sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Final de Semana - "We Are The Champions"



Neste segundo final de semana do Rock In Rio, nada como lembrar de um dos shows mais marcantes do primeiro festival, realizado em 1985: o do grupo inglês Queen, um de meus favoritos. Já postei aqui anteriormente "Love Of My Life" e Somebody to Love", então hoje teremos outro clássicoda banda: "We Are The Champions".

Disponibilizo a letra e uma tradução que, confesso, não tive tempo de revisar. Bom final de semana.

We Are The Champions

I've paid my dues
Time after time
I've done my sentence
But committed no crime

And bad mistakes
I've made a few
I've had my share of sand
Kicked in my face
But I've come through

And we mean I to go on and on and on and on

We are the champions, my friends
And we'll keep on fighting
'Till the end
We are the champions
We are the champions
No time for losers
'Cause we are the champions of the world

I've taken my bows
And my curtain calls
You brought me fame and fortune
And everything that goes with it
I thank you all

But it's been no bed of roses
No pleasure cruise
I consider it a challenge before
The whole human race
And I ain't gonna lose

And we mean I to go on and on and on and on

We are the champions, my friends
And we'll keep on fighting
'Till the end
We are the champions
We are the champions
No time for losers
'Cause we are the champions of the world

We are the champions, my friends
And we'll keep on fighting
'Till the end
We are the champions
We are the champions
No time for losers
'Cause we are the champions

Nós Somos Os Campeões

Eu paguei minhas dividas
Pouco a pouco
Eu completei minha sentença
Mas não cometi nenhum crime

E erros sérios
Cometi poucos
Eu tive meu pouco de areia
Atirada sobre a minha face
Mas eu sobrevivi

E nós pretendemos continuar e continuar e continuar

Nós somos os campeões - Meus amigos
E nós continuaremos lutando
Até o fim
Nós somos os campeões
Nós somos os campeões
Não tem vez pra perdedores
Pois nós somos os campeões do mundo

Eu tenho feito minhas reverências
E atendido as chamadas do palco
Vocês me trouxeram fama e fortuna
E tudo que vem com isso
Eu agradeço à todos vocês

Mas isto não tem sido nenhum canteiro de rosas
Nenhuma viagem de prazeres
Eu considero isso um desafio
Diante de toda a raça humana
E não irei fracassar

E nós pretendemos continuar e continuar e continuar

Nós somos os campeões - meus amigos
E nós continuaremos lutando
Até o fim
Nós somos os campeões
Nós somos os campeões
Não tem vez pra perdedores
Pois nós somos os campeões do mundo

Nós somos os campeões - meus amigos
E nós continuaremos lutando
Até o fim
Nós somos os campeões
Nós somos os campeões
Não tem vez pra perdedores
Pois nós somos os campeões

Jogo Misto - Carlos Eduardo Sá (Cadu ou Sardinha)


Carlos Eduardo Zugliani de Sá. Cadu para aqueles que o conhecem do mundo do samba, "Sardinha" para seus amigos jornalistas. Editor Executivo do canal a cabo SporTv, ex-presidente do Boi da Ilha do Governador, compositor com várias vitórias em disputas de escolas de samba, das quais a mais importante foi na Estação Primeira de Mangueira no ano de 2004. Também Diretor de Harmonia com passagens em outras escolas e encontra tempo para ser pai da Maria Clara e da Manoela e, ainda, apreciador de golfe.

Conheci Cadu através do mundo do samba e a amizade foi se estreitando, a ponto de ter sido Diretor de Orçamento e Planejamento durante sua gestão no Boi da Ilha do Governador. Cadu, ou Sardinha, é o entrevistado de hoje da coluna "Jogo Misto" do Ouro de Tolo.

1 - Como o Carlos Eduardo virou "Sardinha" e foi parar no SporTv?

CES - Pedro Migão, um dos bons amigos feitos neste louco mundo do samba.

O Carlos Eduardo virou Sardinha por conta da brincadeira de um chefe quando cheguei para trabalhar no Fantástico em 94. Daí em diante foram duas Copas do Mundo, duas Olimpíadas, vários GPs de Fórmula 1 e Copa América. O convite para o Sportv veio no final de 2007 para assumir a chefia de eventos.

2 - Qual o trabalho de um editor executivo?

CES - Um Editor Executivo é, geralmente, o fechador de um jornal. No meu caso, hoje, sou o editor-chefe do Tá na Área.

3 - Como funciona o "background" de uma cobertura como a da Copa América, na qual esteve presente?

CES - A cobertura da Copa América na Argentina foi sensacional em vários aspectos. Mesmo com o fracasso do Brasil, o Sportv atingiu audiências comparáveis a de uma Copa do Mundo. Montamos um estúdio panorâmico no centro de Buenos Aires que foi um sucesso até para outras televisões da América do Sul, que pediram para usá-lo.



4 - Muitos telespectadores (eu inclusive, confesso) reclamam das escalas das equipes que fazem as partidas, em especial de futebol. Qual o critério adotado para a confecção das mesmas?

CES - Existe um chefe de eventos com uma equipe que cuida diretamente destas escalas. É óbvio que os jogos com transmissão do Sportv levam o 'filé' da equipe. A demanda é muito grande e é muito difìcil conciliar tantos eventos, pois temos além dos nossos eventos os jogos do Premiere FC (pay per view).

5 - Como conciliar a demanda por informação em tempo real com a apuração adequada e cuidadosa?

CES - Se você quer ser jornalista, a premissa básica é aprender a conciliar a rapidez com a precisão da informação. A confiabilidade que nós passamos ao telespectador é total.

Por isso, o Sportv é líder com tanta folga entre os canais de esportes.

6 - Por que o SporTv não cita os nomes dos patrocinadores das equipes ou ainda os times que tem nomes de empresas?

CES - Em qualquer empresa de comunicação, o que paga a conta é o Departamento Comercial. Nós temos que ter meios de proteger e beneficiar os nossos patrocinadores.

7 - Está nos planos um "SporTV HD" dedicado e exclusivo? Para quando? E o SporTV 3?

CES - O HD acompanha o canal principal mas tem eventos já independentes. O Sportv3 já está saindo do forno.

8 - Quais as perspectivas que você vê para o golfe aqui no Brasil? Há algum nome além da Ângela Park que possa despontar para os Jogos Olímpicos de 2016?

CES - O Golfe no Brasil está aprendendo a engatinhar. Pela primeira vez, depois de anos, montamos um circuito profissional mais honesto que voltou a atrair bons jogadores. O processo é para longo prazo. Temos bons jogadores que tinham muito pouco apoio, mas agora está melhorando.

A Angela Park 'pirou' da cabeça. Ela largou o golfe e virou recepcionista de hotel nos EUA.

9 - Qual a sua avaliação da gestão de Peter Siemsen no seu Fluminense?

CES - Ainda não tenho uma opinião formada sobre o Peter.

Sei que ele pegou um clube em frangalhos, acertou em algumas coisas e errou em outras. Alguns erros por inexperiência, mas é um cara brilhante.

10 - Quais suas expectativas para a organização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016? Que legado poderemos esperar da realização dos dois eventos?

CES - É engraçado: eu não consigo ficar preocupado com Copa e Olimpíada aqui no Brasil, por mais que as notícias sejam dramáticas. Acho que tudo vai acontecer como deve - o brasileiro tem esta capacidade.

11 - Qual sua avaliação sobre as recentes denúncias envolvendo o Presidente da CBF Ricardo Teixeira?

CES - Eu, pessoalmente, não gosto da figura do Ricardo Teixeira mas não tenho provas de nada contra ele. Sei que o torcedor brasileiro adora criar teorias conspiratórias para tudo. É besteira!!

12 - Como o Carlos Eduardo virou "Cadu" e sambista?

CES - O Carlos Eduardo virou Cadu quando fiz um documentário sobre o carnaval para a Globonews. Já era um apaixonado e fiquei louco de vez.

De cara, resolvi escrever um samba para a minha escola, a Mangueira. Logo no primeiro ano eu e meus parceiros fomos finalistas do concurso derrotando nomes de peso como Jurandir, Tantinho e outros. Depois de três derrotas em finais, ganhamos em 2004. Perdemos o samba mais maravilhoso que eu já fiz em 2005 por questões políticas dentro da escola e isto me tirou o ânimo de compor.

13 - Qual a função que lhe agrada mais: compositor, dirigente ou diretor de Harmonia? Por quê?

CES - Eu adoro a harmonia e a funçäo de diretor de harmonia é vital para o desfile. Foi através dela que cheguei na minha outra paixão, o Boi da Ilha, escola que fui diretor de harmonia, diretor de carnaval, vice-presidente e presidente (2009-2010).

14 - Qual sua avaliação sobre as disputas de samba atuais?

CES - Disputas de samba... Difícil dizer.

Já vi disputas muito honestas, já vi disputas vergonhosas mas posso te dizer que quando você passa pelos dois lados, como eu passei, você muda alguns conceitos. Posso te dizer que as disputas que comandei no Boi da Ilha foram muito limpas e refletiram a opinião da diretoria sobre o preferido. Foi sempre ganho pela maioria.

Nas outras escolas, não posso colocar a mão no fogo por ninguém. Até hoje, sinto muito pelo meu samba que não ganhou na Mangueira para o carnaval de 2005.

15 - E sobre os sambas em si? Por que a qualidade caiu tanto?

CES - Qualidade de sambas não caiu, isso é um erro. O que caiu foi a liberdade do compositor.

Era muito mais fácil fazer uma obra prima com tema livre. Hohe, quando você recebe uma sinopse que exige que 15 palavras estejam no texto ou que o seu enredo seja camisinha [N.do.E.: a camisinha foi o enredo da Grande Rio em 2004], como fazer um belo samba???

Acho os compositores de hoje fantásticos, porque ainda temos grandes sambas sendo feitos mesmo com todas as exigências de enredos, andamento e patrocínio.



16 - Como foi a experiência de ter sido Presidente do Boi da Ilha do Governador? Quais as principais dificuldades enfrentadas?

CES - Administrar uma escola é o pior pesadelo que existe para uma pessoa de bem.

Você nunca consegue agradar a todos e, numa escola pequena como o Boi problemas brotam de todos os cantos. Tinha um sonho de colocar a escola no grupo A e acordei traído no Grupo C. Quase perdi família e emprego mas era uma paixão. Fazer o quê?

17 - O que acha que seria necessário para as escolas dos Grupos de Acesso?

CES - A primeira necessidade para as escolas de Acesso é uma cidade do samba.

O trabalho nos barracões que enchem com chuva, gambiarras, telhas soltas e sem a menor infraestrutura é coisa para mágico e é isso que temos: grandes mágicos fazendo o carnaval.

18 - Qual sua opinião a respeito da recente medida que irá extinguir cerca de vinte escolas de samba nos próximos três anos?

CES - Eu realmente não sabia desta medida, ouvi falar mas não achei que iria acontecer. Espero que tenham critérios justos na hora de acabar com a alegria destas comunidades.

19 - Qual sua avaliação sobre a gestão das escolas de samba como um todo?

CES - Prefiro não opinar.

20 - E sobre a Mangueira?

CES - A Mangueira com o Ivo é uma incógnita: ele é esperto mas toma certas medidas complicadas...

Mas sigo torcendo: paixão né...

21 - Por que ultimamente a Harmonia das escolas tem "amarrado" tanto os desfilantes?

CES - Existem dois tipos de desfiles: os que vem para ganhar e os que vem para brincar.

Hoje, nos moldes de julgamento, quem vem para ganhar é quase obrigado a tirar a liberdade dos foliões para não correr riscos de perder pontos que, muitas vezes, só são vistos na cabeça dos jurados. Ainda prefiro ver o desfile para brincar...

22 - Uma cobertura inesquecível. Por quê?

CES - A minha cobertura inesquecível foi a da Copa de 94: garoto ainda, trabalhando na equipe da Globo em Dallas, ví o Brasil sair da fila 24 anos depois...

23 - Um samba inesquecível. Por quê?

CES - O meu samba inesquecível?

"Raízes", da Vila Isabel (1987) pela beleza e o meu de 2005 que não ganhou, pela tristeza.




24 - Um desfile inesquecível. Por quê?

CES - Meu desfile inesquecível?

Mangueira 2003 (acima). Trabalhamos muito na montagem da escola antes do desfile, estava gigantesca, mas foi um dos resultados plásticos mais bonitos que se viu na passarela. Também participei de um desfile incrível da Tijuca, nos anos 90 com os Nove Bravos do Guarani [N.do.E.: 1995], samba incrível com animação mágica.

25 - Livro ou filme? Por quê?

CES - Sou mais de cinema do que de livro, talvez pela minha formação em Tv e ediçäo.

26 - O que pensa da literatura disponível sobre esportes? E sobre carnaval?

CES - Estamos mais bem servidos na literatura esportiva do que na de carnaval.

27 - Finalizando, com os agradecimentos do Ouro de Tolo, algumas palavras sobre o blog ou seu autor/editor.

CES - Migão, muito boa a iniciativa do blog, espero não ter sido muito conservador nas respostas já que o dono do blog não tem nada de conservador... (risos)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Economias Recessivas e Operadores de Mercado Sinceros


Retomando assunto tratado na última segunda feira, vamos falar um pouco sobre a possível crise econômica que se avizinha.

O leitor que leu a resenha dos filmes "Capitalismo, Uma História de Amor" e "Job Inside", dos livros "Enganados" e "O Mundo em Queda Livre" e os posts sobre a Grécia e anteriormente a Espanha sabe como foi mal conduzida pelos países desenvolvidos a resposta à crise de 2008. No fim das contas, a economia americana foi jogada no abismo pela ânsia de salvar os bancos de Wall Street e recursos públicos que deveriam ter sido utilizados para garantir empregos e estimular a economia acabaram sob a forma de bônus para os mesmos executivos que causaram a crise.

Na Europa estamos vendo em menor grau um repeteco do ocorrido nos Estados Unidos: economias como a grega, a portuguesa, a espanhola e em menor grau a italiana se submetendo a enormes e inúteis sacrifícios para não atingir bancos europeus. Pior é que se está criando um círculo vicioso: aumentos de impostos e cortes de salários e despesas públicas deprimem o poder de compra da economia. Com isso o consumo cai, o desemprego aumenta, a arrecadação de impostos diminui, a capacidade de cumprir os compromissos financeiros cai e se faz necessária uma nova rodada de cortes - que deprime ainda mais a economia a um custo social trágico.

A receita clássica do Fundo Monetário Internacional - corte de despesas públicas, redução de salários e pensões, privatizações, aumento de juros e aperto de crédito - parece adequada apenas aos bancos credores. Isso sempre foi percebido, mas neste momento parece ainda mais claro. Como resultado a Europa está entrando em recessão como um todo e a paralisia política dos Estados Unidos também está jogando a economia estadunidense em recessão. Cálculos da Organização Internacional de Trabalho indicam que 20 milhões de postos de trabalho foram perdidos desde 2008 e existe possibilidade de outros 20 milhões também se extinguirem a curto prazo.

Aí temos outra questão. Alertado pelo excelente "Tijolaço", fui buscar uma entrevista que a BBC fez com o operador independente de mercado financeiro em Londres Alessio Rastani. Em um rasgo de sinceridade este deu diversas declarações que corroboram muito do que vemos acontecer na economia mundial - com interesses particulares se sobrepondo ao interesse público. Vamos à primeira delas:

"Sonho com esse momento (de declínio econômico) há três anos. Vou confessar: sonho diariamente com uma nova recessão. Se você tem o plano certo, pode fazer muito dinheiro com isso"

Isso é mais ou menos sabido: uma nova recessão diminui o investimento produtivo na economia e recursos que seriam investidos acabam aplicados no mercado financeiro à espera de melhores dias. Por outro lado com a queda de emprego e renda o endividamento tanto de empresas como de pessoas físicas tende a aumentar e uma vez mais os serviços financeiros se expandem. Ou seja, os bancos "ganham nas duas pontas".

Explica-se porque o mercado financeiro como um todo defende teorias econômicas desregulamentadoras e que pressupunham a menor intervenção possível do Estado na Economia. Sem regulação não há limites para os ganhos, ainda que às custas de derrocada de uma economia nacional. O primado do mercado significa que os mais fortes e poderosos levam vantagem, e esta turma de Wall Steet, da City londrina e assemelhados é bastante poderosa.

O exemplo americano é bem claro: com regulação frouxa ocorreu a corrente de fenômenos que levou à crise de 2008 - e os recursos públicos injetados acabaram nas contas dos mesmos executivos que a causaram, em última instância. Hoje, mesmo os tíbios órgãos de regulação do sistema financeiro americano são comandados por executivos de Wall Street - que não tem pudores para utilizar seus cargos públicos em benefício das empresas as quais serviram.

Então passamos à segunda afirmação do sincero operador: "Os governos não controlam o mundo. O (banco) Goldman Sachs controla o mundo. O Goldman Sachs não liga para esse resgate, nem os grandes fundos."

Ele se refere à segunda tentativa de salvação da Grécia, que consiste em se injetar recursos em um fundo europeu de resgate com desconto da dívida - desconto, aliás, que eu havia previsto meses atrás. Seu raciocínio é claro: danem-se as economias, danem-se os empregos, danem-se as pessoas: nós mandamos no mundo e vamos ganhar dinheiro à custa da desgraça e do bem estar dos demais agentes.

Novamente o caso americano exemplifica bem isso: os bancos foram salvos, mas milhares de famílias perderam seus empregos e suas casas. Formaram-se instituições financeiras ainda maiores. A fraca regulação estatal do mercado financeiro contribuiu ainda mais para este quadro de poder absoluto - bem como a maioria republicana no Congresso, que defende apenas os mais abastados e pretende reduzir de qualquer forma a já pequena presença no Estado na economia, a um custo social e econômico incalculável.

E o Brasil?

Como expliquei em outras ocasiões, nos saímos bem da crise de 2008 por termos adotado uma política anti-cíclica, claramente inspirada na teoria econômica de John Maynard Keynes. Foram dados estímulos à economia através de recursos públicos, aumentos reais do salário mínimo, programas como o Bolsa Família, expansão do crédito e dos investimentos de empresas estatais - notadamente a Petrobras.

Para a crise que se avizinha - que ao que tudo indica será mais forte - além da questão do câmbio que tratei na última segunda feira vai se fazer necessário, mais uma vez, um conjunto de medidas anti-cíclicas e que mantenham o poder de compra da população. O Brasil no Governo Lula finalmente conseguiu construir um mercado interno de consumo de massa e é a manutenção do poder de compra deste que deve ser perseguida a fim de minorar os efeitos internacionais. A desaceleração econômica da China irá reduzir a demanda por commodities brasileiras, em especial produtos como o minério de ferro, e este é um fator que precisa ser considerado nas análises de conjuntura.

Faz-se necessária uma mudança de política econômica a fim de perseguir menos as metas de inflação e mais a atividade econômica. Como também já escrevi aqui os fatores que impulsionaram a inflação foram mais externos que internos, e estes tendem a se arrefecer como reflexo da própria crise - em especial os preços dos alimentos. A desvalorização do real também deve dar novo fôlego às empresas brasileiras, e a regra de aumento do salário mínimo, definida em lei, deve representar um acréscimo de cerca de 14% neste em janeiro - o que dará um novo impulso à economia.

Além disso o Bacen sinaliza estar trabalhando em cooperação mais estreita com o Ministério da Fazenda, atendendo menos às pressões do mercado financeiro. Isto significa que, ao contrário de 2008, a taxa básica de juros deve ser reduzida antes que a recessão mundial aconteça - o que deve diminuir os efeitos sobre nossa economia. A Presidenta Dilma Roussef deu uma declaração em Washington esta semana que é peremptória: "É importante procurar respostas novas a problemas novos. Não acredito que se saia da crise produzindo recessão. Temos a experiência de duas décadas perdidas."

O caminho, a meu ver, é este. Certamente teremos algum impacto, ainda que seja na base de menor crescimento, mas o governo dispõe de ferramentas a fim de contrabalançar os fatores indutores de recessão e manter a economia do país com geração de emprego e renda a todos os agentes. Vale lembrar também que o programa de compras internas da Petrobras também tem um efeito dinamizador da economia expressivo, ao estimular setores da economia nacional que precisam ganhar musculatura para atender aos desafios representados pela exploração do petróleo da camada pré-sal.

Voltarei ao tema.

Para saber mais (basta clicar sobre os títulos):

 - Resenha de "Job Inside";
 - Resenha de "Capitalismo, Uma História de Amor";
 - Resenha de "O Mundo em Queda Livre";
 - Resenha de "Enganados";
 - Crise na Grécia;
 - Desemprego na Espanha;
 - A queda da Selic;
 - O amargo chá de Barack Obama;

P.S.2 - A promoção de camisas do Salgueiro continua. Pode ser acessada aqui

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Prosit - Westvleteren 12


A partir de hoje o Ouro de Tolo tem uma nova coluna: a "Prosit".

A idéia é termos impressões de boas cervejas degustadas, mas não somente isso. Contar um pouco a história de cada cerveja, de sua fábrica, e arrematar com impressões de degustação.

Obviamente que não haverá o mesmo rigor de sites especializados, por dois motivos: primeiro porque não sou um Maurício Beltramelli, um Flávio Roese ou um Juliano Mendes; meu conhecimento não chega nem perto destes "papas" do assunto. Segundo porque este não é um blog sobre cervejas,então a idéia é aguçar a curiosidade do leitor.

Começamos com aquela que é considerada por muitos a melhor cerveja do mundo: a Westvleteren 12, belga trapista. Aliás, eu ando em uma fase de degustar estas cervejas belgo-holandesas, fabricadas em mosteiros.

Utilizei-me como guia o disponibilizado pelo site "Brejas", uma das referências no assunto.


(Foto: Brejas)

História:

A Westvleteren 12 e suas irmãs "menores", a Blond e a 8, são fabricadas na Abadia de Saint Sixtus, na Bélgica (acima). É um dos sete mosteiros trapistas a se dedicarem à fabricação da bebida, que recebe um selo especial atestando tal condição.

A Ordem dos Monges Trapistas faz votos de pobreza, castidade e obediência. As cervejas são fabricadas sem fins lucrativos e todo o lucro deve ser reinvestido na própria fabricação ou em obras de caridade e manutenção do próprio mosteiro.

No caso da Westvleteren 12 e demais produtos desta fábrica, ela se torna rara porque ao contrário das outras fabricadas em mosteiros ou sob a supervisão direta de monges ela não é feita de forma contínua. Somente quando a abadia precisa levantar fundos é que ela é fabricada.

Há outras particularidades: ela não pode ser revendida (oficialmente)e apenas no próprio mosteiro ou no bar ao lado é que se pode adquiri-la. Além disso, a fama obtida pela bebida incomoda os monges, que afirmam que "fazemos cerveja para podermos ser monges, e não o contrário".

Como resultado, a bebida é raríssima, o que somada à sua qualidade traz uma aura de "Santo Graal" aos amantes da cultura cervejeira. Apesar de custar cerca de dois euros na abadia, sua raridade faz com que alcance valores estratosféricos em outros lugares do planeta. Até porque sua comercialização fora do mosteiro é proibida.

Em oferta da Puro Malte, obtive duas garrafas da Westvleteren 12 e uma da Blonde. Aqui apresento, para abrir a série, a mítica 12. O curioso é que as garrafas não possuem rótulo, sendo identificadas apenas pela chapinha.


Cerveja: Westvleteren 12
Apresentação: garrafa com 330 ml
Teor Alcoólico: 10,2%
Data da Degustação: 26/09/2011
Estilo: Belgian Dark Strong Ale

Aparência: creme não muito grande, excelente "Belgian Lace" (aquele 'creme' que fica residual nas paredes do copo), coloração escura embora não exagerada e poucas partículas suspensas.

Aroma: intenso de malte, com caramelo e frutas secas. Lúpulo leve e álcool perceptível, mas bem balanceado. Aromas de madeira e defumados, com finais em licor e frutas - ameixa?

Sabor: longa duração. É uma cerveja que permanece no paladar mesmo após o término de sua degustação. A cada gole, a cada minuto, ela cresce no conceito. Sabores doces e amargos moderados e contrabalançados. Boa drinkability.

Paladar: corpo intenso, textura licorosa e cremosa, carbonatação média. Final duradouro e seco, com retrogosto indescritível - mas sensacional.

Geral: olha, se não é a melhor cerveja do mundo, fica muito perto disso. É bebida para se apreciar com calma e se deliciar com cada sabor percebido. Também não deve ser bebida muito gelada. 

Quando se compara com bebidas posteriores - na mesma noite degustei uma Chimay (que adoro) e uma Erdinger Urweisse - chega a ser covardia.

Nota: 4,9 (em um total de 5,0). Não dei nota máxima para o aroma por achar a potência do álcool demasiada em determinado momento.


Veredito: leitor, se achar uma destas, compre - ao preço que for. Vale cada centavo. Após degustar uma Westvleteren 12 os referenciais de cerveja mudam totalmente. Sem dúvida merece a avaliação de especialistas de "melhor cerveja do mundo", embora seja bebida que deve melhorar com o tempo.

Próxima: Chimay Blue



P.S. - O copo era de Chimay, outra trapista. Mas era o que eu tinha.

P.S.2 - A promoção de camisas do Salgueiro continua. Pode ser acessada aqui.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Promoção - Camisas do Salgueiro 2012


O leitor do Ouro de Tolo estava com saudade de nossas promoções, não é mesmo? Pois elas voltaram.

Em parceria com a Assessoria de Comunicação da Acadêmicos do Salgueiro, representado pela sua assessora Flávia Cirino - entrevistada recentemente aqui - estaremos sorteando três camisas da agremiação, referentes ao enredo da agremiação para o carnaval 2012.


A Academia do Samba virá com o enredo "Cordel Branco e Encarnado", sobre a literatura de cordel, de autoria do grande carnavalesco Renato Lage.

Para participar é simples: basta deixar na área de comentários uma mensagem com nome, cidade, endereço de e-mail e deixar uma frase  - que pode ser sobre o Salgueiro, sobre escolas de samba ou este Ouro de Tolo - além de qual delas prefere: a branca, a laranja ou a preta - nas fotos.


As três melhores frases, que serão selecionadas em conjunto por mim e pela assessora de imprensa da escola levam a camisa. O resultado sai, no máximo, até segunda feira.

A promoção está aberta a todos, com exceção de parentes meus. Participe!


Abaixo o leitor pode conferir a sinopse do enredo do Salgueiro para 2012:

"Cordel Branco e Encarnado"

SALGUEIRO 2012

(Cheio de poesia, imaginação e encantamento) apresenta:

Cordel Branco e Encarnado

Minha “fia”, meu senhor
Deixa eu me apresentar
Sou poeta e meu valor
Vai na avenida passar
Basta imaginação
Um “cadim” de inspiração
Que eu começo a versar

Vou cantar a minha arte
Que nasceu bem lá distante
Num lugar que hoje é parte
Da nossa origem errante
Vim das bandas da Europa
Nas feiras, a boa trova
Era demais importante!


Foi assim que o mar cruzei
Na barca da encantaria
Chegou por aqui um Rei
Com bravura e poesia
Carlos Magno o os doze pares
Desfilando pelos mares
Da mais real fidalguia

E veio toda a nobreza
Que um dia eu imaginei
Rainha, duque, princesa
E até quem eu não chamei:
Um medonho de um dragão
Irreal assombração
Dessa corte que eu sonhei

Também tem causo famoso
Que nasceu lá no Oriente
De um tal misterioso
Pavão alado imponente
Que cruza o céu de relance
Dois jovens, e um só romance
Vencendo o Conde inclemente

Todas essas histórias
Renasceram no sertão
Onde vive na memória
O eterno Lampião
E não houve um brasileiro
Que de Antônio Conselheiro
Não tivesse informação

Pra viajar no meu verso
É preciso ter “corage”
Vai que um bicho perverso
Surge que nem “visage”?
Nas matas sertão afora
Lobisomem, caipora
Que medo dessas “image”!!

Pra findar esse rebuliço
Rezar é a solução!
Valei-me meu “padim” Ciço!
Vá de retro, tentação!
Nossa Senhora eu não quero
(Tô sendo muito sincero)
Cair nas garras do cão!

E não é que meu santo é forte?
Cheguei ao céu divinal
É tamanha a minha sorte
A minha vitória afinal
É cantar com alegria
Fazer verso todo dia
Na terra do carnaval


Ao ver chegar a tal hora
Da minha “alegre” partida
Saudade, palavra agora
Tem posição garantida
Mas não se avexe meu irmão
Que hoje a coroação
Acontece é na avenida

Pois eles hão de herdar
Todo esse sertão sonhado
Monarcas que vão reinar
Na corte do Sol dourado
Poetas de tradição
Recebam de coração
Um cordel Branco e Encarnado

E agora eu vou sem medo
Fazer festa “de repente”
Vai nascer um samba-enredo
Pra animar toda a gente
Afinal, não sou melhor
Muito menos sou pior
Só um poeta diferente!

Renato Lage, Márcia Lage, Departamento Cultural

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A subida do dólar


A última semana viu uma mudança bastante significativa de conjuntura econômica: a taxa de câmbio do real em relação ao dólar desvalorizou-se repentinamente, alcançando patamares não vistos desde meados de 2009.

A taxa, que chegou a estar abaixo de R$ 1,60, subiu rapidamente até o patamar de R$ 1,96 na última quinta feira, recuando posteriormente após ação do Banco Central - necessária pela primeira vez desde junho de 2009. No momento em que escrevo (madrugada de sábado), o dólar está em R$ 1,83, com recuo significativo - mas ainda uma expressiva alta nesta última semana de 5,5%.

O leitor mais antigo do Ouro de Tolo sabe que vinha escrevendo insistentemente sobre o risco que representa o câmbio apreciado à nossa economia. Também sabe que somente a redução da taxa interna de juros interna e a diminuição do diferencial com as taxas externas fariam com que este problema se minorasse.

Então, você pode perguntar: "Migão, a Taxa Selic só baixou meio por cento e assim mesmo o dólar explodiu. Por quê?"

Simples.

O leitor deve se lembrar do artigo que escrevi aqui tempos atrás sobre a Grécia. O que acontece é que a crise se agravou no país, se agravou em outros estados europeus - como Portugal, Espanha e Itália, entre outros - e começa a ficar claro o que escrevi lá atrás: que a única solução é a renegociação das dívidas destes países, com deságio - não chega a ser um calote total mas é parcial.

Como os investidores internacionais certamente terão perdas nestes países por causa da inevitável reestruturação, surge a necessidade de retirar investimentos em outros países a fim de cobrir as perdas. Com isso a quantidade de dólares na economia brasileira cai e, pela Lei da Oferta e da Demanda, seu "preço" sobe. Foi exatamente o que ocorreu.

Além disso, a incerteza mundial gerada pela proximidade de uma nova crise econômica causou um certo pânico nos mercados. Nestes momentos o investimento em dólar costuma ser considerado mais "seguro", ou seja: há uma corrida à moeda, e esta demanda faz com que seu preço suba. 

Parece claro que haverá uma nova crise de consequências imprevisíveis na economia mundial. Os Estados Unidos ainda se ressentem da equivocada condução da crise de 2008, onde o dinheiro que deveria estimular a economia acabou virando bônus para executivos de Wall Street. Por outro lado a Europa Ocidental convive há tempos com economia estagnada e crises como as citadas acima.

O Banco Central entrou no mercado na quinta e na sexta feira vendendo dólares para que a cotação não subisse de forma abrupta. Isto causaria impactos fortíssimos sobre grandes empresas que possuem dívidas em dólar, que teriam os valores destas em real subindo de forma quase que geométrica. Além disso haveria um fator de incerteza decorrente desta quase "corrida" à moeda norte americana.

Evidentemente que as divisas retiradas por agentes internacionais para cobrir perdas nos mercados europeus não irão retornar, o que significa a princípio que R$ 1,80 seria um novo "piso" para a taxa de câmbio. A ação do Bacen parece ter sido mais no sentido de conter a especulação e acalmar os mercados.

Ainda assim, é uma desvalorização considerável, tendo em vista que em 01 de agosto a taxa de câmbio, por exemplo,era de R$1,55 por dólar. São aproximadamente 17% em pouco menos de dois meses.

Este patamar, embora ainda aquém de que a meu ver seria uma taxa de equilíbrio, já permitiria algum fôlego à indústria e ao agronegócio nacionais. O patamar anterior, com sobrevalorização, estava tornando inviável a competição em certos setores, com muitos casos onde as empresas tornaram-se apenas montadoras de produtos fabricados em outros países - notadamente a China - para sobreviverem. 

O agronegócio padecia do mesmo problema, custos altos em dólares e perda de competitividade no mercado mundial.

Com o câmbio desvalorizando empreende-se um duplo movimento: os produtos importados ficam mais caros aqui pois mais reais precisam ser cobrados para se obter a mesma remuneração em dólares original. Por outro lado os produtos nacionais ficam mais baratos lá fora pois seus custos são valorados em reais e menos dólares equivalem aos mesmos reais de custo.

Como efeito colateral, deve-se ter um pequeno repique da inflação, pois os produtos importados estarão mais caros em nosso mercado. Um bom exemplo são os apreciadores de cervejas especiais, como eu, que deverão ter de suportar um aumento significativo nos custos destas mercadorias.

Também perdeu quem marcou viagens de férias ao exterior para o início de 2012, pois terão de gastar mais reais para levar a mesma quantidade de dólares. Quem pagou passagens parceladas em dólar no cartão também vai sentir diretamente no bolso estas mudanças.

Por outro lado as empresas brasileiras ganham maior competitividade e maior condição de manter empregos e renda, estancando-se o (preocupante) processo de destruição da indústria nacional que estava em marcha.

Pretendo voltar ao tema ainda esta semana, tratando das possíveis consequências da crise na economia brasileira. Até lá.

(Gráfico: Folha de São Paulo)

domingo, 25 de setembro de 2011

Orun Ayé - "Boiadeiro tem Raça, se Esmera"


Neste domingo, final do mês de setembro, temos mais uma coluna "Orun Ayé", assinada pelo publicitário e compositor Aloísio Villar. O tema de hoje é uma escola de samba que já foi tema aqui no blog algumas vezes, e que hoje está no Grupo de Acesso C após um polêmico rebaixamento em 2010: o Boi da Ilha do Governador.

Escola com a qual eu também tenho uma história toda especial: é a segunda onde mais desfilei - cinco anos consecutivos, de 2006 a 2010 - e onde pela primeira vez fiz parte de uma diretoria - fui Diretor de Planejamento e Orçamento no biênio 2008/09, na gestão do Presidente Cadu. A agremiação se ressente muito da perda de sua quadra e de seu barracão, consecutivamente, ocorrida antes do carnaval de 2010. Abaixo pode-se ver o colunista comigo durante o desfile de 2010.

Passemos ao relato.


Boiadeiro tem Raça, se Esmera

Sábado, dia 17 de setembro, começaram as eliminatórias do Boi da Ilha pro carnaval de 2012 e eu como sempre estive presente. Mas dessa vez de uma forma diferente.

Pela primeira vez desde 1997 compareci a uma eliminatória da agremiação e não estava com um samba concorrente. Estive apenas para conhecer os sambas, rever os amigos e principalmente rever a agremiação carnavalesca da minha vida.

Eu já contei em inúmeras colunas que sou torcedor da União da Ilha e como me tornei torcedor da escola e compositor da mesma.  Mas meu coração não é fiel: ele tem também o Acadêmicos do Dendê guardado em um cantinho, agremiação que venci cinco concursos de samba de enredo e agremiação que mais fiz sambas até hoje - e também o Boi da Ilha.

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Boi da Ilha do Governador nasceu como o bloco carnavalesco Boi da Freguesia em 1965, se localizando (historicamente) na esquina da Rua Pio Dutra com a Rua Jussiapé na Freguesia, Ilha do Governador. [N.do.E.: hoje a quadra não está mais lá. O imóvel se encontra fechado e o Boi da Ilha está ensaiando na quadra do Acadêmicos do Dendê] A Jussiapé é a rua que praticamente nasci, fui criado e moro até hoje, para verem como vem de longe minha ligação com a agremiação.

O Boi nasceu como bloco de sujos e depois se tornou bloco de enredo, desfilando na Avenida Rio Branco e Marquês de Sapucaí (sim, os blocos já desfilaram lá) oscilando entre o grupo I e II dos blocos. A agremiação é considerada o maior celeiro de sambistas da Ilha do Governador, tendo fornecido à sua irmã maior União da Ilha muitos de seus sambistas imortais.

Do Boi surgiram Quinho que hoje é cantor do Salgueiro, João Sergio que foi mestre de bateria da agremiação da Freguesia e se consagrou sendo autor do samba “O Amanhã” da União da Ilha, Carlinhos Fuzil, maior vencedor do Boi juntando os períodos de bloco e escola de samba e cinco vezes campeão da União da Ilha... Além de Marquinhus do Banjo, maior vencedor do Boi como escola de samba, cinco vezes campeão na União e atual tricampeão da mesma e cantor do Boi da Ilha e Mauricio 100, também cinco vezes campeão na União e que foi cantor do Boi por mais de doze anos. 

Outros surgiram na escola: Bujão e J.Brito, compositores que surgiram nos anos oitenta no Boi e se consagraram na União da Ilha ganhando juntos três vezes - entre eles o antológico “Festa Profana”, que tem os versos “eu vou tomar um porre de felicidade/vou sacudir eu vou zoar toda cidade”. Bujão ainda ganhou mais um samba na União da Ilha e J.Brito dois na Mocidade Independente de Padre Miguel.


No Boi da Ilha também surgiu o hoje mestre sala da Mangueira Raphael e explodiu a carreira do mestre de bateria Jonas, que passou por Salgueiro, Mocidade e hoje está na Cubango. Boi da Ilha também foi morada de Aroldo Melodia, Ito Melodia, Aurinho da Ilha e Didi que competiram e venceram sambas na agremiação. O hino da escola por sinal é de Aroldo e Didi.

Sua quadra tinha o nome do compositor Jorge Bossa Nova, um dos mais importantes de sua história. Suas disputas de samba eram muito concorridas, com todas essas feras se enfrentando. O Boi chegou a ter mais de setenta sambas concorrendo e eram tantos sambas que eram divididos em chaves com suas disputas percorrendo toda a semana, como é a Beija-Flor hoje em dia. Carlinhos Fuzil conta que as disputas do Boi eram mais difíceis que da União da Ilha.

Outras duas máximas que Carlinhos Fuzil fala sobre o Boi é que para você se tornar sambista de verdade e ter condições de encarar uma União da Ilha tem que passar pelo Boi e para você ser famoso tem que ganhar um samba no Boi. 

E o Boi sempre teve respeito dos sambistas: era um dos maiores blocos, com uma das baterias mais poderosas do Rio de Janeiro, com muitas vezes emprestando integrantes e peças pra irmã maior.
Em 1988, como muitos outros blocos, virou escola de samba tendo como presidentes ao longo desse tempo Gino, Luizinho (que voltou agora a ser presidente) Cadu Zugliani (compositor campeão da Mangueira) e o que ficou mais famoso: o professor Eloy Eharaldt. O Presidente com o qual comecei na agremiação.

Chegou a hora de começar a contar minha história no Boi.

Apesar de ser torcedor da União, sempre tive carinho pelo Boi mesmo nem pisando em sua quadra apesar de ser na minha esquina. Mas de casa ouvia seus ensaios e cheguei quase a decorar um de seus sambas, o de 1992 que falava em versos como “Oh Rei Nagô axé/Olhai por nós os seus filhos de fé”. Na minha opinião esse é o melhor samba da história do Boi da Ilha.

Toda quarta feira de cinzas depois de acabada a apuração do Grupo Especial começavam as apurações dos grupos de Acesso e eu ficava ligado na rádio Tropical ouvindo e esperando a apuração do Boi. Muitas vezes essa apuração batia com a “Voz do Brasil” e depois tinha o lançamento da "Campanha da Fraternidade" que a Igreja Católica faz todos os anos e eu perdia a apuração e ficava desesperado querendo saber o que ocorria. Ia na frente da minha casa ver se rolava alguma movimentação na quadra.

Se ficasse tudo quieto era porque a escola perdeu, se rolassem fogos e samba é porque tinha vencido. Eu dava um pulo até lá, ficava uns cinco minutos dentro a comemorar a vitória e ia embora porque eu tinha nada a ver com o ambiente. Apesar de o meu pai ser passista antigo de lá, eu achava que tinha nada a ver com o mundo do samba e me sentia um peixe fora d´água.

Isso começou a mudar em 1997 quando aconteceu aquilo que já contei anteriormente. Vi o jornal anunciando o enredo da União da Ilha e botei samba na escola. No dia da eliminação um compositor da União chamado Peçanha disse que era presidente da ala de compositores do Boi da Ilha e me convidou para pegar a sinopse.


Fui com Paulo Travassos na agremiação, pegamos a sinopse e decidimos fazer parceria. Chamamos Cadinho da Ilha e Dãozinho e pela primeira vez via um samba meu se classificar em uma eliminatória. Não foi só isso: chegou à final.

Perdemos a final, mas foi inesquecível. Pela primeira e última vez até hoje vi a porta lateral da quadra do Boi ser aberta para colocar uma torcida de samba dentro dela, tamanha era a quantidade de gente. Cadinho pegou o microfone sem fio e foi para o meio da galera cantar. Cena que me impressionou e só vi repetir domingo passado, quando o Quinho fez o mesmo com nosso samba na eliminatória da União da Ilha.

No ano seguinte coloquei samba com Paulo, sem os outros dois parceiros, mas tiramos o mesmo no meio da disputa e em 1999 fizemos mais uma final. Naquela altura o Boi já era a agremiação mais importante paraa mim como compositor: afinal foram duas finais, a única escola que já havia chegado a finais. Mas o melhor ainda estava por vir.

Veio um tricampeonato - os três primeiros sambas que ganhei na vida. Em 2001 história que já contei em uma coluna com samba que foi Estandarte de Ouro, 2002 com um samba sobre a cidade de Holambra que ganhará uma coluna mais pra frente e em 2003 uma junção polêmica no enredo sobre Cabo Frio. Nesta tive que acalmar meu amigo e então diretor da escola Anderson Baltar inconformado com o resultado.

O próprio Anderson surgiu no Boi e depois teve passagens pela União da Ilha, Império Serrano e hoje participa de uma rádio de internet.

Perdi em 2004 e 2005, derrotas que doeram. Para dizer a verdade as derrotas que mais me doeram em samba até hoje foram no Boi. Eu tinha uma tese que se ganhasse cinco sambas no ano e perdesse no Boi dava o ano como fracassado e muitas vezes ouvi pessoas falarem que os melhores sambas que fiz até hoje foram pro Boi.

Em 2006 não teve disputa porque o Boi reeditou o samba da União da Ilha “O amanhã” e voltei a vencer em 2007 com o enredo “Alô alô, se liga tem boi na linha”. Uma vitória emocionante pra mim por ser a primeira na escola depois da morte da minha mãe e a primeira em quatro anos lá.

Em 2008 ocorreu aquela que é a que considero a pior derrota. O enredo era sobre a teoria de Gaia. A teoria diz que a terra é um ser vivo, que sofre como ser vivo e usa seus anticorpos para eliminar aqueles que lhe causam dor, no caso o ser humano. Acredito que tenha feito ali a melhor letra da minha vida e o samba, ao lado de Boi 2001, o que concorremos na Beija-Flor em 2004 e no Boi em 2011 os quatro melhores sambas que eu concorri.

O presidente Eloy estava doente, com câncer e o Cadu, que é meu amigo até hoje, parceiro de samba e era diretor de carnaval da agremiação assumiu o comando. Chegamos à final com favoritismo e com conversas que venceríamos. Mas perdemos e não dormi naquela noite. [N.do.E.: estava naquela final e foi uma situação absolutamente insólita]


No ano seguinte veio a quinta e até o momento última vitória, em uma junção de sambas perfeita. Cadu juntou nosso samba com o dos compositores Ginho, Professor e Marquinhos Silva e dessa junção vieram dois prêmios: o S@mbaNet e o troféu Jorge Lafond.

Foi o ano do adeus também do presidente Eloy que perdeu a luta contra a doença. O presidente que me levou à primeira final de samba e primeira vitória. Presidente que tive minhas rusgas, brigas, mas respeitava e tenho certeza que ele a mim também. Homem que tenho gratidão até hoje.

Em 2010 no enredo sobre bois pela primeira vez fui eliminado e fiquei fora de uma final da escola e em 2011, com outro samba que considero um de nossos melhores cheguei à final. No enredo sobre guaraná que consegui homenagear minha mãe com os versos “amor de mãe gera frutos no pomar/amor de mãe doce como guaraná” perdi outra final considerada por muitos ganha.

Daí decidi dar um tempo da escola. Ergui a cabeça e saí da quadra como entrei em 1997 para pegar a primeira sinopse, com a cabeça erguida e olhando pra frente. E no sábado que citei no começo voltei ao Boi. Não era mais aquele menino recém saído da adolescência para fazer o segundo samba de sua vida.

Entrei na quadra sábado com currículo de doze sambas feitos pro Boi, onze finais, cinco vitórias, um Estandarte de Ouro, um S@mbaNet, um troféu Jorge Lafond, três sambas de quadra vencidos e ex presidente da ala de compositores.

O Boi da Ilha foi uma verdadeira escola pra mim, onde aprendi muito de samba e principalmente sobre o mundo. Entrei na escola com vinte anos aprendendo sobre a vida e hoje com trinta e cinco não sei muito ainda. Mas do que aprendi boa parte foi naquela quadra, na esquina da minha casa, que há dois anos está vazia desde que o Boi foi obrigado a sair de lá. 

A escola nesse período de catorze anos oscilou entre os grupos A e C, tive histórias de amor e ódio lá, lágrimas de alegria e tristeza.

No Boi aprendi que a nossa força vem da humildade, que se pode balançar a roseira, que o Rei Momo pode brincar Cabofolia, que índio agora quer falar de celular e que boiadeiro tem raça, se esmera.

Mas aprendi principalmente que eu posso escrever lá, não escrever, mas eu nunca sairei do Boi nem ele de dentro de minha alma. Hoje humildemente tento seguir os passos dos grandes sambistas que surgiram na agremiação. Eu, Cadinho da Ilha, Ginho, Professor, Junior Nova Geração, Vinicius do Cavaco e outros sambistas que surgem no Boi a cada ano prontos para aprender e depois ensinar.


O Boi da Ilha é um caso de amor sem fim.

"Pedindo licença para apresentar
A nossa escola o Boi da Ilha que acaba de chegar
"

Orun Ayé!

sábado, 24 de setembro de 2011

Cinecasulofilia - "Fragmentos Cinematográficos"


Em mais um início de final de semana, a coluna "Cinecasulofilia", assinada pelo crítico, professor e cineasta Marcelo Ikeda. Hoje temos um resumo de filmes vistos e analisados pelo colunista durante este último mês.

Como sempre, texto publicado em parceria com o blog de mesmo nome.

Fragmentos Cinematográficos

Nesse corre-corre da vida, não consegui escrever aqui sobre diversos filmes interessantes que vi neste mês.

A primeira coisa é a chamada “Nova Escola de Berlim”: vi uns dez ou quinze filme do cinema alemão deste século e achei surpreendentemente interessante, um cinema jovem, sobre relacionamentos, e que possui diversas semelhanças estilísticas entre eles. Como esses filmes não passaram com destaque em Cannes ou mesmo na competitiva de Berlim, ficam fora das grandes coberturas críticas, o que só assinala a miopia da crítica para com o cinema em geral - porque esses filmes são bastante interessantes e merecem ser vistos dado o cenário do cinema contemporâneo. Fora o nome do Petzold, que é o mais conhecido.

Entre esse conjunto de filmes, destaco alguns que me impressionaram muito: Bungalow (Ulrich Kohler), Madonnen (Maria Speth, foto acima), Klassenfahrt (Henner Winckler), Der Schone Tag (Thomas Arslen). Desses, o que mais me impressionou foi o filme do Kohler, embora o filme seguinte dele não ter me pegado tanto. Klassenfahrt é talvez o “menor” deles, mas de todos foi o filme que mais ficou comigo depois de um tempo - sua sutileza ao abordar o universo jovem é desconcertante. Espero retornar a esse conjunto de filmes depois de minha viagem. E fico assustado como um filme como MADONNEN não se torna conhecido no Brasil.

Outros filmes que me encantaram em muito foram alguns filmes do Hou Hsiao Hsien de sua fase dos anos oitenta, antes do “cinema intelectual” de O Mestre das Marionetes em diante. Desses, vi apenas dois, mas que já me marcaram muito: Poeira no Vento e Um verão na casa do vovô.

Os dois filmes trabalham uma oscilação entre a cidade e o campo que a princípio parece dicotômica, mas uma visão atenta mostra que existem muito mais nuances do que um enfoque meramente saudosista e bucólico do interior. 'Um verão na casa do vovô' parece um filme mais tradicional sobre um neto que vai para a casa do avô no campo mas HHH é realmente um mestre porque, revendo o filme e pensando um pouco mais, percebemos claramente as sutilezas de sua construção fílmica, a maestria das opções de encenação e a brilhante teia das relações interpessoais que vai se desvelando de forma nada trivial.

São dois filmes que vão crescendo dentro da gente. 'Poeira no vento' é sem dúvida mais maduro, já com algumas elipses decisivas que antecipam o cinema posterior de HHH. Um filme delicado mas ao mesmo tempo duro; um filme humano mas ao mesmo tempo histórico. Poeira no vento é mais delicado que os filmes posteriores de HHH. Sinto que só em Café Lumière que HHH retorna a esse cinema: CL é quase um diálogo com PV só que ao avesso. Precisaria desenvolver mais. Quero ver mais uns dois ou três filmes dessa época para falar mais. E os filmes de Hou devem ser vistos sem pressa, e gosto de caminhar depois de tê-los visto, para que eles possam “fazer digestão”.

Vi também mais de um filme de Frammartino, Mario Bava, Georges Franju e Kon Ichikawa, diretores absolutamente diferentes, mas é sempre muito interessante ver de uma tacada só dois filmes de um mesmo diretor e ficar fazendo relações sobre eles.

Dois filmes de Ichikawa – A Harpa da Birmânia e Fogo na Planície – dois filmes que queria ter visto há muito tempo, mexeram muito comigo, especialmente por eu tê-los visto nessa ordem. Se gostei muito de A Harpa da Birmânia, de seu tom humanista, da valorização do espaço físico e do tempo ao observar a guerra de um ponto de vista inusitado, esse filme me pareceu datado e absolutamente romanesco em relação com o duríssimo Fogo na Planície, que, de cara, considero um dos grandes filmes do cinema japonês, um daqueles filmes que apenas o cinema japonês poderia ter feito. Um dos mais duros filmes já feitos sobre a guerra.

Quase em contraposição com o humanismo ingênuo de A Harpa da Birmânia (a necessidade do dever, de “enterrar os mortos”), Fogo na Planície mostra o absurdo da guerra visto de dentro, a partir da deambulação sem fim de um dos soldados simplesmente para se manter vivo, como uma travessia – nada épica e nada moral, mas apenas física – de um soldado pelos campos devastados, em que os próprios aliados se matam uns aos outros pela mera sobrevivência, travessia que é diretamente associada à própria experiência da falta de sentido da condição humana e da vida. É impressionante que Ichikawa o tenha feito apenas alguns anos após A Harpa da Birmânia.

Já Georges Franju é um dos grandes mestres injustiçados da história do cinema, que compôs uma filmografia absolutamente admirável, sem comparações, mas que permeneceu por isso à margem de um circuito de reconhecimento, afastando-se da nouvelle vague, ao fazer um cinema nitidamente clássico mas completamente invulgar. Os filmes de Franju são todos filmes políticos, desde seus primeiros documentários geniais (Hotel des Invalides e O Sangue das Bestas) até a forma como Franju vai resgatar, por exemplo, o cinema de Feuillade em Judex, numa homenagem incrivelmente poética e política, que nada tem de ingênua, mostrando a enorme sabedoria do cinema de Franju.

A obsessão de Franju é a de olhar debaixo do tapete, desmascarar o que a sociedade vai empurrar para fora do olhar comum por ser inconveniente. Os Olhos sem Rosto, ou ainda mais, A Cabeça contra a Parede são dois filmes lindos, porque articulam uma certa denúncia contra uma sociedade que expele a diferença – e que assim gerou as Guerras Mundiais – e ao mesmo tempo constroem um discurso lírico, poético, dialogando com um cinema fantástico, mas sem abrir mão de uma encenação tipicamente realista. 

É essa estranha mistura entre uma encenação realista e política e um tom de cinema fantástico (ou, como queiram, sua inclinação ao surrealismo) que faz do cinema de Franju um admirável tour de force entre o possível e o ideal, entre o mundo como ele é e a possibilidade de o cinema transfigurar esse mundo através de uma fábula, mas, claro, uma fábula sempre realista. Em A Cabeça Contra a Parede há uma cena perturbadora que resume o cinema crítico de Franju: é quando o rapaz finalmente é liberto e vai para um cassino pedir emprego, e ele observa os olhos das pessoas vidrados na bolinha da roleta, e descobre, assim, de que o mundo de fora é tão assustador quanto o mundo do internato.

Não tenho mais energia para falar dos admiráveis filmes vagabundos de Mario Bava (sua mise en scene barroca, cheia de movimentos falsos, um filme de falsas aparências sobre a inevitabilidade e a impossibilidade do amor..) e dos dois filmes extraordinários de Michelangelo Frammartino. Em AS QUATRO VOLTAS há um plano-sequência dos mais extraordinários que já vi no cinema contemporâneo. Suas relações com o neorrealismo italiano são evidentes: um cinema de pura observação sobre o tempo, sobre a natureza, e sobre, é claro, a decadência. Mais italiano, impossível.

Espero voltar a esses filmes um dia, quando voltar de minha viagem de uma semana. Acho difícil, pois o mês de outubro será cheio, então já escrevo algo aqui - mais como um registro.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Final de Semana - Homenagem a Ary do Cavaco


Minha idéia hoje era saudar o início do Rock in Rio nesta noite, mas infelizmente a Portela perdeu no dia de ontem um de seus maiores compositores: Seu Ary do Cavaco, aos 69 anos, vítima de enfarte.

Na quarta feira ele estava feliz e contente na apresentação de seu samba concorrente para o carnaval 2012, estando até tarde no River, clube onde estão ocorrendo as eliminatórias. Só que ele dormiu e, quando acordou, estava abrilhantando as rodas de samba no céu.

A se lamentar, apenas, a ausência do Presidente da escola, Nilo Figueiredo, no velório e sepultamento. Mas não surpreende, vindo de um mandatário que tem total desprezo pela história da escola. Apenas se lamenta.

Seu Ary venceu seis sambas de enredo pela Portela (1969, 1971, 1986, 1992, 2006 e 2008) e o mais famoso  deles é "Lapa em Três Tempos", ao lado de Rubens - que depois seria regravado por nomes como Paulinho da Viola e Clara Nunes. Particularmente também gosto muito do samba de 1992, "Todo o Azul que o Azul tem".

Como escrevi acima, seu samba está concorrendo no concurso de 2012 e para o carnaval de 2009 ele assinou (sozinho) um samba muito interessante, totalmente fora dos padrões pasteurizados vigentes atualmente. Infelizmente, sua obra foi cortada prematuramente.

Ary do Cavaco também tinha uma obra de sucesso fora do samba enredo, sendo o maior deles, provavelmente "Mordomia" - gravado por Beth Carvalho, Almir Guineto e outros.

No áudio acima temos "Lapa em Três Tempos" e "Mordomia", cantados por Seu Ary junto com Beth Carvalho. Ele também conta a história da segunda, que lhe rendeu alguns dissabores em casa mas que permitiu a ele melhorar a vida de sua família.

A gravação é do cd referente aos 40 anos de carreira da cantora.

Descanse em paz, Seu Ary.


Bissexta - "Reforma Política: Nas Mãos dos Caciques"


Nesta sexta feira temos mais uma edição da coluna "Bissexta", assinada pelo advogado Walter Monteiro. O tema de hoje é o projeto de Reforma Política que tramita no Congresso.

Aproveito para fazer um adendo. Setores mais reacionários da mídia e do especto político vem defendendo o voto distrital como panacéia para todos os males da política brasileira. Tenho o dever de lembrar algumas coisas aos leitores:

Uma delas é que a adoção deste tipo de voto vai tornar ainda mais importante o poder financeiro nas disputas. Em um distrito aqueles com mais condições podem impor com mais facilidade esta vantagem - até porque estes mesmos setores fogem do financiamento público de campanha como o Diabo da cruz. É uma forma, na prática, de voltar ao poder, o que neste sistema atual é bem mais difícil.

Outra coisa é que teremos muito mais representantes de segmentos como as milícias e os traficantes cariocas ou os coronéis do Norte e Nordeste no Legislativo. As microregiões em que o eleitorado se dividiria facilitariam o chamado "voto de cabresto" e tenderiam a piorar a qualidade da representação.

Terceiro é que representantes do chamado "voto de opinião", como os deputados cariocas Chico Alencar, Brizola Neto e Marcelo Freixo não teriam a menor chance neste sistema por terem uma votação espalhada pelos diversos municípios. Não por acaso, são parlamentares dos mais atuantes e sobre o qual não pairam suspeitas de envolvimento em desvios.

Feito o adendo, vamos à coluna.

"Reforma Política: Nas Mãos dos Caciques"

20 de setembro é feriado no Rio Grande do Sul e a chuva, aliada à falta de babá, me deixaram em casa cuidando de minhas bebês gêmeas. Girando o controle remoto, parei em um filme sobre os primeiros anos de Margaret Tatcher e sua luta para ser indicada para concorrer a uma vaga ao parlamento britânico. A Grã-Bretanha adota o chamado sistema distrital, onde há uma eleição majoritária em uma pequena região (o “distrito”). A futura Dama de Ferro ficou 11 anos batalhando apenas para ter o direito de se candidatar.

[N.do.E.: tendo em vista o que ocorreu depois, a opinião deste editor é de que teria sido melhor mesmo que ela não tivesse sido eleita]

Se o filme fala a verdade (é sempre bom desconfiar da integridade histórica do que passa na TV, mais ainda na sessão da tarde), Thatcher foi sistematicamente boicotada pelos dirigentes locais do partido conservador britânico. Em parte por ser mulher, em parte por ter uma plataforma eleitoral muito dedicada aos temas nacionais e internacionais, enquanto seus concorrentes davam preferência ao cotidiano local.

Há em tramitação no Congresso Nacional uma proposta de reforma política em avançado estágio de negociação. Dois temas chamam atenção: o financiamento público das campanhas eleitorais e a modificação do sistema eleitoral, que deixaria de ser proporcional.

É surpreendente a quantidade de eleitores que ignora, total ou parcialmente, as características do sistema eleitoral proporcional adotado pelo Brasil para eleger seus deputados federais. Daí porque não custa repetir a regra vigente.

Um partido eleitoral pode lançar muitos candidatos ao mesmo cargo, que disputam o voto de todos os eleitores do estado. O número de cadeiras no Congresso Nacional depende do número de habitantes do estado, sendo que haverá no mínimo 8 e no máximo 70 deputados por unidade da federação.

Realizada a eleição, a quantidade de votos válidos é divida pelo total de cadeiras em disputa no estado, cujo resultado é chamado de quociente eleitoral. O Rio de Janeiro, por exemplo, tem 46 cadeiras. Digamos que tenham 4.600.000 votos válidos (na prática tem mais). Logo, o quociente eleitoral seria de 100 mil votos.

[N.do.E.: nas últimas eleições o quociente eleitoral exigido para se eleger um deputado federal no Rio de Janeiro foi de 174 mil votos. Mais detalhes aqui]

Os votos de todos os candidatos de um mesmo partido (ou de uma coligação entre dois ou mais partidos) são somados. A quantidade de cadeiras a ser ocupada pelo partido (ou coligação) é a divisão dessa soma pelo quociente eleitoral – ou seja, um partido cuja soma de todos os seus candidatos seja de 1 milhão de votos levará 10 cadeiras, a serem ocupadas pelos 10 mais votados dentro de sua lista.

Esse sistema tem suas distorções. Imaginemos que um candidato como o Tiririca tenha, sozinho, 1 milhão de votos e que seus colegas de partido tenham, cada um, apenas 200 votos. Ainda assim, o partido do Tiririca ocuparia as 10 vagas, com candidatos praticamente sem votos entrando de carona. O contrário também acontece: candidatos com 90 mil votos não se elegem, porque a soma dos seus colegas  de partido não alcança o quociente eleitoral.

Para acabar com esse incômodo, a reforma política pretende introduzir o sistema de “lista fechada”. Ninguém mais votaria em candidato, só em partidos. Assim, a lista dos mais votados, que hoje é formada a partir do voto dos eleitores, passaria a ser uma prerrogativa da direção dos partidos. Quem vai dizer a ordem de prioridades para preenchimento das vagas é a cacicada que controla as máquinas partidárias.

Há bons argumentos a favor e contra ambos os sistemas. E como no Brasil é difícil adotar soluções definitivas, a tendência atual é bagunçar ainda mais a cabeça do eleitorado, introduzindo um inédito sistema misto, onde parte das vagas seria ocupada pelo regime da lista fechada e outra parte deixaria tudo como está.

O que me incomoda, de verdade, é ter que ficar dependente da escolha dos barões da política brasileira. Pois se até Margaret Tatcher sofreu nas mãos do centenário partido conservador britânico para conseguir seu lugar ao sol, não quero nem pensar o que acontecerá no Brasil quando para virar candidato com chances reais de se eleger for necessário obter a benção prévia do Sarney, Michel Temer, Geraldo Alckmin, Cesar Maia, José Dirceu, Carlos Lupi, Roberto Jefferson e outros da mesma estirpe.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Detran, Vistoria Anual et alli


Na última segunda feira, passei pelo dissabor de uma vez mais ter de fazer a vistoria anual do meu carro, no Rio de Janeiro. Estado que, aliás, é um dos únicos a fazer tal exigência.

O drama já começa na marcação da mesma. Tanto pela internet como pelo telefone o atendimento é bastante lento e o agendamento é sempre feito com prazos bastante elásticos. Liguei no início de agosto para fazer a marcação para o final do mês - o prazo para a placa do meu carro era 31 de agosto - e me foi informado que o prazo mínimo era de cinquenta dias. Ou seja, consegui marcar apenas para a última segunda feira, dia 19 - após o prazo final determinado.

Isto gera um problema: apesar dos atendentes do Detran dizerem que com o protocolo o meu carro não poderia ser rebocado em uma das inúmeras blitzes do órgão realizadas todo santo dia, na prática o que está ocorrendo é que os carros sem vistoria feita no prazo estão sendo rebocados independente de terem o protocolo de agendamento ou não. É um flagrante desrespeito à norma e que atende ao objetivo do Governo do Estado de arrecadar pura e simplesmente - afinal de contas, carros rebocados pagam diárias nos depósitos, multa...

Aliás, vale um parêntese: cerca de 95% dos carros apreendidos nas famosas blitzes da chamada "Lei Seca" o são não pelo fato de seus condutores estarem acima do limite de álcool no sangue. E sim por estarem com IPVA ou a vistoria anual atrasados. Fecha o parêntese.

O incauto aqui imaginou que, se a vistoria estava agendada para as oito horas da manhã, bastaria chegar um pouco antes que seria atendido sem problemas. Pois é.

Cheguei no posto da Ilha do Governador, no Cocotá (foto acima), cerca de 07:35 da manhã. Já havia uma longa fila com uns vinte carros à minha frente esperando a abertura do posto, ou seja, o atendimento seria feito pela ordem de chegada. Na mesma conviviam veículos que faziam vistoria anual, outros que fariam a vistoria de transferência de propriedade e ainda carros novos que fariam seu emplacamento. Na prática o horário previamente agendado era peça de ficção.

Fiquei nesta fila para entrar no posto pouco mais de uma hora. Somente às 08 e 40 da manhã é que adentrei as dependências do Detran. Detalhe: na primeira triagem sequer conferiram se eu estava agendado mesmo. Apenas perguntaram qual era o horário que eu tinha marcado. Isso me leva a pensar que se eu tivesse dado uma de "João Sem Braço" e ido ao posto sem marcação prévia muito provavelmente teria feito a vistoria.

Após o atendimento prévio dirigi-me à fila para fazer a vistoria propriamente dita. Esta em si nem demorou muito, deve ter levado uns cinco minutos esperando e mais uns dez para os procedimentos solicitados. O de sempre: checa se setas, faróis, luzes e extintores estão funcionando, verifica as ferramentas, observa-se o estado dos pneus e mais nada.

A novidade é que desta vez a inspeção de gases - pela qual meu carro passou no ano passado de forma aleatória - era obrigatória e imprescindível para a emissão do certificado anual de licenciamento. Foram feitos os testes e como meu carro é relativamente novo e recebe manutenção, aprovado sem problemas.

Então veio o segundo absurdo da história. Temos de aguardar dentro de um salão a impressão do documento, para ser entregue mediante a nossa assinatura.

Entretanto, para a simples emissão e impressão de um documento e sua entrega levou incríveis cinquenta e cinco minutos. O dono ou representante do veículo aguarda ser chamado e finalmente assina o certificado e recebe o documento de sua licença anual - o que significa alguns muitos reais a menos na conta e algum sossego em eventuais blitzes. O detalhe é que em momento nenhum pediram a minha identidade, ou seja: se meu pai ou meu irmão por exemplo tivessem levado o carro poderiam assinar o documento perfeitamente em meu nome.

Só então pude me retirar e ir embora, o que acabou me custando a perda da manhã de trabalho. Claramente o Detran-RJ não está preocupado com o cidadão e nem se ele tem horário no trabalho ou para outros compromissos: fui agendado às oito, atendido às nove e somente tendo encerrado o procedimento depois das dez. Ano que vem acho que irei agendar a vistoria para assim que pagar o IPVA, para ver se diminuo o tempo necessário para tal.

O cidadão fica se perguntando qual a validade prática de tal vistoria além de arrecadar taxas e aumentar a burocracia requerida ao pobre do cidadão. Sinceramente, não vejo o menor sentido prático, até porque a expressiva renovação da frota verificada nos últimos anos diminuiu bastante o número de carros trafegando sem as mínimas condições de segurança. A impressão que dá é que tal exigência é uma forma de elevar o percentual de veículos em dia com o IPVA - do qual, a propósito, pouco vemos retorno.

Ou seja, mais um exemplo da prioridade dada na engenharia de tráfego à arrecadação, seja com multas - que se constituem uma verdadeira indústria no Rio de Janeiro - seja com licenciamentos, reboques, blitzes e que tais. Organizar o trânsito e melhorar a fluidez não tem a menor importância.

E, finalizando, aproveito para colocar um outro ângulo da Baía de Guanabara, fotografado do posto. Até o ano que vem.