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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

História e Outros Assuntos: "Os Historiadores e as redes sociais"

 
Nesta quarta feira, a coluna “História e Outros Assuntos”, do Doutorando (CPDOC/FGV) e Mestre em História (UNIRIO) Fabrício Gomes, versa sobre a influência da internet e das redes sociais no ensino, além de propor um debate sobre o papel do professor na sala de aula.

Os Historiadores e as redes sociais

Vivemos no admirável mundo das novas tecnologias. A internet, que desde meados dos anos 1990 vem brindando os cidadãos com a facilidade de pesquisar qualquer coisa, em qualquer hora do dia, veio realmente para ficar. Redes sociais, Twitter, Facebook e Blogs são ferramentas que estão somadas a esse "pacote" de benefícios.

Hoje, uma criança mal acaba de nascer e é apresentada a tudo isso, compulsoriamente. Entretanto, ao mesmo tempo em que é um benefício, pode também ser prejudicial, principalmente no que tange à questão das crianças não terem mais tempo de fazer algo que é fundamental nesses novos tempos - e justamente que acaba por ser o diferencial nos momentos decisivos - como provas, concursos, entrevistas, entre outros: a capacidade de raciocinar. 

Somos apresentados a idéias pré-concebidas. Já lecionei para alunos que, diante de trabalhos em grupo, automaticamente recorriam ao Google e ao Wikipedia e simplesmente utilizavam o famigerado recurso do "Copy/Paste". Pior: longe deles lerem o que estavam clonando, o que dirá raciocinar sobre as idéias contidas no texto. E se eu sofisticasse os exercícios um pouquinho mais, havia uma brecha comumente utilizada por eles: a decoreba.

Esta introdução, que parece rechaçar o conceito de modernidade do tempo presente, não tem esse propósito. Muito pelo contrário.

Sou um fã da web, estou praticamente conectado 24 horas por dia, todos os dias, seja no notebook, no smartphone ou no iPad. Mas justamente por perceber que o mundo de facilidades que a tecnologia nos oferece é provido de armadilhas - que a longo prazo podem ser terríveis às novas gerações, torna-se premente uma análise mais detalhada sobre o processo de aprendizagem que temos atualmente nas instituições de ensino.

É fundamental uma atenção especial ao papel dos historiadores e professores de história nesse contexto. Especialmente, avaliar a formação de professores de história e pesquisadores, que saem das universidades "prontos" para um mercado de trabalho concorrido e saturado.

E transversalmente novas questões como por exemplo, o quão úteis são as redes sociais para os historiadores na disseminação do conhecimento? Como se dá a relação entre alunos e professores na utilização desta ferramenta? Como lida o historiador com as questões do tempo presente, que surgem a cada segundo na web? E por fim, pode o historiador tecer uma opinião sobre os atuais acontecimentos?

No período em que cursei os antigos primeiro e segundo graus - que foi imediatamente posterior à abertura política pós-ditadura, tive alguns professores de história (e acreditem: até professores de física!) que não mediam esforços em emitir opiniões políticas.

Reinava certo revanchismo aos militares e também a quem tinha apoiado aquele sombrio regime de exceção. Tive até um professor que fazia propaganda política nas aulas de Educação Moral e Cívica, para candidatos de "esquerda". Eu desde cedo questionava se era papel do professor fazer isso ou simplesmente lecionar, oferecendo aos alunos subsídios e possibilidades para o raciocínio, por eles mesmos, do cenário político pré-1964 e os desdobramentos causados pelo golpe civil-militar.

Realmente cabe a questão, que merece um aprofundamento. Professor pode, sim, ter uma preferência política e ideológica como bem entender. Professor não é um tirano, distante e que fica intransponível atrás da mesa.

A imagem do professor que "cobrava" a tabuada, corrigia o caderno de caligrafia com extremo rigor, que utilizava a decoreba com os alunos e que dava "bolos", calejando as mãos dos alunos inofensivos é coisa dos séculos passado e retrasado. Professor é um ser normal como qualquer outro, com emoções, qualidades e defeitos.

Mas creio que o bom professor é aquele que não entrega a matéria de bandeja aos alunos. Bom professor é aquele que incentiva o raciocínio. É aquele que "não oferece o peixe, mas a vara de pescar". É o que faz os alunos pesquisarem temas, não apenas copiar e colar textos do computador. Por fim, bom professor é aquele que oferece conteúdo, mas sabe cobrar a análise de questões exponenciais inseridas num contexto.

Quando dei aulas para turmas do ensino fundamental, percebi que os alunos não gostavam de escrever no caderno. Quando eu me aproximava da lousa, eles praticamente imploravam para eu "maneirar", para não escrever muito. Não prendiam a atenção por muito tempo nos conteúdos aplicados.

E quem não gosta de escrever também não gosta de... LER.

Talvez esse seja o principal ponto para a carência de raciocínio: a falta de hábito de leitura, não incentivada por professores que: 1) Estão preocupados apenas em cumprir a ementa dos cursos e o cronograma de aulas; e/ou 2) Professores que procuram incentivar a leitura, mas sofrem naturalmente pressões da direção das instituições de ensino (privadas) - mais interessadas no processo mercadológico - $$$ - para que aprovem alunos.

Uma terceira possibilidade se apresenta: a falta de um trabalho que deveria ser feito na base, com alunos, fomentando as práticas de leitura, aos exercícios discursivos. Alunos são "pedras preciosas" que precisam ser lapidadas desde os primeiros anos de suas vidas escolares. Se a "pedra" chega "bruta" ao Ensino Médio, por exemplo, o trabalho do professor é triplicado. Ou ele reprova ou passa o aluno de ano, permanecendo com essa pendência Então surgem os novos desafios - entre eles, a adequação do ensino de história à realidade das redes sociais, altamente populares entre os jovens.

O trabalho não é fácil. Despertar nos jovens o mesmo interesse pela História que eles nutrem, por exemplo, pelo jogo "Angry Birds" (que eu nunca joguei e nem tive o mínimo interesse e paciência em jogar, apesar dos inúmeros convites - que acho chatíssimos - de amigos que recebo até hoje, diga-se de passagem), corresponde a uma tarefa ingrata, mas ao mesmo tempo desafiadora aos profissionais de História.


Uma questão que há um tempo foi discutida é se é saudável (e ético) professores dos ensinos fundamental e médio terem alunos entre seus amigos nas redes sociais. Particularmente não vejo problemas, desde que haja transparência e não se misture o público (no sentido do ensino como bem comum a todos) com o privado (a vida pessoal).

As ferramentas web precisam e devem ser incentivadas como forma paralela de aprendizagem aos alunos. Há uma infinidade de jornais e revistas que estão na internet, prontos a serem explorados e dissecados. Há livros e publicações gratuitas, disponíveis para download. Há filmes e documentários interessantes no YouTube, que podem ser utilizados como apoio às aulas. Há certo tempo criei um canal de videos sobre história no YouTube (clique aqui para acessar), voltado para alunos, pesquisadores e interessados no tema, sem qualquer tipo de propósito que não seja o de acrescentar novas oportunidades de aprendizado.

Por outro lado, tenho reparado certa intolerância entre professores e historiadores no que concerne à questão editorial de certos veículos de comunicação. Um professor de história deve recomendar a seus alunos que não leia determinada revista só porque esta tem um conteúdo editorial questionável? Ou deve incentivar que leiam, apenas para produzirem, em efeito comparativo, argumentos contrários àquela publicação? A questão é espinhosa - e rende polêmica.

Na semana que passou, tivemos o desaparecimento do arquiteto Oscar Niemeyer. Foi bom constatar o reconhecimento de vários jornais, revistas e sites internacionais ao legado de Niemeyer à humanidade, traduzido em suas obras arquitetônicas espalhadas pelo mundo, tendo na cidade de Brasília sua maior obra. Grandes homens são reconhecidos justamente pelo que deixam para a posteridade.

Mas um veículo teve uma opinião dúbia a respeito do grande Niemeyer: a revista Veja, mais precisamente seu colunista Reinaldo Azevedo, que o rotulou de "metade gênio, metade idiota". Não concordo com o colunista, achei totalmente desproposital e equivocado seu raciocínio - Niemeyer deve ser avaliado pelas obras produzidas, não pela sua ideologia, que, aliás, não podemos dizer se estava certo ou errado em defender. Mas defendo o direito do colunista de se expressar - e principalmente que os alunos leiam o que ele escreveu, mesmo que seja algo polêmico.

[N.do.E.: uma constatação: caiu muito o nível do pensamento conservador no Brasil. Ontem tínhamos Roberto Campos; hoje, Reinaldo Azevedo. A diferença é abissal.]

Vi comentários de profissionais de história nas redes sociais rechaçando a publicação e o que é pior: recomendando que amigos, alunos e conhecidos não lessem a revista, pois seria "perda de tempo".

Não cabe a mim ser árbitro nessa questão - cada um tem sua própria opinião e deve agir como bem entender. Mas questiono sim se é saudável essa atitude na aplicação da metodologia do ensino de história.

Que cidadãos iremos formar, se dizemos a eles para lerem apenas aquilo que concordamos? E o que não concordamos (por ideologia), não devemos levar aos alunos? Não seria interessante utilizar o referido texto de Reinaldo Azevedo em sala de aula e em seguida utilizar outro, em contraponto? Que tal incentivar aos alunos a análise dos dois textos e no final, promover com os alunos, um raciocínio sobre o que representou, de fato, Niemeyer para a história e a cultura brasileira?

No âmbito da pesquisa, a situação pode se agravar.

Já imaginaram um historiador se recusar a ler um artigo de Goebbels (Ministro da Propaganda de Hitler) só porque "acha" que o nazismo foi um período sombrio da história? Realmente foi, mas é período em que historiadores devem adquirir uma postura neutra de pesquisa.

Ou então ser intolerante aos textos de Francisco Campos (jurista cuja doutrina era anti-liberal e autoritária, responsável pela redação da Constituição brasileira de 1937), só porque ele era simpático ao Estado Novo? Revolução cubana? Se o professor de história for antipático ou simpático (ao extremo) a Fidel, já imaginaram o caos que seria a aula?

Esse tipo de sugestão está longe de se pautar por preferências ideológicas. Acredito que o professor de história, enquanto cidadão, tem todo o direito de ter opiniões - e deve tê-las. Mas a partir do momento em que entra em sala de aula deve ser neutro, apolítico e exercer um papel de mediador, provendo os alunos de recursos de aprendizado e como já escrito acima, incentivando a prática do raciocínio. Não devemos formar pessoas teleguiadas, com idéias pré-concebidas e preconceituosas.

[N.do.E.: não sou docente, mas não acho ruim o professor mostrar todos os lados e, ao final, indicar sua linha de opinião ou raciocínio. Que fique claro que é um pitaco]

Voltando ao ofício do pesquisador de história, essa idéia também é válida para aqueles que desejam escrever biografias e/ou trajetórias biográficas: se for antipático ao seu biografado, melhor nem começar a escrever. Não vai sair boa coisa.

E se for simpático a ele, é preciso ter muita atenção e comedimento, sob o risco de incorrer na ilusão e na utopia biográfica - termos cunhados respectivamente pelos sociólogos franceses Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron.

Nos novos tempos midiáticos, com as redes sociais se popularizando a cada dia que passa, essas questões merecem atenção. As novas ferramentas web devem corresponder a um bom caminho tangencial de aprendizado e não a um meio de intolerância e restrição de idéias que os profissionais de história simplesmente não concordam por opiniões particulares - e nem se dão conta que podem influir negativamente na formação de futuros cidadãos.

Novos desafios, novas questões se abrem, sem dúvidas, nesse sentido. Vamos ficar atentos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

História e Outros Assuntos: "Argo e a Revolução Iraniana Revisitada"


Nesta quarta feira, a coluna “História e Outros Assuntos”, do Mestre em história Fabrício Gomes, fala sobre a Revolução Iraniana de 1979 e a sua perspectiva a partir do filme “Argo”.

O colunista, a propósito, é autor do livro "Sob a sombra das Palmeiras: o ISEB, os militares e a imprensa (1955-1964)", que pretendo resenhar proximamente e que pode ser comprado aqui.

Vale lembrar aos leitores que a Revolução Islâmica, comandada pelo Aiatolá Khomeini, contava com amplo apoio popular na ocasião. Khomeini retornou do exílio em paris para assumir o poder literalmente nos braços do povo, que era contra o regime impopular comandado pelo Xá.

Embora não sejam livros específicos sobre o assunto, “Confissões de um Assassino Econômico” e especialmente “O Petróleo - Uma História mundial de conquistas, poder e dinheiro" (ambos já resenhados neste blog) traçam um excelente panorama da história iraniana no Século XX, que é muito interessante.

Petróleo, alias, que é indispensável para se explicar a história do país persa – e não árabe, como muitos pensam. Passemos à coluna, após a foto.


Argo e a Revolução Iraniana Revisitada

Em 4 de novembro de 1979, a embaixada estadunidense em Teerã foi invadida por centenas de estudantes iranianos e fundamentalistas islâmicos radicalmente contrários às interferências da política externa dos EUA no país, que vinham ocorrendo desde 1953, quando o Xá Reza Pahlevi fora restaurado ao poder no Irã com o apoio estadunidense e britânico – de olho nos interesses petrolíferos na região.

O Xá governava o país desde 1941, mas em 1953 deixara rapidamente o Irã, neste momento comandado pelo primeiro-ministro Mohammed Mosaddeq – um nacionalista, contrário às interferências estrangeiras no país e simpático à hierarquia islâmica xiita. Mosaddeq nacionalizara as companhias de petróleo e fizera Pahlevi abdicar. No mesmo ano, com forte apoio logístico dos EUA, o Xá retornou e reassumiu o poder que lhe fora temporariamente tomado.

O Xá governou o Irã com mão-de-ferro desde então, combatendo o clero xiita. Seu principal sustentáculo no poder era a Savak – sua polícia secreta -, responsável pela censura, por prisões, torturas, desparecimentos e assassinatos de opositores ao regime. Uma espécie de Guarda Pretoriana criada e concebida em 1957 com o auxílio da CIA, e que chegou a ter, em seus quadros, mais de 60 mil agentes, assombrando o Irã até 1979.

Em 1979 aconteceu a Revolução Iraniana, que aboliu o sistema de governo autocrático de Reza Pahlevi, substituído por uma República Islâmica. A principal crítica ao regime anterior, além da ditadura do Xá, residia na crescente ocidentalização do país, em progresso desde 1975, quando Reza Pahlevi decidira diminuir o papel do islamismo no cotidiano do reino, ressaltando as conquistas das civilizações pré-islâmicas, como por exemplo, a civilização persa.

 
Outra medida que sofria forte oposição entre os xiitas fora a substituição do calendário lunar pelo calendário solar. O governo iraniano tinha nos EUA seu maior fornecedor de armamentos e as únicas camadas sociais beneficiadas pelas reformas implantadas pelo Xá foram a elite e os funcionários de altos escalões que trabalhavam nas multinacionais do petróleo.

O regime feudal fora também abolido – com os líderes religiosos perdendo suas terras – e as mulheres passaram a ter direito a voto – fato encarado como uma afronta pelos xiitas. De tal modo que se agradava uma pequena parcela da população, por outro despertava grande indignação na maior parte do país. A população pobre era justamente a parcela mais religiosa e menos ocidentalizada.

A comemoração dos 2500 anos do Império Persa, em 1971, foi outra gota d´água em um copo que estava em vias de transbordar. Ao custo de cerca de US$ 300 milhões, as comemorações afrontavam o cotidiano dos mais pobres. Fontes apontam que entre as várias extravagâncias ocorridas, destaca-se o preparo de uma tonelada de caviar por 200 chefs vindos de Paris, entre outras.

Portanto, a Revolução culminaria em fevereiro de 1979, quando o Xá já não estava mais no país (deixara o Irã no mês anterior). O principal líder islâmico, que guiou o país para a adoção de um regime teocrático – um sistema de governo em que as ações políticas, jurídicas e policiais são submetidas às normas de alguma religião, podendo ser exercido direta ou indiretamente pelos clérigos de uma religião, foi Ruhollah Khomeini – o aiatolá Khomeini – exilado na França desde 1964.

 
Tudo isto serve como introdução ao filme “Argo”, dirigido por Ben Affleck. 

Quase trinta anos cruciais da história do Irã – e suas conturbadas relações com os EUA – são apresentados aos espectadores, logo no início deste filme, de forma didática e com imagens reais, da época, de modo que servem de introdução para a história (verídica) que o diretor quer mostrar: a invasão da embaixada estadunidense e os polêmicos desdobramentos ocorridos logo em seguida.

Estes culminariam (o filme não mostra isso) na derrota do democrata Jimmy Carter na reeleição à Casa Branca. Muitos analistas apontam que a desastrada tentativa de resgate dos 52 estadunidenses reféns, na embaixada, por helicópteros, na conhecida “Operação Eagle Craw” - que resultou na destruição de duas aeronaves e na morte de oito soldados dos EUA e um iraniano – foi fator que pesou para a vitória de Ronald Reagan naquele ano. Há indícios de que o próprio Reagan negociou com o governo iraniano para que a soltura dos 52 estadunidenses ocorresse somente após as eleições, o que de fato ocorreu – eles ficaram 444 dias reféns na embaixada.


A maior dificuldade que Affleck enfrentou para realizar esse filme é paradoxal: o pouco conhecimento público pela história – sim, esse episódio permaneceu secreto até recentemente. Também pesou o perigo de se cair na costumaz armadilha ufanista e patriota dos filmes produzidos nos anos 1980 – nos estertores da Guerra Fria (lembrando que sim, a URSS apoiou inicialmente a Revolução Iraniana) – e principalmente nos anos 1990 e anos recentes desta época, após o 11 de setembro, quando o "inimigo" passou a morar no Oriente Médio.

Em um tom absolutamente neutro, propondo-se a contar uma história desconhecida, “Argo” marca um gol de placa e chama a atenção para um episódio histórico pouquíssimo explorado e que desencadeou na época, internamente nos EUA, uma onda de repúdio a qualquer coisa que tivesse relação com o Irã.

Uma grata surpresa promovida por este diretor que em 1997, aos 25 anos, ganhou seu primeiro Oscar como roteirista de “Gênio Indomável”. Tudo no filme remete aos anos 1970, a começar pelo logotipo “retro” da Warner – utilizado na época, aos figurinos, aos tons de cores fidedignos àqueles anos.

Se ainda não viu, corra para assistir. “Argo” é um dos filmes que irão concorrer ao Oscar 2013.



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

História e Outros Assuntos - "Relatos de Videla"


Nesta quinta feira, a coluna “História e Outros Assuintos”, do Mestre em História Fabrício Gomes, encerra a série de posts sobre as ditaduras militares na América Latina.

O colunista, a propósito, é autor do livro "Sob a sombra das Palmeiras: o ISEB, os militares e a imprensa (1955-1964)", que pretendo resenhar proximamente e que pode ser comprado aqui.

Relatos de Videla

Dando início à 8ª Quinzena de Literatura Latino-Americana – desta vez com a temática da Ditadura Militar, a Livraria da Travessa do Shopping Leblon foi palco de um debate com Ceferino Reato, jornalista argentino que já foi redator de Política Nacional do Clarín, correspondente internacional da agência ANSA em São Paulo e assessor de imprensa da embaixada argentina no Vaticano.

Reato é também autor dos livros “Disposición Final: La confesión de Videla sobre los desaparecidos” (Sudamerica, 316 páginas) e “Operacion Primicia: El ataque de Montoneros que provoco el golpe de 1976” (Sudamerica, 392 páginas), sendo o primeiro o mais recente e justamente foco principal sobre o qual girou o debate.
O autor conseguiu entrevistar o ex-presidente Jorge Rafael Videla, general que comandou o golpe de estado na Argentina em 1976 e permaneceu no poder durante cinco dos sete anos em que durou o regime de exceção naquele país.



Videla, hoje com 87 anos, permanece preso pelos crimes que cometeu durante o tempo em que ocupou a presidência: tortura de presos, morte e desaparecimento de cadáveres. Isso sem contar o seqüestro de cerca de 400 bebês (apenas 107 bebês recuperados) – em sua grande maioria, entregues a famílias de empresários do setor de imprensa que apoiaram os militares, policiais e oficiais do Exército.

A entrevista do ex-presidente pode ser considerada uma proeza, já que praticamente não há literatura, documentos ou memória produzida por ex-presidentes militares na América do Sul (no Brasil, há um livro sobre o ex-presidente Ernesto Geisel, fruto de entrevistas com Celso Castro e Celina D´Araujo, do CPDOC-FGV).

Geralmente os ex-presidentes militares de Nuestra America ficam reclusos e não gostam de dialogar com o passado – que julgam ser uma temporalidade a ser esquecida. O próprio ex-presidente João Baptista Figueiredo foi autor da célebre e emblemática frase “Me esqueçam”, próximo de deixar o poder

Ceferino Reato iniciou o debate lembrando que o período entre 1973 e 1976, que antecedeu o golpe, foi marcado por extrema violência naquele país, principalmente aquele em que o governo esteve nas mãos de Juan Domingo Perón e posteriormente, com seu falecimento, de sua vice-presidente Maria Estela Martínez de Perón (ou simplesmente Isabelita Perón), sua esposa, que o sucedeu.

Segundo Reato, no ano de 1975 morreram aproximadamente 1.065 pessoas na Argentina (quase a média de 3 pessoas a cada dia), vítimas de assassinato político, fruto da duradoura guerra interna entre os sindicalistas e a Aliança Anti-Comunista. 



Naquele ano falava-se abertamente em um possível golpe de estado, que para muitos, era questão de tempo acontecer. E justamente esse período ainda permanece obscuro para a sociedade e o meio acadêmico formado por historiadores e cientistas políticos, já que com o solapamento do regime de exceção e o conseqüente recrudescimento da democracia, em 1983, o então presidente Raul Alfonsín prometera investigar apenas os crimes cometidos durante a ditadura.

O clima de instabilidade nacional era promovido pelo freqüente embate entre os Sindicalistas Montoneros (partidários do Peronismo, na crença da instauração do Socialismo Nacional, que consideravam a evolução natural do Peronismo) e os Sindicalistas Trotskistas, justamente com a perseguição da Aliança Anti-Comunista (AAA) – financiada por El Brujo Jose López Rega (ministro do Bem-Estar Social e bastante influente junto à Presidente). Este conflito, somado à alta inflação e ao forte poder dos sindicatos levou ao golpe militar, que contou com o apoio de amplos setores da sociedade.

A “justificativa”, segundo Videla, seria que havia uma grande quantidade de pessoas que deviam morrer para que a subversão fosse derrotada.

Para isso, num momento em que as algumas ditaduras de Sudamerica já se inclinavam para a distensão (caso do Brasil, em que Geisel promoveu uma distensão lenta, gradual e segura), e com a eleição do Democrata Jimmy Carter (defensor dos direitos humanos), a Argentina preferiu promover a tática do desparecimento de presos políticos e elementos subversivos, de modo a não ser comparada à ditadura do vizinho Chile - que assassinava e chocava a opinião pública mundial.

Videla não queria ser como Pinochet, que reprimia violentamente e era criticado mundo afora. Por sinal, ambas as ditaduras – argentina e chilena – tinham ótimas relações diplomáticas, atuando em regime colaboracionista – só interrompidas com a Guerra das Malvinas, que foi um ponto de inflexão entre os dois países, por causa do apoio do Chile à Inglaterra.

Durante os cinco anos em que foi presidente, o general Videla ocupou nos dois primeiros anos (1976-77) o comando de Chefe do Exército. Foram os anos mais duros da ditadura, tendo o ex-ditador assumido que “entre sete e oito mil pessoas foram mortas”. As organizações de direitos humanos discordam e preferem acreditar no total de 30 mil mortos, entre 1976 e 1983. Reato considera o número de 30 mil exagerado, sendo esta estimativa motivada mais por interesses políticos.

1976 foi o ano de apogeu do Exército argentino. Praticamente não houve protesto popular diante do golpe. Videla era católico e contou com apoio de vários setores da Igreja, inaugurando uma espécie de “golpe fundacional”.

Dez anos antes os militares já haviam ocupado o poder, e quando Perón foi eleito, em 1973, promoveu a anistia daqueles que foram perseguidos. Para Reato, embora empresários e a sociedade civil apoiassem o golpe, o regime instaurado a partir de 1976 foi o mais militar entre todos os que ocorreram na América do Sul, já que o Exército foi tomado de amplos poderes e percebeu que o golpe era fundamental para a “limpeza” da sociedade.

A mesma sociedade que referendou seus poderes mostrou concordar com o regime, indo as ruas e sentindo orgulho da nação, seja com a conquista da Copa do Mundo de 1978, realizada na Argentina – que obliterou o terror interno, a censura e os direitos políticos cassados, seja com o sentimento de ufanismo e patriotismo exacerbados com a solidariedade da população na Guerra das Malvinas, contra o inimigo – a Inglaterra.


Quando o general Leopoldo Galtieri, então presidente, discursou na sacada da Casa Rosada, em abril de 1982, declarando a entrada da Argentina na guerra, foi aclamado por uma multidão que se aglomerava na Plaza de Mayo – a mesma, que ano após ano vê suas Mães (que já viraram avós) protestarem contra o desaparecimento de seus filhos.

De sorte que nas batalhas de memórias produzidas, o historiador deve se posicionar cautelosamente diante do que é falado. O depoimento de Videla, embora seja de inestimável valor para entendermos o ponto-de-vista daqueles que ocupavam o poder (já que geralmente temos os relatos dos “vencidos” – guerrilheiros, presos políticos, vítimas da ditadura etc – merece ser observado talvez como a possibilidade de reabilitação do idoso general, hoje preso numa cadeia militar em Buenos Aires.

Uma das perguntas que fiz a Reato foi sobre o apoio de peronistas a Videla, na ocasião do golpe. O mesmo confirmou a informação, confirmando que o colaboracionismo existiu – tal qual o ocorrido em Vichy, na ocupação nazista, quando milhares de franceses apoiaram Hitler.



Muitos peronistas hoje, que se mostram contrários ao ocorrido em seu país durante a ditadura, não apenas apoiaram o golpe como também entregaram colegas de luta. É uma zona cinzenta da sociedade, pouco explorada, mas que seleciona suas memórias conforme lhe convém.

Disposición Final é um excelente relato de um ex-presidente hoje preso e condenado a morrer na prisão. Talvez só peque por não abordar a questão da Operação Condor – pacto político-militar feito entre os países do Cone Sul – Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. Mas serve para lembrar que os generais e autoridades que participaram dos horrores contra a democracia precisam tirar seus esqueletos dos armários.


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

História e Outros Assuntos - "Ditadura, história, memória e o conceito polissêmico de 'Democracia'”



Nesta quarta feira pré feriado, a coluna “História e Outros Assuntos”, do Mestre em História Fabrício Gomes, analisa o conceito de democracia na ditadura militar brasileira a partir das considerações do professor Daniel Aarão Reis.

O colunista, a propósito, é autor do livro "Sob a sombra das Palmeiras: o ISEB, os militares e a imprensa (1955-1964)", que pretendo resenhar proximamente e que pode ser comprado aqui.

Ditadura, história, memória e o conceito polissêmico de “Democracia”

Na quinta-feira (08/11/2012) tivemos mais um debate sobre a ditadura, desta vez com Daniel Aarão Reis, professor titular de História Contemporânea da UFF e doutor em História pela USP, que levou o tema “Ditadura, história e memória” à discussão com o público - que lotou o auditório da Livraria da Travessa, no Shopping Leblon.

Em certa altura o debate esquentou e aconteceram acaloradas argumentações por parte de algumas pessoas – o que é normal, em se tratando desse tema. Tradicionalmente suscita polêmicas tanto entre aqueles que são interessados pelo assunto, como também por quem vivenciou intensamente o período do regime de exceção – a favor ou contra a ditadura.

 Para Daniel Aarão, em tempos de Comissão da Verdade, quando após mais de 30 anos do início do recrudescimento da democracia, é importante não somente que os “esqueletos” saiam dos armários, como também seja analisada e discutida a memória que a sociedade brasileira elaborou sobre a ditadura – idéia já levantada pelo próprio professor no livro “Ditadura militar, esquerdas e sociedade”, de sua autoria.

Entretanto, ele próprio admite que o termo “ditadura militar”, atualmente, é ultrapassado, já que pesquisas no campo da história apresentam comprovações de que a sociedade civil – ou pelo menos órgãos civis importantes – como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), entre outras - também estiveram ao lado dos militares na guerra contra aquilo que chamavam de “subversão”.

Nota do autor: na verdade, naqueles tempos de Guerra Fria, com a bipolarização entre duas potências mundiais, bastava ser nacionalista para ser chamado de comunista.

Diferente do que falou o ex-guerrilheiro Carlos Eugênio Paz (“Clemente”) no mesmo ciclo de debates, Daniel Aarão não considera que a Associação Brasileira de Imprensa deva ser incluída nesse rol. Para ele, esta teve um papel ambivalente de participação: ora apoiando, ora lutando contra a ditadura. Por isso, Daniel Aarão ressalta que, se pudesse, mudaria o nome do livro para “Ditadura civil-militar, esquerdas e sociedade”.

Ao definirmos o período apenas como “ditadura militar” (saturado de memória, que fique bem claro) deixamos de lado importantes segmentos e instituições civis daquele período. Afinal, como se portavam essas pessoas? E ao definirmos como “ditadura civil-militar”, não subestimamos o protagonismo militar


Um claro exemplo da participação civil foram as ‘Marchas da Família com Deus pela Liberdade’, que arrastaram um número estimado de quinhentas mil a um milhão de pessoas, em média - nas grandes cidades e cidades de médio porte.

Marchas que tiveram início em 19 de março de 1964 – dia 19 de março, dia de São José, padroeiro da família, em São Paulo, numa clara resposta ao emblemático comício da Central do Brasil realizado em 13 de março daquele ano. Um momento importante da nossa história contemporânea brasileira, muito pouco estudado, que carece de publicações que analisem os episódios.

Nota do autor: há um importante trabalho escrito sobre o tema: a dissertação de mestrado em História Social “As marchas da família com Deus pela liberdade e o golpe militar de 1964”, de Aline Alves Presot, defendida em 2004, na UFRJ, porém, ainda não publicada.


Que sociedade era aquela, que fez chuva de papel picado nas coberturas da Avenida Atlântica, no dia seguinte ao golpe civil-militar? E que anos depois foi às ruas pedir pela Anistia? Nem todos, é verdade.

E as esquerdas, que lutavam contra o regime mas que no fundo, queriam substituir uma ditadura (capitalista) por outra (proletária e socialista), e que anos depois, já no alvorecer dos anos 1980, dizia ter pego em armas e ido à luta em prol da democracia?

Ambivalências... batalhas de memória... A zona cinzenta (conceito elaborado por Pierre Laborie) da sociedade permanece obscura, portadora de memórias subterrâneas e silenciosas, que persistem em se ofuscar pela memória coletiva e oficial. O penser-double, que ora apóia, ora rechaça a ditadura – e em muitos casos, é indiferente ou nada sabe sobre o processo político de um país, ainda hoje pode ser visto em nossa sociedade. Contrariando o que muitos pensam, o brasileiro não é desmemoriado: apenas mantém uma memória silenciosa.
 
O período vivido entre 1968 e 1974, que coincidiu com os governos de Costa e Silva e Garrastazu Médici, teve início com a implementação do Ato Institucional número 5 (AI-5), que concedia poderes extraordinários ao presidente da República e suprimia as garantias constitucionais até então estabelecidas. Este se estendeu até o início da distensão lenta, gradual e segura, verbalizada pelo “alemão” Ernesto Geisel – um general de poucas palavras.

O período foi considerado, pela historiografia, ao longo dos anos, como “Anos de Chumbo”: o endurecimento do regime, com o acirramento no combate à luta armada. Mas como explicar o alto índice de popularidade de Garrastazu Médici, ovacionado no estádio do Maracanã, numa das incontáveis comemorações do Sesquicentenário da Independência do Brasil, em 1972?

Para Daniel Aarão Reis, os anos de chumbo também foram “anos de ouro”, já que havia o “milagre brasileiro”, um período de grande concentração de renda e desenvolvimento da sociedade, coincidindo com o exacerbado sentimento patriótico e ufanista, que adquiriu novos tons com a conquista da terceira copa do mundo pelo escrete canarinho de Pelé, Gérson, Tostão & Cia.

Há portanto, um intrincado sistema de relações complexas, estabelecidas entre a ditadura e a sociedade e negar isso é reduzir a discussão ao ultrapassado raciocínio de que houve o regime militar opressor de um lado e as vítimas civis que sofreram com o golpe.

Esse tipo de pensamento não é privilégio nosso: a idéia de que a sociedade francesa resistiu bravamente ao nazismo é equivocada. Constitui questão problemática discutir, na Alemanha, as relações da sociedade com o nazismo. Um operário que ajudou a construir o campo de concentração de Auschwitz, não sabia o que estava fazendo e, principalmente, para que fim serviria a obra? Intelectuais colaboracionistas franceses eram alienados e “malvados” quando aderiram às idéias nazistas, no regime comandado pelo Marechal Pétain?

Que sejamos, contudo, bem claros: não se trata de uma tentativa de caça às bruxas, apenas de contextualizar o período, sem contudo cairmos na hipocrisia reinante da seletividade da memória – tão comum quando regimes totalitários caem e de uma hora para outra, a sociedade é em seu ínterim vitimizada.

A contextualização histórica, portanto, é fundamental quando, por exemplo, discutimos a questão da luta armada no Brasil, que se pautou por duas grandes referências: uma internacional e outra interna.

A referência dos vários processos vitoriosos de luta armada que ocorriam no mundo – exemplo das revoluções em Cuba (1959), na Argélia (1962) – e outras ainda em curso, como no caso exemplar do Vietnam. Uma profusão de narrativas de lutas elaboradas sob o ponto de vista de seus líderes, produto de ações heróicas protagonizadas por grandes nomes – se esquecendo, entretando, dos anônimos – instituições e pessoas – que também deram importantes contribuições para o estabelecimento de novos regimes.

O exemplo cubano é emblemático e adquiriu tonalidades épicas, pois a memória foi construída por um grupo de revolucionários sobreviventes ao trajeto feito pelo Granma até Cuba, com poucos sobreviventes que durante dois anos se embrenharam pelas matas de Sierra Maestra e marcharam vitoriosos após a fuga do ditador Fulgêncio Batista.

A mancha de óleo que se alastra pelo país ignora, portanto, que talvez sem a participação de grandes segmentos, de organizações poderosas (não sob o ponto de vista econômico, mas participativo – o Movimento Revolucionário 26 de Julho, por exemplo) e principalmente, sem a simpatia e adesão da população cubana interiorizada, La Revolución poderia não ter acontecido.

A outra referência para o projeto de luta armada é coisa nossa mesmo e contrasta com a idéia de que a luta armada é produto somente de jovens românticos que, com armas nas mãos, queriam mudar o mundo. Um grupo de brasileiros, oriundos principalmente da economia, da sociologia e intelectuais, acreditava que era chegado o momento do impasse: ou o Brasil fazia as reformas necessárias ou o país viraria um barril de pólvora, num processo de radicalização sem fim. Afinal, as direitas não apresentavam nenhuma perspectiva de mudança.

Nesse contexto, com o acirramento de tensões no cenário político e econômico mundial, representado por dois atores globais – EUA e URSS, a resistência à luta armada já começara antes, com as Ligas Camponesas, de Francisco Julião, com o trabalhismo brizolista, entre outros. Com as eleições de 1962, a Câmara teve uma composição anti-reformista, em sua maioria, o que promoveu mais ainda o conflito interno.


Portanto, as ações armadas no pré-1964, embora quisessem romper com o passado e serem uma nova esquerda, têm laços profundos com o que veio antes do golpe. Queriam mudar o mundo, e ao partir para o enfrentamento, acreditavam na utopia do impasse.

É equivocado o pensamento de que o Ato Institucional número 5 (AI-5) tenha sido feito para atingir a luta armada e a sociedade que se encontrava em oposição ao regime. O endurecimento da ditadura foi, segundo Daniel Aarão Reis, produto de outro movimento, feito para enquadrar os setores dissidentes da elite dominante – uma rebelião na Aliança Renovadora Nacional (ARENA), que se negou a aprovar o processo contra o jornalista Márcio Moreira Alves.
Outra questão espinhosa surge então, sempre que é debatida: afinal, pelo que lutavam as esquerdas envolvidas nas ações revolucionárias?

Na contramão das definições simplistas sobre o conceito de “Democracia”, alguns se apressam em dizer que buscavam a substituição de uma ditadura por outra – de cunho proletário e socialista.


Mas é preciso compreender que Democracia é um conceito polissêmico, e principalmente contextualizar que a democracia que a luta armada almejava desconhecia o que o regime cubano faria depois, por exemplo – embora, nesse sentido, os regimes totalitários conhecidos até então não proporcionassem referências democráticas.

Em um primeiro momento, podemos destacar a distinção entre os modelos de “Democracia Formal” e “Democracia Substancial”: enquanto o primeiro ressalta a importância do cumprimento e respeito às regras, o segundo diz que o que interessa não são as regras a respeitar e sim os fins que irão gerar a igualdade social.

É mister o exercício de se tentar pensar com a cabeça de um jovem guerrilheiro na época, que acreditava nas revoluções que explodiam pelo mundo e que – pasmem! – dava certo! Como impedir isso? Havia sim, um sentimento de que era necessário destruir, primeiro a ditadura, e depois o sistema capitalista então vigente.

Nas eleições de 1970, a sociedade começou a dar sua resposta ao regime vigente: embora a ARENA permanecesse com grande votação, liderando as eleições, os votos em branco/nulo vieram em seguida, ultrapassando o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Aquele ano reflete, portanto, uma sociedade descrente – não na economia, mas no regime político.



Daniel Aarão Reis analisa que o período pós-1964 é “saturado de memória”, de querer apresentar uma esquerda revolucionária como democrática. Discordo em parte do professor, pois, como já expliquei acima, a idealização de “Democracia” que temos hoje é distante da que existia há mais de 40 anos – e mesmo assim, as esquerdas eram motivadas pelo conceito de democracia substancial.

É possível que surja a argumentação de que “nenhum dos regimes revolucionários vitoriosos tinha pluripartidarismo, tribunais isentos etc”. Mas cabe novamente a pergunta: nos anos 1960, existiam essas definições, que hoje temos mais claramente definidas?

Em tempos de Comissão da Verdade. Se por um lado, devemos nos abster de revanchismos e “caça às bruxas” do período, por outro é necessário contextualizar o período, sem maniqueísmo e não nos deixar cair nas tentações culpabilizantes (e saturadas de memórias) de que o significado de “democracia” atual seja o equivalente da democracia que a luta armada – e também todos os que foram contrários ao regime ditatorial – almejavam.

Nós, historiadores, não devemos produzir uma história “vigiada” e sim procurar as evidências – e justamente por isso, sermos imparciais


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

História e Outros Assuntos - "Memórias de um guerrilheiro: Carlos Eugenio Paz, o Clemente, e a luta armada (1966-1973)"



Excepcionalmente nesta quinta, a edição extra da coluna “História e Outros Assuntos”, assinada pelo Mestre em História Fabrício Gomes, traz revelações surpreendentes e exclusivas sobre a resistência armada à ditadura militar, contadas por um de seus sobreviventes.

Memórias de um guerrilheiro: Carlos Eugenio Paz, o Clemente, e a luta armada (1966-1973)

“Sobrevivi para contar a história”.

Assim Carlos Eugênio Paz – codinome “Clemente” -, resume sua trajetória de vida, desde quando entrou nas fileiras da resistência à repressão, aos 15 anos, após ser aceito por Carlos Marighella na Ação Libertadora Nacional (ALN) para lutar contra o regime de exceção.

Seu pai era admirador do integralismo de Plínio Salgado – “Ele sonhava que eu fosse estudar Engenharia Eletrônica na Alemanha e voltasse ao Brasil com um Mercedes Benz pra ele”. Sua mãe era comunista e admiradora de Luís Carlos Prestes, e dois anos antes ele já ajudava os amigos de sua mãe, que fugiram da sede da UNE, após esta ser incendiada.

Na época, morava em Laranjeiras e muitos que eram considerados “subversivos” dormiram escondidos em sua casa. Pertencia a uma classe média que almejava ser elite. “Elite é uma palavra que é interpretada de forma errada. Meu pai queria que eu estudasse e pertencesse à elite. Mas tive uma professora que foi muito feliz em definir o que de fato significa elite. Elite é o que há de melhor, não aquilo que tem mais dinheiro, não o que é dominante. Elite é Cartola, é Garrincha, é ter educação, é gostar de ler, por exemplo”.


 
O relato de Carlos Eugênio Paz aconteceu nesta terça (06/11/2012), como parte integrante da Oitava Quinzena de Literatura Latino-Americana, que acontece na Travessa do Leblon e tem a ditadura como tema principal este ano.

O codinome Clemente surgiu de uma provocação de um amigo, em 1966, quando o rubro-negro Carlos Eugênio Paz sofria com a derrota do seu time para o Bangu (o Flamengo perdeu por 3 a 0 para o Bangu, num jogo em que Almir Pernambuquinho, do time da Gávea, arrumou briga generalizada em campo). Um zagueiro do Bangu, que havia jogado muito bem naquele dia, se chamava “Ari Clemente”. Vem daí o codinome.

Hoje, aos 61 anos, Clemente – vamos continuar a chamá-lo assim - é professor de música – chegou a dar aulas numa creche, no Rio de Janeiro – e tem uma definição bem clara dos dias conturbados que antecederam e precederam o golpe: “Foi uma partida de futebol onde a direita da sociedade compareceu e a esquerda perdeu de W.O.”

E arremata: “A esquerda não preparou a resistência, faltou ao encontro”. Decerto, foi uma luta desigual, já que as principais organizações de resistência ao novo regime – Ação Popular, Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP) e PCB/PCdoB – não estiveram coesas e preparadas para resistir e lutar em conjunto.

Prejuízos decorrentes do golpe de estado de 1964? Para Clemente, muitos.

Não foram apenas a locupletação dos militares, as mortes, as torturas e os desaparecimentos, mas principalmente as reformas de base que deixaram de acontecer e que alavancariam o país ao progresso, e por isso, o país paga até hoje esse insucesso. Jango tinha 58% de popularidade – e isso não era, na época, pouca coisa. “Havia um mito de que todo o país estava contra Jango e isso não era verdade. Imagine o que seria o Brasil se o governo de Jango tivesse continuado?”
 

Entre o integralismo do pai e o comunismo da mãe, Clemente deixou-se fascinar pela liberdade. O contato com Marighella, em 1966, deu-se através de Alex de Paula Xavier, seu melhor amigo. Alex era filho de João Batista e Zilda de Paula Xavier Pereira – comandantes regionais da ALN e comunistas militantes do PCB.

Chama a atenção um fato citado por Clemente: “Os comunistas estavam divididos. Muitos criticavam a postura do PCB, como um partido que estava eternamente querendo fazer uma revolução e não fazia. Os anos passavam e nada acontecia. Aí se organizaram grupos simpatizantes e um deles chamávamos de ‘Grupo Marighella do PCB’”. “Imagine um dirigente como Marighella, já com quase 60 anos e respeitado por toda a luta armada, conversando com um fedelho como eu? Isso demonstra a magnitude dele, e seu diferencial era justamente esse: saber ouvir a todos”.

Marighella ouviu tudo que Clemente tinha a dizer. E sugeriu algo inimaginável ao jovem rapaz de 15 anos: “Ele propôs que eu me alistasse e servisse no Forte de Copacabana. Ele queria que eu me formasse militar, justamente para pensar como um militar, dentro da ALN, de forma que em todas as nossas ações, ponderasse com a cabeça de um militar”.

O ex-guerrilheiro cumpriu a ordem à risca e por ironia do destino chegou a ser condecorado com uma medalha pelos serviços prestados na guarnição. “Minha rotina era simples: servia no quartel, nas folgas saía pra rua e praticava as ações de guerrilha. Depois voltava pro quartel e tudo seguia normal.

Numa das vezes, após ganhar a medalha resolvi provocar os companheiros de luta, mostrando a medalha. Mas imediatamente joguei ela num bueiro, na Av. Princesa Isabel, e disse a eles: ‘Essa medalha pra mim não vale nada, porque meu verdadeiro exército é o de Carlos Marighella’.

Com a separação de seus pais, Clemente recrutou a própria mãe para a luta armada: Maria da Conceição Sarmento da Paz, codinome “Joana”, foi fazer treinamento de guerrilha em Cuba e depois cursou enfermagem nas melhores escolas de Havana


“Mamãe nos foi muito útil, pois depois trabalhou em duas “clínicas” que tínhamos em São Paulo para atender companheiros nossos, feridos em combates”. O ex-guerrilheiro acrescenta um dado impressionante: “Em junho de 1974 ela infelizmente ‘caiu’ (Nota: ‘cair’ era um termo utilizado pela guerrilha, na época, que significava que o companheiro tinha sido preso pela repressão) e foi barbaramente torturada durante um mês, pessoalmente pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury – policial que comandava a Operação Bandeirantes (OBAN) e temido por todos.”

“Mesmo torturada e sabendo que eu já me encontrava fora do Brasil (Clemente se exilou na França de 1973 a 1981), podendo dizer isso, ela negou informações aos torturadores”. Anos depois, já de volta ao Brasil, Clemente questionou esse fato a ela e a resposta foi direta: “Uma mãe jamais entrega o filho”.

Mas quem apoiava o golpe de estado? Quais as forças da sociedade que comungavam com o regime?

Clemente não pensa duas vezes e diz: “A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a Igreja Católica e o empresariado nacional, compactuados com os EUA ‘pediram’ o golpe aos militares. Agora que temos uma Comissão da Verdade, é chegada a hora de assumirmos as nossas verdades”.

Complementa: “Essas mesmas instituições que citei, hoje posam como democráticas, defensoras dos direitos humanos, mas 30, 40 anos atrás, não faziam isso”.

A ALN existiu organicamente de 1966 até dezembro de 1973. Chegou a ter cerca de 15 mil combatentes, espalhados por todo o território nacional.

Clemente faz um testemunho importante: “Ao verificarem que existia, sim, uma resistência, os militares centralizaram a repressão na OBAN, que era mantida através de uma ‘caixinha’ que circulava entre os maiores nomes do empresariado nacional. Nomes como Amador Aguiar, do Bradesco, e Octávio Frias de Oliveira, do Grupo Folha, eram vistos nessas reuniões. E você sabe onde essas reuniões aconteciam? Na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP)! E o ministro Delfim Neto comparecia a quase todas essas reuniões!”.


Ministro da Fazenda entre 1967 e 1974, Antonio Delfim Neto se orgulhava de ter promovido o “Milagre Econômico”, que nada mais era, na verdade, do que o arrocho aos salários dos trabalhadores e o lucro dos empresários. Mas porque então a OBAN era subsidiada pelos empresários e não pelo governo, que detinha a “máquina” e poderia jorrar recursos para aquela organização quando bem entendesse?

Clemente é direto na resposta: “A OBAN foi uma tentativa de comprometer o empresariado, no estilo: ‘OK, demos o golpe, agora é com vocês’.

Um renomado empresário era destaque nessas reuniões, justamente a pessoa responsável em passar a ‘caixinha’ entre seus colegas: Henning Albert Boilesen, um empresário dinamarquês, presidente do Grupo Ultragaz, que vendia botijões de gás nas residências paulistanas.

No documentário “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewski, o empresário é apresentado como uma pessoa com personalidade doentia, desde a infância. Tanto que uma das diretoras da escola onde estudou apresenta as anotações feitas em seu boletim, que informavam que ele tinha prazer em ver o sofrimento dos amigos.

Clemente conta que a ALN tinha informantes “do lado de lá” (na repressão) também e que todas as fontes informavam que “um cidadão bonito e elegante, que não era militar, se juntava às vezes a sessão de tortura, fosse para assistir ou então participar – geralmente queimando partes dos corpos dos presos com uma barra de ferro usada para marcar gado”.

As práticas de tortura, por sinal, variavam bastante: “Alguns de nossos companheiros sofreram com a chamada ‘Coroa de Cristo’, uma estrutura circular, cravejada de lanças de ferro pontiagudas, colocadas na cabeça dos presos e apertadas manualmente pelos torturadores, que chegavam a explodir o crânio dos companheiros”. Clemente faz hoje uma distinção bem clara sobre o que pensava da tortura: “Uma coisa que eu respeitava era o combatente – podia ser o repressor ou nós. Mas a tortura eu não respeitava, porque não era uma prática decente, era injusto e desigual”.


Como então se deu o envolvimento da ALN com o “justiçamento” de Henning Boilesen?

“Sabendo da ligação de Boilesen com o financiamento da OBAN – reparamos que a Ultragaz inclusive cedia seus veículos para as ações de repressão - e sua participação nas sessões de tortura, tínhamos a intenção de sequestrá-lo, negociando sua liberdade em troca de presos políticos que estavam confinados.

No entanto, faltando cinco dias para nossa ação, em 5 de abril de 1971, Devanir José de Carvalho, codinome “Henrique” - um de nossos companheiros - caiu, e sob tortura, informou à repressão nossa intenção de seqüestro”.


Eram tempos difíceis e a repressão já mandara um recado à direção da ALN: “Qualquer dirigente ou membro da ALN que fosse preso, mesmo colaborando conosco, não sairá vivo”. Sem dúvidas, uma política de extermínio. “Devanir foi torturado até a morte e depois de morto, seu corpo foi pendurado pela nuca num garrote de açougue, na sede do DOPS, como troféu”, confidencia, emocionado, Clemente.

Nesse momento, então, a ALN resolveu “justiçar” a morte de seu companheiro de luta, assassinando Henning Boilesen. A programação era acompanhar e estudar seus passos por alguns dias e matá-lo na primeira oportunidade.

É comum, atualmente, na tentativa de se romantizar o passado, imaginar que tanto as ações de repressão e principalmente as ações de guerrilha aconteciam perfeitamente, sem contratempos. Não foi o caso da programação do assassinato de Boilesen.

“Sabíamos que ele ia visitar o filho e seu trajeto para chegar até a casa da ex-esposa. Só não contávamos que justamente naquele dia ele iria se atrasar. Um companheiro nosso, Antonio Sergio de Matos, codinome “Uns e outros”, chegou até a brincar naquele momento, quando estávamos no carro nos preparando para a ação, dizendo ‘Pô, o cara é muito irresponsável mesmo, se atrasa até no encontro com a morte!” (“Uns e Outros” morreu alguns meses depois, numa emboscada feita pela repressão)”. “Naquele momento, nossos companheiros que estavam na ação, me perguntaram: ‘E agora? Continuamos?’



A palavra final foi minha: ‘Vamos em frente’.

Boilesen saiu da casa, dirigiu seu carro por algumas ruas e, na Alameda Casa Branca, em São Paulo, foi morto pela ALN, com um tiro de fuzil na cabeça e oito tiros de metralhadora. A mesma Alameda Casa Branca onde, dois anos antes, Carlos Marighella foi morto pelo delegado Sergio Paranhos Fleury. Clemente jura de pés juntos que o fato do endereço da morte de Boilesen ser o mesmo da morte de Marighella, foi mera coincidência: “Foi acaso do destino”.

E porque a ação da guerrilha na luta armada gerou tantas antipatias, ao longo dos anos? Porque será que um guerrilheiro brasileiro, que pegou em armas, é visto até hoje com reticências se em comparação Che Guevara se transformou num mito romantizado de Nuestra America e mundialmente reverenciado pelos jovens?

“É porque é belo analisar os fatos à distância, é menos criticável, do que o que acontece em nosso país. A violência de “Che” era a mesma, você já leu o “Diário de Sierra Maestra”? Está tudo ali. Che amarrou uma pessoa numa árvore e deu um tiro na cabeça. E aí? Não foi igual?”.

Até hoje permanece obscuro um episódio ocorrido dentro da própria ALN: o justiçamento de Márcio Leite de Toledo, codinome “Márcio”, que era um dos comandantes da organização (Clemente era o Coordenador Militar). Clemente então esclarece o que de fato aconteceu:

“Marquei com o Márcio e o Joaquim Câmara Ferreira (codinome “Toledo” e uma das figuras mais proeminentes da luta armada, sucessor de Marighella na ALN e líder do seqüestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick) de encontrá-los num aparelho (Nota: “aparelho” era o nome dado pelos guerrilheiros a uma casa/instalação usada nas ações).

Na hora marcada, nenhum dos dois apareceu. Estranhei o fato. Passados 45 minutos me dirigi a um segundo aparelho (era de praxe ter endereços alternativos, de modo a confundir perseguidores). Nada. Pensei então que os companheiros haviam caído na mão dos repressores.”


Para Clemente, o mais difícil, naquele momento, foi a decisão de convencer os demais militantes da ALN, de continuar a luta, sem a liderança dos dois companheiros que tinham sumido. Com os olhos marejados, afirma: “Imagina você chegar pra uma pessoa e ‘pedir’ pra que ela siga com você na luta, estando sujeita a morrer a qualquer momento?”.

Dias depois, o sumiço de “Toledo” foi esclarecido: José da Silva Tavares, codinome “Vítor” (que anteriormente militara na Corrente - uma dissidência do PCB - e freqüentara um Curso de guerrilha em Cuba) fora capturado e levado para Belém, onde sob tortura entregou a localização do líder da ALN.

Não só entregou “Toledo”, como também mudou de lado e passou à condição de repressor – hoje, é um alto executivo da FIAT. “Toledo” foi preso, torturado e morto em um sítio clandestino pertencente ao delegado Sergio Paranhos Fleury.

[N.do.E.: de acordo com o site da Fiat do Brasil, José da Silva Tavares não ocupa mais o cargo de Diretor Financeiro da subsidiária brasileira da empresa.]

Passaram-se 42 dias até que “Márcio” aparecesse novamente para Clemente. “Fiquei surpreso em vê-lo vivo, como se nada tivesse ocorrido. Perguntei a ele o que tinha acontecido e me surpreendi mais ainda com a resposta”:

“Pensei que era hora de me preservar”, disse o militante sumido.

Segundo Clemente, “Não tinha outra coisa a fazer senão desligá-lo do comando da ALN. Mas aceitei reintegrá-lo como membro de luta, desta vez no grupo de fogo, responsável por portar a metralhadora e dar cobertura a outros companheiros nas ações que iríamos realizar”.

O ex-guerrilheiro novamente mostrou-se arrependido.

Na primeira ação que fizemos, ao ver a aproximação da polícia, o que fez “Márcio”? Jogou a metralhadora no carro e saiu correndo, deixando dois de nossos companheiros descobertos – mesmo após tiroteio, eles conseguiram sair vivos”.

“Essas atitudes dele foram consideradas suspeitas por todos nós. O companheiro estava vacilando conosco. Pensávamos que podia ter passado para o outro lado, da repressão. Então chamamos ele para uma conversa e propomos que ele saísse do Brasil, por seis meses, para qualquer destino – Europa, Cuba, Chile (na época Allende ainda era o presidente), que nós bancaríamos e depois de seis meses, ele poderia fazer o que quisesse da vida, poderia sair da organização. Considerávamos seis meses o tempo certo para que mudássemos as rotinas da ALN, de modo que ele não soubesse mais nossos segredos”.


Márcio não quis sair do Brasil. Mesmo com a proposta, bateu o pé e quis continuar na organização. “Aí realmente não tínhamos outra saída, senão decidir por seu justiçamento. Mas é importante esclarecer que não foi uma decisão apenas minha ou de três ou quatro pessoas. Consultamos as várias coordenações regionais da ALN até decidir a sentença. E coube a mim fazer o justiçamento”.

As memórias do período são muitas e intensas. A conversa com Clemente poderia render outros assuntos, confidencias e relatos. O ex-guerrilheiro afirma que se hoje ainda tivesse 20 anos de idade, faria as mesmas coisas, sem arrependimento. Segundo ele, lutava por uma “democracia” – hoje é difícil atribuir um significado a essa conceito, que pode gerar múltiplas interpretações. “Marcas de guerra todos temos. Marcas de arrependimento não”. Justamente por isso, ele se propôs a contar um pouco do período em que viveu e lutou pelos ideais que acreditava – e ainda acredita.

PS - em janeiro está programado o lançamento do documentário "Codinome Clemente", em DVD, da diretora Laís Albuquerque.