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terça-feira, 13 de novembro de 2012

Made in USA: "Sambas vs Sinopses – Parte II"


Nesta terça feira, o colunista Rafael Rafic em sua "Made in USA" conclui a análise comparativa entre as sinopses e os sambas das escolas do Grupo Especial para 2013.

Sambas vs Sinopses – Parte II

Continuemos a análise com as escolas que desfilam na segunda feira.

Segunda-feira

1 - São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo
Nota da Sinopse: 8,5
Autores do samba-enredo: Gabriel Mansilha, Nelson Amatuzzi Victor Alves, Floriano do Caranguejo, Beto Savana, Guguinha e Fabio Portugal

Com um ótimo tema e boa sinopse (porém um tanto quanto confusa e esparsa), a São Clemente foi a única escola que optou por uma fusão para 2013. Foi uma fusão clássica: 1 refrão e 1 estrofe de um samba colado com 1 refrão e 1 estrofe de outro – e alterada após a disputa.

O samba é de mediano para bom, não tendo grandes passagens. Tem apenas um refrão final que pega, mesmo não sendo uma maravilha poética nem melódica. É um samba que luta para completar a primeira metade do Grupo, enquanto a sinopse é claramente a quarta melhor do grupo.

Talvez tenha faltado um grande samba. Isso pode ter ocorrido devido à forma confusa com que as idéias foram lançadas na sinopse; ou talvez pela porcentagem absurda que a São Clemente exige dos direitos autorais dos compositores (na ordem de 60%). Mas o fato é que apesar do samba interessante não houve na safra um samba que ombreasse a nota alta obtida pela sinopse.

Resultado: samba mediano inferior a sinopse boa.

2 - Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho
Nota da Sinopse: 4,5
Autores do samba-enredo: Lequinho, Jr. Fionda, Igor Leal e Paulinho Carvalho

A sinopse mangueirense, não bastasse ser a típica sinopse CEP (louvando um lugar do Brasil), ainda foi pessimamente estruturada.

Porém, a tradicional parceria multicampeã mangueirense capitaneada pelo Lequinho, salvou a Mangueira. Típico caso que o talento do compositor tira samba de onde não tem na sinopse.

É um samba com a cara da Mangueira (cara essa que alguns queriam dar a Portela esse ano também... sorte que não foram bem sucedidos) que fica tranquilamente na primeira metade do grupo em 2013.

Não é por acaso que o samba praticamente não fala da sinopse, porque se começasse a falar demais fatalmente ficaria ruim.

Resultado: samba bom bastante superior a sinopse ruim.

3 – Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari
Nota da Sinopse: 4
Autores do samba-enredo: J Veloso, Ribeirinho, Marquinho Beija-Flor, Gilberto, Silvio Romai e Dilson Marimba

Enredo complicado e falho da Beija-Flor. Ganhou um samba normal que, se não faz parte da primeira metade do grupo para 2013, é melhor do que a sinopse e a trata com certa beleza poética em letra bastante interessante. Afinal essa era a única forma de fazer um samba competitivo na Beija-Flor, abordando o tema, mas sem ser o “pão, pão, queijo, queijo” que mataria o samba.

Resultado: samba razoável, ligeiramente melhor do que sinopse ruim. Possível interferência negativa da sinopse.

4 – Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa”… “Contra a injustiça em defesa do Rio”
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki
Nota da Sinopse: 1
Autores do samba-enredo: Mingau, Deré, Junior Fragga, Mingauzinho e Arlindo Neto

Da sinopse ruim, muito ruim, longa, insossa, longa, chata, doente e quase morta, saiu um samba até aceitável.

Não é um grande samba e provavelmente fica no terço final do Especial de 2013, mas é digno de Especial, tem um refrão final interessante (alias, também se utiliza de três refrões) e é um samba até certa medida legal de se cantar.

Para o desastre que foi a sinopse (tendo comentários inclusive que minha nota 1 foi boazinha, porque o certo seria o 0) esse samba, mesmo nem sendo mediano está acima de qualquer expectativa.

Resultado: samba de ruim para mediano infinitamente superior a um enredo absolutamente desastroso. Culpa total da sinopse.

5 – Imperatriz

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro
Nota da Sinopse: 6

Autores do samba-enredo: Me Leva, Gil Branco, Tião Pinheiro, Drummond e Maninho do Ponto

A Imperatriz trouxe uma sinopse mediana ao estilo CEP. Mas a ala de compositores da Imperatriz é sensacional e faz limonada de qualquer limão.

Mais uma vez tivemos uma disputa bastante acirrada, com 4 ou 5 sambas muito bons. A escolha foi um pouco contestada, mas qualquer escolha seria tendo em vista a quantidade de sambas bons na safra (mais uma vez em Ramos).

O samba da minha preferência (e de muitos outros), um samba ousado do incansável Zé Katimba, caiu ainda na semifinal. Porém os quatro sambas finalistas também tinham apoios consideráveis e chegaram justamente à final.

Dos finalistas, ganhou o meu preferido. É um ótimo samba. Não sei se dá para classificá-lo como o terceiro melhor do ano (atrás de Portela e Vila Isabel), mas com certeza está no terço inicial do Especial.

Resultado: bom samba, superior à sinopse mediana. Influência da qualidade dos compositores.

6 – Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães
Nota da Sinopse: 9,5
Autores do samba-enredo: André Diniz, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Tunico da Vila e Leonel.

Na Vila quando se junta André Diniz, Martinho e Arlindo (já apelidados de “Galácticos da Vila”) não se tem uma competição de samba-enredo: é praticamente um samba encomendado que já se sabe que irá ganhar.

A sinopse é muito boa e foi a surpresa agradável dessa safra. O samba que o representa não fica devendo nada à sinopse. Um samba de altíssima qualidade, que disputaria com a Portela o título de samba-enredo do ano.

Mas não é esse samba que todos andam falando. Para mim inclusive é inferior ao samba da Vila Isabel de 2012, sobre Angola (de André Diniz e Arlindo Cruz), e não teria toda essa repercussão se fosse assinado por Pedro Migão e Rafael Rafic. Mas é uma grande composição, sem dúvidas.

Por fim quero registrar uma incoerência de opiniões influentes do carnaval.

Várias pessoas que incensam o samba da Vila e proliferam aos quatro cantos que esse samba levará a Vila ao título (o que não duvido, ela é a favorita do momento), são as mesmas que defendiam na Portela o samba de Neyzinho. O argumento apresentado é que pela posição de desfile da Portela, última de domingo, ela precisaria de um samba mais “para cima” a fim não deixar o povo cair.

Mas será que essas pessoas não percebem que a Vila ocupa a mesma posição, até pior, já que a Vila encerra o último dia? E será que elas também não percebem que o samba do André Diniz & Cia é até mais cadenciado e “para baixo” do que o próprio samba da Portela?

Então porque para uma o samba cai como uma luva e para a outra não caia?

Alias, se guiando por esse argumento usado em Madureira, o samba escolhido na terra de Noel nem deveria ser esse, já que existiam outros dois sambas “mais para cima” do que o escolhido em Vila Isabel.

Resultado: samba ligeiramente melhor que a sinopse, ambos de altíssima qualidade.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Made in USA - "Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II"


Nesta sexta feira, temos a segunda parte da coluna do advogado Rafael Rafic com as sinopses das escolas do Grupo Especial. Nossa faixa musical hoje irá falar mais tarde de outra faceta: as disputas de samba.

Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II

1. São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo

A São Clemente é uma das poucas que se salvam na safra desse ano. O enredo tratará sobre um assunto extremamente popular e altamente carnavalizável, mas que por algum motivo nunca foi para a avenida de maneira direta: as novelas brasileiras.

Porém aqui temos um problema: não sabemos se por causa de algum patrocínio (o que a escola nega), se por uma censura da Globo, que tem os direitos de transmissão exclusivos do desfile. Ou ainda se simplesmente por uma opção questionável da escola, só serão abordadas novelas da TV Globo.

[N.do.E.: quando do lançamento do enredo foi dito que haveria apoio institucional da emissora carioca.]

Isso deixa algumas pérolas novelísticas que seriam pivotais para o enredo - como Pantanal (TV Manchete) - de fora. Claro que isso se reflete em um problema na sinopse, mas nada que a inviabilize.

A sinopse em si, para mim, deixou um pouco a desejar porque apesar de apresentar alguns poucos personagens que ficaram na memória do povo e algumas novelas, ela focou mais no fluxo de uma novela em teoria.

Fala apenas da abertura, do final eletrizante, emoção e da fábrica de sonhos (apelido do PROJAC, o que aumentou a especulação da existência de patrocínio). Sinceramente eu acredito que no desfile muitas coisas que não estiveram na sinopse estarão na avenida. Isso pode a princípio causar perda de pontos para a escola da Zona Sul/Centro.

Ainda sim, é um ótimo enredo que na mão do carnavalesco Fábio Ricardo poderá colocar a São Clemente mais uma vez como a surpresa do Carnaval. Como vários compositores também são grandes noveleiros, não deverão ter qualquer dificuldade para ter inspiração.

Nota: 8,5

2. Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho

Aqui chegamos enredo escrito por aquele se tornou um engana... ops, escritor de enredos semi-profissional: Marcos Roza. Marcos é o mesmo que idealizou o “Roteiro dos Desfiles”, que é distribuído aos espectadores na Sapucaí explicando o enredo e o que representam as fantasias de cada escola.

Talvez ele tenha tido essa idéia para que alguém consiga entender o que ele escreve, sinceramente. Mais um enredo que parte do nada e chega ao lugar algum, passando por todos os lugares comuns do enredo CEP. Alias, troca Cuiabá por Bole-Bole e trem por esterco, e já temos a sinopse para o samba-enredo do conto do Aloísio Villar publicado aqui no Ouro de Tolo há semanas atrás.

O enredo pega como fio condutor uma viagem de trem partindo da Estação Primeira de Mangueira e passando por cada característica de Cuiabá que se quer ressaltar (mesmo que ela não tenha na realidade), que é representada por uma estação - tais como as lendas locais e a culinária. Exatamente como um típico enredo CEP tem. O problema é que Cuiabá NUNCA teve trem.

Foi exatamente nesse desejo de Cuiabá de ter um trem que nunca teve é que o enredo tenta se estruturar. Mas se a intenção é mostrar o que a cidade tem, com que lógica o enredo se arvora em algo que ela clamorosamente nunca teve?

Por fim, ainda há uma polêmica: vários trechos da sinopse seriam plágio do enredo mangueirense campeão de 2002, ‘Brasil com Z é pra Cabra da Peste. Brasil com S é a Nação do Nordeste’. Marcos Roza nega o plágio.

Plágio ou apenas coincidência, a verdade é que vários trechos são muito parecidos mesmo.

[N.do.E.: há um outro trecho praticamente idêntico à sinopse do Salgueiro do carnaval de 2010.]

Nota: 4,5

3. Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari

O tema, o segundo na ordem e anunciado ainda no sábado das Campeãs é sobre o cavalo mangalarga marchador. Claro, conta com um polpudíssimo patrocínio da associação de criadores desses animais.

Aqui minha reação foi bem parecida com a que tive com a Mocidade. Enquanto todos baixavam o sarrafo no tema, eu dizia que a Beija-flor estava com um problema na mão, mas que o tema se fosse bem trabalhado poderia render um belíssimo desfile. Outra esperança que foi defenestrada assim que li a sinopse.
No início ela tenta usar o próprio cavalo como narrador de sua história, ainda o tratando de modo generalizado, sem mencionar raças e começa aquela viagem na história pelo mundo que todo enredo genérico faz - só mudando o objeto do patrocínio.

Então fala do cavalo no deserto árabe da pré-história, que passa pelo seu uso na agricultura do neolítico, do seu uso como transporte de guerra, passando pelo Cavalo de Tróia...

Epa, Cavalo de Tróia? É, aqui está o primeiro grande problema de foco do enredo. Se a intenção era mostrar a história e importância do animal cavalo, o que uma estrutura oca de madeira está fazendo aqui?

Depois de Tróia, ele volta para a mitologia, apesar de não ficar claro que tipo de mitologia é abordada. Mas tudo me indica que seja Pégasus e aqui temos outro problema na linha histórica. Era para ele ter vindo antes do Cavalo de Tróia.

A viagem ao mundo não podia terminar sem uma passagem no lugar comum dos mouros e árabes e seus enormes exércitos de cavalaria. Hei, e a parte que já trata das guerras lá em cima? Pois é, o enredo não se decide.

Como fala de guerra a todo momento e estamos na Beija-Flor, podem esperar um enredo de sofrimento, dor, sangue e, já que estamos falando em cavalos, muita chicotada.

Para terminar, de repente e sem aviso, a sinopse dá uma giro total e passa a abordar o Brasil e a raça “homenageada” mais especificamente, aproveitando a ligação do cavalo com a coroa portuguesa e dessa com o Brasil - olha o clichê da Família Real no Brasil aí!

Aqui o enredo se perde completamente. Ele começa a trazer para a história alguns elementos que necessariamente precisariam de explicação. Por exemplo, o trecho “No então chamado Novo Mundo aportei, sendo presenteado pelo rei português ao Barão de Alfenas, e do cruzamento com as raças ibéricas, que aqui chegaram na época da colonização, renasci como o sangue puro do Brasil, no sul de Minas Gerais”.
Espera aí, como o cavalo foi cruzado com o cavalo, já que até aqui o enredo não faz qualquer distinção de raças de cavalo?

Pelos erros mil entrecortados por todos os clichês possíveis e imaginários, terei que ser muito duro na minha nota. Isso sem falar na total falta de inspiração poética gerada por essa sinopse insossa.

Nota: 4

4. Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa” … “Contra a injustiça em defesa do Rio”…
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki

Depois de achar que já tinha lido de tudo possível nesse ano após ler as sinopse da Inocentes, da Beija-flor e do Salgueiro, me aparece aos 48 do 2° tempo (dia 23 de julho, última segunda feira. Ah, se fosse a Portela...) a sinopse da Grande Rio e ela me fez lembrar que eu ainda não tinha lido a sinopse da escola do polonês (apelido de Roberto Szaniecki, carnavalesco da escola e nascido no país europeu).

Depois de namorar bastante com a Volkswagen para contar a história do Fusca apenas para ser recusado pela TV Globo - e recusa da Globo, ainda mais na Grande Rio, é veto, a Grande Rio abraçou um enredo altamente político sobre a disputa do Rio pela manutenção dos royalties para os governos estaduais e municipais como estão.

O enredo não se sai bem em nenhum aspecto.

Para começar é um enredo politicamente panfletário de uma forma que eu nunca vi e que simplesmente não combina com carnaval da forma totalmente explícita com que foi feito. Deixa Portela 2010 e São Clemente 2009 no chão. Talvez nenhum enredo tenha chegado tão perto da total vassalagem profana e insana dos fatídicos carnavais da Beija-Flor de 1974 e, principalmente, 1975.
 
Além disso, ele é longo e modorrento, totalmente diferente do longo-instigativo, da Ilha. Depois ele não é nada, nada, nada carnavalizável, muito menos inspirativo para a ala de compositores. Alias, haja inspiração nessa temporada para os compositores caxienses. Aposto que eles estão se perguntando onde estão o iogurte ou as lentes de contato que eram mais fáceis (lembrando que esses enredos polêmicos também foram obra do polonês, sendo o segundo em São Paulo).

O polonês ainda não largou a mania irritante de dividir a sinopse em setores, o que acaba engessando totalmente a ala dos compositores. Esta tem que seguir exatamente o pensamento do carnavalesco, sob pena de um rápido jubilamento nas eliminatórias.

Os enredos de Szaniecki nunca ajudam o compositor em uma vírgula em seu trabalho e ainda o enquadra em uma sequência certa inquebrável que atrapalha ainda mais. Para transformar o trabalho em algo hercúleo, sempre que ele não adota a linha temporal, a sequência de setores não apresenta nenhuma lógica e complica de vez qualquer possibilidade de ser criar algum samba que pelo menos consiga levar a escola.

É exatamente o caso: o enredo se perde totalmente.

Tem uma intenção longa e desnecessária, para depois ter outra introdução tão longa e desnecessária. Em ambos os textos a sinopse diz que versará sobre o petróleo e seus royalties. Mas de petróleo mesmo só temos dois setores, os primeiros. Que para variar ainda contem erros técnicos crassos, visíveis até para uma pessoa leiga no assunto. Imagino que o nosso editor, especialista, deve ter quase enfartado quando leu.

[N.do.E.: o enredo tem diversos erros conceituais, inclusive sobre a própria natureza dos royalties. Lamentável.]

Os quatro setores finais são apenas para louvar os benefícios dos royalties do petróleo nas cidades que o recebem. Só que eles falam de tantas coisas, até certo ponto supérfluas considerando as necessidades dos rincões brasileiros como um todo, que, ao terminar de ler a sinopse eu tenho certeza que os royalties realmente devem ser repartidos com os estados não-produtores porque não temos mais onde investir tanto dinheiro.
Exatamente ao contrário do que o enredo se propõe - e olha que sou defensor ferrenho do Rio nessa disputa política.

Em resumo: um desastre total. Conseguiu a proeza de roubar da Inocentes o título de pior sinopse do ano.

Nota: 1

5. Imperatriz Leopoldinense

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro

Continuamos a profusão de enredos patrocinados, mais uma vez na modalidade CEP. Dominguinhos do Estácio mais uma vez aproveita suas ligações paraenses e consegue emplacar outro enredo sobre o Pará em uma escola sua para que ele solte a voz.

O enredo é mais do mesmo que já vimos na avenida trocentas vezes: sobre a Amazônia (que, sejamos sinceros, após tanto desmatamento, é mais história do que realidade no Pará), matas vastas e verdes, lendas indígenas, Tupã, ouro, borracha - e,para terminar a culinária paraense. Tudo entremeado com inúmeras palavras em tupi, para as quais há um enorme glossário ao final da sinopse.

Enredo ruim, porém até onde pode, honesto. Dá pelo menos para fazer um samba, se não bonito, na média. A excelente ala de compositores da Imperatriz deve ajudar.

Nota: 6

6. Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães

Para encerrar o carnaval, a boa surpresa do ano para mim. Quando a Vila disse que iria falar do “Brasil Rural” e, para piorar com patrocínio da BASF, especializada em agrotóxicos, pensei logo no pior.

Mas quando li a sinopse, que surpresa agradável!

O enredo simplesmente fala do jeito “caipira” de ser, introvertido, mas sempre simpático e acolhedor. Exata a figura do agricultor, o que não é muito comum no carnaval, de uma forma simples, mas que acertou em cheio

Apesar de passar também por alguns clichês, como as três raças que se irmanam para criar o brasileiro, as quais se agregam os imigrantes; a sinopse se salva por fazer um quadro bem completo do estilo caipira de ser, o trabalho da terra que é fundamental para a economia brasileira e a música sertaneja. Alias, o enredo acaba até enveredando pela história da viola no Brasil, sob o argumento (corretíssimo) que não tem como falar do lado cultural do agricultor sem tratar de sua inseparável viola.

Ainda aborda a religiosidade do homem do campo e sua relação muitas vezes difícil com o ciclo de chuvas do cerrado e do sertão.

Enfim, um enredo muito legal, que fugiu do óbvio e com a cara de Rosa Magalhães. É um enredo que dá para a ala de compositores brincar muito e ainda traz, a pretexto de inspiração, várias músicas relacionadas ao homem do campo e algumas frases que marcaram época ao descrevê-lo.

Após a leitura da sinopse, espero bastante da Vila.

Nota: 9

sexta-feira, 30 de março de 2012

As fraturas do modelo das UPPs cariocas


Esta semana houve dois episódios que deixaram claro ao grande público que o projeto das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), vendido pelo Governo Estadual do Rio de Janeiro como a solução dos problemas de segurança pública, possui pelo menos algumas fraturas sérias.

O primeiro foi na segunda feira e envolveu o assassinato pelas costas do presidente de uma das associações de moradores da Rocinha. De acordo com investigações policiais ele seria um dos "braços direitos" do traficante Nem, ex-líder do tráfico no morro e que está preso. Também de acordo com as investigações ele foi morto por traficantes rivais, que disputam o comando do tráfico no morro com remanescentes da quadrilha do traficante encarcerado. 

Segundo afirmações públicas de alguns policiais, a morte do "líder comunitário" foi apenas o início de uma nova guerra pelo controle da venda de drogas naquela região.

O segundo ocorreu anteontem a tarde mas veio à tona na edição do jornal Extra de ontem: traficantes armados invadiram a sede da Mangueira e inviabilizaram o processo de inscrição das chapas para a eleição da escola, que se realizaria no próximo dia 28 de abril. Mais ainda: anunciaram que não haveria a eleição e que entronizariam seu candidato no cargo. De acordo com o atual presidente Ivo Meirelles em entrevista ao RJ TV, os livros de atas de eleições foram roubados e o barracão da escola na Cidade do Samba estaria vazio.

Leitor mais atento deve estar se perguntando: mas a afirmação geral não é de que as UPPs "pacificaram" as comunidades?

Pois é. Basta se prestar um pouco mais de atenção ao noticiário para se perceber que há alguma coisa que não funciona exatamente como o marketing do governo e os aplausos de setores conservadores da imprensa apregoam.

A sensação, confirmada por informações aqui e ali, é que na verdade a "retomada" do território basicamente significa impedir que os traficantes portem armas ostensivamente e que haja assaltos nas ruas dos entornos das comunidades - como se fala aqui, "no asfalto". A ocupação policial ostensiva teve este poder dissuasor, embora particularmente eu nunca tenha entendido o porquê das instalações das UPPs serem previamente anunciadas.

O problema, entretanto, é que como afirmei outras vezes a UPP não está muito além disso: ocupação ostensiva a fim de propiciar uma sensação de segurança à população. Também não ataca outro problema sério, que é o da ocupação pelas milícias de extensos territórios na cidade do Rio de Janeiro - e quem leu os livros que deram origem aos dois filmes "Tropa de Elite" ou ainda assistiu ao segundo filme da série sabe que este é um problema ainda maior que o tráfico. Reconheço que houve alguns avanços importantes no combate às milícias, contudo são iniciativas a meu ver bastante tímidas ainda.

Vale lembrar também que dado o efetivo requerido por este tipo de ocupação a formação dos novos soldados da Polícia Militar está sendo acelerada e estes recrutas recém formados estão saindo da formação diretamente para integrar o efetivo destas UPPs. Ou seja, são policiais com zero de experiência.

A meu juízo a política das UPPs é uma estratégia insustentável a longo prazo. Entretanto, sem dúvida alguma tal instituição se converteu em um manancial precioso de votos nas últimas eleições para o governador reeleito Sérgio Cabral. A sensação de segurança percebida tanto pelos moradores de favelas quanto especialmente pelos formadores de opinião levou à formação de uma massa crítica de apoio à continuidade do projeto.

Por outro lado, sem a intervenção do Estado através de outros instrumentos de política pública a tendência era de que no médio e longo prazo houvesse um esgarçamento desta estrutura e a volta à uma realidade anterior. Entretanto, o que se depreende destes fatos mencionados e de outras situações recentes - como o escândalo de corrupção na UPP do São Carlos, que resultou recentemente na prisão do ex-Comandante da unidade - é que está havendo uma espécie de "acomodação" entre os interesses da Polícia e das práticas criminosas nestas comunidades: mantém-se a aparência de tranquilidade e a sensação de segurança nas comunidades e no entorno e o tráfico de drogas continua de forma mais discreta como contrapartida.

Este tipo de "acomodação", a meu ver, vem exatamente do fato de a ocupação policial ter se tornado um fim em si mesma. Não sou especialista em segurança pública mas me parece claro que qualquer ocupação territorial não pode ser mantida de forma infinita apenas pela polícia, sob pena de retornarem práticas criminosas - e a própria corrupção policial. À ocupação policial deveriam ter se seguido políticas públicas de inclusão efetiva destas comunidades a fim de confirmar a manutenção deste território retomado nas mãos do Estado.

Entretanto, o que se percebe é que as iniciativas neste sentido, embora existentes, são ainda bastante preliminares. A ocupação policial se tornou um fim em si mesma, e não um meio para confirmar a retomada de espaços pelo Estado antes transformados em feudos de criminosos. Com isso começam a aparecer evidentes fraturas neste modelo, e estes dois casos desta semana são emblemáticos neste aspecto.

Urge a meu ver uma desmilitarização da ocupação, com a presença estatal através de serviços básicos e da presença de seus representantes em áreas como educação e saúde. Contudo, desconfio que este modelo será mantido da maneira em que está até a Copa do Mundo e em especial os Jogos Olímpicos, de forma a proporcionar uma sensação de segurança que, embora real, não se sustenta a longo prazo.

Finalizo este post com um comentário: nem sempre quem parece 'mocinho' é realmente 'mocinho'. Fica a dica.

(Foto: Extra)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Grupo Especial - Segunda - Impressões


Bom, final dos desfiles do Grupo Especial, vamos a um panorama da segunda noite de desfiles, que a meu ver de forma geral acabou sendo inferior à primeira. Muitos erros, em especial nos quesitos considerados "de pista" deram o tom das escolas.

Penso que o desfile termina sem um favorito destacado, mas acredito que, apesar nos problemas nas alegorias, Vila Isabel e Portela foram bem superiores nos quesitos "de chão" às demais escolas e devem disputar ponto a ponto o título. A Tijuca correria por fora a meu ver, e só - assim mesmo forçando bastante a barra.

Vamos a uma análise escola por escola.

1 - São Clemente


Vi somente a arrancada da escola, pois tinha de ir para a concentração da União da Ilha. Achei as alegorias bem fracas pelo que vi.

2 - União da Ilha


A concentração foi bastante confusa, e a Harmonia não foi perfeita: minha ala, que era uma das últimas, teve de correr um pouco. Ainda haviam integrantes sem bandeiras, e isso deve incorrer em desconto de pontos. Ainda assim fez um bom desfile, e briga pela sexta vaga no Desfile das Campeãs.

Os carros, pelo menos na concentração, pareciam bem interessantes.

3 - Salgueiro


Pelo segundo ano seguido a Harmonia da escola impediu que se conquistasse um campeonato até com certa facilidade. Demora para a entrada dos carros, quebras de elementos e buracos deram o tom da apresentação.

Pena. Renato Lage fez uma vez mais um ótimo trabalho. Ainda assim deve voltar no desfile do próximo sábado.

4 - Mangueira


Vergonhoso. É assim que classifico o desfile da verde e rosa, que foi um equívoco completo. A começar por suas alegorias e fantasias (acima, o indigno abre alas) típicas de Grupo de Acesso B e passando pelas presepadas com o sistema de som e as "paradinhas", que transformaram a Sapucaí em uma mesa de (ruim) pagode.

Além disso, estas "inovações" fizeram com que a saraivada de turistas que compunham suas alas atravessasse o samba, penalizando ainda mais os quesitos.

Por mim - e não só por mim - seria rebaixada em último lugar, mas acho pouco provável que isso ocorra. Mas seu presidente tem de explicar como recebe R$ 7 milhões e apresenta um carnaval deste naipe. Lamentável.

5 - Tijuca


Alternou bons e maus momentos. Excelente comissão de frente, alguns carros bons e outros com problemas evidentes de acabamento, um enredo meio confuso e um samba fraco.

Minha avaliação é que voltaria nas Campeãs apenas, mas se a proposta do júri for desvalorizar os quesitos de pista e privilegiar a Broadway pode entrar na briga.

6 - Grande Rio


Burocrática. Assim definiria a escola de Caxias, que patinou em problemas de Evolução e Harmonia, trouxe alegorias com problemas e fantasias fracas - com direito a alas de short e camiseta - e o pior samba do ano.

Foi desfile para oitavo, nono lugar, mas com a força que a agremiação dispõe não me surpreenderia voltando entre as seis.

Minha avaliação seria a seguinte, já avisando que é polêmica:

Título: Vila e Portela, com Tijuca correndo por fora.
Campeãs: Tijuca, Salgueiro, Mocidade e talvez a Ilha - embora duvide que Beija Flor e Grande Rio fiquem fora, embora mereçam.
Marola: Beija Flor, Grande Rio, São Clemente;
Disputando o rebaixamento: para mim as piores nos quesitos foram a Imperatriz e disparada a Mangueira, mas acho pouco provável que uma das duas seja rebaixada, embora mereçam. Deve sobrar mesmo para Renascer e Porto da Pedra.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Final de Semana - "Quando Eu Me Chamar Saudade"



Na sexta feira passada, dia 28, se vivo fosse um dos maiores nomes da música brasileira teria completado 100 anos: Nelson Cavaquinho.

E neste dia 4, em que completo 37 anos, nossa música para o final de semana é uma homenagem ao grande poeta e compositor: "Quando Eu me Chamar Saudade", uma espécie de testamento musical.

Após a letra disponibilizo vídeo do desfile da Mangueira deste ano de 2011, onde o compositor foi o grande homenageado.

"Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora.

Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga,
Para aliviar meus ais.
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais"


sexta-feira, 11 de março de 2011

Cinecasulofilia Especial - "O silêncio como motor do verso"



Em edição especial dedicada ao carnaval, a coluna "Cinecasulofilia", de autoria do cineasta Marcelo Ikeda, sai um pouco do cinema e faz uma comparação entre modelos de samba enredo.

"O silêncio como motor do verso

O desfile das escolas de samba de 2011 pode ser visto entre dois aspectos, entre duas opções que se materializam nos desfiles e nas opções de duas escolas: a Unidos da Tijuca e a Mangueira. 

De um lado, o carnaval-espetáculo, de surpresas e de impacto visual; de outro, o carnaval tradicional, empurrado pelo canto e pelo chão da comunidade. É inegável que Paulo Barros trouxe um outro nível ao Carnaval carioca, criando um desfile de imediata comunicação ao público, compondo traquitanas que se revelam e se escondem ao público, como um quebra-cabeças visual que se revela ao vivo, diante dele, dialogando com os espetáculos de variedade, o circo, o teatro, o ilusionismo. 

Existe ali uma marca própria de um artista visual que estabelece um desfile de plena comunicação com o público pela facilidade de leitura do seu enredo. No entanto, a participação não se dá num sentido carnavalesco, em que o público é levado a “desfilar” com a escola, mas a interação ocorre pelo espanto e pela surpresa – o público fica boquiaberto, deve “prestar atenção” nos efeitos que surgem e desaparecem, o que precisa de um tempo de fruição: todos os olhos precisam estar fixos para o espetáculo, e não para o outro, o sambista ao seu lado. 

A renovação que Paulo Barros trouxe aos desfiles das escolas de samba é bem-vinda: a partir de seu sucesso, outros presidentes do mundo do samba tomaram coragem para trazer carnavalescos dos grupos de acesso, como hoje estão Cahê Rodrigues, Fábio Ricardo – e até mesmo a Estácio, que neste ano, trouxe um canavalesco de 26 anos oriundo dos carnavais virtuais, da internet. 

Mas esse tipo de espetáculo possui as suas contraindicações: a Tijuca destruiu sua enorme tradição de sambas-enredo, que agora tornam-se meras leituras corretas que ilustram um enredo, tanto que sua principal chave é a letra e os refrões, e não as variações melódicas, como os melhores sambas da Tijuca (vide “o dono da terra” e “agudás”, só para ficar nos mais recentes, entre tantos outros). A renovação de Paulo Barros – um novo carnavalesco, uma nova escola, uma nova estética – aponta acima de tudo para “um novo padrão” de desfiles, uma nova visão da administração das escolas de samba promovida pela Liesa, uma “profissionalização da gestão” no sentido de atrair estrangeiros e as emissoras de televisão, as verdadeiras “consumidoras” do Carnaval carioca.

De outro lado existe uma reação romântica e conservadora representada pelo desfile da Mangueira. A eleição de Ivo Meireles – que causou uma tensão no mundo do samba por ser um novo (velho) episódio das relações entre o morro e o asfalto travadas pelas diretorias da escola – trouxe uma transição do estilo democrático que regia a escola para um regime centralizador, em que o novo presidente era responsável por todas as decisões. 

Uma das mais expressivas foi a dissolução do Conselho que escolhia o samba-enredo da escola, transformando-o em um mero conselho consultivo – o presidente ouve a todos, mas ele sozinho toma as decisões. Caminho que parece o contrário dos rumos de profissionalização do Carnaval atual, que a gestão do Elmo – representado por Alvinho e Chininha – tanto representou para a Verde-e-Rosa, que escapando à sina das “grandes de Madureira”, conseguiu se reestruturar, dados os “novos tempos”. 

Acontece que Ivo tem duas coisas a seu favor: é uma personalidade midiática e, claro, também é compositor. Ivo Meireles gosta de lembrar que quando ganhou seu primeiro samba pela Mangueira todos diziam pelas suas costas que a Mangueira iria cair com um samba que cantava “tem xinxim e acarajé, tamborim e samba no pé”. Mas a Mangueira foi campeã, “com um desfile pobre e simples, mas com alma de Mangueira”. Como compositor e, acima de tudo, como um apaixonado às tradições mangueirenses – dessa forma contrário à visão grandiosa da antiga gestão, sintetizada pelos enormes carros abre-alas acoplados, nunca antes vistos na Mangueira – Ivo Meireles surpreendeu a todos quando escolheu o samba menos cotado da disputa, em contraposição ao samba de um dos principais “escritórios” da atualidade, que tinha a preferência da quadra. 

Mas Ivo preteriu o samba do escritório não por teimosia ou por uma postura política ou ideológica, mas simplesmente porque o “samba dos paulistas” era o que curiosamente mais se alinhava com o seu novo padrão de gestão: uma gestão menos profissional e mais afetiva. Na semana seguinte à escolha do samba, o presidente disse à comunidade que queria fazer uma oração. E simplesmente recitou a letra do samba escolhido. 

Ali era o início de uma opção radical, por uma forma de resistência de se fazer carnaval. No carnaval da Mangueira – antítese do carnaval-espetáculo da Tijuca – o musical não estava meramente subordinado ao visual. O samba e as alegorias e fantasias servem ao enredo, e não meramente o enredo é uma “desculpa” para uma enumeração de efeitos especiais. A essência do carnaval passa a ser o canto e o samba, seus itens de base, de fundo, ligados à formação do sambista: suas tradições, o samba como música e como dança. O desfile da escola de samba passa a ser vivido e não visto. 

O envolvimento do espectador passa a ser através da emoção e não da surpresa ou do espanto. Ou ainda, através do sentimento e da solidariedade. Se na Tijuca o momento mais impressionante é a transformação da comissão de frente em homens sem cabeça (o efeito, o espanto, o espectáculo mágico), o mais impressionante no desfile da Mangueira é quando a bateria e os intérpretes se calam (o silêncio como motor do verso). Recurso simples, ligado ao que poderia ser visto como uma ausência (uma suposta falha no carro de som), torna-se símbolo de uma potência, porque é na falta que descobrimos a presença do outro. 

Quando o surdo um da bateria da Mangueira para, o coração continua batendo. Talvez seja essa a essência do carnaval, ou melhor, essência, mais do que simplesmente do carnaval, de toda uma comunidade, que dribla a precariedade do dia-a-dia com a busca de algo que os una, que vá além do silêncio. Por isso é brava a romântica opção de Ivo Meireles, em tornar o desfile da Mangueira acima de tudo um desfile de resistência.


sábado, 7 de agosto de 2010

Ainda Mangueira 85



Aqueles que leram o último post da série "Samba de Terça" viram que o autor havia prometido o áudio do samba concorrente derrotado na final, de autoria de Leci Brandão e Rody do Jacarezinho.

Pois acima o leitor pode ouvir a composição, transformada em MP3. Obviamente a fonte era uma fita caseira e a qualidade não é espetacular, mas é um documento que deve e precisa ser preservado.

E aqui você pode baixar o samba.

Relembro aos amigos a letra, abaixo:

"Abram alas pra esta mulher
Mais uma dama que desfila na Mangueira
Vejam só que linda criatura
No olhar, uma ternura
E na mente, uma bandeira
Fez a feminina revolução
Na arte deste meu país
Com sua garra e sua força-mulher
Canto o meu samba mais feliz
(eu sou é raiz)

O tango, a valsa e a polca
Pra quê, burguesia, pra quê?
Chiquinha Gonzaga no piano
Mostrava jogo e cateretê
 


Maestrina
Pioneira dos Direitos Autorais
Tão “Divina”
“Atraente” nos momentos musicais...
Liberdade...
Seu grito pela abolição
Que batizou o carnaval
E até hoje move esta nação

Roda Baiana
Roda e ginga sem parar
“Corta” este chão de poesia
“Eu sou da lira” e não posso negar"

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Samba de Terça - "Ô Abre Alas, Que Eu Quero Passar"



A coluna "Samba de Terça" de hoje está um pouco diferente. Trago o depoimento do psicanalista e integrante do Conselho Deliberativo Aloysio Félix, mangueirense de quatro costados e que pode contar muito melhor que eu - até porque vivenciou os fatos e não era um garoto de dez anos como eu - a história do samba e do desfile de 1985 da verde e rosa. Vamos ao texto.

“Roda Baiana! Levanta a poeira do chão?

Foi num bate-papo informal entre mim e o blogueiro Migão que surgiu a ideia de escrever a coluna de hoje. Agradeço a ele tal oportunidade. Eu, mangueirense emocional de carteirinha e ele, portelense racional, vivemos a alfinetar um ao outro, de forma que revivemos assim a eterna e “terna” disputa entre a verde-rosa e a azul-e-branco de Madureira, já que isto não acontece muito nos carnavais atuais... [Nota do Editor: de três anos pra cá está 2 a 1 para a Portela, mas isso ele não fala...]

A concepção original, que eu pensei, era a de mostrar os bastidores de uma escolha de samba-enredo que acabou se estendendo para o próprio desfile. O carnaval escolhido foi o de 1985. Da Estação Primeira de Mangueira, lógico.

A Estação Primeira veio de dois campeonatos inéditos e quase que simultâneos em 1984. Explico: o campeonato do desfile de segunda e o supercampeonato do sábado seguinte, onde bateu maior rival da época que ganhara no domingo, a Portela. Sim, são dois campeonatos no mesmo ano, já que a Portela contabiliza no seu rol de títulos o ano de 1984 como seu 21º título... Assim, a Mangueira ganhou o seu 13º e 14º títulos. Depois vieram os de 1986, 1987, 1998 e 2002, totalizando até o momento da postagem deste texto 18 títulos e ser a única escola, entre todas, a vencer em todos as décadas desde que o desfile existe (anos 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90, 2000). Em pouco tempo passaremos aquela rival, acredito...

Para além de brincar com o Migão, menciono o desfile de 1984 para falar de 1985 porque esta volta da Mangueira às campeãs, depois de 10 anos, também influenciou o desfile seguinte. Todos sabem e as pesquisas indicam que a Mangueira é a escola com maior torcida, justamente pela diferença em alguns itens que impõe: a garra, o samba no pé, as inconfundíveis e faladas cores e sua batida única na bateria. Mas o que ocorreu é que mangueirenses, adormecidos pela falta de títulos, acordaram com a retumbante vitória do “vai e vem” de 1984. E todos queriam desfilar na Mangueira...

A Manga estava com “tudo”: dinheiro, boa safra de samba, componentes entusiasmados, etc. Era a sétima e penúltima a desfilar no Domingo de Carnaval daquele ano, 17 de fevereiro. Ou seja, sabia que iria desfilar de dia. Perdeu Max Lopes que à época, era apenas um discípulo de Joãosinho Trinta para a Vila Isabel (que, aliás, antecedeu a Mangueira e fez um ótimo desfile, já retratado na série).

Reza a lenda reducionista que ele teria ficado magoado porque a Mangueira não creditou a ele e às suas fantasias e alegorias o motivo de ter ficado em primeiro lugar... A direção da escola escolheu o excelente enredo sobre Chiquinha Gonzaga, com o título oficial: “Abram alas que eu quero passar”.

Foram contratados então a pesquisadora que tinha concorrido num programa chamado ‘8 ou 800’ (acho que o título é este...) falando sobre Chiquinha Gonzaga - Edinha Diniz -  e para materializá-lo, Eloy Machado, grande campeão de fantasias de originalidade dos concursos da época. Tudo caminhava para dar muito certo, mas...

Antes de falar do desfile propriamente dito, preciso falar da disputa de samba... A final do samba contava com três bons sambas, onde dois se destacavam: o campeão de Hélio Turco, Jurandir e Darcy da Mangueira e o samba de Rody do Jacarezinho e Leci Brandão. Coloco a letra dos dois sambas para vocês apreciarem. A melodia do samba que perdeu, infelizmente, eu vou ficar devendo... A melodia do que ganhou todo mundo conhece e é fácil postar um vídeo para vocês relembrarem até o próprio desfile - acima.

Helio Turco, Jurandir e Darcy (samba oficial)

É carnaval
O samba faz vibrar a multidão
Lá vem Mangueira
Não posso conter a minha emoção
Vamos reviver o Rio antigo
Onde Chiquinha se fez imortal
Oh! Deusa da folia
Rainha do meu carnaval
Eu sou da lira
Não vou negar
"ô abram alas que eu quero passar"
Só não passa a saudade
A saudade que ficou no seu lugar
Liberdade...
Oh! Falsa realidade
Liberdade...
O sonho foi morar n'outra cidade
Desprezou a burguesia
E o requinte dos salões

Abraça a boêmia
E deixa na boca do povo
Mais de mil canções

Roda baiana
Levanta poeira do chão
Roda baiana
Nas cores do meu coração


Rody do Jacarezinho e Leci Brandão

Abram alas pra esta mulher
Mais uma dama que desfila na Mangueira
Vejam só que linda criatura
No olhar, uma ternura
E na mente, uma bandeira
Fez a feminina revolução
Na arte deste meu país
Com sua garra e sua força-mulher
Canto o meu samba mais feliz
(eu sou é raiz)

O tango, a valsa e a polca
Pra quê, burguesia, pra quê?
Chiquinha Gonzaga no piano
Mostrava jogo e cateretê


Maestrina
Pioneira dos Direitos Autorais
Tão “Divina”
“Atraente” nos momentos musicais...
Liberdade...
Seu grito pela abolição
Que batizou o carnaval
E até hoje move esta nação

Roda Baiana
Roda e ginga sem parar
“Corta” este chão de poesia
“Eu sou da lira” e não posso negar


Podemos logo observar, rapidamente, que o samba do Hélio é interpretativo, com uma melodia simples, mas envolvente, enquanto o da Leci prima por uma letra descritiva, mas que trazia, de fato, a importância dos atos revolucionários de Chiquinha à época, com uma riqueza de letra, anexando algumas obras da autora. E a melodia também é boa.

Mas o fato é que Hélio Turco, Jurandir e Darcy já eram bem conhecidos no dia a dia da escola, enquanto Rody vinha do Jacarezinho e a Leci não freqüentava tanto a quadra. E a Estação Primeira queira um samba popular...

No dia da final, uma quarta-feira de meados de outubro de 1984 (sim, até o meio dos anos 90, a Mangueira tradicionalmente escolhia seu samba nas quartas-feiras), o clima estava tenso. As torcidas estavam inflamadas e os dois sambas tinham o maior apoio da quadra. É claro que o samba do Hélio Turco foi mais cantado, não só pela simplicidade, mas pela imensa torcida cativa que este autor mantém até os dias de hoje... E eu também torci pelo samba do Hélio, embora reconhecesse os atributos do oponente...

Por volta das 5 da manhã, todos os sambas já haviam se apresentado. O resultado demorou mais de uma hora pra sair. Todos angustiados pro resultado pois, afinal, alguns teriam que trabalhar no dia seguinte e eu ir pra faculdade... Até que vem Djalma Preto ao microfone (presidente da escola à época) anunciar o resultado.

Após alguns minutos angustiantes de discurso de falar sobre a Estação Primeira e a importância da escolha de um bom samba ele anuncia o resultado. A quadra em silêncio e ele fala: - Houve um empate. Isto mesmo, diletos leitores, um empate... Como assim, Bial? A quadra veio abaixo, uma algazarra só... Uma reclamação total, o povo (e as três torcidas) gritando em coro: - é marmelada, é marmelada. Ele anuncia os dois sambas empatados e...

Diz que o desempate se daria no sábado seguinte e saiu do palco dos compositores... Além da dúvida que possa mesmo ter existido, o adiamento da final garantiria mais um dia de quadra lotada e muito mais lucro para uma Mangueira que já tinha dinheiro... Chegou o sábado seguinte, quadra mais lotada ainda e eu lá, espremido novamente, em pé, das 22 às 6h, para ver afinal qual dos dois sambas se sairia vitorioso. Acabou dando a “lógica” e o samba do Hélio ganhou... O cordão atrás da bateria e o morro fizeram a festa...

Mas o que estava atrás desta escolha? Talvez isto possa explicar o desastre do desfile de 1985, que levou a Mangueira até então ao inédito e vergonhoso 9º lugar (com 207 pontos), após a anulação do quesito cronometragem... Tal resultado não contesto pois eu estava no sambódromo vendo e realmente o desfile começa razoável e vai se tornando uma sucessão de erros...

Explico: A Mangueira tenta “beijaflorizar-se” visualmente e trazer uma apelação ao povão na parte musical. Antes da comissão de frente, mais de 500 pessoas trajando trajes beges simples com bandeiras da Mangueira na mão. A ideia inicial era de ter uma coreografia, mas virou um imenso bloco de sujo desordenado.

Depois disto uma comissão de frente com 14 integrantes masculinos, representando duas escalas musicais com Leci Brandão, única mulher, representando a própria Chiquinha... Uma boa concepção dentro do caos que viria. O imenso abre-alas espelhado e verde para aproveitar o sol, tinha muitas mulatas de biquíni rosa, nem tão em forma assim, mexendo plumas rosa. A ideia era a de se ver uma imensa rosa, mas não funcionou plasticamente... (foto abaixo)


Depois disto, uma imitação dos tons verde e rosa que Max criara, fantasias que não retratavam direito o cenário histórico de Chiquinha (e não entendo o motivo, já que a tal Edinha Diniz sabia muito sobre a maestrina). Além disto, alegorias, muitas alegorias e tripés somente para colocar destaques em cima. Sobrou dinheiro e faltou criação, realização e tempo.

Algumas alegorias quebraram, inclusive uma muito bonita, imensa, que trazia ao alto outra Chiquinha Gonzaga com o piano, quebrou na minha frente e quase aquele fake de Chiquinha cai de lá... E o samba? O samba passou reto, só animou inicialmente.

A bateria nem parou no Box... Sabe o porquê?  A Mangueira estava gigante (sem trocadilhos, por favor...). Parecia até a Portela do Migão que cansa de tanta gente... (desculpe a alfinetada, mas não resisti Migão... risos) A Praça da Apoteose ficou entupida de gente de verde e rosa e ali a Mangueira até conseguiu fazer uma boa festa (sim, àquela época não existiam cadeiras no setor 6 e 13 e o combinado era que cada escola fizesse uma festa lá). Pelo menos esta alegria a Estação Primeira conseguiu e me deu... Eu estava no setor 11 – arquibancadas - e presenciei o desastre do desfile e a verdadeira apoteose na Apoteose da Mangueira...

E assim a baiana não levantou a poeira do chão... Tudo isto começou com o supercampeonato de 84, passou por uma escolha equivocada do samba, que já apontava a direção do “oba-oba” e do “já ganhou”, atravessou uma concepção de alegorias monstruosas e se realizou com um número de mais de 8 mil desfilantes, com mangueirenses apaixonados ou não... Mas como a Mangueira é Jequitibá e aprende com os próprios erros, em 1986 e 1987 foi desfilar com a cara de Mangueira e sagrou-se bicampeã do carnaval carioca. Mas isto já é um outro post... [Nota do Editor: este resultado de 1987 é, no mínimo, polêmico...]

Abraço verde e rosa!
Aloysio Felix”

sábado, 1 de maio de 2010

Velhas Companheiras



Monarco tem um samba (acima, no vídeo) onde ele canta a amizade dos sambistas da Portela e da Mangueira nos tempos idos. A letra também ressalta o pioneirismo das duas escolas na tradição das escolas de samba cariocas.

Faço esta introdução para afirmar que as escolhas de enredos para 2011 das duas escolas podem resgatar este pioneirismo e este peso das tradicionalíssimas instituições no espetáculo escolas de samba, cada vez mais desvirtuado de sua porção cultural para um produto mais pasteurizado e artístico no sentido "business" do termo.


A azul e branca de Oswaldo Cruz trará para a avenida em 2011 um enredo sobre sua história e suas tradições. Intitulado provisoriamente "Portela dos Grandes Carnavais", a escola, guiada por Paulo da Portela, irá contar a sua história e homenagear seus baluartes. Um bonito resgate e o enredo que eu, como portelense apaixonado, sempre sonhei.

A sinopse deverá ser divulgada durante as eleições, no próximo dia dezesseis de maio. Após vários anos com enredos politicamente corretos a águia se reencontra com a sua característica de enredos. Eu já sei que quando pisar na passarela vestindo a minha fantasia estarei profundamente emocionado por poder cantar a minha paixão em verso e samba.

A Estação Primeira não ficou atrás. Em 2011 a escola se redime de ter esnobado o centenário de Cartola e prestará homenagem ao centenário de nascimento do grande compositor e baluarte da escola Nelson Cavaquinho. Com o título de "O filho fiel, sempre Mangueira", a verde e rosa irá revisitar a vida e a obra do brilhante artista.

Para quem não conhece, Nelson Cavaquinho é um dos autores de "A flor e o espinho", música que traz um dos versos mais bonitos que já vi na língua portuguesa: "tire o seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor."

No vídeo abaixo podemos ver o homenageado mangueirense ao lado da grande (e portelense) Elizeth Cardoso, interpretando a música citada. Cavaquinho faleceu em 1986.



A importância das duas grandes e tradicionais escolas resgatarem suas raízes neste próximo carnaval pode sinalizar um retorno do desfile das escolas de samba ao seu cerne, o canto e a dança. Os temas devem permitir belos sambas e revalorizar a importância dos fundamentos nesta grande paixão chamada escolas de samba.

Desde já torço para que as velhas companheiras possam ter absoluto sucesso em seus desfiles e assim empreender uma nova tendência de enredos e sambas para os carnavais seguintes.

No plano das possibilidades, fala-se em mais um enredo autoral de Renato Lage no Salgueiro e ventila-se a reedição de "Só Dá Lalá" na Imperatriz Leopoldinese, seu inesquecível samba de 1981. Outra possibilidade seria um velho e batido tema: a Amazônia.

A União da Ilha trará um enredo calcado na teoria de Darwin - inclusive com sinopse já divulgada - e especula-se que a Acadêmicos do Grande Rio negocia com as cidades de Dallas (EUA) e Dubai (EAU) para que uma destas seja seu tema. Por seu turno, a Beija Flor faz mais um leilão entre possíveis patrocinadores e provavelmente aquele que oferecer o maior valor monetário será o enredo da escola.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Recordar é Viver

Domingão, uma semana para o carnaval.

Relembro aqui alguns desfiles que me são marcantes, e que deixaram sua lembrança na história recente do carnaval - mesmo sem alcançar o título máximo. Deleitem-se.

1) Portela 1995 - um dos resultados mais questionados dos últimos anos. Performance antológica do puxador Rixxa;



2) Portela 2004 - o ano em que desfilei na bateria de minha escola do coração;



3) Império Serrano 2004 - com "Aquarela Brasileira", até a gringaiada sambou...



4) Salgueiro 2007 - um show de Renato Lage, com um samba digno das melhores tradições da escola. E mais um resultado esquisito...



5) Imperatriz Leopoldinense 2003 - a tentativa da escola de mudar o seu estilo;



6) Mangueira 1999 - cantando o "Século do Samba", com uma das comissões de frente mais espetaculares da história do carnaval.



7) Grande Rio 1994 - este é do tempo em que a escola não se preocupava em ser a "Acadêmicos do Projac". Grande samba !



8) União da Ilha 98: Salve Fatumbi !



9) União de Jacarepaguá 2004 - um dos melhores desfiles de minha vida, um samba antológico -a "Aquarela Carioca";



10) Acadêmicos do Dendê 2007 - Intendente Magalhães, a primeira vez em que um samba de minha autoria passou na avenida - e mais um resultado estranho...