domingo, 31 de julho de 2011

Aspirinas Teatrais - "16º Festival de Cinema Universitário"

Ainda neste domingo, temos mais uma edição da coluna "Aspirinas Teatrais", assinada pela atriz e professora de Educação Física Nívea Richa - nas fotos deste post.

O tema de hoje é o festival de curtas metragem universitários que está ocorrendo em São Paulo e no Rio de Janeiro.

"16º Festival de Cinema Universitário

Na minha segunda coluna para o Ouro de Tolo, resolvi dar uma moral para mim mesma (risos).

Calma, vou explicar. 

Como o Pedro Migão escreveu na minha apresentação, sou atriz e em 2010 filmei dois curtas-metragens feitos por alunos de cinema da UFF (Universidade Federal Fluminense). 

Um como protagonista e no outro fiz uma participação. Esses curtas serão exibidos no 16º Festival de Cinema Universitário, que começou no dia 27 de julho e vai até o dia 07 de agosto, no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Correios e na Caixa Cultural. 

Foram inscritos mais de 300 curtas de diferentes estados. O evento também será levado a São Paulo, para a Mostra Competitiva Internacional, de 8 a 14 de agosto, no Cine Sabesp, CinUSO e Cine Olido.


Abaixo, sinopse e ficha técnica dos filmes que fiz: “O mundo anda tão complicado” e “Zombie Dance Party”. 

O Mundo Anda Tão Complicado - Casal entrando em uma nova etapa da vida vive as incertezas e alegrias de morar juntos. 

Direção, edição e edição de som – Guilherme Cavalcanti
Assistente de direção – Andy Malafaya/Roteiro – Marília Muniz Leal
Produção - Giovani Zenatti Barros
Fotografia e câmera - Daniel Soares 
Som - Nino Ottoni, Pedro Félix 
Arte - Anita Chaves e Caio Kelly
Trilha Sonora original – Supercordas
Elenco – Nívea Richa e Hugo Maia) 

Centro Cultural dos Correios (Rua Visconde de Itaboraí 20, Centro)
Sala de Cinema
Ter, 2 ago, 17h 

CAIXA Cultural (Av. República do Chile 230, Centro)
Cine 2
Sex, 5 ago, 15:30 


Zombie Dance Party - Eliete está mal no namoro. Resolve ir para uma festa. Conhece Flávio, que é atacado e volta para aterrorizar a festa. A partir daí, Eliete estará a um passo do abismo.

Direção, edição de som e edição – Guilherme Cavalcanti
Roteiro - Rodrigo Morelato, Guilherme Cavalcanti
Produção – Giovani Barros
Fotografia e câmera – Daniel Soares e Bernard Lessa
Som – Pedro Félix
Arte – Rodrigo Morelato
Trilha sonora original – Nino Ottoni
Elenco - Juliana Paliologo, Daniel Zubrinsky, John, Nívea Richa e Adriano Martins

CAIXA Cultural
Cine 2
Sab, 30 jul, 19:30 
Centro Cultural dos Correios
Sala de Vídeo
Dom, 7 ago, 15:30 

O Centro Cultural dos Correios fica na Rua Visconde de Itaboraí, 20 e a Caixa Cultural na Av. República do Chile, 230. Os dois no Centro. 


Merda!!!"

Orun Ayé - "Quando a Morte é um Começo"


Neste domingo, temos mais uma edição da coluna "Orun Ayé", assinada pelo publicitário e compositor Aloísio Villar. O tema de hoje não poderia ser outro: os astros da música que morreram aos 27 anos.

"Quando a Morte é um Começo

'Viva rápido, morra jovem e seja um lindo cadáver' (James Dean) 

Semana passada o mundo passou por uma grande contradição. Um misto de surpresa e certo conformismo, como se já esperasse a morte da cantora britânica Amy Winehouse. 

A moça não era uma unanimidade, mas era inegável seu talento e sua morte no auge da carreira. Uma morte que foi sendo consumada aos poucos via satélite pro mundo inteiro, e acabou trazendo à tona duas situações que pareceram uma espécie de "deja vu". Morte de alguém aos vinte e sete anos de idade e devido a drogas. 

Vários órgãos de imprensa referiram-se ao assunto. Dos mais sérios das TVs a cabo até aqueles vespertinos que misturam notícias sensacionalistas com venda de câmeras e produtos de emagrecimento, todos abordaram o fato de Amy ter morrido com a mesma idade e do mesmo mal de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Kurt Cobain, ícones do rock. 

Ainda que Amy não fosse uma típica roqueira, a cantora tinha o perfil rock`n roll de vida: usava e abusava de drogas e álcool, indo parar várias vezes em clínicas de reabilitação. Amy foi a representante no início do terceiro milênio da autodestruição - algo tão normal no rock quando a guitarra e a os cabelos longos. 

O que esses artistas todas têm em comum? 

Além do fato de terem morrido, claro, eles viraram lendas, coisa que deve ocorrer com Amy também. Viveram apenas vinte e sete anos, mas a impressão que está no imaginário das pessoas é que sempre existiram e sempre existirão, e o melhor: além de ganharem o dom da imortalidade ganharam aquilo que todo ser humano sonha. A eterna juventude. 

Alguém consegue imaginar Jim Morrison, avô, brincando com os netinhos no Central Park? Janis Joplin com a cara da Dona Benta? Jimi Hendrix de cabelos e barba branca? Kurt Cobain barrigudo cantando no Faustão? 

Vejam só Paul McCartney: virou um tiozinho que vem ao Brasil todos os anos e vai pro Engenhão cantar “Obladi Obladá”. Ele é respeitado, tem muitos fãs - incluindo esse que lhes escreve. Mas o 'cara' mesmo virou John Lennon, que cantou a paz, casou com mulher feia e morreu com tiro de fã maluco. 

Não dá... Ninguém respeita roqueiro que envelhece. A não ser que você seja um Rolling Stone. Porque, na boa: para mim um dos maiores mistérios da humanidade é como Keith Richards e Mick Jagger estão vivos até hoje. [N.doE.: para mim também]

As pessoas têm fascínio por ídolos que se autodestroem, esta é a verdade. 

Um Ídolo que faz besteira, que é preso, que para em clínica de reabilitação se humaniza. Vira uma pessoa como nós e se o cara morre, então, vira mito. A pessoa que é genial e morre jovem (independente se era um drogado, bêbado, suicida ou coisa parecida) se eterniza. 

E não precisamos parar apenas nos que morreram com vinte e sete anos. 

Temos com vinte e seis Noel Rosa: gênio que teve vida pessoal conturbada, com muitos abusos que provocaram uma tuberculose fatal. Continuando no Brasil temos ídolos que, se não morreram de overdose, morreram de AIDS como Cazuza - que assim como Amy teve sua longa e triste morte mostrada pela mídia ao país. Não podemos nos esquecer de Renato Russo que também morreu de AIDS e virou uma espécie de profeta para jovens que nem haviam nascido quando ele morreu. 

Tragédias que fizeram alguns jovens virar mitos como James Dean, Mamonas Assassinas e heróis como Ayrton Senna, carros e aviões decidindo destino de alguns ídolos. 

E por fim alguns que não eram mais tão jovens, não se autodestruíram nem morreram em acidentes, mas hoje são representantes da juventude como Che Guevara e Bob Marley [N.doE.: mais ou menos, Bob Marley morreu de câncer aos 36 anos]. 

A morte de um jovem sempre trás comoção porque a ordem natural da vida é os mais velhos morrerem antes. 

A morte de um ídolo jovem piora essa situação porque sempre vemos essas pessoas como íntimas, parecendo mesmo membros da família. Isso ocorre porque todos os dias invadem nossos lares e o artista ou esportista nessa fase da vida é o que provoca mais histeria e fanatismo. Não é raro um desses que nem era considerado tão bom vivo virar unanimidade depois de morto, todo mundo falar que era fã e o lucro com sua obra e imagem aumentar e muito. 

Porque um dia todo mundo vai morrer e aqueles que conseguem viver depois de mortos nos encantam. 

Aliás e a propósito: curioso como tanta gente boa morre cedo e políticos desonestos duram, não acham? 

Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder...

Orun Ayé""

sábado, 30 de julho de 2011

A Médica e a Jornalista - "Encantada por Meia Noite em Paris"

Neste último sábado de julho, temos mais uma edição da coluna "A Médica e a Jornalista", assinada pela Anna Barros.


Vamos ao texto, já que eu ainda não consegui ver o filme.

Encantada por Meia-noite em Paris

Essa semana, a coluna entrará por uma seara que muito me apetece: o cinema. E o filme escolhido não poderia ser outro: Meia Noite em Paris, um deleite para a alma.

Além do cenário cinematográfico e maravilhoso, Woddy Allen faz uma viagem pelo tempo: para a Paris dos anos 20, onde o escritor angustiado Gil, alter-ego do roteirista e diretor, encontra Hemingway, Cole Porter, Salvador Dalí, Picasso, Buñuel e várias referências do próprio Allen.

Gil está num relacionamento complicado com a fútil Inez e acaba por terminar com ela para viver na Cidade Luz. Inez não valoriza seus escritos e prefere enaltecer um “almofadinha” que foi seu professor na faculdade.

Gil conhece Adriana, vivida por Marion Cottrilard, que é musa de Hemingway e Picasso, figurinista de Bourdeaux e que quer viver a Belle Epoque de Paris. Mesmo diante da possibilidade de encontrar um novo amor, ela prefere fazer uma viagem pelo tempo, ficar na Belle Epoque e deixar Gil.

Isso mostra como os seres humanos são insatisfeitos e nostálgicos e que mudanças são necessárias para que sejamos felizes. Tudo é mutável, o que remete de certa forma à minha coluna anterior, de quinze dias atrás.

Recomendo o filme, que a meu ver é o melhor de Woody Allen. Não vejo tanta semelhança assim com A Rosa Púrpura do Cairo; apenas a transposição do mundo de fantasia para o mundo real.

Em A Rosa Púrpura, de um personagem que tenta resgatar a mocinha que não perde um filme seu e que tem uma vida miserável. Em Meia-noite em Paris, alguém da vida real que encontra seus ícones, seus mitos e faz com que Gertrude Stein leia seus manuscritos para que ele aperfeiçoe o seu ofício, já que a literatura é sua grande paixão - e não os roteiros de cinema que lhe dão glamour com a namorada e o sustentam. Gil busca a felicidade plena e Owen Wilson está ótimo no papel. Ele vê beleza nas coisas simples, como a chuva em Paris.

Há um contraponto claro entre conteúdo e futilidade, personificados por Gil e Inez, cuja atriz Rachel McAdams também está bem, segura e convincente no papel. Dois mundos completamente diferentes que insistem em ter um ponto de interseção. Inez acaba por trai-lo por ele se dedicar muito ao livro e às escapulidelas da realidade à meia-noite, que tornam a sua vida muito mais prazerosa.

Eu saí do cinema pensando na música de Cole Porter, outro fato maravilhoso que Woody Allen resgata. O jazzista renasce por conta da referência que Allen faz nesse e em outros filmes seus. Saí do cinema inebriada, refletindo sobre o filme e tentando trazer para a vida real o que ele poderia acrescentar à minha rotina e descobri: a felicidade pode estar logo ali. Sempre temos que tirar algum aprendizado do que lemos, do que assistimos no cinema. Tem que se aproveitar o momento, o Carpe Diem, que o professor fala em Sociedade dos Poetas Mortos.

Bem, essa reflexão já seria tema para outra coluna.

Até a próxima!
Anna Barros"

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Final de Semana - "The End"


Neste mês de julho completam-se quarenta anos de morte de Jim Morrison, líder de uma das maiores bandas de rock que conheci: The Doors.

Mais uma vítima da chamada "maldição dos 27" - que será aboradada na coluna "Orun Ayé" do próximo domingo - Morrison tinha uma maneira visceral não somente de cantar como de levar a sua vida. É parada obrigatória para quem gosta de bom rock and roll.

A música, meio que premonitória, é "The End", em gravação de 1968 realizada em Hollywood. Apresento a letra abaixo e uma tradução que, confesso, não tive tempo de revisar.

O "The Doors" ganhou um excelente perfil este mês, escrito pelo jornalista Rodrigo Mattar. Recomendo a leitura neste link.

Bom final de semana.

The End
(Jim Morrison)

This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I'll never look into your eyes...again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need...of some...stranger's hand
In a...desperate land ?

Lost in a Roman...wilderness of pain
And all the children are insane
All the children are insane
Waiting for the summer rain, yeah
There's danger on the edge of town
Ride the King's highway, baby
Weird scenes inside the gold mine
Ride the highway west, baby
Ride the snake, ride the snake
To the lake, the ancient lake, baby
The snake is long, seven miles
Ride the snake...he's old, and his skin is cold
The west is the best
The west is the best
Get here, and we'll do the rest
The blue bus is callin' us
The blue bus is callin' us
Driver, where you taken' us ?

The killer awoke before dawn, he put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall
He went into the room where his sister lived, and...then he
Paid a visit to his brother, and then he
He walked on down the hall, and
And he came to a door...and he looked inside
"Father ?", "yes son", "I want to kill you"
"Mother...I want to...fuck you"

C'mon baby, take a chance with us X3
And meet me at the back of the blue bus
Doin' a blue rock, On a blue bus
Doin' a blue rock, C'mon, yeah
Kill, kill, kill, kill, kill, kill

This is the end, Beautiful friend
This is the end, My only friend, the end
It hurts to set you free
But you'll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die
This is the end
(tradução)

O Fim

Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que permanece, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos...de novo
Voce pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Precisando desesperadamente...de alguma...mão de estranho
Numa terra desesperada?

Perdido numa romana...selva de dor
E todas as crianças estão loucas
Todas as crianças estão loucas
Esperando a chuva de verão, sim
Tem perigo no extremo da cidade
Passeie pela estrada do rei, bem
Cenas estranhas dentro da mina de ouro
Passeie pela estrada do este, bem
Passeie pela serpente, passeie pela serpente
Para o lago, o antigo lago, bem
A serpente é longa, sete milhas
Passeie pela serpente… Ela é velha e sua pele é gelada
O oeste é o melhor
O oeste é o melhor
Vá lá, e nós faremos o resto
O ônibus azul está nos chamando
O ônibus azul está nos chamando
Motorista, aonde está nos levando?

O matador acordou antes do amanhecer, ele pôs suas botas
Ele tirou uma foto da antiga galeria
E andou pelo corredor
Entrou no quarto em que sua irmã vivia, e...então ele
Pagou a visita a seu irmão, e então ele
Ele andou pelo corredor, e
E ele veio até a porta...e ele olhou para dentro
"Pai?", "Sim filho?", "Eu quero te matar."
"Mãe...Eu quero...te foder."

Venha bem, tente conosco (3x)
E me encontre atrás do ônibus azul
Fazendo um foguete azul, No ônibus azul
Fazendo um rock triste, vamos, sim
Matar, matar, matar, matar, matar, matar

Este é o fim, belo amigo
Este é o fim, meu único amigo, o fim
Dói te libertar
Mas você nunca vai me seguir
O fim da gargalhada e das mentiras suaves
O fim das noites que tentávamos morrer
Este é o fim"

Jogo Misto - Anderson Lopes (Dj Mangueira)



Anderson Lopes, também conhecido por "Dj Mangueira", 37 anos. Treinador da equipe sub-20 de futsal da ADDP, clube de Cabo Frio, com experiência também em equipes de futebol e larga vivência em treinamento de meninos e meninas. É um dos DJs mais conhecidos de Cabo Frio.

Convivência em espaços sobre o Flamengo e anteriormente Hattrick levaram a uma amizade. Anderson Lopes é o entrevistado de hoje da coluna Jogo Misto.


1 - Já iniciando com polêmica: por que as "noitadas" dos jogadores prejudicam tanto seu desempenho? De que forma pode-se coibir estas frequentes "escapadas"?

AL - Porque, por mais bem preparado que o corpo de um jogador esteja, ele precisa de repouso. Não sou adepto do que se convencionou chamar de “jornalismo manja”, onde nego fica atrás de jogador para saber o que ele anda fazendo na hora de folga. Mas é preciso saber que o excesso de noitada uma hora vai prejudicar e vai atrapalhar na recuperação de um pós-jogo.

Quanto a coibir, não vejo muito jeito. Ficar contratando “babá” para marmanjo é complicado. Teria que haver uma mudança de mentalidade lá atrás, na formação do jogador.

2 - Por que as divisões de base dos clubes brasileiros, hoje, vivem um período de clara "entressafra" na revelação de talentos?

AL - Basta você ver uma competição de Sub-13, Sub-15, que você começa a entender. Os treinadores se preocupam em ser campeões para manter o emprego.

O critério pra avaliação de jogador hoje em dia mudou também. Um garoto de 12, 13 anos, pequeno e franzino, a não ser que jogue uma enormidade não tem muita chance nos grandes clubes hoje em dia. A preferência, de uma maneira geral, é por jogadores de porte físico maior.

Isso se reflete na frente. Um monte de jogador que começou na base jogando de atacante ou como meia criativo, quando chega ao sub-20 acaba virando volante, lateral, para “sobreviver” no futebol.

A preocupação com a parte técnica do jogador também tem sido deixada de lado na base. A preocupação, pelo menos onde eu acompanho, é mais com a parte tática. O talento nunca vai deixar de existir, mas hoje ele não tem sido privilegiado como deveria.

3 - Eu costumo dizer que qualquer garoto de time Sub-17 hoje tem "um empresário em uma das mãos e uma Maria Chuteira na outra". De que forma isto afeta a formação destes jogadores?

AL - Todo garoto tem o sonho de virar jogador profissional, de estourar, de ir para o Barcelona, o Real Madrid, o Manchester United. Só que o funil é muito estreito.

O empresário é para muitos dos meninos um “atalho” pra realizar esse sonho. E dependendo da formação do garoto, os pais entregam a própria vida ao empresário.

A questão da “Maria Chuteira” é proporcional ao sucesso que o garoto tem na carreira. Se ele é sub-17 de um clube grande, a chance de ter uma melhor que a do que joga num clube pequeno é maior também... (risos)

4 - Qual o papel dos empresários na formação dos principais jogadores hoje em dia?

AL - Na formação?

Como eu disse antes, tem empresário que é uma espécie de pai pra alguns meninos. A partir daí, se o jogador consegue crescer na carreira, a tendência é que o jogador siga com esse empresário até um limite.

O grande ponto que eu vejo é que, na maioria dos casos, esses empresários só têm a visão do futebol para os “clientes”. É preciso pensar na carreira do jogador como um todo, até na hora de parar. Preciso pensar em capacitar o jogador para aproveitar as oportunidades que o futebol dá pra crescer como pessoa. Estudar, aprender um idioma, fazer um “media training”, essas coisas.

5 - Como seria uma estrutura de treinamento considerada adequada para um grande clube? Que tipos de treinamentos são mais adequados?

AL - Principalmente na base – hoje em dia já tem competições de sub-11, em alguns lugares, até de sub-9 – a preocupação precisa ser com a formação do jogador, sem a cobrança por resultados. A parte técnica tem que ser estimulada ao máximo nessa fase, e não tolhida.

Os treinos que estimulam a criatividade, que forçam o jogador a pensar em resolução dos problemas que o jogo apresenta, são os mais adequados. Quanto mais o jogador pensar, mais apto ele vai estar para utilizar seu talento e sua criatividade.

A gente entende que os clubes grandes sobrevivem de resultados, mas na minha modesta avaliação, a criação de uma cultura onde o jogo inteligente e criativo é a tônica é a melhor maneira de produzir jogadores mais completos – o Barcelona é o grande exemplo disso. O jogo que eles produzem no time profissional é a ponta de um trabalho que começa na base. A questão é, também, cultural.

6 - O que é a experiência de dirigir uma equipe de futsal com poucos recursos como a ADDP? Que tipo de dificuldades enfrentam?

AL - Cara, estou no clube desde 2006, já dirigi a equipe sub-17 (masculina e feminina), a adulta (masculina e feminina); mas sempre fui treinador do sub-20 masculino, que é o passo final para a categoria adulto. Apesar de ser um clube vitorioso dentro da cidade, com uma mentalidade profissional, a gente tem uma estrutura de trabalho limitada, que treina em praça pública, três vezes por semana.

É uma luta constante. No time adulto a maioria dos jogadores trabalha na rede de drogarias de propriedade do presidente do clube. Os caras trabalham no balcão, em pé, oito horas por dia, e à noite ainda vão treinar e jogar. Não é fácil.

A gente tenta captar, com patrocinadores, as condições para disputar as competições da Federação de Futsal do Rio. Neste primeiro semestre, ficamos em quinto lugar no adulto (e tivemos o artilheiro do campeonato, Rodriguinho, com 22 gols) e em quarto lugar no sub-20.

7 - Qual sua avaliação sobre o nosso Flamengo?

AL - O time está em um momento bom. Também tenho algumas restrições ao trabalho do Luxemburgo, principalmente pela insistência com o Wellinton na zaga; mas analisando no geral, o time titular está se portando bem. A carência no ataque e de reservas de melhor nível me preocupa para a sequência do campeonato.

A administração do clube, no entanto, não me agrada. A gente critica muito a falta de ações de marketing, mas a gente não sabe o grau de liberdade de ação (e de verba disponível) que o departamento possui. A política interna é muito conturbada e a Patrícia Amorim, em alguns momentos, se mostra muito à margem de tudo. Eu ainda alimento a utopia de que o futebol do Flamengo terá, um dia, uma gestão 100% profissional.


8 - André, recentemente contratado pelo Atlético Mineiro, foi seu jogador. Que avaliação do futuro dele você faria?

AL - É um jogador que sabe fazer gol, sempre teve talento pra isso. É grande, forte, finaliza com os dois pés, bom cabeceador e tem muito potencial de crescimento. Muito se falou que ele era “o cara certo no lugar certo”, por ter feito quase 30 gols em um semestre ao lado de Robinho, Ganso e Neymar. Mas se o cara for ruim, pode jogar do lado do Messi e do Iniesta que não vai fazer gol.

A transferência pro Dinamo Kiev foi boa financeiramente para o André, para o Santos, para o grupo de investidores que gerencia a carreira dele e até para a Cabofriense, como clube formador. Tecnicamente, foi ruim pra todo mundo. Ele perdeu um ano onde a ascensão tava grande, e agora vai ter que recomeçar cercado de desconfiança.

Converso com ele quase todo dia, e a gente sempre fala que o importante é tentar fazer o trabalho da melhor maneira possível. Torço pra ele fazer um grande Brasileiro no Atlético, pra recuperar prestígio e espaço dentro da seleção sub-23 que vai a Londres. Acredito que ele terá bons momentos na carreira.

9 - Por que jogadores se exilam na Ucrânia e semelhantes?

AL - Porque financeiramente é bom para esses caras. Os clubes do Leste Europeu vêm com um caminhão de dinheiro, algo que, na maioria dos casos, os caras nunca viram na vida. O empresário cresce o olho, o clube cresce o olho, o próprio jogador se deixa fascinar. Ele só pensa no que fez quando chega em Donetsk e tá 20 abaixo de zero e não vai ter paparicação nem nada a fazer a não ser treinar e ir pra casa.

Mas aí é de cada um. Se o cara estiver determinado a fazer sucesso no futebol, ele vai trabalhar e ganhar o dinheiro dele honestamente, seja na Ucrânia, na Rússia, no Catar, na China. Só é preciso avaliar bem antes de ir pra depois não ficar forçando uma barra pra voltar na primeira oportunidade.

10 - Um garoto sem empresário consegue fazer sucesso no futebol hoje? Como os clubes poderiam se "defender" deste tipo de questão?

AL - Se ele tiver condição, além de treinar e jogar, de administrar sua vida fora de campo, de negociar seus contratos, ele consegue. Mas é raro, porque a gente conhece o perfil da boleirada, é de gente que apostou que a vida mudaria através da bola. E mesmo assim, lá na frente, é difícil o cara conseguir conciliar tudo e ainda dar conta de contratos, negócios e coisas correlatas.

Os clubes poderiam se “defender” se tivessem uma gestão integralmente profissional de seus departamentos de futebol. Mas é uma utopia achar que isso vai funcionar.

Funciona para clubes como o Sendas (que tá virando Audax Rio), que não aceita jogador que tenha empresário. Mas para um Flamengo é difícil. Todo jogador de ponta hoje tem um procurador, um empresário ou um grupo de investimento que gerencia sua carreira.

11 - Que tipo de música prefere tocar? Há muitos pedidos de frequentadores?

AL - Toco há sete anos com meu amigo David Benigno em um bar em Cabo Frio, chamado Boulevard Pub. Tem música ao vivo nos finais de semana e, depois, a gente toca. Como é um bar e não uma boate, o som é bem comercial mesmo: a gente toca hip-hop, eletrohouse, pop-rock, funk… depende do ânimo da galera.

Eu sou meio “de lua”, mas atualmente, eu gosto mais de tocar eletrohouse. Já tive minha época de gostar mais de funk, mais de black music, mais de música nacional…

A galera sempre pede música, né? O bar tem um público bem diversificado, então a gente tenta agradar a maioria das pessoas. A gente recebe bem mais elogios que críticas, sinal que está tudo certo.

12 - Como funciona o trabalho de um DJ?

AL - Cara, eu sou DJ desde os 14 anos, passei por todas as fases, desde quando o cara ficava escondido no cantinho do salão ou em um buraco até os dias de hoje, onde DJs são celebridades e reconhecidos como artistas. Na verdade, o DJ trabalha para que os outros se divirtam. Precisa ter talento, precisa estudar, precisa gostar de música, precisa conhecer o que tá fazendo, precisa ter o “feeling” para saber o que a sua pista sente, para montar o seu set.

A tecnologia facilitou muito a vida de todo mundo, e hoje em dia, todo mundo “ataca de DJ”. Mas isso só serve pra diferenciar quem é ruim e/ou enganador de quem é bom e verdadeiramente talentoso.

Tem uns caras que me inspiram, cada um em seu segmento: Memê, Roger Lyra, André Luiz (esse, meu amigo particular, tocamos juntos em Cabo Frio na T-Club, há uns seis, sete anos), Wally… enfim.

13 - Uma canção inesquecível. Por quê?

AL - “My Endless Love”. Foi a música-tema do meu casamento.

14 - Livro ou filme? Por quê?

AL - Gosto muito de ler, mas ando sem tempo. O último livro que li e gostei muito foi a biografia do Andre Agassi. Sempre gostei mais de ler do que de ver filmes, embora tenha alguns filmes que me marcaram muito, como “Sociedade dos Poetas Mortos”.

15 - Um jogo inesquecível. Por quê?

AL - Flamengo 3 x 0 Botafogo, primeiro jogo da final do Brasileiro de 92.

Apesar de ser da geração que mesmo criança viu o grande time do Flamengo dos anos 80 jogar, esse jogo de 92 foi especial. Eu estava no Maracanã - foi uma vitória épica.

16 - Finalizando, com os agradecimentos do Ouro de Tolo, algumas poucas palavras sobre o blog ou seu autor/editor

Um blog que vale a pena ler, pela diversidade de assuntos, alguns deles não tão abordados pela “grande imprensa”. E ao Pedro Migão, a quem ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente, mas uma pessoa que nesses anos de convívio virtual sempre foi um amigo bastante solícito, um forte abraço.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

História & Outros Assuntos: "Resenha Crítica de 'João Goulart: Uma Biografia'"

Nesta quinta feira, excepcionalmente em dia diferente, temos mais uma edição da coluna "História & Outros Assuntos", assinada pelo colunista Fabrício Gomes - que aparece em uma das fotos deste post ao lado do autor do livro.

O tema de hoje é uma resenha sob o ângulo histórico da recém lançada biografia do ex-presidente João Goulart.

Curioso é que eu também estou lendo o livro - devo ter lido umas 100 páginas, além do final (risos) - e já adianto que, em minha ótica, há uma grave omissão: a não citação do fato de que o enterro de Jango foi uma das primeiras manifestações pela anistia política no Brasil - como o leitor poderá ver em uma das fotos deste post. Breve resenha aqui, mas adianto que apesar da ressalva é leitura indispensável.

Vamos ao texto:

O Ministro que Conversava, o Presidente Incompreendido

O historiador tem o dever de diferenciar a história da memória da história vivida, de compreender que a memória é seletiva: há coisas que são lembradas – de determinada maneira – e há coisas que são esquecidas. 

Buscando reparar um erro histórico, o historiador e professor de História Jorge Ferreira acaba de lançar “João Goulart: uma biografia” (714 páginas, Civilização Brasileira), uma obra que pretende não ser uma hagiografia do ex-presidente da República e líder trabalhista, mas sim mostrar João Goulart (Jango) sob o ponto de vista da ambiguidade. 

 
Mais do que ser uma simples biografia, Jorge Ferreira pretende neste trabalho permitir ao leitor compreender importantes aspectos da realidade contemporânea brasileira, principalmente naquele que ficou conhecido como o tempo da experiência democrática, compreendido entre 1946 e 1964. 

Sem dúvida uma tarefa árdua, já que diversos trabalhos já foram publicados sobre Jango. A começar, em 1977, pelo ótimo livro “O governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil (1961-1964)”, de Luiz Alberto Moniz Bandeira, no qual este autor apresenta Goulart como um presidente revolucionário e, ao mesmo tempo, vítima de uma conspiração. Posteriomente, em 1984, foi lançado o documentário “Jango”, de Silvio Tendler, onde o ex-presidente é mitificado e as esquerdas desempenham o papel de vítimas no processo que desencadeou o golpe civil-militar de 1964.
 
Somente a partir de 2006, ao completarem-se trinta anos da morte de Jango é que foi percebido um movimento de renovação dentro da historiografia, ao desmistificar, até certo ponto, as consequências que propiciaram o golpe, inseridos no pensamento contemporâneo brasileiro, como a personalização/individualização da causa, o determinismo econômico com enfoque em bases estruturalistas, apoiadas no dogma (camuflado de marxismo) que pregava a crise do populismo como explicação para o golpe. Ou até mesmo visões conspiratórias que buscavam entender os acontecimentos como interferências estrangeiras para a queda de Goulart e a ascensão do regime ditatorial, que acabou por inaugurar o regime de exceção em que o Brasil se ambientou por cerca de 21 anos. 

Não somente apresentando a biografia de Jango, Jorge Ferreira propõe um interessante debate historiográfico acerca das diversas vertentes e possibilidades em que foram construídas as representações de João Goulart ao longo dos anos. Apresenta e debate as correntes historiográficas, contudo, sem impor ao leitor alguma verdade em torno da corrente que acha certa. O personalismo na história, onde a culpa do golpe seria apenas de Jango, segundo o autor, simplificaria ao extremo uma conjuntura que se apresenta extremamente complexa. 


Goulart não viveu sozinho o tempo da experiência democrática: foi mais um, entre tantos atores sociais e tantas dinâmicas que ocorreram simultâneamente no processo histórico em questão. Por isso, Jorge Ferreira procura questionar o ponto de vista de outros biógrafos de Jango – como Marco Antonio Villa (historiador e professor de história na Universidade Federal de São Carlos), que publicou “Jango, um perfil (1945-1964)” -, que preferem a culpabilização da personagem central do livro, como explicação para todos os males que ocasionaram os eventos de 31 de março de 1964. 

Se a individualização é questionada, o estruturalismo e o determinismo econômico, exponenciados na visão de alguns autores como Guillermo O´Donnel e Fernando Henrique Cardoso, que buscam entender os acontecimentos de março de 1964 como oriundos de um processo histórico que desencadeou o colapso do populismo no Brasil também é cabível de reflexão nesta obra. 

Como explicar então que não ocorreu um golpe militar no Brasil, apenas que o processo de industrialização avançado, por substituição de importações, levou a um acúmulo de capital e consequente crescimento econômico onde fez-se necessário o surgimento de um regime autocrático para regular os conflitos gerados? Na visão desses autores, o que ocorreu foi a crise de acumulação de capitais ou simplesmente crise do populismo. 

Populismo, um termo tão próximo de nossa realidade como também emblemático, já que ao longo das décadas de 1970 e 1980 adornou-se de um negativismo que procurava identificá-lo como praxis nociva no processo histórico, não só no Brasil, mas também em Nuestra America. Bastaria então a aproximação do líder político e burguês, corrupto e manipulador das massas – como Perón, Vargas, o próprio Jango, entre outros – para ser identificado como populista. Um mentiroso e ardiloso, que buscaria somente seu próprio sucesso em detrimento do subdesenvolvimento de seu povo. No entanto, como explicar que também Jânio Quadros, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda – igualmente próximos das massas – não pudessem merecer a mesma nomenclatura política?
 
Além de procurar contribuir para o entendimento da figura de Jango, a presente obra de Jorge Ferreira busca emergir uma nova forma de abordagem da biografia, desconstruindo a idéia da oposição entre indivíduo e sociedade, e como bem lembra Vavy Pacheco Borges, “o ser humano que só existe dentro de uma rede de relações“. 

Agindo como continuidade do movimento historiográfico surgido então, como já mencionado, em 2006, quando Marieta de Moraes Ferreira (historiadora e professora de história da UFRJ e CPDOC) publicou e organizou o livro “João Goulart. Entre a memória e a história” e no ano seguinte, o próprio autor juntamente de Angela de Castro Gomes (historiadora e professora do CPDOC e da UFF) organizou a obra “As múltiplas faces de Jango“, aqui João Goulart surge para o leitor não somente no período em que ocupou a vice-presidência de JK ou de Jânio, ou então seu período como presidente da República – que proporcionou o início do regime de exceção no Brasil. 

 
Busca-se o resgate da figura de Jango como deputado, como secretário de Estado (no Rio Grande do Sul), como Ministro do Trabalho (e principal herdeiro do legado de Vargas) e também, no crepúsculo de seus dias, como pecuarista no exílio uruguaio e argentino. 

Embora o objetivo delineado pelo autor seja o de não buscar retratar o biografado de forma positiva ou negativa, apenas mostrando suas ambiguidades, fica claro que sua posição busca o resgate, na maior parte da leitura apresentando Jango positivamente ao leitor. Entretanto, tal recurso não é pecado, já que a obra foge ao lugar-comum dos trabalhos que até então se propuseram a desempenhar o papel de biografias sobre Jango. 

Enquanto a maior parte busca, na verdade, analisar as crises vividas por seu governo (a renúncia de Jânio, os militares que não queriam deixar Jango, vice-presidente, assumir, a rede da legalidade instaurada por Leonel Brizola na tentativa de legitimação do poder, garantido pela Carta de 1946, e por conseguinte, a crise de 1964), Jorge Ferreira aborda a trajetória da personagem, do nascimento ao exílio/morte. Esse percurso é esquecido pelos livros didáticos escolares, seja por abordarem o período em que esteve na presidência de forma bastante superficial ou, como já mencionado, pela visão negativa do conceito de populismo, em sua maior parte identificado com Jango.
 
Falar de João Goulart perpassa outros pontos, pouco abordados pela historiografia. É falar do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e seu surgimento, em 1945, com o objetivo de atuar na incorporação dos trabalhadores no cenário político brasileiro, de ser o partido com trânsito livre entre as esquerdas e os sindicatos. Ao assumir a presidência do PTB, nos anos 1950, Jango refundou o partido, adequando-o às propostas que eram decorrentes do ambiente que nascia no mundo da Guerra Fria: promover o nacional-estatismo, em defesa da soberania nacional mantendo independência e distanciamento dos centros financeiros internacionais, expandindo o setor público, reduzindo a desigualdade social entre os brasileiros e principalmente naquilo que se transformou na maior bandeira, quando esteve à frente da Presidência da República: as reformas de base – conjunto de reformas que, se implementadas, transformariam a sociedade brasileira, visando um país com Justiça Social.
 
João Goulart é apresentado na presente biografia, a todo momento, como conciliador. Era o ministro que conversava. O ministro que despachava até altas horas no ministério do Trabalho ou em sua casa. O ministro que recebia sindicalistas, que atuava no sentido de apagar incêndios entre os sindicatos e os empresários. Era o presidente que conversava de igual para igual com o povo, desprovido de rituais, cerimônias e da liturgia do cargo para ajudar quem o procurasse. 

Conciliação, termo positivo, perfeitamente adequado a Goulart, que lhe garantiu ascendência e popularidade como ministro, mas que a partir de sua trajetória como presidente passou a ser sinônimo de desqualificação. 

A partir dos anos 1960 ocorreu a deterioração do conceito de conciliação, sendo que o discurso e a maneira de atuar ficaram ultrapassados, no meio do embate entre direitas e esquerdas, que atuaram de forma a desqualificar a experiência democrática brasileira nos anos anteriores. O tom de radicalismo, nas exacerbações, não ocorreram apenas pelas direitas, que agiam a todo instante buscando a ruptura constitucional, mas também pelas esquerdas, que na busca pela implementação das reformas de base (na lei ou na marra), atreveriam-se até a subjugar as instituições democráticas. Para as esquerdas, se as reformas não avançavam, era culpa das instituições, que eram conservadoras, e da Constituição de 1946, ultrapassada.
 
E porque então as esquerdas estavam tão insufladas, acreditando no sucesso de suas reivindicações? Segundo o autor, experiências anteriores, como a crise de 1961, que mesmo contornada pelo parlamentarismo, proporcionou que João Goulart assumisse a presidência (ainda que tutelado por um conselho de ministros), e o plebiscito de 1963, que devolveu a Goulart a presidência, com poderes executivos, credenciaram as esquerdas a acreditar que em 1964 as reformas seriam implementadas. 

Entretanto, conforme o autor, se em 1961 as esquerdas atuavam em busca de garantir a legitimidade da constituição (não por reformas econômicas e sociais), em defesa dessa constituição, estando setores da direita propensos a dar o golpe, o inverso ocorreu em 1964: as direitas imbuídas do discurso tradicionalista, buscavam a manutenção da ordem, e as esquerdas, na luta obsessiva pelas reformas cogitavam atropelar as instituições, fechando o Congresso.
 
Atuando então como resgate da personagem, desmistificando certos vícios que as décadas foram capazes de fazer surgir e se propondo a dar a continuidade a uma série de publicações que transitam em torno do ator social não desprendido do restante da sociedade, mas inserido numa dinâmica muito mais complexa, a biografia de Jango, mesmo fazendo emergir a imagem positiva do ministro que conversava, mostra a outra faceta da personalidade: o presidente que foi incompreendido, pelas direitas e pelas esquerdas, por ser conciliador.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Decálogo de Gestão Rubro negro


Em um dos primeiros posts deste Ouro de Tolo, escrevi uma espécie de "Decálogo de Gestão" rubro negro, com algumas sugestões de medidas que melhorariam bastante a precária administração do "Mais Querido". 

Incrivelmente, o texto ainda está bastante atual. Trago aqui uma versão revisada e ampliada, de forma a contribuir com a melhoria dos aspectos administrativos. Vale lembrar que o novo contrato da televisão, em que pese ter sido aquém do que se poderia, traz o clube a um novo patamar financeiro. Espero que seja bem utilizado para garantir um futuro auspicioso ao Flamengo.

São algumas pequenas idéias que nem precisam, necessariamente, da troca de Diretoria ou de reformas estatutárias para serem implementadas. Com pequenas adaptações, serviriam também para muitos clubes brasileiros.

1) Gerenciamento de Contratos:

Esta é uma idéia simples e que evita muitas dores de cabeça. Trata-se de manter um controle de todos os contratos que o clube tem, com principais cláusulas, datas de pagamento e de término do contrato.

Evitaria, por exemplo, o problema ocorrido na troca do fornecedor de material esportivo. Bastava ter notificado judicialmente o anterior na primeira falta de material registrada. Na hora em que quis romper o contrato, bastava apresentar as notificações.

Outra vantagem é permitir que se tenha um controle de todos os contratos de materiais e serviços, em especial na construção do CT (Centro de Treinamento). Isto evita redundâncias e permite que se façam grandes contratos de material, com economias de escala.

2) Planejamento Plurianual:

No início de cada gestão, estabelecer metas e previsões orçamentárias para cada setor do clube, com a respectiva cobrança, para os três anos.

Assim se evita o "barata voa" que ocorre todo meio de ano no futebol, onde muitas vezes acaba se contratando sem critério - gastando muito mais. Também evita as famosas "contratações emergenciais", que deixam muitas dúvidas sobre tais transações.

3) Adequação Orçamentária:

Não se tem como montar um time caro e estar cheio de penhoras ou sem o CT construído. Listar as despesas fixas - dívidas, penhoras, estrutura et alli - e, a partir daí, determinar o teto orçamentário do futebol.

Vale lembrar que de acordo com o último balanço o clube deixou novamente de pagar impostos federais e estaduais. Este é um processo de consequencias bastante nefastas mais á frente.

Se o clube só tem grana para uma folha salarial de R$ 500 mil, que seja.

Outro ponto é respeitar o orçamento anteriormente feito, ou fazer um se não houver. Planejamento é tudo.

4) Estrutura

Um CT estruturado se faz fundamental, para dar tranquilidade de trabalho, evitar os corneteiros e se trabalhar em tempo integral. O Ninho do Urubu já é sede dos treinos mas há muito a ser feito.

Ah, não tem dinheiro ? Busca através de parcerias, ou de sócio torcedor. O marketing está aí para isso. Vale lembrar também que parte do valor das luvas do novo contrato de televisão - estimadas em pouco mais de R$ 40 milhões -  pode ser perfeitamente utilizado para terminar a construção do Ninho do Urubu.

5) Profissionalização das Pessoas

Se não dá para profissionalizar a gestão, pelo menos as pessoas. Contratar por competência. Afastar pessoas que tenham outros interesses no futebol. Montar uma estrutura que permita um mínimo de organização.

Infelizmente, este é um ponto que parece ter piorado muito na atual gestão de Patrícia Amorim. Basta ver que o responsável pelo futebol hoje, na prática, é o Vice de Finanças Michel Levy - e isto é uma aberração.

6) Marketing

Trazer realmente o torcedor para junto do clube. Fazer "visitas guiadas" à Gávea. Estabelecer um bom relacionamento com os parceiros do clube, estruturando uma relação "ganha-ganha". Infelizmente, hoje a política é de que o torcedor "quanto mais longe estiver, melhor".

O trabalho feito é muito ruim. Basta ver o tempo em que o clube está sem um "patrocinador master" para a sua camisa de jogo. A inação e a acomodação são a marca do marketing rubro negro - e isto desvaloriza tremendamente a marca que deveria ser valorizada pelo que é: a mais importante do futebol brasileiro.

A verdade é que qualquer estagiário do terceiro período de marketing conseguiria fazer melhor... Por outro lado, a impressão é que financeiramente o clube está vivendo de antecipações de cotas televisivas - o que a médio prazo é uma "bomba relógio".

7) Buscar novas fontes de recursos

Trabalhar o torcedor a fim de que este possa consumir produtos do clube. Buscar estrutura através de parcerias.

8) Estudar os "benchmarks"

Quem é os líder do processo aqui no Brasil? O Inter. Conhecer, visitar, aprender, ver o que pode ser feito e o que podemos aprender com cada um deles.

Eu mesmo já relatei aqui minhas visitas ao Atlético-PR e ao ABC de Natal. Uma passagem aérea para Curitiba ou Natal não sai tão cara. O time nordestino, recém promovido à Série B, tem um modelo de marketing muito melhor que o nosso.

A Diretoria deveria se envergonhar disso.

9) Um bom projeto de sócio-torcedor

Um projeto de sócio torcedor que dê prioridade e descontos em ingressos, descontos em produtos oficiais do clube e em produtos de parceiros e direito - ainda que com limitações - de voto pode angariar de forma conservadora 50 mil novas inscrições, tomando por base os números de projetos como o vascaíno ou mesmo o do ABC - que tem cerca de sete mil sócios.

Cobrando-se uma taxa de inscrição de R$ 100 (parceláveis) e uma mensalidade de R$ 80, são, por baixo, R$ 4 milhões mensais de receita, com R$ 5 milhões de entrada imediata.

Resolve-se o problema das dívidas e se banca boa parte dos custos do clube, sem depender de outras fontes de renda e sem estabelecer relação de "mendicância" com a televisão.

Outra possibilidade, que não exclui a do sócio-torcedor, é a criação de um "torcedor oficial', com mensalidade mais baixa, carteirinha e descontos em produtos oficiais - em menor escala que o sócio-torcedor.

A questão é que a atual diretoria pretende fechar ainda mais a já corroída estrutura de poder do clube, inclusive restringindo o direito de voto na mais recente proposta de reforma do Estatuto - e isso significa manter o torcedor o mais afastado possível.

10) Transparência e Governança Corporativa

Transparência de gestão. Controles internos. Contas na internet. Isso é o básico, pois traz credibilidade.

O balanço patrimonial do clube, além de irreal, não prima exatamente pela transparência. Sejamos justos: ainda que de forma bastante atabalhoada o atual presidente do Conselho Fiscal tem tentado fazer valer a sua função no clube. Entretanto, isso é muito pouco.

Reafirmo que não apóio quaisquer das correntes políticas do clube e defendo que novas pessoas, com idéias novas, possam influir em seus destinos. Me preocupa sobremaneira a falta de renovação de quadros: de 1977 para cá as únicas novidades na política interna do clube foram Kleber Leite, Edmundo Santos Silva e Patrícia Amorim, que não significaram, necessariamente, revoluções administrativas - muito pelo contrário.

Não é exagero dizer que o clube basicamente ainda é gerido da mesma forma que em 1980 - e isso, hoje, é inaceitável.

(Foto: Pedro Migão, 2008. A sede do clube não está muito diferente hoje)

terça-feira, 26 de julho de 2011

O Neoliberalismo no Samba


Esta semana tivemos o sorteio do desfile de 2012 das escolas pertencentes à Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Aescrj). Hoje esta entidade responde pelas agremiações dos grupos C, D e E do carnaval carioca - respectivamente o quarto, o quinto e o sexto grupos do carnaval carioca.

Entretanto, a ordem assignada nem é a questão mais importante nesta situação - embora tenhamos futuramente um post com todos os grupos. Mas sim uma medida que eu chamaria de implantação do "neoliberalismo" no samba carioca: as mudanças na regra do rebaixamento destinadas a estabelecer um fechamento compulsório de agremiações até 2014. Isso mesmo, caro leitor: nada menos que dezoito agremiações serão forçadas a fechar suas portas de forma compulsória nos próximos três anos - ou virar bloco, o que na prática acaba dando no mesmo.

Explicando ao leitor que não vive o dia a dia: decidiu-se, sob determinação anterior da Riotur (o órgão que deveria fiscalizar e regulamentar o carnaval, mas que na prática somente se envolve onde não deveria) que somente poderiam haver sessenta escolas de samba no Rio de Janeiro, em todos os grupos. Para o leitor ter uma idéia, até o ano passado eram 75 e hoje são 72.

A plenária da última segunda feira decidiu que nos Grupos de Acesso D e E (quinto e sexto, respectivamente) serão rebaixadas seis escolas por ano até 2014, com ascenso de uma agremiação somente em cada um destes desfiles. As escolas "rebaixadas" do último grupo tem duas opções: filiar-se à Federação dos Blocos de Enredo (onde a campeã ganha o direito de virar escola de samba e desfilar no Acesso E) ou simplesmente fechar.

Vale lembrar que blocos de enredo e escolas de samba são duas manifestações totalmente diferentes, com formações diferentes e estruturas diferentes. Blocos não são "mini-escolas de samba". E não é exagero imaginar que todas as escolas do atual Acesso E estão fadadas à extinção, ainda que sobrevivam ao corte no primeiro ano.

O argumento é que com menos agremiações o dinheiro referente à subvenção do Estado pode ser dividido por menos escolas e assim "melhorar o espetáculo". Vale lembrar que a exposição destes grupos, que desfilam na Intendente Magalhães, é mínima, então não há possibilidade de patrocínios, parcerias de vulto ou coisas semelhantes. A realidade é completamente diferente do Grupo Especial e mesmo dos Acessos A e B: escola endinheirada nestes grupos da Intendente é escola de "patrono" - normalmente com fonte de recursos de origem ilegal.

Evidente que nestas escolas há dirigentes que simplesmente pegam a subvenção e somem com o dinheiro, sem apresentar algo digno na avenida. Mas estes são minoria. As escolas destes grupos são bravas representantes de comunidades, que lutam com dificuldades devido à pouca verba e que expressam uma população que, várias vezes, somente tem o samba como forma de se reunir e se integrar.

Vale lembrar, também, que hoje temos agremiações que representam parcela importante da história etnográfica das escolas de samba, como a Unidos de Lucas, a União de Vaz Lobo e a Unidos do Jacarezinho, por exemplo. Além de escolas tradicionais como o Arrastão de Cascadura, o Acadêmicos do Engenho da Rainha e a Lins Imperial - ou ainda a Acadêmicos do Dendê, onde ganhei três vezes a disputa de samba enredo. Todas estas correm risco de serem "varridas do mapa", sem terem sua memória e sua história preservadas em nome de um pretenso "melhor espetáculo".

Na prática, o que se pretende é repetir nestes grupos a visão mercantilista hoje vista no Grupo Especial: o que importa é o espetáculo visual, com alegorias e fantasias como prioridade e tendo como foco o turista. O importante é o luxo e a riqueza, e somente os "mais aptos" sobreviverão. A decadência do gênero "samba enredo" tem muito a ver com isso também - embora não seja a única causa. Repete-se no samba o que vimos na economia na década de 90 e assistimos na sociedade hoje: o prelado dos mais fortes, a competitividade extrema, os recursos financeiros como um fim em si próprio.

Ao invés de se preservarem as tradições culturais e disponibilizarem melhores condições estruturais para as escolas decide-se que vinte e duas delas (em 2011 quatro já foram cortadas) simplesmente terão de fechar. E quem discordar que se queixe ao Bispo.

O leitor deveria conhecer um barracão de uma destas escolas. Normalmente são espaços improvisados e insalubres, onde o risco de um acidente sério e de danos à saúde é onipresente. Aliás, isto não é problema apenas destas escolas menores: mesmo as escolas do Acesso A, a segunda divisão do samba, sofrem com este aspecto - ainda mais agora onde nem o péssimo espaço que era ocupado (acima) foi retomado na justiça pela Cia. Docas. Fala-se em uma "Cidade do Samba do Acesso", em Benfica, mas ainda está no caminho das promessas.

As agremiações cariocas deveriam ser vistas, primordialmente, como o que são: uma manifestação cultural legítima da cidade. Profissionalizar a gestão é bom, mas sem a visão "neoliberal" de que o mais forte predomine, sem concentração de recursos em poucas escolas, sem visões anomalamente "empresariais" da questão. Nosso carnaval tem muitos problemas de estrutura, e não vai ser um "facão" despropositado e imposto que irá resolver estas questões - ao contrário, tende a piorar ao tornar ainda mais evidentes as mazelas.

No fundo, é reflexo do caráter cada vez mais autoritário que o carnaval carioca, em termos de escolas, vem adotando. Quem está nos grupos de cima só pensa em si e no que pode auferir de vantagens dentro desta visão mercantilista. O samba de enredo, a bateria, a expressão cultural são "passado" na visão de quem dirige a festa. Como dizia o falecido presidente da Viradouro José Carlos Monassa, "a raiz da escola é minha grana". É uma síntese perfeita do quadro.

Por isso que faço o apelo: salvem a cultura das escolas de samba! Salvem as escolas do Acesso!

Ainda há tempo.

Abaixo, o leitor pode ver a ordem de desfile destes grupos para 2012. Grave bem os nomes que apresento.

Grupo C (Domingo de Carnaval) 19 de fevereiro

1 - Independente de São João de Meriti
2 - Rosas de Ouro
3 - Lins Imperial
4 - Unidos da Ponte
5 - Império da Praça Seca
6 - Unidos de Vila Kennedy
7 - Arrastão de Cascadura
8 - Favo de Acari
9 - Unidos da Villa Rica
10- Em Cima da Hora
11 - Acadêmicos da Abolição
12 - Acadêmicos do Sossego
13 - Boi da Ilha do Governador
14 Unidos do Jacarezinho
15 - Unidos do Cabuçu

Grupo D (Segunda-feira) 20 de fevereiro

1 - Flor da Mina do Andaraí
2 - Unidos de Cosmos
3 - Vizinha Faladeira
4 - Acadêmicos do Engenho da Rainha
5 - Unidos do Anil
6 - Mocidade Unida de Jacarepaguá
7 - Unidos de Lucas
8 - Leão de Nova Iguaçu
9 - Acadêmicos de Vigário Geral
10 - Unidos de Manguinhos
11 - Gato de Bonsucesso
12 - Corações Unidos do Amarelinho
13 - Acadêmicos do Dendê

Grupo E (Terça-feira) 21 de fevereiro

1 - Canários das Laranjeiras
2 - Unidos do Cabral
3 - Boca de Siri
4 - Mocidade Independente de Inhaúma
5 - Paraíso da Alvorada
6 - União de Vaz Lobo
7- Matriz de São João de Meriti
8 - Chatuba de Mesquita
9 - Mocidade Unida do Santa Marta
10 - Delírio da Zona Oeste
11- Arame de Ricardo
12 - Imperial de Nova Iguaçu

(Foto: O Globo)

Juros e Câmbio. De novo.


O leitor do Ouro de Tolo deve ter percebido que venho batendo nesta tecla há tempos. Infelizmente, tenho de voltar ao assunto hoje.

Na última quarta feira o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciou mais uma elevação da taxa básica de juros, a Selic. Atendendo uma vez mais a pressões do mercado financeiro a taxa foi elevada em 0,25%, para 12,5% ao ano. Com isso, a taxa básica real de juros brasileira - descontada a inflação - passa a ser de aproximadamente 6,5% ao ano, a maior do mundo.

Tal medida foi tomada em vista de "supostas pressões inflacionárias". Entretanto, como já escrevi aqui, tais pressões são inexistentes de forma local e os fatores internacionais tem se abrandado. Nem mesmo um propalado "superaquecimento" da economia pode ser elencado, pois os números recentes já demonstram um claro desaquecimento - o crescimento da economia brasileira em 2011 não deve exceder 4,5% do PIB.

Parece claro que apesar da resistência inicial o Presidente do Bacen Alexandre Tombini capitulou às pressões de agentes de "mercado", secundados por setores da imprensa, para elevar a taxa e permitir uma vez mais aumento da remuneração a estes mesmos agentes. Como já escrevi antes, normalmente os Presidentes do Bacen encontram abrigo nestas instituições quando saem do cargo. Ou seja, não é de bom tom desagradar seus futuros patrões...

Vale lembrar, também, que existe uma espécie de "viés ideológico" nestes aumentos: juros são panacéia para qualquer problema da economia. Interesses pessoais - aumento de rentabilidade - travestidos de "viés ideológico".

Como corolário a esta despropositada e inconveniente subida da taxa - de cerca de 1,75% a.a em 2011 - temos uma vez mais nova apreciação do câmbio, este sim um problema sério. O dólar chegou na data de ontem a R$ 1,54, a mais baixa taxa desde a desvalorização cambial de 1999 - e com apreciação de quase 10% desde fevereiro deste ano. 

Com a elevação da diferença entre as taxas de juros internas e externas aumenta o atrativo para investimentos especulativos de curto prazo, e o aumento da entrada de dólares faz com que o real se aprecie ainda mais. A situação é dramática.

O câmbio está apreciado de tal forma que as indústrias brasileiras começam a perder competitividade não somente para exportar seus produtos como no mercado nacional. Setores inteiros de nossa economia estão sendo "varridos do mapa" por produtos importados que mesmo pagando as taxas e impostos devidos ainda são muito competitivos em nosso mercado. Isso ocorre porque os produtos importados entram mais baratos em real, e os nossos mais caros, devido à taxa apreciada.

Posso dar como exemplo o mercado de um determinado setor de peças automotivas, que não cabe aqui citar. Os produtos brasileiros, já fabricados com margem mínima, estão enfrentando a concorrência de produtos chineses que chegam ao nosso mercado por menos da metade do preço do produto nacional. Ou seja, o cenário a médio prazo é o fechamento de fábricas e sua substituição pelo produto importado - causando desemprego e dependência.

Usei o exemplo das peças, mas isto ocorre em setores inteiros de nossa economia. Vários deles hoje são "montadores" de kits chineses enquanto que outros simplesmente fecharam. Como escrevi anteriormente, "a inflação aleija, mas o câmbio mata". Recomendo a leitura do texto.

Falam-se em medidas do tipo "quarentena" para capitais externos, controles de câmbio e outras relacionadas. Entretanto, são paliativos que não resolvem o problema. 

A questão da apreciação do câmbio somente irá se resolver quando o diferencial entre as taxas de juros externas e internas se reduzir. Com isso se reduz a atratividade do nosso mercado de capitais aos agentes externos, diminuindo a entrada de dólares e consequentemente aumentando o "preço" do real em relação à moeda americana. E isto precisa ser feito rapidamente a fim de não destruir o setor industrial de nossa economia. Ou seja, necessita-se diminuir a remuneração do mercado financeiro, claramente privilegiado nas recentes decisões de política monetária.

Que fique o alerta.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Orun Ayé - "Quem Liga para a Seleção Brasileira?"


Neste final de domingo, início de uma nova semana, temos mais uma edição da coluna "Orun Ayé", do compositor e publicitário Aloísio Villar.

Hoje o tema é o crescente desinteresse da população com a seleção brasileira, afogada em um mar de grana, escândalos e, por assim dizer, uma certa arrogância.

Aproveito para disponibilizar neste post o vídeo do recente programa "Bola da Vez", na íntegra, com o jornalista Andrew Jennings. Não deixe de ver.

"Quem Liga para a Seleção Brasileira?

Essa é a pergunta que venho me fazendo há algum tempo. 

A seleção brasileira de futebol é um patrimônio do país. Algo que mexe com nossas emoções, nos dá alegrias e tristezas há mais de cem anos. Uma derrota épica como a de 1950, ocorrida para o Uruguai no Maracanã na final da Copa ou uma vitória como a de 1970 estão na história do Brasil com a mesma importância que a Independência do Brasil ou a proclamação da República. 

O brasileiro se orgulha de dizer que aqui é o país do futebol. Ninguém joga melhor que o brasileiro, como diz a música “com brasileiro não há quem possa”. A Inglaterra inventou o futebol como nós vemos hoje, mas quem fez desse esporte arte foi o brasileiro. 

Temos os melhores jogadores da história: Pelé, Garrincha, Zizinho, Didi, Gerson, Rivelino, Domingos da Guia, Zito, Coutinho, Ademir, Jairzinho, Tostão, Sócrates, Falcão, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaucho... são tantos que perdemos as contas. 

E a nossa seleção sempre foi a melhor mesmo perdendo. Lembro com cinco anos de idade a seleção na Copa da Espanha em 1982. 

Eu, na inocência da idade, torcia contra por causa dos fogos - que faziam muito barulho - e porque quando o Brasil vencia minha família saía de carro fazendo buzinaço por toda a cidade. Como recentemente tinha passado por um pequeno acidente de carro com minha avó ficava com medo.


Aquela seleção do Telê Santana perdeu, mas entrou pra história. Era o fim do futebol arte. [N.doE.: a seleção de 82, nitidamente inspirada no Flamengo então campeão mundial de 81, era taticamente inovadora. Foi a maior que vi jogar]

Em 1986 mais velho e entendendo melhor chorei com a derrota para a França. Em 1994, uma das maiores emoções da minha vida foi a conquista da copa. Poucas vezes chorei tanto quanto no momento em que Baggio perdeu o pênalti: era a realização de um sonho. Maravilhoso ver as pessoas mobilizadas por causa das copas, ruas pintadas, vizinhos em volta da TV vendo as partidas, os fogos, a vibração.

E onde está isso tudo agora?

Venho notando que essa situação vem diminuindo. Em 2002 ainda vi, mas em 2006 já foi menos, 2010 menos ainda e agora o Brasil participou de uma Copa América na qual os torcedores estavam mais preocupados com seus clubes que a seleção. Reclamavam que seus clubes perderam jogadores para ela e atrapalhava o horário dos jogos deles

Por que isso acontece? Por que o Brasil jogou uma partida eliminatória e na hora eu saí de casa pra ir ao cinema sem me preocupar? Vários podem ser os fatores.

O primeiro deles: s seleção hoje é internacional. Poucos jogadores atuam no Brasil, fazendo assim com que os torcedores não se habituem aos jogadores. Para piorar o quadro,  a seleção mal joga no país.


Mal joga no país porque hoje nós temos uma "Seleção Brasileira S.A.", onde o mais importante é o lucro da CBF e seu eterno presidente Ricardo Teixeira - que disse recentemente que não liga para a opinião pública nem para os órgãos fiscalizadores porque a CBF é uma entidade privada. Pode ser, mas a seleção é do povo, pelo menos era.

Falta de amor a camisa. Lembro de 2006 com Zidane “abrindo a chapelaria” em cima dos jogadores do Brasil, fazendo e acontecendo e eles 'nem aí'. No fim da partida, o país chorava a eliminação - enquanto isso, eles trocavam camisas e batiam papo. Os jogadores agora estão todos na Europa, são amigos, ganham milhões e estão mais preocupados com seus clubes. A seleção parece ser um fardo.

E o que dói mais no coração do brasileiro: hoje o Brasil não tem mais o melhor futebol do mundo.

Há algum tempo tem jogadores comuns que não sobressaem em seus clubes - o que faz o adversário perder o medo e o torcedor perder o orgulho e a alegria. [N.do.E.: times na base jogando no 3-5-2 e a preferência pelos mais fortes em detrimento dos mais habilidosos complicam o quadro]

A impressão que passa é que o povo está de saco cheio da seleção que lhe esnoba. Jogo comum do Brasil não mexe em nada: a seleção só chama atenção agora se ganhar copa, ganhar da Argentina ou passae vergonha como domingo passado. Mesmo assim gera piadas, não revolta.

A verdade que é um casamento em crise. Mas ainda dá para resgatar o “todos juntos vamos, pra frente Brasil, salve a seleção”. Mas para isso se faz necessário um processo de reconquista do brasileiro.

E acertar uns pênaltis que faz mal a ninguém...

Orun Ayé!

domingo, 24 de julho de 2011

Bissexta - "TV por Assinatura: Caro, Mas em Parte por Culpa Nossa"


E eis que temos mais uma coluna "Bissexta", assinada pelo advogado Walter Monteiro. O tema de hoje é algo que muita gente reclama, mas que também muita gente procede de forma incorreta através de "gatos" (acima): tv por assinatura.

TV por Assinatura: Caro, Mas em Parte por Culpa Nossa

Volta e meia uma discussão permeia o bar onde assisto jogos: por que é tão caro ter TV por assinatura? E que tal dar um pulinho ali na fronteira com o Uruguai (sim, para quem mora em Porto Alegre ir à fronteira são apenas algumas horas de estrada) e comprar um aparelho mágico, que capta o sinal do satélite gratuitamente? Todo mundo olha para mim, decano e coroa do grupo, em busca de respostas definitivas.

Infelizmente, eu não as tenho. Mas opinião sempre tenho e adoro compartilhá-la.

Em primeiro lugar, há sistemas de TV por assinatura que não são tão caros assim. Eu mesmo tenho dois deles. No escritório em que trabalho há um pacote básico, que pega apenas os canais abertos de VHF e UHF e custa, sei lá, uns R$ 30,00 por mês, em troca de uma qualidade excepcional de imagem. 

Na minha casa de campo tenho um sistema pré-pago: você coloca créditos que valem por 15 ou 30 dias. Nenhum dos dois sistemas me parece inacessível à classe média brasileira – vamos combinar que TV por assinatura é um produto para classe C em diante, porque no mundo inteiro é assim.

O problema é que a maioria das pessoas não quer a TV por assinatura apenas para melhorar a imagem do SBT ou assistir a TV Comunitária. As pessoas querem ver desenhos do Cartoon, futebol no SporTV, filmes na HBO. Aí é que entra o aparelhinho que intercepta o sinal de satélite.

Ilegal parece não ser, portanto, estejam todos à vontade para fazer uso do serviço. De acordo com meus rudimentares conhecimentos sobre o tema, o que uma operadora de TV faz é codificar o sinal de sua programação e instalar um decodificador na sua casa. Esse aparelhinho se encarrega de fazer essa decodificação. Claro que a operadora não é trouxa e de tempos em tempos ela muda o código.
Quando isso acontece, uma comunidade de hackers começa a trabalhar para achar a nova combinação, que, uma vez conseguida, é disponibilizada na Internet. Tudo o que a pessoa precisa fazer é baixar um programa com o novo código, copiar em um flash drive e reiniciar a traquitana.

Dois problemas: (i) embora relativamente simples para quem tem intimidade com a tecnologia, isso não é algo corriqueiro para a maioria das pessoas que conheço, que apanham para anexar arquivos em e-mails ou instalar impressoras - que dirá ficar cuidando de uma atualização de forma permanente; (ii), pode não ser ilegal, mas todos que usam o sistema tem a exata noção de que se trata de algo de duvidosa ética, uma espécie de versão reloaded do famoso “gatonet” das favelas.

Eu tenho filhas em casa, exemplos a dar. Prefiro me abster dessas espertezas: boa parte das mazelas brasileiras nasce justamente daí, da vontade ser mais esperto e mais malandro que o vizinho otário que paga (coitado) duzentas pratas por mês para a operadora.

Sem contar que o principal argumento das operadoras de TV para os altos preços que cobram é que a base de assinantes é muito pequena. Bom, se gente que pode pagar prefere investir em aparelhos “genéricos”, é fato que menos assinantes haverá e mais caro o serviço se tornará para os remanescentes.

Hoje cerca de 90 milhões de brasileiros moram em regiões atendidas por serviços de TV por assinatura, mas apenas 10 milhões fazem uso desse serviço. E do total de assinantes o estado de São Paulo responde por mais de 40% dos usuários. É pouco.

Dito isto, quero acrescentar que a explicação para os altos preços não se limita à minúscula base de assinantes que possuímos; mas sim a uma total desregulamentação do setor, que é, de longe, o que mais liberdade desfruta em toda a economia brasileira.

Para começo de conversa, vive-se um ambiente de falta de concorrência, embora as aparências digam o contrário. A NET possui 43% do mercado, a SKY 28%, a Embratel 13%, a Telefônica 5%, a OI 3,5%, o Grupo Abril quase 2% e o que sobra fica com pequenas operadoras locais. Quem vê esses números fica com a sensação de que se trata de um mercado bastante disputado.

Entretanto, quando se vai olhar para a composição societária dessas empresas, o que se encontra é um enorme conglomerado, com empresas se comunicando entre si. É o melhor exemplo do chamado “capitalismo de laços” brasileiro, que rendeu um ótimo livro à disposição nas boas livrarias.

A NET pertence à Globo, que também era acionista controladora da Sky Brasil. Alguns anos atrás a Sky Brasil se fundiu à DirecTV e agora se chama apenas SKY, com o controle nas mãos de Rupert Murdoch (dono da News Corporation, ou seja, da Fox, do New York Post, do The Times, etc) e da Globo. 

Bom, só por aí já da para notar que a Globo controla mais de 2/3 do segmento de distribuição. Mas ainda não acabou...

A Embratel, que vem em terceiro lugar, é sócia da NET com quase 40% do seu capital! Ou seja, 85% do mercado de TVs por assinaturas pertence, em última análise, ao mesmo grupo empresarial. Uma concentração brutal e altamente lesiva aos consumidores, porque não há espaço para a prática de preços diferenciados.

E isso nem é o pior...

A TV Globo possui a liderança esmagadora da audiência dos três principais produtos de televisão, quais sejam: novelas, eventos esportivos e jornalismo. Faço a ressalva de que em minha opinião pessoal essa liderança foi conquistada dentro de um cenário de competição razoavelmente legítimo, porque há concorrentes que a enfrentam.

O drama, entretanto, é que nenhum país poderia permitir que alguém que detivesse uma liderança tão acachapante na produção de conteúdo pudesse explorar também a distribuição desse conteúdo. E ainda que permitisse deveria criar regras claras, como obrigar ao distribuidor do sinal de TV paga que transmita a totalidade da programação aberta e também impor ao produtor de conteúdo aberto que franqueie sua programação a qualquer distribuidor pago.

No Brasil, infelizmente, acontece exatamente o contrário: tanto a Globo cria embaraços para liberar sua programação a quem não seja seu parceiro, como a NET corta o sinal de TVs concorrentes. 

Eu próprio passei por essa experiência. Foram na minha casa a pretexto de “atualizar” o meu decodificador. A única coisa que fizeram foi cancelar a programação da Record News, que é aberta, ainda que em UHF. O máximo da cara de pau!

É nessas horas que eu digo que a TV por assinatura é cara, mas parte da culpa é nossa também. E nem tanto pelos decodificadores genéricos.

Todas as vezes que alguém cogitou debater publicamente uma regulamentação nesse setor, ele foi violentamente atacado pelo Jornal Nacional, pela Revista Veja e pelo resto da imprensa conservadora. A justificativa é de que se estaria tentando implantar a censura, atacar a liberdade de expressão, calar a imprensa livre e outras bobagens. E praticamente todo mundo acreditou nesses argumentos toscos.

Uma pena.  Enquanto os brasileiros estiverem de prontidão para cerrarem fileiras na defesa dos interesses empresariais dos donos do entretenimento, eles estarão livres para cobrar o que bem entenderem, impedir a chegada de novos competidores, decidir o que podemos ou não assistir.

É isso que costumo dizer ao pessoal no bar: primeiro se decidam se querem continuar a render loas ao baronato midiático ou se querem mais competição no setor. Eu já me conformei, pago meus duzentos e tantos reais por mês, mas pelo menos tenho o consolo de saber que é o preço de viver em uma sociedade que aceita viver como vaquinha de presépio da mídia brasileira.

sábado, 23 de julho de 2011

Do pouco um tudo e vice versa – "E o AI5 digital, hein?"

(Crédito: Vídeo oficial da campanha #MegaNão)

Neste sábado, com atraso - culpa do editor deste blog - temos mais uma "Do pouco um tudo e vice versa", assinada pela produtora cultural Thaty Moura. O tema de hoje é algo que interessa muito a todos nós: a discussão do projeto de lei que institui uma espécie de "mordaça" na internet brasileira.

Do pouco um tudo e vice versa – E o AI5 digital, hein?

Na quarta-feira retrasada ( dia 13), o Projeto de Lei 84/99 foi tema de audiência pública realizada na Câmara dos Deputados. Mas o que esse projeto tem a ver com o tema dessa coluna?

O PL 84/99, de autoria do então deputado Luiz Piauhylino (PSDV-PE), tramita desde 1999 e tipifica crimes cometidos no âmbito da informática. Em 2008, o Senado aprovou um substitutivo ao texto, apresentado pelo então senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Este substitutivo acrescenta ao projeto original vários dispositivos de controle e monitoramento da navegação dos usuários na rede.

Monitorar e CONTROLAR a navegação dos usuários na rede?

Acho que em outros tempos, em outros meios de comunicação, vivemos algo bem parecido, não? Não é por acaso que o substitutivo de Azeredo é conhecido entre os ativistas e entidades da área de comunicação como “AI-5 digital”. Controlar a internet é sinônimo de censurar a internet. E pela constituição brasileira, censura é crime, não?

Agora virão me questionar: “Mas  e os crimes da internet, Thaty?”. Eu pergunto a vocês, quais crimes?

Pedofilia? Já tem punição prevista na lei. Roubo? Também já é punido. A legislação brasileira não restringe as punições aos locais onde são cometidos os crimes, ou seja, pedofilia e roubo são crimes em qualquer ambiente que sejam cometidos.

Durante a audiência do dia 13, o “AI-5 digital” recebeu duras críticas de expositores e parlamentares, além de movimentar a rede social mais agitadora no Brasil, o Twitter. 


(Foto: Twitter Oficial do movimento Música Para Baixar)

Além de todas as articulação midialivristas existentes, organizou-se a campanha "Mega Não". A proposta, de acordo com o site oficial da campanha, “é ser um meta manifesto, um agregador de informações e de diversas manifestações na Internet e fora dela, com o objetivo de combater o vigilantismo. Diversos núcleos ciberativistas estão surgindo e aumentando o discurso e a pressão popular contra o vigilantismo, tentar agregar, fomentar e ajudar a divulgar estes eventos é a nossa proposta”.

Eu escolho dar um "Mega Não" para toda e qualquer forma de censura, e vocês?

Nos vemos na próxima coluna.

Fontes:

Câmara dos Deputados
Site do Mega Não
Site do Paulo Teixeira