quinta-feira, 30 de junho de 2011

Um Governador Enrolado


O recente episódio da queda de um helicóptero em Porto Seguro, onde faleceram a namorada do filho do Governador do Rio e mais seis pessoas, deixou evidentes no mínimo alguns aspectos mal explicados da gestão do Governador à frente do Rio de Janeiro.

Sérgio Cabral Filho está em seu segundo mandato, mas já faz parte do grupo que domina a política carioca em termos Legislativos há bastante tempo. Foi Presidente da Assembléia e quando saiu para ocupar sua cadeira de Senador seu grupo político ocupou e dominou o espaço político do estado, comandados pelos políticos Jorge Picciani e Paulo Melo.

Sua atuação como Governador, como expliquei em post antes das últimas eleições, era marcada por acertos mas também por várias questões mal explicadas - entre elas a de seu patrimônio pessoal, também descrita em post aqui neste espaço.

Entretanto, a queda do helicóptero trouxe à tona questões mal explicadas.

A primeira delas é o fato de o Governador estar em um evento de aniversário de empresário que detém contratos milionários com o Governo do Estado. A Construtora Delta, de propriedade de Fernando Cavendish, somente na reforma do Maracanã deverá ter uma fatia de aproximadamente R$ 500 milhões em contratos.

Segundo o jornal O Globo, em 2007, primeiro ano de seu mandato como governador, a construtora teve empenhos (recursos separados para pagamento) de cerca de R$ 67 milhões. Em 2010 este valor foi de R$ 506 milhões - um crescimento de 655%.

Sem dúvida alguma, é no mínimo impróprio que o Governador estivesse se dirigindo a uma festa de aniversário de um empresário que mantém contratos desta magnitude com o governo do estado. Ainda mais se levarmos em conta o aumento destes em seu governo. Fica meio complicado de se acreditar que a amizade do governador com o empresário não tenha contribuído para tal crescimento, embora não haja provas factuais de tal ilação.

Teoricamente as obras públicas passam por licitações onde a impessoalidade deve ser absolutamente respeitada. Entretanto, fica muito complicado acreditar nisso. Ainda que todos os contratos estejam dentro das normas e tenham sido obtidos de forma técnica, ainda assim não é adequado à ética do cargo a presença em um evento desta natureza.

Ainda mais se soubermos que quem cedeu o jatinho para o Governador se deslocar a Porto Seguro foi o empresário Eike Batista (na foto, com a namorada, o governador e sua então esposa Adriana Ancelmo). Eike, um empresário de métodos às vezes polêmicos - o leitor procure saber como ele recrutou os principais executivos da OGX, e entenderá o que digo - possui negócios com o governo do estado, além de ser doador de campanha e investidor do projeto das UPPs.

De acordo com o jornalista Ricardo Boechat na Rádio BandNews, última segunda feira, Eike Batista teria intercedido junto a Cabral para a instalação de uma usina siderúrgica e um porto em São João da Barra, Norte Fluminense, sem a necessária licença ambiental. Cabral teria interferido no processo a fim de que fosse concedida a autorização para as obras do chamado "Porto do Açú".

Mais uma vez, não é correto um governador viajar em um jatinho de propriedade de um empresário que detém negócios com o Estado. No mínimo é anti-ético, ainda mais com a denúncia do apresentador de que não é a primeira vez em que Eike empresta seu jatinho para o Governador viajar.

Outro ponto esquisito comentado nestas dias é de que Cabral teria ido a Porto Seguro para uma suposta aventura extra-conjugal. Se é verdade não se confirmou oficialmente, mas a Primeira Dama Adriana Ancelmo entrou com o pedido de divórcio imediatamente após o sepultamento das vítimas. Ou seja...

Adriana Ancelmo, aliás, que é advogada do Metrô Rio, da Fetranspor e da Supervia, concessionárias de serviços públicos do estado. 

Mais um flagrante caso de conflito de interesses, porque nos três casos os serviços destas empresas e associações devem ser fiscalizados pelo Estado - e a crescente piora na prestação à população indica que no mínimo há uma leniência estatal quanto à qualidade do transporte público.

Ancelmo também está em disputa pessoal com o Chefe da Casa Civil Regis Fichter - espécie de "eminência parda" do Rio de Janeiro - a fim de indicar o próximo Ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Além da desastrada condução da recente campanha salarial de bombeiros e policiais militares, causa "estranheza" a alguns policiais e jornalistas especializados que sigo no Twitter a não inclusão da favela da Rocinha no projeto das UPPs. A favela é a maior referência do tráfico de drogas hoje e fica em uma zona nobre da cidade; entretanto não está em cogitação pública a entrada desta comunidade no projeto.

Estes mesmos policiais e jornalistas especializados afirmam (de forma pública) que este fato teria relação direta com alguns acontecimentos que teriam ocorrido na recente ocupação do Complexo de favelas do Alemão - onde os principais líderes não somente escaparam como, especula-se, estariam refugiados na comunidade da Zona Sul. Inclusive estas mesmas pessoas afirmam em tom irônico que pode-se ter alguns "autos de resistência"  - com cara, cheiro e cor de "queima de arquivo" - em um futuro próximo...

Bom, não dá para se afirmar certas coisas mas aproveito para fazer o registro - e os leitores mais interessados no assunto podem procurar em meu perfil no Twitter algumas destas pessoas que sigo, onde as coisas são ditas de forma mais clara.

"Relações perigosas" com executivos e assemelhados à parte, Sérgio Cabral tem muito o que se explicar. No mínimo o seu convívio íntimo com empresários que detém negócios vultuosos com o estado do Rio de Janeiro e a sua eventual ligação com licitações, contratos e "otras cositas más".

É o mínimo que o cidadão pode esperar. A proposta de um "código de conduta" feita ontem em entrevista, além de insuficiente - parece aquela história da criança que só não faz algo errado porque a mãe não deixa - não esclarece o mais importante, as relações descritas acima no texto. As declarações dadas ontem na mesma são claramente insuficientes.

Este caso terá desdobramentos. O leitor pode apostar.


quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sobretudo - O Salário da PM: uma visão alternativa


Nesta quarta feira, excepcionalmente temos mais uma edição da coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero.

O tema de hoje é algo que já abordei neste blog: o salário dos policiais militares. Como o próprio articulista reconhece na coluna, discordo de uns 80% do texto. Mas este é um espaço democrático e os colunistas tem total liberdade para expressar suas opiniões.

Sobretudo - O Salário da PM: uma visão alternativa

Dia desses o editor do blog, nosso amigo Pedro Migão, postou em um pequeno grupo privado de troca de emails a coluna que subiria no dia seguinte no Ouro de Tolo. O tema era dinamite pura: os salários dos policiais fluminenses.

Respondi, quase imediatamente, que discordava do ponto de vista do Migão e argumentei em seguida. A tréplica veio em forma de desafio: “então, já temos uma nova Sobretudo, certo?” Tínhamos e não tínhamos.

O texto, basicamente, era aquele mesmo. E eu sei que o espírito democrático do Migão me deixaria rebater sua coluna nos termos que eu desejasse. Aliás, a proposta partira mesmo dele. 

Mas eu tenho noção de que nem tudo o que eu escrevo num grupo privado pode ser dito publicamente. Ilações e comentários feitos de maneira até irresponsável não têm o peso das certezas quando feitos privativamente. Então, antes de virar “Sobretudo”, minha resposta ao Migão passou pelo filtro do bom senso.

Fiquei de reescrever naquele mesmo dia. Tomei um susto ao conferir as datas: de 18 de maio a hoje, levei mais de um mês para cumprir a promessa. Mas a discussão ainda deve estar valendo, ainda mais depois dos desdobramentos da crise dos bombeiros do Rio e de minha própria categoria profissional (ferroviários de São Paulo) ter passado por um dissídio.

Continuo discordando frontalmente do texto original do Migão. Na verdade, acho os salários da Polícia Militar do Rio até bons. Poderiam ser muito melhores, é verdade. Mas os policiais do Rio não merecem. Simplesmente, não merecem.

Eu penso que primeiro o sujeito tem que ser competente, depois pedir aumento.

Nunca o contrário. E se for uma classe inteira o competente paga o pato pela média dos colegas ser baixa.

Receber pouco não é desculpa para baixa performance. Isso explica, sim, a desvalorização de profissões onde há evasão de talentos por baixa remuneração. Na polícia, ninguém (poucos, na verdade) pede demissão. Logo, não há evasão de talentos.

Policial, bombeiro, militar, médico, professor etc. são profissões de sacerdócio. O cara pode até vir a ganhar bem, mas jamais deve ser estimulado que o salário seja o fator de decisão pela carreira. Por mais que se pague, os riscos envolvidos e/ou a necessidade de disponibilidade não compensam se o critério for apenas financeiro.


Ou o candidato gosta do que faz/fará, ou nem tenta estas carreiras. Pagar mais não atrairá mais talentos específicos, atrairá apenas aquele que vai para a profissão pelo dinheiro (logo, independente de quanto ganha, mais afeito à corrupção, ou a decidir seus caminhos sob o ponto de vista financeiro).

A maioria dos policiais prefere ir para as ruas a ficar no trabalho burocrático. Por quê? Porque apesar do risco nas ruas há mais oportunidades de "ganhos" extras. Estimular o ingresso na profissão oferecendo salários maiores só pioraria este quadro.

Por uma questão de justiça, deve-se dizer que parte daqueles que preferem o trabalho das ruas o faz por vocação, por vontade de combater o crime. Para estes, salário é o menor dos atrativos na profissão. Portanto, em profissões de sacerdócio, o argumento de que o salário atrairia talentos é uma barca furada.

E, de uma forma ou outra, o recurso humano da corporação hoje é de nível baixíssimo. O Migão comparou o valor do soldo com o salário de um serviçal doméstico. Há um preconceito embutido nesta comparação, como se o trabalho doméstico prescindisse totalmente de especialização ou talento específico. 

Eu diria que tenho talento e formação para funções bem mais valorizadas na sociedade, mas não os teria para a maioria das funções domésticas que conheço. Então, cada um na sua labuta, cada um segundo sua vocação. Pois eu me arriscaria também a dizer que a maioria dos policiais de baixa patente no Rio não conseguiria um serviço doméstico e que são sub-qualificados para as funções mais simples.

Pode parecer muito radical afirmar isso, mas tente pensar isso desconsiderando a baixa avaliação que costumamos fazer – por preconceito - dos trabalhadores braçais.

Policial, hoje, é o cara que não teve formação técnica em mais nada, não cursou uma escola sequer razoável, não sabe virar um concreto, apertar um parafuso, consertar um carro, fazer uma faxina, tocar um pagode ou jogar futebol. Tanto que o tipo de bico que eles conseguem fazer nas horas vagas, em geral, está ligado à segurança. Prova de que servem menos a trabalhos que pagariam o mesmo (ou mais) do que aqueles ligados, de uma ou outra forma, à violência.

Quantos policiais você conhece que você contrataria para instalar uma tomada na parede de sua casa? Para podar as plantas de um quintal, para pintar ou erguer uma parede, para cozinhar para sua família?

E um policial com “curso superior em polícia”? O que é um oficial típico da PM? Um cara que sentaria nos bancos de uma faculdade de Economia, Comunicação, Direito, Administração, Engenharia, Medicina? Ora, a maioria não serviria para mais nada na vida além da função policial. É chato constatar isso, mas é a triste verdade.

Tem uma minoria que está de passagem, em geral fazendo outro curso em uma faculdade de segunda linha, e enquanto isso “brincam de policia e bandido”. Ora, ser policial para estes aí não é exatamente uma profissão, uma carreira, mas uma ferramenta para chegarem a outras carreiras. Não está errado, mas eu me recuso a analisar uma corporação a partir dos profissionais que estão ali de passagem.

Mas há situações piores: alguns até teriam alguma competência e talento para estarem em outra profissão, mas preferem estar na polícia para cometerem crimes com acobertamento oficial. Ora, e eu como cidadão vou pagar mais salário para estes caras?

Eu acho o seguinte: limpa a polícia. Limpa geral. Do tipo de limpeza que, se sobrar alguém sujo, vai ficar constrangido de continuar a infringir a lei. Vai demitir quantos? 80, 90% da tropa? Menos, mais? Que demitam. 

Aí, e só aí, a sociedade aceita discutir quanto se deveria pagar ao bom policial. Mas, por enquanto, qualquer aumento dado no salário do bom policial (que existe, deve existir – eu me recuso a acreditar que não exista nenhum) significa também que o contribuinte estará pagando um imposto que servirá a dar aumento salarial a policiais criminosos ou coniventes com a criminalidade.

Também não concordo com o risco como fator de elevação do soldo. O cara não escolhe uma profissão de risco pela grana. Escolhe por estilo de vida. Ou, então, nem deveria escolher. O risco faz parte da sensação necessária ao real policial, àquela minoria entre as minorias que está lá por gosto pela profissão. E se a tropa fosse feita só desses caras, o soldo até deveria ser maior, mas não exatamente por conta disso.

Risco de vida também é uma constante na vida dos bombeiros militares, do Rio e do mundo inteiro. Apesar da proximidade funcional - ambas são categorias de formação militar, com salários similares, ambos subordinados a políticos que pouco entendem da vida militar – bombeiros e policiais militares são percebidos de forma bastante distintas pela população do Rio de Janeiro. Bombeiros são admirados, respeitados. 

Há uma identificação do povo do Rio com sua causa. Independentemente de estrutura, salários, equipamento e comando apropriado, a sensação geral é que bombeiros cumprem a sua função. E que PMs, não.

Um bombeiro precisa ganhar o suficiente para manter sua família com dignidade e conforto. Mas não é porque não ganham o tanto que merecem que fazem pela metade o seu trabalho. Portanto, é injusto que policiais aleguem que sua categoria só não é competente por falta de dinheiro – seja nos salários, seja na estrutura.

Aqui em São Paulo, a categoria dos ferroviários entrou em greve por melhores salários. Há profissionais de formações diversas na empresa de trens urbanos, inclusive eu, que sou publicitário e trabalho com atendimento ao usuário. E há administradores, engenheiros, toda sorte de carreiras representadas. 

Mas falemos dos profissionais diretamente relacionados com a atividade-fim: transporte de passageiros. São bons pais e mães de família, gente com formação técnica específica, trabalhadores qualificados que ganham muito menos do que merecem. E é duro negociar com qualquer governo, difícil decidir paralisar o trabalho se colocar contra a população. Ao longo do tempo, vê-se uma defasagem salarial e, aos poucos, perda de talentos para outras empresas e carreiras. (Veja bem, amigo, não me incluo nesta: se eu estou na empresa, é porque ainda quero estar. E é princípio meu não reclamar neste caso.)

Só que, ainda assim, ninguém ousa dizer que trabalha menos, ou com menor qualidade, por conta do quanto recebe. Primeiro, faz-se um bom trabalho, depois, só depois, exige-se aumento. É o que a categoria a qual pertenço está fazendo neste exato momento.

Agora, se comparamos os salários da PM do Rio com os salários dos professores, a coisa piora muito. Ainda que sejam muitíssimo mais importantes para a sociedade, a meu ver, e com óbvia e necessária formação muito superior a policiais. E - pasme! - ganham bem menos.

Um tenente da PM do Rio – que tanto pode ser um jovem voluntarioso cheio de boas intenções, alguém de passagem pela corporação ou um corrupto - um jovem em início de carreira (ou um velho que não progrediu nem nisso) recebe de soldo maior do que uma professora de escola pública (em regime de 40 horas) recebe em final de carreira.

Uma diretora de escola receberá bem menos que um Coronel PM. Aliás, receber mais de 7 mil em emprego público numa carreira sem nenhuma qualificação é um absurdo.

Eu trocaria meu emprego hoje por ser coronel PM (que é o que eu seria se tivesse entrado para a Academia, em vez de entrar para a ECO-UFRJ para estudar Comunicação Social). Sendo absolutamente honesto, eu ganharia bem mais do que recebo num emprego público que me exigiu passar num concurso com apenas uma vaga (relação candidato-vaga de 2500 para 1) e cujo desempenho pressupõe mais experiência profissional e predicados do que um coronel.

Eu acho que a percepção do cidadão médio deve ser ainda mais rigorosa do que a minha, já que eu ganho um salário bem maior do que a maior parte da população. Um coronel PM, então, recebe uma fortuna para dar resultados pífios do seu trabalho à sociedade que lhe paga.

(Fotos: O Dia)


terça-feira, 28 de junho de 2011

Trabalho Interno (Job Inside) - Uma Resenha Técnica



No último feriado assisti, em DVD, ao documentário "Trabalho Interno", vencedor do último prêmio Oscar na categoria "melhor documentário". Não tenho assistido a muitos filmes mas este, pelo tema, me interessou bastante.

Até pela minha profissão a recente crise econômica mundial tem me interessado bastante. Somente aqui neste blog resenhei "Enganados" e "O Mundo em Queda Livre", livros; e "Capitalismo: Uma História de Amor", outro documentário sobre o tema.

Este "Trabalho Interno" tem um perfil mais técnico, por assim dizer. Mas ainda assim é um retrato assustador de como os Estados Unidos se curvaram a Wall Street, centro financeiro do país. E, pior, arrastando boa parte do mundo desenvolvido junto - o Brasil foi uma das poucas exceções. Em vários momentos do filme me peguei soltando palavrões de espanto com os absurdos que ocorreram, primeiro para se chegar à crise e depois no enfrentamento desta.

De forma didática o documentário mostra como a ganância de poucos levou a uma "bolha" no mercado imobiliário americano. E, a partir daí, o jogo de lobby e de pressão exercidos pelos representantes do setor financeiro de forma a evitar punições, processos judiciários e a regulamentação da atividade financeira americana.

A base da crise teve origem em empréstimos de risco altíssimo concedidos por empresas americanas para a compra de casas, com juros absolutamente extorsivos e hipotecas impagáveis. Estes eram "reembalados" em produtos financeiros (derivativos) sofisticados, revendidos a instituições financeiras de outros países como se fossem empréstimos "triple AAA" - ou seja, investimentos tão seguros quanto os títulos do Tesouro Norte Americano, considerados os de menor risco do mundo.

Por outro lado, a seguradora AIG desenvolveu um "produto" atuário que era uma espécie de "seguro" contra o risco de calote destes empréstimos. Se os clientes não pagassem a seguradora honraria o valor segurado nos prêmios.

Complementando a verdadeira "bomba relógio", os próprios bancos de investimento que "reembalavam" estes empréstimos de altíssimo risco passaram a comprar este produto da seguradora americana. Ou seja, estavam apostando contra o próprio produto que vendiam, ou sendo mais claro: os empréstimos vendidos como "seguríssimos" eram considerados não somente passíveis de apostas contra seu pagamento como, em memorandos internos, classificados como o que realmente eram: um produto fadado ao calote.

Complicado, leitor? Então vamos ser didáticos: o mutuário tomava um empréstimo para a compra de sua casa própria sem a comprovação dos documentos necessários, em um valor muito mais alto que sua renda permitiria e em taxas de juros de cálculo complicado e absolutamente escorchantes. Ou seja, mais cedo ou mais tarde o calote se tornaria inevitável.

A concedente deste empréstimo conscientemente ignorava (omitia) o risco destes empréstimos habitacionais e vendia os direitos destes a grandes bancos de investimento de Wall Steet. Estes "empacotavam" os recebíveis destes empréstimos em derivativos - produtos financeiros sofisticados - e os revendiam a bancos de todo o mundo. Por exemplo, um mutuário em Denver poderia, na prática, estar devendo a um banco inglês ou islandês.

Entendeu? Pois é, agora vem a segunda parte: a seguradora AIG vendia um seguro contra o risco de calote destes produtos derivativos, os empréstimos "sub prime" travestidos de "triple AAA". Em um determinado momento os mesmos bancos de investimento que vendiam estes produtos como "seguros" passaram a comprar em massa os referidos seguros: ou sejam, estavam apostando contra os próprios clientes.

Os riscos eram imensos: um calote nos empréstimos, lá na ponta, faria estes produtos perderem o valor para os clientes e depreciaria seus ativos - causando o risco de falência. Por outro lado, estes acionariam seus seguros e deixariam a AIG em situação muito complicada.

Completando o quadro, a concessão indiscriminada de empréstimos fez o preço dos imóveis americanos subir muito, gerando um maior "valor financeiro" e fazendo muitas famílias refinanciarem suas casas a fim de pegarem o valor excedente para consumir - sem se importar com as condições impagáveis a médio e longo prazo.

Na prática, o que havia era uma espécie de "corrente financeira" (os leitores mais antigos sabem do que falo) onde a entrada de novos incautos financiava os mais antigos. Falando com a linguagem do filme, é uma espécie de "esquema Ponzi", onde os rendimentos eram pagos com os capitais dos novos entrantes.

Paralelamente, os executivos destes bancos infiltravam-se no governo americano e nos órgãos de regulação de forma a impedir a ação regulatória e a garantir salvaguardas - em um caso clássico de "porta giratória". Além disso, quanto mais altas as taxas de juros cobradas maiores os bônus para os executivos financeiros - um caso curioso de renda vinda do ato de prejudicar o cliente.

Como diria o filme "Tropa de Elite": "Capitão, vai dar merda." 

Deu.

Em um determinado momento estes empréstimos começaram a ficar impagáveis e a gerar um calote generalizado. Alavancados, os bancos de investimento norte americano ficaram em dificuldades e a "quebra" do banco Lehman Brothers desencadeou um processo de pânico nos mercados globais - que estavam "comprados" nestes derivativos sem valor - agravado pela posterior quebra da seguradora AIG (os seguros contra estes empréstimos se transformaram em um sinistro de grandes proporções).

Complementando, os empréstimos de curto prazo de uma maneira geral foram suspensos e muitas empresas que por suas características utilizavam linhas de crédito de curto prazo como "capital de giro" passaram por sérias dificuldades financeiras. Com isso muitas tiveram de demitir funcionários e mesmo fechar as portas, o que causou uma crise imensa na chamada "economia real", na qual boa parte do mundo desenvolvido está imersa até o momento em que escrevo.

O filme mostra ainda que as consequências para Wall Steet foram quase nulas, com os principais responsáveis pela crise não somente saindo impunes como ainda mais ricos. Boa parte do socorro do governo americano acabou na forma de bônus por "bom desempenho" aos mesmos executivos que causaram o desastre. 

Além disso a AIG foi nacionalizada e não houve qualquer tipo de regulação efetiva do mercado após a crise - óbvio: todos os postos chave da economia eram ocupados por egressos de Wall Street. Em português claro, acabou em uma enorme pizza, apesar das comprovadas fraudes e gestão temerária.

Dois aspectos pouco falados são enfocados pelo filme: o papel das empresas de rating e os economistas acadêmicos que ganham uma fortuna prestando consultoria a estas empresas - muitas vezes com pareceres "encomendados".

O primeiro caso é claro: empresas que deveriam alertar para a má qualidade dos derivativos em questão acabaram de certa forma "cooptadas" e participaram efetivamente da fraude. Trabalhei em rating durante praticamente seis anos e sei que muitas vezes o cliente fazia pressão por uma avaliação mais favorável, embora jamais tenha visto isso se confirmar.

Quanto às universidades, fica claro por um lado o papel "direcionador " das escolas de Economia para o mercado financeiro e também a atividade dupla de vários de seus próceres na vida acadêmica e no mercado - resvalando na fraude.

Fico longe de esgotar aqui os assuntos do documentário, mas é indispensável para entender a atual crise. E impossível não se indignar. Apesar de algumas vezes escorregar na linguagem técnica.


Para saber mais:

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Escândalo do "Itaquerão"


Nestes últimos dias onde os responsáveis pela organização da Copa do Mundo de 2014 - em especial o Presidente da CBF Ricardo Teixeira - estiveram envolvidos em denúncias de corrupção na Fifa, chamou a atenção aquele que em minha avaliação é o maior escândalo até agora da preparação para a Copa do Mundo: o Itaquerão.

O estádio apontado para ser a sede paulista do Mundial está tendo sua construção iniciada agora, a "toque de caixa" para ficar pronta a tempo de ser utilizada. Tendo em vista o exíguo espaço temporal sua utilização já foi descartada para a Copa das Confederações de 2013, competição que servirá de preparação para o evento máximo do futebol mundial.

O leitor mais atento já deve ter percebido que o superfaturamento e os "elefantes brancos" serão uma das normas deste Mundial. Pelo menos quatro arenas não terão utilização efetiva após o torneio por estarem em locais que não possuem times competitivos a nível nacional: Brasília, Manaus, Cuiabá e Natal - esta última que, como escrevi recentemente, tenho sérias dúvidas se aprontará seu estádio a tempo.


Aliás, a reforma do Maracanã voltou às manchetes semana passada, ao eclodirem notícias dando conta da excessiva proximidade do Governador Sérgio Cabral com o dono de uma das empreiteiras responsáveis pela obra - a ponto de frequentar festas na casa deste.

Por que, então, com a notória desconfiança de roubalheiras e superfaturamentos o estádio paulistano será de longe o maior absurdo desta competição?

Simples. Irá se gastar aproximadamente R$ 1 bilhão de dinheiro público em um estádio que, após a Copa, passará a ser propriedade particular do SC Corinthians Paulista. Isso mesmo, caro leitor: eu, você e o restante do povo brasileiro estaremos dando um presente ao time paulista: um estádio moderníssimo e que terá toda a receita de sua exploração dividida entre o clube e a construtora responsável.

Obviamente, tal deferência vem do fato do presidente da agremiação estar sendo um aliado de primeira hora do presidente da CBF. Além disso, como expliquei anteriormente o São Paulo, que cederia o Morumbi para a competição entrou em rota de colisão com a entidade por causa da recente eleição do Clube dos 13. Com isso, inventou-se uma série de desculpas a fim de afastar o estádio e permitir a construção de um novo para ser a sede paulista.

Encontrou-se um terreno em Itaquera, Zona Leste da cidade, para se erguer a Arena. Logo ficou claro que não haveriam recursos privados para tal empreitada, e partiu-se para uma solução que permitisse a utilização de recursos públicos para a construção. Afinal de contas, São Paulo não pode ficar de fora da Copa, não é mesmo?

Com o passar do tempo e o prazo se extinguindo, a pressão aumentou. O ex-presidente Lula (corintiano), o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Gilberto Kassab, cada um a seu modo, se uniram para auxiliar Ricardo Teixeira e seu capanga Andres Sanchez, presidente da equipe paulista.

A Prefeitura participará da obra com R$ 420 milhões, sob a forma de mal disfarçadas isenções fiscais para o empreendimento - objeto de uma lei municipal que, no momento em que escrevo, sofre intensa pressão para sua votação na Câmara Municipal paulista. O governo do Estado será avalista de um empréstimo de R$ 300 milhões no BNDES e as três esferas buscam uma forma de obter financiamento público para os cerca de R$ 280 milhões faltantes.

Ou seja, há uma intensa articulação das esferas de poder a fim de viabilizar a construção de um estádio que será utilizado em no máximo seis partidas da Copa e depois cedido a termo definitivo, com escritura de propriedade, ao Corinthians. Em português claro: apropriação indébita. Roubo.

Há outra questão envolvida nisso: no terreno escolhido há dutos da Transpetro, subsidiária da Petrobras, que transportam hidrocarbonetos. Pela legislação não pode haver construção sobre estes dutos por questões de segurança.

Pois é. A Cetesb, o órgão ambiental de São Paulo, liberou em tempo recorde a licença ambiental para o deslocamento destes dutos para outro local. O curioso é que outras solicitações no mesmo órgão levam uma eternidade para serem liberadas -  e eu sei do que estou falando,embora não possa dar detalhes.

Ou seja, o quadro é este. Sob o argumento de que "São Paulo não pode ficar fora da Copa", o contribuinte paulista e brasileiro dará um estádio de presente ao aliado de Ricardo Teixeira. 

Vergonha. Caso de Polícia.


domingo, 26 de junho de 2011

Orun Ayé - "Nem vem que não tem"



Neste domingo, final de feriadão, temos mais uma edição da coluna "Orun Ayé", assinada pelo compositor Aloísio Villar. Hoje a coluna versa sobre um artista que está em processo de redescobrimento: Wilson Simonal.

Simonal - que já foi tema de uma "Sobretudo" anterior - era um dos grandes artistas da década de 60, como o leitor poderá ver no vídeo acima.

Nem vem que não tem

“..nem vem de garfo que hoje é dia de sopa
 Esquenta o ferro passa a minha roupa
Eu nesse embalo vou botar pra quebrar
“Sacudim, sacundá, sacudim, gudim gundá”

Hoje farei uma coluna musical: falar um pouco de um artista que não fazia parte da minha 'play list' mas que sempre me despertou curiosidade não por suas músicas, mas pelas confusões que entrou.

Não conhecia a fundo a obra de Wilson Simonal de Castro: sabia que ele tinha gravado “País Tropical” assim como Jorge Benjor e “Sá Marina” muito antes de Ivete Sangallo. Mas como adoro biografias e documentários comprei o DVD feito pelo casseta Cláudio Manoel chamado “Ninguém sabe o duro que eu dei”.

E ali conheci um grande artista com uma grande história. Wilson Simonal, pobre, preto e com uma bela voz se tornou um dos cantores mais populares do Brasil. O “Simona” como era chamado pelos amigos foi o primeiro showman da música popular brasileira, cantava divinamente e com extremo carisma era capaz de entreter o público.

Teve programa de televisão, foi o primeiro astro e assinar contrato milionário para propaganda e foi capaz de reger trinta mil pessoas no Maracanãzinho enquanto cantava “Meu limão, meu limoeiro”. Dizem que enquanto a platéia cantava ele chegava a sair para tomar um cafezinho e quando voltava estava lá o povo cantando.

Simonal foi astro e levou alegria ao povo quando o Brasil vivia uma época de lutas e mau humor. Era quase proibido amar o Brasil, falar bem dele e arte que prestava era a que fazia o povo pensar. Tempos engajados, de resistência. Época de teatro Opinião, cinema novo, Gil, Chico, Caetano, Pasquim e o Simonal não era desse estilo. Ele era da chamada “pilantragem”, o cantor que tinha suingue na voz, malícia. Era a hora da festa. E por ser um grande astro, o cara do momento, Simonal era marrento, se achava o dono do mundo e por achar que era se deu mal.

Em uma situação mal explicada com seu contador que foi preso e surrado na cadeia o cantor foi acusado de ser delator. Falavam que ele entregava os artistas de esquerda para o governo e não existe crime pior no mundo ocidental que a delação. Nada foi provado contra ele [N.doE.: documentos divulgados recentemente dão conta de que Simonal teria sim colaborado com as forças de repressão do Regime Militar], mas com o 'disse me disse' Simonal caiu no ostracismo. Tentou voltar nos anos 90, mas não conseguiu e morreu esquecido em 2000. Ele não entrou em decadência, o povo não deixou de gostar dele: Simonal simplesmente foi apagado da música popular brasileira.

Mas depois de sua morte, como sempre ocorre, lembraram que ele existia. Seus filhos Max de Castro e Simoninha fazem sucesso e várias homenagens foram feitas para ele, como o DVD “Baile do Simonal” e o documentário que me aproximou de sua história. Este eu já vi mais de duzentas vezes e posso dizer que sou um dos que estariam no Maracanãzinho cantando “Meu limão meu limoeiro” enquanto ele tomava café.

Como falariam na época. Bicho, o Simona era brasa, mora?

“Camisa verde claro, calça Saint Tropez
 E combinando com o carango todo mundo vê
Ninguém sabe o duro que eu dei
Pra ter fom fom trabalhei, trabalhei”

sábado, 25 de junho de 2011

Bissexta - "Para Além do Umbigo - Música em Espanhol"



Neste sábado, temos mais uma edição da coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro. Mas um texto diferente do habitual: respirando os ares platinos próximos a Porto Alegre, cidade do colunista, a coluna de hoje é sobre a música em espanhol da América do Sul.

Para Além do Umbigo - Música em Espanhol

Às vezes temos a tendência de criticar o egocentrismo norte-americano, que valoriza apenas a sua própria cultura. O problema é que nós, brasileiros, muitas vezes agimos de forma semelhante ou até mais intensa do que os ianques quando se trata do consumo de música. É fato que músicas cantadas em inglês são ouvidas naturalmente por aqui (embora via de regra quase ninguém entenda patavinas do que está sendo dito), mas 'torcemos o nariz' para músicas interpretadas em espanhol. 

É mais fácil um artista brasileiro fazer sucesso no imenso mercado hispânico do que um cantante do idioma de Cervantes ser acolhido em nossa terra, exceto em pequenos nichos especializados. A maioria dos brasileiros associa música em castellano a boleros e tangos lamuriosos (ou seja, música dos nossos avós) ou a ritmos caribenhos praticados em aulas de dança de salão. As únicas exceções ficam por conta da estrela planetária Shakira (de quem gosto muito, diga-se de passagem) e da banda mexicana Maná.

Ou seja, fazemos com nossos vizinhos o mesmo que os americanos fazem conosco, eles achando que ainda estamos na era de Carmem Miranda e nós que os hermanos ainda estão no 'chá-chá-chá'.

Eu sou fã de músicas cantadas em espanhol. Já estudei na Espanha e na Argentina, adquirindo familiaridade com os hits do mundo hispânico. A grande vantagem de um artista que cante em espanhol é que ele é ouvido do México até o Chile e na própria Espanha quase que indistintamente, o que lhe dá múltiplas oportunidades mercadológicas. Resolvi compartilhar alguns dos meus artistas prediletos. Alguns razoavelmente conhecidos no Brasil, outros nem tanto.

Vamos a eles, com uma coleção de vídeos do You Tube..

FITO PAEZ (acima) – maior astro argentino, volta e meia faz shows no Brasil, foi gravado por Paralamas e Titãs;


KEVIN JOHANSEN (acima) – argentino, Paulo Moska e Paula Toller já cantaram com ele. Tive a sorte de vê-lo algumas vezes, uma delas no Centro Cultural Carioca, para menos de 50 pessoas, até troquei uma ideia com ele.


NO TE VA A GUSTAR – banda uruguaia, já esteve em Porto Alegre, não sei se andou por outras cidades brasileiras.


AMARAL – direto da Espanha, sucesso estupendo quando eu estudava lá.


JULIETA VENEGAS – a mexicana é a mais conhecida desta lista, por conta da música “Ilusión”, que gravou com Marisa Monte. Quando faz shows no Brasil, os ingressos se esgotam rápido. O DVD MTV Unplugged (com Marisa Monte e Jacques Morelenbaum) é para ser assistido de joelhos, de tão bom que é.


MOLOTOV – banda mexicana com um som mais contemporâneo.


LA OREJA DE VAN GOGH – outra que vem direto da Espanha. Escorrega um pouco para o brega e canções românticas, mas faz imenso sucesso e tem seu valor.


SODA STEREO – Lá pelos anos 90 fez um sucesso na América Hispânica só comparável à Beatlemania. A banda argentina acabou, mas os integrantes se reuniram uns três anos atrás. Infelizmente seu líder e vocalista, Gustavo Cerati, sofreu um AVC ano passado e agora está em estado vegetativo.

Podia continuar estendendo a lista para outros ilustres desconhecidos, mas é melhor fazê-lo de forma individual, para quem quiser render mais assunto sobre o admirável mundo ibero-americano.

Amor, Salud Y Tiempo para disfrutarlos.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Cinecasulofilia - Mãe e Filha - "Do luto ao luto"


Nesta sexta feira "imprensada" - mas para mim, de trabalho - temos mais uma edição da coluna "Cinecasulofilia", do cineasta, professor e crítico Marcelo Ikeda. Como sempre, publicada em parceria com o blog de mesmo nome.

Mãe e Filha - Do luto ao luto

Quis o destino que a primeira exibição pública do segundo longa de Petrus Cariry aqui no Ceará acontecesse no Dia dos Namorados. Uma espécie de ironia, pois os festejos de uma data cuja principal razão de ser é o comércio (os presentes, os restaurantes, etc) se afastam do espírito do filme, uma sóbria elegia fúnebre.

Já falamos aqui sobre o notável longa de estreia de Petrus – O Grão – e a condição singular do realizador no cenário do cinema de Fortaleza. Em Mãe e Filha não consigo deixar de refletir sobre essa mesma situação, pensando em que medidas esse segundo filme é um aprofundamento, uma radicalização do anterior, apontando para um caminho de cinema muito coerente e comovente. Entre herdeiro de uma tradição familiar e integrante do “novíssimo cinema fortalezense”, Petrus parece fazer uma declaração de princípios em defesa de um caminho próprio, negando sua filiação a um ou outro extremo.

Mãe e Filha é uma enorme ilha dentro do cinema brasileiro, afastando-se seja de um cinema mais narrativo, ligado ao grande público, seja de afastando dos fetiches do jovem cinema contemporâneo. Em contraste com o clima geral de exaltação dos feitos sociais da Era Lula e diante das perspectivas de um Ceará em desenvolvimento, Petrus realiza um dos filmes mais sombrios do cinema brasileiro recente. É como se Petrus fosse assombrado por fantasmas que ele próprio não viveu. Seu destino: a opção pela solidão e pelo luto. Do luto ao luto.

Mas o que é o filme? Mãe e Filha possui um fiapo de narrativa: uma mulher que volta ao interior do Ceará para visitar sua mãe e enterrar seu filho (neto desta). Com isso, o filme é um longo e doloroso cortejo fúnebre, travessia de difícil pertencimento. A avó vive absorta pelos fantasmas de um passado, como um espelho da própria condição da cidade – Cococi, uma “cidade fantasma”, que Petrus já havia filmado no curta Dos Restos e Das Solidões. Na cidade não parece haver perspectiva de futuro além da morte: os enquadramentos são centrípetas, claustrofóbicos, a luz sombria, fora da luminosidade tradicional das representações do sertão.

De fato, esse é um dos elementos que afasta Mãe e Filha de O Grão: enquanto este ainda era voltado para uma representação mais tradicional do universo do interior nordestino, em Mãe e Filha o sertão surge a partir de uma iconografia peculiar e de um olhar que foge ao realismo. Momentos de câmera lenta tal qual a videoarte mineira, vaqueiros que se sentam à mesa como se fossem os parentes de Tio Boonmee, cortes abruptos de imagem e som, vagalumes que iluminam o breu, grandes planos gerais filmados com lentes grandes angulares, uma referência pictórica sofisticada, lembrando os quadros do barroco ou do renascimento do Norte.

Um momento especial se destaca nessa relação entre a construção de uma iconografia plástica e as novas representações do sertão: é quando Petrus corta para um quadro de Ofélia, uma pintura pré-rafaelita, de John Millais. É como se Ofélia fosse uma espécie de alter ego da posição do diretor. Em meados do século XIX, os pré-rafaelitas se opunham aos avanços dos pós-impressionistas e optavam por uma arte falsamente acadêmica, por um sensualismo de suspensão do tempo e do espaço, numa opção consciente por um comovente anacronismo. Uma religiosidade sensual, luminosa. Ofélia morre na dor e na loucura mergulhando num lago, mas sua morte não é como Mouchette de Bresson. Há uma “suntuosidade simples” mas nada franciscana e uma iluminação. De qualquer forma, o que quero dizer é que os pré-rafaelitas eram uma ilha.

Tudo é filmado com grande delicadeza, como um cumprimento respeitoso em acompanhamento a esse ritual fúnebre, observando a passagem do tempo e a reinstalação do espectador e da protagonista nesse lugar-nenhum. Petrus observa de maneira respeitosa sua herança mas se interessa muito mais em perscrutar a estada dessa mulher nessa casa a que ela não pertence mais do que sua saída para outro mundo. Sabe que aquele mundo não tem mais como continuar mas não sabe o que fazer sem ele. Mãe e Filha é fatalista mas nesse entremeio Petrus parece encantado com as possibilidades da linguagem do cinema, um longo gesto de adeus, em ritmo de adagio. É admirável que Petrus o realize em Fortaleza em 2011.

A autoconsciência desse pomposo anacronismo torna Mãe e Filha um adagio fúnebre que nos faz lembrar que o cinema pode ser a arte do encontro, da amizade ou mesmo do embate, da luta, mas também pode ser simplesmente um gesto de luto, silêncio, sombras... e solidão.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A Operação Satiagraha e a "Lei do Mais Forte"


Estou para escrever sobre o assunto há algum tempo, mas nunca é tarde para notificar aos leitores a inacreditável decisão do Superior Tribunal de Justiça que anulou a chamada "Operação Satiagraha". Em mais uma demonstração de força do banqueiro Daniel Dantas, toda a operação da Polícia Federal foi considerada nula porque, na avaliação dos juízes, as provas foram colhidas de forma irregular - apesar das escutas e dos mandados de busca e apreensão autorizados pelos próprios órgãos judiciais!

Os desdobramentos deste caso deixam claro algo que venho escrevendo aqui há tempos e que é uma anomalia clara de nosso sistema: para a Justiça, em especial os tribunais superiores, mais importante que a correta aplicação da lei é o quanto de poder e recursos financeiros que as partes requerentes possuem. Quanto mais poderoso e endinheirado, mais a lei é torcida - e muitas vezes rasgada - para atender a seus interesses.

Basta lembrar ao leitor que Daniel Dantas teve dois pedidos de prisão decretados por conta deste caso em pouco mais de 48 horas, obtendo de forma surpreendente dois "habeas corpus" no Supremo Tribunal Federal - ambos concedidos pelo Ministro Gilmar Mendes. Duvido que eu ou o leitor, cidadãos comuns, obtivessem este tratamento do STF; o que mostra claramente que seu tratamento nas esferas do Judiciário é tanto mais importante quanto a grana e o poder de que se dispõe.

Aliás, um parêntese: Gilmar Mendes é dono de uma escola de estudos jurídicos de pós-graduação, na qual emprega colegas de STF - o que é vedado pela lei. Entretanto, sua atividade extra-tribunal continua ocorrendo sem o menor constrangimento.

Voltando ao nosso tema, a decisão do STJ abre um precedente bastante perigoso: Daniel Dantas ganhou o direito de colocar na cadeia aqueles que o investigaram - um caso curioso do rato correndo atrás do gato. Seus principais alvos, obviamente, são o delegado Protógenes Queiroz e o juiz Fausto de Sanctis, líderes do processo. Menos mal que hoje ambos possuem foro privilegiado - o juiz se tornou desembargador e o delegado, deputado federal - o que torna mais difícil um eventual processo, mas para um leigo como eu é um absurdo que o investigado e réu, condenado, tenha a sentença anulada por chicanas jurídicas e passe a perseguir aqueles que são pagos para cumprir seu papel - aliás, o fizeram muito bem.

Ou seja, a partir de agora qualquer pessoa que tenha grana, influência nos tribunais superiores e bons advogados possui totais condições de se tornar absolutamente inimputável perante a Justiça. Criou-se uma jurisprudência: para se obter provas contra este tipo de gente apenas se pode recorrer ao que o próprio investigado disponibilizar - o que é uma aberração. Mais: tornou-se praticamente impossível se conseguir investigar delitos cometidos por pessoas de boa situação financeira e que detenham bons relacionamentos com os tribunais superiores.

Este é um bom exemplo de que uma reforma no Poder Judiciário com algum tipo de instância de controle externo é absolutamente urgente. Diminuir a influência do poder e do dinheiro e tornar mais justas as instâncias decisórias é algo necessário à nossa sociedade, bem como abrir as verdadeiras "caixas pretas" de tribunais e do sistema como um todo. A sociedade reclama dos políticos, mas pelo menos de quatro em quatro anos eles podem ser trocados e, mal ou bem, são eleitos para tal. E os juízes?

Outro ponto que este "tratamento VIP" dado a Daniel Dantas demonstra é o verdadeiro pavor que segmentos influentes da sociedade - basicamente políticos, empresários e juízes - tem de que ele resolva um dia contar tudo o que sabe. Ao que parece o banqueiro de maneiras "pouco ortodoxas" - para se dizer o mínimo - conhece bastante do submundo dos bastidores das altas esferas, e acredito que este tratamento preferencial venha do temor de que segredos sejam revelados. Um caso indireto de chantagem, para ser mais claro.

Mas, questões de mafiosos à parte, a jurisprudência criada por esta decisão absolutamente insólita - para não usar um termo mais forte - do STJ a meu ver é um atentado ao Estado de Direito. Perpetua a chamada "lei do mais forte" e a institucionaliza, em especial nos Tribunais que deveriam estar atentos ao que de realmente ocorre nas questões jurídicas do país. Contudo estes parecem mais interessados em atender querelas pessoais.

Nada que nos surpreenda, mas institucionalizado desta forma explícita é a primeira vez. Absolutamente lamentável. A sociedade precisa se mobilizar para que haja uma reforma judiciária, antes que ela sinta marcado na própria pele o instituto da "lei do mais forte".

Finalizando, me pareceu muito curioso o silêncio da chamada "grande imprensa" a respeito desta decisão. Por quê será?

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Final de Semana - "Corrente de Aço"



Neste final de semana prolongado para muitos - não para mim - temos antecipadamente nossa sugestão de música.

Hoje estive procurando para comprar algum CD da cantora Elisete Cardoso, a "Divina", cuja biografia resenhei recentemente. Confirmando o absurdo esquecimento a que a cantora foi relegada apenas 20 anos depois de sua morte, simplesmente não encontrei.

Isso é absolutamente lamentável, ainda mais se levando em conta a absoluta indigência a que assistimos hoje em nossa chamada "cultura de massa".

Este fato levou-me a trazer a grande cantora para esta coluna "Final de Semana". A canção é "Corrente de Aço", em gravação feita pela TV Record para o programa "Sambão" - em algum momento entre 1973 e 1974. As imagens foram disponibilizadas novamente pelo canal Record News, fonte do vídeo que apresento.

O leitor verá o quão injusto é o olvidar daquela considerada uma das maiores cantoras de todos os tempos.

"Corrente de Aço"

Eu cansei de viver chorando
Cantando agora sou feliz
A tristeza mora ali ao lado
E é bem fácil fazer o que eu fiz.
Amigo siga o ditado,
E a música o amor conduz:
Canta, quem canta os seus males espanta
E de um samba de amor
Pode surgir a luz;
Canta, quem canta os seus males espanta
E de um samba de amor
Pode surgir a luz.

Eu tenho no peito um tesouro
O meu coração é de ouro
Um samba de couro ou de lata
Não devo um tostão a ninguém;
Sou mestre e não sinto cansaço
A minha corrente é de aço...
Quem que ser feliz
Cante comigo também, la, ia, la, la!"

História & Outros Assuntos: "Já Não se Fazem Mais Imortais como Antigamente"

Nesta quarta feira, véspera de feriado, mais uma edição da coluna "História & Outros Assuntos", escrita pelo Mestre em História Fabrício Gomes. O assunto de hoje é a eleição de Merval Pereira para a Academia Brasileira de Letras.

Eleição esta da qual discordo fortemente. Merval é um proto-jornalista que reproduz em sua coluna em um jornal carioca opiniões reacionárias, elitistas, demófobas e que resvalam no preconceito. Além de ter utilizado tal espaço para fazer política, muitas vezes torcendo os fatos para chegar a conclusões pré-estabelecidas e a serviço de interesses eleitorais.

Além disso, seu único livro comete a suprema falta de respeito de colocar uma tarja sobre o rosto do ex-Presidente Lula em sua capa. Goste-se ou não, é um presidente da república e a ele se deve um mínimo de respeito - e diria o mesmo se o livro fosse sobre Fernando Henrique, a quem pessoalmente detesto. A meu ver ele se elegeu muito mais pela fama de "proto-ideólogo" das elites que pelos seus escritos de jornalista.

Este é o novo imortal. Machado de Assis deve estar dando cambalhotas no túmulo.

Enquanto isso, verdadeiros imortais como o poeta Mário Quintana jamais foram agraciados com a honraria. Sobre este episódio o gigante poeta gaúcho dedicaria um de seus versos mais famosos:

"Poeminha do Contra

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!"

Bom, vamos à coluna, muito bem escrita e que sem dúvida alguma traz outros bons argumentos para se entender esta verdadeira aberração.

Já Não se Fazem Mais Imortais como Antigamente

A notícia da eleição do jornalista Merval Pereira para ocupar a cadeira de número 31 da Academia Brasileira de Letras (ABL) – antes pertencente ao escritor Moacir Scliar – é motivo de polêmica no meio acadêmico e partidário.

Polêmicas assim como costumam ser as colunas assinadas em O Globo pelo referido jornalista - que também já foi chefe de redação da revista Veja. Sem contar com o fato de que uma eleição sempre que pareça ser unanimidade na maioria das vezes não o é, sempre suscitando críticas e discussões – muitas acaloradas – sobre o resultado final.

A ABL é uma instituição mais do que centenária. Foi fundada em 20 de julho de 1897, tendo como patrono o escritor Machado de Assis. Conta atualmente com 40 membros efetivos e perpétuos, seguindo o modelo da Academia Francesa. Mas não é qualquer um que pode se candidatar: segundo seu estatuto, é preciso ser brasileiro nato e ter publicado, em qualquer gênero da literatura, obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livros de valor literário. 

A eleição de Merval Pereira traz à tona um questionamento: quantos livros publicou o jornalista? Segundo consta, Merval publicou em setembro do ano passado, o livro “O Lulismo no Poder”, onde reúne vários artigos publicados por ele em O Globo, de 2003 a 2010, especialmente sobre o ex-presidente Lula e o fenômeno do Lulismo. Fora isso, Merval não publicou nenhum outro livro.

Eu me sinto à vontade para falar sobre esse tema, já que diariamente leio suas colunas em O Globo e acompanho seu trabalho como jornalista há pelo menos 15 anos. Fui ao lançamento de seu livro, no ano passado, numa cerimônia realizada na própria ABL (seria esse um indício da eleição que viria depois?) e o acho uma pessoa inteligente e bem articulada.

Sobre concordar ou não com o que ele escreve, este já é outro papo. Mas acho que para concordar ou discordar de uma idéia é necessário saber sobre essa idéia, ler várias coisas sobre ela e discutir bastante, para depois sim, criticá-la. Infelizmente o mundo está cheio de radicais (extremistas, fundamentalistas, talibãs), seja de esquerda ou de direita, que procuram criticar exasperadamente uma idéia quando, na verdade nem leram sobre ela.

E com isso, sou obrigado a questionar bastante a eleição de Merval Pereira, não pelo conteúdo das idéias desse jornalista, mas sim pelo histórico de sua obra literária - que se resume a apenas um livro. Um jogador de futebol, para ser convocado a defender a seleção de seu país, não pode ser convocado apenas pelo que faz num jogo, mesmo que tenha jogado muito bem, sido o craque da partida e feito vários gols. Convoca-se pelo trabalho que ele desenvolve ao longo de algum período. Em uma entrevista de emprego, o currículo de um candidato é avaliado pelos trabalhos desenvolvidos por ele. Então, mesmo achando um Merval um bom jornalista, não concordo com sua eleição e consequentemente, com sua imortalidade.

O renomado médico e cirurgião Ivo Pitanguy é outro exemplo. Internacionalmente conhecido, foi eleito em 1990 para ocupar a cadeira número 22 na ABL. O site da ABL mostra uma infinidade de publicações e artigos (científicos) de Pitanguy. Lá constam livros como: “Mamoplastias” (Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1976), “Atlas de cirurgia palpebral” (Rio de Janeiro: Colina/Revinter, 1994) e contribuições em obras coletivas como, por exemplo, “Tratamento das Fissuras Lábio-palatinas ”(orgs. S. Lessa e S. Carreirão). Rio de Janeiro: Interamericana, 1981. Não seria o caso do Dr. Ivo Pitanguy pertencer apenas a Academia Literária dos Médicos (não sei se essa instituição existe)? Sua “literatura” é bastante especializada, inclusive seus livros são raros e devem custar muito caro, estando distantes financeiramente de 99% da população brasileira.

Ocupante da cadeira número 39, o ex-vice presidente da Republica Marco Maciel foi eleito para a ABL em 2003, logo após deixar o governo de Fernando Henrique Cardoso. Marco Maciel também notabilizou-se por uma carreira que não esteve atrelada às Letras. Segundo o site da Academia, Marco Maciel publicou oito livros, todos atrelados às Idéias Políticas. Não consta no site, entretanto, quantos livros foram publicados antes de sua posse.

Voltando mais na linha do tempo, temos o exemplo do jornalista Assis Chateaubriand, quese tornou magnata das comunicações no Brasil, entre os anos 1920 e 1960, e ocupou a cadeira número 37. Ele foi eleito em 1954, após o suicídio de Getulio Vargas (outro imortal da ABL, eleito em 1941, durante o Estado Novo, e tendo publicado apenas uma obra “A Nova Política do Brasil – discursos reunidos”, não sabemos se publicado antes de sua posse) – lembrando que sua eleição se deu no auge de seu poder de influência na mídia brasileira.

Vamos às obras literárias publicadas por “Chatô”? Segundo o site da Academia, “a maior parte da obra do diretor dos Diários Associados, encontra-se dispersa em seus artigos para a imprensa. Em livros contribuiu com os seguintes trabalhos: Em defesa de Oliveira Lima; Terra desumana; Um professor de energia – Pedro Lessa e Alemanha (impressões de viagem)”. E ponto final.

Há diversos outros exemplos bastante questionáveis de imortalidades literarias, que se eu fosse escrever aqui, ficaria 100 anos analisando suas biografias e bibliografias. Mas é realmente surpreendente que “escritores” como esses supracitados estejam no mesmo rol de Nélida Piñon, do embaixador, diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva, do cientista político e historiador José Murilo de Carvalho, de Ariano Suassuna, de João Ubaldo Ribeiro – só para lembrar dos atuais imortais, ainda vivos e ocupantes de cadeiras na Academia, porque se fôssemos comparar com os imortais do passado, aí seria complicado.

Fica então a dúvida: já não se fazem mais imortais como antigamente ou a política se sobrepõe sobre o rigor acadêmico? Ou as duas coisas juntas?"

(Na ordem das fotos, Merval, Getúlio, Pitanguy, Chateaubriand e Sarney)


terça-feira, 21 de junho de 2011

Panorama Inicial do Carnaval 2012


O leitor assíduo deste blog deve ter notado que há algum tempo não falo das nossas escolas de samba, um dos temas mais assíduos deste espaço. Confesso que ando meio desanimado com os rumos que a festa anda tomando, em especial pelo direcionamento dado pelos donos do carnaval ao espetáculo e a uma série de coisas que ocorreram neste interregno - as quais prefiro não comentar.

Isso sem se falar nos últimos resultados: o Grupo Especial não refletiu o que se viu na avenida e o insólito resultado do Grupo de Acesso A deu ensejo a uma denúncia do Presidente da Acadêmicos do Cubango dando conta de que catorze jurados tiveram suas notas alteradas - inclusive com um laudo grafotécnico em um destes mapas provando a adulteração, segundo divulgado.

Contudo, em que pesem ameaças de CPIs e coisas correlatas, como sempre acabou ficando por isto mesmo - apesar dos indícios de que algo muito esquisito ocorreu. Lembro aos leitores que antes do desfile comentava-se insistentemente de que ocorreria este tipo de "manobra", inclusive na imprensa especializada... Mas deixa para lá.

Mas como o colunista Aloísio Villar escreveu recentemente, o carnaval já começou e a vida continua. Farei um panorama das principais mudanças ocorridas nas escolas dos Grupos Especial e de Acesso A, e os enredos definidos. Os sorteios da ordem de desfile serão respectivamente nos dias 06 de julho (Especial) e 18 de julho (Grupos de Acesso A e B).

Grupo Especial


Beija Flor - manteve praticamente toda a equipe do carnaval 2011, à exceção do carnavalesco Alexandre Louzada. Realizou "eleições", que serviram apenas para colocar Nelson David, irmão do patrono Anísio, na presidência. Fala-se que a escola irá atrair celebridades e colocar um pouco a comunidade em segundo plano, mas veremos. O enredo está definido e será sobre o Maranhão.

Unidos da Tijuca - sem mudanças em sua equipe. Enredo definido, homenagem a Luiz Gonzaga, o Gonzagão.

Mangueira - trocou de carnavalesco e agora Cid Carvalho assinará o enredo sobre o Cacique de Ramos. É possível que a implantação da Unidade de Polícia Pacificadora no morro da Mangueira (no último domingo) afete o dia a dia da escola, mas só o tempo dirá.

Vila Isabel
- com o ex-presidente Moisés preso, seu filho foi "eleito" presidente em chapa única. O enredo será sobre Angola e o mestre de bateria Átila foi substituído por Paulinho Botelho.

Salgueiro
- em eleição conturbada a atual presidente Regina Celi foi confirmada para mais um mandato. Enredo sobre a literatura de cordel, e após os  problemas do último desfile a escola trocou sua direção de Harmonia.

Imperatriz - homenageará o centenário do escritor Jorge Amado e a única dúvida em sua equipe é quanto ao puxador - Dominguinhos do Estácio enfrenta problemas de saúde.

Mocidade - turbinada com os recursos do contraventor Rogério Andrade, a escola investiu alto: trouxe o carnavalesco Alexandre Louzada, o puxador Luizinho Andanças, o casal de mestre sala e porta bandeira Robson e Ana Paula e montrou uma super comissão de bateria liderada por Mestre Odilon. O presidente Paulo Vianna, apesar das críticas, também se reelegeu. Enredo será sobre Portinari.

Porto da Pedra - perdeu o carnavalesco Paulo Menezes e o puxador Luizinho Andanças. Vieram Roberto Szaniecki e o veterano Wander Pires. Não divulgou o enredo, mas transita entre duas propostas patrocinadas (atualizado 06/07).

São Clemente - manteve a equipe e terá enredo sobre musicais. Realizou "eleições" nesta última semana, apenas para referendar mais um mandato da família Almeida Gomes no poder.

União da Ilha - outra que manteve a equipe do bem sucedido, apesar de não julgado, desfile de 2011. Seu enredo será sobre Londres, cidade olímpica de 2012.

Grande Rio - perdeu seu diretor de Harmonia para o Salgueiro e trouxe de lá mesmo seu substituto. Seu tema será "Superação".

Portela - viveu fortíssimas emoções nos últimos meses. Foi criada uma superintendência de carnaval, sob a liderança do policial Marcos Vieira (o "Falcon") e o presidente Nilo Figueiredo se afastaria do comando da escola. Com isso os segmentos da escola foram mantidos e o carnavalesco Paulo Menezes contratado.

Entretanto o superintendente foi preso logo depois sob acusação de porte ilegal de armas e formação de quadrilha. Com isso o presidente Nilo Figueiredo retomou o poder de fato, ao que parece, e voltou a busca por um enredo patrocinado ao contrário das expectativas iniciais - o mais provável é que seja sobre as cidades da Serra Gaúcha.

(Atualização 06/07: ao contrário das expectativas iniciais, a Portela anunciou um enredo autoral sobre a Bahia)

Assim como a União da Ilha, a agremiação está sem quadra (em obras) e sem barracão (idem). Somado ao já conhecido desprezo por planejamento e prazos do atual presidente as expectativas não são das melhores.

Renascer de Jacarepaguá - estreante no Grupo Especial a escola também manteve a equipe e terá como enredo a obra do artista plástico Romero Brito.

Os pares do sorteio - escolas que se dividirão entre domingo e segunda feira - já foram definidos: Beija Flor e Tijuca, Portela e Mangueira, Imperatriz e União da Ilha, Vila Isabel e Salgueiro, Mocidade e Grande Rio. A Renascer abrirá o desfile de domingo, o Porto da Pedra também estará domingo e a São Clemente abrirá o desfile de segunda feira.

Meu palpite, deixando claro que é puro "chute", seria o seguinte:

Domingo

Renascer
Porto da Pedra
Mangueira
Mocidade
Imperatriz
Beija Flor
Vila Isabel

Segunda Feira

São Clemente
União da Ilha
Grande Rio
Salgueiro
Tijuca
Portela

Grupo de Acesso A


A mecânica do sorteio é um pouco mais simples, por ser em um dia somente. O Paraíso do Tuiuti, campeão do Acesso B em 2011 abre a noite, e a Viradouro poderá escolher a posição de desfile por ter sido a vice campeã de 2011. As demais irão para o sorteio.

Vamos a uma parcial dos enredos definidos:

Viradouro - Nelson Rodrigues;
Estácio de Sá - anunciou enredo sobre a modelo Luma de Oliveira;
Acadêmicos do Cubango - após a confusão toda pós-resultado a escola definiu o enredo sobre o empreendedor do Século XIX Barão de Mauá.
Acadêmicos de Santa Cruz - ainda não definiu enredo.
Império Serrano - de presidente novo - o ex-mestre de bateria Átila - a escola homenageará D. Ivone Lara.
Império da Tijuca - com tema sobre "utopias", manteve o talentoso carnavalesco Severo Luzardo;
Inocentes de Belford Roxo - terá a cidade de Corumbá como tema;
Acadêmicos da Rocinha - as praças da cidade serão seu tema;
Paraíso do Tuiuti - fará o enredo dos sonhos de muito portelense: Clara Nunes.

E declaro aberta a cobertura do carnaval 2012 neste blog...


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Resenha Literária - "Jogo Sujo - O Mundo Secreto da Fifa"


Bom, o assunto do momento no mundo do futebol é a série de escândalos envolvendo os principais dirigentes do futebol mundial e, por tabela, do brasileiro. Escrevi sobre o assunto anteriormente.

Naquela ocasião havia citado que finalmente havia sido lançado em português o livro do jornalista inglês Andrew Jennings contando os escândalos da entidade, e que faria a resenha proximamente. E este é nosso tema de hoje.

Li o livro rapidamente, praticamente inteiro nas três horas de vôo do Rio de Janeiro a Natal. É estarrecedor. A quantidade de escândalos e a cara de pau dos envolvidos em determinadas situações é absolutamente inacreditável.

Tanto que esta resenha será um pouco diferente. Listarei alguns dos casos do exemplar para o leitor ter uma idéia do quilate dos responsáveis por esta paixão global que é o futebol. Entremeio com alguns vídeos da recente série de reportagens do Jornal da Record sobre o futebol brasileiro, exibida semana passada.

1) A propina com endereço errado - Uma propina - que, pasmem, é absolutamente legal na Suiça, a sede da Fifa - de 1 milhão de francos suiços acaba depositada por engano na conta da entidade - o destinatário era um famoso brasileiro, veterano dirigente.

2) Eleição de Havelange à Fifa - em 1974, mostra como o apoio de Horst Dassler, dono da Adidas, foi fundamental para sua primeira eleição à entidade. Gordos envelopes em dinheiro para os votantes, patrocinados pela empresa - que lucraria posteriormente com contratos e marketing esportivo.

3) Apostas com a chancela da Fifa - Havelange, Ricardo Teixeira e outros empresários - entre eles o brasileiro Matias Machline - idealizaram uma espécie de loteria em cima dos resultados do futebol, chancelados pela Fifa. A morte do empresário brasileiro acabou abortando o projeto.

4) A ISL e os direitos televisivos - a empresa fundada pelo grupo Adidas foi favorecida nas "licitações" - como se vê no livro, de "carta marcada" - para os direitos televisivos das Copas do Mundo de 2002 e 2006.  Como se mostra, tal "preferência" veio à base de gordas propinas pagas pelo grupo.



5) Havelange e o apoio a políticos impopulares - A Fifa não se preocupava com questões políticas e apóia ditaduras - como a da Nigéria, que assassinou opositores na década de 90 enquanto Havelange se encontrava com o presidente do país e garantia o Mundial Sub-20 em 1997 para o país africano mergulhado na ditadura, na pobreza e na corrupção.

6) Laranjas votando - em duas ocasiões o presidente da Federação Haitiana de Futebol não pôde participar de duas votações importantes. O poderoso Jack Warner, presidente da Confederação da Concacaf e depois Vice-Presidente da Fifa - afastado recentemente - resolveu o "problema": colocou dois laranjas como se representantes do Haiti fossem.

7) A eleição de Blatter - "presentes" da Fifa a federações africanas, propinas de US$ 50 mil a estes mesmos dirigentes, dinheiro da Fifa utilizado na campanha do então Secretário Geral da Entidade... a lista de irregularidades é farta.

8) Conta da Fifa, conta de Blatter - o presidente da entidade utiliza a verba da entidade como se pessoal fosse. O dinheiro da Fifa é dele e foi utilizado para despesas pessoais dele, da família e para acumulação de patrimônio. Detalhe: incrivelmente, tudo documentado...



9) Os desmandos na Concacaf - Jack Warner, chefão da confederação centro americana, utilizou dinheiro da entidade destinado ao desenvolvimento do futebol na região em causa própria. Inclusive criando um clube particular em Trinidad e Tobago, o "Joe Public", com infraestrutura e dinheiro da entidade. O que seria público se transformando em particular.

10) O Mundial Sub-17 em Trinidad e Tobago - outra do mesmo dirigente. O mundial trouxe grandes lucros a Warner - e pesado prejuízo ao governo do país. Sem contar as péssimas condições de acomodações e dos estádios.

11) O dinheiro da Rede Globo - 22 milhões de dólares pagos ao grupo ISL pela tv brasileira em 1998 e que deveriam ter sido repassados à Fifa simplesmente foram desviados pela empresa. O dinheiro, curiosamente, jamais foi cobrado pela entidade responsável pelo futebol mundial.

12) A quebra da ISL - afogada em propinas e em maus negócios, a empresa quebraria em 2002. Um destes maus negócios foi a parceria com o Flamengo, onde US$ 63 milhões foram investidos e simplesmente sumiram, evaporaram - mas esta é outra história...

13) O buraco nas contas da Fifa - em 2002, com os problemas da ISL, a entidade estava passando por sérios problemas financeiros. Foi feita uma operação privada de securitização dos direitos de marketing das Copas futuras, algo que fez a entidade perder muito dinheiro.



14) Propinas - A ISL pagou vultosas comissões a dirigentes esportivos, alguns deles ultrapassando a casa de 1 milhão de francos suiços. Isso foi investigado quando da falência da empresa, e a devolução dos valores recebidos requisitada. Quem pagou esta devolução? A própria Fifa.

Dois destes dirigentes são Ricardo Teixeira e João Havelange.

15) Blatter e suas manobras - utilizando-se de leais dirigentes, o presidente da Fifa barrou todas as tentativas de investigá-lo.

16) O escândalo dos ingressos - ingressos solicitados por federações para a Copa de 2002 foram parar em mãos de cambistas e revendidos a altos preços. Nominais, chegou-se ao absurdo de uma fila inteira de assentos com o mesmo nome - um figurão da instituição.

17) Antigua e Barbuda - o pequeno país do Caribe tinha um dirigente que aplicou em negócios pessoais e na própria conta bancária a verba destinada pela entidade ao desenvolvimento do futebol em países pequenos. A Fifa apoiou o dirigente em questão e sabotou a chapa de oposição que havia sido eleita após a confusão toda. Na Jamaica houve algo parecido.

18) A escolha das sedes da Copas de 2006 e 2010 - mais uma vez, acusações de propinas, com direito ao misterioso "sumiço" do delegado que daria a vitória à África do Sul para sede da Copa de 2006.



19) O imbróglio Mastercard/Visa - Jerome Valcke, atual secretário geral, rasgou regras e contratos a fim de beneficiar a Visa na renovação do contrato, sob ordens de Blatter. A Fifa acabaria derrotada na justiça.

20) As sedes de 2018 e 2022 - muito, muito dinheiro em propinas, envolvimento com a máfia russa e "otras cositas más".

Acredite, leitor:  mesmo tendo listado 20 situações, estou longe, muito longe de abordar todas as situações descritas no livro. Impressiona a falta de transparência, a falta de controle e, em especial, a corrupção e a escancarada roubalheira.

Na Livraria da Travessa, custa R$ 40. É leitura indispensável para se entender o submundo do futebol mundial.


domingo, 19 de junho de 2011

Bissexta - "A Minoria Esquecida"


Neste domingo temos mais uma edição da coluna "Bissexta", assinada pelo advogado Walter Monteiro. O assunto da coluna de hoje é um preconceito muito peculiar, mas sério: o que ocorre contra os gordinhos.

O curioso é que em boa parte da minha vida sofri o preconceito inverso: era extremamente magro, muito mesmo, inclusive com insinuações de que teria doenças incuráveis. Mas hoje, trinta quilos depois, estou mais para sobrepeso que para exatamente "magrinho".

A Minoria Esquecida

Uma das vantagens de morar no Rio Grande do Sul é que a pessoa fica rodeada de mulheres bonitas. Uma dessas é uma jovem advogada que conheço vagamente, por amigos em comum. Ela conseguiu um bom emprego em um escritório de advocacia, uma chance de alavancar a carreira profissional. A moça está sempre elegante, tem um sorriso quase que de cristal de tão branco que é, longos cabelos dourados e bem cuidados, um namorado boa pinta, outros interessados na fila, muitas e muitas amigas, tão 'gatas' quanto ela própria. Entretanto, não é nenhuma sílfide. Eu me arriscaria dizer que deve vestir manequim 44. Nada demais, apenas um pouco “cheinha”, como se dizia antanhos.

No primeiro dia no seu novo emprego o dono do escritório reuniu os recém-contratados para expor a filosofia de trabalho da organização. Lembrando a todos que oferecia condições de remuneração bem acima do mercado, disse que esperava da equipe um comprometimento aos valores do escritório, dentre os quais a crença de que uma pessoa que é relaxada com o próprio corpo tende a ser igualmente deficiente no trato das coisas profissionais.

E que na visão dele pessoas acima do peso seriam o símbolo maior desse desleixo. A minha conhecida, coitada, passou recibo da advertência e mergulhou em uma dieta radical. Encontrei-a dias atrás, uns cinco quilos mais magra, o vestido sobrando no corpo, uns olhos de mormaço, o sorriso escondido. Tudo para se adequar à filosofia do escritório de advocacia que sonhava ser uma academia de yoga.

Também recentemente conheci uma enfermeira, cinco anos de experiência em UTI Neonatal em dois hospitais de prestígio na cidade. Sabe-se lá o porquê, mas a moça começou a engordar acima do esperado e realmente ficou totalmente 'overweight', para ser delicado. Convenhamos, problema dela, né? Ledo engano! A tendência, nesse segmento, é que um enfermeiro acima do peso passa uma imagem pouco saudável e isso não seria bem interpretado pelos pacientes. Demitiram a enfermeira e ela hoje sonha em passar em um concurso público, onde, felizmente, as pessoas ainda não são julgadas exclusivamente pela aparência externa.

É possível que o leitor já tenha ouvido falar no documentário 'Super Size Me', onde o cineasta Morgan Spurlock passou 30 dias se alimentando exclusivamente no McDonald’s, o que deteriorou sua saúde e lhe adicionou 14 quilos em um único mês por conta da dieta de 5 mil calorias diárias. O filme foi tão impactante que o próprio McDonald’s e outras redes de fast food passaram a incluir no cardápio opções mais saudáveis.

Muito pouco comentada, porém, foi a experiência de um segundo documentário, propositalmente chamado de Down Size Me. Uma mulher de 49 anos adotou a mesma premissa e se alimentou exclusivamente no McDonald’s por 60 dias, com pequenas diferenças, como fazer apenas três refeições ao dia, se exercitar ocasionalmente e tomar decisões racionais sobre a forma de se alimentar e viver. Para espanto geral, Soso Whaley PERDEU 4,5kg e melhorou seu nível de colesterol, a despeito de sua criticada dieta.

O que a experiência revela? Bom, dentre outras coisas, que a fisiologia de cada ser humano pode ser decisiva para saber se alguém vai ser gordo ou magro. Spurlock tinha uma óbvia propensão a engordar e Whaley está predestinada a ser magra.

O aspecto da fisiologia, infelizmente, é constantemente posto de lado quando se trata de gente gorda.  Há gente alta e gente baixa. Há calvos e cabeludos. Há diferenças de todos os tipos e origens notáveis nos seres humanos. Todas elas percebidas e aceitas como parte essencial do código genético que herdamos. A menos que você seja gordo. Aí a culpa é sua, você que emagreça, que se adeque, que cultive uma aparência dita saudável.

Minha avó, que Deus a tenha, era gorda. Meu pai é gordo. Eu sou gordo (peso em torno de 100kg). Algumas vezes, à custa de muito esforço, consegui emagrecer a ponto de ser menos gordo (embora nunca tenha deixado de sê-lo inteiramente). Mas isso me obrigava a ter uma vida de renúncias a muitos prazeres que outras pessoas desfrutam sem maiores consequências, como beber uma ou duas vezes por semana, comer pizza ou doces ou fazer exercícios apenas alguns dias.

Para que eu possa pesar menos de 80kg o meu biótipo exige que eu faça umas dez horas de exercício por semana, que tenha uma dieta de 1.200 calorias por dia, que praticamente pare de beber. Isso para sempre. É o que se chama polidamente de “reeducação alimentar”.

Eu prefiro chamar de alienação. Desisti.

Preferi estacionar nos 100kg, me preocupar apenas com a minha saúde (que vai bem, obrigado) e fazer exercícios só para combater o sedentarismo. Sou muito mais saudável, física e mentalmente, do que homens e mulheres da minha idade, que insistem em ter aos quarenta e poucos anos o peso que tinham aos dezesseis.

A aceitação do meu corpo natural, entretanto, não me cega a ponto de não me incomodar com o sofrimento dos que nasceram iguais a mim. Essa é a verdadeira minoria sofrida, a que ninguém defende e ainda olha com um ar de desprezo...