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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte II"


Nesta terça feira, o colunista Rafael Rafic em sua "Made in USA" conclui a análise comparativa entre as sinopses e os sambas das escolas do Grupo Especial para 2013.

Sambas vs Sinopses – Parte II

Continuemos a análise com as escolas que desfilam na segunda feira.

Segunda-feira

1 - São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo
Nota da Sinopse: 8,5
Autores do samba-enredo: Gabriel Mansilha, Nelson Amatuzzi Victor Alves, Floriano do Caranguejo, Beto Savana, Guguinha e Fabio Portugal

Com um ótimo tema e boa sinopse (porém um tanto quanto confusa e esparsa), a São Clemente foi a única escola que optou por uma fusão para 2013. Foi uma fusão clássica: 1 refrão e 1 estrofe de um samba colado com 1 refrão e 1 estrofe de outro – e alterada após a disputa.

O samba é de mediano para bom, não tendo grandes passagens. Tem apenas um refrão final que pega, mesmo não sendo uma maravilha poética nem melódica. É um samba que luta para completar a primeira metade do Grupo, enquanto a sinopse é claramente a quarta melhor do grupo.

Talvez tenha faltado um grande samba. Isso pode ter ocorrido devido à forma confusa com que as idéias foram lançadas na sinopse; ou talvez pela porcentagem absurda que a São Clemente exige dos direitos autorais dos compositores (na ordem de 60%). Mas o fato é que apesar do samba interessante não houve na safra um samba que ombreasse a nota alta obtida pela sinopse.

Resultado: samba mediano inferior a sinopse boa.

2 - Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho
Nota da Sinopse: 4,5
Autores do samba-enredo: Lequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalho

A sinopse mangueirense, não bastasse ser a típica sinopse CEP (louvando um lugar do Brasil), ainda foi pessimamente estruturada.

Porém, a tradicional parceria multicampeã mangueirense capitaneada pelo Lequinho, salvou a Mangueira. Típico caso que o talento do compositor tira samba de onde não tem na sinopse.

É um samba com a cara da Mangueira (cara essa que alguns queriam dar a Portela esse ano também... sorte que não foram bem sucedidos) que fica tranquilamente na primeira metade do grupo em 2013.

Não é por acaso que o samba praticamente não fala da sinopse, porque se começasse a falar demais fatalmente ficaria ruim.

Resultado: samba bom bastante superior a sinopse ruim.

3 – Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari
Nota da Sinopse: 4
Autores do samba-enredo: J Veloso, Ribeirinho, Marquinho Beija-Flor, Gilberto, Silvio Romai e Dilson Marimba

Enredo complicado e falho da Beija-Flor. Ganhou um samba normal que, se não faz parte da primeira metade do grupo para 2013, é melhor do que a sinopse e a trata com certa beleza poética em letra bastante interessante. Afinal essa era a única forma de fazer um samba competitivo na Beija-Flor, abordando o tema, mas sem ser o “pão, pão, queijo, queijo” que mataria o samba.

Resultado: samba razoável, ligeiramente melhor do que sinopse ruim. Possível interferência negativa da sinopse.

4 – Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa”… “Contra a injustiça em defesa do Rio”
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki
Nota da Sinopse: 1
Autores do samba-enredo: Mingau, Deré, Junior Fragga, Mingauzinho e Arlindo Neto

Da sinopse ruim, muito ruim, longa, insossa, longa, chata, doente e quase morta, saiu um samba até aceitável.

Não é um grande samba e provavelmente fica no terço final do Especial de 2013, mas é digno de Especial, tem um refrão final interessante (alias, também se utiliza de três refrões) e é um samba até certa medida legal de se cantar.

Para o desastre que foi a sinopse (tendo comentários inclusive que minha nota 1 foi boazinha, porque o certo seria o 0) esse samba, mesmo nem sendo mediano está acima de qualquer expectativa.

Resultado: samba de ruim para mediano infinitamente superior a um enredo absolutamente desastroso. Culpa total da sinopse.

5 – Imperatriz

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro
Nota da Sinopse: 6

Autores do samba-enredo: Me Leva, Gil Branco, Tião Pinheiro, Drummond e Maninho do Ponto

A Imperatriz trouxe uma sinopse mediana ao estilo CEP. Mas a ala de compositores da Imperatriz é sensacional e faz limonada de qualquer limão.

Mais uma vez tivemos uma disputa bastante acirrada, com 4 ou 5 sambas muito bons. A escolha foi um pouco contestada, mas qualquer escolha seria tendo em vista a quantidade de sambas bons na safra (mais uma vez em Ramos).

O samba da minha preferência (e de muitos outros), um samba ousado do incansável Zé Katimba, caiu ainda na semifinal. Porém os quatro sambas finalistas também tinham apoios consideráveis e chegaram justamente à final.

Dos finalistas, ganhou o meu preferido. É um ótimo samba. Não sei se dá para classificá-lo como o terceiro melhor do ano (atrás de Portela e Vila Isabel), mas com certeza está no terço inicial do Especial.

Resultado: bom samba, superior à sinopse mediana. Influência da qualidade dos compositores.

6 – Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães
Nota da Sinopse: 9,5
Autores do samba-enredo: André Diniz, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Tunico da Vila e Leonel.

Na Vila quando se junta André Diniz, Martinho e Arlindo (já apelidados de “Galácticos da Vila”) não se tem uma competição de samba-enredo: é praticamente um samba encomendado que já se sabe que irá ganhar.

A sinopse é muito boa e foi a surpresa agradável dessa safra. O samba que o representa não fica devendo nada à sinopse. Um samba de altíssima qualidade, que disputaria com a Portela o título de samba-enredo do ano.

Mas não é esse samba que todos andam falando. Para mim inclusive é inferior ao samba da Vila Isabel de 2012, sobre Angola (de André Diniz e Arlindo Cruz), e não teria toda essa repercussão se fosse assinado por Pedro Migão e Rafael Rafic. Mas é uma grande composição, sem dúvidas.

Por fim quero registrar uma incoerência de opiniões influentes do carnaval.

Várias pessoas que incensam o samba da Vila e proliferam aos quatro cantos que esse samba levará a Vila ao título (o que não duvido, ela é a favorita do momento), são as mesmas que defendiam na Portela o samba de Neyzinho. O argumento apresentado é que pela posição de desfile da Portela, última de domingo, ela precisaria de um samba mais “para cima” a fim não deixar o povo cair.

Mas será que essas pessoas não percebem que a Vila ocupa a mesma posição, até pior, já que a Vila encerra o último dia? E será que elas também não percebem que o samba do André Diniz & Cia é até mais cadenciado e “para baixo” do que o próprio samba da Portela?

Então porque para uma o samba cai como uma luva e para a outra não caia?

Alias, se guiando por esse argumento usado em Madureira, o samba escolhido na terra de Noel nem deveria ser esse, já que existiam outros dois sambas “mais para cima” do que o escolhido em Vila Isabel.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos de altíssima qualidade.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Made in USA - "Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II"


Nesta sexta feira, temos a segunda parte da coluna do advogado Rafael Rafic com as sinopses das escolas do Grupo Especial. Nossa faixa musical hoje irá falar mais tarde de outra faceta: as disputas de samba.

Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II

1. São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo

A São Clemente é uma das poucas que se salvam na safra desse ano. O enredo tratará sobre um assunto extremamente popular e altamente carnavalizável, mas que por algum motivo nunca foi para a avenida de maneira direta: as novelas brasileiras.

Porém aqui temos um problema: não sabemos se por causa de algum patrocínio (o que a escola nega), se por uma censura da Globo, que tem os direitos de transmissão exclusivos do desfile. Ou ainda se simplesmente por uma opção questionável da escola, só serão abordadas novelas da TV Globo.

[N.do.E.: quando do lançamento do enredo foi dito que haveria apoio institucional da emissora carioca.]

Isso deixa algumas pérolas novelísticas que seriam pivotais para o enredo - como Pantanal (TV Manchete) - de fora. Claro que isso se reflete em um problema na sinopse, mas nada que a inviabilize.

A sinopse em si, para mim, deixou um pouco a desejar porque apesar de apresentar alguns poucos personagens que ficaram na memória do povo e algumas novelas, ela focou mais no fluxo de uma novela em teoria.

Fala apenas da abertura, do final eletrizante, emoção e da fábrica de sonhos (apelido do PROJAC, o que aumentou a especulação da existência de patrocínio). Sinceramente eu acredito que no desfile muitas coisas que não estiveram na sinopse estarão na avenida. Isso pode a princípio causar perda de pontos para a escola da Zona Sul/Centro.

Ainda sim, é um ótimo enredo que na mão do carnavalesco Fábio Ricardo poderá colocar a São Clemente mais uma vez como a surpresa do Carnaval. Como vários compositores também são grandes noveleiros, não deverão ter qualquer dificuldade para ter inspiração.

Nota: 8,5

2. Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho

Aqui chegamos enredo escrito por aquele se tornou um engana... ops, escritor de enredos semi-profissional: Marcos Roza. Marcos é o mesmo que idealizou o “Roteiro dos Desfiles”, que é distribuído aos espectadores na Sapucaí explicando o enredo e o que representam as fantasias de cada escola.

Talvez ele tenha tido essa idéia para que alguém consiga entender o que ele escreve, sinceramente. Mais um enredo que parte do nada e chega ao lugar algum, passando por todos os lugares comuns do enredo CEP. Alias, troca Cuiabá por Bole-Bole e trem por esterco, e já temos a sinopse para o samba-enredo do conto do Aloísio Villar publicado aqui no Ouro de Tolo há semanas atrás.

O enredo pega como fio condutor uma viagem de trem partindo da Estação Primeira de Mangueira e passando por cada característica de Cuiabá que se quer ressaltar (mesmo que ela não tenha na realidade), que é representada por uma estação - tais como as lendas locais e a culinária. Exatamente como um típico enredo CEP tem. O problema é que Cuiabá NUNCA teve trem.

Foi exatamente nesse desejo de Cuiabá de ter um trem que nunca teve é que o enredo tenta se estruturar. Mas se a intenção é mostrar o que a cidade tem, com que lógica o enredo se arvora em algo que ela clamorosamente nunca teve?

Por fim, ainda há uma polêmica: vários trechos da sinopse seriam plágio do enredo mangueirense campeão de 2002, ‘Brasil com Z é pra Cabra da Peste. Brasil com S é a Nação do Nordeste’. Marcos Roza nega o plágio.

Plágio ou apenas coincidência, a verdade é que vários trechos são muito parecidos mesmo.

[N.do.E.: há um outro trecho praticamente idêntico à sinopse do Salgueiro do carnaval de 2010.]

Nota: 4,5

3. Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari

O tema, o segundo na ordem e anunciado ainda no sábado das Campeãs é sobre o cavalo mangalarga marchador. Claro, conta com um polpudíssimo patrocínio da associação de criadores desses animais.

Aqui minha reação foi bem parecida com a que tive com a Mocidade. Enquanto todos baixavam o sarrafo no tema, eu dizia que a Beija-flor estava com um problema na mão, mas que o tema se fosse bem trabalhado poderia render um belíssimo desfile. Outra esperança que foi defenestrada assim que li a sinopse.
No início ela tenta usar o próprio cavalo como narrador de sua história, ainda o tratando de modo generalizado, sem mencionar raças e começa aquela viagem na história pelo mundo que todo enredo genérico faz - só mudando o objeto do patrocínio.

Então fala do cavalo no deserto árabe da pré-história, que passa pelo seu uso na agricultura do neolítico, do seu uso como transporte de guerra, passando pelo Cavalo de Tróia...

Epa, Cavalo de Tróia? É, aqui está o primeiro grande problema de foco do enredo. Se a intenção era mostrar a história e importância do animal cavalo, o que uma estrutura oca de madeira está fazendo aqui?

Depois de Tróia, ele volta para a mitologia, apesar de não ficar claro que tipo de mitologia é abordada. Mas tudo me indica que seja Pégasus e aqui temos outro problema na linha histórica. Era para ele ter vindo antes do Cavalo de Tróia.

A viagem ao mundo não podia terminar sem uma passagem no lugar comum dos mouros e árabes e seus enormes exércitos de cavalaria. Hei, e a parte que já trata das guerras lá em cima? Pois é, o enredo não se decide.

Como fala de guerra a todo momento e estamos na Beija-Flor, podem esperar um enredo de sofrimento, dor, sangue e, já que estamos falando em cavalos, muita chicotada.

Para terminar, de repente e sem aviso, a sinopse dá uma giro total e passa a abordar o Brasil e a raça “homenageada” mais especificamente, aproveitando a ligação do cavalo com a coroa portuguesa e dessa com o Brasil - olha o clichê da Família Real no Brasil aí!

Aqui o enredo se perde completamente. Ele começa a trazer para a história alguns elementos que necessariamente precisariam de explicação. Por exemplo, o trecho “No então chamado Novo Mundo aportei, sendo presenteado pelo rei português ao Barão de Alfenas, e do cruzamento com as raças ibéricas, que aqui chegaram na época da colonização, renasci como o sangue puro do Brasil, no sul de Minas Gerais”.
Espera aí, como o cavalo foi cruzado com o cavalo, já que até aqui o enredo não faz qualquer distinção de raças de cavalo?

Pelos erros mil entrecortados por todos os clichês possíveis e imaginários, terei que ser muito duro na minha nota. Isso sem falar na total falta de inspiração poética gerada por essa sinopse insossa.

Nota: 4

4. Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa” … “Contra a injustiça em defesa do Rio”…
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki

Depois de achar que já tinha lido de tudo possível nesse ano após ler as sinopse da Inocentes, da Beija-flor e do Salgueiro, me aparece aos 48 do 2° tempo (dia 23 de julho, última segunda feira. Ah, se fosse a Portela...) a sinopse da Grande Rio e ela me fez lembrar que eu ainda não tinha lido a sinopse da escola do polonês (apelido de Roberto Szaniecki, carnavalesco da escola e nascido no país europeu).

Depois de namorar bastante com a Volkswagen para contar a história do Fusca apenas para ser recusado pela TV Globo - e recusa da Globo, ainda mais na Grande Rio, é veto, a Grande Rio abraçou um enredo altamente político sobre a disputa do Rio pela manutenção dos royalties para os governos estaduais e municipais como estão.

O enredo não se sai bem em nenhum aspecto.

Para começar é um enredo politicamente panfletário de uma forma que eu nunca vi e que simplesmente não combina com carnaval da forma totalmente explícita com que foi feito. Deixa Portela 2010 e São Clemente 2009 no chão. Talvez nenhum enredo tenha chegado tão perto da total vassalagem profana e insana dos fatídicos carnavais da Beija-Flor de 1974 e, principalmente, 1975.
 
Além disso, ele é longo e modorrento, totalmente diferente do longo-instigativo, da Ilha. Depois ele não é nada, nada, nada carnavalizável, muito menos inspirativo para a ala de compositores. Alias, haja inspiração nessa temporada para os compositores caxienses. Aposto que eles estão se perguntando onde estão o iogurte ou as lentes de contato que eram mais fáceis (lembrando que esses enredos polêmicos também foram obra do polonês, sendo o segundo em São Paulo).

O polonês ainda não largou a mania irritante de dividir a sinopse em setores, o que acaba engessando totalmente a ala dos compositores. Esta tem que seguir exatamente o pensamento do carnavalesco, sob pena de um rápido jubilamento nas eliminatórias.

Os enredos de Szaniecki nunca ajudam o compositor em uma vírgula em seu trabalho e ainda o enquadra em uma sequência certa inquebrável que atrapalha ainda mais. Para transformar o trabalho em algo hercúleo, sempre que ele não adota a linha temporal, a sequência de setores não apresenta nenhuma lógica e complica de vez qualquer possibilidade de ser criar algum samba que pelo menos consiga levar a escola.

É exatamente o caso: o enredo se perde totalmente.

Tem uma intenção longa e desnecessária, para depois ter outra introdução tão longa e desnecessária. Em ambos os textos a sinopse diz que versará sobre o petróleo e seus royalties. Mas de petróleo mesmo só temos dois setores, os primeiros. Que para variar ainda contem erros técnicos crassos, visíveis até para uma pessoa leiga no assunto. Imagino que o nosso editor, especialista, deve ter quase enfartado quando leu.

[N.do.E.: o enredo tem diversos erros conceituais, inclusive sobre a própria natureza dos royalties. Lamentável.]

Os quatro setores finais são apenas para louvar os benefícios dos royalties do petróleo nas cidades que o recebem. Só que eles falam de tantas coisas, até certo ponto supérfluas considerando as necessidades dos rincões brasileiros como um todo, que, ao terminar de ler a sinopse eu tenho certeza que os royalties realmente devem ser repartidos com os estados não-produtores porque não temos mais onde investir tanto dinheiro.
Exatamente ao contrário do que o enredo se propõe - e olha que sou defensor ferrenho do Rio nessa disputa política.

Em resumo: um desastre total. Conseguiu a proeza de roubar da Inocentes o título de pior sinopse do ano.

Nota: 1

5. Imperatriz Leopoldinense

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro

Continuamos a profusão de enredos patrocinados, mais uma vez na modalidade CEP. Dominguinhos do Estácio mais uma vez aproveita suas ligações paraenses e consegue emplacar outro enredo sobre o Pará em uma escola sua para que ele solte a voz.

O enredo é mais do mesmo que já vimos na avenida trocentas vezes: sobre a Amazônia (que, sejamos sinceros, após tanto desmatamento, é mais história do que realidade no Pará), matas vastas e verdes, lendas indígenas, Tupã, ouro, borracha - e,para terminar a culinária paraense. Tudo entremeado com inúmeras palavras em tupi, para as quais há um enorme glossário ao final da sinopse.

Enredo ruim, porém até onde pode, honesto. Dá pelo menos para fazer um samba, se não bonito, na média. A excelente ala de compositores da Imperatriz deve ajudar.

Nota: 6

6. Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães

Para encerrar o carnaval, a boa surpresa do ano para mim. Quando a Vila disse que iria falar do “Brasil Rural” e, para piorar com patrocínio da BASF, especializada em agrotóxicos, pensei logo no pior.

Mas quando li a sinopse, que surpresa agradável!

O enredo simplesmente fala do jeito “caipira” de ser, introvertido, mas sempre simpático e acolhedor. Exata a figura do agricultor, o que não é muito comum no carnaval, de uma forma simples, mas que acertou em cheio

Apesar de passar também por alguns clichês, como as três raças que se irmanam para criar o brasileiro, as quais se agregam os imigrantes; a sinopse se salva por fazer um quadro bem completo do estilo caipira de ser, o trabalho da terra que é fundamental para a economia brasileira e a música sertaneja. Alias, o enredo acaba até enveredando pela história da viola no Brasil, sob o argumento (corretíssimo) que não tem como falar do lado cultural do agricultor sem tratar de sua inseparável viola.

Ainda aborda a religiosidade do homem do campo e sua relação muitas vezes difícil com o ciclo de chuvas do cerrado e do sertão.

Enfim, um enredo muito legal, que fugiu do óbvio e com a cara de Rosa Magalhães. É um enredo que dá para a ala de compositores brincar muito e ainda traz, a pretexto de inspiração, várias músicas relacionadas ao homem do campo e algumas frases que marcaram época ao descrevê-lo.

Após a leitura da sinopse, espero bastante da Vila.

Nota: 9

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Grupo Especial - Segunda - Impressões


Bom, final dos desfiles do Grupo Especial, vamos a um panorama da segunda noite de desfiles, que a meu ver de forma geral acabou sendo inferior à primeira. Muitos erros, em especial nos quesitos considerados "de pista" deram o tom das escolas.

Penso que o desfile termina sem um favorito destacado, mas acredito que, apesar nos problemas nas alegorias, Vila Isabel e Portela foram bem superiores nos quesitos "de chão" às demais escolas e devem disputar ponto a ponto o título. A Tijuca correria por fora a meu ver, e só - assim mesmo forçando bastante a barra.

Vamos a uma análise escola por escola.

1 - São Clemente


Vi somente a arrancada da escola, pois tinha de ir para a concentração da União da Ilha. Achei as alegorias bem fracas pelo que vi.

2 - União da Ilha


A concentração foi bastante confusa, e a Harmonia não foi perfeita: minha ala, que era uma das últimas, teve de correr um pouco. Ainda haviam integrantes sem bandeiras, e isso deve incorrer em desconto de pontos. Ainda assim fez um bom desfile, e briga pela sexta vaga no Desfile das Campeãs.

Os carros, pelo menos na concentração, pareciam bem interessantes.

3 - Salgueiro


Pelo segundo ano seguido a Harmonia da escola impediu que se conquistasse um campeonato até com certa facilidade. Demora para a entrada dos carros, quebras de elementos e buracos deram o tom da apresentação.

Pena. Renato Lage fez uma vez mais um ótimo trabalho. Ainda assim deve voltar no desfile do próximo sábado.

4 - Mangueira


Vergonhoso. É assim que classifico o desfile da verde e rosa, que foi um equívoco completo. A começar por suas alegorias e fantasias (acima, o indigno abre alas) típicas de Grupo de Acesso B e passando pelas presepadas com o sistema de som e as "paradinhas", que transformaram a Sapucaí em uma mesa de (ruim) pagode.

Além disso, estas "inovações" fizeram com que a saraivada de turistas que compunham suas alas atravessasse o samba, penalizando ainda mais os quesitos.

Por mim - e não só por mim - seria rebaixada em último lugar, mas acho pouco provável que isso ocorra. Mas seu presidente tem de explicar como recebe R$ 7 milhões e apresenta um carnaval deste naipe. Lamentável.

5 - Tijuca


Alternou bons e maus momentos. Excelente comissão de frente, alguns carros bons e outros com problemas evidentes de acabamento, um enredo meio confuso e um samba fraco.

Minha avaliação é que voltaria nas Campeãs apenas, mas se a proposta do júri for desvalorizar os quesitos de pista e privilegiar a Broadway pode entrar na briga.

6 - Grande Rio


Burocrática. Assim definiria a escola de Caxias, que patinou em problemas de Evolução e Harmonia, trouxe alegorias com problemas e fantasias fracas - com direito a alas de short e camiseta - e o pior samba do ano.

Foi desfile para oitavo, nono lugar, mas com a força que a agremiação dispõe não me surpreenderia voltando entre as seis.

Minha avaliação seria a seguinte, já avisando que é polêmica:

Título: Vila e Portela, com Tijuca correndo por fora.
Campeãs: Tijuca, Salgueiro, Mocidade e talvez a Ilha - embora duvide que Beija Flor e Grande Rio fiquem fora, embora mereçam.
Marola: Beija Flor, Grande Rio, São Clemente;
Disputando o rebaixamento: para mim as piores nos quesitos foram a Imperatriz e disparada a Mangueira, mas acho pouco provável que uma das duas seja rebaixada, embora mereçam. Deve sobrar mesmo para Renascer e Porto da Pedra.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Samba de Terça - "A São Clemente mostrou, e nada mudou neste Brasil Gigante"



Terça feira, é dia de nossa coluna semanal sobre grandes sambas que, entretanto, acabam não sendo os mais conhecidos de suas escolas.

Hoje falarei de uma das últimas vezes em que a arquibancada da Sapucaí se transformou em um baile de carnaval: São Clemente 2001, "A São Clemente mostrou, e nada mudou neste Brasil Gigante".

A escola de Botafogo - embora sua sede, hoje, seja na Cidade Nova - vinha de um resultado muito contestado no ano anterior, quando saiu da avenida como favorita a uma das vagas no Grupo Especial e acabou tendo de se contentar com um quarto lugar.

Como uma espécie de "resposta" a este resultado injusto em sua opinião, a amarela e preta resolveu lembrar-se de seus grandes momentos no Olimpo do samba, os enredos críticos e irreverentes que a escola apresentou na segunda metade da década de oitenta e início dos anos noventa.

O enredo proposto pela carnavalesca Sônia Regina era um grande "revival" de todos aqueles temas apresentados anteriormente pela escola. Na abertura da sinopse - que reproduzo abaixo, com agradecimentos ao site Galeria do Samba - a artista deixa claro que procederá a lembranças da "Era de Ouro" da escola:

"Introdução

Com a chegada do 3° milênio, a São Clemente resolve fazer uma retrospectiva dos seus últimos carnavais e chega a seguinte conclusão:

- Nosso trânsito continua desorganizado, as pessoas morrem;
- O povão continua sem teto;
- O sistema de saúde do Brasil é um fiasco;
- Os capitães de asfalto continuam nas ruas;
- A violência é tanta que parece que estamos em guerra;
- E o samba continua sambando;
- A solução está na educação do nosso povo;
- E nós continuamos uma gente guerreira, otimista e festeira.

Mostraremos nesse enredo passo a passo, ala por ala, carro por carro, um verdadeiro raios-x do Brasil, mas de forma irreverente como é a marca registrada dessa escola de samba da Zona Sul.


Sinopse do Enredo - Carnaval 2001

1º Setor

O último minuto de 2000 e o primeiro segundo de 2001, marcam a virada do calendário, a chegada do 3º milênio, numa festança que se conhece como reveillon.

E a São Clemente num momento de grande reflexão resolve fazer uma retrospectiva sobre seus carnavais, quando de maneira descontraída e irreverente, mas compromissadamente séria enquanto mensagem, levantou várias questões sociais, e chegou a seguinte conclusão: "mostrou, e nada mudou".

2º setor

O nosso trânsito continua matando cada vez mais, as nossas estradas mal conservadas provocando acidentes, e os pedágios cada vez mais caros e em números maiores, e os pardais !! E aí, o que mudou ?...

Com o crescimento do desemprego, os viadutos, e as praças viraram mansões para os menos favorecidos, hoje temos os sem tetos e os sem terras. E aí, o que mudou ? ....

O sistema de saúde é um fiasco, com os pacientes madrugando em filas intermináveis, sem remédios, equipamentos quebrados, remédios falsificados, material humano falho, e os planos de saúde, os nossos idosos, a aids num crescer cada vez maior continua entre nós, a vaidade sem limites criou a indústria da plástica e do silicone. E ai, o que mudou ? ....

3º setor

E os capitães de asfalto continuam nas ruas. Os menores da atual geração para aumentar o seu "poder" e garantir respeito do grupo que freqüenta, estão aumentando os atos de vandalismo. É a regra do valor e afirmação pessoal, não se alimenta falsa ilusão, tendo em vista a luta desigual, entre o bem e o mal. Esses menores infratores são frutos da sociedade e é deles que temos que fugir todos os dias. E aí, o que mudou ?...

Numa trágica democracia, a violência está presente em todas as partes e faz de reféns as pessoas de bem, como os motoristas e os passageiros, os,professores e os alunos, as donas de casa em seus lares.

Hoje vivemos atrás das grades e os bandidos livres, vivemos em cativeiros, somos reféns do medo, da insegurança, estamos em uma guerra civil não oficializada.

Presenciamos combates constantes entre polícia x ladrão; ladrão x ladrão; polícia x polícia. E aí, o que mudou ?

4º setor

E o samba continua sambando. Um troca-troca constante, os sambistas trocando suas agremiações por, contratos fabulosos, não existindo o "vestir, a camisa". E aí, o que mudou?

5º setor

A solução está na educação do nosso povo. Mais escola melhor estruturada, mais emprego, uma distribuição de renda melhor.

Sem apontar saídas e fórmulas milagrosas, menos ainda abrir questões que possam levar a intermináveis debates, quando o razoável é mostrar que, bem mais que as reflexões o momento exige "atitudes" e nós que somos a esperança, e vivemos neste Brasil gigante, continuamos guerreiros, otimistas, festeiros e perguntamos: e aí, o que mudou ? ...."


A amarela e preta foi a oitava escola a entrar na avenida, na madrugada do domingo de carnaval, 25 de fevereiro. E o que ocorreu foi um verdadeiro baile de carnaval.

As pessoas nas frisas e nas arquibancadas cantavam a plenos pulmões o samba de Paulo Renato, Eugênio Leal, Fábio Chrispim e Rodrigo Índio, auxiliadas pela garra do puxador Anderson Paz e com a bela bateria aurinegra. Uma verdadeira catarse na avenida, com uma integração à moda antiga entre escola e público.

A parceria autora do samba, estreante como vitoriosa, soube captar a essência do enredo e permitiu aos desfiles um grande momento. Eu me lembro que era a primeira vez em que assistia o Grupo de Acesso A "in loco" e fiquei bastante impressionado ocm o desifle da escola.

Apesar do belo nível do desfile como um todo e de fantasias e alegorias apenas medianas, a escola saiu da Praça da Apoteose como grande favorita a uma das vagas no Grupo Especial em 2002 - bons tempos em que eram duas as escolas promovidas...

Em que pesem os bons desfiles da Vila Isabel - recém rebaixada - e da Acadêmicos da Santa Cruz, que homenageou o grande ator, escritor e compositor Mário Lago, a impressão geral é que as duas promovidas seriam a São Clemente e a Unidos do Porto da Pedra.

A apuração na quarta feira de cinzas confirmou as expectativas: Porto da Pedra em primeiro e São Clemente em segundo, ambas promovidas ao Grupo Especial. A escola de Botafogo fez 193 pontos, quatro abaixo da agremiação são-gonçalense. Festa nas duas comunidades.

Minha avaliação era de qualquer uma das escolas poderia ser a campeã. Resultado justo.

Vamos à letra do samba, que pode ser ouvido em sua versão de estúdio aqui. Uma curiosidade: na versão original o verso "para o turista delirar" era, na verdade, "para o turista cochilar". Houve a mudança para a gravação oficial.

"Cantei, ah ! Como cantei
Eu alertei, eu critiquei, amor
Jeito moleque brincalhão eu vou
Tentando melhorar esse país (pra ser feliz)
O meu grito ecoou
E aí, o que mudou ?
Mas não desisto, sou guerreiro lutador
Se correr o pardal pega
Se ficar o ladrão come
Onde a coisa vai parar ?
Tô sem terra, tô sem ninho
Qual será o meu caminho
Quero casa pra casar

Tá na hora de curar minha saúde
Quem tem plano fica pobre
E o pobre que se cuide


Hoje o Capitão de Asfalto
Tomou de assalto as manchetes de jornal
Marginalizado
Virou culpado da tragédia social
E o meu povão do carnaval
Não pode mais participar
No troca-troca deu lugar
Para o turista delirar
A solução então
É investir na educação
Criar emprego
Para libertar essa nação

Faz a festa, me abraça, põe champanhe na taça
A São Clemente é alegria
Vem no peito e na raça sacudindo a massa
Na explosão da bateria
"


Semana que vem, encerrando a série "Samba de Terça" neste ano de 2009, Mangueira 1983: "Verde que te quero Rosa, Semente Viva do Samba".

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Samba de Terça

Hoje a nossa coluna "Samba de Terça" será um pouquinho diferente. Iremos falar de um samba que fez um enorme sucesso em seu tempo, atualíssimo nos dias de hoje; e que nos permite uma reflexão sobre os rumos dos desfiles das escolas de samba.

Um enredo profético, com um samba profético, que deu à simpática agremiação de Botafogo o seu melhor resultado no Grupo Especial. Ainda hoje lança luzes sobre o processo de profissionalização anômala pelo qual passam as escolas.

A escola possuía, nos Anos 80, tradição em enredos críticos e satíricos. E cometeu a ousadia de levar para a Marquês de Sapucaí um tema que era uma crítica ao próprio desfile, aos próprios dirigentes, à própria música: "E o samba sambou".

Enredo de autoria dos carnavalescos Carlinhos de Andrade e Roberto Costa, propunha a crítica e o pensar aos segmentos que perfazem um desfile.

A letra do samba, de autoria de Helinho 107, Mais Velho, Nino e Chocolate, pode ser analisada estrofe a estrofe:

Vejam só !
O jeito que o samba ficou ... E sambou
Nosso povão ficou fora da jogada
Nem lugar na arquibancada
Ele tem mais pra ficar

Preconizava a cada vez maior elitização do público do desfile e o alijamento do povo da passarela dos desfiles. Hoje, reclama-se da frieza do espetáculo, consequência direta do aumento do preço dos ingressos e da diretriz turística dada ao evento. A paixão do povo arrefeceu-se.

Na segunda estrofe, a crítica era à mercantilização dos desfiles:

Abram espaço nessa pista
E por favor não insistam
Em saber quem vem aí
O mestre-sala foi parar em outra escola
Carregado por cartolas
Do poder de quem dá mais
E o puxador vendeu seu passe novamente
Quem diria, minha gente
Vejam o que o dinheiro faz

Fazia referência à entrada do dinheiro em profusão nas escolas, processo iniciado cerca de quinze anos antes. Ainda hoje, as escolas de samba vivem um processo de profissionalização anômala.

Hoje, o modelo de patrocínio é inadequado, certos segmentos recebem pagamento pelos serviços, outros não; o modelo de gestão das escolas ainda pode ser considerado amador.

Com isso, o alegado "amor à escola" deixa de existir. Passa a ser amor à grana. A porta bandeira, o mestre sala, o puxador, pasam a escolher a escola não pela sua formação, mas sim pela que paga mais.

É fantástico
Virou Hollywood isso aqui
Luzes, câmeras e som
Mil artistas na Sapucaí

Relata a grande entrada de profissionais de teatro e dança na festa do carnaval. Também ironiza a transformação em show-business da festa.

Mas o show tem que continuar
E muita gente ainda pode faturar
"Rambo-sitores", mente artificial
Hoje o samba é dirigido com sabor comercial
Carnavalescos e destaques vaidosos
Dirigentes poderosos criam tanta confusão
E o samba vai perdendo a tradição

Aqui temos contornos de profecias. A letra fala das "firmas" de samba enredo, que pontificariam na segunda metade da década de noventa. Outrossim, relata a comercialização dos desfiles, já citada anteriormente neste texto.

Pode-se inferir, adicionalmente, referências à gerência do carnaval por parte da Liesa. Esta faz questão de manter o carioca, que em última análise sustenta com sua paixão as escolas, longe da festa, o mais longe possível.

Volta e meia, destarte, temos confusões envolvendo resultados de carnavais e disputas por verbas de patrocínio. Quem não se lembra da recente confusão entre Vila Isabel e a Viradouro envolvendo a Petrobras ?

Para 2010, mesmo, a recente história do enredo de Brasília, onde a Beija Flor "atropelou" as demais postulantes, é um excelente exemplo deste tipo de confusão.

Que saudade
Da Praça Onze e dos grandes carnavais
Antigo reduto de bambas,
Onde todos curtiam o verdadeiro samba

O refrão final do samba expressa o sentimento dos sambistas, querendo de volta aquilo que lhes foi tomado.

É evidente que o desfile das grandes escolas de samba jamais voltará ao que era nos anos sessenta e setenta. Entretanto, parece claro para aqueles que realmente gostam da festa que se faz necessária a reinserção do local, apaixonado pela festa e que vive as escolas o ano inteiro, não em duas fugazes noites.

Outro ponto é a abertura da imensa "caixa preta" que se tornou a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), bem como as próprias escolas. Questões como a dinâmica do julgamento, os contratos da folia e as prestações de contas podem e devem ser aperfeiçoados. Se possível, com a divulgação pública dos números e dos critérios.

Voltando ao desfile da São Clemente, a escola foi a segunda escola a desfilar na segunda feira de carnaval, 26 de fevereiro de 1990. Mesmo penalizada nos quesitos comissão de frente e mestre sala e porta bandeira, a escola ainda conquistaria o sexto lugar entre dezesseis escolas, sendo a sua melhor classificação na história dos desfiles.

Tenho uma boa lembrança deste desfile, até porque foi a primeira vez em que vi ao vivo o desfile das escolas de samba.

Aliás, este resultado é prova de como os tempos mudaram: um desfile crítico destes, nos dias de hoje, dificilmente obteria uma boa classificação...

Você pode ver abaixo um vídeo com um trecho do desfile.




Semana que vem, teremos dois sambas, homenagem a um dos maiores e mais lendários dirigentes do mundo do samba: Natal da Portela.