domingo, 30 de setembro de 2012

Orun Ayé - "A doce revolta de Gaia"


Nesta coluna "Orun Ayé" de domingo, o compositor Aloísio Villar conta uma história que acompanhei de perto: a disputa de samba do Boi da Ilha para 2008.

Foi a última vez em que estive presente a uma final de samba (era dirigente da agremiação, embora não votasse na escolha) e, ao contrário do colunista, minha impressão é que a decisão foi tomada no dia. Enfim, opiniões e versões.

A doce revolta de Gaia

Semana passada escrevi aqui sobre o “fracasso nosso de cada dia”, falando que o que nos move é o fracasso e ele é mais habitual no nosso dia a dia que a vitória. Contei como foi a nossa disputa para o carnaval 2013 da União da Ilha, onde considerei como meu maior fracasso no samba: mas não foi a pior derrota, nem a mais doída.

Essa citação me fez lembrar a derrota mais doída, não só essa citação como estar sábado retrasado com alguns diretores do Boi da Ilha na entrega dos sambas concorrentes do carnaval 2013. O diretor do Conselho Fiscal Lourival Alves, um dos caras mais íntegros que já conheci no samba e um dos principais alicerces do Boi desde quando entrei na escola em 1997 sempre cita esse samba e citou no sábado.

Ele até hoje não se conforma com a derrota desse samba. Disse que o resultado foi o que mais lhe entristeceu nesse período e que não consegue esquecer.

Também não consigo e por causa disso pela primeira vez, depois de ter feito várias colunas para sambas meus vencedores, faço para um derrotado.

Talvez para dar um pouco de mídia e audiência a este samba, que realmente considero injustiçado. Sou um compositor e pessoa coerente. Entrei até hoje em noventa disputas de samba de enredo e sei exatamente quando posso vencer ou perder. Tem gente que adora dizer que foi roubada em concurso de samba, reclamar de firmas, panelas, diretorias ladras etc quando às vezes o problema reside nele. 

Não sei se fui roubado alguma vez. Minha ingenuidade e crença no ser humano, além do que vi nesses concursos, diz que não e dos sessenta e três sambas que perdi apenas dois eu posso dizer que fui extremamente injustiçado.

Um é o tema de hoje e para isso volto seis anos no tempo.

Volto ao ano de 2006, quando o Boi promoveu seu concurso para o carnaval de 2007. O enredo era “alô, alô, se liga tem boi na linha”. Não vou me alongar muito porque ainda quero fazer uma coluna para esse samba, mas posso dizer que foi uma daquelas vitórias avassaladoras, acachapantes. Talvez a mais acachapante desses quinze anos de samba e com uma parceria quase imbatível para a época, formada por mim, Cadinho da Ilha, Walkir, Barbieri e Marquinhus do Banjo.

Ganhamos com extrema facilidade pelo nível de nossa parceria que compôs um grande samba e por haver apenas quatro sambas no concurso. Durante o período pré-carnavalesco por indicação minha e do Cadinho o presidente Eloy Eharaldt contratou o Cadu, compositor campeão da Mangueira em 2005 e diretor geral de harmonia do Tuiuti em 2006 para comandar a harmonia do Boi.

Cadu chegou já próximo do carnaval, um carnaval de muitos erros e dificuldades do Boi e fez o que pôde. O Boi acabou se salvando em samba-enredo da queda para o grupo C e a partir dali muita coisa mudou para o carnaval 2008.


Eloy descobriu estar com câncer e, mesmo não deixando a presidência, se afastou. Nomeou Cadu diretor de carnaval com plenos poderes para conduzir a escola e o Cadu trocou o intérprete, trazendo de volta Roger Linhares, meu parceiro nas vitórias de 2002 e 2003 e cantor da escola em 2002. Também trouxe de volta Guilherme Alexandre, carnavalesco da escola entre 1997 e 2001 e depois 2005.

Guilherme sempre foi adepto de enredos grandiosos, com grande profundidade e decidiu fazer o enredo chamado “Gaia, a reação da mãe Terra – Uma história que deve ser contada de outra maneira”.

O enredo era sobre a “teoria de Gaia” que tratava o planeta como um ser vivo que ficou doente por nossa causa e com a finalidade de se livrar dessa doença criava anticorpos pra expurgar o agente causador (nós). Esses anticorpos seriam os tsunamis, terremotos, furacões e que teríamos que fazer algo antes que o planeta morresse ou nossa raça fosse extinta.

Pelo problema ocorrido no ano anterior de só haver quatro sambas da disputa, Cadu limitou em três a quantidade de integrantes por parceria, o que nos trouxe problemas. Com essa determinação tivemos que abrir a nossa.

Marquinhus foi compor com seu primo Junior. Walkir com Djalma Falcão e Nando Pessoa enquanto eu, Barbieri e Cadinho compomos o nosso time.

Fiquei encantado com o enredo e sua explanação em vídeo e pensei que ali poderia fazer algo que sempre sonhei. Um samba mais ousado, diferente e passei essa idéia para nossos parceiros.

Cadinho era o parceiro da melodia e topou a empreitada. Barbieri letrista como eu, mas um compositor sem arrogância e totalmente aberto e acolhedor de idéias. Ele praticamente foi o autor de toda a letra do nosso samba do Acadêmicos do Dendê, que se tornou campeão naquele ano; então decidiu deixar que eu viajasse na minha loucura.

E eu viajei. Compus uma letra totalmente sem rimas que deixou o Cadinho louco e dizendo ser impossível fazer melodia. Refiz a letra colocando algumas rimas pra lhe enganar, mas mantendo a minha viagem.

Ele colocou uma melodia e fomos à casa de Barbieri nos reunir com ele e Ito Melodia que seria nosso cantor. Ali o samba nasceu.  

Boi da Ilha 2008 (samba concorrente)

Gaia, a reação da mãe Terra – Uma história que deve ser contada de outra maneira

Compositores: Aloisio Villar, Barbieri e Cadinho
(Participação especial: Toninho Z10, Jair Turra e Ito Melodia)

Quando a humanidade
Ouvir o clamor que vem da mãe Terra
Espero não estar perto do fim
Senhor olhe por nós, tire essa cruz de mim
O ser vivo que moramos está doente (lágrimas)
Chora, padece, provocando reação
Para impedir o juízo final
Só o juízo afinal

Derrubem fronteiras, todos juntos pra salvar
Vamos dar as mãos na união apostar              (refrão)
Cidadania é a nossa fé
Eu tenho fé

Vejam é o Sol que vem chegando
Traga boas notícias nesse novo amanhecer
Vejam, é o Sol anunciando um novo tempo
Esperança sempre teima em nascer
Esperança sempre teima em renascer
Desenvolver sustentando no ambiente
Nova história, outra maneira de contar
Quero água limpa pra beber, água limpa de viver
Meus netos conhecendo a fauna e a flora
Sonhos de um louco como eu
No meu enredo esse sonho aconteceu

Vai meu samba vai levar
Nossa voz ao mundo inteiro
Vai meu samba viajar
Seja nosso mensageiro

Gaia, quero ver você feliz
Azul mais azul na beleza das cores
Jardim do Éden voltou, obra prima do criador
E a minha escola vem cantando em seu louvor

Basta amor pra preservar mudar
O planeta no pulsar de um coração   (refrão)
Basta amor pra preservar curar
Meu carnaval é emoção

Samba grande, trinta e cinco linhas. Dois refrões e um falso refrão para grupo B. Ousado, fugindo de todos os padrões atuais. Mas com essa loucura que fomos para a disputa.

Entregamos o samba e o Cadu me ligou dizendo maravilhas dele, emocionado; mas pedindo para tirar o começo da segunda dizendo que não tinha a ver com o enredo e alongava demais o samba. Argumentei que tinha a ver com a escola desfilar com o dia amanhecendo, mas aceitei a ponderação e mexemos, começando a segunda com “desenvolver sustentando no ambiente”.

Nosso palco foi formado por Ito Melodia, Igor Vianna, Cadinho e Bruno Revelação e o Boi teve quantidade de inscrições recorde nesses meus quinze anos: quatorze sambas, por vários motivos. Principalmente o excelente enredo, a limitação em três por parceria e a União da Ilha estar reeditando “É hoje” e seus compositores terem colocado samba no Boi.

Três sambas se destacaram de início. O nosso pela poesia, melodia, o do Marquinhus pela alegria e juventude do palco e correndo por fora o do Walkir com o formato mais tradicional. Os dois primeiros sambas aos poucos foram tomando ares de favoritos e até uma junção entre eles foi cogitada, mas na última semana a coisa foi pro nosso lado.

Walkir foi até a casa de Cadinho cumprimentar pela vitória no Boi e três dias antes da final recebemos uma ligação de um membro influente da escola que estava naquele instante deixando uma reunião no Leblon da diretoria. Nessa reunião nossa vitória fora sacramentada.

Com toda confiança fomos para a final no domingo, 23 de setembro de 2007. O samba do Marquinhus se apresentou e não foi tão bem, veio o samba do Magrão que estava mais para completar a final e o do Walkir.

Walkir teve problemas com os ônibus e ficou sem torcida, sozinho no meio da quadra chorando e cantando o samba. Eu, Cadinho e Barbieri por sermos amigos dele fomos para o meio dar uma força e cantar junto. Quando fomos ver boa parte da quadra se juntou ao canto.

Depois o nosso se apresentou de forma excelente.

Subi ao palco na hora do resultado recebendo parabéns de algumas pessoas, esperando por minha quarta vitória na agremiação quando veio o resultado. Cadu disse algumas palavras e pediu para o puxador oficial Roger cantar o samba campeão.

O cavaco começou a tocar e reconheci que não era o nosso. Não conseguia decifrar qual samba era e assim veio a surpresa. Era o samba do Walkir.

Fiquei zonzo na hora: uma derrota inesperada, doída. Nem a própria parceria do Walkir esperava e começaram a comemorar timidamente. Marquinhus saiu enfurecido com a derrota, Cadinho não quis cumprimentar o Cadu e foi embora, eu fiquei ali zonzo.

Recebi cumprimentos da diretoria e do Cadu, que sempre foi meu amigo e me senti traído ali e minha namorada da época me puxou pra irmos embora.

Não consegui dormir naquela noite, primeira e única vez que isso ocorreu comigo em samba até hoje. No dia seguinte o orkut do Boi da Ilha estava em guerra pelo resultado. Não escrevi nada, Cadu me ligou umas trinta vezes, não atendi. Submergi, queria ficar sozinho.

Deixando meu amor pela escola falar mais alto, no dia seguinte apareci na reunião do Boi para prestar apoio. Cadu me pediu que assumisse a presidência da ala de compositores. Assumi e assim o carnaval de 2008 do Boi foi feito.

A escola estava linda na avenida, mas o samba não aconteceu. No ano seguinte a Unidos de Padre Miguel resolveu fazer um samba pesado, de quase quarenta linhas em uma grande ousadia e ganhou todos os prêmios de melhor samba-enredo e subiu para o grupo A. Até hoje lembro ao Cadu e aos diretores do Boi que poderia ter sido conosco.

[N.do.E.: acredito que haja um pequeno equívoco do colunista, pois o grande samba da Unidos de Padre Miguel foi no mesmo 2008, onde a escola inacreditavelmente não subiu de grupo. Em 2009, inclusive, foi o próprio Aloisio Villar que conquistou o prêmio Sambanet, e o samba da aí sim campeã Padre Miguel era horroroso, para se dizer o menos.]

Cadu é um grande amigo até hoje. Respeito Djalma Falcão como ídolo, um dos melhores que conheci, Walkir é um grande sujeito e vencedor em tudo que faz, Nando é um dos meus cantores preferidos...

...mas aquele samba eu não perdia.

Até hoje considero a melhor letra que fiz e acho nosso melhor samba, melhor até que Orun Aye. Cadinho acreditou na minha loucura e fez uma melodia espetacular mostrando o imenso talento que tem, Barbieri um excelente letrista mostrou e mostra sempre que é o parceiro que todos querem ter, guerreiro, decente e talentoso e temos esse filho que não veio ao mundo, mas que nos dá grande orgulho.

Algumas pessoas alegam que perdemos por apoiar o samba do Walkir na final. Falácia. Quem entende um pouco de disputa de samba-enredo sabe que samba não é escolhido em final e escola que depois de dois meses ouvindo os sambas semanalmente na quadra ou quando quiser em Cd deixa para escolher no último dia é que algo vai errado.

Não sei o que aconteceu e nunca vou saber, penso que foi apenas um medo de ousar.

O fantasma desse samba concorrente me persegue até hoje. Nunca mais ousamos dessa forma em um samba, nunca nem cogitamos reutilizar a melodia em outro samba, nunca mais ouvi o cd e raramente cantarolo, mas ele sempre está presente.

Uma grande dor, uma grande felicidade, por mais incoerente que possa parecer porque esse samba é para mim e tenho certeza que também a Cadinho e Barbieri um grande orgulho. Ele é um dos meus maiores orgulhos no samba e como escritor, seja qual for o gênero.

Links do youtube onde pode ouvir esse nosso concorrente, mesmo não estando 100% em áudio e visibilidade.

Pedaço da apresentação da final


A vida continuou, outra disputa veio, mas essa é uma outra história. Só posso dizer que não desistimos, até porque...

... Boiadeiro tem raça, se esmera. Orun Ayé!

sábado, 29 de setembro de 2012

A Médica e a Jornalista - "Salve, São Cosme e São Damião!"


Hoje, a coluna "A Médica e a Jornalista", da Anna Barros, retoma sob o ângulo cristão tema que abordei na última quarta feira: a tradição de São Cosme e São Damião, padroeiros e protetores dos médicos.

Acima a igreja dedicada aos santos em Igarassú (pernambuco), datada de 1535 e considerada a mais antiga do Brasil ainda em atividade.

Salve, São Cosme e São Damião!

São Cosme e São Damião eram gêmeos e médicos. Morreram aproximadamente em 300 D.C.   

Tornaram-se santos por praticarem a medicina sem cobrarem nada. São protetores dos médicos e dos microcirugiões, porque há crenças de que fizeram as primeiras microcirurgias, mesmo que as mais rudimentares, da história. Microcirugia é aquele tipo de cirurgia em que há um transplante de tecido vascularizado de uma parte para outra do organismo.O Centro de Referência é o  Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro.

O dia deles é 26 de setembro, data instituída pela Igreja Católica. Sua origem é proveniente da Arábia, de uma família nobre. São cultuados pelas religiões afro-brasileiras, que celebram sempre no dia 27 de setembro com a tradição de entregar doces para as crianças, geralmente por promessas. Evangélicos e uma ala mais radical da Igreja Católica pedem que seus fiéis não consumam os doces dos saquinhos por causa da Umbanda e do Candomblé.

Cosme e Damião foram martirizados na Síria, porém é desconhecida a forma exata como morreram. Perseguidos por Diocleciano, foram trucidados e muitos fiéis transportaram seus corpos para Roma.

Foram sepultados no maior templo dedicado a eles, feito pelo Papa Félix IV (526-30), na Basílica no Fórum de Roma com as iniciais SS – Cosme e Damião.

Há várias versões para suas mortes, mas nenhuma comprovada por documentos históricos. Uma das fontes relata que eram dois irmãos, bons e caridosos, que realizavam milagres e por isso teriam sido amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria e de serem inimigos dos deuses romanos.

Segundo outra versão, na primeira tentativa de matá-los, foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás, sem atingi-los. Por fim, morreram degolados.

Sempre gostei de São Cosme e São Damião. 

Sempre pedi a eles proteção em meus estudos médicos e eles sempre me atenderam. Eles gostavam de crianças e isso também me fascinava. Ofereço uma oração a eles no seu dia. E fico feliz que Pedro tenha me pedido que falasse deles. Fica aqui na coluna a minha singela e pura homenagem àqueles que exerceram seu ofício com amor e desprendimento.

Forte abraço e até a próxima!
Anna Barros

(Fonte: Wikipédia)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Final de Semana - "Why I Sing The Blues - Live In Africa 1974"

Neste sábado estarei assistindo ao vivo ao show do legendário B.B. King, mais uma vez no Vivo Rio. É o show de estreia da perna brasileira da turnê mundial "The Blues is My Life", que resume bem a vida do gênio.

Serão cinco shows, este carioca, um em Curitiba e mais três apresentações em São Paulo. Prestes a completar 87 anos o grande artista nem pensa em parar de tocar sua "Lucille". King trará sua banda, com oito integrantes, para os shows.

Uma curiosidade: assim como faz nos seus shows americanos, B.B. King irá circular entre as cidades de ônibus, especialmente adaptado para ele. O coletivo possui dois andares e um quarto para a estrela do blues.

Pessoalmente estarei me redimindo de não ter estado no último show, em 2010 - estava fora do Rio a trabalho. Adquiri meus ingressos há bastante tempo, mas ainda há alguns poucos lugares no momento em que escrevo.

Nossa música não poderia ser outra: "Why I Sing The Blues", em gravação de 1974 - curiosamente, o ano em que nasci. Abaixo disponibilizo a letra em inglês, que é uma profissão de fé na música.

"Why I Sing The Blues
Everybody wants to know
Why i sing the blues
Yes, i say everybody wanna know
Why i sing the blues
Well, i've been around a long time
I really have paid my dues

When i first got the blues
They brought me over on a ship
Men were standing over me
And a lot more with a whip
And everybody wanna know
Why i sing the blues
Well, i've been around a long time
Mm, i've really paid my dues

I've laid in a ghetto flat
Cold and numb
I heard the rats tell the bedbugs
To give the roaches some
Everybody wanna know
Why i'm singing the blues
Yes, i've been around a long time
People, i've paid my dues

I stood in line
Down at the county hall
I heard a man say, "we're gonna build
Some new apartments for y'all"
And everybody wanna know
Yes, they wanna know
Why i'm singing the blues
Yes, i've been around a long, long time
Yes, i've really, really paid my dues

Now i'm gonna play lucille.

My kid's gonna grow up
Gonna grow up to be a fool
'cause they ain't got no more room
No more room for him in school
And everybody wanna know
Everybody wanna know
Why i'm singing the blues
I say i've been around a long time
Yes, i've really paid some dues

Yeah, you know the company told me
Guess you're born to lose
Everybody around me, people
It seems like everybody got the blues
But i had 'em a long time
I've really, really paid my dues
You know i ain't ashamed of it, people
I just love to sing my blues

I walk through the cities, people
On my bare feet
I had a fill of catfish and chitterlings
Up in downbill street
You know i'm singing the blues
Yes, i really
I just have to sing my blues
I've been around a long time
People, i've really, really paid my dues

Now father time is catching up with me
Gone is my youth
I look in the mirror everyday
And let it tell me the truth
I'm singing the blues
Mm, i just have to sing the blues
I've been around a long time
Yes, yes, i've really paid some dues

Yeah, they told me everything
Would be better out in the country
Everything was fine
I caught me a bus uptown, baby
And every people, all the people
Got the same trouble as mine
I got the blues, huh huh
I say i've been around a long time
I've really paid some dues

One more time, fellows!

Blind man on the corner
Begging for a dime
The rollers come and caught him
And throw him in the jail for a crime
I got the blues
Mm, i'm singing my blues
I've been around a long time
Mm, i've really paid some dues

Can we do just one more?

Oh i thought i'd go down to the welfare
To get myself some grits and stuff
But a lady stand up and she said
"you haven't been around long enough"
That's why i got the blues
Mm, the blues
I say, i've been around a long time
I've really, really paid my dues

Fellows, tell them one more time.

Ha, ha, ha. that's all right, fellows.
Yeah!"

P.S. - Assisti no último sábado à montagem brasileira do musical  "O Mágico de Oz" aqui no Rio. Infelizmente não tive tempo de escrever post sobre a supreprodução musical, mas gostei bastante. Recomendo.

Cinecasulofilia - "Serpico"



Nesta sexta feira de uma semana que pessoalmente - os leitores me desculpem - foi horrorosa, mais uma edição da coluna “Cinecasulofilia”, assinada pelo cineasta, crítico e professor de cinema Marcelo Ikeda.

Como habitual, publicada em parceria com o blog de mesmo nome.

Serpico

Vi novamente mais um filme do Sidney Lumet: Serpico.

Havia algum tempo que eu queria ver esse filme, mas acaba deixando de lado. É curioso pensar nos seus primeiros filmes, como The fugitive kind e o homem do prego, com alguns outros filmes dos anos setenta, como Serpico e um dia de cão, por exemplo.

Dez anos depois, Lumet certamente "amadureceu", no seu caminho em fazer filmes cada vez mais apresentáveis e no padrão da indústria hollywoodiana. Mas ao mesmo tempo, seu cinema continua interessado em personagens marginais, rebeldes que não se encaixam num sistema.

Fico pensando que o que há em comum em diversos de seus filmes é um olhar sobre a liberdade, como é improvável para o homem ser livre quando ele inevitavelmente esbarra nas amarras conservadoras das instituições.

Serpico e Um dia de cão são dois filmes que analisam as contradições das instituições americanas, como essas instituições não conseguiram acompanhar as transformações da sociedade americana, e como é preciso vigiar e punir quem não é a favor delas, quem não faz a engrenagem continuar girando, independentemente para onde ela gira. Um pouco disso também estava em seus primeiros filmes, mas de forma mais pungente, rebelde e, até certo ponto ingênua.

Lumet parecia deslumbrado com certos artifícios do cinema europeu, e tentava se inserir nesse clube. Nesses filmes dos anos setenta, ele já busca se inserir em outra coisa: na tradição do cinema clássico americano, mas remodelando-o, atualizando-o. Mas ele quer se inserir nessa linhagem.

Lembro-me de uma frase recente do Bruno Safadi que diz que um artista deve dialogar com uma tradição anterior a ele, mas sempre levando-a para um outro lugar (ele disse algo do tipo). Acho que é isso que o Lumet procura fazer.

Acho que esse filme se insere numa certa linhagem de um cinema americano dos anos setenta, que procurava "denunciar", mostrando as entranhas de um outro lado da sociedade e das instituições americanas que o cinema americano achava que não podia ou não cabia mostrar.

Mas Lumet não era um Coppola, um Scorsese, muito menos um Hopper ou Hellman, que também eram cineastas que propunham um olhar para essas transformações de um cinema e de uma sociedade, mas buscavam na forma de seus filmes uma inquietude que traduzisse essa estado de espírito.

Existe sim uma certa vontade de cinema nesses filmes de Lumet, mas existe sempre um desejo enorme (maior, primeiro) de fazer parte de (de se inserir em) essa tradição, da velha e eterna tradição do "cinema americano". No fundo, seus filmes possuem os valores éticos essenciais desse cinema.

Serpico poderia ser um western de John Ford. Quarenta anos depois é incrível como o filme permanece atual. Uma espécie de Tropa de Elite 2. Um filme que fala sobre o cenário eleitoral brasileiro, um filme que fala sobre a minha experiência no trabalho em órgãos públicos. Quando digo isso, não quero dizer que onde trabalhei há corrupção, longe disso. Mas acho que Serpico é um documentário sobre os órgãos públicos brasileiros porque há uma espécie de entropia que impede que as coisas funcionem como devem ser, que cada um faça a sua parte. Se você procurar simplesmente fazer a sua parte, você vai ser engolido por esse sistema, cuja mola motora é a ineficiência.

Serpico poderia ser um western de Budd Boetticher. Não o é pois ele tem muito mais valores de produção, e porque tem um grande tema. Boetticher tinha muito pouco, fazia filmes vagabundos, e a austeridade com que Boetticher encarava seu dever de fazer algo com o que se tinha é o que torna esses seus filmes um grande e comovente tour de force. O diretor estava do lado do seu personagem solitário, como ele.

Fico pensando em que medidas há um descompasso entre a postura de Lumet e a perspectiva de seu próprio personagem. Há um certo limite que Lumet não consegue ultrapassar para poder estar de fato ao lado de seu personagem. É isso o que me incomoda. Al Pacino ainda é um boneco nas mãos de um diretor. É como se Lumet usasse armas letais para denunciar a indústria bélica.

Mas ainda assim Serpico permanece atual. No que o filme me interessa?

Em como Lumet, de forma romântica, lamenta pela impossibilidade de seus personagens serem livres, em como os filma encurralados pelo sistema que os engole, por como todos eles acabam inevitavelmente rumando para a solidão. Para manter-se fiel às suas convicções, não restou outra alternativa ao protagonista a não ser permanecer sozinho.

É um filme triste, muito triste.

No final, ele ganha um distintivo. Um pedaço de ferro por toda a "sua bravura". Um "reconhecimento" pelo seu ato de bravura. É isso o que está em jogo, somente um maldito reconhecimento? Uma medalha, um troféu, um prêmio num festival de cinema? Isso importa? Qual é a diferença? Pra que serve, se se acaba sozinho? Mas de que servem os amigos, se o mundo permanece como o é? Mas o que se pode fazer sem isso?

Não se trata de utopia, do cinema político dos anos setenta. Trata-se de uma opção suicida. Trata-se de uma opção pelo fracasso. O fracasso, novamente ele. Se pudesse, talvez Serpico escolhesse outra coisa. Mas algo (que algo é esse?) o faz se lançar impiedosamente nessa opção rumo ao suicídio, ou ainda, ao fracasso.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sabinadas - "Deixem Barrichello em Paz"



Temos a estreia de um novo colunista no Ouro de Tolo hoje. Trata-se do jornalista Fred Sabino, especializado em automobilismo e que após longo período no Grupo Lance transferiu-se para o SporTv.

Fred já foi entrevistado por este blog, cuja entrevista pode ser lida aqui.

Sua coluna, de nome “Sabinadas”, será semanal, com temas variados e publicada as quintas ou sextas feiras, dependendo da semana. Seja bem vindo!

Na coluna de estreia Sabino fala das diferenças entre a visão que o profissional de automobilismo e o torcedor tem de Rubens Barrichello. Vale a pena a leitura.

Deixem Barrichello em Paz

Antes de tudo, queria agradecer ao Pedro Migão pela oportunidade de escrever no Ouro de Tolo. Depois de dez anos no LANCE!, como redator e editor do LANCENET! e editor do Núcleo Motor da casa, me transferi no último mês para o SporTV, onde atuo na produção e edição do Linha de Chegada.

E, já que mudei de ares, convenhamos que é bom momento para estrear uma coluna, não? Então, vamos lá...

A semana foi marcada pelo anúncio da participação de Rubens Barrichello na Corrida do Milhão da Stock Car, em dezembro. Provavelmente, Rubens disputará outras duas provas antes, em Curitiba e Brasília. Na capital paranaense, dia 16, Barrichello fará um teste de adaptação a um tipo de carro com o qual não está habituado.

Certo, esses detalhes factuais o amigo leitor já deve saber. Mas o tema desta primeira coluna é a diferença de reações entre os companheiros de pista em relação a quem está fora, sobretudo nas redes sociais.

Enquanto todos os pilotos da categoria, sem exceção (desculpem a redundância), saudaram com muita alegria a chegada de Barrichello, alguns que não são do meio ironizaram e criticaram sem nenhuma razão a decisão dele de correr, com um ranço incrível.

Esse é um reflexo da reputação de Barrichello para quem convive com ele, pelo comportamento nos autódromos, e a reputação criada por ele (com contribuição da mídia) na ótica de parte da torcida. As duas reputações, a ótima e a desagradável, são perfeitamente explicáveis.

Goste-se ou não de Barrichello, é inegável a sua capacidade técnica na preparação e condução de um carro de corrida. Ninguém fica quase 20 anos na F-1, sendo seis na Ferrari, a maior equipe do mundo, se não for capaz. Dos 30 pilotos brasileiros que já correram na categoria, ele é o quarto com melhores resultados, só atrás de Fittipaldi, Piquet e Senna. Perguntem a qualquer piloto que conviveu com ele, brasileiro ou estrangeiro, sobre a sua capacidade - e todas as respostas serão positivas.

Mas, para a torcida, houve episódios nos quais Barrichello deveria ter agido de forma diferente, e ele próprio admite isso.

Um deles foi quando Rubens, de forma inocente e literalmente juvenil, "aceitou" a responsabilidade de substituir Ayrton Senna após sua morte. Outro foi quando ele entregou a vitória para Michael Schumacher no GP da Áustria de 2002. Vale a pena relembrar e contextualizar esses episódios.

Rubens teve um início de carreira muito positivo. Teve títulos e bons resultados nas categorias de base, além de dois primeiros anos muito promissores na Jordan. Mas aí Senna morreu e o então jovem Barrichello, mal-assessorado e, por que não dizer, longe de estar totalmente amadurecido, caiu na armadilha. Com os carros medianos que tinha, não poderia ter se posicionado como um piloto em condições de brigar por vitórias. Ávida para que o "novo Senna" chegasse logo, a mídia caiu matando a medida em que as vitórias não saíam.

Depois, quando obteve bons resultados na emergente Stewart, Barrichello fechou com a Ferrari. Novamente ele se equivocou ao dizer que era piloto 1B de Michael Schumacher. A mídia, que já o havia ridicularizado antes, aproveitou. Em que pese ter tido boas atuações nos primeiros anos de Ferrari, não dava para ele competir de igual para igual com um Schumacher que estava no auge. Mais munição para os detratores.

A comparação de resultados por si própria não desabonaria Barrichello, mas aí aconteceu o fatídico GP da Áustria de 2002.

Todos sabemos que ordens de equipe são normais na Fórmula 1, mas foi ridículo a Ferrari apelar para isso na sexta corrida, ante adversárias mortas naquele ano como Williams e McLaren. Barrichello até relutou mas deixou Schumi passar, ameaçado pela Ferrari - tomara que um dia Rubens conte tim tim por tim tim o que aconteceu. E, com isso, a pá de cal.

Apesar de tudo, Rubens continuou com boa reputação ante os profissionais da Fórmula 1. Por isso, correu mais alguns anos na categoria e, em 2009, teve sua grande chance de ser campeão, pela Brawn. Não a aproveitou, como inúmeros outros pilotos não aproveitaram chances ao longo da história, e, no fim do ano passado, se viu sem vaga, já que a Williams precisava de grana. O que também é normal na F-1 de hoje.

Foi para a Indy e agora aceitou correr na Stock Car, mas as críticas e o ranço continuaram, mesmo com Rubens na dele, curtindo cada momento na pista. Ora bolas, qual é o crime Rubens continuar fazendo o que mais gosta? É algum crime ser convidado e aceitar continuar correndo?

Não seriam crimes, é claro, mas no Brasil não ser campeão mundial de Fórmula 1 é considerado crime hediondo, sim - vide o que está acontecendo agora com Felipe Massa, mas esse é outro papo.

Aqui não basta ser competente: tem de ser campeão, de preferência esmagando os estrangeiros. Isso Barrichello não conseguiu e suas declarações (algumas também maldosamente interpretadas pela mídia) potencializaram esse estrago.

Só que nesses meus anos de cobertura, e após diversas entrevistas com ele (nas quais, diga-se, fui extremamente bem tratado) aprendi a separar as coisas. Por isso, escrevo sem medo de errar que Rubens é piloto tecnicamente muito bom e respeitado, mesmo sem ter sido campeão na F-1. Contudo, pagou o preço de ter escorregado em declarações ao longo da carreira.

Então, vejo com bons olhos ele continuar correndo, sim. Tecnicamente tem muito a acrescentar a uma Stock Car que, apesar de alguns problemas, ainda é o que temos de mais organizado no nosso automobilismo.

E, além do mais, a vida é dele, ninguém tem nada com isso.

Deixem-no em paz!

(Foto: Uol)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

São Cosme e São Damião: uma tradição que está se perdendo


Amanhã é o dia popularmente consagrado a São Cosme e São Damião.

É uma data bastante arquetípica do sincretismo religioso brasileiro, por envolver adeptos da Igreja Católica, do Candomblé e da Umbanda - embora a primeira, oficialmente, comemore hoje, dia 26, após a Reforma Litúrgica realizada pelo Vaticano em 1969 ter alterado a data de 27 para 26 de setembro.

Cosme e Damião, segundo a tradição, eram médicos gêmeos que viveram no Século III e que praticavam a medicina de forma caridosa, sem exigir pagamento. Ainda de acordo com a convenção ambos foram martirizados na Síria durante a perseguição feita pelo imperador Diocleciano - o mesmo que teria sido algoz de São Jorge - e após suas mortes o povo transportou seus corpos para Roma.

Objetivamente há dúvidas sobre a maneira como os irmãos pereceram e, até mesmo, sobre sua existência. Alguns grupos de pesquisadores argumentam que Cosme e Damião são a versão romana da lenda grega dos filhos gêmeos de Zeus.

Mas isto não vem ao caso.

Cosme e Damião são os padroeiros dos médicos, dos farmacêuticos (ato falho: havia escrito "feiticeiros" originalmente) e diz-se que a Fé nos santos ajuda mulheres que tenham dificuldade a engravidar.

Na Bahia os santos são cultuados especialmente pelos adeptos do Candomblé, que possuem como tradição o denominado "caruru de Cosminho", oferecido em Igrejas, Templos e nas casas dos fiéis - mais ou menos similar ao hábito carioca de oferecer doces.

Na tradição baiana Cosme e Damião são associados aos ibejis, divindades gêmeas do Candomblé. Nos cultos afro-brasileiros Cosme e Damião estão sincretizados a entidades infantis, apesar de sua representação como adultos por parte da Igreja Católica.

No Rio de Janeiro, outro local onde o culto a São Cosme e São Damião é bastante forte, há - melhor dizer havia, explico mais abaixo - uma prática bastante antiga, principalmente no subúrbio: distribuir doces nesta data na rua.

É tradição tanto de adeptos da Igreja Católica que fazem promessas aos santos ou simplesmente querem agradecer quanto de fiéis de cultos afro-brasileiros. Estes últimos, especialmente adeptos da Umbanda - mas não somente esta.

Eu me lembro que quando era garoto esperava ansiosamente por este dia. Até porque não tinha muita grana para comprar doces no restante do ano: era muito de vez em quando que me sobravam uns trocados para tal.

Fazendo um parêntese, talvez este seja o motivo pelo qual até hoje não ligo muito para doces.

Normalmente, quem nos levava para a caça de guloseimas em Cascadura (onde eu morava) e adjacências era minha avó, a saudosa Dona Germana. Andávamos o dia inteiro atrás das casas ou carros que distribuíam doces e, ao final, fazíamos a contabilidade dos saquinhos auferidos na expedição.

Naquela época (década de 80) a média era em torno de trinta a trinta e cinco saquinhos conseguidos a cada ano. Era bala para uns vinte, trinta dias de consumo.

Haviam também as pessoas que efetuavam a distribuição antecipada de cartões para a festa do dia 27. Normalmente, estes saquinhos de balas e doces eram os de melhor qualidade, mas somente aqueles que possuíam os cartões é que tinham direito a um exemplar.

Porque também tinha isso.

Eu costumava apartar quando chegava em casa os saquinhos de doces "bons" e os "mais ou menos", dentro da qualidade que eu percebia. Quando tinha "Batom" ou pastilha de hortelã da Garoto (aquela embalagem verdinha) era uma festa. Chocolate de boa qualidade, então, era uma bênção.

Hoje, infelizmente, esta tradição caiu muito: resiste apenas no subúrbio, mas muito menos que há 20, 30 anos atrás. Nos demais locais da cidade praticamente desapareceu. Acredito que devido a dois fatores: ao crescimento das igrejas pentecostais evangélicas e à crescente sensação de insegurança da cidade - não necessariamente real, mas esta é outra história.

O segundo fator é auto-explicativo.

Sobre o primeiro, vale uma nota.

Como disse no início deste texto, esta distribuição de doces é feita basicamente por fiéis de duas religiões: a Católica, obviamente - muitos fiéis entregam balas e bombons em pagamento de promessas aos santos - e os adeptos de religiões afro-brasileiras, em particular a Umbanda.

O crescimento das seitas neo-pentecostais, que acreditam que esta distribuição de doces "é coisa do Capeta", diminuiu tanto o número de pessoas que correm atrás nas ruas quanto o de gente que faz a distribuição.

O avanço destas denominações pentecostais e neo pentecostais sobre a sociedade carioca não somente diminuiu o número daqueles que ofereciam os doces de "Cosme e Damião" como também efetuou influência bastante perceptível na quantidade de crianças que saem dia 27 de setembro "correndo atrás de doces". É um caso evidente de como estas alterações no mapa religioso carioca estão alterando e até suprimindo manifestações culturais do Rio de Janeiro.

Uma pena, porque é muito mais uma tradição carioca, em especial do subúrbio, que infelizmente está se perdendo e, se não for resgatada, tende a se extinguir ou se tornar "gueto" no mais tardar em uma ou duas gerações. Por outro lado, este é um exemplo clássico de sectarismo religioso - e isso não é bom.

A cultura brasileira tem como marca o sincretismo desde a formação do país e a postura excludente dos dirigentes, teólogos e adeptos destas seitas acaba causando uma transformação na sociedade com o sentido de homogeneizá-la de forma compulsória. E perda de cultura e de tradições culturais - pois mais que religiosa, é uma tradição cultural antes - nunca pode ser considerada salutar, ainda mais em nome de um duvidoso sectarismo.

E em dias como hoje é que sinto saudades dos meus tempos de criança...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Guia Alimentar para Reacionários


Nas últimas duas semanas os posts sobre política deste blog – que, alias, foram poucos, ando com sérias dificuldades de tempo – foram invadidos por leitores reacionários com pouca vocação democrática e especialmente sem primar pela elegância ao escrever.

Entre elogios à minha mãe e sugestões de políticas públicas fascistas, vários deles sugeriram que eu deveria escrever sobre capim, por ser este meu alimento.

Atendendo à sugestão, descrevo abaixo os principais tipos de forragens e suas indicações. Acho que os leitores irão gostar de ver as melhores indicações alimentares para cada espécie...

O primeiro tipo é o croast cross, de origem americana. Muito apropriado a eqüinos e adequado aos que defendem a aliança incondicional aos Estados Unidos como solução de todos os nossos problemas, ainda que isso signifique a venda de empresas como a Petrobras e o fechamento de muitas de nossas indústrias. Gostariam de ter um busto de Roberto Campos em seu apartamento. Também defendem a propriedade privada e a remoção de todos os direitos trabalhistas, afinal de contas, o mercado é perfeito.

Então temos um tipo muito comum: o capim colonial. Originário da África, é adequado àqueles que se sentem parte de uma casta superior e defendem a queima de favelas com os pobres dentro. Afinal de contas, apesar de negarem e se sentirem superiores, todos temos uma raiz africana – e negra.

O terceiro tipo é o centauro, apropriado aos reacionários que defendem “a moral e os bons costumes” – mas que nas sombras noturnas freqüentam lupanares sem qualquer tipo de peso na consciência. Castidade é para os outros – e a hipocrisia, para si. É um exemplar muito apreciado por certas seitas religiosas, mas não somente estas.

Passemos então ao centenário, com nome científico “panicum maximum”. Indicado para os que temem a “descida do morro” e defendem aquela cantilena policialesca de que “bandido bom é bandido morto” – com seu corolário: “pobre bom é pobre morto.” Este capim cresce bem em áreas quentes como favelas e milícias.

O capim gordura não resiste muito bem a pisoteios. Então é indicado a aqueles que tratam seus cachorros como se crianças fossem, mas espantam crianças carentes como se cachorros magros sejam. É espécie delicada e extremamente afetada, embora fale grosso – especialmente contra aqueles que não podem se defender.

Capim de Rhodes é uma espécie em homenagem à força e à beleza gregas, expressada por playboys que não hesitam em espancar aqueles que se colocam em seus caminhos. Muitos se assumem como defensores de uma ‘raça pura’ – mas não hesitam em manter relações sexuais com mulatas e negras.

O quiocuio da Amazônia é espécime mais rústica e que resiste bem a terrenos erodidos e a pisoteio. Sua principal característica é sair desfraldando ofensas de todo tipo àqueles que professam idéias diferentes, com o intuito de impor à força seus pensamentos. Com pimenta, então, fica uma delícia.

O napier possui grande valor nutritivo e chega a alcançar cinco metros de altura. Presta-se bem à alimentação de pseudo-intelectuais que desfilam uma falsa erudição de pouquíssimo resultado prático. Adoram títulos de “Doutor Honoris Causa” e se vestir com grossas camadas de cipós. De cada 100 palavras que proferem, entendem-se duas – normalmente defendendo a importância e a necessidade etimológica da pobreza na civilização brasileira.

Já o andropógon vem também da África e tem como seu nome científico o “A.gayamus”. Este capim é indicado para a alimentação daqueles sujeitos que defendem a homofobia e a violência contra homossexuais, especialmente quando aproveitam todas as oportunidades de manter tal tipo de relacionamento às escondidas.

Finalizando o cardápio para reacionários, a braquiária também vem da África e se torna adequada àqueles que defendem a segregação das pessoas por faixa de renda e a definição do direito de voto da mesma forma, além de proibir a venda de carros para pessoas “inferiores” e construir um muro confinando as pessoas que não “são de bem”. São os mesmos seres que maldizem a Princesa Isabel até os dias de hoje, além de ler a Veja, exigir a derrubada da Presidenta Dilma, o fim do “Bolsa Esmola” e votar em José Serra.

Bom, espero que os leitores reacionários deste blog gostem das dicas e possam compor um cardápio bastante verdinho e nutritivo.

Quanto aos leitores tradicionais, aproveito para reafirmar o compromisso com a democracia, com a diversidade de opiniões e com o espírito de total tolerância. São valores intrínsecos deste espaço.

Infelizmente, está cada vez mais difícil de se manter um diálogo político em termos aceitáveis, haja vista a intolerância que grassa não somente nos espaços virtuais como no “locus” real. O importante não é mais trocar idéias e aprender, mas sim gritar mais alto até calar as vozes dissonantes.

Obviamente, o comportamento incendiário de parte da mídia contribui muito para isso, embora a meu juízo seja injusto creditar a ela sozinha a responsabilidade por este crescimento da intolerância. Quando “jornalistas” em grandes portais pregam abertamente a interrupção da democracia no país, isto somente serve para acirrar os ânimos.

Fica aqui o meu apelo por mais tolerância e mais compaixão.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Bissexta - "Cinema é a maior diversão"


Nesta segunda, de volta após um período de recesso, a coluna “Bissexta”, assinada pelo advogado Walter Monteiro, fala sobre a resistência dos cinemas às novas formas de entretenimento.

Confesso que pessoalmente estas novas formas de diversão me afastaram dos cinemas. Nos últimos seis ou sete anos, excluindo-se filmes infantis fui uma única vez ao cinema. Mas sou exceção.

Cinema é a maior diversão

Eu estava ali, na transição da infância para a adolescência, quando o videocassete surgiu no Brasil. A loja mais perto da minha casa exigia uns 15 minutos de caminhada e era muito caro pegar um filme lá. Não era uma locadora, era o que se chamava na época de “vídeo-clube”, porque para pegar filmes era preciso ser sócio. E o requisito básico da admissão era doar dois filmes para o empreendimento (ou, claro, pagar o seu equivalente em dinheiro).

Era muito dinheiro, ao menos parecia ser para um moleque de 13 anos. O que, aliás, não fazia muita diferença mesmo, porque lá em casa não tinha videocassete.

A gente morava na maior casa da rua, havia três carros na garagem, meus amigos juravam que minha família era rica, mas o fato é que não tinha videocassete. Só quem tinha era o vizinho de porta, que além de videocassete, tinha motorista particular. Quando a filha dele nos convidava para ver um filme lá, a molecada se sentia nas nuvens vivendo uma experiência inédita.

Foi ali que todo mundo passou a vaticinar o fim do cinema. Cinema seria coisa do passado, da geração dos nossos pais. A gente ia ao Cinema América, na Praça Saens Peña, comprava um saquinho de pipoca na carrocinha, um Mentex no baleiro e passava as tardes das nossas férias de verão assistindo ET, Indiana Jones, Blade Runner, com direito ao Canal 100 e os gols de Zico antes do filme começar.

[N.do.E.: saudades do Canal 100. E de Zico também.]

Mas a gente sabia que era uma questão de tempo, que em breve a gente não ia mais precisar passar as tardes no cinema, logo cada um ia ter um videocassete na sua casa e pronto.

E por um tempo eu achei que as previsões iriam mesmo se confirmar. O assunto predileto da imprensa cultural nos anos 80 era noticiar o fechamento das salas de cinema. O Rian virou a Help, o Carioca virou Igreja Universal, o Imperator virou uma casa de shows, o Rio virou uma agência bancária.

Sei lá como, mas os cinemas resistiram. Os shoppings centers começaram a se espalhar e cada um deles tinha suas salas de cinema. Veio o Estação Botafogo, para emprestar um selo de qualidade aos seus freqüentadores, como membros de uma raça privilegiada diante dos infelizes que insistiam em se divertir com filmes hollywoodianos. Veio o Festival de Cinema do Rio. Virei adulto, me formei e nunca deixei de ir ao cinema.

Nessa época, na minha casa já tinham três videocassetes: um na sala, um no meu quarto, outro no quarto da minha irmã.

Logo depois veio a TV a Cabo.

Os profetas do apocalipse então passaram a preconizar dois falecimentos de uma só vez: do cinema e das locadoras de vídeo. No próximo movimento, home-theaters e os DVDs. Parecia um golpe definitivo: ora, se a qualidade de som é espetacular, a qualidade de imagem idem, por que raios alguém sairá de casa para ir a uma sala escura assistir filmes com estranhos?

Talvez pelo tamanho da tela. Então, que tal fazer televisões imensas? Aquela tvzona de 29 polegadas e que pesava uma barbaridade precisava ser aposentada.

Vamos fazer TVs de 40, 42, 50 polegadas, fininhas, que combinem com a decoração da casa. E vamos, melhor ainda, tornar a experiência de imagem algo muito impactante, com transmissão em HD, discos Blu-Ray e até mesmo TVs com recursos 3D.

Ah, e de quebra, vamos tornar o acesso aos filmes algo banal, à distância de um clique, através de downloads legais ou ilegais, torrents e tudo o mais. Diante desse arsenal de diversão ao redor do sofá, somada à onda de insegurança das metrópoles, é líquido e certo que as pessoas ficarão muito mais em casa e não perderão tempo de ir ao cinema. Chegamos, enfim, na segunda década do terceiro milênio inteiramente saciados de home enterteinament.

São mais de 30 anos de previsão do fim do cinema e suas salas escuras. A cada nova tecnologia, a desesperança se renova. E ninguém dá o braço a torcer. Admitam, ranzinzas, vocês perderam: O CINEMA NÃO VAI ACABAR NUNCA!

De forma paradoxal, mesmo diante de tanta tecnologia de exibição doméstica, o público do cinema cresce de forma constante. Aliás, o maior crescimento ocorreu justamente nos últimos anos, quando se previa exatamente o contrário.

Vejam o gráfico:


E cinema, que era algo barato, já não é tão mais. Os preços cresceram muito. Mesmo assim, 140 milhões de brasileiros saíram de suas casas em 2011 para assistir um filme.

Quem entende do riscado explica o fenômeno a partir da melhoria das condições oferecidas aos usuários. As salas de cinema são confortáveis, as opções de lanche são bem mais diversificadas, os espectadores são bem tratados.

O que não deixa de ser uma bela lição para os cartolas do futebol: quem sabe seja possível cobrar mais e duplicar a frequência aos estádios quando o torcedor passar a ser tratado com a dignidade que merece?

Enquanto esse dia não chega, todos ao Cinemark!


domingo, 23 de setembro de 2012

Orun Ayé - "O fracasso nosso de cada dia"


Neste domingo, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, parte de uma situação pessoal para algumas digressões sobre sucesso e fracasso. Vale a pena ler.

O fracasso nosso de cada dia

Ninguém gosta de se dizer fracassado.

Todos nós gostamos de passar uma imagem vitoriosa. Pessoas felizes, com estabilidade familiar, financeira, elogiadas e respeitadas em suas profissões e que não tem prisão de ventre.

Mas a vida não é bem assim...

... A verdade é que se tivermos uma posição bem crítica da vida vamos nos frustrar muito. A gente sempre renega o lado ruim, os fracassos, os defeitos. Não queremos passar uma imagem ruim e nem aceitar que temos falhas. Quando eu vejo o programa da Marília Gabriela no SBT e ela parte para o “bate bola” a última pergunta sempre é “fulano por fulano”. Ou seja, o entrevistado tem de falar como se vê.

Em 99% das vezes o entrevistado só passa elogios, coisas boas deles e a Gabi invariavelmente é forçada a perguntar: “e o lado ruim?”. A maioria ainda consegue desviar mesmo com essa pergunta. Muitas vezes responde “sincera demais” e como sabemos que sinceridade a princípio é uma virtude, na verdade ela quer dizer: “eu to certa, mas o mundo não aceita”.

O pior exercício que existe é mergulhar dentro da própria alma, admitir nossos defeitos e, principalmente, admitir nossos fracassos.

E acredite, leitor: somos movidos a fracassos, todos os dias fracassamos e temos muito mais fracassos na vida que sucesso.

Essa afirmação é polêmica, né?

Assusta, parece amarga, mas é verdade e acho sinceramente que admitir que somos seres fracassados nos faz chegar com mais facilidade à vitória.

Sim, parece incoerente, mas vou explicar.

Evidente que pode haver uma discussão. Como assim somos todos fracassados? Como podemos falar isso, por exemplo, de gente como Eike Batista, o homem mais rico do Brasil ou Mark Zuckerberg, criador do Facebook e o bilionário mais jovem do mundo?   

Pois o Eike foi notícia outro dia por perder uma grande quantia de dinheiro. Além de anos atrás ter sido traído pela sua então esposa Luma de Oliveira com um bombeiro. Zuckerberg colocou o Facebook na bolsa e esse perdeu 40% do valor desde então.

Até eles erram, até eles fracassam.

Quando você acorda e planeja seu dia sai tudo como imaginou? Você consegue ser vitorioso em tudo na sua vida? Tem nada nela que não vá como você queria? Você é hoje aquilo que imaginou quando criança?

Jesus Cristo espalhou o bem, mensagem de paz, operou milagres, foi o filho do Senhor e preterido por Barrabás por aquele povo que ajudou morreu na cruz perguntando “Pai, por que me abandonaste?”

Naquele momento até ele fracassou. O sucesso veio com a propagação de sua palavra através do tempo.

E a forma que essa palavra vem sendo usada hoje em dia, a forma como vem sendo deturpada mostra que infelizmente o ser humano não entendeu tudo o que ele quis passar. Assim, o sucesso não é completo.

Se nem Ele, o maior de todos os tempos conseguiu até hoje que as pessoas entendam que morreu por elas e não existe diferença entre os seres humanos, somos todos irmãos, radicalizando: se as religiões fracassaram porque temos que ser vitoriosos?

Na virada de ano prometemos um monte de coisa. Ganhar dinheiro, emagrecer, começar novo relacionamento, aquela viagem sempre adiada, ser mais amigo das pessoas e nem sempre isso dá certo. Muitas vezes felizes no amor e desanimados com a profissão, outras tendo o trabalho dos sonhos e ninguém em casa pra dividir essa alegria.

Todos nós fracassamos e muito, sem exceção, o vitorioso é aquele que admite que é falível, nem sempre vai alcançar seus objetivos, tem muitas falhas como ser humano e em cima dessas falhas ele trabalha pra atenuá-las.

Sabe que nunca vai acabar com as falhas e os fracassos, mas pode, trabalhando em cima deles e de seu lado bom, propagar mais, deixar mais frequentes seus momentos vitoriosos. O vitorioso consegue aos nossos olhos mostrar tanta força, poder, auto-estima (principalmente) que a gente acaba deixando seus fracassos de lado.

Eu acho que é por aí. A diferença está na auto-estima.

Enquanto para alguns os fracassos abalam e derrubam tudo, para outros vale uma gota de lágrima, uma passada de mão para limpar a roupa na queda, levantar e com cabeça erguida lutar para um novo fracasso ou sucesso.

E por que essa coluna justo agora? Resolvi mergulhar no mundo da auto-ajuda? Nada disso.

É porque eu venho de um grande fracasso e não tenho medo de admitir isso.

Já perdi sambas piores, que doeram mais. Vão me perguntar, essa foi a pior derrota de samba da sua vida? Não, longe disso.

Contudo, se perguntarem se foi meu maior fracasso nesses quinze anos de samba-enredo respondo, sem dúvidas, que sim. Foi.

Sábado passado fomos eliminados da disputa de samba da União da Ilha com oito sambas no concurso ainda. Não caía tão cedo na escola desde 2001. Aliás, não caímos propriamente, nos deram a opção de chegar à final do concurso ou cair. Preferimos cair.

[N.do.E.: em situações como esta é melhor “cair” antes sabendo que não se sagrará vencedor, dados os custos envolvidos]

Isso dá orgulho? É atenuante?

Não.

Porque a partir do momento que entre oito sambas, tendo na disputa sambas nitidamente inferiores ao seu, lhe dão essa opção é porque o projeto fracassou.

O projeto de quem venceu no ano anterior foi uma sucessão de erros - desde antes da entrega da sinopse - e acabou dessa forma melancólica. Para um atual campeão acabar uma disputa dessa forma é que foi tudo errado mesmo. Um grande fracasso.

E por que fracassou?

Fracassou porque não utilizou a principal norma para algo não dar errado: “se você quer agradar a todos, aí que dá errado”. Tentamos desde o começo o agrado de todos. Desde a montagem da parceria onde aconteceram situações traumáticas e irreversíveis, passando para o samba onde deixamos de colocar aquilo que acreditávamos pra agradar outras pessoas.

E justo ai, nessa parte, que o samba perdeu.

Existe política em samba?

Sim, muita. Sem política em ma disputa de samba-enredo você não passa do primeiro corte. Como é a política de samba na União da Ilha? Uma das mais complicadas que há, muitas vezes a política se sobressai ao samba e a escola sofre no final.

Há então decisões de concursos lá por interesses? Sim. Será assim esse ano? Quase certeza.

A escola tem alguma culpa de nosso fracasso? Nenhuma.

Fracassamos: fomos eliminados por culpa exclusiva nossa. Como eu disse lá no começo o ser humano nunca admite seu lado ruim, seus fracassos e acrescento, nunca admite suas culpas. Sempre que algo dá errado instintivamente joga a culpa nos outros, mas a vida não é assim.

Somos sempre responsáveis por nossos fracassos e se alguém foi responsável por ele foi porque nós permitimos.    

E a maior culpa desse fracasso da União da Ilha é minha, porque desde o começo sabia que estava errado e me omiti. Não quis desagradar aos outros mesmo sabendo que às vezes é necessário, me deixei levar por euforia que era feita de vento e até amizade perdi no começo do processo em busca da perfeição quando ela não existe. Esquecendo que se ela não existe, a proximidade dela é estar cercado de pessoas que você gosta, confia e admira.

O “Maria vai com as outras” sempre é deixado pelas outras em alguma parte do caminho. Esse foi outro lema que esqueci.

Fora isso, ainda tenho uma nova companheira: uma hérnia de disco que dói demais depois de um certo tempo em pé. Essa hérnia me limitou muito esse ano e me deixava irritado, frustrado por não fazer tudo o que eu queria. Como no palco, quando todos se divertiam e eu ficava quase parado. Descia aborrecido: essa disputa em nenhum momento me deu prazer.

E não ter prazer numa disputa em escola grande que se disputa bicampeonato, aonde você vem de um ano de grande sucesso profissional e financeiro que acaba com uma reunião para se decidir cair da disputa, “abortar um filho”, é frustrante demais, não tem outra palavra pra definir.

Fracasso.
  
Estou sendo cruel comigo escrevendo essas coisas? Acho que não, porque como escrevi acima o primeiro passo para o sucesso é reconhecer o fracasso e não deixar mais que aconteça aquele. Vou fracassar mais vezes? Sem dúvidas, mas quero fracassos novos, repetir fracassos já não é ser fracassado: é ser burro.

E burro eu não sou...

... Nem me deixo levar por fracassos. Eles são o primeiro passo para minha vitória e eu sou um cara vitorioso no samba porque meus fracassos me fizeram assim.

De um fracasso na União da Ilha em 2001 veio o samba do Boi que foi minha primeira vitória e ganhou o Estandarte de Ouro. Do fracasso com o “samba da minha vida” na final do Boi em 2008 veio o samba da escola vencedor do S@mbaNet em 2009. De uma inédita queda na semifinal do Boi em 2010 veio a parceria vitoriosa da União da Ilha no biênio 2011/2012, com duas finais e uma vitória.

Então é certo que desse fracasso virá algo muito bom.

Pare pra refletir sua vida, caro leitor. Admita seus fracassos, que nada é capaz de evitar que você falhe, que você tem limitações e verá como sua vida vai mudar.

Faça por você antes que o fracasso faça.

A vitória virá.