sábado, 31 de março de 2012

Final de Semana - "My Way"


Neste sábado, depois de uma semana duríssima em todos os sentidos, temos novamente a música de Frank Sinatra, com aquela que talvez seja sua canção mais famosa: "My Way".

No vídeo temos uma tradução aproximada, e abaixo coloco a letra original. É uma canção que tem um pouco a ver com o momento atual que estou passando.

Vamos à letra, na interpretação do gênio.

And now the end is near
And so I face the final curtain
My friend, I'll say it clear
I'll state my case of which I'm certain

I've lived a life that's full
I traveled each and every highway
And more, much more than this
I did it my way

Regrets, I've had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption

I've planned each charted course
Each careful step along the byway
And more, much more than this
I did it my way

Yes there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out

I faced it all and I stood tall
And did it my way

I've loved, I've laughed and cried
I've had my fill, my share of losing
And now as tears subside
I find it all so amusing

To think I did all that
And may I say, not in a shy way
Oh no, oh no, not me
I did it my way

For what is a man, what has he got?
If not himself, than he has naugth
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels

The record shows, I took the blows
And did it my way

sexta-feira, 30 de março de 2012

As fraturas do modelo das UPPs cariocas


Esta semana houve dois episódios que deixaram claro ao grande público que o projeto das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), vendido pelo Governo Estadual do Rio de Janeiro como a solução dos problemas de segurança pública, possui pelo menos algumas fraturas sérias.

O primeiro foi na segunda feira e envolveu o assassinato pelas costas do presidente de uma das associações de moradores da Rocinha. De acordo com investigações policiais ele seria um dos "braços direitos" do traficante Nem, ex-líder do tráfico no morro e que está preso. Também de acordo com as investigações ele foi morto por traficantes rivais, que disputam o comando do tráfico no morro com remanescentes da quadrilha do traficante encarcerado. 

Segundo afirmações públicas de alguns policiais, a morte do "líder comunitário" foi apenas o início de uma nova guerra pelo controle da venda de drogas naquela região.

O segundo ocorreu anteontem a tarde mas veio à tona na edição do jornal Extra de ontem: traficantes armados invadiram a sede da Mangueira e inviabilizaram o processo de inscrição das chapas para a eleição da escola, que se realizaria no próximo dia 28 de abril. Mais ainda: anunciaram que não haveria a eleição e que entronizariam seu candidato no cargo. De acordo com o atual presidente Ivo Meirelles em entrevista ao RJ TV, os livros de atas de eleições foram roubados e o barracão da escola na Cidade do Samba estaria vazio.

Leitor mais atento deve estar se perguntando: mas a afirmação geral não é de que as UPPs "pacificaram" as comunidades?

Pois é. Basta se prestar um pouco mais de atenção ao noticiário para se perceber que há alguma coisa que não funciona exatamente como o marketing do governo e os aplausos de setores conservadores da imprensa apregoam.

A sensação, confirmada por informações aqui e ali, é que na verdade a "retomada" do território basicamente significa impedir que os traficantes portem armas ostensivamente e que haja assaltos nas ruas dos entornos das comunidades - como se fala aqui, "no asfalto". A ocupação policial ostensiva teve este poder dissuasor, embora particularmente eu nunca tenha entendido o porquê das instalações das UPPs serem previamente anunciadas.

O problema, entretanto, é que como afirmei outras vezes a UPP não está muito além disso: ocupação ostensiva a fim de propiciar uma sensação de segurança à população. Também não ataca outro problema sério, que é o da ocupação pelas milícias de extensos territórios na cidade do Rio de Janeiro - e quem leu os livros que deram origem aos dois filmes "Tropa de Elite" ou ainda assistiu ao segundo filme da série sabe que este é um problema ainda maior que o tráfico. Reconheço que houve alguns avanços importantes no combate às milícias, contudo são iniciativas a meu ver bastante tímidas ainda.

Vale lembrar também que dado o efetivo requerido por este tipo de ocupação a formação dos novos soldados da Polícia Militar está sendo acelerada e estes recrutas recém formados estão saindo da formação diretamente para integrar o efetivo destas UPPs. Ou seja, são policiais com zero de experiência.

A meu juízo a política das UPPs é uma estratégia insustentável a longo prazo. Entretanto, sem dúvida alguma tal instituição se converteu em um manancial precioso de votos nas últimas eleições para o governador reeleito Sérgio Cabral. A sensação de segurança percebida tanto pelos moradores de favelas quanto especialmente pelos formadores de opinião levou à formação de uma massa crítica de apoio à continuidade do projeto.

Por outro lado, sem a intervenção do Estado através de outros instrumentos de política pública a tendência era de que no médio e longo prazo houvesse um esgarçamento desta estrutura e a volta à uma realidade anterior. Entretanto, o que se depreende destes fatos mencionados e de outras situações recentes - como o escândalo de corrupção na UPP do São Carlos, que resultou recentemente na prisão do ex-Comandante da unidade - é que está havendo uma espécie de "acomodação" entre os interesses da Polícia e das práticas criminosas nestas comunidades: mantém-se a aparência de tranquilidade e a sensação de segurança nas comunidades e no entorno e o tráfico de drogas continua de forma mais discreta como contrapartida.

Este tipo de "acomodação", a meu ver, vem exatamente do fato de a ocupação policial ter se tornado um fim em si mesma. Não sou especialista em segurança pública mas me parece claro que qualquer ocupação territorial não pode ser mantida de forma infinita apenas pela polícia, sob pena de retornarem práticas criminosas - e a própria corrupção policial. À ocupação policial deveriam ter se seguido políticas públicas de inclusão efetiva destas comunidades a fim de confirmar a manutenção deste território retomado nas mãos do Estado.

Entretanto, o que se percebe é que as iniciativas neste sentido, embora existentes, são ainda bastante preliminares. A ocupação policial se tornou um fim em si mesma, e não um meio para confirmar a retomada de espaços pelo Estado antes transformados em feudos de criminosos. Com isso começam a aparecer evidentes fraturas neste modelo, e estes dois casos desta semana são emblemáticos neste aspecto.

Urge a meu ver uma desmilitarização da ocupação, com a presença estatal através de serviços básicos e da presença de seus representantes em áreas como educação e saúde. Contudo, desconfio que este modelo será mantido da maneira em que está até a Copa do Mundo e em especial os Jogos Olímpicos, de forma a proporcionar uma sensação de segurança que, embora real, não se sustenta a longo prazo.

Finalizo este post com um comentário: nem sempre quem parece 'mocinho' é realmente 'mocinho'. Fica a dica.

(Foto: Extra)

quinta-feira, 29 de março de 2012

Um passeio pelo sistema de saúde brasileiro 'in loco'


Estou para escrever sobre este fato desde o início da semana, mas a vida está bem corrida nos últimos dias.

No último sábado contratamos os serviços de um eletricista para fazer dois pequenos reparos no apartamento em que moro. Nada muito complicado mas além da minha total inaptidão para serviços domésticos - costumo dizer que se dependesse da minha habilidade manual para sobreviver já teria morrido de fome há muito tempo.

Já no finalzinho do serviço a escada cedeu e o eletricista desabou junto com a mesma, batendo o braço no chão e aparentemente sofrendo uma luxação ou uma fratura, necessitando, portanto, de atendimento médico. E se iniciava a nossa via crúcis atrás de um ortopedista.

Somente na Ilha do Governador rodamos clínicas particulares e hospitais públicos. Na Santa Maria Madalena, clínica particular, foi nos informado que o único ortopedista estava em uma cirurgia e não havia previsão de atendimento. Fomos a outra clínica particular, especializada, e o quadro era o mesmo.

Rumamos para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) pública do Cocotá, ainda na Ilha. Nem entramos: foi nos dito que não havia ortopedista em final de semana e que nem adiantava ir ao Paulino Werneck - o hospital de emergência do bairro - que também não tinha. Alertado por um outro paciente rumamos para o Hospital de Saracuruna, onde teria ortopedista - e que não fica nada perto de onde estávamos.

Chegando lá, vimos que a informação era errada: também não encontramos profissional disponível. O funcionário responsável pela triagem recomendou que fôssemos ao hospital Moacyr Rodrigues do Carmo, público e que pertence ao município de Caxias, que lá encontraríamos o especialista necessário ao atendimento.

Pega o carro e se retorna até o hospital citado (acima), que fica na Rodovia Washington Luis, bem no início e é administrado pela prefeitura do município. Curiosamente, exatamente ao lado do parque gráfico do jornal O Globo. Nisso já haviam transcorrido mais de duas horas do acidente e eu já havia rodado uns 60 quilômetros entre idas e vindas.

Realmente a indicação de Saracuruna revelou-se correta: o hospital dispunha de ortopedista. Apesar de não se permitir que acompanhantes entrem no espaço da emergência, o atendimento foi até razoavelmente rápido: uns 10 minutos depois de nossa chegada ele já passou pela triagem e foi indicado ao especialista, que o examinou e imediatamente o encaminhou ao raio-x. Este processo todo deve ter levado pouco mais de uma hora, quando se teve o diagnóstico: fraturas no braço, no punho e um dos dedos - o que me surpreendeu dado que tinha sido uma queda até "boba".

A indicação original era cirúrgica mas, no momento em que escrevo, esta não seria necessária. Ainda assim ainda no sábado ele fez os exames do chamado "risco cirúrgico" e teve o braço imobilizado. Na medida do possível, ele está bem.

Um fato curioso é que, ao que parece, o hospital é referência de maternidade na região. Poucas vezes vi tantas grávidas em tão pouco tempo, 80% delas ainda adolescentes. A ponto de ver mãe e filha ambas grávidas (a menina, com muito boa vontade, devia ter uns 13 anos) e um casal com as três filhas grávidas, duas em trabalho de parto - neste caso todas já adultas. Parece claro que precisa haver massificação maior de métodos anticoncepcionais a fim de diminuir os índices de gravidez na adolescência.

No sábado em que estive lá estavam chegando cadeiras para substituir as disponíveis aos pacientes na área de emergência e para os acompanhantes do lado de fora. Apesar deste inconveniente de não se poder acompanhar o atendimento, fiquei bem impressionado com o processo: não foi muito diferente de um hospital particular, com todos os exames feitos na mesma tarde e o encaminhamento para retomar na segunda feira a solução do caso.

Aliás, pelo menos a percepção que tenho é de que em termos de emergência a diferença entre hospitais públicos e privados me parece bem pequena: além desta experiência, em outros casos em que precisei de atendimento para minha filhas na rede privada não vi muita diferença em termos de tempo necessário para se encaminhar uma solução ou ainda exames requeridos. Não sei se a realidade mas minha percepção, pelo menos, é essa.

Outro ponto é a dificuldade de se encontrar ortopedistas para atendimento emergencial aos finais de semana: como o leitor pode ver apenas no sexto local procurado conseguiu-se encontrar este especialista. Não sei se há falta generalizada deste tipo de profissional, embora a experiência que tenha em termos de consultas - tenho problema crônico nos joelhos - indique que sim. Novamente não vi vantagem na rede particular ou na privada - me parece que a vantagem desta última está na sequência do tratamento, não na presteza do atendimento inicial.

E o hospital caxiense me surpreendeu de forma favorável, sendo uma opção razoável até para moradores de bairros próximos do Rio de Janeiro. Sou crítico do prefeito da cidade, José Camilo Zito, mas não vi a situação de abandono a que muitas vezes a imprensa se refere.

Retornei para casa por volta de 17 horas, com o caso encaminhado. Um susto grande e a experiência de comprovar na prática a quantas anda a saúde no Rio de Janeiro e em sua região metropolitana. A meu ver não está nem tão bem quanto a população merece, nem tão ruim de acordo com relatos catastrofistas de certos órgãos de imprensa e de analistas.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Bissexta - "Torcidas Organizadas - Enfrentar o Monstro com as Armas Certas"


O leitor deve estar estranhando o fato de haver duas colunas "Bissextas" com um intervalo tão curto de tempo. Mas tendo em vista o tema e a autoridade do colunista Walter Monteiro no assunto, temos duas edições em 48 horas. O colunista elenca uma série de sugestões para diminuir a violência nos estádios e os episódios de brigas como o ocorrido no último domingo.

Ao texto - com o qual concordo - acrescentaria apenas que deveria haver algum tipo de investigação sobre os dirigentes e sua relação com os líderes destas organizadas. Há casos de líderes com "escritórios" na ante sala de Presidentes de clubes, o que me parece, no mínimo, de uma promiscuidade assustadora.

Passemos ao post.

Torcidas Organizadas - Enfrentar o Monstro com as Armas Certas

Cada vez que um conflito entre torcidas organizadas ganha uma proporção a ponto de chamar atenção da grande imprensa surgem “especialistas” de todas as estirpes prontos para dar as mais diversas soluções para estancar para sempre o hooliganismo e “trazer de volta as famílias aos estádios”.

Soluções, quase sempre, estúpidas.

Não sou especialista em nada (exceto, quem sabe, em falar mal dos Oficiais de Justiça), mas ao contrário de todos esses palpiteiros, tenho uma longa trajetória nas arquibancadas – e bota longa nisso. São décadas de convívio com líderes de torcida organizada, desde aqueles que hoje são quarentões como eu até a geração mais nova.

Talvez – insisto, talvez – esse tempinho perdido no duro cimento do Maracanã (e há cinco anos no Beira-Rio/Olímpico) me dê mais chances de falar sobre o tema do que esse povo das redações e dos gabinetes das autoridades.

Assim, orgulhosamente proponho:

1) Liberar a venda de cerveja nos estádios

O objetivo declarado por 11 entre 10 especialistas não é “trazer de volta as famílias”?

Então tudo o que associa futebol à violência deve ser abolido, sob pena de se passar uma mensagem contraditória. Vende cerveja no cinema, vende cerveja no Carnaval, vende cerveja na praia, vende cerveja na festa junina da igreja e do jardim de infância. Por acaso alguém briga nesses lugares por conta da cerveja? Ou, por acaso a estúpida proibição de venda de cerveja impediu os hooligans de se enfrentarem?

Se jogo de futebol é algo lúdico, proibir a venda de cerveja não faz o menor sentido;

2) Acabar com a limitação à torcida visitante

Outra idiotice que só fez afastar os homens de bem das canchas foi essa maluquice de limitar o espaço da torcida visitante a 5% do total do público.

Imagine um Palmeiras x Corinthians com 40 mil ingressos à disposição, com mando de campo palmeirense. Serão apenas dois mil corintianos no estádio. Não precisa ser gênio para deduzir que espécie de corintiano se sujeita a esse grau de exposição. Mas nada é tão ruim que não possa piorar – e está aí o jogo de uma torcida só para confirmar a regra.

Pois transformar um clássico em um jogo de torcida única é confinar a torcida adversária em seus locais de reunião (bares, sedes e sub-sedes das organizadas), prontas para arquitetar emboscadas bem mais elaboradas, longe do controle das polícias;

3) Compreender que as brigas pouco tem a ver com paixão clubística

Um conhecido meu foi preso recentemente em Porto Alegre e agora cumpre uma etapa no Presídio Central. Ele era o líder da maior torcida do Internacional. Seu crime? Bom, dentre outros, esfaqueou em pleno Beira-Rio inimigos seus que fundaram uma dissidência da torcida.

Além do Inter, só nos últimos três anos houve brigas entre torcidas do Flamengo, Fluminense, Botafogo, Grêmio, Palmeiras, São Paulo, Corinthians – e aqui só cito as que me lembro de cabeça. Mas nada supera o que houve (ou ainda há) no Vasco. A maior torcida do clube rachou ao meio e os dois grupos desde 2006 se enfrentam ferozmente, a ponto de ser comum a PM montar cordão de isolamento dentro da própria torcida.

4) Proibir subsídios às torcidas brigonas

Torcida organizada, se é que alguém ainda duvida disso, custa dinheiro, bastante dinheiro.

É preciso fazer muitas bandeiras (ao custo de uns R$ 400,00 cada uma), faixas, comprar instrumentos, custear inúmeras viagens pelo Brasil ou até pelo exterior e, sobretudo, sustentar os dirigentes da torcida que se dedicam exclusivamente a ela - prática que, antecipo, não condeno e até considero correta, porque dá trabalho cuidar da torcida.

E como a torcida se sustenta? É fácil responder: o monstro se alimenta de ingressos gratuitos, venda de camisas e demais souvenirs e incentivos para organização de caravanas, entre outros. Em todos esses itens (e mais especialmente na questão dos ingressos), os clubes apóiam suas principais torcidas.

Alguns clubes são mais generosos, outros menos (o Flamengo, garanto, joga nesse segundo grupo), mas de um modo ou de outro TODOS os clubes brasileiros subsidiam os brigões. Portanto, um bom caminho é um pacto do bem entre os clubes, se comprometendo, todos eles, a cortarem as fontes de financiamento dessas organizações – e o dirigente que descumprir que seja processado por associação ao crime;

5) Incentivar as torcidas "de festa"

No jargão típico das torcidas, há uma clara divisão entre elas: as que são “de pista”e as que são “de festa”.

Essas últimas são muito mal vistas nesse mundinho particular, mas a solução para amenizar a violência passa justamente por sua valorização – inclusive porque muitas dessas torcidas acabam precisando se envolver esporadicamente em confusões, nem que seja para se defender.

Algo que nunca consegui compreender é qual o motivo delas receberem bem menos incentivos dos clubes do que as torcidas declaradamente violentas;

6) Punir para Valer

Quem frequenta os estádios está cansado de saber: quem manda na arquibancada é a PM.

Diante de um episódio dessa gravidade, a PM não deveria se limitar apenas a proibir a entrada de bandeiras, instrumentos ou até camisas da Mancha e da Gaviões. Deveria impedir que a aglomeração de seus membros nas arquibancadas, forçando a dispersão dos mesmos.

Em paralelo, medidas adicionais deveriam ser adotadas: fechar todas as sedes das torcidas, proibir a venda de qualquer artigo alusivo às mesmas, obrigar as escolas de samba que usam seus nomes a escolherem outros - sem qualquer vinculação. E, claro, decretar a prisão preventiva de muitos de seus diretores e processá-los por associação criminosa ou coisa que o valha.

Algumas dessas medidas parecem ilegais? Talvez sejam. Mas não custa tentar – tem tanta coisa ilegal colando por aí que pode até vingar.

É provável que eu seja ridicularizado caso algum desses jornalistas e/ou promotores tão inteligentes se dê ao trabalho de ler minhas nada humildes sugestões, porque vou na contramão de tudo o que eles pregam há anos. Mas, convenhamos, nada do que eles estão fazendo vem dando certo, né?

Então, quem sabe, não está na hora de tentar algo diferente?

terça-feira, 27 de março de 2012

O Brasil caminha para uma "Lei Seca" total?


O ponto que vem alcançando maior polêmica no recente debate da Lei Geral da Copa é a questão se será permitida ou não a venda de cerveja nos estádios durante a competição. 

O leitor sabe qual é a minha opinião, que foi tema de post há bastante tempo atrás. Vale lembrar também que é praticamente impossível conseguir se ficar bêbado dentro de um estádio e que entre os países com tradição na prática do ludopédio somente a Argentina tem regras restritivas iguais às nossas.

Na minha opinião e na de diversos especialistas a avaliação é de que esta proibição tem o propósito de "desviar o foco" para o que realmente ocorre: a convivência promíscua de dirigentes e eventualmente políticos com elementos mais radicais de torcidas organizadas, estes sim focos de violência nos estádios. Muitos destes extremistas são financiados por dirigentes de clubes e acabam manchando a imagem não somente da esmagadora maioria dos membors das torcidas como do próprio torcedor comum.

Não vou discutir hoje, entretanto, a questão da venda nos estádios ou a questão das torcidas organizadas. E sim chamar atenção para um fato muito mais grave que esta queda de braço em torno da bebida na Copa está revelando: a tentativa de setores mais conservadores da sociedade, em especial representantes das igrejas evangélicas, de impor algum tipo de "Lei Seca" geral à sociedade a médio prazo.

A questão da cerveja na Copa do Mundo está com dificuldades para ser aprovada devido à união no Congresso das bancadas ruralista e evangélica. Ambas se uniram para impor a aprovação da proibição do álcool, por um lado, e do projeto de reforma do Código Florestal, por outro. Este último em minha avaliação preliminar contemplará interesses nocivos ao bem comum e em especial ao meio ambiente, mas esta é outra história.

Até agora na questão da cerveja tal aliança tem obtido sucesso, tanto que o Governo Federal já pensa em retirar este ítem da Lei Geral da Copa. Contudo, lembro ao leitor que o país quando quis ser sede da Copa assumiu alguns compromissos com a Fifa, e este é um deles. Parece-me um caso claro onde o interesse de alguns está se sobrepondo ao geral.

O leitor deve estar se perguntando: e o que isto tem a ver com uma "Lei Seca" geral? Explico.

Está em tramitação na Assembléia Legislativa de São Paulo projeto de lei (767/2011) de autoria do deputado (evangélico) Campos Machado que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas em espaços públicos ao ar livre, bem como restringe o porte e o transporte de tais produtos ainda que para consumo doméstico. A proposta está pronta para ser votada e, caso aprovada, seguirá para sanção do governador Geraldo Alckmin.

Caso aprovada, a proposta impedirá o consumo de bebidas fora das residências e de recintos fechados, nestes últimos desde que não haja nenhum agente público envolvido. Na prática, quaisquer eventos em que haja o mínimo envolvimento de órgãos ligados à administração pública não poderão ter venda ou consumo. Ou seja, o consumo somente seria permitido em bares e restaurantes, que não podem ter mesas ou cadeiras fora do espaço fechado. Torna-se crime, também, levar o seu isopor com cerveja para consumir na praia ou em parques.

O transporte passaria a ser permitido apenas de forma a não aparecer qualquer indício de que haja bebida alcoólica, também sob tipificação penal. Na prática o projeto de lei impõe uma "Lei Seca" parcial, de acordo com os cânones da doutrina evangélica e pentecostal. Trechos da justificativa do projeto deixam claro isso:

"Entretanto, diferentemente do consumo de cigarros, os quais trazem malefícios para quem  fuma e para quem convive com fumantes, em ambientes fechados, o malefício da bebida alcoólica foge dos limites de problema de saúde para  se tornar um problema comportamental.

O elevado consumo de bebida alcoólica, todos os dias assistimos nos telejornais e na imprensa em geral, gera os mais terríveis acidentes automobilísticos, assim como as barbáries de crimes violentos.  Seus efeitos não são só nocivos para quem os usa. Seus efeitos se tornam uma verdadeira arma letal nos organismos dos jovens.

E é nesse prisma que apresentamos o presente projeto de lei, pretendendo que o Estado (...) dê o exemplo para que os locais de uso público, sob responsabilidade dos Órgãos governamentais, não disponibilize, sob qualquer forma, a bebida alcoólica para seus freqüentadores.  Esta prática, supostamente inocente sem sombra de dúvida, incentiva as pessoas à ingestão do álcool.

Não se pode ser permissivo quando se trata de bebida alcoólica. O limite é zero. Não cabe proibir só determinada graduação etílica."


Este tipo de argumentação é familiar ao leitor, correto? Qualquer um que tenha parentes evangélicos já ouviu perorações nesta linha. Como escrevi em dois artigos ainda nos primórdios deste blog, para os evangélicos pentecostais não basta professar a Fé: é obrigatório impor os costumes aos outros.

Não se pode vir com o pretexto de que "estamos combatendo os excessos": o objetivo puro e simples é impor a sua doutrina. Excessos se combatem com campanhas educativas e restrições à publicidade em determinados horários, não com a proibição total. Note-se que a carga tributária já é extremamente alta justamente para desestimular o consumo.

O leitor sabe que sou adepto e divulgador da cultura cervejeira, ainda se fortalecendo aqui no Brasil. Pois um dos lemas máximos é exatamente "beba menos, beba melhor". Menor quantidade, enfatizando o prazer e não o "ficar bêbado". E a experiência da Lei Seca norte americana no Século XX mostrou que a proibição não acaba com o consumo.

Claramente a minha avaliação é de que este tipo de iniciativa em São Paulo é um "balão de ensaio" para a médio prazo se propor algo a nível nacional. Observe o amigo que as restrições ao transporte de certa forma irão inibir o consumo também nas residências, haja visto que não se conseguirá transportar da forma exigida pela proposição de lei pouco mais que seis long necks ou doze latinhas.

Ressalte-se que, hoje, quem bebe um chope e eventualmente dirige é tratado com um rigor maior que o de um assassino em série. Beber e dirigir é errado? É. Mas a minha avaliação é de que está havendo um claro exagero nesta questão - a lei anterior, de 0,6 decigrama, já era uma das mais rigorosas do mundo.

O estado de São Paulo também tem outro projeto de lei em processo final que determina que bares e restaurantes tenham bafômetros em suas dependências de forma obrigatória. Em um segundo momento a impressão que eu tenho é de que irá se buscar restringir ou proibir a venda e o consumo em bares e restaurantes.

Noves fora a questão do álcool, demonstra uma interferência indevida da religião em um Estado laico. E afirmo isso com muito conforto, pois sou uma pessoa religiosa e acho inadequada quaisquer tentativas de se impor a sua Fé a outros. Contudo, quando há a utilização do aparato de Estado para se tornar hegemônico é algo muito perigoso e de consequências absolutamente imprevisíveis.

Vou retomar a análise posteriormente. Mas a questão primordial deste artigo não é a de defender ou estimular o consumo de bebidas alcoólicas. E sim alertar para esta interferência indevida da religião no Estado e na sociedade. O Estado brasileiro é laico e assim deve permanecer.

P.S. - Vale lembrar que nem Jesus Cristo poderia ser membro de uma Igreja Evangélica Pentecostal hoje aqui no Brasil. Afinal de contas, ele transformou água em vinho...

segunda-feira, 26 de março de 2012

Bissexta - "A Dinastia Branca da América Latina"


Abrindo a semana, a coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro, traz a segunda coluna referente à viagem empreendida pelo colunista a Bogotá. Desta vez, porém, o tema é bem nacional: a falta de negros na advocacia, o que considero uma forma reversa de racismo.

Aliás, não é um privilégio dos causídicos: entre os economistas, classe profissional a que pertenço, o quadro é bastante parecido: negros são expressiva minoria, e mesmo entre os de pele clara a ascendência esmagadora é de origens familiares de alta renda. Meu caso, absolutamente, é uma exceção.

Ainda vou escrever um post sobre isso, mas sou totalmente a favor das cotas nas universidades e em outros locais. Apenas considero que deveria ser primordialmente por renda e, dentro desta, por raça. Contudo, voltarei ao tema quando tiver tempo para fazer a pesquisa que se impõe.

Vamos ao artigo.

A Dinastia Branca da América Latina

Como eu disse aqui na semana passada, passei uns dias em Bogotá, Colômbia. Fui lá para um congresso que acontece de dois em dois anos, uma conferência regional da América Latina de advogados que atuam em Direito Internacional. Esse nem é exatamente o meu caso, mas o congresso é relativamente barato para o que oferece, uma ampla discussão de variados temas jurídicos, com almoços e jantares incluídos. Procuro ir sempre que posso.

Ao contrário de mim e outros gatos pingados, que são só curiosos mesmo, o congresso reúne a elite da advocacia empresarial do México até a Patagônia. Só advogados bem sucedidos, metidos em causas internacionais, que não vão para lá aprender, mas sim para fazer contatos e negócios. Esse ano o congresso teve cerca de 430 inscritos. Vamos dizer que desses 430, uns 50 fossem europeus, canadenses ou norte-americanos, com algum interesse no nosso continente.

Sobram 380 latinos.

Eu vi dois negros: um senhor muito simpático e dirigente da instituição que organiza o evento e uma jovem. Ambos norte-americanos. Vi também um outro advogado com traços indianos. Era um inglês, que veio dar uma palestra sobre a influência das mídias sociais no futuro da advocacia,

Bom, estamos na América Latina, terra de gente morena, como Salma Hayek ou Juliana Paes. Vá lá que os negros faltaram ao evento, mas e os morenos? Seriam maioria? Que nada! Com muito boa vontade eu diria que tinha uns 100 morenos e ainda assim sendo generoso na conta.

Brancos, sim, eram abundantes.

Bolivianos, por exemplo. Eu nunca tinha visto tantos bolivianos brancos. Nenhum dos que vi por lá se parecia com Evo Morales. Assim como os chilenos, quase caucasianos, ninguém lembrava Marcelo Rios ou Figueroa, todos eram como Sebastian Piñera: grisalhos e com cara de rico.

Colombianos, maioria no evento, branquinhos, olhos azuis, sem qualquer semelhança com Gabriel Garcia Marquez ou Shakira (que, apesar dos cabelos tingidos, é morena).  Se pareciam todos como Alvaro Uribe. Mexicanos, eu nem sabia que no México tinha tanta gente branca. A turma que foi ao evento por certo não teria problemas ao cruzar a fronteira com os Estados Unidos, pois não despertaria qualquer suspeita de sua origem.

Dos argentinos e uruguaios eu já não esperava muito mesmo, são os países mais brancos da América do Sul, mas ainda assim nem todos são Messi ou Forlan, há também morenos como Tevez ou Cristina Kirchner. Entretanto, era diminuta a proporção de pele escura entre os platenses.

E o que dizer dos brasileiros? Uma delegação praticamente europeia, digamos assim. Olhos claros, pele alva e cabelos lisos eram os traços mais marcantes dos compatriotas – esclareço que eu também me encaixo na descrição, exceto pelos meus olhos castanhos.

Agora me digam....como pode, em um continente marcado pela miscigenação e onde a parcela branca é minoritária, que a elite da advocacia seja tão marcadamente composta pelos descendentes diretos dos europeus? É claro que esse texto nada tem de científico – é fruto somente das minhas observações, que sequer se pode afirmar serem precisas.

Apesar disso, é profundamente revelador que ao menos em um segmento muito particular da advocacia – aquele que cuida das grandes transações econômicas entre empresas globalizadas – os negros não tem vez e até mesmo os morenos tem dificuldades.

E ainda dizem por aí que as oportunidades são iguais para todos e que políticas afirmativas é que fomentam o racismo e injustiça com quem não é beneficiário delas.

Ah, tá!

domingo, 25 de março de 2012

Orun Ayé - "Os Vilões"


Neste domingo, a coluna "Orun Ayé", do compositor Aloisio Villar, traz um assunto bastante interessante: os "vilões" que permeiam nossa vida.

Os Vilões

Recentemente fiz uma coluna falando de meus ídolos e é comum falarmos de nossos ídolos, aqueles que nos formam e nos moldam graças a seu talento e personalidade. Mas tem um gênero que nunca lembramos e é quase tão importante quanto. Também nos molda, nos forma, mas de outra forma.

O que seria do Superman se não fosse o Lex Luthor? Do Batman sem Coringa, Pinguim?

Sim, os vilões.

Todos nós tivemos nossos ídolos e nossos vilões, aquelas pessoas inesquecíveis e muitas vezes tão bacanas, honradas e talentosas quanto nossos heróis, mas que em algum momento fizeram calar nossa alegria e forçaram nosso pranto. O primeiro vilão que minha memória tráz a tona é Paolo Rossi. O jogador da seleção italiana antes da copa do mundo da Espanha em 1982 passou por sérios problemas em seu país, até impedido de jogar bola por acusações de envolvimento no esquema de corrupção com a máfia da loteria.

E a Itália estava mal na Copa. Os jogadores não falavam com a imprensa, o time se classificou na bacia das almas para as quartas de final enquanto o Brasil encantava o mundo e fatalmente com seu futebol arte seria campeão. Acabou que os dois times se encontraram nas quartas e final e o que aconteceu?

A Itália e principalmente Paolo Rossi decidiram jogar. O atacante fez três gols e eliminou uma das gerações mais fantásticas do futebol mundial impedindo que ela fosse campeã. Isso faz trinta anos e todos os brasileiros que viveram aquilo não conseguem esquecer o nome Paolo Rossi. Os brasileiros que nasceram depois também são íntimos desse “vilão”. Talvez ele seja mais reconhecido no Brasil que na Itália.

Mas não foi o único..

A França de Platini me fez chorar na copa seguinte, assim como Maradona e Caniggia na copa da Itália, mas tem um francês...

...tem um francês que só em pronunciar seu nome os amantes do futebol brasileiro gelam. Zinedine Zidane.

Tirou o nosso penta na copa de 98. Em uma final controversa que até hoje pairam dúvidas e lendas urbanas. Zidane, que não fizera nada naquela copa, tornou-se nosso algoz com dois gols levando a França a seu primeiro título mundial. Oito anos depois ele repetiu a vilania. Chegou à partida contra o Brasil quietinho, ninguém falava dele, só em sua aposentadoria e o craque acabou com o jogo e com nosso sonho do hexa. Curiosamente, Zidane é muito amigo de alguns jogadores brasileiros vítimas de sua vilania, como Ronaldo e Roberto Carlos.

Mas também há outros vilões em esportes diferentes e terreno doméstico.

A geração dos anos oitenta que torcia para Ayrton Senna e Nelson Piquet sentia calafrios com o nome Alain Prost. Outro francês em nosso caminho e esse irritava demais porque não errava. Prost não era o piloto mais rápido, mas era cerebral. Os fãs do Piquet lembram com amargor o campeonato de 1986 em que a disputa era de Mansell contra Piquet e no fim os dois perderam o campeonato para Prost.

Os de Senna lembram 1989 quando o brasileiro foi desclassificado de uma corrida depois de bater no francês em uma manobra suspeita dele e assim o título cair no colo de Prost [N.do.E.: na verdade, como Senna não venceu o GP da Austrália, último da temporada, Prost seria campeão mesmo que a desclassificação não tivesse ocorrido]. No ano seguinte Senna deu o troco e estava sacramentada uma das maiores rivalidades da história do esporte.

Outro piloto que os brasileiros torcem o nariz é o alemão Michael Schumacher que estreou na Benneton no lugar de Roberto Pupo Moreno, dizem ter sido um dos responsáveis pela aposentadoria de Nelson Piquet e vinha batendo constantemente na pista Ayrton Senna quando este morreu. Os fãs de Senna tratam como heresia quando alguém diz que Schumacher foi o maior de todos os tempos. Dizem que ele só tem números expressivos devido à morte de Ayrton.

Para os fãs do voley tem a seleção femninina de Cuba comandada por Regla Torrer e Mireia Luiz que evitaram dois ouros olímpicos brasileiros em 1996 e 2000, além de jogos que acabaram em pancadaria devido à provocação das cubanas.

Os cinéfilos se lembram do italiano Roberto Begnini que com seu filme “A vida é bela” evitou o Oscar de “Central do Brasil”. Militantes de esquerda vêem Fernando Collor de Mello como a pessoa que “jogando baixo” evitou que Lula e o PT chegassem ao poder em um momento mais “puro” da esquerda. Assim como os EUA sempre viram a União Soviética como vilã, hoje vêem Cuba, Irã e Coréia do Norte e todo o planeta que não reza por sua cartilha lhe vê.

Eu que sempre fui um cara mais vidrado em esportes tive quatro vilões em relação ao Flamengo.

Por curiosidade os quatro também jogaram no clube.

O primeiro foi Romário. Ele adorava fazer gols no Flamengo e com seu jeito marrento provocava raiva. Demorou que eu o aceitasse, mesmo já fora do Vasco, na seleção. Para minha grande alegria um dia jogou no clube e se tornou um de seus maiores artilheiros. Mas depois voltou ao Vasco para cometer suas vilanias.

Foi vilão e virou herói. Caminho inverso de Bebeto que explodiu no futebol pelo Flamengo e um dia trocou o clube pelo Vasco conquistando o ódio da torcida rubro-negra que acredito, ainda perdure. Edmundo sempre teve sorte contra o Flamengo, fazia gols e tirava os rubro-negros do sério. Passou pelo Flamengo e teve uma passagem discretíssima onde seu maior feito foi apertar “as coisas” para a torcida do Vasco em um clássico no Maracanã.

E o último: Renato Gaucho, que tirou o título do centenário do Flamengo com um gol de barriga [N.do.E.: em impedimento] e adorava provocar quando fazia gols e conquistava títulos sobre ele. Mas também foi um jogador importantíssimo do Flamengo e fez um gol inesquecível para mim contra o Atlético Mineiro no brasileiro de 1987.

O futebol é um espaço de muitos vilões como o que saiu recentemente, o ex presidente da CBF Ricardo Texeira. Por muitos anos Antonio Carlos Magalhães foi considerado o vilão do país, hoje essa pecha cai no colo de José Sarney, o símbolo do atraso e do coronelismo. Temos vilões entre os pastores que enriqueceram através da fé e os empresários que com propinas ganhavam licitações como as denúncias da última semana no Brasil.

E temos Jerome Walcker, o secretário geral da FIFA que disse que o Brasil merecia um chute no traseiro.

Sempre somos heróis de alguém ou vilão. Depende do ângulo que nos vêem. Sou compositor de samba-enredo, entro em muitas disputas por ano e provavelmente alguém me vê como vilão mesmo eu não sendo um cara mau.

Porque aí que tá o segredo, o vilão não é necessariamente um cara mau. Existem sim canalhas como eu citei nessa coluna, mas aí não existe só a vilania, tem o mau caratismo. Mas o vilão antes de tudo é importante para o nosso dia a dia e nossa vida. Porque eles que nos fazem querer vencer, eles que nos desafiam a querer melhorar sempre e quando nos derrotam mostram que não somos invencíveis e nos ensinam a dar a volta por cima.

Sejam os vilões externos como os internos. Nossas fraquezas, pontos fracos, traumas, eles só são derrotados quando nos superamos. Temos que derrotar um Paolo Rossi por dia e que bom que seja assim, se não tivéssemos os vilões nossas vitórias não seriam tão saborosas.

E quando queremos, quando temos força de vontade não há kriptonita que nos derrube. Não se esqueça... O mocinho sempre vence no fim e se ainda não venceu é que o fim ainda não chegou.

Sai pra lá Paolo Rossi...


Chico Anysio

A coluna já estava enviada, editada, pronta para ser colocada no blog quando chegou a notícia já esperada, mas triste. 

Em um domingo em que falei de vilões menciono no fim um grande herói: Chico Anysio.

Chico Anysio fez o Brasil rir por sessenta anos e na noite de sexta, em que coloco esse adendo, faz chorar. Cresci rindo com o Chico, aprendendo com suas aulas de humor e conhecendo um pouco mais de nossa sociedade através de suas críticas recheadas de ironia e graça. 

Chico dizia que o humor era primo da poesia e era o local perfeito a protestos e críticas. Concordo com ele, o humor sempre foi uma grande ferramenta para isso: desde Chaplin imitando Hitler até Chico vestido de deputado pedindo que pobre se explodisse ou de professor reclamando de salários. 

Chico Anysio se fosse americano morreria bilionário [N.do.E.: Boni, em sua biografia, afirma a mesma coisa]. Era um artista completo, não apenas um comediante. Um ator que se saía muito bem na comédia. 

Ele foi precursor do stand up e além de revelar muitos grandes artistas da atualidade deu emprego para outros que tanto nos divertiram, mas pela idade, essa mania feia do Brasil de achar que velho não presta, estavam encostados.

Graças ao Chico e suas enormes asas muitos deles puderam ter um fim de vida com dignidade e aplauso. 

Chico Anysio era gênio e para ser identificado assim bastava ter feito as músicas “Rio Antigo” e “Rancho da Praça XI”, músicas das mais lindas já feitas e que emocionam todos que amam o Rio de Janeiro. 

Mas esse cearense de Maranguape que tão bem traduziu nossa cidade e sua época áurea não ficou satisfeito e ainda fez 209 personagens que entraram pra história de nossa arte. 

Impossível contar a história das artes do Brasil sem mencionar Chico Anysio. 

E hoje me despeço de Popó, Pantaleão, Azambuja, Justo Veríssimo, Painho, Salomé, Nazareno, Jovem, Bento Carneiro o vampiro brasileiro, Coalhada, Roberval Taylor, Haroldo o hetero, Santelmo, Tavares, Alberto Roberto, Tim Tones, Professor Raimundo... 

Que descansem em paz junto com o mestre na mentira que é a morte. 

Porque Chico Anysio é imortal. É mentira Terta?

Orun Ayé!

sábado, 24 de março de 2012

Final de Semana - "A Visita da Nobreza do Riso a Chico Rei Num Palco Nem Sempre Iluminado"


Nossa faixa musical esta semana faz uma homenagem ao grande Chico Anysio, falecido ontem no Rio de Janeiro aos 80 anos. A música é o samba enredo da Caprichosos de Pilares de 1984, que homenageou o grande ator, redator e humorista e trouxe à avenida seus inesquecíveis tipos.

Segundo Luis Fernando Reis, carnavalesco naquele ano, Chico aceitou de bom grado a homenagem, mas não pôde desfilar por já ter shows agendados naquele período. A escola de Pilares obteve o terceiro lugar no desfile de domingo, retornando ao Supercampeonato no sábado das Campeãs - onde obteve o sexto lugar.

Este ano de 2012 a bateria da Caprichosos homenageou Chico Anysio, com todos os integrantes utilizando máscaras de "Professor Raimundo", um dos seus tipos mais famosos. O humorista com a "Escolinha" ajudou vários humoristas da "Velha Guarda", então em dificuldades, dando-lhes espaço no programa e fazendo temporadas de diversão inesquecível.


Caprichosos de Pilares - Samba-enredo 1984 
Almir De Araújo, Balinha, Marquinho Lessa e Hércules 

Sorria meu povo
Sorria, "Chico rei" chegou
Nesse palco todo iluminado
Que um dia, por pecado, se apagou
Ôôôôôôôô 
E Popó mandou cair na folia
A festa é nossa no reinado da folia
É cascata, o pacotão
No combate, como bate o coração
Na agonia com a corda no pescoço
A piada rói o osso e alegra o meu povão

Salomé, Salomé
Bate um fio pro João
Que dureza não dá pé

Tantas loucuras
Dos ministros, "Os Trapalhões"
Brasil, "Brazil", brazuca
É Alice num país de ilusões
Meu sorriso brasileiro
Tempero nacional
Do Azambuja trambiqueiro
Do Turuna dando bronca Federal
Palmas pro velho guerreiro
Que o ano inteiro faz o carnaval

Pai, painho no abaitolá
Dando axé
Até o dia clarear

Abaixo podemos ver uma das criações imortais de Chico Anysio, Justo Veríssimo. Que descanse em paz e abrilhante a televisão no Céu.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Cinecasulofilia - "Novíssimo Cinema Brasileiro"


Nesta sexta feira, a coluna "Cinecasulofilia", do professor, cineasta e crítico Marcelo Ikeda, faz uma série de digressões sobre as novas tendências do cinema nacional. Vale a pena a leitura.

Como sempre, coluna publicada em parceria com o blog de mesmo nome.

Novíssimo Cinema Brasileiro

Acho engraçado quando as pessoas dizem que “novíssimo cinema brasileiro” não quer dizer nada, e que é preciso achar um conceito mais preciso para delimitar (demarcar) o que vem acontecendo num certo cinema brasileiro. Dizem que os filmes são diferentes, que não é questão de idade (pois há cineastas velhos que fazem filmes antenados, e jovens que fazem filmes caducos) nem mesmo de fontes de financiamento (há filmes sem grana “novelinha” e há filmes com editais que são antenados), etc, etc.

Acontece que sempre foi assim. Os nomes são apenas “rótulos”, e nada dizem.

Mas por outro lado dizem algo sim: reconhecem que algo está acontecendo, e que isso não é isolado de um ou outro filme, mas que “há algo no ar que os une”. Fica-se discutindo que não há nada de novo no “novíssimo cinema brasileiro”, e o termo “novíssimo” é equivocado. Claro que é. Mas se de um lado não há nada de novo, por outro é claro que há algo de novo. Ficam cobrando “definições” ou “características” do chamado novíssimo, e é claro que isso é uma casca de banana.

Por exemplo, é só pensarmos no “neorrealismo italiano” ou na “nouvelle vague francesa” ou mesmo no “cinema novo brasileiro”. O que é o neorrealismo italiano? O que liga esses filmes? Se formos entrar nessas definições pra valer, vamos começar a ver as contradições desse rótulo. Ladrões de Bicicleta foi filmado a partir de uma produção de estúdio com grande orçamento, com todos os raccords e cheio de carrinhos e refletores. Ou ainda, um filme como Arroz Amargo, do de Santis, apesar de ter todo um cacoete de neorrealismo, na verdade não carrega consigo a essência do neorrealismo, porque não está preocupado com a condição de trabalho das mulheres nas plantações de arroz, e sim nas pernas da Silvana Mangano, e foi isso com que fez com que o filme fosse de boa bilheteria.

E, aliás, “neorrealismo” é “neo” em relação a quê? Esse termo é bom?

Claro que não é, claro que não dá conta dos filmes, mas ao mesmo tempo esse termo é ótimo porque é um registro de que num determinado momento e lugar “havia algo de novo no ar”, um “espírito cinematográfico renovado”. A mesma coisa é a nouvelle vague francesa. Resnais é nouvelle vague? Não, mas ao mesmo tempo é. Ou, “o velho Bresson”, quando fez Mouchette, foi chamado de nouvelle vague? Não, porque é de outra geração. Mas ao mesmo tempo Rohmer quando fez O Joelho de Claire sim, apesar de ser bem mais velho que Godard ou Truffaut. Mas e O Signo do Leão, é nouvelle vague? E La Pointe Courte, é nouvelle vague? Não é, mas é mais nouvelle vague do que muito filme da nouvelle vague.

É por aí. É questão de grana? Mas e Godard, quando fez O Desprezo, quase um projeto de encomenda do produtor Carlo Ponti, se vendeu ao sistema, ou deixou de ser nouvelle vague por isso? E outros e outros e outros exemplos podem ser listados.

Há sim um “novíssimo cinema brasileiro”. Se o nome é bom ou não, não importa. É ruim mesmo, porque os rótulos não conseguem dar conta dos filmes, da singularidade dos filmes e dos realizadores. E esses filmes mudam, porque os realizadores mudam, porque o mundo muda, ele nunca é o mesmo.

Vejam Rossellini, que pouco depois dos “marcos neorrealistas” fez Stromboli ou Viagem à Itália, que foge da “cartilha” do neorrealismo, ou Visconti quando fez o grandioso Sedução da Carne, etc. Esse termo é impreciso, incorreto, contraditório, não há nada de novo, é difícil dizer o que une um certo conjunto de filmes em um termo só, e há coisas que não se encaixam muito bem (Cavi é “novíssimo”? Filmes como Riscado ou Bollywood Dream são “novíssimos”? Adirley é “novíssimo”?).

Essa discussão “do que é” e “do que não é” é muito chata, e é uma casca de banana. O que importa – e esse é o foco da discussão – é que sim, há algo de novo no ar no cinema brasileiro de hoje, que foge dos circuitos oficiais de fontes de financiamento, modo de produção, distribuição e exibição, ou como esses filmes trabalham com o tempo, com o espaço, com a narrativa, com os personagens, com a cidade, embora, possam esbarrar, em maior ou menor grau, nos modelos mais tradicionais.

Todas essas cascas de banana que algumas pessoas podem jogar (ou ainda, melhor dizendo, todas as ressalvas justas que possam ser feitas à insuficiência desse rótulo) não podem nos fazer desistir da aposta de que há algo raro, singular, acontecendo no cinema brasileiro de hoje. Podem até fazer críticas a como certos grupos se apropriam politicamente do uso desses termos para reivindicarem espaços de legitimidade e poder – uma questão pantanosa que pelo menos aqui não vou adentrar – mas não dá pra agir como se “para jogar a água fora da bacia tivéssemos que jogar a criança dentro”.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Prosit - Bamberg Kolsch


Bom, após um longo intervalo, temos mais uma edição da coluna cervejeira do blog: a Prosit.

Hoje traremos um exemplar do estilo alemão, feito pela cervejaria brasileira mais afeita às tradições desta escola cervejeira: a Bamberg, sediada na cidade paulista de Votorantim. A cerveja é a Bamberg Kolsch, edição sazonal e que foi posicionada como "cerveja do carnaval".

História:

A Bamberg foi fundada no final de 2005 e tem como Mestre Cervejeiro e líder Alexandre Bazzo, uma das referências brasileiras no campo da cerveja artesanal e especial. A Bamberg tem este nome em homenagem à cidade alemã de mesmo nome, um dos centros cervejeiros daquele país.

A cervejaria segue a Lei da Pureza Alemã e todos os exemplares são representantes da escola alemã. A Bamberg tem exemplares premiados internacionalmente, como a sua Rauchbier.

O estilo kolsch é originário da cidade de Colônia, tendo como característica ser uma ale com algumas características de lager - como a fermentação "a frio" e um tempo de maturação mais longo que as ales tradicionais. Muitos analistas a classificam como um estilo híbrido, mas o próprio Alexandre Bazzo considera impróprio o uso desta expressão.

Nossa cerveja de hoje é a Bamberg Kolsch. Entretanto, todas os estilos do portfólio da cervejaria paulista merecem ser degustados. Lembro que não sou especialista em degustação (ainda) e que o objetivo aqui é despertar o interesse do leitor leigo para o assunto.


Cerveja: Bamberg Kolsch
Apresentação: garrafa com 600 ml
Preço: R$ 10,90 (Puro Malte)
Teor Alcóolico: 4,8%
Data da Degustação: 17/03/2012
Estilo: Kolsch

Aparência: creme intenso, branco e duradouro. "Belgian Lace" justo, poucas partículas suspensas. Coloração dourada e algo turva.

Aroma: médio, com notas de pão ou biscoito. Algum defumado. Lúpulo leve e álcool idem, embora seja próprio do estilo. Algum aroma vindo da levedura, com notas florais.

Sabor: média duração, moderadamente doce, com demais ítens apenas leves. Bastante saborosa. Excelente drinkability, ou seja, se bebem várias deste estilo.

Paladar: corpo médio, textura aguada e carbonatação borbulhante. Retrogosto mesclando malte e alguma coisa floral. Final duradouro.

Geral: confesso que esperava mais dadas as outras avaliações que havia visto sobre esta cerveja, em especial quanto à intensidade do sabor. Contudo é uma boa opção como alternativa às lagers típicas, com excelentes sabor e leveza. Bom custo benefício. Deve ser bebida de 4 a 6 graus Celsius.

Nota: 3,1 - em um total de 5,0.

Veredito: aprovada, com a ressalva de que é um grande exemplar dentro de seu estilo - pessoalmente prefiro estilos mais 'pesados', por assim dizer. Como é uma cerveja sazonal, somente pode ser encontrada em uma determinada época do ano, embora a Puro Malte, no momento em que escrevo, ainda tenha dela em estoque. É uma boa opção para eventos mais informais, que peçam algo mais leve - e de excelente qualidade.

Próxima: provavelmente a Brooklyn Black Stout Chocolat

(Foto da Fábrica: FemAle Carioca)


quarta-feira, 21 de março de 2012

Made in USA: "Lá, como Cá: Cartolas e Suas Ideias Mirabolantes"


A partir de hoje temos uma coluna nova no Ouro de Tolo: a "Made in USA", assinada pelo advogado, portelense e tucano (ninguém é perfeito) Rafael Rafic. O foco serão os esportes norte americanos, mas também teremos textos sobre as eleições americanas e os próximos Jogos Olímpicos de Londres.

A coluna será quinzenal, a princípio às quartas feiras. No texto de estreia Rafic mostra que os tão incensados cartolas americanos são, muitas vezes, iguais aos nossos...

Lá, como Cá: Cartolas e Suas Ideias Mirabolantes

Olá, leitores do Ouro de Tolo!

Vou logo me apresentando: sou Rafael Rafic, tenho 23 anos, um advogado na teoria, mas um AAA (assessor de assuntos aleatórios) na prática laboral atualmente, já que trabalho em uma área razoavelmente distante do direito. Portelense e um amante de baseball.

Por este último fato, como o Editor Chefe está enveredando pela área dos esportes americanos desde que descobriu o New York Giants e o futebol americano, me apresentei para fazer uma coluna sobre esportes americanos. No Brasil, por excelência, denominamos de esportes americanos as quatro principiais ligas profissionais dos EUA, que vem a ser a MLB (baseball), NFL (futebol americano) a NBA (basquete, a única realmente conhecida do grande público brasileiro) e a NHL (hockey no gelo).

Já aviso que o foco principal dessa coluna serão as duas primeiras ligas citadas. A NBA é bastante divulgada no Brasil, inclusive em jornais de grande circulação (como o Lance), nos quais o leitor deste blog poderá ler opiniões muito mais avalizadas do que as minhas, que não sou um conhecedor profundo de basquete. Já a NHL (da qual também não sou especialista) é pouco conhecida e procurada mesmo para o nicho dos canais voltados para o público daqui de esportes americanos.

De qualquer forma isso não impedirá que eu fale delas aqui em algum momento.

De modo geral tentarei apresentar aqui não apenas um relato jornalístico dos acontecimentos, mas na medida do possível mostrar a realidade dos esportes americanos e o porquê do sucesso de organização e administração deles se comparado com o nosso, que é um desastre. Espero fazer uma reflexão para pensarmos algumas mudanças que podemos implementar aqui, apesar de todas as diferenças culturais, econômicas e legais envolvendo as entidades esportivas.

Para começar, a coluna hoje aborda uma notícia recente do baseball que serve para mostrar que patetices e mudanças das regras em cima da hora (com todos os problemas que um improviso de última hora pode dar) não são uma especialidade brasileira.

Antes disso, faço alguns esclarecimentos já que o baseball e a MLB não devem ser conhecidos de 99% dos leitores deste blog. Inicialmente, para quem quiser ler as regras do baseball direto na fonte, dou aqui o link do download da versão oficial da MLB de 2011.

Porém reconheço que as regras são extremamente complicadas. Assim, já puxando sardinha para o meu lado, recomendo a leitura das lições de um blog que eu e um amigo, CJ Ballantine, fizemos em um projeto surgido ainda nos bons tempos do primeiro Blog do jornalista Lédio Carmona, o Entenda baseball (quase) sem lágrimas. Leiam da postagem inicial (na primeira lição), para que faça sentido.

Já sobre a estrutura da MLB, são 30 times divididos em duas ligas, a American League (AL, Liga Americana), com 14 times e a National League (NL, Liga Nacional) com 16 times e não há ascensão ou rebaixamento. São sempre os mesmos trinta times que compõem a grande liga. Na verdade cada time é uma empresa, ou melhor, uma franquia, como chamam os americanos e a liga abre novas franquias a seu bel prazer quando acha necessário/rentável e não tenha nenhuma atualmente inviável sob o aspecto financeiro. Uma expansão não ocorre desde 1998 e não há a menor perspectiva de ocorrer nos próximos 10 ou 15 anos.

A temporada de baseball é bastante diferente de tudo o que conhecemos aqui. Ela começa em abril e termina em setembro (com as finais em outubro) e compreende 162 jogos. É exatamente isso: 162 jogos! Como a temporada tem, em média, 185 dias, todos os times jogam quase todos os dias. Para facilitar a logística de viagens e reduzir custos, o calendário é feito para que os times se enfrentem seguidamente por três ou quatro dias (excepcionalmente cinco) consecutivos. Esse ponto é chave para o problema que desenharei a seguir.

Também para reduzir custos e evitar muitos confrontos entre times distantes em um país com quatro fusos diferentes como os EUA (e os fusos serão outro ponto chave), tanto a AL como a NL são divididas em 3 divisões: East, Central e West (leste, central e oeste). São 5 times na AL East, na AL Central, na NL East e na NL West; 4 times na AL West e 6 times na NL Central. Para 2013 já está acertado que o Houston Astros mudará de liga, sairá da NL Central e irá para AL West, igualando todas as divisões com 5 times.

Classificam-se para os playoffs os campeões de cada divisão além do time de melhor campanha que não ganhou sua divisão (o Wild Card, WC). É aqui que começa o problemão que armaram para esse ano.

Desde o fim da grande greve dos jogadores de 1994, a MLB adota um esquema simples de playoffs de 8 times (4 times da AL e 4 times da NL) que se enfrentam em séries melhor de 5 jogos (1ª rodada) ou de 7 (2ª rodada e final, a chamada World Series). Por enquanto, tudo ótimo.

Só que a insaciável sanha americana de produzir “emoção” a qualquer custo, aliada a uma pressão enorme das TVs e da própria direção da liga em aumentar os playoffs para simplesmente aumentar receitas (sem se importar com a qualidade do jogo) não podia deixar isso parado. Então inventaram uma idéia (para mim, louca) de criar um segundo time WC, sendo que os 2 times WC se enfrentariam em um jogo único (para criar a tal emoção) a fim de decidir quem seria o quarto time dos playoffs de cada liga.

Só que, após algumas idas e vindas, deixaram para implementar a mudança de regra apenas no dia 2 de março - já valendo para esse ano, sendo que a temporada começa no dia 28 de março e todos os times já estavam em pré-temporada... A questão é polêmica e nem todos engoliram isso com tranqüilidade.

Para piorar, pelo atraso na divulgação da nova regra, todas as datas da temporada e dos playoffs já estavam acordadas com as emissoras e não poderiam ser mudadas e ainda teriam que enxertar dias extras para descanso e deslocamento dos jogadores.

Como os EUA são gigantes, pode acontecer de um time jogar esse jogo extra na 3ª feira em Los Angeles e ter que se deslocar para a Philadelphia jogar na 4ª feira o primeiro jogo dos playoffs (só aí são quatro mil quilômetros e três horas de jet leg). Por causa desse pandemônio a MLB se viu obrigada a mudar (também em cima da hora) a ordem do mando de campo da primeira rodada dos playoffs.

Eram dois jogos na casa de quem tem mando, dois jogos fora e um quinto jogo final de volta na casa do mando. Para esse ano, virou para dois jogos fora e três jogos seguidos na casa de mando. Resultado: o time que avançar para a segunda rodada em cinco jogos terá que jogar sete jogos em nove dias. Isso é um absurdo para playoffs, mesmo para os padrões loucos do baseball.

Só no dia 9 de março (uma semana depois do anúncio), um outro “gênio” pensou: a temporada regular acaba na 4ª feira e o jogo extra será na 6ª feira. Se houver empate na temporada regular para alguma vaga, teremos um jogo desempate na 5ª feira. Mas como faremos para chegar lá no dia seguinte se eu jogo na Califórnia às cinco da tarde (oito da noite na costa leste)? E aí tivemos uma corrida de remarcações de horário dos jogos do último dia da temporada: teremos jogos começando ao meio-dia no horário local - horário maravilhoso para um jogo no meio de semana que pode ser primordial, não é?

Terminando de fritar o omelete temos a seguinte possibilidade (perfeitamente possível), apenas por causa da impulsividade de um presidente de liga e do espírito oportunista de alguns magnatas que ganham dinheiro sem jogar: o Arizona Diamondbacks fecha a temporada regular jogando em Miami contra o Marlins na 4ª feira.

Só que ele empatou na luta pelo segundo WC com o Milwaukee e joga em casa, na cidade de Phoenix, o jogo desempate na 5ª feira (3.200km e 2 horas a menos no fuso). Como o Arizona ganhou o desempate e se tornou o segundo WC, jogará contra o primeiro WC, Philadelphia Phillies, fora de casa na 6ª feira (3.400 km e 2horas a mais de fuso).

Supomos que o Arizona heroicamente ganha do Phillies e tem que voltar para casa correndo a tempo de sediar o primeiro jogo dos playoffs em Phoenix já no sábado (3.400 km e duas horas a menos de fuso) contra um time que descansou desde 4ª feira. É justo com o Arizona? É humano para os jogadores? Claro que não. E tudo isso só ocorreu por um devaneio de algumas pessoas que é muito $atisfatório para outros...

Estão vendo? Isso não é privilégio do Brasil.

P.S.: por ser esse um ano eleitoral nos EUA e ano olímpico, não estranhem se as vezes eu me distanciar dos esportes americanos e dar meus pitacos nesses 2 temas em que gosto de “meter o bedelho”.

terça-feira, 20 de março de 2012

Bissexta - "Uns Dias em Bogotá - Desconstruindo Mitos"


Excepcionalmente nesta terça feira, a coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro, inicia uma série de duas colunas sobre sua recente visita a Bogotá, capital da Colômbia.

P.S. - Antes que peçam a minha opinião, não conheço a cerveja em questão (risos).

Uns Dias em Bogotá - Desconstruindo Mitos

Bom, o título é revelador: passei uns dias na capital colombiana. Não fui lá a passeio e até pretendo escrever sobre isso em breve, mas por enquanto vamos ficar nas impressões ligeiras sobre a cidade.

Na década de 90 Bogotá era, ao menos para quem não a conhecia, uma referência de violência, sequestros, desordem e pânico generalizado – diziam até que executivos estrangeiros em visita ao país eram recebidos no aeroporto por motoristas munidos de uma senha secreta e só embarcavam nos carros depois de ouvirem umas frases de confirmação, para que se tivesse certeza de que aquela pessoa por detrás das indefectíveis plaquinhas não era um sequestrador disfarçado.

O tempo foi passando e Bogotá acabou virando um paradigma da recuperação – se antes as notícias que vinham de lá eram aterrorizantes, hoje só se escuta falar que o Rio de Janeiro deveria copiar tudo o que se faz em Bogotá para entrar nos eixos de vez.

Nunca confiei muito nesses exageros midiáticos, portanto nem me parecia que Bogotá fosse a sucursal do inferno no fim do século passado ou seja o oásis de tranquilidade da atualidade.  Mas quando eu comentava com alguém que estava indo para lá, as pessoas sempre me recomendavam cuidado redobrado e atenção.

Pois afora uma chegada um tanto quanto conturbada em um aeroporto acanhado e apinhado de ofertantes de taxis (mas, ainda assim, menos que no Rio, onde quem desembarca é assediado acintosamente), Bogotá de fato surpreende pela tranquilidade e clima de segurança.

Nenhum outro lugar que eu tenha visitado possui um policiamento tão ostensivo e numeroso. Causa até um certo incômodo ver soldados do exército armados de fuzis em pontos estratégicos, mas quanto mais a zona nobre da cidade se aproxima, mais os soldados vão dando lugar a policiais comuns, além de inúmeros seguranças particulares. No que seria ao equivalente de Ipanema/Leblon (ou Jardins/Higienópolis paulistanos), é praticamente impossível caminhar mais de duzentos metros sem topar com alguma espécie de guarda. Que, em geral, nunca está sozinho, mas sim em equipes de quatro ou cinco.

E a cidade tem, sim, uma semelhança notável com o Rio de Janeiro, pois se passa das zonas mais ricas às favelas em um simples dobrar de esquina – na maioria das cidades, as zonas mais pobres costumam ficar afastadas. Mas assim como no Rio se vai de um condomínio luxuoso à Rocinha ao atravessar de uma rua, em Bogotá basta um piscar de olhos para uma favela aparecer na janela do taxi.

Sobre a outra das maravilhas da cidade, que dez entre dez especialistas afirmam ser a solução definitiva para a mobilidade urbana – o sistema de transporte conhecido como Transmilênio, que integra diferentes serviços e cria vias expressas para grandes ônibus articulados – eu, infelizmente, não tenho tantos elogios assim.

Primeiro porque o trânsito é uma droga. Às 7 da manhã eu já era despertado pelo buzinar dos carros. Tem engarrafamento praticamente o dia inteiro. Talvez tenha sido pior antes do tal Transmilênio, mas isso não significa que seja bom hoje em dia. Além disso, os motoristas são incrivelmente mal educados, é a reprodução perfeita do que há de pior no Rio, ninguém respeita faixa, concede a preferência ou evita bloquear os cruzamentos. Só que tudo isso em uma escala ainda maior do que no Rio (em São Paulo os motoristas são bem mais disciplinados).

Segundo porque minha visita coincidiu com uma semana de manifestações, greves e protestos no Transmilênio. Os usuários do sistema, irritados com a má qualidade do serviço, quebraram estações, pararam os ônibus, enfrentaram a polícia. Impotentes diante de tamanha desordem, as autoridades locais, na falta do que dizer, insinuaram que as manifestações teriam sido comandadas pelas FARCs. Olha, não quero desanimar a direita colombiana, mas se todos aqueles estudantes com uniforme escolar que subiram em cimas dos ônibus para protestar obedecem ordens das FARCs é o caso de começar a botar as barbas de molho, pois a revolução comunista na Colômbia deve acontecer, no máximo, até o fim do mês.

O fato é que a imprensa colombiana, mesmo aquela mais conservadora, não economiza nas críticas ao sistema. Comprei o equivalente colombiano da Veja brasileira e são páginas e mais páginas descendo a lenha na prefeitura, sob o sugestivo título “Caos Capital, que solução há para esse drama”? Portanto, sugiro menos empolgação nas sugestões de copiar o Transmilênio como a solução definitiva para os engarrafamentos brasileiros.

Por falar em Veja, eu me lembrava a todo o tempo daquela matéria que foi objeto de um texto aqui no Ouro de Tolo, comparando os preços brasileiros e norte-americanos.

Bogotá possui uma impressionante zona comercial, com grifes estrangeiras e locais, agrupadas em uma região com vários shoppings luxuosos. E os preços lá, vejam só, são praticamente iguais aos brasileiros, às vezes até mais caros – tirando os taxis, que são inexplicavelmente baratíssimos. E a Colômbia tem uma carga tributária de apenas 23%, mais baixa até do que a norte-americana. Por que então uma calça jeans famosa custa mais de R$ 350,00? Ou um terno italiano, mais de R$ 5 mil?  Ou um tênis esportivo quase R$ 500,00?

Fico à espera de respostas.

Mas a Veja tem lá suas razões....a fixação dos brasileiros com compras nos “states” é algo a desafiar a razoabilidade. Comecei a participar de eventos com colegas estrangeiros na década de 90.  Naquela conversa fiada que caracteriza o diálogo entre duas pessoas que acabam se conhecer, sempre vinham falar comigo de futebol ou da Floresta Amazônica.  Agora o assunto é um só: brasileiros comprando tudo o que podem (e às vezes nem podem), um comportamento que chama tanta atenção quanto a fixação dos japoneses por tirar fotografias.

Comprovei da pior forma possível essa má fama. Meu vôo de volta da conexão em Guarulhos foi preenchido quase que integralmente com porto-alegrenses voltando do exterior, a maioria vindo da Florida. O padrão mudou. Se antes um casal desembarcava com 2 malas médias/grandes e 1 ou 2 pequenas, agora não há quem não chegue com pelo menos 3 malas, sendo 2 gigantes e uma “de bordo” não tão pequena, todas complementadas por várias sacolas do Duty Free. Vi casos de gente viajando sozinha com 5 ou até 6 malas, o que, por certo, é motivo de muito aborrecimento para transportar tanta tralha. Houve também quem começou a manifestar arrependimento e preocupação com a fatura do cartão já na esteira de bagagens.

Por isso, fica aqui uma sugestão para umas férias mais econômicas e nem por isso menos divertidas. Que tal visitar a Colômbia da próxima vez? Além de Bogotá, com várias opções culturais (não percam o Museo del Oro), tem Cartagena, que eu não tive como ir. Garanto que ninguém voltará com excesso de bagagem e a fatura do cartão se resumirá às contas de alguns jantares imperdíveis, não necessariamente baratos, mas ainda assim mais em conta do aquelas ditas pechinchas dos infalíveis outlets.


segunda-feira, 19 de março de 2012

Sobretudo - "O Flamengo e a Ousadia Burra - ou Sonhando o Sonho Certo"


Abrindo a semana, após longo interregno temos a volta da coluna "Sobretudo", assinada pelo publicitário Affonso Romero. No texto de hoje ele faz um bom exercício de racionalização da gestão dentro de campo do Flamengo, que infelizmente não vejo como ocorrer no clube nos próximos 10 ou 20 anos.

Em tempo: lógico que é diferente da vida real, mas no simulador Football Manager a estratégia de apostar em jovens valores revela-se sempre acertada a médio e longo prazo.

O Flamengo e a Ousadia Burra - ou Sonhando o Sonho Certo

O texto do Editor-Chefe postado na última quinta feira sobre o Flamengo me fez atropelar compromissos e sentar para escrever. A princípio, um comentário no post. Foi ficando grande e acabou em coluna. Assim que é bom, porque parece ser a única forma deste articulista apresentar-se para o serviço.

Ainda que – devo logo dizer – seja uma coluna longa que só interessará aos que tiveram na vida o privilégio de serem torcedores do Flamengo [N.do.E.: caro leitor torcedor de outro time: o conceito deste post serve a boa parte das equipes brasileiras]

Bem, andava eu fazendo umas continhas, pesquisando o valor pago nas mais diversas transações do futebol (eu faço estas bobagens pelo simples exercício mental) quando me deparo com uma contundente afirmação do Sr. Michel Levy, soberano das alquebradas finanças rubro-negras a respeito das possibilidades do ex-jogador AAdriano voltar à Gávea: “o Flamengo pode tudo”. 

Verdade, e infelizmente verdade apenas no pior dos sentidos. Num clube em que o Sr. Levy apita alguma coisa, pode acontecer de tudo mesmo. Até esta possibilidade estapafúrdia da volta do AAdriano vir a se tornar realidade, se é que já não se tornou no momento em que estas linhas estiverem no blog.

É impressionante como o Flamengo se supera em fazer negócios ruins, prejudiciais à imagem do clube, sem pé nem cabeça, por puro impulso de jogar dinheiro no lixo. É a ousadia burra, sem perspectivas.

Pensei em outra forma de o Flamengo tudo poder. Ou melhor, poder algo fora do quadradinho da administração do esporte no Brasil. Seria a ousadia do bem, uma proposta de virada na mesa. Poderia pensar em como colocar de pé em três tempos um CT de excelência, em como aproveitar o potencial de mercado da marca Flamengo, em como finalmente construir um estádio próprio e decente, em novas formas de captação de recursos, em regras de governança, em democratização das relações no clube, poderia pensar em muitas e muitas coisas.

Mas tomei um atalho que até hoje eu sempre evitava, o seguinte: a cada vez que alguém se propõe a discutir seriamente a administração esportiva, a gestão, os princípios, vê-se invariavelmente enredado numa discussão paralela que deveria acontecer a posteriori, mas que é o começo e o fim de todo papo sobre futebol - vai contratar quem, quem será o técnico, que craque vestirá a camisa 10? Torcedor, sendo sócio ou não, acaba querendo discutir só isso.

Ok, topo a parada, mas tem que explicar umas coisinhas antes.

Para começar, voltemos àquela pesquisa de mercado. Uma coisa que chama a atenção no valor das transferências no futebol mundial é como os jogadores se valorizam depois de uma faixa etária entre 23 e 25 anos. Deveria ser o contrário, pela lógica esperada de mercado, porque quanto mais novo o atleta, mais tempo de carreira ele tem pela frente. Não faz sentido comprar os direitos de um cara de 30 anos. Acontece que os clubes no mundo todo fazem bobagens parecidas, e uma das principais é avaliar o jogador pelo que ele já jogou no passado (distante ou imediato), e menos pelo potencial que ele demonstrou ter para jogar no futuro.

Com menos história, menos títulos no currículo, menos nome, um atleta por volta dos 21 anos é subvalorizado pelo mercado comprador, principalmente pelos clubes mais ricos da Europa, que ditam as maiores cifras. Portanto, o potencial de valorização a médio prazo de jogadores de até 23 anos (ou um pouco mais, dependendo da posição) é imenso.

Por exemplo: o goleiro mais valorizado do mundo de até 23 anos é o espanhol De Gea, avaliado em R$40 milhões. Um valor astronômico e, ainda assim, bem aquém do preço de cada um dos três goleiros mais caros (Casillas, Neuer e Petr Cech – todos já na fase final da carreira) que custam entre R$62 e 87 milhões. A tendência da percepção do mercado é a de que De Gea se tornará em breve um dos três ou cinco principais goleiros do mundo mas, ainda que isso não se confirme de todo, certamente ele custará mais de R$50 milhões (em valores corrigidos) em breve, uma valorização real de 20% em um ou dois anos. Entre os brasileiros, o mais valorizado dos novatos é Neto, da Fiorentina (R$ 7 milhões), enquanto o agora veterano Victor, do Grêmio, mesmo sem uma carreira europeia vale o dobro.

O mesmo fenômeno se repete para todas as posições. Abaixo, uma tabela comparativa:

Defensores de até 23 anos:
Phil Jones, Manchester Untd – R$44 milhões
Danilo, Porto – R$24 milhões
Coates, Liverpool – R$ 13 milhões

Defensores com mais de 23 anos:
Piqué – R$94 milhões
Vidic – R$85 milhões
Thiago Silva - R$ 80 milhões

Meiocampistas de até 23 anos:
Gareth Bale, Tottenhan - R$87 milhões
Pastore, PSG - R$75 milhões
Thiago Alcântara, Barcelona - R$48 milhões

Meiocampistas com mais de 23 anos:
Iniesta – R$160 milhões
Ribery – R$100 milhões
Snejder - R$94 milhões

Atacantes de até 23 anos:
Thomas Muller - R$85 milhões
Neymar - R$75 milhões
Balotelli - R$75 milhões

Atacantes com mais de 23 anos:
Messi - R$250 milhões
Rooney - R$160 milhões
Aguero - R$120 milhões


Podemos imaginar que uma ou outra promessa possa deixar a desejar no futuro, mas o mais provável é que a performance dos jogadores mais velhos comece antes a sofrer o peso dos anos, mais cedo ou mais tarde, em todos os casos. Ainda assim, o valor de mercado dos jogadores maduros é consistentemente mais alto. Isso só faz sentido para os grandes clubes europeus uma vez que eles têm necessidade de resultados imediatos, estando propensos a assumir o alto custo de descartar jogadores em final de carreira sem compensação pelo investimento anteriormente feito, substituindo-os por jogadores já testados em outros clubes e ligas e com pouca predisposição em arriscar-se com iniciantes, por mais talentosos que sejam.

Por outro lado, este fenômeno também explica por que jogadores de grande talento e potencial saem dos seus clubes de formação nos países periféricos por preços muito inferiores aos observados nas transações internas na Europa. É necessário, antes, vê-los postos à prova em sua capacidade de adaptação e ação sob pressão.

A soma destes dados mostra uma oportunidade de ouro para um clube como o Flamengo. É possível investir em jovens em processo de valorização crescente no mercado latino-americano, alguns até com experiência internacional, objetivando o retorno financeiro em cerca de três ou quatro anos. Claro, o clube não tem dinheiro para a contratação sistemática de jogadores assim. Mas uma vez que trabalhasse com transparência e sob um clima de boa governança e respeito a contratos, uma bolsa de investidores poderia ser atraída.

Vamos pensar em cerca de R$ 250 milhões captados para retorno aos investidores em quatro anos. É possível montar um time inteiro de jovens talentos com altíssimo potencial de valorização. O Flamengo, como dono da maior torcida do Brasil, jogando campeonatos de alta performance e com o time sob constante pressão e visibilidade, é a melhor vitrine nativa imaginável para a valorização destes atletas.

Para começar, o Flamengo teria que contratar um técnico compromissado com um estilo de futebol que combinasse com a imagem do clube e com aquilo que se espera de jogadores talentosos. Ou seja, o compromisso do Flamengo deveria ser treinar e jogar, desde as equipes de base, num estilo próprio, com brilho, velocidade, garra, toque, ofensividade, pressão no campo adversário (seja marcando ou atacando). Há poucos técnicos no mundo com este perfil, a maioria de escola argentina ou holandesa. O melhor exemplo não está disponível para contratação: Pep Guardiola.

Mas há um outro discípulo de Marcelo Bielsa (este mesmo um bom nome) que montou um time com estas características e que poderia fazer história caso dispusesse de mais talentos: Jorge Sampaoli, o argentino que atualmente dirige La U (Chile). Claro que, a cada nome que citarmos aqui, devemos considerar a disponibilidade, e que há opções naturais e semelhantes ao exemplo que estamos usando. Da mesma forma, valerá também para os jogadores.

Bem, o segundo passo é blindar o Departamento de Futebol, dar as condições para a equipe treinar e estar concentrada em suas missões, criar critérios claros de avaliação e premiação por resultados (de preferência, por contrato) e preparar as condições motivadoras para atração e retenção que favoreçam a contratação de jogadores talentosos interessados num projeto de médio prazo, focados no desenvolvimento de suas carreiras e compromissados com este projeto até além de seus ganhos financeiros (apesar de que este seja um item fundamental).

Terceiro: partir para as contratações. Repito que esta é uma lista mais conceitual do que atrelada a nomes “imprescindíveis”. Os nomes são balizadores. Os valores foram todos arredondados para cima, considerando a percepção do mercado de que o Flamengo (ou bolsa de investidores em seu nome) estaria inflacionando um pouco o mercado com seu aporte, e que o simples interesse real em determinado atleta alavanca sua valorização instantaneamente.

O primeiro nome seria o de Dedé, zagueiro do Vasco cotado para o mercado europeu em cerca de até R$ 18 milhões. Uma oferta entre R$ 20 e 25 milhões pode ser irresistível. Nome bastante cotado para Olimpíadas e Copa, tem rentabilidade praticamente garantida para depois de 2014. Eleito o segundo melhor zagueiro das Américas em 2011, viria a se somar a Marcos Gonzalez, eleito à sua frente, formando aquela que seria a melhor zaga das Américas.

Para as laterais, duas jovens revelações que dariam velocidade e fôlego ao time, ambos cotados em R$ 15 milhões: Mário Fernandes, do Grêmio e Alex Sandro, do Porto.

Para a posição de volante, três jogadores com características complementares, todos destacados pela qualidade na saída de jogo: Marcelo Díaz (Un.do Chile, 25 anos, R$ 5 milhões, polivalente, capitão e termômetro da La U de Sampaoli), Casemiro (São Paulo, 20 anos, R$20 milhões) e Fernando (Grêmio, 20 anos, R$10 milhões).

Para a meia, três jogadores versáteis, de intensa movimentação e qualidade no passe, dois deles em idade olímpica: Oscar (Internacional, 20 anos, R$20 milhões) e Giuliano (Dnipro, 22 anos, R$20 milhões). O terceiro seria um jogador para ser a base do time, com mais experiência e liderança, mas ainda em idade para render bem por muitos anos: Hernanes (Lazio, 27 anos) cujo valor no mercado europeu está cotado em R$ 37 milhões, mas para o qual seria obrigatória uma oferta mais vantajosa para a Lazio, na casa dos R$50 milhões.

No ataque, Vagner Love receberia a ajuda de André (Atlético Mineiro, 21 anos, R$15 milhões) e do chileno Eduardo Vargas (22 anos, R$30 milhões) que recentemente trocou a Universidad de Chile pelo Napoli.

Nenhum desses jogadores pertenceria ao Flamengo integralmente. Seus direitos estariam vinculados à bolsa de investimentos, através do clube. A expectativa é que venham por um contrato de 5 anos e que cumpram, em média, entre 3 a 4 anos deste contrato, sendo repassados em seguida ao mercado europeu. Um dos fatores de atração dos jogadores seria exatamente a formação de um supertime, uma grande vitrine vencedora, que jogasse um futebol moderno e competitivo, talentoso e atraente, capaz de impulsionar e marcar suas carreiras.

O clube teria que reverter esta imagem em produtos e em fatores de atração de parceiros, para suportar pagar a folha de salários deste supertime, uma vez que não teria custos de contratação.

Esta estratégia só é válida porque o Flamengo possui, hoje, uma geração emergente com muitas e jovens promessas, mas que precisa de algum tempo para amadurecer e poder substituir estas estrelas em ascensão quando forem revendidas. Por um lado, este projeto tenta garantir uma hegemonia temporária ao clube, tempo para lapidar uma nova geração de atletas e preparar as gerações seguintes. Todas, sistematicamente inseridas num projeto mais amplo de formação de um estilo rubro-negro de jogo, implantado desde a base: um jogo coletivo, rápido, baseado no toque de bola e na habilidade, com velocidade e força de equipe.

Considerando a média do mercado, e a escolha criteriosa de atletas, pode-se projetar um ganho real já reajustado de 50 a 100% do valor investido inicialmente na contratação dos jogadores. A geração de uma força virtuosa pode impulsionar outros projetos administrativos e desatar nós na gestão do clube.

A preparação de uma geração sucessória começa na montagem criteriosa do elenco, que deve priorizar os nomes formados no clube e de baixa idade. Também deve-se manter um elenco enxuto, de modo a dar oportunidades a todos os que estiverem no clube e abrir a possibilidade de empréstimos e novas experiências para os que forem “estourando” idade sem aproveitamento imediato.

Desta forma, completam a equipe Paulo Victor (25 anos), César (20), Welinton (23), Frauches (19), Galhardo (20), Muralha (19), Luis Antônio (19), Thomás (19), Camacho (22), Adryan (17) e Lucas (20), oriundos da base e que formam a estrutura central do Flamengo de daqui a três a quatro anos. A estes, somam-se David Brás (25) e Magal (24), jovens contratados que podem ser aprimorados para os próximos anos. Os experientes Felipe (28), Marcos Gonzalez (32) e Vagner Love (27) somam-se aos contratados Hernanes (27) e Marcelo Díaz (25) formando a espinha dorsal mais madura do time titular.

Os demais jovens do atual elenco voltam para a base, ou para os que já têm mais de 20 anos, emprestados para adquirir rodagem. Os veteranos do atual elenco seriam emprestados, negociados, teriam os contratos rescindidos por acordo ou treinariam à parte até o fim dos contratos.

Difícil montar este projeto? Certamente. Impossível? Não, basta uma mudança de postura e comportamento porque, basicamente, trata-se de ofertar ao mercado uma possibilidade de investimento com alto potencial de ganho futuro, devendo-se ter credibilidade para tal. Mas um clube onde há espaço para os Levys da vida não pode tudo. Pode o AAdriano. Pode só qualquer bobagem.

(Fotos: O Globo e Lance)