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quarta-feira, 7 de julho de 2010

E atiraram no mensageiro...

Os últimos dias após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo da África do Sul foram bastante pródigos em termos de comportamentos e, obviamente, "caça às bruxas".

No fim das contas, acabou se responsabilizando o técnico Dunga, que passou pela suprema deselegância de ser demitido pela internet, sem ser avisado antes. Reproduzo no final deste post a carta enviada pelo mesmo a Ricardo Teixeira após ter sido demitido - formal e de certa maneira irônico, mas elegante.

Meus 67 leitores sabem que não morro de amores pelo ex-técnico da seleção, mas esta demissão, da forma como foi feita, me deu a impressão de ser um caso clássico de "atirar no mensageiro".

Embora discorde da forma de jogar que o Brasil vinha adotando, era uma estratégia que vinha se mostrando eficiente em termos de resultados. Minha avaliação é que a eliminação se deu a algo que é normal em qualquer equipe do mundo, contudo fatal em uma Copa do Mundo: 45 minutos muito ruins na partida contra a Holanda.

Lembro aos leitores que um tempo de jogo ruim custaram somente este ano a eliminação do Barcelona da Liga dos Campeões da Europa e do Flamengo da Taça Libertadores, por exemplo. Estes altos e baixos ocorrem em qualquer equipe do mundo.

Por que então eu digo que "atiraram no mensageiro"? Porque apesar de ter cometido erros a postura de entregar o técnico à execração pública após a derrota encobre e tira do foco aqueles que são os verdadeiros responsáveis: os dirigentes máximos da entidade.

Também resolve outro problema embaraçoso para o Presidente da CBF, que foi o tratamento igual dado pela Comissão Técnica a todos os órgãos de comunicação - ruim, que fique claro. Esta postura gerou atritos entre Ricardo Teixeira e a Rede Globo de Televisão, que até 2006 tinha a Seleção Brasileira praticamente como parte integrante de seu portfólio de artistas, com diversos privilégios.

Quem não se lembra de 2002, onde somente tal órgão tinha acesso à Seleção nos dias de jogos ? Os jornalistas de outros órgãos tinham de assistir em um telão à entrevista dada à Globo a fim de obter notícias dos jogos. Por causa disso inclusive a Fifa mudou a regra das coletivas oficiais após as partidas para a Copa da Alemanha, tornando-as oficiais e obrigatórias.

Sem contar outros privilégios como o de ter jogadores para "exclusivas" a qualquer hora do dia ou da noite, estar no mesmo hotel da Seleção com direito a quarto junto aos atletas, saber antecipadamente a logística da equipe ou ter sempre a primazia na hora de divulgar "furos" de reportagem. Nesta Copa todos foram tratados igualmente, e isto é salutar.

Entretanto, a CBF vem dando sinais de que dará à Globo o status de ser uma espécie de "assessoria de imprensa" da Seleção durante os preparativos para a Copa de 2014. O técnico que for contratado necessariamente terá de atender a estes interesses mesmo que haja prejuízos na preparação da equipe.

Não surpreende, portanto, a preferência por Felipão - que era o técnico em 2002. Não surpreende, também, a forma escolhida por Ricardo Teixeira para explicar as novas diretrizes - em exclusiva ao intragável Galvão Bueno.

Dunga deveria ter saído sim do cargo, porque cometeu alguns erros sérios na preparação da equipe e nas decisões inerentes ao trabalho de selecionador nacional. Entretanto, a sensação que eu tenho é de que ele foi demitido muito mais pelas virtudes que pelos defeitos.

Vale lembrar aos leitores que Ricardo Teixeira, Presidente da CBF, já declarou diversas vezes que não gosta de futebol. Seu direcionamento ao futebol brasileiro reduz tudo à Seleção e ao dinheiro que esta pode render aos cofres da entidade, deixando muitas vezes o aspecto esportivo em segundo plano. No recente entrevero entre o técnico e a televisão não hesitou em mostrar de que lado estava.

Também há a questão dos dez patrocinadores master da equipe brasileira, que reclamavam da pequena exposição de suas marcas devido ao fechamento dos treinos. Isso também influiu para o desfecho.

E olha que nem citarei as diversas denúncias de corrupção em que o mandatário é citado...

Uma outra pergunta que se faz necessária: o que fazia na África do Sul  - além de aliciar jogadores e tentar um estádio particular a custo zero - o chefe de delegação e Presidente do Corínthians Andrés Sanchez ?

Obviamente, não imputo à Globo o papel de vilã da história, embora a campanha feita contra o treinador após o episódio envolvendo o jornalista Alex Escobar tenha sido um dos fatores de desestruturação da equipe. Se ela tem estes privilégios é porque alguém deu.

Por outro lado, configura-se claramente a subordinação do jornalístico e da preparação da Seleção ao comercial, por um lado, e um claro desequilíbrio nas condições oferecidas para o trabalho da imprensa, por outro. Com isso temos uma condição distorcida de competição, que caberia ao órgão regulador do setor corrigir.

Concluindo, crucificar o técnico pelo fracasso na África do Sul, em que pesem seus defeitos e erros, parece um caso claro de "desvio de foco" dos verdadeiros responsáveis e das verdadeiras razões. Atiraram, como sempre, no mensageiro...

Aguardem: a preparação da Seleção para 2014 será um tremendo circo. Quem viver verá.

P.S.1 - Os torcedores cariocas deveriam estar rezando pela não contratação de Felipão. Este já afirmou várias vezes que não trabalha com jogadores de clubes do Rio - por considerá-los "indolentes", em um preconceito injustificado - e que jogador de qualidade irá querer jogar aqui sabendo que perde a chance de jogar uma Copa do Mundo em casa ?

P.S.2 - Sugiro aos leitores atenção especial às arbitragens do Corínthians nesta retomada do Brasileirão...


sábado, 3 de julho de 2010

Sobretudo


Sábado e, como de hábito, a nossa coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero.

Confesso que discordo do texto desta semana da primeira à última linha. Irei retomar o tema durante a semana, mas é esta obsessão por zagueiros, volantes e esquemas ultra defensivos que vem matando o futebol. E depois reclamam que as partidas estão cada vez mais chatas.

O importante, hoje, é destruir. Não deixar o adversário jogar. 

Penso que se pode montar uma equipe ofensiva e que seja competitiva, diminuindo os espaços e dando espaço para a técnica, o drible. Mas este é papo longo, para outra ocasião.

Mas vamos ao, como de hábito, excelente texto:

"Futebol de Resultados

Até 1970, o futebol era um. De 1974 para cá, é outro.

Em 1970, como cansamos de comentar a cada revival na Band, filme ou dvd lançado sobre aquela Copa, o Brasil teve espaços de sobra para jogar e desfilar seu talento. Mas tem um outro lado que muita gente esquece. A Copa foi disputada na altitude, e o Brasil era o time mais bem praparado fisicamente. Teve dificuldade para jogar em TODOS os primeiros-tempos. E venceu com sobras em TODOS os segundo-tempos.

O mérito, concodamos quase todos, foi da habilidade expecpcional de Pelé e companhia. Pouquíssimos se lembraram de dar os parabéns a Admildo Chirol, C.A.Parreira e Cláudio Coutinho, que cuidaram da preparação física da equipe. Ou à inventividade de Zagallo que, para escalar os craques, encheu o meio de campo de jogadores (5, numa época em que todo mundo jogava com 2 ou 3).

Poucos brasileiros sabiam disso, ou tiveram olhos para os aspectos tático e físico daquela conquista. Achamos, mais uma vez, que foi só criatividade e habilidade.

Mas os europeus, principalmente os holandeses, perceberam claramente o caminho. Em 1974, as principais equipes já eram fechadas, enchiam o meio de campo de jogadores e estavam aptas a correr o tempo todo, por todo o campo, marcando como se fossem 22 e atacando em velocidade. A Holanda eliminou o Brasil assim. Mas perdeu a final para uma Alemanha ainda mais mortal e aplicada na marcação, ainda que ambas fossem equipes muito talentosas.

O Brasil ainda passou anos e anos tentando resolver as coisas à moda antiga, até que caiu em si  e aprendeu a marcar. Ou, como querem alguns, aprendeu a "se nivelar" aos adversários. Sim, porque os adversários estavam um andar acima do Brasil de 1970 a 1994.

De 1974 para cá, foram 9 Copas e, EM TODAS AS NOVE COPAS um time forte na defesa, compacto, com o meio-campo cheio de jogadores que sabiam marcar, com um futebol feio e eficiente venceu. Duas delas, o futebol feio e eficiente, porém vitorioso, foi o do Brasil. Em outra, o Brasil chegou à final. Nas três primeiras, de 74 a 82, com um futebol que tentou ser tipicamehte brasileitro, com muitos craques entre os convocados, o Brasil rodou antes da final.

Das outras, em duas o Brasil saiu demonstrando ser um grupo sem objetivo e foco: 90 e 2006. Ou seja, independente dos jogos, fatores extra-campo tiveram peso grande.

Em todas as outras vezes em que o Brasil perdeu, a culpa foi da escalação defensiva, do desperdício de talento, da mediocridade do técnico medroso que abriu mão da tradição ofensiva e bela da escola brasileira.

Quando venceu, a vitória teria vindo APESAR de todos os erros dos técnicos, que abriram mão da tradição ofensiva e bela etc etc etc.

Há ALGUMA evidência que, em Copas do Mundo, de 1974 para cá, os times vencedores jogam feios e fechados, sejam eles o Brasil, um outro sulamericano ou um europeu. Mas o Brasil - e só o Brasil - deveria abrir mão de toda esta pobreza e continuar a perder jogando bonito. Em nome do "bem do futebol".

O Brasil já perdeu por tentar jogar bonito, e já venceu por tentar jogar feio. Mas, se jogar bonito e perder, "deu azar". Se jogar feio e vencer, "deu sorte". Se jogar feio e perder, cai o mundo. E, mais uma vez, a imprensa e os românticos vão tentar nos provar que o erro está em jogar fechado, apesar de, no final, a Copa sempre ser vencida por outro time que jogou feio e fechado. A teoria não bate com a prática, mas quem se importa?

Não havia este ano, nem houve em ano algum de 1974 para cá, nenhuma evidência de que a "tradicional escola brasileira", que a imprensa pede, levaria o Brasil mais adiante na Copa. Mas cada derrota (que, afinal, é do jogo) "provaria indubitavelmente" que o Brasil não pode jogar feio.

É um tipo de pensamento distorcido, porque não há um confronto real entre jogar feio x jogar bonito. No dia em que uma Copa do Mundo voltar a ser vencida por um time que "joga bonito" e ofensivamente, ok, teremos novamente este confronto de ideias.

Este ano isso até pode acontecer, com a Argentina ou a Espanha. Não levo nenhuma fé, mas possível é. Ainda assim, seria UMA vitória do futebol-arte contra outras NOVE derrotas para o futebol objetivo, amarrado e burocrático.

A seleção do Dunga era tão previsível e limitada como aquele do Parreira em 94, em que o Dunga levantou a taça como capitão. A de 94 deu certo, esta deu errado. É do jogo. Esta mesma seleção, tão previsível como sempre, derrotou a Argentina na casa deles, venceu uma Copa América, venceu uma Cpa das Confederações. Se havia algo errado, as outras estavam mais erradas ainda.

Se há algo "errado" é que o futebol não é tão científico e previsível. A Holanda, com a mesma proposta de jogo do Brasil (este time deles é muito criticado lá por quebrar a "tradição ofensiva" holandesa, não é divertido isso?), e com menos talento, teve mais equilíbrio para vencer. O maior defeito do futebol é, também, sua maior qualidade: o melhor, nem sempre, vence. Alguma ciência ajuda, é certo, mas nada é garantia de resultado.

Portanto, fiquemos com o resultado em si e continuemos a tentar aprender algo dos vencedores. A Holanda não nos venceu porque jogou bonito, aberta, ofensiva. Nos venceu porque errou menos, ou seja, jogou um "futebol de resultados" mais eficiente. Portanto, com um RESULTADO melhor.

No dia em que nós perdermos para alguém que joga a "tradicional escola latino americana", ofensiva, talentosa etc e tal (se é que isso existe de 1974 para cá), então muda o paradigma de novo. Até então, futebol em Copa é esta coisa chata em que quem erra menos ganha.

Esta é a lição para ser aprendida para 2014. Errar menos ainda."

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Formaturas, Batizados e Afins: a ciência e o mistério da bola Jabulani



Mais uma quarta feira e mais uma coluna "Formaturas, Batizados & Afins", assinada pelo Professor Adjunto de Biofísica da UFRJ Marcelo Einicker. Hoje o tema, em ritmo de Copa do Mundo, é uma explicação cientpífica do terror dos goleiros: a fmaosa Jabulani.

"A Ciência e o mistério da bola Jabulani

Em tempo de Copa do Mundo, vamos trazer para a coluna um pouco de Ciência para a polêmica por conta da nova bola - a famosa JABULANI - desenvolvida especialmente por uma grande marca de artigos esportivos para este evento.

Um pouco de história

Que o futebol é a paixão do brasileiro e de tantas outras nações ninguém duvida, mas como isso tudo começou ainda é uma grande controvérsia. Para alguns, o futebol teria surgido por volta de 3.000 anos antes de Cristo, na China, onde militares ou guerreiros se reuniam para treinamentos em campos onde chutavam as cabeças dos inimigos derrotados, numa espécie de jogo de futebol primitivo e mesmo bizarro. Também existem relatos no Japão de um jogo bastante próximo ao nosso futebol praticado com uma bola feita de fibra de bambu.

E, no decorrer dos anos, seguiu-se o que em biologia poderia se chamar evolução. Seria a evolução do futebol, passando por mais alguns modelos de jogos até que “futebol primitivo” chega à Inglaterra por volta do século XVII; onde ganha as regras básicas que temos hoje em dia e onde a bola começa a ganhar maior atenção, já sendo de couro, costurada e inflada com ar.

Em 1848 também na Inglaterra são estabelecidas de forma oficial as regras, em 1871 criada a figura do goleiro, que seria o único a poder tocar a bola com as mãos. Já em 1885 começa o futebol profissional e no ano seguinte, é criada a International Board, entidade responsável por manter ou alterar as regras do jogo. Finalmente em 1904, surge a Federação Internacional de Football Association (FIFA), que hoje é a maior entidade do futebol mundial, responsável pelos campeonatos inclusive, pela Copa do Mundo.

Portanto desde quando o futebol trocou as cabeças por algum tipo de bola, proporcionou o aprimoramento de técnicas para tocar esta bola, chutar, cabeceá-la, protege-la do adversário...e assim surgiram o drible, a finta, o passe, a magia que envolve o jogo, cada partida de futebol. Sempre com ela, a bola, como estrela maior.

A bola

Quem nunca jogou uma pelada na rua, na quadra do colégio com uma simples bola de meia, ou mesmo com um monte de papel embrulhado em forma de bola? Existem centenas, talvez milhares de tipos de bola, porém, para a prática do esporte, a bola deve seguir regras muito bem estabelecidas. A bola deve ser esférica, recoberta de couro ou outro material aprovado, que não represente perigo à integridade dos atletas. Para o futebol de campo, sua circunferência máxima será de 69,5 cm, e a mínima 68,5 cm; o peso dever estar entre 420 e 445 g no início da partida, e depois de cheia ela deve ter a pressão de 0,8 bar.

Ou seja, existe uma padronização para a bola o que impede que partidas oficiais sejam disputadas com bolas fora destas especificações. Isso nos faz lembrar de inúmeras reclamações por parte dos jogadores acerca da qualidade da bola. Que ela é mais leve, mais pesada, mais dura, mais ligeira. Entretanto, pela regra bola é bola, nas suas especificações regulamentares. Logo, é de se pensar que um jogador profissional que reclame da bola, não tenha lá assim tanta intimidade com seu instrumento de trabalho. Um dos maiores jogadores de todos os tempos, o argentino Di Stefanno, tem no jardim de sua casa uma estátua em bronze de uma bola onde se lê: “Obrigado gorda!”.

Alguns dos maiores jogadores do mundo em todos os tempos costumavam comentar que chamavam a bola de “você”, refletindo a intimidade que tinham com a redonda. Mas afinal, a bola que transformou Pelé em Rei, Ronaldo em Fenômeno, Maradona em Deus e tantos outros homens em ídolos pode ainda evoluir mais e chegar a uma situação de máxima perfeição?

Parece ser exatamente este o ponto que tem provocado tantas reclamações no período que antecedeu o início da Copa do Mundo e mesmo agora já durante os jogos. Jogadores da Seleção Brasileira, como o goleiro Júlio César (considerado por muitos o melhor goleiro do mundo) e de outras seleções vieram a público reclamar da bola do Mundial da África, a já famosa Jabulani - que no idioma Zulu significa “celebrar”. Segundo os jogadores, a bola Jabulani é mais leve... mais rápida... mais teimosa, dura de ser dominada. Mas se a FIFA estabelece regras para a bola, como pode a Jabulani ser mais leve ou mais rápida?

A Ciência desvenda o mistério de Jabulani

Feitas as reclamações, o fabricante da bola partiu em defesa de seu produto, dizendo terem utilizado jogadores de sabida técnica (como nosso Kaká) para testes em campo com a Jabulani [Nota do Editor: jogadores patrocinados pela Adidas, fabricante da bola]. Foi ou teria sido usada uma tecnologia digna dos projetos de desenvolvimento de carros de corrida, inclusive com testes em túneis de vento. A FIFA também se colocou contrária às reclamações, apoiando os argumentos da fornecedora de material esportivo, pois teriam desenvolvido a Jabulani com o que existe de mais moderno.

No entanto, começa a Copa, e logo nos primeiros jogos alguns goleiros sofreram “frangos” incríveis, atribuídos ao mistério da bola Jabulani. O número de gols na primeira fase foi o mais baixo da história das Copas, o número de passes errados foi considerado alto, e só depois de mais de 60 jogos houve um gol de falta. Evidências mais do que suficientes de que realmente a Jabulani é um tanto quanto mais rebelde que suas antecessoras, bolas de menos tecnologia, mas que garantiam mais deslumbramento nas jogadas.

Para acabar com a polêmica, laboratórios de Física pelo mundo afora realizaram testes com a Jabulani. A própria Agência Espacial Americana, a NASA, dedicou esforços para analisar a bola Jabulani. Aqui no Brasil, pesquisadores da USP também analisaram a Jabulani e em comum todos os testes feitos mostram as mesmas conclusões. Realmente a Jabulani é uma bola “teimosa”, difícil de ser dominada e de ser colocada no gol com categoria e mesmo na força. A bola parece estar sujeita a incríveis alterações de sua trajetória em chutes a partir de 45 Km/h (considerados fracos). Estas alterações na trajetória se devem justamente a evolução tecnológica que concebeu a Jabulani. Ao contrário das bolas anteriores, a Jabulani é formada por apenas oito painéis ou placas soldadas industrialmente, ou seja, ela não tem costuras. As bolas tradicionais de até 14 gomos tinham costuras muitas vezes feitas à mão, que formavam pequenas ranhuras entre os gomos por onde o ar circulava durante a trajetória da bola após o chute. Com a Jabulani estes caminhos para o ar circular entre as placas ou gomos é praticamente inexistente, e assim o atrito da Jabulani com o ar é maior. Isso faz com que ela fique sim mais sujeita a alterações da sua trajetória, o que explicaria a onda de reclamações dos atletas.

Outro agravante para a Jabulani seria o material sintético usado para sua fabricação, que seria outro causador de alterações do efeito do atrito com o ar e a trajetória final seguida pela bola. Em poucas palavras, por mais craque que seja o jogador ele tem muito mais dificuldade em um chute preciso com a Jabulani do que com outras bolas.

Portanto o problema da Jabulani não é que ela é mais leve, mas sim que ela é tão mais moderna tecnologicamente que não possui costuras e com isso fica sujeita a golpes de ar e ao atrito com o mesmo.

É interessante vermos que a tecnologia deve sempre estar em favor do desenvolvimento das coisas e mesmo do esporte. Assim é no automobilismo, o desenvolvimento dos motores, combustíveis, pneus; na natação a criação daquele macacão que fez despencarem os recordes, e que acabou sendo abolido, e agora o futebol nos dá um exemplo ao contrário, de que nem sempre a máxima tecnologia vai jogar a favor. No caso da Jabulani, parece mesmo ter sido um tremendo gol contra!"

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Arbitragem, televisão, profissionalização e política



Bom, o assunto do dia são os inacreditáveis erros de arbitragem ocorridos ontem nos dois jogos da Copa do Mundo.

Como já escrevi aqui, tenho visto muito pouco da Copa do Mundo. Quase nada ao vivo, alguma coisa em VT, muitos "melhores momentos". Estava fazendo compras no supermercado quando começaram a pulular as mensagens no meu Twitter dando conta do erro que vitimou a Inglaterra. Depois, vi ao vivo o jogo da Argentina e na hora apontei o impedimento na jogada do primeiro gol. Inclusive Tevez olha duas vezes para o bandeirinha antes de sair para comemorar.

No final das contas os erros grotescos acabaram ofuscando as boas atuações de Alemanha e Argentina. E chamam a atenção para um debate que há muito vem sendo travado, que é o da arbitragem. Debate este que não se restringe apenas ao uso da tecnologia, mas a questões como a profissionalização destes atores do espetáculo e toda a política que envolve escalas e jogos de poder.

O primeiro ponto que temos de abordar é a adoção da tecnologia. Ontem ficou claro que os jogadores e o técnico mexicanos viram o replay do gol no telão, partindo para protestar com o bandeirinha. O bandeira parece que também viu, mas o juiz optou por consagrar a injustiça e seguir a regra.

Parece claro que algum tipo de auxílio eletrônico precisa ser adotado, em especial nas grandes competições. Nem falo daqueles erros que somente podem ser vistos com vários replays e várias câmeras - lembro aos meus 66 leitores que o árbitro não tem este recurso, tem de decidir na hora - mas de equívocos grotescos como os vistos ontem em duas oportunidades. Aproveito para colocar nesta conta o segundo gol brasileiro contra a Costa do Marfim, também absurdamente validado.

Os críticos se utilizam de dois argumentos para descartar o uso da televisão: primeiro que "a graça do esporte está na polêmica" e segundo que "nem todos os campeonatos podem adotar este tipo de recurso por questão econômica".

Ambos são falaciosos. A graça do futebol está no drible, no gol, no ataque, na bela jogada, nos vencedores e derrotados. Não em campeonatos decididos em erros de arbitragem, decisões absurdas privilegiando esta ou aquela equipe ou mesmo eventos relacionados a subornos (o famoso "está na gaveta") ou coisas do gênero. A outra questão pode ser resolvida com uma limitação de campeonatos ou jogos onde tal recurso seria utilizado.

Algo do tipo "as competições internacionais e as primeiras divisões dos países mais bem colocados no ranking da Fifa utilizarão este recurso", ou parecido. Penso que, para se evitar paralisações muito prolongadas - a televisão é um ator importante neste processo - pode-se adotar algo como o feito em esportes norte-americanos: cada equipe teria direito a um pedido de "vistas" nas imagens por tempo de jogo. Até para se evitar o uso do recurso para se "catimbar" uma partida. Já se resolveriam 95% dos problemas causados por falhas grotescas de árbitros.

Outro ponto é a profissionalização dos árbitros. Hoje, tirando a "elite da elite" os juízes precisam ter a sua profissão fora do futebol. Em um esporte onde cada vez mais o condicionamento físico se faz parte primordial do jogo, onde se corre dez, doze, catorze quilômetros em noventa minutos aqueles que tem o poder de vida e morte sobre as equipes se preparam apenas nas horas vagas.

Evidentemente, vemos um abismo físico entre jogadores e árbitros, e muitas decisões equivocadas podem ser creditadas a esta diferença de preparo: não somente por não chegar a tempo para os lances quanto à própria exaustão física. Há a necessidade de se transformar em profissão a carreira arbitral, com um programa de condicionamento físico e uma espécie de "plano de carreira" para os mesmos. Obviamente, as federações são contra pois isto implica em custos e diminui o poder dos dirigentes sobre os juízes. Entretanto, quando vemos a CBF nadando em dinheiro do jeito em que está fica difícil aceitar este argumento.

Terceiro, e não menos importante, é a questão da política. Muitas vezes vemos apitando Copas do Mundo não os melhores árbitros de cada país, mas aqueles mais bem relacionados com as federações nacionais ou que sabem jogar o jogo da política interna. Não podemos nos esquecer que pelo menos na América do Sul as Comissões de Arbitragem das federações são claramente subordinadas à direção das mesmas. Não podemos fechar os olhos para o fato de que sempre há equipes mais bem relacionadas com as entidades diretoras ou movimentos em campeonatos que sejam mais adequados aos detentores do poder discricionário. E a arbitragem é um elemento importante neste processo. Deixo claro que não me refiro a subornos, "roubos" ou coisas do gênero, apenas relações de poder. O clássico "quem pode mais chora menos".

Os leitores podem ter um exemplo disto que falo quando vemos o argentino Héctor Baldassi - de triste lembrança para torcedores de Flamengo, Fluminense e Santos, entre outros - e o brasileiro Carlos Eugênio Simon - detestado por praticamente todas as maiores torcidas brasileiras por falhas inacreditáveis - apitando a Copa do Mundo. Parece claro que não estão lá por suas qualidades no apito, porque há melhores, então a única explicação que podemos encontrar é a sua rede de relacionamentos formada dentro das federações nacionais.

Eu tenho um colega que é bandeira em competições nacionais brasileiras. Ele diz abertamente que, "se não fizer o jogo da Federação", não entra na escala de árbitros para o sorteio que define os trios de arbitragem para as partidas das competições brasileiras. Escala esta que é feita pela Comissão de Arbitragem, órgão que não é independente da Diretoria da CBF - portanto, não está imune a pressões.

Querem um exemplo? Desde a eleição do Clube dos 13, onde o Corinthians articulou junto com a CBF a candidatura de Kleber Leite as arbitragens do clube paulista passaram a ser mais "simpáticas" - inclusive com alguns erros graves a favor da equipe paulista nesta primeira "perna" de Brasileirão.

Não é suborno, não é determinação, é simplesmente não desagradar aos poderosos - e que podem colocar o árbitro na "geladeira", sem apitar. Na dúvida, acaba marcando sempre a favor do time mais poderoso. Até porque o valor recebido por partida pelo trio não é irrisório - principalmente na Primeira Divisão e em competições internacionais - e se torna um importante complemento de renda para os juízes. Hoje a carreira de um árbitro toda depende das decisões tomadas pelos mandatários das entidades organizadoras, independente de suas qualidades ao trilar o apito.

Finalizando, o uso da tecnologia, especialmente televisiva, a profissionalização da arbitragem e a existência de Comissões de Arbitragem independentes das entidades organizadoras do esporte são medidas que certamente melhorarão o nível de arbitragem e evitarão erros grotescos como os vistos ontem.



terça-feira, 22 de junho de 2010

Resenha Literária - "As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos"

Continuando a série de resenhas ainda curitibanas e em ritmo de Copa do Mundo, temos hoje o "irmão gêmeo" do livro analisado ontem.

"As Melhores Seleções Estrangeiras de Todos os Tempos", de autoria do jornalista esportivo Mauro Beting, elenca dentro de um critério todo particular as sete maiores seleções estrangeiras em copas do mundo.

Sua escolha foi por seleções que pudessem ter sido vistas pela televisão, tenham disputado Copas do Mundo, possuíssem craques - embora pelo menos em um dos casos isso é meio duvidoso - e times que ou foram campeões ou revolucionaram seu tempo.

Feito isso, chegam-se a sete seleções, uma representante de cada grande escola de futebol mundial: Hungria de 1954, Inglaterra de 1966, Holanda e Alemanha de 1974, Itália de 1982, Argentina de 1986 e a França de 1998.

Seus craques, com pequenos perfis no livro: Puskas, Bobby Charlton, Cruyff, Beckenbauer, Paolo Rossi (é...), Maradona e Zidane.

Cada uma das seleções é contextualizada historicamente, com a sua formação anterior à Copa, estrutura tática, variações e o destino após a Copa em que disputou. Além disso, um completo "jogo a jogo" para cada partida disputada pelas equipes, com narração dos principais lances e algumas histórias. Um trabalho de pesquisa sensacional.

Outro destaque do livro são as finas ironias que permeiam o livro, em especial as divertidíssimas descrições das pancadarias em alguns dos jogos citados. Cheguei a rolar de rir com algumas passagens, como estas que transcrevo abaixo - referentes ao Brasil e Holanda de 1974:

"Apesar do jogo histórico, o que se viu foram divididas histéricas, um festival de pancadas, tesouras, carrinhos e botinadas de corar qualquer um - menos o horroroso e experiente árbgitro alemão Kurt Tsechencher" (pp. 94)

"O Brasil começava batendo mais que uruguaios e argentinos. Juntos." (pp. 95)

"A Holanda aproveitou que o árbitro estava embananado e sem pulso e cartão para controlar os briguentos, e também baixou o nível e o pau. Para resumir a pancadaria: em 90 minutos, com a boa vontade que faltou aos litigantes, Van Hanegem merecia quatro vermelhos por jogo brusco, condenável pela Convenção de Genebra; Rivellino, duas expulsões; Suurbier, Cruyff, Rep, Valdomiro, Zé Maria e Marinho Chagas não poderiam reclamar se fossem ao chuveiro mais cedo." (pp. 96)

No fim das contas, o único expulso foi o zagueiro brasileiro Luis Pereira. Alguns dos lances descritos acima estão no vídeo abaixo, que também mostra toda a inteligência do time holandês. O curioso é que a dez dias da estréia não havia um time definido, e o lendário Rinuus Michels somente assumiu a seleção a poucos meses do início da competição.


Outro destaque do livro é a narração do célebre gol de mão de Maradona sobre a Inglaterra em 1986, onde todos que estavam naquela tarde do estádio Azteca viram - menos o árbitro. Também conta o quão importante foi à nação platina vencer aquele jogo - a Guerra das Malvinas ainda estava entalada na garganta.

Chama a atenção a Itália de 1982, que em três anos venceu apenas quatro jogos: os dois das quartas, a semifinal e a final daquela Copa...

Sem dúvida alguma, um livro completo. Ainda descortina e desvela segredos de duas revoluções táticas, a Hungria de 1954 - que inventou o aquecimento antes das partidas e, por isso, sempre marcava no início dos jogos - e a já citada seleção holandesa.

Também faz justiça às seleções alemã de 1974 e a inglesa de 1966, times não tão incensados por fatores exógenos - a Holanda em um caso e a arbitragem em outro.

Na Travessa, custa R$ 28. Excelente opção nestes dias de Copa do Mundo.

domingo, 20 de junho de 2010

Dunga, a guerra interna e a imprensa


Domingo, dia de bons textos no Ouro de Tolo.

Tenho evitado escrever sobre a Copa do Mundo em curso por dois motivos: primeiro porque todo mundo está dissertando sobre o tema e pouco teria a acrescentar.

Segundo, por questões de horário tenho visto muito pouco das partidas, praticamente apenas os gols e um ou outro compacto com os melhores momentos. O que é uma pena, gosto muito de acompanhar a festa máxima do futebol mundial.

Repercuto aqui texto escrito durante a semana pelo sempre bem informado Lúcio de Castro. Ele relata uma guerra surda ocorrida nos bastidores da nossa seleção, envolvendo o relacionamento com a imprensa e seus privilégios.

O artigo foi publicado pelo jornalista em seu blog antes da estreia contra a Coréia do Norte.

Boa leitura.

"Não achei que ia viver pra ver isso... eu mesmo fazendo uma defesa de Dunga!!! Prometi me aprofundar no assunto (...) na ESPN, então, vamos por partes…

Em primeiro lugar, segue valendo tudo o que sempre achei, falei e escrevi sobre o treinador. Mas entre tantos defeitos que tenho em quantidade, não posso ser acusado do não reconhecimento de qualidades até em quem eu não tenha a menor afinidade de pensamento. Como Dunga e suas filosofias e posições.

A tecnologia tem diversos problemas e não me dou bem com ela. Mas por outro lado, possibilita e permite apurações, contatos e aproxima pontos distantes, tornando muros de concentrações e o afastamento de continentes distintos apenas obstáculos virtuais.

O mundo contemporâneo tem sido pródigo nessas coisas. A censura iraniana fica reduzida ao ridículo com celulares, twitters, etc. Assim também é uma seleção concentrada.

E as informações dão conta de um clima de guerra e embate entre partes da comissão técnica canarinho. Como de hábito, podem até aparecer abraçados amanhã para desmentir, mas o clima de beligerância está no ar, cada dia mais pesado, diga-se de passagem. Por sorte, o primeiro adversário é uma Coreia do Norte, que, cá entre nós, deve amenizar o ambiente com sua fragilidade. A ver...

E vamos chegando a inesperada defesa de Dunga. Os fatos me obrigam.

O treinador tem sido massacrado por fechar a seleção, treinos fechados, etc. E em alguns momentos, tem se imaginado que alguns fechamentos de portão são retaliações contra a imprensa por divulgar e repercutir fagulhas como a de Daniel Alves e Julio Batista. Que obviamente não rendeu nada além do treino.

Não é por aí. A briga de Dunga é interna, na própria trincheira. E por incrível que pareça, inatacável. É Dunga quem tem brigado contra os privilégios de alguns orgãos. Foi ele que acabou, até aqui, com esses privilégios. Foi Dunga que abortou nos últimos dias a volta de privilégios. Que, tenham certeza, já estavam mais do que articulados e programados. E por isso, por ter se contrariado com a massa do bolo quase pronta, a sua revelia, legítima bola nas suas costas para a volta dos privilégios, veio a decisão de fechar mais um treino. As entrevistas já estavam articuladas, jogadores, locais...

Dunga pode ter um monte de defeitos, e parece mesmo que tem uns brabos. Mas vem de longe nessa historia de futebol. Sabe quem é quem, conhece os Maquiaveis de plantão. Sabe quanto o prestígio da seleção é usado como moeda para troca: te dou um privilégio aqui, recebo um beneficio de imagem acolá e saio fortalecido…

Conhece bem histórias de gente como Ricardo Gomes na seleção brasileira, quando o hoje são paulino esteve com o time olímpico. Sabe que as noticias contra o treinador vazavam de dentro da trincheira. Homem de bem, Ricardo Gomes não soube se armar pra jogar na mesma moeda suja, e injustamente acabou com pecha de deixar as coisas correrem frouxas. Milimetricamente planejada para vazar. Informações maledicentes soltas “inocentemente” numa “resenha”. E que sempre encontram um inocente útil de plantão para espalhar e publicar, com orgulho de achar que está demonstrando saber de bastidores. Com a nossa imprensa cada vez mais carregada de almofadinhas, sem 10 minutos de esquina pra discernir o que é sujeira do que é informação boa, o terreno fica fértil. Os Maquiaveis deitam e rolam...

Para completar tudo, tivemos no pré-copa a informação vazada de que a convocação de Adriano estava proibida pelo Chefe, desmoralizando Dunga. Podem negar quanto quiserem também, mas obviamente acirrou a beligerância e aumentou a temperatura.

Para não acontecer e passar pelo mesmo que antecessores, Dunga radicalizou. Nada foge ao seu controle, ninguém fala sem que ele saiba, e por aí foi. A pergunta óbvia: é certo? Esse é o modelo que está defendendo? Claro que não. Mas qual era o outro modelo? O modelo dos privilégios, o da informação para alguns, entrevistas exclusivas em profusão. (Que fique aqui a ressalva, sempre, em nome da correção: existem sim os profissionais do outro lado, excelentes, que conseguem as coisas por talento, brilho e suor. Alguns dos melhores que conheci, e pessoas de caráter irretocável. Ou seja, nem tudo o que se vê ”exclusivo”, pode ser debitado na conta do privilégio. Mas estes privilégios existem em alguns casos, e principalmente na possibilidade de se estruturar para um cobertura com antecedência sabendo como será toda a logística liberada muito antes, e por aí vamos…).

Então chegamos até aqui entre esses dois modelos: o atual, fechado como a Coreia do Norte, simbolizado nesses tempos de Dunga, e o anterior, dos privilégios, da falta de retidão. Não que eu também acredite que Dunga está fazendo isso por achar que essa é conduta mais integra. Afinal, também ele já foi agente de privilégios e já foi cúmplice em queixas contra profissionais para diretores de empresa subservientes. Mas tem tal postura agora porque identificou, por sobrevivência, que, no momento, este é o melhor lado para estar na guerra interna que se instalou no clube de golfe.

E asseguro: apesar de Dunga adorar o conflito com a imprensa, desta vez seu alvo e inimigo está na trincheira. E se até o fim as coisas desandarem em campo, do jeito que as coisas vão e a temperatura está alta, isso ainda acaba em briga de mão dentro dos muros...De um lado Dunga sendo entregue aos leões. Do outro o treinador não se preocupando mais em omitir o tratamento de “cobra, cobrinha...” para alguns da sua trincheira...Sei não...

No mais, apenas uma certeza: copiem o que estou escrevendo, guardem e me cobrem. Em termos de cobertura, no dia seguinte ao fim da copa, teremos saudades de Dunga. A que ponto chegamos...
 
Pois o martelo já está batido: nunca mais irá acontecer isso, um treinador bancar tal posição, definir os dias fechados, o modelo de comunicação. Com a marcha da Copa no Brasil começando no dia 12 de julho, até 2014 viveremos mais do que nunca a era dos privilégios e da informação viciada. Podem apostar.

PS- Este texto estava pronto quando chegou a informação de que a Fifa condenou o fechamento dos treinos brasileiros. Alguma dúvida sobre qualquer articulação ou recurso utilizado para cortar as asas do treinador? Da própria trincheira se articula com o exterior para fazer o cara sossegar. Parece maquiavélico. E é. Essa cobertura ainda acaba em enredo de James Bond."

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Resultado da Promoção - "Livro-Jogo das Copas Globo Esporte"

Demorou, mas finalmente temos o resultado da segunda promoção de nosso blog.

A participação foi menor desta vez, mas ainda assim fiquei bastante satisfeito com as frases enviadas.

Aproveito para informar que o livro do leitor Daniel Capello já foi entregue, e o dos vencedores Tatiana Samistraro (Conquistando o Inimigo) e Tânia Tgart (Sangue Azul) serão enviados no início da próxima semana.

A vencedora desta promoção, ganhadora de um livro autografado, é a leitora Vivian Barros, do Rio de Janeiro.

Sua frase:

"90 Minutos de Amor Incondicional"

Bervemente teremos mais uma promoção literária no Ouro de Tolo.

terça-feira, 15 de junho de 2010

50 fatos que você não sabe sobre Galvão Bueno


Um dos grandes movimentos do Twitter nos últimos dias é a campanha "Cala a Boca Galvão", mostrando a revolta genuína de nossos ouvidos com o insuportável narrador global.

Por meu turno, já fiz a minha parte. Troquei de canal. Não aguento mais as bobajadas deste cidadão, conhecido como "Garganta Profunda" nas redações brasileiras.

Mas vamos às cinquenta verdades sobre o narrador (?) global. Texto de Olileno Júnior e Rafael Pereira, que recebi por e-mail.

1) Quando Galvão Bueno nasceu, ele berrou: Uééééééééé do Brasil!!!!!

2) Toda semana, quando saem os números da Megasena, Galvão Bueno grita: Eu Sabia! Eu Sabia! Mas ele nunca joga.

3) Galvão Bueno comenta até minuto de silêncio.

4) Para Galvão Bueno, mil palavras valem mais do que uma imagem.

5) Deus criou o mundo em seis dias. No sétimo, foi interrompido por Galvão Bueno.

6) Quando Adão foi criado, ele estendeu uma faixa no paraíso: "Filma Eu, Galvão".

7) É impossível cronometrar o tempo que Galvão Bueno leva dobrando os "R" de cada palavra. A bateria de seu relógio acaba antes.

8) Quando Galvão Bueno tem um orgasmo, toca o "Tema da Vitória" de Ayrton Senna.

9) Galvão Bueno nunca tem deja vu. Só tira-teima.

10) Galvão Bueno foi à Itália e mordeu a Torre de Pizza.

11) A Monalisa sorri porque se lembra de uma gafe de Galvão Bueno.

12) Wally se esconde para não ouvir a narração de Galvão Bueno.

13) Van Gogh cortou as orelhas para não ouvir Galvão Bueno.

14) Bethovem ficou surdo enquanto Galvão Bueno narrava a nona sinfonia.

15) O grito de "Independência ou Morte" de Dom Pedro I foi abafado pela vibração de Galvão Bueno.

16) Galvão Bueno narrou com entusiasmo uma corrida de caracóis com mal de Alzheimer.

17) Galvão Bueno vibra até em missa de sétimo dia.

18) Galvão Bueno ganhou uma aposta, recebeu em cheque e, para sacanear o amigo perdedor, fez um quadro com ele.

19) Galvão Bueno é contra a pena de morte. Ele acha que não devemos ter pena de matar bandidos.

20) Galvão Bueno quer saber o horário de funcionamento do Google durante a Copa.

21) Galvão Bueno é o único ser vivo que consegue interromper o Faustão quando ele começa a falar.

22) Galvão Bueno não é louro porque isso seria redundância.

23) Galvão Bueno não sabe o que é redundância.

24) Só uma pessoa consegue falar mais alto que Chuck Norris. Galvão Bueno.

25) Galvão Bueno ensinou Tarzan a gritar.

26) Fidel Castro interrompe seus discursos para ouvir Galvão Bueno.

27) Bin Laden só grava os seus próprios vídeos porque Galvão Bueno não atende a seus pedidos de "Filma Eu".

28) Quando o terceiro segredo de Fátima for revelado, Galvão Bueno gritará: Eu Sabia! Eu sabia!

29) Galvão Bueno sabe tudo. Até a idade da Glória Maria.

30) A cada grito de gol de Galvão, 231 neurônios morrem na cabeça de cada telespectador. Os restantes fazem uma ola.

31) Quando Galvão Bueno era criança, seus colegas o odiavam porque, a cada gol nos jogos de futebol, Galvão obrigava a todos os atletas envolvidos a repetir o lance para os que não tinham visto. Só para ele narrar o replay.

32) Galvão Bueno pronuncia mais letras "r" por ano do que todos os habitantes do Estado de São Paulo.

33) Se as duas palavras que ele mais gosta de pronunciar tivessem a letra "r" - "Galvão" e "Bueno" - ele pronunciaria mais a letra "r" do que todos os habitantes da República Popular da China.

34) Galvão Bueno só não é famoso na China porque a seleção chinesa nunca faz gols.

35) Galvão Bueno nunca teve calos nas cordas vocais. Seus calos é que têm cordas vocais.

36) As cordas vocais de Galvão Bueno são tão resistentes que são usadas para sustentar o Bondinho de Pão de Açúcar.

37) A voz de Galvão Bueno é a única que pode ser vista do espaço.

38) Galvão Bueno nunca diz um palavrão. Prefere dizer duas palavrinhas.

39) Quando Deus criou Galvão Bueno, perguntou a ele onde ele gostaria de nascer. Ele escolheu o Brasil, porque todos os verbos no infinitivo em português tem a letra "r" no final.

40) Mesmo sendo brasileiro, Deus só acatou porque sabia que um dia ele trabalharia na Rede Globo. E teria o poder de destituir Deus de suas funções.

41) O som que Galvão Bueno mais gosta é o da sua voz.

42) O segundo som que Galvão Bueno mais gosta é do som de sua voz quando reverbera nas paredes.

43) Galvão Bueno tem uma foto 3x4 dele mesmo na carteira. E mostra para todo mundo.

44) Galvão Bueno é tão vaidoso que faz mesa redonda com um só convidado: ele mesmo.

45) Graças a Galvão Bueno, o astronauta brasileiro soube das vitórias do Brasil de dentro do foguete. Sem estar com a TV ligada.

46) Galvão Bueno nunca grava os jogos que narra para assistir depois. Ele não perderia a chance de dizer todas aquelas palavras mais uma vez.

47) Galvão Bueno nunca usa malas em suas viagens. E sempre paga excesso de bagagem.

48) O volume da voz de Galvão Bueno não é medido em decibéis. É na escala Richter.

49) Os 50 fatos sobre Galvão Bueno só têm 49 itens porque fomos interrompidos por ele antes de chegar ao fim

sábado, 12 de junho de 2010

Sobretudo

(Direto de Curitiba)

Sábado, retorno ao Rio de Janeiro, dia de nossa coluna "Sobretudo".

A coluna de hoje é a versão integral de texto publicado no jornal O Globo semana passada pelo publicitário Affonso Romero, autor da coluna. O texto é um pouco longo mas vale muito a pena.

Seu tema, a nova "Geni" do mundo do futebol, a bola da Copa.

"EFEITO JABULANI

Bem-vinda Copa do Mundo! Meu velho amigo Arnaldo Bloch edita uma página dominical de ensaios no diário carioca O Globo e me solicitou um texto sobre o mundo-bola e a bola da Copa. Fiz o texto consciente de que ele teria que ser cortado para caber no espaço reservado no jornal. Portanto, "viajei na maionese" à vontade, e depois o texto foi brilhantemente editado pelo Arnaldo.

Hoje, tenho o prazer de dividir com o amigo leitor a íntegra do texto, com todas as alegorias e adereços originais. Aí vai:

Bola, bolota, esférico, pelota – a crise de identidade da Jabulani

Vinte e dois jogadores em campo, status de estrelas internacionais. Há os que adquiriram o direito de jogar com as mãos, vestindo uniformes diferentes dos demais. Técnicos alinhados em ternos caros, professorais em pranchetas e explicações, ou agitados dentro de agasalhos esportivos. Árbitros e auxiliares, antes em luto formal, agora em contemporâneo colorido, ainda e sempre senhores da autoridade máxima. Torcedores ensurdecedores, câmeras, locutores, comentaristas... e a bola atrai sozinha mais atenção que todos. A bola, esta vaidosa.

Não é de hoje: já na primeira Copa, em 1930, a bola ganhou ares de importância extrema. Não havia um modelo único para a disputa. Na final, argentinos recusavam-se a jogar com uma bola uruguaia. Já bastava aos anfitriões a vantagem da casa e da torcida. O acordo: cada tempo do jogo foi disputado com uma bola fabricada de cada um dos lados do Prata. Eram, as duas, feitas de couro cru, deformáveis, pesadas, rebeldes.

Foi mudando aos poucos até 1966. Ainda alaranjada - tanto na cor quanto na imperfeita circunferência - foi polêmica por ter entrado-não-entrado no gol decisivo marcado a favor dos ingleses contra a Alemanha. Mas em 1970, no México, deu a grande virada rumo ao estrelato absoluto.

Como uma joaninha albina, ganhou gomos pretos sobre fundo branco, aprimorou-se no acabamento, no material, no corte e na costura de 32 peças regulares. Girou como satélite acima da outra grande bola, a bola azul, levada por uns tantos outros satélites e pelas ondas da transmissão ao vivo. Mais: ganhou nome e teve a marca do seu fabricante estampada no couro.

No grande jogo comercial em que o esporte se transformava, era o out-door em close-caption.
 
Sua vaidade já não era mais tão-só alimentada por ser a senhora absoluta das ações e atenções, indefectível lance a lance. A bola, metáfora pronta, do mundo-bola, da bola dividida, da bola da vez, começava então a ganhar vida própria. Não por acaso, em seu primeiro batismo, a bola da Copa de 70 foi chamada Telstar: a estrela de tevê.

Atriz consagrada, encarnou novas personagens, sempre protagonistas, nomes diferentes em folhetins semelhantes, alternou o figurino, ganhou camadas cosméticas, passou a atuar em palcos cada vez mais distantes e envelheceu um pouco mais esférica. Em cada reestréia, críticas e polêmicas, nunca a indiferença.

Nestes tempos de tensão pré-Copa, a bola desembarcou na África do Sul cheia de pressão – e não estamos falando de libras. Em sua fuga da mesmice e do ostracismo, os designers-cientistas-cirurgiões-esteticistas-marketeiros responsáveis por mais uma repaginação de Dona Gorducha parecem ter exagerado. Encarnando personagem exótica, a nova bola tem nome tirado do idioma zulu: Jabulani. De alguma forma, você e eu sabemos que isso significa “celebração”, ou algo que o valha (ah, a imprecisão das traduções!, ah, o sentimento indizível no fundo de cada palavra!).

Naturalmente, a fabricante da bola gostaria de “celebrar” seu novo sucesso comercial, mas as coisas não vão assim tão bem. Apesar das onze cores do novo figurino – cada qual significando as onze etnias sul-africanas, as onze línguas do país-sede, os jogadores de cada time, ou qualquer conta que feche em onze (isso parece aquela velha mania do Zagallo com o número treze), os grafismos tribais, os oito gomos perfeitos, a alta tecnologia empregada, a redondinha da vez não deve entrar na lista do Oscar, porque seus críticos mais duros são exatamente aqueles que disputam com ela a posição de estrelas da festa: os jogadores convocados.

Fernando Muslera, goleiro do Uruguai, diz que é a pior bola com a qual já jogou, que “move muito”. Claudio Bravo, do Chile, acha difícil calcular sua trajetória e que é uma bola “muito complicada”. Seria uma desculpa prévia para as dificuldades a serem enfrentadas por suas frágeis seleções?

Goleiros consagrados como os melhores do mundo Buffon (Itália), Iker Casillas (Espanha) e nosso Júlio César também se referiram à Jabulani com termos fortes como “Inadequada e vergonhosa!”, “Podre!” e “Bola de supermercado.”

David James, que disputa a titularidade da meta inglesa, deu sua contribuição crítica apontando a provável causa para tanto desagrado: “A bola poderá ajudar os atacantes”.

Uma bola com vida própria, vontade própria, que toma caminhos inesperados, corta atalhos até as redes, facilita a vida dos chutadores. Parece um antídoto contra sistemas defensivos. Qual seria, então, a opinião dos atacantes e homens de criação?

Robinho, em sua irreverência, está se sentindo com a potência de chute de um Roberto Carlos. E reforça que a bola é mesmo estranha. O italiano Zambrotta, o argentino Mascherano, o espanhol Xavi, os brasileiros Julio Baptista e Luis Fabiano: todos acham a bola difícil de controlar, “viva” demais, que ganha velocidade no chute, passe e condução. Nilmar concorda com tudo isso, mas gosta da bola. Vai ver, não quer briga com aquela que pode levá-lo à glória ou ao fracasso.

Outros que fogem da polêmica são os jogadores patrocinados pela marca fabricante da bola, como Kaká, Lampard e o espanhol Xabi Alonso que não nega que a bola seja “diferente”, mas que todos se acostumarão a ela. Opiniões suspeitas? Talvez, mas as críticas mais duras à Jabulani vêm de jogadores patrocinados pela concorrência, o que também não deixa de ser suspeito.

Pensando melhor, o que não é posto sob suspeição, o que não tem uma ponta presa no conflito de interesses comerciais? Vivemos todos sob um manto auto-imposto de ingenuidade, um filtro anti-realidade. Poderíamos duvidar tanto de tudo que acabaríamos por duvidar de nós mesmos. Não há aqui a intenção de definir bem e mal entremeados nestas relações. Não é isso. É a constatação simples de que as coisas são comercializáveis, numa escalada global, desde o afeto, as comunicações, o trabalho, os indivíduos, cada qual rotulado, portador de marca e modelo renovado a cada ano.

O profissional que se “recicla” num novo curso ou congresso, o que não está fazendo senão se reinventar para o marcado? E suas relações pessoais, que acabam chamadas de “network” por algum consultor? Cervejinha gelada no bar? Network. E tudo passa compulsoriamente despercebido, porque é mais confortável não reparar nestes detalhes inconvenientes. Desculpe estragar seu muro, mas pessoas são tratadas assim, produtos então, o que pensar?

A bola... ora bolas!!! Não seria a bola, cheia de marca e releases, a única a escapar deste jogo. A bola, inflada de poesia nas crônicas dos mestres Nelson Rodrigues, Mario Filho e Armando Nogueira, é também um produto. De tantos significados embutidos, tão rica em romantismo, que escapa de ser apenas produto. A bola é produto-personagem. Tem nome, história, roteiro. Melhor produto não há, diriam os cínicos. “Bola de supermercado”, a expressão perfeita, dita assim tão ingenuamente pelo Júlio César.

Em época de Copa do Mundo, um produto literalmente global, escancarado na vitrine em que se transformaram os gramados. E há concorrentes ao seu papel.

Então, a Jabulani estaria apenas sendo vítima de uma guerra comercial? Este jogo pode ser desempatado pelo designer inglês Andy Harland, que ajudou a projetar a bola e defende sua criatura: “a bola faz o que os melhores jogadores querem que ela faça”, alfineta. Por outro lado, Harland reconhece que há segredos que ele gostaria de contar aos jogadores de seu país, que assim teriam uma vantagem que poderia até decidir a Copa. Se é guerra, há até um agente duplo.

Uma bola misteriosa, aparentemente incontrolável, dona de suas opiniões e destinos, mas que se deixaria convencer por quem conheça seus segredos. Bola, substantivo tão feminino que revela alma de mulher. Atriz, sabe mentir e enganar. Em outros tempos, em outras tramas, já se deixou encantar por hábeis galãs latinos. Também teve seus momentos de pragmatismo, e deitou e rolou nos pés certeiros de ricos antagonistas germânicos. Bola-atriz, nas mãos de Chaplin em O Grande Ditador; bola-diva, capa de Caras nos braços do Rodolfo-Valentino-Maradona-Garrincha-Rossi o momento.

Imprevisível, imponderável, esta bola é mulher para 22 talheres. Madura, a estrela volta remoçada, poderosa, incontrolável, polêmica. Como a mãe-Terra, que lhe deu a forma, alimenta sonhos e esperanças, pulsa, tem vida própria.

O grafismo da bola da Copa homenageia a união das tribos sul-africanas, o entendimento, ainda que tardio, entre as onze línguas locais. Em torno desta bola, estarão reunidas 32 “tribos” de todos os cantos da Terra, e a maioria das outras nações acompanharão pela televisão. Excelente oportunidade para uma reflexão sobre os rumos das disputas eternas, para lamentarmos ou comemorarmos o entendimento entre todas as tribos.

Já sabemos que todos querem a Copa, e poucos a disputarão para valer. Ainda assim, estão todos reunidos, participando da mesma festa. A FIFA tem mais países-membros que a ONU, não é sintomático?

O que impede que todo jogo seja disputado de forma leal? O esporte, contaminado ou não pelo mercantilismo, ainda dá lições às nações. Se é possível fazer de uma competição envolvendo 32 países ser transformada em festa e espetáculo, por que não o fair-play aplicado no cotidiano dos povos?

Como a Copa, como a bola, como a Terra, os indivíduos também se deixam conquistar pela arte ou pela força. Em grupos, formam povos e nações, expressam-se conjuntamente pela arte e pela força.

São tempos de Copa, mas também são tempos de guerras, de diplomacia pragmática em busca de parceiros comerciais, de vendas de idéias no atacado e no varejo, de princípios diluídos em operações financeiras eletrônicas, em fronteiras elásticas, tanto as fronteiras físicas quanto, sobretudo, as fronteiras abstratas da ideologia, dos modelos mentais e comportamentais. Há formas sutis de batalhas, e a arte instrumentalizada vira arma de combate. Pode soar brutal, mas esta é a face menos cruel do front.

Há guerras menos dissimuladas, travadas em campos de batalhas reais. Há também desentendimentos menos sangrentos, mas não menos opressores: falta de liberdade, racismo, exploração sexual, violência de todos os tipos.

Vem a Copa do Mundo, a bola rouba a cena, trás o confronto do mundo para um campo mais suave, um inofensivo “esta-bola-é leve-demais”, e o noticiário é expurgado de parte daquilo que faz esta-outra-bola-mundo-pesada-demais. Mas a Copa pode passar deixando uma herança bem mais interessante e duradoura, pode nos ensinar a arte da convivência. O fair-play no calor da disputa, a compreensão de que o oponente não é um inimigo.

E o que acaba acontecendo é o inverso, é o esporte trilhando o caminho do confronto. O Planeta-bola inteiro atento a uma guerra comercial. Uma guerra entre marcas globais, empresas espalhadas pelos confins do Planeta, buscando mercados e mão-de-obra barata. Uma empresa e suas concorrentes, que não hesitariam em jogar duro, usando seus garotos-propaganda como garotos-anti-propaganda, guerra de versões, guerra de mercados.

E, no entanto, independente (ou não) da motivação comercial, Jabulani tem uma mãe zelosa e protetora, que se apressou em defender sua criação, explicando que talvez a altitude possa ter interferido na aceitação das novidades tecnológicas da pelota. A bola, estrela recolhida ao camarim, acabrunhou-se. Estrela solitária, filha tutelada.

Leve, moleca, levada ao sabor dos ventos, torna-se frágil frente às críticas. Mimada, sapatinho de cristal. Canelinha de cristal. Bola de cristal: diz aí o que aprontará neste mês de intensa exposição. E a bola, repentinamente tímida, encolhida em seu refúgio, torna-se de um cristal opaco. Em vez de revelar o futuro, guarda para si seus desejos, ameaça criar o próprio destino.

Volta o olhar à bola-mãe Terra, busca na forma arredondada a explicação de sua natureza. A Terra, bola-matriz, responde com mais enigmas. Não é feita de cristal, não pretende revelar nenhum futuro, mas manda recados cifrados de que talvez não haja futuro algum.

Então, aqui também há uma analogia explicitada: bastante chutadas, ambas as bolas, bola-bola e bola-planeta, começam a deformar, ameaçam sair da rota traçada, ressentem-se e negam-se a ser parte das soluções.

Olhada de fora, pelas telas das tevês, vemos a bola-planeta aparentemente calma. De perto, expele humores maus, cansada de críticas e da infinita exploração. A bola-estrela também parece bela e terna, enfeitada para uma festa africana. Pronta para mais uma temporada em que será mulher-metáfora de tudo no mundo, mais ou menos imprevisível, menos ou mais surpreendente. Contraditória, aprofundando-se nas nuances de seu novo papel, a atriz foi cercada de tanta tecnologia que é capaz de interpretar uma nova versão do computador HAL, aquele que apronta uma falseta com seus criadores humanos no filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, ao passar a decidir sozinho o destino dos tripulantes da nave.

Uma bola tecnológica, anunciaram os alto-falantes em dezembro, no lançamento da estrela-produto. De tanta tecnologia, uma bola com vida própria, com vontade intransigente. Mais uma metáfora contundentemente óbvia, o descontrole do homem sobre as coisas que cria. Pode ser ruim para os pés dos jogadores, catastrófico para as mãos dos goleiros, mas estimulante para a pena dos poetas. Tende a ser uma Copa pobre em futebol e rica em semântica esportiva.

A nave-Copa está prestes a zarpar e uma personagem vestida de maneira exótica anuncia-se uma protagonista misteriosa. Jabulani é africana e transnacional. Jovem e antiga. Bela e gorducha. É cibernética HAL e humanamente mulher. Dona de si e pronta a se jogar aos pés de quem conheça seus segredos. Sabe aonde quer ir, mas não sabe mais quem é.

No meio do tiroteio, o argentino e ex-corinthiano Carlitos Tevez resume seu desconforto em relação à parceira de cena: “Ela é feia!”. Opa, feia? Por esta, a Jabiraca não esperava. A bela Jabulani, maquilagem tinindo de nova, nem isso teve de consagração absoluta. Esta que era sua única certeza. Temei, hermanos portenhos, esta senhora contestada se vingará. Tevez assinará mais uma página da eterna tragédia argentina, sem a qual não há tango, não há sorrisos tristes outonais nos parques de Baires, sem o qual não há a alma portenha. Pois será abola – escrevam e confiram – quem golpeará o time de Maradona. Quantas possibilidades uma bola pode escrever?

Jabu quer mais que a câmera em close sobre seu rosto redondo. Quer escrever o roteiro. Quer inventar caminhos, corrigir as imperfeições dos chutes, fugir dos marcadores, criar novos dribles, achar o ângulo, ganhar velocidade e deitar-se na rede.

Quer evitar a bola-dividida, refugiar em torno de si os desacampados do mundo. Por um mês, esqueçam os navios abordados pelos fuzis israelenses e todas estas outras questões alimentadas pelas inúmeras outras guerras comerciais. Esqueçam também os intervalos comerciais. Serão só o tempo de reabastecer o potinho de amendoim, a caipirinha e ouvir de longe a voz do Léo Baptista recordando uma jogada antológica de mil-novecentos-e-vovô-garoto.

Tomem fôlego para o bate-bola dos presidenciáveis, mas isso só vem depois. Por enquanto, só os que ligam pouco para futebol cogitarão a quem interessa mais politicamente o sucesso da seleção nacional. A nossa e as outras. Mas também isso ficará para depois. Então, discutiremos de quem eram todas aquelas boladas de dinheiro, quem salvou a economia de qual sinuca de bico, isso é assunto para outras bolas mais coloridas.

Agora, a HAL-mulher que toma para si toda a nave-Mãe-Terra, dribla a todos por conta própria, derrota sozinha os vilões-retranqueiros, sem se saber a grande vilã tresloucada de vingança e prepotência. No fim, restará sozinha num canto do vestiário, trocada pela mocinha que entra no finalzinho do filme e leva o coração do galã e a melhor cena: a taça."

domingo, 6 de junho de 2010

Como andam as 32 seleções participantes da Copa do Mundo



A quatro dias da abertura da Copa do Mundo, transcrevo aqui panorama das trinta e duas seleções participantes, feito pelo jornalista Paulo Vinícius Coelho em seu blog. Pode seu um bom painel para os inevitáveis "bolões" de resultados que invariavelmente ocorrem nesta época.

Bom domingo.

"Antes dos últimos amistosos, veja o que fizeram nos últimos tempos as 32 seleções que disputarão a Copa do Mundo na África do Sul:

GRUPO A

ÁFRICA DO SUL – Invicta há 11 partidas, goleou a Guatemala por 5 x 0, o maior resultado da história da seleção. Em 2010, 5 vitórias, 4 empates

MÉXICO – Em 2010, 7 vitórias, 2 empates, 2 derrotas. Perdeu dos dois grandes que enfrentou, Holanda e Inglaterra. Depois, venceu Gâmbia.

URUGUAI – Quatro jogos sem derrota, desde o gol de Bolatti, da Argentina, na última rodada das Eliminatórias. Em 2010, 3 x 1 na Suíça, 4 x 1 em Israel.

FRANÇA – Em 2010, uma vitória, um empate e uma derrota. Pela ordem, 0 x 2 Espanha, 2 x 1 Costa Rica, 1 x 1 Tunísia.

GRUPO B

ARGENTINA – Invicta há cinco jogos, desde a queda contra a Seleção da Catalunha, em novembro. Em 2010, 5 vitórias: 3 x 2 Costa Rica, 2 x 1 Jamaica, 1 x 0 Alemanha, 4 x 0 Haiti, 5 x 0 Canadá

NIGÉRIA – Em 2010, 5 vitórias, 2 empates, 2 derrotas. Mas está invicta desde a Copa da África. De lá para cá, 1 x 0 em Angola, 5 x 2 Congo, 0 x 0 Arábia Saudita, 1 x 1 Colômbia.

COREIA DO SUL – Em 2010, 7 vitórias, 0 empate, 3 derrotas. Mas três vitórias seguidas, sem sofrer gol: 2 x 0 Costa do Marfim, 2 x 0 Equador, 2 x 0 Japão.

GRÉCIA – Está há três partidas sem vitória, todas em 2010. 0 x 2 Senegal, 2 x 2 Coreia do Norte, 0 x 2 Paraguai.

GRUPO C

INGLATERRA – Não perde desde o encontro com o Brasil, em novembro. Três jogos de invencibilidade: 3 x 1 Egito, 3 x 1 México, 2 x 1 Japão. Mas jogando mal.

ESLOVÊNIA – Depois da eliminatória, só enfrentou o Catar e venceu por 4 x 1. Dois jogos sem derrota.

ARGÉLIA – Não vence há três partidas: 0 x 3 Irlanda, 0 x 1 Nigéria, 0 x 4 Egito. Em 2010, 2 vitórias, 1 empate, 4 derrotas.

ESTADOS UNIDOS – Em 2010, 2 vitórias, 0 empate, 3 derrotas. Vem de vitória por 2 x 1 sobre a Turquia. Antes, derrota por 4 x 2 para a República Tcheca.

GRUPO D

ALEMANHA – Em 2010, 2 vitórias e uma derrota. Perdeu da Argentina por 1 x 0, em Munqiue. Venceu as inexpressivas Malta e Hungria, ambas por 3 x 0.

SÉRVIA – Em 2010, uma vitória, um empate e uma derrota. 3 x 0 no Japão, 0 x 1 Nova Zelândia e 0 x 0 com a Polônia. Resultados indicam declínio.

GANA – Em 2010, 3 vitórias, 2 empates, 5 derrotas. Nos últimos três jogos, três derrotas, para Egito (0x1), Bósnia (1x2), Holanda (1x4).

AUSTRÁLIA – Não perde há sete partidas. Em 2010, 3 vitórias, 1 empate: 2 x 2 Kuwait, 1 x 0 Indonésia, 2 x 1 Nova Zelândia, 1 x 0 Dinamarca.

GRUPO E

HOLANDA – Ostenta a série invicta mais longa dos que disputam a Copa: 18 jogos, com 13 vitórias e 5 empates. Em 2010, três vitórias: 2 x 1 Estados Unidos, 2 x 1 México, 4 x 1 Gana.

DINAMARCA – Nos últimos seis jogos, 4 vitórias, 0 empate, 2 derrotas. Nos últimos três jogos, perdeu da Áustria (1x2), venceu Senegal (2x0), perdeu da Austrália (0x1).

CAMARÕES – A série sem vitória mais longa dos que disputam a Copa: 6 jogos. No ano, 2 vitórias, 4 empates, 3 derrotas.

JAPÃO – Vem de três derrotas seguidas, neste ano: 0 x 3 Sérvia, 0 x 2 Coreia do Sul, 1 x 2 Inglaterra.

GRUPO F

ITÁLIA – Não encanta, mas não perde há oito jogos, com quatro vitórias e quatro empates. Não perde desde os 3 x 0 para o Brasil, na Copa das Confederações. Em 2010, joga contra o México na quinta seu segundo jogo do ano. No primeiro, 0 x 0 Camarões.

PARAGUAI – Em 2010, 2 vitórias, um empate e uma derrota: 1x0 Coreia do Norte, 1 x 2 Irlanda, 2x2 Costa do Marfim e 2 x 0 Grécia.

ESLOVÁQUIA – Três jogos sem vencer: 1 x 2 Chile, 0 x 1 Noruega, 1 x 1 Camarões, os dois últimos em 2010.

NOVA ZELÂNDIA – Em 2010, uma vitória e duas derrotas. 0 x 2 México, 1 x 2 Hungria e vitória por 1 x 0 sobre a Sérvia.

GRUPO G

BRASIL – Não perde, nem sofre gol há cinco jogos, desde a queda contra a Bolívia, em 11 de outubro: 0 x 0 Venezuela, 1 x 0 Inglaterra, 2 x 0 Omã, 2 x 0 Irlanda, 3 x 0 Zimbábue.

PORTUGAL – Não perde há 15 jogos, desde os 2 x 6 contra o Brasil, em Brasília, em novembro de 2008. Em 2010, 0 x 0 Cabo Verde, 3 x 1 Camarões.

COSTA DO MARFIM – Em 2010, 3 vitórias, 2 empates, 2 derrotas. Três seguidas sem vencer: 2 x 3 Argélia, 0 x 2 Coreia do Sul, 2 x 2 Paraguai.

COREIA DO NORTE – Em 2010, 2 vitórias, 5 empates e 5 derrotas. Seis jogos sem vencer, a mais longa série sem vitórias da Copa junto com Camarões: 1 x 1 Turcomenistão, 1 x 2 Venezuela, 1 x 2 México, 0 x 0 África do Sul, 0 x 1 Paraguai, 2 x 2 Grécia.

GRUPO H

ESPANHA – Nos últimos 10 jogos, 10 vitórias seguidas. Antes, derrota para os Estados Unidos, na semifinal da Copa das Confederações que quebrou série invicta de 35 partidas, a mais longa da história de todas as Seleções. Nos últimos 46 jogos, 42 vitórias, 3 empates, 1 derrota.

CHILE – Em 2010, 5 vitórias, 1 empate, 1 derrota. Vem de três vitórias seguidas, contra Zâmbia (3x0), Coréia do Norte (1x0), Israel (3x0).

SUÍÇA – Quatro jogos sem vitória: 0 x 0 Israel, 0 x 1 Noruega, 1 x 3 Uruguai, 0 x 1 Costa Rica, os dois últimos em 2010.

HONDURAS – Em 2010, 1 vitória, 1 empate, 3 derrotas. Ao todo, quatro sem vitória: 0 x 0 Azerbaijão, 2 x 2 Bielorrússia, 0 x 1 Venezuela, 0 x 2 Turquia."

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Livro Jogo das Copas Globo Esporte


Programa imperdível para esta noite de segunda: comparecer ao lançamento do novo livro do jornalista esportivo e amigo Lédio Carmona.

Reproduzo abaixo o release de lançamento, esperando ver todos os leitores lá. O Ouro de Tolo fará uma promoção envolvendo o livro ainda esta semana, aguardem.

Livro-jogo das Copas Globo Esporte
De Lédio Carmona e Marcelo Martinez (org.)
192 p.
16 x 20 cm
R$ 55,00
ISBN 978857734131450


O escrete: Alex Escobar, Arnaldo Cezar Coelho, Caio Ribeiro, Cleber Machado, Fátima Bernardes, Galvão Bueno, Glenda Kozlowski, Gustavo Poli, João Pedro Paes Leme, Junior, Luiz Carlos Jr., Luis Roberto, Marcelo Barreto, Milton Leite, Paulo Cesar Vasconcellos, Pedro Bassan, Renato Ribeiro, Sidney Garambone, Tadeu Schmidt, Tiago Leifert, Tino Marcos e Walter Casagrande. O desafio: fazer, cada um, uma leitura de todas as Copas do Mundo, de 1930 a 2006, em um livro nada convencional: o Livro-jogo das Copas Globo Esporte, que chega às livrarias pela editora Casa da Palavra.

Organizado por dois apaixonados por futebol e profundos conhecedores do tema — o jornalista Lédio Carmona e o designer gráfico Marcelo Martinez —, o Livro-jogo das Copas é uma publicação  diferente. Além de contar com textos inspirados desse time de craques do telejornalismo esportivo brasileiro, o livro apresenta uma lúdica interação: “Sabendo que todo torcedor é um especialista quando o assunto é bola, montamos um livro-jogo com diversas brincadeiras espalhadas ao longo das páginas, mais de 180 perguntas e respostas para testar conhecimentos e até uma divertida  maneira de exorcizar alguns fantasmas de Copas passadas, mudando a história com a ajuda de adesivos”, comentam os organizadores, que bolaram infográficos para recriar jogadas históricas, raspadinhas que simulam jogos, entre outros passatempos. jogos, entre outros passatempos.

Os apaixonados por futebol mais ortodoxos podem ficar tranquilos: as estatísticas, informações sobre cada torneio e detalhes das campanhas do Brasil estão presentes no livro. E cada estrela desse time escalado por Lédio e Marcelo é responsável por uma Copa. Alguns falam de sua experiência profissional em uma cobertura jornalística, outros revelam como certo torneio marcou sua vida, ou simplesmente desvendam o que tornou algumas Copas do Mundo tão inesquecíveis. Todos os textos são recheados de amor pelo futebol.

Os organizadores recomendam: “ao longo das páginas é possível conhecer os diversos elencos do Brasil representados de uma maneira especial: com figurinhas,-caixinha de fósforos e outros objetos colecionáveis, que levam o torcedor em uma viagem por sua memória futebolística”. Leia. Cole. Rabisque. Raspe. Embarque com o Livro-jogo das Copas Globo Esporte em um passeio pela história das Copas do Mundo. Um livro feito para informar e divertir toda a família.

Os organizadores

Lédio Carmona é niteroiense de coração e nascimento e petropolitano por adoção. Jornalista há 24 anos, trabalhou na TV Globo, depois de passar por veículos como Jornal do Brasil, O Globo, Lance! e Diário Popular. Atualmente é comentarista do SporTV, além de comandar um blog: www.globoesporte.com/lediocarmona. Pela Casa da Palavra, lançou o Almanaque do Futebol SporTV. Esteve nas cinco últimas Copas do Mundo, e está indo para a sexta, na África do Sul. É casado com Germana e pai de Roberto, o Pequeno Bob.

Marcelo Martinez é designer gráfico e ilustrador. Teve projetos exibidos – e algumas vezes premiados – em mostras de design, ilustração e animação em países campeões do mundo como Argentina, Brasil, França e Itália; e em outros ainda na fila, como Bélgica, China, Holanda, México e Portugal. Como designer futebolista, criou para a Casa da Palavra o projeto gráfico do Almanaque do Futebol SporTV (2009). Também pintou um Pacheco Camisa 12 bonitão na sua rua, aos 10 anos de idade, durante a Copa de 82. Mora no Rio de Janeiro com a esposa Renata, o filho João e a tartaruga Rubinho.

Lançamento

Livro-jogo das Copas Globo Esporte será lançado dia 31 de maio, segunda-feira, às 19h, na Livraria da Travessa de Ipanema."

 

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Oito anos e duas injustiças depois...


A Copa do Mundo vem se aproximando e é hora de falar um pouco mais sobre a mais importante competição do futebol mundial.

Nosso personagem é um jogador que foi injustiçado duas vezes nas Copas anteriores e que, salvo alguma contusão de última hora, terá a honra de envergar a Camisa 1 canarinho nesta Copa da África do Sul.

Voltemos a 2002. Em um time fraco, Júlio César era, disparado, o maior destaque de um Flamengo combalido e afogado em dívidas herdadas das desastrosas administrações dos ex-presidentes Kleber Leite e Edmundo Santos Silva. Não é exagero dizer que ele foi peça importantíssima para o clube não ser rebaixado em 2001 e 2002, bem como nos títulos cariocas de 2000 e 2001.

O goleiro era candidato a uma das vagas para a Copa de 2002, sendo sem dúvida alguma o melhor goleiro brasileiro de então. Entretanto acabou de fora da competição devido a dois fatores: ao assumido preconceito do técnico Luiz Felipe Scolari contra jogadores cariocas - quem não se lembra dele na convocação final frisando que Juninho, jogador do Flamengo, "era paulista"? - e à pressão insuportável da mídia paulista pela convocação de seu queridinho, Rogério Ceni. Aliás, este último, goleiro comum embaixo das traves, se jogasse a metade do que seu marketing apregoa era o novo Pelé.

Ele não foi ao Japão e à Coréia do Sul, o Brasil foi campeão - justiça seja feita, com boas atuações de Marcos - e esta entrou para a história como a primeira injustiça sofrida pelo goleiro.

A vida seguiu para o arqueiro rubro-negro. Ele continuou fazendo seus milagres em 2003 e 2004, até se transferir para a Internazionale de Milão no final deste ano. Esteve emprestado, voltou à equipe milanista, desbancou o preferido da torcida Toldo e se firmou como titular do time azul e preto.

Parêntese: outra tremenda injustiça é ver Bruno entrando para a história como um dos goleiros mais vitoriosos da história flamenga e Júlio César não. Mas...

Mudou o técnico da Seleção, Dida assumiu o posto de titular e Júlio César, seu reserva imediato. Brilhou intensamente na Copa América de 2004 e caminhava para ser o reserva imediato na Copa da Alemanha. Contudo...

Mais uma vez embalado por uma campanha midiática sem precedentes, e respaldado em uma boa atuação na final do Mundial Interclubes do ano anterior, Rogério Ceni aterrisou de pára-quedas na convocação final para o certame, ele que praticamente não fora convocado nos quatro anos anteriores. Mais ainda, tomou de Júlio César o lugar de reserva imediato, chegando até mesmo a entrar em uma partida. Ao goleiro carioca restou treinar sozinho, haja visto que sequer dos coletivos ele participava. Tornou-se uma espécie de "fantasma" ou "morto vivo" naquela fracassada seleção.

Não se abateu. Sem se queixar seguiu o seu caminho, conquistando títulos e a admiração de seus fãs brasileiros e europeus até se consagrar campeão europeu na última semana. Não foi o primeiro titular de Dunga, mas aos poucos assumiu a posição, empreendeu algumas atuações memoráveis e atualmente é o dono incontestável da Camisa 1 brasileira. Conseguiu a proeza, até, de diminuir bastante o lobby pelo arqueiro paulista, rei do marketing pessoal.

Boa sorte, Júlio Cesar. Oito anos e duas injustiças depois, finalmente poderá disputar uma Copa do Mundo.

domingo, 23 de maio de 2010

Bissexta


A partir de hoje, temos uma nova coluna no Ouro de Tolo. Como o próprio nome dela diz, não terá periodicidade definida, mas sempre que tiver textos novos será publicada aos domingos.

O autor é o advogado radicado em Porto Alegre Walter Monteiro, rubro-negro e diretor da torcida organizada Fla-Manguaça.

Nosso texto de estréia é sobre a sempre tumultuada relação existente entre a Seleção Brasileira e a imprensa esportiva.

"NÓS QUE ODIÁVAMOS TANTO A SELEÇÃO!

Quando eu era criança eu queria ser João Saldanha. Futebol era tudo para quem foi criado nas redondezas do Maracanã, com o luxo de um campinho de pelada improvisado no asfalto de uma rua sem saída. Meus coleguinhas sonhavam serem Zicos, Dinamites, Rivelinos, mas eu aprendi desde logo que a minha única chance de viver de futebol era virar João Saldanha, poder falar e escrever de futebol com sabedoria, mas sem a pretensão de transformar cada crônica em um pastiche de poesia.

Cresci e João Saldanha não virei, nem de futebol eu entendo, embora o idolatre e o respire intensamente. Aliás, eu raramente presto atenção a algum jogo, me limito a torcer freneticamente, expiando os pecados da alma e injetando adrenalina pelos berros primitivos ao meu entorno. Mas o “João Sem Medo” me inspirou, anos atrás, a sonhar com um projeto de livro, relatando o permanente clima de animosidade entre a imprensa esportiva e a seleção brasileiras.

Quem tem menos de 30 anos e é consumidor habitual das pílulas opinativas de nossa inteligentsia da imprensa deve apostar que a lendária seleção de 82 era recebida com loas de reverência pela crônica da época. Há um livrinho aí pelos sebos da vida onde o Saldanha dispensa à hoje mítica equipe um tratamento que nem os mais ferrenhos críticos da atualidade teriam coragem de reproduzir nesses tempos mais sensíveis.

Poupá-los-ei da extensa pesquisa que fiz do que se dizia daquele mágico time, mas um trechinho mínimo dá a dimensão do consenso da época. Fala, Saldanha:

“Tantos crimes contra o bom senso, contra o senso comum, não poderiam passar impunemente. O fato de possuirmos jogadores extra-série como Zico, Falcão, Sócrates, Júnior e Cerezo dava a falsa impressão de que éramos superiores em tudo. Mas uma estupidez siderúrgica rondava nosso propósito de ganhar uma Copa....Inventaram uma tática no Brasil abandonando preciosos espaços de campo. Ora, somente um primarismo infantil e teimoso poderia pensar que os adversários não iriam aproveitar o erro clamoroso...”

Nossa crônica esportiva nunca gostou da Seleção e vice-versa. Assim foi, assim sempre será. Há, claro, exceções. Em 2006 o time só não saiu daqui mais incensado porque nossos craques nem se deram ao trabalho de dar uma passadinha nessa terrinha tão longe da Europa. E há quem diga que em 1966, com Pelé, Tostão, Gerson, Garrincha, os entendidos da ocasião já haviam aberto o champanhe na véspera.

É por isso que o clima atual me anima. Afinal, tanto ódio e rancor contra a Seleção só vi em 1994, título que até hoje incomoda quem torceu contra. Vai pra cima deles, Brasil."

domingo, 16 de maio de 2010

Sobretudo


Neste final de semana especialíssimo, agora é a vez de mais uma coluna "Sobretudo", do publicitário Affonso Romero. O texto de hoje é sobre a Seleção Brasileira convocada para a Copa do Mundo de 2010.

Aproveito para fazer uma pequena homenagem à maior seleção que vi jogar, que foi a de 1982.

P.S. - Não deixe de participar da promoção de aniversário do Ouro de Tolo. O post para inscrição está aqui.

"Os 23 de Dunga. E os outros tantos que verão a Copa pela tevê.

Brasileiro é assim mesmo: do dia da convocação até e eternidade, discutimos quem deveria ter ido à Copa no lugar de quem. Em caso de vitória, esqueceremos o assunto. Em caso de Copa perdida, discutiremos isso até o final dos tempos.

Dunga já havia anunciado que sua convocação não traria nenhuma grande novidade. Ainda assim, o País ficou ligado para acompanhar a lista final. Eram pouquíssimas as dúvidas. O clamor por Ronaldinho Gaúcho já tinha dado lugar aos pedidos por Neymar e Ganso. Para se ver como é volúvel a opinião da massa.

Esta nova paixão da galera - os meninos da Vila - deve ajudar muito a cabeça teimosa de técnico que o Dunga tem a ter aceitado a inevitabilidade de relacionar o Ronaldinho entre os 30 inscritos na FIFA, como opção imediata em caso de uma nova contusão de Kaká.

Como opinião é uma coisa que todo mundo tem, e blogueiro é mesmo um cara que dá opinião mesmo quando ela não é solicitada, então eu dou aqui as minhas impressões sobre os nomes escolhidos por Dunga e sobre os que sobraram na lista.

Os convocados

GOLEIROS

J.César - Inquestionável. Pode vir a ser o grande nome da seleção na Copa. Se tudo correr bem, pode colocar seu nome na história.

Gomes - Fez um excelente campeonato inglês e mereceu a convocação.

Doni - Discordo do Dunga. Nunca foi um goleiro selecionável, teve uma fase boa na Roma e isso abriu as portas da seleção. Mas não tem destaque algum para se manter mesmo fora de forma e na reserva em seu time.

LATERAIS

Maicon - Saúde de puro-sangue, aplicação tática, experiência internacional, disciplina. É importante na Inter e na seleção.

Daniel Alves - Mais talentoso que Maicon, menos aplicado e menos forte. Mas é um dos semi-titulares do Dunga, com méritos.

Michel Bastos - Foi um os poucos que jogou razoavelmente na lateral-esquerda. Aproveitou bem a chance dada. Fez uma excelente temporada no Lyon, jogando pelo meio, o que dá alternativas a Dunga.

Gilberto - Contou a experiência e o comportamento, além de estar em forma. Limitado e velho para a seleção, mas deve ficar esquecido no banco.

ZAGUEIROS

Lúcio - O líder do time, representação em campo do espírito de Dunga.

Juan - Técnico, complementa Lúcio numa dupla equilibrada. A comissão técnica deve se preocupar com a condição física do zagueiro.

Luisão - Veterano de convocações, mantém a média e não decepciona.

Thiago Silva - Amadureceu e está se firmando no Milan. É o mais habilidoso entre os defensores convocados.

MEIO-CAMPISTAS

Gilberto Silva - Sua experiência e dedicação à seleção garantiu a vaga. Se Dunga acreditou nele até aqui, não seria agora que abriria mão dele. Concordo que há espaço para um cabeça de área típico no time, mas discordo na escolha desse nome: Gilberto Silva já está sem velocidade e joga numa liga pouco competitiva, na Grécia.

Felipe Melo - para ser justo, Felipe Melo foi uma grata surpresa com a camisa canarinho. Nunca decepcionou e, em algumas partidas, esteve muito bem. Fez uma temporada irregular na Itália, mas já havia ganho a confiança do chefe. Na minha opinião, deveria ser o primeiro volante, no lugar do Gilberto Silva.

Elano - Se garantiu pelo conjunto da obra. Teve bons e maus momentos. Já foi titular absoluto com Dunga, mas nunca reclamou quando esteve na reserva. Isso conta a favor. Sempre se dedicou e quis estar no grupo. É um jogador de recursos, apesar de não ser craque. A torcida protesta quando vê um jogador que equilibra forças defensiva e ofensiva na vaga de um extra-classe como o Ronaldinho Gaúcho, mas foi exatamente ao mexer nesta posição que Dunga encontrou a consistência de seu time. Curiosamente, o perfil de jogador está definido, mas a posição de titular está em aberto.

Josué - Ex-titular de Dunga, Josué se garante por sua constância para ser o reserva imediato na posição de volante defensivo. Acho muito limitado para seleção, mas é outro que não seria mudado agora. Para ser justo, fez boa temporada na Alemanha.

Ramires - Pode até vir a ser titular, mas é um nome com o qual não concordo. Nem se pode dizer que tenha ido tão bem na seleção a ponto de conquistar o técnico. É um jogador voluntarioso, mas perde a cabeça facilmente e não é tão eficiente no apoio.

Kléberson - Sua disposição em defender a seleção conquistou Dunga, que tinha uma dívida de honra por ele ter se contundido num amistoso do Brasil. Tem experiência e faz bem várias funções. Não é um jogador excepcional, mas compõe bem o grupo.

Kaká - É o craque do time, um nome que já estava certo, mas também é uma grande incógnita devido às recentes e constantes contusões. Caso não possa jogar, desmorona todo o trabalho de Dunga. Mas, em caso de estar preparado para a Copa, tem tudo para ser de novo o jogador do ano.

Julio Baptista - A opinião pública, de torcedores e imprensa, é injusta com este jogador. Talvez por ele ter iniciado a carreira como volante, e ter ficado marcado por isso e pelo fato de ser alto e forte, diferente do biotipo do craque latino-americano. Mas é eficiente, aplicado, rápido, hábil, tem visão de jogo e é perigoso na conclusão. Ainda assim, fica muito distante do futebol do Kaká, de quem é reserva imediato.

ATACANTES

Robinho - Fracassou na Europa, fez alguns jogos ruins na seleção, mas ainda é o jogador habilidoso e arisco que oferece alternativas de jogo, sabe vir de trás, sabe concluir apesar de não ser artilheiro, sabe cair pelos lados do campo. Recoborou a forma e o viço no Santos, e tem a oportunidade de dar a volta por cima em sua carreira. Na seleção, é mais sério e sabe chamar para si a responsabilidade. Aposto que fará uma boa Copa.

Luis Fabiano - Acertou o pé e, hoje, é um atacante maduro, presença perigosa na área. Se firmou no duro teste para centroavante da seleção, onde venceu a concorrência com nomes de peso. Alguns, literalmente de peso. Se estiver em forma durante a competição, é candidato a artilheiro da Copa.

Nilmar - Superou sua fragilidade física e impôs seu bom futebol. Tem a vantagem de poder atuar como segundo atacante ou como homem de área. Dá opções ao técnico e fez alguns bons jogos pela seleção.

Grafite - Aproveitou a chance que teve. É muito elogiado no futebol alemão que, se não é uma das 3 grandes ligas, é especialmente difícil para os atacantes. Dunga procurou uma opção para centroavante típico, de área, porque já não confiava todas as fichas em Adriano e Grafite soube dar a resposta na hora certa. Sua escolha, apesar de desagradar aos especialistas, era até óbvia e previsível nas atuais circunstãncias.

A Lista Suplementar

Alex - Não entendi a inclusão do nome do zagueiro do Chelsea. Apesar de habilidoso e da experiência internacional, sua lentidão o fez alvo de várias críticas, e não por acaso parecia reprovado desde a fase de testes do Dunga.

Carlos Eduardo - Outro que não fez nada de especial para estar na lista. Quando comvocado, não se destacou. No campeonato alemão, joga num time sem a mínima expressão.

Ronaldinho Gaúcho - É a carta na manga de Dunga caso Kaká não tenha condições de jogar a Copa em alto nível. Em determinado momento, Dunga constatou que era difícil encaixar dois meias ofensivos com as características de Kaká e Ronaldinho no mesmo time. O segundo deu os motivos de que Dunga precisava para optar. Quando correu atrás do prejuízo, já era tarde. Demonstrou vontade suficiente para estar na Copa, mas seria um estorvo para o técnico caso ficasse no banco. Entretanto, uma previsível contusão de Kaká abriria vaga para o craque milanista, porque é o único que tem futebol para substituí-lo.

Sandro - O volante do Inter tem a simpatia do técnico, talvez pela coincidência de time de origem, posição e estilo de jogo. Mesmo considerando os limites naturais da posição, discordo de que seria um bom nome, mesmo como opção para a reserva.

P.H.Ganso - É um jogador completo, mas deu azar por não ter tido tempo para ser testado na seleção. Foi bem nas seleções de base, e isso contou a seu favor. É um dos poucos meias disponíveis com visão de jogo e habilidade para vir a ser o camisa 10 da seleção. Concordo que, pelas circuntâncias, ainda não seria sua hora. Mas tem um futuro promissor a cumprir.

Marcelo - Perdeu espaço por ter jogado fora algumas oportunidades na seleção, e por ter demorado a impor seu futebol na fogueira das vaidades que é o Real Madrid. Uma pena, porque seria um excelente lateral para o time, talvez o melhor disponível. A coerência de Dunga fez com que ele optasse por aqueles que aproveitaram melhor as chances dadas. 

D.Tardelli - Continua em grande forma, mas o fato de atuar num mercado de menor importância tirou suas chances. Além da concorrência, que é duríssima naquele setor. Também contou contra ele sua rala experiência internacional. Mas é bom nome na turma do sobreaviso.

Os Preteridos

Victor - Achei injusto o Doni estar na lista no lugar dele. É o melhor goleiro em atividade no Brasil e poderia ser preparado para assumir o lugar de J.César no futuro.

Miranda - Poderia até não estar entre os convocados, mas seria nome certo entre os 30. Não concordo em colocar o Alex na vaga que seria dele.

Léo Moura - Deu o azar de ter os dois melhores laterais direitos do mundo, com mais experiência e projeção internacional, à sua frente. Acho até que tem mais força ofensiva que ambos, mas dá ao time menos consistência. O curioso é que foi um dos poucos que teve chance na seleção, correspondeu e, mesmo assim, não era esperado na lista. Mas seria titular em 90% dos times que disputam a Copa.

Juan - Jogou fora a única chance por um traço fatal de seu temperamento: o nervosismo. Fora isso, teria futebol para ser o melhor do mundo na posição.

André Santos - Queimou-se completamente com Dunga justamente quando já havia conquistado a posição de titular. É uma demonstração clara do que o técnico não admite de comportamente fora de campo. Sua mudança para a Turquia foi um tiro no pé. Bom exemplo de como não conduzir uma carreira que, de outra forma, seria promissora. Nem sempre dinheiro é tudo, quanto mais quando se pensa de forma imediatista.

Kléber - Perdeu algumas boas chances e deixou de ser chamado, mas é bom lateral.

Roberto Carlos - Talvez o jogador que saiu mais queimado na última Copa. Fala demais, é estrela demais, frequenta demais a noite e adora oba-oba. Mas chegou a correr por fora na disputa em aberto que se tornou a lateral-esquerda da seleção, porque não tem comprometido no Corinthians e é um dos poucos especialistas na posição com experiência internacional.

Lucas - Sua inconstância lhe tirou as chances de disputar a Copa. Não se firmou no Liverpool, nem nas oportunidades em que esteve na seleção. Mas é muito mais consistente que Gilberto Silva e Josué, com quem disputaria uma vaga.

Hernanes - Nunca entendi o problema de Dunga com este jogador. Além de ter habilidade e visão de jogo para apoiar, ele é infinitamente superior a qualquer dos inúmeros volantes convocados por Dunga, mesmo se o critério fosse poder de marcação. Teve momentos ruins nos últimos anos, como qualquer jogador. Mas, na média, foi a alma da equipe do São Paulo que dominou o futebol brasileiro por três anos. Talvez haja alguma explicação de fundo comportamental ou pessoal, mas isso eu desconheço.

Diego - Teve maus e razoáveis momentos na seleção, mas destacou-se tanto no Werner Bremen e na Juve que merecia estar entre os 30, pelo menos. Novamente, pode haver algum motivo desconhecido do público, mas o fato é que parece absolutamente queimado com Dunga.

Vágner Love - Pode parecer estranho o Love, que foi pouquíssimo cogitado, estar nesta minha lista de preteridos. Mas, entre os que não vão à Copa, ele foi um dos que mais jogou com o Dunga, chegou mesmo a ser titular na montagem deste time. Jogou 20 partidas,14 delas desde o início. Fez apenas 4 gols e deixou de ser convocado. Mas, pelo que fez este ano no Flamengo, poderia ter tido alguma chance. Caso o Império do Amor decolasse, ele poderia vir a ser uma alternativa junto com o Adriano, porque tem rodagem de seleção e teria entrosamento único com um outro atacante.

Fred - Suas constantes contusões tiraram qualquer sombra de confiança que a comissão técnica pudesse ter nele. Mas, futebol por futebol, poderia tranquilamente estar entre os convocados, principalmente sem o Adriano na lista.

Alexandre Pato - Parece estar num inferno astral. Acho que foi supervalorizado antes da hora. Não se firmou na seleção, está ofuscado no Milan, enfrenta constantes contusões e sua vida pessoal atravessa uma má fase. Mas continua sendo uma aposta para o futuro.

Ronaldo Fenômeno - Transformou-se numa caricatura de si mesmo. Nem ele próprio tinha esperanças de jogar a Copa depois de uma temporada apagada. Entregou-se à vida de ex-atleta, o que é uma pena. Se tivesse, mais uma vez, se superado, poderia estar fazendo história. Porque futebol sempre teve. Mas até os grandes guerreiros se entregam um dia, principamehte aqueles que gostam da noite, da alimentação desregrada e do cigarro.

Adriano - O grande castigo, o grande exemplo de como jogar fora todas as chances e de como afundar uma carreira no álcool e no despreparo psicológico. Sua exclusão da lista foi justíssima e espero que seja de grande serventia para as futuras gerações. Pelo seu jeito dócil e amigo, cativou Dunga a ponto do técnico dar-lhe um tratamento diferenciado, admitindo de Adriano um comportamento que ele jamais admitiu em outro atleta. Mas paciência tem limite, e o atacante rubro-negro representava uma bomba-relogio, um risco desnecessário para o grupo. Curioso como absolutamente ninguém lamentou sa ausência na lista.

Neymar - Pode vir a ser um excelente jogador. Quem sabe, um craque, até um gênio do futebol. Por enquanto, é um menino habilidoso, nitidamente imaturo, que está em grande fase técnica e criativa, que abusa da condição que tem, que gosta de jogar o juiz contra a torcida, que provoca em demasia o adversário, que se ofuscou em jogos decisivos e que não tem nenhuma experiência internacional. Sua improvável convocação não combinaria em nada com o estilo do Dunga, com a linha coerente adotada pela CBF, com a continuidade do trabalho de 4 anos. Na minha opinião, deveria ser testado no primeiro amistoso após a Copa, para que se possa vislumbrar se realmente virá a ser jogador que se espera dele. Se for, ótimo. Em 78, o Menotti não convocou um jovem chamado Maradona. Ainda assim, a Argentina foi campeã e o Maradona demorou 8 anos para amadurecer a ponto de ser decisivo numa Copa. Estava certíssimo o Menotti. Está certo o Dunga em não arriscar o Neymar agora."