantasiado. (A Riotur, porém, permite que os componentes empurrem os carros sem fantasia, o que em todas as escolas.)

Messias Neiva, que disse viver de sua pintura "desde a década de 50", começou a carreira como pintor de letreiros eleitorais. Sobre a acusação de ter recebido Cr$ 1 milhão da Beija-Flor para lhe dar dez, disse:

- É muito pouco para eu sujar meu nome.

Ele confirmou que vem recebendo ameaças de morte e recusou-se a dar seu endereço, em Caxias, onde mora com a família. A entrevista foi na casa de um amigo, em Copacabana.

Esquecimento

Messias afirmou que julgou o desfile "como artista e não como sambista", porque não entende de samba. A Mocidade Independente foi a única escola que ontem soube analisar rapidamente, mas se referiu a seu enredo como "aquela coisa da selva":

- Da Mocidade eu sei: nos carros, vinha a vegetação lá em cima uma mulher, com onças em volta dela trepadas na árvore. No segundo carro, vinham tatus nas copas das árvores: foi nesse carro que ela levou pau. Se ela colocasse os pássaros em cima e o tatu em baixo eu aumentaria a nota em dois pontos: de seis para oito. No terceiro carro, vinha a selva, mas faltou a mulher: ou seja, ela adoeceu ou se atrasou. A Riotur disse que, se faltasse um componente, a gente tinha direito até de deixar de votar. E eu vi o espaço da figura viva vazia.

- E a Mangueira, por que mereceu seis?

- Ah, a Mangueira estava fraca de alegoria e aquele trem realmente era maravilhoso, enchia os olhos da gente, mas era só um belo trabalho de carpintaria.

- E o seis da Portela?

- Dei o que ela merecia.

- Mas por que merecia seis?

- Porque na hora eu vi e achei que era seis. Agora não me lembro mais. Como é que posso me lembrar do que vi há quatro dias?

- Você não se lembra nem do enredo? Qual era o enredo da Portela?

- Sinceramente não sei, não posso me lembrar de todos. Sei que a escola estava maravilhosa, não houve falhas.

- E por que o seis, se não houve falhas?

- Ih, já vi que você é portelense. Ora, não sei me lembro. Na hora, eu achei que era seis. Se você me trouxer o teipe do desfile, eu digo.

- Ué, a União da Ilha?

- A União da Ilha tenho aqui anotado ( e começa a ler sua justificativa): "Uma senhora sonolenta em cima de um carro, oferecendo perigo". Dei nota sete por isso.

Visão Precária

Messias Neiva não se lembra nem do enredo da Beija-Flor, única escola que mereceu sua nota dez, "porque desfilou de dia, para o sol, e pude ver tudo melhor". Ele explicou que os desfiles durante a noite são sempre prejudicados pela má visibilidade (ele abaixou-se junto ao abajur para ler, sem óculos, suas anotações com dificuldade de visão e, na Avenida Marquês de Sapucaí, também não usava óculos).

- O artista da Beija-Flor fez a obra para desfilar de dia, com sol, e o trabalho ficou bem visível. Vi, achei que estava bom e dei dez.

- Mas a Imperatriz também desfilou durante o dia e mereceu oito. Por que?

- Porque não sou obrigado a dar dez para todo mundo. Ninguém me disse que eu tinha que dar dez a todas. Vi a Imperatriz, o artista dela era excelente, mas achei que merecia oito.

- Você se lembra do enredo dela?

- Não, não me lembra mais.

- E a Portela, desfilou de dia ou à noite?

- A que horas a Portela desfilou? Não sei. Vai ver ele saiu à noite, quando fica difícil de a a gente ver os trabalhos.

Dinheiro, Não

Messias Neiva, de 58 anos, disse que não conhece o Presidente de Honra da Beija-Flor, o banqueiro-do-bicho. Aniz Abraão David, o Anísio, e nem tem interesse em conhecê-lo.

Muito contrariado com a repercussão de suas notas, comentou que, se soubesse que perderia a tranqüilidade, teria dispensado o convite para ser jurado:

- Olhe, eu tenho casa própria, um sitio na serra de Petrópolis e vivo de minha arte. Graças a Deus, não preciso do dinheiro de ninguém e Cr$ 1 milhão seria até muito pouco para sujar meu nome. Tenho quadros vendidos na Europa e nos Estados Unidos. Até Frank Sinatra comprou um quadro meu quando veio aqui.

Messias Neiva vende quadros pequenos a preço entre Cr$ 60 a Cr$100 mil e disse que terá "um prejuízo incalculável" ao manter fechado seu ateliê na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, localização que não considera longe de Caxias, onde mora. Ele disse que está evitando ir ao ateliê devido às ameaças:

- Graças a Deus, não tenho quadros mais para vender. Estão todos vendidos, por enquanto. Só tenho um conselho a dar aos próximos jurados da Riotur, não aceitem."

(O Globo, 19/02/1983)

Bom, como vêem, no mínimo bastante suspeito o que ocorreu com este julgamento de 1983. Mas o que passou à história é que, por meios suspeitos ou lícitos, mas de forma injusta, a Beija Flor foi a campeã do carnaval.

E naquele ano a escola iniciaria um longo jejum de quinze anos sem títulos, somente quebrado em 1998 - em um empate com a Mangueira para lá de contestado...

Vamos à letra do samba:

"A Grande Constelação das Estrelas Negras"

Ô ô ô Yaôs quanto amor
Quanto amor
As pretas velhas Yaôs
Vêm cantando em seu louvor

A constelação
De estrelas negras que reluz
Clementina de Jesus
Eleva o seu cantar feliz
A Ganga-Zumba
Que lutou e foi raiz
Do negro que é arte, é cultura
É desenvoltura deste meu país
Êh ! Luana
O trono de França será seu baiana
Pinah êêê Pinah
A Cinderela negra
Que ao príncipe encantou
No carnaval com o seu esplendor
Grande Otelo homem show
Em talento dá olé
E o mundo inteiro gritou, Gol ! 
(É gol)
Gol do grande Rei Pelé

Ô Yaôs"