sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Cinecasulofilia - "O Som ao Redor"


Nesta sexta feira, após interregno temos a volta da coluna Cinecasulofilia, assinada pelo crítico, cineasta e professor Marcelo Ikeda. Como sempre, coluna publicada em conjunto com o blog de mesmo nome.

O Som ao Redor

Gostaria de escrever com mais cuidado sobre O SOM AO REDOR, mas o tempo foi passando, as urgências foram me corroendo, e só será possível fazer alguns apontamentos para tocar em alguns pontos sobre a importância desse filme para o cenário do cinema brasileiro contemporâneo.

A principal contribuição de O SOM AO REDOR é ser um filme brasileiro, buscar dialogar com questões caras ao Brasil e ao cinema brasileiro, fazer um painel social/político amplo de sua cidade, ser uma radiografia do atual estado de coisas, não querer dar as costas ao mundo para fazer cinema.

Ainda assim, O SOM AO REDOR tem feito ampla carreira internacional, mostrando que não é preciso se trancafiar em referências a cineastas da grife do cinema de arte para ter seu filme incluído no “panteão dos novos talentos do world cinema”. O tratamento estético dado ao filme não vem ex ante do que se quer falar, mas se articula de forma orgânica.

Me parece que o objetivo primeiro do filme é falar sobre o que está acontecendo HOJE no BRASIL, e enquanto se desenvolve isso, faz-se cinema. E não o contrário: “quero fazer cinema que dialogue com xpto, vou procurar algo que se encaixe a isso”. O filme não adere imediatamente aos cacoetes do cinema de arte tão em voga nos grandes festivais, e que parece ser o principal fetiche (objeto de desejo) dos cineastas estreantes do país.

Sua preocupação parece ser, acima de tudo, um filme brasileiro, feito por brasileiros, que dialoga com questões brasileiras, feito para ser visto primeiramente por uma plateia brasileira, inteiramente tomado pelas questões de sua cidade, mais do que dialogar com influências ou referências de uma gramática cinematográfica ou de certos trejeitos dos principais autores em moda no cinema mundial no momento. Não é que ele não o faça, mas não parece ser a sua ambição primeira, o seu ponto de partida. Claro, é isso, não deixando de pretender fazer um cinema sofisticado.

O SOM AO REDOR é um painel ambicioso das relações sociais/políticas em Recife, mas podemos, sem muitas distorções, extrapolar para o Brasil de hoje.

O filme se passa numa rua, “nessa avenida chamada Brasil” (aqui sim cabe a expressão “Avenida Brasil”...). Ali há um microcosmos de situações, personagens e contextos que, para além de seu tom inusitado, suas tiradas de humor, são uma análise complexa do que vivemos.

Me parece que o ponto central do filme é falar que essa “política da conciliação”, esse “jeitinho brasileiro” de ir empurrando as tensões e as contradições do nosso estado de ser para debaixo do tapete, algum dia vai explodir. O filme também mostra que continuamos comprometidos até a medula, ainda que indiretamente, com as heranças do coronelismo. Um dos resultados disso é a “política do medo”.


É um filme ambicioso, pela sua duração, pela sua ambição de ser um painel amplo de um estado de coisas. Por sua narrativa episódica, por seu desejo de falar de forma sutil do que está acontecendo, pelo papel dúbio de seu protagonista, O SOM AO REDOR é o A DOCE VIDA do cinema brasileiro do século XXI.

Mas como Kleber faz isso? Através de uma narrativa fragmentada, com um mosaico de personagens, com um filme essencialmente narrativo mas que ao mesmo tempo é composto de fragmentos que não se encaixam perfeitamente. Ou seja, uma narrativa moderna. Vejo que algumas pessoas comentam que o roteiro é composto por algumas “peças desnecessárias”, já que, caso tiremos algumas de suas partes, não se altera a essência do todo. Falácia!

Esse é o jogo dúbio dessas narrativas fragmentadas. É exatamente disso é que é feito o filme. De peças que não necessariamente se encaixam. Há algo fora de lugar. Por outro lado, Kleber não faz “multiplot” ou coisa do tipo. Por isso, é muito saudável que as coisas não se encaixem perfeitamente, mas ao mesmo tempo esses “episódios aparentemente soltos” nos revelam muito da natureza daquele lugar e daquelas pessoas.

Há ao mesmo tempo profundo tom de observação sobre as contradições de uma classe média. Mas Kleber faz com generosidade. Uma das grandes lições de O SOM AO REDOR é procurar fazer uma radiografia profunda de um estado de coisas mas sem ao mesmo tempo querer julgar os personagens, ou tratá-los como meras caricaturas. Há vida ali. O coronel não é totalmente mau; o vigilante não é um brutamontes. Os personagens têm vida para além de ser meros estereótipos, ou “representantes de tipos”.

O maior trunfo do filme é seu profundo humanismo para com seus personagens um tanto patéticos, um tanto desesperados, um tanto oportunistas. Tenta observar suas limitações, entendendo o estado de coisas, mas ao mesmo tempo não é um humanismo frouxo. Tudo ali vai acumulando uma tensão que a qualquer momento vai explodir!

Talvez a posição do realizador seja o ponto de vista daquele que no fundo é seu personagem principal: João, representado por Gustavo Jahn, também realizador. (Se não é a do realizador, pelo menos é de boa parte do público de classe média brasileiro que irá assistir ao filme, tipicamente representado pelos jovens eleitores de Freixo/Roseno). João é o boa-praça, o bem-intencionado que consegue vislumbrar a situação mas que pouco consegue agir para modificá-la.

É um corretor de imóveis, neto do “coronel” da “Avenida Brasil”. Exemplo típico é de uma reunião de condomínio, onde ele reclama, mas no fundo não impede a demissão do porteiro. O coitado do João no fundo é um fraco, mal consegue uma mulher para si! Ele vê a situação, é bem intencionado mas é impotente para modificá-la. Na verdade, não sabemos até que ponto ele quer transformá-la, já que também está comprometido com ela. E por aí vai.

É impressionante a maturidade da direção de Kleber Mendonça Filho, tendo em vista ser o seu primeiro longa metragem. Um filme de direção: além de um olhar indiscutível, é um filme que conjuga roteiro, fotografia, montagem (excelente o árduo trabalho de montagem de João Maria...), direção de atores (uma lacuna do atual cinema brasileiro que é dominado no filme, e com atores pouco conhecidos do público, que não estão na grande mídia – com exceção de Irandhir), etc, etc. É curioso também como é possível identificar algumas peças de seus curtas-metragens ali, como um certo tributo ao caminho que o levou ao seu primeiro longa, mas sem que isso seja meramente uma diluição ou afogue o filme no passado.

É difícil pensar para onde se vai depois desse primeiro longa. É um trabalho que se propõe grande e que consegue realizar suas ambições, seja como proposta de cinema seja como realização em si. Se quisermos entender o que é o Brasil de hoje a partir do cinema, talvez esse seja o filme pelo qual devemos começar!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sabinadas - "O primeiro passo de Massa"


Nesta quinta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista Fred Sabino, traça um perfil da retomada da carreira de Felipe Massa e de suas perspectivas.

Aproveito para fazer um desabafo de quem gosta de automobilismo. Todo mundo que acompanha e gosta de Fórmula 1 sabe que a categoria sempre teve um certo nível de falcatrua, seja através de interpretações “criativas” do regulamento ou mesmo de práticas pouco recomendáveis.

Só que a união Alonso e Ferrari elevou o nível da canalhice – o termo é forte, leitores, mas não encontro outro – a um patamar inimaginável. Dick Vigarista ficaria com inveja do piloto que afirma “não tenho milagres, faço dos milagres minhas leis” e da equipe que tem como lema “os fins justificam os meios”.

Lembro aos amigos que o tricampeão Vettel afirmou na coletiva pós título que “eu aprendi a ser honesto” e que “os outros tentaram de tudo para nos derrotar, mas aprendi a fazer as coisas do modo certo”. Em um mundo onde as declarações dos pilotos são muito pasteurizadas, é um bom exemplo da repulsa que as atitudes da Ferrari e de Alonso causaram mesmo em um meio bastante aético como é o da Fórmula 1.

Ao leitor que deseja conhecer quem é Fernando Alonso sugiro a leitura da biografia Bernie Ecclestone, já resenhada neste blog.

Que fique claro: as palavras acima são de minha responsabilidade, não do colunista. Vamos ao texto.


O primeiro passo de Massa

Já há algum tempo venho prometendo uma coluna analítica sobre Felipe Massa. Pois bem, chegou o momento.

Não vem ao caso aqui ficar comentando sobre a questão do, digamos, jogo de equipe empregado pela Ferrari nas últimas temporadas - que fique claro: não concordo com a maioria dos expedientes usados. Para quem gosta de automobilismo é um tanto redundante ficar ‘chovendo no molhado’ com essa história.

Portanto, falemos tão e somente sobre o desempenho de Felipe Massa. Vale, é claro, lembrar a sua carreira para contextualizar o atual momento.

Felipe chegou à Fórmula 1 no começo de 2002, após a conquista do título da Fórmula 3000 Italiana, uma categoria nem tão badalada assim. No entanto, o inegável ótimo desempenho e a parceria com o empresário Nicolas Todt, filho do então chefe da Ferrari, Jean Todt, proporcionaram um contrato com o time italiano. Este "emprestou" Massa para a Sauber, cujo carro era empurrado pelos motores de Maranello.

No primeiro ano, Felipe pontuou logo na segunda corrida, na Malásia (na época só seis pontuavam, o que realça a façanha dele), mas alternou outras boas exibições com erros. Ainda desobedeceu a uma ordem da equipe para ceder uma posição a Nick Heidfeld em Nürburgring, o que irritou profundamente Peter Sauber. Após uma batida com Pedro de la Rosa em Monza, foi suspenso para a corrida de Indianápolis. Depois, bateu no Japão e foi dispensado.

Com a reputação em baixa, virou piloto de testes na Ferrari, numa época em que eles ainda eram valorizados. Com a cabeça no lugar, aprendeu, aprendeu e aprendeu o máximo que pôde com Michael Schumacher e Rubens Barrichello. Entendeu melhor o funcionamento de um carro de F-1 e, principalmente, manhas de acerto, e foi reconduzido à condição de titular na Sauber.


Aí Felipe renasceu.

Em 2004, cometeu bem menos erros e, embora tenha marcado menos pontos do que o experiente Giancarlo Fisichella, deixou impressão bem melhor do que em 2002. No ano seguinte, superou o campeão mundial Jacques Villeneuve e teve excelentes atuações, como no Canadá, onde segurou o Williams bem mais veloz de Mark Webber e terminou em quarto. Com isso, pavimentou o caminho rumo à vaga de titular na Ferrari, substituindo o insatisfeito Barrichello.

Embora sempre veloz, Massa começou errático o primeiro ano de Ferrari. Mas foi crescendo, crescendo e, num ano em que Fernando Alonso e Michael Schumacher estavam em forma exuberante, acabou beliscando poles e vitórias convincentes na Turquia e no Brasil. Isso confirmava que era, de fato, um piloto de equipe grande. Com a primeira aposentadoria de Schumacher, Felipe estava garantido em 2007, ao lado do sempre forte Kimi Raikkonen.

Todos se apressaram em dizer que o Homem de Gelo iria congelar Massa (perdoem o trocadilho), mas não foi assim. Felipe teve erros pontuais, mas dominou e venceu corridas. E estava na frente do finlandês na tabela até faltarem cinco das 17 corridas.

Mas uma falha mecânica ridícula na suspensão do carro em Monza, quando Massa também estava à frente tirou pontos preciosos e inevitavelmente Kimi foi o escolhido para encarar os "companheiros" Lewis Hamilton e Fernando Alonso e a fortíssima McLaren. Em meio à implosão do time inglês após a divulgação do escândalo de espionagem, Hamilton desligou o cérebro, Alonso foi prejudicado pelo próprio time e Kimi aproveitou. Mas Felipe não saiu com a reputação arranhada.

O ano de 2008 foi o mais marcante da carreira de Felipe. Ele começou mal de novo a temporada, com duas não-pontuações. Mas depois, com segurança e atuações novamente convincentes, o brasileiro venceu seis provas e o título bateu na trave. A postura dele após o revés, agradecendo à torcida em Interlagos e reconhecendo a vitória de Lewis Hamilton, foi exemplar. Só que o que era para ser a consolidação de Massa como candidato constante a tíutlos acabou sendo o começo de um calvário.

Tudo começou com um problemático carro feito pela Ferrari para 2009. Como o time italiano (além de McLaren, BMW Sauber e Renault) optou pela nova tecnologia do Kers (sigla em inglês para sistema de recuperação de energia cinética, em que a energia armazenada nas freadas é reaproveitada como potência para o motor), a equação toda ficou problemática para o time de engenheiros devido ao aumento de 30 quilos do peso do carro.


Outros fatores, como a volta dos pneus slicks e os polêmicos difusores duplos adotados por Brawn, Toyota e Williams jogaram a Ferrari para trás e tanto Felipe como Kimi Raikkonen sofreram na primeira metade do ano. Aos poucos, Felipe reagiu, sempre marcando mais pontos do que o finlandês, e era o quinto colocado no campeonato, atrás das duplas de Brawn e Red Bull. Antes do infeliz treino classificatório do GP da Hungria...

O acidente em Hungaroring, do ponto de vista puramente clínico, não deixou sequelas segundo os médicos e o próprio Felipe. No entanto, Nelson Piquet, que teve um grave acidente em 1987 e demorou a recuperar os reflexos, acha que não e sempre diz que a queda de rendimento de Massa se deveu ao acidente.

De qualquer forma, Massa voltou no começo de 2010, desta vez com a indigesta companhia de Fernando Alonso. No começo, o brasileiro chegou a liderar o campeonato, mas, aos poucos, o espanhol começou a ser constantemente mais veloz.

Na Alemanha, exatamente um ano depois do acidente, Massa foi obrigado pela Ferrari a ceder a liderança a Alonso.

Mais do que o acidente em si, para mim o grande fator para a queda acentuada de Massa nos anos seguintes foi o episódio de Hockenheim. A confiança, que já estava em xeque pela pressão exercida sobre Alonso dentro e fora da pista, foi abalada de vez.

Some-se a isso a própria dificuldade que os pilotos tinham para conduzir os carros da Ferrari produzidos nesta fase - o próprio Alonso, em forma exuberante, não teve como combater os fortíssimos Sebastian Vettel e a Red Bull desde então.

Aí veio uma reação em cadeia.

Felipe sempre sustentou que a pressão da imprensa, da torcida e a constante boataria envolvendo outros pilotos não o afetaram. Mas fato é que desde 2010 Felipe vinha tendo pouquíssimas atuações de destaque, o que reduzia ainda mais a confiança. Pior: Alonso, de um jeito ou de outro, dava um jeito de tirar leite de pedra. Este ano, o quadro parecia irreversível, pois Massa vinha pior do que nunca e a renovação com a Ferrari se mostrava dificílima. Mas...


Massa reagiu, enfim.

Evidentemente o trabalho com os engenheiros nas férias de agosto ajudou Felipe a ter mais confiança no carro e a atacar mais na pilotagem. Mas a postura dele também mudou para melhor. Claramente para quem acompanha a Fórmula 1 de perto o ano todo, Massa passou a se preocupar menos com o externo e se concentrou como há muito não se via. E, como aquele atacante que passa um jejum de gols e desencanta, Felipe cresceu.

Os resultados logo apareceram, tanto que na reta final do campeonato deste ano, Felipe incomodou Alonso. Classificou-se três vezes à frente do espanhol no grid. Uma delas, nos EUA, não valeu nada porque a Ferrari provocou uma punição após o treino de sábado para dar um posto a mais ao espanhol, que largaria do lado limpo da pista - e teve de ceder posições ou não atacar Alonso na Itália, Coreia do Sul, EUA e Brasil.

[N.do.E.: esta é uma dúvida que tenho para 2013: Massa poderá chegar à frente de Alonso nas corridas ou terá sempre de ceder a posição independente da situação ou do estágio do campeonato?]

Em Interlagos, aliás, pude ver pessoalmente um semblante para lá de positivo em Felipe, que estava feliz com a esposa e o filho andando pelo paddock. A ótima corrida de Austin, onde ele largou em 11º e chegou em quarto, colado em Alonso, deu uma grande injeção. E a corrida de Felipe em Interlagos foi excepcional, no nível da época anterior ao acidente.

A começar pela largada, na qual Felipe ganhou três posições e pulou para segundo. Depois, num jogo de equipe aí sim dentro do aceitável pelas circunstâncias, Massa atrasou Mark Webber e permitiu que Alonso pulasse para segundo. Na sequência, em uma péssima decisão estratégica da Ferrari, caiu para 14º. Mesmo assim, Felipe não desistiu e voltou ao segundo lugar. Depois, outra cessão de posição a Alonso, também normal, e um emocionado terceiro lugar - Felipe chorou no pódio.

O que dá para concluir depois desse longo (confesso) texto é que o primeiro passo Felipe Massa deu para voltar a ganhar corridas: ou seja, ter confiança para estabelecer um ritmo de corrida veloz e realizar ultrapassagens arrojadas. Não fez mais porque, nesta altura do campeonato, era inevitável trabalhar para Alonso pelas posições na tabela. Nas nove corridas que encerraram o campeonato, Massa fez quase tantos pontos quanto Alonso (114 a 97, diferença aproximadamente de um segundo lugar) e tendo de ceder posições.

Mas, para que o torcedor brasileiro recupere definitivamente a confiança (olha a palavra confiança aí de novo), Felipe tem de se concentrar em começar bem a temporada-2013 e pontuar de forma sólida e convincente. Estando bem na tabela, na pior das hipóteses bem próximo de Alonso, Massa pode finalmente evitar as situações constrangedoras que vimos nos últimos anos.

Vocês podem perguntar, com razão: então está tudo bem e aquele Massa de 2007/2008 definitivamente voltou? Não sei, é impossível prever. Mas um primeiro passo foi dado.

Aguardemos.

Fotos, na ordem:
Pódio do GP do Brasil de 2008
Pódio do GP do Brasil de 2012
Massa colado em Alonso no GP do Brasil de 2012
Acidente de Massa nos treinos do GP da Hungria de 2009
Pódio do GP da Alemanha de 2010

Fotos Ferrari/Divulgação exceto a do acidente (reprodução da internet)

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

História e Outros Assuntos: "Argo e a Revolução Iraniana Revisitada"


Nesta quarta feira, a coluna “História e Outros Assuntos”, do Mestre em história Fabrício Gomes, fala sobre a Revolução Iraniana de 1979 e a sua perspectiva a partir do filme “Argo”.

O colunista, a propósito, é autor do livro "Sob a sombra das Palmeiras: o ISEB, os militares e a imprensa (1955-1964)", que pretendo resenhar proximamente e que pode ser comprado aqui.

Vale lembrar aos leitores que a Revolução Islâmica, comandada pelo Aiatolá Khomeini, contava com amplo apoio popular na ocasião. Khomeini retornou do exílio em paris para assumir o poder literalmente nos braços do povo, que era contra o regime impopular comandado pelo Xá.

Embora não sejam livros específicos sobre o assunto, “Confissões de um Assassino Econômico” e especialmente “O Petróleo - Uma História mundial de conquistas, poder e dinheiro" (ambos já resenhados neste blog) traçam um excelente panorama da história iraniana no Século XX, que é muito interessante.

Petróleo, alias, que é indispensável para se explicar a história do país persa – e não árabe, como muitos pensam. Passemos à coluna, após a foto.


Argo e a Revolução Iraniana Revisitada

Em 4 de novembro de 1979, a embaixada estadunidense em Teerã foi invadida por centenas de estudantes iranianos e fundamentalistas islâmicos radicalmente contrários às interferências da política externa dos EUA no país, que vinham ocorrendo desde 1953, quando o Xá Reza Pahlevi fora restaurado ao poder no Irã com o apoio estadunidense e britânico – de olho nos interesses petrolíferos na região.

O Xá governava o país desde 1941, mas em 1953 deixara rapidamente o Irã, neste momento comandado pelo primeiro-ministro Mohammed Mosaddeq – um nacionalista, contrário às interferências estrangeiras no país e simpático à hierarquia islâmica xiita. Mosaddeq nacionalizara as companhias de petróleo e fizera Pahlevi abdicar. No mesmo ano, com forte apoio logístico dos EUA, o Xá retornou e reassumiu o poder que lhe fora temporariamente tomado.

O Xá governou o Irã com mão-de-ferro desde então, combatendo o clero xiita. Seu principal sustentáculo no poder era a Savak – sua polícia secreta -, responsável pela censura, por prisões, torturas, desparecimentos e assassinatos de opositores ao regime. Uma espécie de Guarda Pretoriana criada e concebida em 1957 com o auxílio da CIA, e que chegou a ter, em seus quadros, mais de 60 mil agentes, assombrando o Irã até 1979.

Em 1979 aconteceu a Revolução Iraniana, que aboliu o sistema de governo autocrático de Reza Pahlevi, substituído por uma República Islâmica. A principal crítica ao regime anterior, além da ditadura do Xá, residia na crescente ocidentalização do país, em progresso desde 1975, quando Reza Pahlevi decidira diminuir o papel do islamismo no cotidiano do reino, ressaltando as conquistas das civilizações pré-islâmicas, como por exemplo, a civilização persa.

 
Outra medida que sofria forte oposição entre os xiitas fora a substituição do calendário lunar pelo calendário solar. O governo iraniano tinha nos EUA seu maior fornecedor de armamentos e as únicas camadas sociais beneficiadas pelas reformas implantadas pelo Xá foram a elite e os funcionários de altos escalões que trabalhavam nas multinacionais do petróleo.

O regime feudal fora também abolido – com os líderes religiosos perdendo suas terras – e as mulheres passaram a ter direito a voto – fato encarado como uma afronta pelos xiitas. De tal modo que se agradava uma pequena parcela da população, por outro despertava grande indignação na maior parte do país. A população pobre era justamente a parcela mais religiosa e menos ocidentalizada.

A comemoração dos 2500 anos do Império Persa, em 1971, foi outra gota d´água em um copo que estava em vias de transbordar. Ao custo de cerca de US$ 300 milhões, as comemorações afrontavam o cotidiano dos mais pobres. Fontes apontam que entre as várias extravagâncias ocorridas, destaca-se o preparo de uma tonelada de caviar por 200 chefs vindos de Paris, entre outras.

Portanto, a Revolução culminaria em fevereiro de 1979, quando o Xá já não estava mais no país (deixara o Irã no mês anterior). O principal líder islâmico, que guiou o país para a adoção de um regime teocrático – um sistema de governo em que as ações políticas, jurídicas e policiais são submetidas às normas de alguma religião, podendo ser exercido direta ou indiretamente pelos clérigos de uma religião, foi Ruhollah Khomeini – o aiatolá Khomeini – exilado na França desde 1964.

 
Tudo isto serve como introdução ao filme “Argo”, dirigido por Ben Affleck. 

Quase trinta anos cruciais da história do Irã – e suas conturbadas relações com os EUA – são apresentados aos espectadores, logo no início deste filme, de forma didática e com imagens reais, da época, de modo que servem de introdução para a história (verídica) que o diretor quer mostrar: a invasão da embaixada estadunidense e os polêmicos desdobramentos ocorridos logo em seguida.

Estes culminariam (o filme não mostra isso) na derrota do democrata Jimmy Carter na reeleição à Casa Branca. Muitos analistas apontam que a desastrada tentativa de resgate dos 52 estadunidenses reféns, na embaixada, por helicópteros, na conhecida “Operação Eagle Craw” - que resultou na destruição de duas aeronaves e na morte de oito soldados dos EUA e um iraniano – foi fator que pesou para a vitória de Ronald Reagan naquele ano. Há indícios de que o próprio Reagan negociou com o governo iraniano para que a soltura dos 52 estadunidenses ocorresse somente após as eleições, o que de fato ocorreu – eles ficaram 444 dias reféns na embaixada.


A maior dificuldade que Affleck enfrentou para realizar esse filme é paradoxal: o pouco conhecimento público pela história – sim, esse episódio permaneceu secreto até recentemente. Também pesou o perigo de se cair na costumaz armadilha ufanista e patriota dos filmes produzidos nos anos 1980 – nos estertores da Guerra Fria (lembrando que sim, a URSS apoiou inicialmente a Revolução Iraniana) – e principalmente nos anos 1990 e anos recentes desta época, após o 11 de setembro, quando o "inimigo" passou a morar no Oriente Médio.

Em um tom absolutamente neutro, propondo-se a contar uma história desconhecida, “Argo” marca um gol de placa e chama a atenção para um episódio histórico pouquíssimo explorado e que desencadeou na época, internamente nos EUA, uma onda de repúdio a qualquer coisa que tivesse relação com o Irã.

Uma grata surpresa promovida por este diretor que em 1997, aos 25 anos, ganhou seu primeiro Oscar como roteirista de “Gênio Indomável”. Tudo no filme remete aos anos 1970, a começar pelo logotipo “retro” da Warner – utilizado na época, aos figurinos, aos tons de cores fidedignos àqueles anos.

Se ainda não viu, corra para assistir. “Argo” é um dos filmes que irão concorrer ao Oscar 2013.



terça-feira, 27 de novembro de 2012

Meu nome é dezembro - mas pode me chamar de Hipocrisia


E vamos a um post que está se tornando tradicional neste Ouro de Tolo. Com pequenas alterações e atualizações a cada temporada, todo ano está presente nesta época do ano, sendo um tema importantíssimo.

Nos últimos anos, tenho desenvolvido certa aversão às festas de Natal e Ano Novo, em especial depois que meus avós faleceram. O mito do Papai Noel renasceu nas minhas filhas, mas a motivação ainda não é a mesma.

Todavia não falarei disso. Mas, sim, de uma verdadeira praga que ocorre todo mês de dezembro: a temporada anual de hipocrisia.

Como que por encanto, todos aqueles que foram canalhas o ano inteiro recebem um espírito bem aventurado e se transformam em verdadeiros santos: só faltando a canonização pelo Vaticano. É um tal de "felicidades" para lá, "sucesso" para cá, confraternizações mil...

Ambiente de trabalho, então, é bem isso. O sujeito pisa no teu pescoço o ano inteiro, mas quando chega dezembro... Dá uma de bom samaritano e deseja com um sorriso nos lábios: "feliz natal" e "próspero ano novo". Especificamente neste ano, tem gente que se fizer isso comigo me obrigará a ser bastante indelicado, para se dizer o menos...

Aí chega o dia dois de janeiro e o cidadão volta a pisar no pescoço dos outros ou a vender a mãe (dos alheios) para obter dez "merréis" a mais. Igual às festas corporativas, onde ninguém quer ir mas acaba sendo voto vencido. Vai para fazer média ou para ver se fatura algum brinde - escassos nestes tempos de downsizing e disciplina de capital.

Sem contar que muita gente acaba se excedendo na bebida e na comida, dizendo e fazendo coisas incongruentes e criando a falsa ilusão de que "o mundo os ama". No dia seguinte sobram a ressaca e os sorrisinhos marotos dos colegas - isso, se não ocorrer algo pior. 

Normalmente, adoto a tática denominada pela especialista Glória Khalil como "4S": Surgir, Saudar, Sorrir e... Sumir. Normalmente permaneço o tempo indispensável em que minha presença se faz obrigatória: ou seja, até ter minha estada registrada em uma ou duas fotos.

Entretanto, este ano tomei a decisão de não participar de nenhuma confraternização corporativa, a menos que seja formalmente obrigado a tal. Tive decididamente um ano bem ruim em termos profissionais, e não tenho o menor motivo para comemorar - ao contrário, estou contando os dias para acabar o ano neste aspecto.

Aliás, publiquei em 2010 coluna com um "guia" de comportamento para estas festas - vale a leitura, ainda está bem atual. Isto evita alguns comportamentos que podem, até, destruir a sua carreira na empresa. Já vi com meus próprios olhos situações deste tipo, sem dúvida alguma bastante constrangedoras. Evite estas verdadeiras arapucas - em geral associadas ao excessivo consumo de álcool.

Mas este não é o único aspecto da questão.

As pessoas deveriam mostrar-se como elas são. Não adianta nada desejar "boas festas", brindar naquele restaurante carésimo que o superior escolheu e distribuir sorrisos forçados a granel se no restante do ano ele só pensa em como se dar bem e puxar tapetes alheios. Cada vez o mundo é mais egoísta, mais individualista, menos solidário; o que torna ainda mais hipócrita este tipo de comportamento "altruísta" e "companheiro".

Outra questão irritante é o tal do amigo oculto. Acaba-se forçado a participar, aparentando uma coisa que você não é, provavelmente ganhando um presente que você não vai gostar ou, o que é ainda pior: aquelas listinhas com uma única opção que o forçam a atravessar a cidade, em um esforço que talvez só se faria por suas filhas.

No dia da entrega dos "presentes" ainda temos de sorrir aquele amarelo ao lado do infeliz que sorteamos ou o outro que nos escolheu - e nos ofereceu uma "lembrança" absolutamente inútil na maioria das vezes. Isso quando não acontecem "papeizinhos frios", onde aquele puxa-saco habitual sempre tira o chefe ou é "sorteado" por este - aí ocorre aquele espetáculo constrangedor que todo leitor com alguma estrada na vida corporativa conhece muito bem...

Pelo menos tem uns dois ou três anos que não preciso participar deste espetáculo dantesco.

Foco no ambiente corporativo mas isto vale para outros ambientes, onde acaba se tendo de ir a confraternizações onde não se tem a menor intimidade com as pessoas. E a cada ano estas festividades estão se iniciando mais cedo - no final de novembro ou até mesmo antes.

Será que é pedir demais querer que as pessoas também em dezembro sejam como são o ano todo? Assumem-se uma série de compromissos não por se querer estar no local, mas sim por uma "moral" absolutamente hipócrita e que denota uma conveniência absolutamente superficial e rasteira.

E se você, em um rasgo de sinceridade, diz que não vai a um destes compromissos, é taxado de "individualista", "anti-social", "arrogante" e coisas correlatas. Ainda que durante o restante do ano tenha se mostrado solícito, companheiro e demonstrado total espírito de equipe.

Mais uma tremenda demonstração do mais puro espírito da cara de pau é a tal da "caixinha".

O cidadão passa onze meses inteiros xingando aqueles que possuem funções menos remuneradas, mas dá uma gorjeta no final de ano para "se sentir menos culpado". Pragueja, defende o extermínio, acha um absurdo que frequente os mesmos lugares, mas no último mês do ano dá aquele "trocadinho" e pensa que está redimido de todo o seu comportamento natural nos onze meses anteriores.

Acho o cúmulo.

Seria muito mais justo e muito mais humano se o comportamento verificado no mês de dezembro se repetisse 'ad eternum'. Ceder a vez no trânsito, respeitar as prioridades no trabalho, adotar um comportamento mais adequado, menos cínico e tendo por base a bondade e a cortesia.

Não deixar o colega "vendido", assumir as próprias responsabilidades e seus próprios defeitos e erros, não exacerbar seus feitos e esconder os feitos alheios, não abusar de seu poder, não procurar vantagem em tudo... Educar nossas crianças com estes valores e não os do consumismo e da competição a qualquer preço.

Vale lembrar também o sentido comercial das festas, em especial o Natal.

Ano após ano, dezembro após dezembro, acabamos mais preocupados em encher os shoppings que realçar o sentido verdadeiro destas festividades: religiosidade, renascimento, reinício, reflexão, gratidão e balanço. Mesmo para mim, que não sou cristão, é uma festa religiosa, pois a data que na minha tradição equivaleria ao Natal - o nascimento de Meishu Sama, nosso Fundador - é dia 23 de dezembro.

Entretanto ao passar de cada ano fortalece-se apenas a questão consumista, de comprar, comprar e comprar - daí vem a "verdadeira satisfação" da vida. Realça-se a ideia de que o ser humano é o que tem, não o que é. Resultado: centros comerciais absolutamente lotados, irritação extrema, tráfego insuportável, stress e uma dívida imensa no cartão de crédito para se iniciar o Ano Novo...

Voltando ao tema original, cada vez mais isto a que assistimos nesta época me irrita sobremaneira. Esta onda de bom mocismo, solidariedade e congraçamento tem a mesma base que um alicerce de areia para construir um prédio: nenhuma. E ao espocarem os fogos de primeiro de janeiro caem as máscaras e retorna-se à selva, onde "salve-se quem puder"...

Infelizmente, de alguns compromissos não se consegue escapar, mas me espanta a cara de pau demonstrada por alguns. Não passa de falsidade hipócrita.

Sinceramente, prefiro a companhia da família e dos amigos dos doze meses do ano. Muito melhor se todos assim o fizessem, já que não sabem agir de forma adequada de janeiro a novembro.

Contudo, não é o que ocorre. A hipocrisia é umas das mais graves doenças do chamado "mundo moderno".

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Médica e a Jornalista - "A ‘Black Friday’ de Mano"



Excepcionalmente nesta segunda feira, a coluna “A Médica e a Jornalista”, da Anna Barros, fala sobre a (para mim, não tão) surpreendente demissão do técnico da seleção brasileira Mano Menezes.

Notícias publicadas na imprensa hoje dão conta de que Felipão está acertado para ser o substituto. Acho, simplesmente, o pior nome disponível, por estar parado no tempo (não faz um trabalho ao menos razoável desde a seleção de Portugal em 2006) e ter um conhecimento tático risível. Sem contar seu assumido preconceito contra jogadores de times cariocas.

Sou a favor de um técnico estrangeiro, porque nossos profissionais estão 40 anos atrasados no tempo. Cláudio Coutinho, idealizador do Flamengo campeão do mundo em 1981, era mais avançado taticamente que qualquer, repito, qualquer treinador de hoje.

A meu juízo, Pep Guardiola seria o nome. Passemos ao texto.

A ‘Black Friday’ de Mano

E o ‘Black Friday’ de Mano Menezes ocorreu último dia 23 de novembro. Quando as pessoas menos esperavam, o técnico gaúcho que comandava a seleção brasileira há dois anos foi demitido. 

Uma reunião da cúpula da CBF com Marin e Marco Polo Del Nero decretou o veredicto, por mais que Andrés Sanchez tenha sido voto vencido. E o mais surpreendente: em um momento onde o time ganhava algum padrão de jogo e certa estabilidade. Será que o ‘Zé das Medalhas’ esperou o ano terminar para que o último resquício da Era Ricardo Teixeira fosse eliminado?  

Não saberemos, enfim. 

As especulações aparecem: Felipão , Muricy ou Tite? Quem será o novo técnico que a dona CBF vai anunciar em janeiro próximo? 

Felipão levou o Palmeiras para a série B, mas é o preferido de Del Nero. Muricy é ótimo, mas ainda tem contrato com o Santos. É o preferido de Marin. E Tite é o melhor técnico do campeonato, a meu ver, melhor que Abel. Dizem que estão esperando que Tite ganhe o Campeonato Mundial de Clubes pelo Corinthians para que seja contratado.

Mas o meu preferido é Pep Guardiola.

Pois ele seria uma aposta arriscada e ousada, que nossos cartolas talvez não tivessem peito e coragem para anunciar. O próprio Guardiola disse que aceitaria o cargo de técnico da amarelinha no dia seguinte ao convite, segundo o Diário Lance!do último sábado,dia 24. Deveriam ao menos conversar com ele, se há essa disponibilidade. A conferir.

Atualmente, Guardiola seria o único com chances de resgatar o verdadeiro futebol brasileiro, de plasticidade, de toque de bola, à la Barcelona. Ele mesmo se disse inspirado na Seleção Brasileira de 1982. A menos de dois anos da Copa que sediaremos em casa, é um tiro no pé. Haja organização e planejamento...

‘Ironic mode on’, como se diz no Twitter, claro...

Forte abraço aos leitores. Até a próxima!
Anna Barros

(Charge: Mario Alberto, Lancenet)

Bissexta - "O drama dos bacharéis e o mercado da advocacia"


Nesta segunda feira, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, fala sobre o mercado de trabalho de advogados e os transtornos criados pela prova da OAB.

O drama dos bacharéis e o mercado da advocacia

Eu sou um defensor entusiasmado e intransigente do Exame de Ordem, a prova aplicada pela Ordem dos Advogados do Brasil para quem deseja advogar. Até já escrevi sobre isso e reafirmarei essa opinião quantas vezes forem necessárias.

Ao contrário da jabuticaba, o Exame de Ordem não é uma exclusividade brasileira, pois muitos países adotam critérios de seleção até mais rígidos que o nosso. Portanto, abomino qualquer iniciativa que defenda a extinção do exame.

Isso não significa, contudo, que se deva fechar os olhos para o pequeno drama social que essa ‘provinha’ anda provocando. Isso ocorre em parte por uma distorção nos critérios de elaboração, em parte por condições muito peculiares do segmento da advocacia, criadas pela mesma lei que instituiu a obrigatoriedade do Exame: o Estatuto da Advocacia, de 1994.

Vamos começar por estas últimas, as bases sob as quais se assentam as relações profissionais na advocacia. esta é, por essência, uma profissão liberal, ou seja, exercida de forma autônoma por seus licenciados. Só que aquele escritório de advocacia do passado, com um ou dois colegas atendendo direta e individualmente os clientes e cuidando dos processos de forma quase artesanal, é mercadoria em extinção e já o era em 1994 - embora ainda nem tanto naquele momento.

Os escritórios de hoje em dia, que lidam com uma quantidade de causas muito maior do que antes do advento dos computadores, da Constituição de 1988, do Código de Defesa do Consumidor e tantas outras variáveis, são formados por vários profissionais - inclusive com relações de hierarquia entre eles.

O normal, por óbvio, seria que se estabelecesse uma relação de emprego, regida pela CLT e com uma sociedade de advogados fazendo às vezes de empresa.

Mas o Estatuto da Advocacia embaralhou tudo.

Primeiro: proibiu que as sociedades de advogado recebessem o valor dos honorários de advogado de forma livre. Ora, se fosse uma empresa, seria natural que o empresário, que corre o risco do negócio, ficasse com o resultado financeiro.

O problema é que as sociedades de advogados, também por culpa da mesma lei, não são empresas. Pelo contrário: são proibidas de assumir forma mercantil. Assim, se uma sociedade tiver advogado empregado, ela precisará repartir a sua principal receita com seu funcionário. Sob quais critérios? A lei silencia.
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Segundo: criou a figura do advogado associado, que tem um vínculo com a sociedade que não é de emprego. Assim, as sociedades que admitem advogados associados podem contratá-los a um custo mais barato, porque a incidência de encargos e direitos trabalhistas é menor.

Terceiro: para quem desejar contratar advogados pela CLT, a jornada de trabalho máxima é de 4 horas diárias ou 20 horas semanais, com adicional de 100% sobre as horas extras.

Ou seja, o Estatuto da Advocacia realmente se empenhou para que as sociedades de advogados nunca tivessem empregados.

E o mercado se estabeleceu dessa forma, contratando advogados em regime de associação. O qual, por ser menos oneroso, acabou permitindo a prática de preços mais baixos na advocacia, levando o aviltamento dos honorários cobrados pelas sociedades. Hoje se encontram grandes escritórios de advocacia cobrando incríveis R$ 15,00 por processo/mês ou até menos do que isso.

E o que os bacharéis têm a ver com isso?

Simples: os escritórios ainda são a maior fonte de contratação de estudantes de direito. O plano de carreira convencional de um estudante é começar a estagiar em um escritório, se formar, obter a carteira da OAB e ser efetivado como advogado associado.

Mas, sendo a relação de estágio regida por uma lei especial e a relação de associação regida por outra, como agir aos bacharéis, que estão no limbo, durante esse período de transição?

A resposta das autoridades é simples: demitam-os! Como é proibido que eles sigam trabalhando sem um vínculo formal e como não poderão virem a ser advogados empregados no futuro (por força dos problemas que antes apontei), a solução é mandar esses jovens para casa para se prepararem para a prova e só então voltarem a procurar emprego.

Só que a prova, cada vez mais, anda perversa. Conceitualmente, ela deveria servir para aferir a capacidade do candidato em oferecer soluções jurídicas a quem lhe procura. Em resumo, medir a habilidade de adequadamente representar em Juízo quem precisa de defesa. Mas nada disso está acontecendo.

O Exame da Ordem se tornou um concurso público como outro qualquer, inspirado por pegadinhas e ênfase em teoria jurídica. Algumas edições passadas vi uma prova cuja resposta considerada correta a um determinado caso exigia dos candidatos que fizessem uma petição processando um escritório de advocacia, que teria sido negligente em sua atuação. Vejam que absurdo!

A advocacia não é uma carreira de respostas certas. É uma carreira de melhores estratégias, elaboradas a partir de um sólido conhecimento do ordenamento jurídico. Essa singela diferença está sendo ignorada pela Ordem - e afastando gente talentosa.

Eu me comovo com o drama de gente que eu reputo como inteligente, preparada e dedicada, mas que vem fracassando nesse Exame. É preciso alterar essa dinâmica. Talvez, como já sugeriu a OAB/RJ, institucionalizando a figura do Paralegal, permitindo às sociedades de advogados que contratem bacharéis sob o regime de associação e retirando dos ombros deles o peso de uma aprovação que talvez tarde a chegar.

domingo, 25 de novembro de 2012

Orun Ayé - "Fanatismo"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, tem como tema o fanatismo. Alias este será o enredo da Caprichosos de Pilares, da Série Ouro.

Fanatismo

É... O título dessa semana é curto e grosso e versa sobre uma coluna que pensei ontem, quarta feira [N.do.E.: a coluna foi escrita na última quinta].

Estava no ônibus, indo pagar uma conta, quando entrou uma velha e nada querida conhecida minha no mesmo. Estava com uma blusa da União da Ilha, indo para o ensaio da comunidade.

Olhei e fiquei pensando: “caramba, eu nunca vi essa mulher com camisa que não fosse da escola, nunca vi em um evento que não fosse da escola, ela vive para a União da Ilha, que coisa triste viver em função de uma escola de samba”.

Sozinho no ônibus, fui pensando mais e aprofundando o assunto. Lembrei de casos onde não só ela, mas outras esposas de compositores torceram contra os maridos, para outros sambas, porque eram melhores para a escola.

E os maridos contavam essas histórias rindo. No Acadêmicos do Dendê, na disputa de 2011, vi essa mulher do ônibus comemorando a vitória de um samba que havia derrotado o de autoria de seu marido.

[N.do.E.: por elegância o colunista não quis dizer, mas tanto eu quanto ele estávamos na parceria do referido compositor derrotado nesta ocasião.]

E pensei: “se uma namorada ou esposa minha torce pra outro samba para o bem da escola, eu termino na hora”.

Escola de samba divide o dia a dia com você? Divide as contas? Fica aflita com você quando o filho está doente ou de recuperação? Escola de samba está com você na saúde, na doença, na riqueza e na pobreza como diz o padre? Escola de samba te abraça quando você está de TPM?.

Pensei nessas pessoas que vivem para uma escola de samba e lembrei-me do assunto do momento: mais uma briga entre israelenses e palestinos. Fanatismo, situações diferentes, mas fanatismo.

Fanatismo é aquilo que te cega, que tira você do seu normal, do seu juízo perfeito e te faz não enxergar as coisas, a vida por gostar de algo ou alguém.

Resumindo, fanatismo é algo que não presta, porque se algo tira o seu poder de discernimento não pode ser bom. Como as drogas, como a cocaína, a bebida. O fanatismo pode arruinar.

Seja arruinar sua vida, sua família ou uma civilização. 

Se o leitor parar pra reparar, os maiores erros da história da humanidade vieram da inveja e do fanatismo. Caim matou Abel por inveja - dizimando assim 25% da população da Terra da época.

Ao longo da história, judeus mataram cristãos que mataram judeus que mataram palestinos que mataram israelenses que são apoiados por americanos que mataram iraquianos que mataram iranianos que também mataram iraquianos que mataram americanos que mataram afegãos que mataram americanos que se acham os todo poderosos do mundo e praticam terrorismo em nome da democracia e jogam bombas atômicas em japoneses, que por sinal barbarizaram na Ásia, sob o lema “Deus salve a América”.

Deus... Deus que é o símbolo da justiça, do amor - e as maiores atrocidades da história de nosso planeta foram feitas “em nome Dele”.

Quase todas as guerras que ocorreram no mundo ao longo dos últimos milhares de anos tinham a desculpa de Deus, Bíblia, Alcorão e muitos outros livros ou simbologias. Cristãos foram mandados para arenas, pessoas foram queimadas como bruxas, muitas pararam em campos de concentração, aviões, prédios foram destruídos, índios foram exterminados - tudo em nome do Senhor.

Que Deus é esse que pede que sua mensagem e voz sejam passadas nem que seja na base da porrada e do genocídio? Que estupidez é essa que não deixa povos muitas vezes irmãos se entenderem e brigarem por dezenas, centenas de anos? Que estupidez é essa?

É a mesma estupidez, idiotice que faz pessoas se odiarem apenas devido a torcer por clubes de futebol diferentes. Que faz imbecis marcarem briga, atirar contra outras pessoas porque vestiam camisas que não são de seu clube do coração.

Matar gente que poderia ser seu amigo, parceiro, irmão. Poderia beber uma cerveja contigo, jogar uma sinuca, que tem mãe, pai, irmãos, família - e morre porque não torce para Flamengo, Vasco, Corinthians ou Kashima Antlers.

E não é só aqui. Torcedores do Celtic e do Rangers se odeiam, porque além da diferença entre torcidas há questões religiosas. A ESPN vem mostrando documentários sobre violência entre torcidas pela Europa e a coisa é barra pesada.

Todo fanatismo é perigoso: basta ver que um fã matou John Lennon.

Existe o fanatismo perigoso para os outros e o perigoso para si, como o da mulher que citei no início da coluna. A pessoa que vai a todos os eventos de uma escola de samba, que na semana seguinte que seu marido é sacaneado - perdendo o samba de sua vida - está na agremiação sorrindo arrumando gente para desfilar em sua ala é do mesmo grupo daquelas meninas adolescentes que são fanáticas por boy bands ou ídolos teen.   

Pessoas que ficam o dia inteiro na internet vivendo por esses ídolos, postando coisas sobre eles, inventam fãs clubes, levantam tags no twitter falando desses ídolos, acampam três dias antes de um show na frente do local e chegam atrasadas numa prova do ENEM que é importante para sua vida.

Esquecem da família, esquecem que existe um Sol ou uma Lua do lado de fora para aproveitarem, esquecem os amigos, do amor que poderia vir a conhecer, esquecem de viver.

Enfim, existem para alguém que nem sabe da sua existência - ou se sabe não dá a mínima - como a escola em relação a mulher do ônibus. No caso em questão, alguns comandantes da mesma já disseram não gostar do casal.

Amar é diferente de ser fanático. Podemos amar algo ou alguém sem esquecer que em primeiro lugar devemos nos amar e segundo que ter senso de ridículo sempre é bem vindo. Fanatismo não é sinônimo de amor. É obsessão, doença e precisa de tratamento.

A partir do momento que algo atrapalha sua rotina, sua casa, família e a vida em sociedade é melhor parar para pensar se vale mesmo a pena.

Pra mim mais que o câncer, AIDS, drogas ilegais, tabaco ou bebida o fanatismo é o maior mal que existe, o que mais mata, mais fere e mais destrói a auto estima.

Seja por uma escola de samba, clube de futebol, religião, país o fanatismo leva a cegueira e ao ódio.

Quer ser fanático? Seja por você, pela vida. Ela tem muito mais a oferecer. Orun Ayé!

sábado, 24 de novembro de 2012

Uma sugestão às escolas de samba


Na última quinta feira o jornal O Dia publicou artigo de minha autoria com algumas sugestões para melhorar a gestão de nossas escolas de samba. O texto é baseado em um post deste blog ainda de 2011, e devido às limitações de espaço do jornal está bastante condensado.

Entretanto, ainda este ano irei escrever aqui post desenvolvendo as questões abordadas abaixo na reprodução do artigo publicado.

Até para que não se repita o quadro da foto acima - do site SRZD Carnaval - com o quarto andar do barracão da Portela na Cidade do Samba. A imagem é do início desta semana, acredite o leitor.


Uma sugestão às escolas de samba

O noticiário carnavalesco dos últimos dias vem enfocando bastante a gestão das escolas e a demanda por mais recursos. O objetivo deste artigo é sugerir um conjunto de medidas a fim de se iniciar um modelo de gestão profissional por parte de nossas agremiações.

Dividiria as ações em três grupos: gestão profissional, governança corporativa e a gestão de marca e de novas receitas. Iniciando, a gestão profissional. Sabe-se que há ineficiência no uso de recursos. Isto ocorre por não haver modelo de gestão estruturado.

Detalhada proposta orçamentária é fundamental. Elaborada com antecedência, permite atração de bons profissionais, compra antecipada de materiais e execução do enredo segundo cronograma. Somente esta medida já permite economia que estimo em 20% do total.

Segundo: o que se chama “modelo de governança”. Isso significa a instituição de regras internas que visem à uniformização do uso de recursos, o processo de contratação de bens e serviços e a existência de controles internos automatizados na gestão. Além disso, instituir e acompanhar metas e indicadores objetivos tanto de gestão, como de processo e de desempenho são outra parte fundamental de melhoria.

Necessário também formalizar (na medida do possível) as relações trabalhistas e estabelecer um “Plano de Carreira”, com metas e incentivos. Instituir um sistema de consequências para os gestores profissionalizados, bem como padrões de procedimentos.

Uma boa gestão é marcada pela transparência, ainda mais quando há a busca por novas fontes de recursos e gestão de marca. Prestar contas de ações empreendidas e resultados financeiros ao público, ainda que de forma resumida, seria um bom começo.

O leitor deve estar se perguntando: de onde a escola vai tirar dinheiro para iniciar tão antecipadamente (antes mesmo do carnaval anterior) a preparação do desfile?

Através de contratos de vestuário (à moda dos clubes de futebol), licenciamento de diversos produtos com a marca da escola, maior rentabilização da quadra de ensaios e dos contratos de cervejarias. Estas são novas fontes de recursos que dispensariam o patrocínio ao enredo e trariam um fluxo de receitas por todo o ano.

Projeto de sócio torcedor, a R$ 10 mensais e envolvendo direito (mesmo que limitado) de voto, também possibilita afluxo de recursos considerável: 5 mil sócios representam R$ 600 mil anuais.

Obviamente estas linhas são um grande resumo, que precisa ser aprofundado.