segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Bissexta - "A Raiva Que Não Passa do Presidente Operário"


Nesta segunda feira, o tema deste blog não poderia ser outro: o diagnóstico de câncer da laringe dado ao ex-presidente Lula no último sábado.

Eu iria escrever sobre o tema, mas a coluna Bissexta, do advogado Walter Monteiro, traz o assunto de uma forma muito mais brilhante. Só tenho a dizer que neste episódio ficou claro o ódio de classe e o sentimento de egoísmo e exclusão de certos setores da sociedade brasileira - a ponto de até órgãos de imprensa conservadores terem sido obrigados a fechar a área de comentários de seus sites dado o ressentimento destilado.

Lamento, também, o comportamento de certos jornalistas torcendo abertamente pela morte do ex-presidente. É um bom sinal de que o jornalismo político no Brasil está cada vez mais político-partidário e cada vez menos jornalismo.

Mas o ex-presidente é mais forte e vai sair desta. Força, Lula!

Vamos ao texto.

A Raiva Que Não Passa do Presidente Operário

Fiz um raio-X da face.  Eu e meu médico quase caímos para trás quando vimos o resultado. Há um espaço mínimo para as minhas vias respiratórias. É uma surpresa que eu nunca tenha me queixado de dificuldade para respirar, pois tenho um quadro claro de rinite não alérgica. Me receitou um remédio e disse que eu deveria notar uma melhora na respiração.

Fui na farmácia munido da receita. A vendedora me perguntou se eu ia comprar o remédio na “farmácia popular”. Frequentador assíduo de farmácias, sempre em busca de fraldas e leite infantil, já tinha visto dezenas de cartazes dessa tal farmácia popular, mas não tinha a menor ideia de como funcionava. A moça me disse que era um programa do Governo, que fornecia gratuitamente, ou com desconto substancial, uma série de medicamentos. O meu, por exemplo, sairia por um terço do preço.

Eu já estava pronto para lamentar que eu não deveria ser elegível ao benefício, até porque não tinha cadastro, inscrição, cartão de identificação ou coisa que o valha, nem estava com vontade de enfrentar um exército de burocracia para receber o desconto, quando veio o gerente me explicar melhor.

Ele me pediu a receita e a minha identidade. Digitou algumas coisas no computador, sem que eu visse do que se tratava. Imprimiu um recibo e me fez assinar. E me vendeu o remédio por um terço do preço, dizendo que daqui a 30 dias eu poderia comprar outro em qualquer farmácia conveniada. Nunca imaginei que fosse tão fácil e tão bom esse programa, que dá desconto até para gente que, como eu, claramente não precisa desse apoio.

Fiquei pensando nesse minúsculo episódio pessoal ao ler as raivosas manifestações da tigrada na web, exigindo que o ex-Presidente Lula vá se tratar pelo SUS.

Para meu gosto pessoal, a saúde pública brasileira está parecida com o time do Flamengo – nem tão boa que a gente possa sentir orgulho, nem tão mal que a gente chegue a sentir vergonha. A imprensa, como é o seu papel, destaca, sempre, as mazelas mais severas, mas há avanços sutis entre o que já vivemos tempos idos e a minha historinha revela um deles.

Muita gente acredita que saúde pública é sinônimo de hospital público.

Não é.

O Sistema Único de Saúde se baseia, essencialmente, na descentralização das atividades desempenhadas pelos governos da União, Estados e Municípios. E a rede privada participa do sistema de forma complementar, mediante convênio. Aliás, dos cerca de 6.500 hospitais que atendem ao SUS praticamente a metade pertence à iniciativa privada.

Portanto, essas manifestações demandando ao ex-Presidente que vá se tratar em um “hospital público” dão a medida do grau de desconhecimento de gente que se acha intelectualmente diferenciada, mas sequer sabe o que se passa no país e onde a população busca serviços públicos de saúde.

Essa gente não tem pudores de manifestar seu preconceito de modo explícito. Nunca, nunca mesmo, se viu mobilização semelhante para que qualquer um dos milhares de políticos fosse obrigado a passar por situação semelhante.

Depois que a gente atinge uma certa idade (uns 30 anos), ir ao médico, fazer exames de rotina e tratar alguma coisa vira uma constante. Idade, vale dizer, já alcançada por todos os políticos. E estão todos eles aí se tratando com seus respectivos médicos particulares, nos hospitais e clínicas particulares, sem despertar qualquer estranheza nos 'neocons' apatetados e desinformados.

Tudo isso porque a raiva do presidente operário não passa. Nem uma doença grave ou um drama pessoal arrefece os ânimos dos ressentidos.

Mas eu vou ser generoso e dar um alento à mesquinharia alheia.

Os políticos brasileiros dividem suas preferências entre os hospitais Albert Einstein (onde faleceu o ex-Presidente Itamar Franco) e o Sírio Libanês (onde Lula está se tratando). Detesto ser estraga prazeres da campanha sórdida de vossas senhorias, mas ambos são um dos muitos hospitais conveniados da rede SUS. Ressalvo que o Albert Einsten tem uma cobertura mais ampla para os usuários do SUS e o Sírio Libanês atua apenas em casos mais restritos

Para poupar trabalho, deixo o link da página do Ministério da Saúde mostrando que há sim hospitais de boa qualidade à disposição de qualquer um.

Sou obrigado a concordar que o digamos "padrão de atendimento" possa não ser o mesmo para os pacientes pagantes e para os não pagantes. Mas essa é uma outra discussão, inclusive de natureza ética. Capaz inclusive de requerer um artigo exclusivo sobre a famigerada "dupla porta", que é o apelido que se dá à prática de encaminhar os pacientes particulares a um setor do hospital e a turma do SUS a outro setor menos luxuoso.

O que importa é saber que ter hospitais de qualidade, ao menos em tese, não é uma exclusividade de ex-presidentes. Mudem de assunto, corvos! Vamos torcer pela saúde de Lula.

(Foto: O Globo)

domingo, 30 de outubro de 2011

Orun Ayé - "Era Uva Vez Um Sonho (Parte II - Final)"

Neste domingo, temos mais uma edição da coluna "Orun Ayé", assinada pelo compositor Aloisio Villar. Hoje temos a segunda parte de sua vitória na disputa de samba da União da Ilha, que começou a ser contada domingo passado.

Em minha opinião, aliás, ele deveria ter ganho sozinho, sem junção a outro samba. Como escrevi em redes sociais no dia da final, a fusão foi mais para atender a interesses da política interna da escola que uma necessidade efetiva de união das composições. Respeito a decisão tomada, mas discordo - entretanto, isto é passado e este é o samba oficial.

O certo é que, ganhando sozinho ou com junção, nosso colunista merece muito esta conquista.

Passemos ao texto.

Era Uva Vez Um Sonho (Parte II - Final)

Como prometi semana passada prossigo hoje com a séria série “Era uma vez um sonho”. Hoje com seu desfecho, embora o Migão tenha estragado a surpresa domingo passado...

Para explicar a disputa de samba para o carnaval de 2012 tenho que voltar no tempo, a abril de 2010. Estava meio desestimulado com samba e o meu parceiro Cadinho ficava no meu ouvido sempre dizendo que um amigo nosso em comum, Jair Turra, queria fazer samba na União da Ilha e tinha outro amigo para investir. Compositor já ouviu essa história de alguém querendo investir inúmeras vezes e quase sempre é “furada”. Eu ouvia e nem ligava. Como naquele abril a Bia, minha namorada da época, viajou à Europa e eu fiquei de bobeira, aceitei ir com os dois ao encontro da pessoa.

Fui apenas pelo passeio, sem empolgação nenhuma. Disputa na Ilha é caríssima, não tínhamos dinheiro, política, nada: era chegar de novo entre os dez melhores e ser eliminado da disputa, como já estava me acostumando.

Chegamos ao apartamento dele. Um apartamento bonito, luxuoso, na orla de Niterói. Comecei a achar que talvez fosse uma boa ter ido lá. Fomos apresentados ao Adriano e ele pediu que falássemos de nossas pretensões. Eu fiquei encarregado disso. Falei, contei nosso currículo, que fizemos final com o Walkir em 2009. Ele gostou e já estava propenso a aceitar entrar na parceria até que o Cadinho deu idéia de ligarmos para o Carlinhos Fuzil.

Fizemos samba no Boi da Ilha com o Fuzil no ano anterior e eu falei que não adiantava ligar pra ele. Fuzil já havia ganhado cinco vezes na União e com certeza já teria parceria montada. Cadinho insistiu e por desencargo de consciência liguei. Resultado: Fuzil não tinha parceria, só um rapaz que havia lhe procurado para fazer samba. Pela regra da escola seis pessoas podiam assinar o samba e com os dois dava seis. Ficamos então de nos encontrar. Cheguei ali com nada, saí de lá com tudo. Tinha a grana com o Adriano e a política com o Fuzil. Já dava para sonhar chegar à final.

Faltava a cereja do bolo ainda... Ela se chamava Roger Linhares.

No nosso encontro com Fuzil e Fabiano Fernandes, o seu parceiro, fechamos o grupo e eu dei a idéia de convidarmos o Roger para cantar o samba. O Roger já tinha uma estrada boa na União, defendeu sambas vencedores, foi cantor da escola e era um ótimo cantor e melodista. Convidei e ele topou. Acabou que ele se envolveu na elaboração do samba e tornou-se parceiro dele - só não assinando porque extrapolava o limite.

Com nós sete somados a Ronaldo Ylê e Bujão nos vocais, Biju e Nelson no cavaco e Wagner Mariano no violão fomos pra disputa:

UNIÃO DA ILHA 2011 
O MISTÉRIO DA VIDA (SAMBA CONCORRENTE)
(CARLINHOS FUZIL, ALOISIO VILLAR, CADINHO, ADRIANO SILVEIRA, FABIANO FERNANDES, JAIR TURRA E ROGER LINHARES)

O sopro de magia
Me põe a bordo a pesquisar
O ventre da mãe natureza
As profundezas do mar
Seres ganham forma, tudo se transforma   
Pra buscar a terra, o ar
Arvoredo que o fruto germina
A vida em seu despertar
Somos uma obra em construção
Oh sublime inspiração

E a vida é bonita
Mistérios eu vou desvendar
O segredo descubro um dia
Quem viver verá


E nas viagens que faço
A cada passo que dou
No esplendor da natureza
Vejo brotar o amor
Na beleza da fauna e da flora
Esperança no amanhã que vai nascer
É preciso que o homem busque sua evolução
Nesse momento de graça
Um brinde a nossa união

Chegou a Ilha
É hoje o dia da alegria
Celebrando o show da vida (lá vou eu)
O rei mandou cair na folia

Durante a disputa ganhamos apoio financeiro do nosso amigo Marcelo Cossito e tivemos o renomado cantor Wander Pires para nos ajudar a defender o samba na quadra. Eu nem queria botar samba e acabei com minha parceria chegando à final. Minha primeira final no Grupo Especial. Chegamos com um samba bonito, forte e não vencemos por detalhes.

Era o começo da caminhada.

Um ano se passou e a parceria teve poucas mudanças, mantendo sua espinha dorsal. Adriano desistiu do samba-enredo e Jair Turra foi para outra parceria. Chegou para compor Jorginho, campeão da escola em 2007 e a parceria fechou em nós seis: eu, Fuzil, Cadinho, Roger, Fabiano e Jorginho. Entretanto, o drama era que a escola diminuiu de seis para cinco os compositores que poderiam assinar o samba. Começamos o processo de disputa sem definir quem ficaria de fora e foi assim até o dia da gravação. Gravamos e depois numa reunião tensa e triste o Jorginho decidiu que viria sem assinar, em uma atitude de hombridade.

Foi uma criação de samba tensa também, onde mudamos várias vezes a letra. O renomado compositor e cantor insulano Mauricio 100 viria conosco, mas por questões pessoais não veio. Ele já tinha feito uma letra e essa já tinha melodia antes mesmo da entrega da sinopse. Com ela nas mãos vimos que tinha nada a ver com o samba, aí já foi a primeira mudança - primeira de muitas.

Em uma dessas reuniões o Roger veio com idéia de “molho inglês na feijoada /chá com cachaça”. Achamos aquilo estranho, eu não gostei, mas ele insistiu muito e topamos. Demorou muito para eu gostar daquilo. O carnavalesco Alex de Souza também estranhou quando viu. Disse que não estava errado, mas era por nossa conta e risco. Decidimos manter e depois de algumas reuniões com ele a letra do samba foi aprovada.

No dia 7 de agosto de 2011 iniciou-se a disputa da União da Ilha pro carnaval 2012, na quadra da Associação Atlética Portuguesa devido a obras na quadra da escola. Saíram Ronaldo Yllê e Bujão dos vocais e entrou Flávio Martins, saiu Wagner Mariano e entrou Odilon no violão, Nelson saiu por um tempo do cavaco entrando Gabriel Fraga, mas depois voltou e assim fomos para a disputa.

UNIÃO DA ILHA 2012
DE LONDRES AO RIO..ERA UMA VEZ UMA ILHA (SAMBA CONCORRENTE)
(CARLINHOS FUZIL, FABIANO FERNANDES, ALOISIO VILLAR, CADINHO, ROGER LINHARES E JORGINHO)

Era uma vez uma Ilha
Um bravo império que o tempo formou
Com sua lança, fé e esperança
Por terras cruzou
Sou mago e rei, corações roubei 
O mar conquistei e fui mais além
Lá vem o trem ao som do big bem
Olha bicho paz e amor suingou
Batuquei meu samba com rock`n roll
A bola rolou, é gol
Teatro, cinema, a arte a brilhar
“Deus salve a rainha” das ilhas de lá

Vou botar molho inglês na feijoada
Misturar chá com cachaça
Na avenida sou rei, um sonhador
Meu reino é a Ilha do Governador


Amor cheguei, desembarquei
Na terra da folia
De azul, vermelho e branco
Vesti meu manto e caí na folia
Salve meu padroeiro de fé
Abençoe o mundo inteiro
Nos jogos da paz, a chama brilhou
Não há fogo que apague esse amor

A hora é essa, a festa já começou
Essa cidade é um show, maravilhosa e feliz
Essa é o Rio que eu sempre quis


Perdemos o suporte financeiro do Adriano, mas Marcelo Cossito não nos deixou faltar nada. Tivemos dinheiro e principalmente um samba muito forte que ficou mais forte ainda com a entrada de Quinho do Salgueiro. Ele, que foi tema de uma coluna minha no dia que começou a defender nosso samba. A composição foi conquistando a quadra, as pessoas na internet e ganhando ares de favorito. Isso fez com que ele começasse a receber bombardeios, como falarem que a letra estava errada. Uma briga acirrada com a parceria tricampeã começou, briga sadia na quadra e nos bastidores. A União da Ilha se dividia entre os dois sambas.

Um considerado mais “enredado”, o outro mais alegre, com “a cara” da agremiação.

E eu ficando tenso vendo que aquele sonho de anos estava palpável. A parceria tensa pela disputa difícil. O samba cada vez mais dava show na quadra e enquanto ele esquentava a Portuguesa os bastidores ferviam. Até que faltando duas semanas para a grande final surgiu o papo de junção e uma junção entre nosso samba e o deles. O papo aumentava cada vez mais e isso aumentava a tensão. Não aceitava mais perder a disputa, não passava pela minha cabeça perder de novo, não podia perder com aquele samba

Queria ganhar, mesmo que fosse empatado.

A última semana foi tensa demais. Dificuldade para dormir devido a 'disse me disse', fofocas. A parceria discutia, brigava, ficava sem se falar. Problemas ocorriam e faziam a gente pensar que ficaria de fora da junção que já era anunciada a torto e a direito pelo presidente da escola. Só não dizendo de quem com quem. [N.do.E.: agora eu posso falar: a letra da junção aterrisou no meu e-mail de forma misteriosa na terça feira antes da final. Exatamente a que se tornaria definitiva. Obviamente, não foi o colunista quem me enviou]

Chegou o dia da final. Dia chuvoso e fui entrevistado na quadra, com a imprensa dizendo que o presidente tornara oficial que teria uma junção [N.do.E.: em "O Globo Ilha" daquele dia o Presidente anunciara formalmente a fusão]. Todos os caminhos levavam para uma junção nossa com a composição da parceria tricampeã. Seria minha primeira vitória na União da Ilha.

Mas mesmo assim só acreditaria no anúncio.

Fizemos uma apresentação unânime, magistral, inesquecível, para não deixar dúvidas da força de nossa parceria e de nosso samba. Demorou alguns minutos e o presidente da escola começou a falar [N.do.E.: ouvi a final pelo rádio e este discurso foi uma das coisas mais bizarras que ouvi em uma escola de samba nos últimos tempos. Que fique claro que é minha opinião, não a do colunista]. Um filme passava pela minha cabeça enquanto ele falava.

Lembrei do menino Aloisio com oito anos de idade virando União da Ilha numa apuração. De todos os anos que via seus desfiles sozinho na frente da TV emocionado e cantado o samba, seja aqui no Rio ou no interior do Mato Grosso. Lembrei de mim entrando tímido na escola para pegar minha primeira sinopse, das quedas em primeiras eliminatórias no início, de tudo que passei para chegar ali.

Todos os sonhos com aquele momento, com aquele anúncio, de tantas vezes que imaginei aquele instante e como seria minha reação. O meu maior sonho no samba, um dos maiores da minha vida a poucos instantes de ser anunciado. O microfone já estava com o Ito Melodia, intérprete oficial da escola, para cantar a junção (no alto do post).

E ele começou pela primeira parte do samba, que era a parte deles como já previa. Imaginava que nossa parte viria no refrão do meio.

Nunca vi uma primeira parte demorar tanto pra ser cantada. Fechei os olhos com pessoas me abraçando e querendo que chegasse logo o refrão do meio. Vinte e seis anos de vida passando aqueles versos de forma acelerada e lenta ao mesmo tempo e eu pensava: “Cadê, meu Deus?? Cadê o molho inglês na feijoada?? Vem logo pelo amor de Deus!!”

Sentia a presença da minha mãe comigo ali e isso me fazia forte. Ter a certeza da presença daquela mulher que catou chorando minhas bandeiras na minha primeira derrota em samba quatorze anos antes. Aquela com quem eu sonhei na noite anterior e no sonho ela me abraçava e dava parabéns pela junção e que tinha orgulho de mim.

A primeira parte do samba ia acabando, ia entrar o refrão e ali teria certeza se o sonho se realizaria ou não, até que...

...VOU BOTAR MOLHO INGLÊS NA FEIJOADA, MISTURAR CHÁ COM CACHAÇA!!

O Ito cantou!! Cantou o molho inglês na feijoada. Um choro compulsivo tomou conta de mim, as pessoas se jogavam chorando por cima. Um sonho se realizava naquele momento e dizem que quando um sonho se realiza Deus sorri no céu. O sonho de uma vida.

Eu era campeão da União da Ilha do Governador, para sempre campeão da União da Ilha do Governador, uma das maiores escolas de samba do planeta e como sempre sonhei, com samba sendo consagrado na quadra e pela imprensa. Foram apenas cinco versos do nosso samba, mas a cada verso caía uma lágrima de felicidade. Cinco versos fortes, que representavam o nosso samba e que hoje fazem toda a diferença no samba oficial da escola.

Voltei a subir ao palco da União da Ilha: dessa vez não fui barrado por segurança, fui puxado pela Harmonia. Subi ao palco campeão da escola como havia prometido quatorze anos antes. Subi para festejar a minha vitória e tenho certeza que minha mãe subiu junto chorando que nem o filho bobo dela.

Nunca entrei para o Colégio Militar, o Flamengo continua perdendo pra times pequenos, não me adaptei ao aparelho dentário e continuo dentuço e continuo perdendo mulheres que amo para amigos. Mas também continuo completamente apaixonado pela União da Ilha do Governador e sei que hoje aquele menino de oito anos tem orgulho do menino de trinta e cinco.

Era uma vez um sonho realizado...

UNIÃO DA ILHA 2012
DE LONDRES AO RIO..ERA UMA VEZ UMA ILHA (SAMBA OFICIAL)
 
(ALAN DAS CANDONGAS, ALBERTO VARJÃO, ALOISIO VILLAR, CADINHO, CARLINHOS FUZIL, EDU COTRIM, FABIANO FERNANDES, MARCIO ANDRÉ FILHO, MARQUINHUS DO BANJO E ROGER LINHARES)
 
Uma história vou contar
Tem lendas, mitos e magia
Era uma Ilha onde um povo valente vivia
E um grande império conquistou
Virou cidade das realezas
Um “reino unido” e seus heróis
Peguem as armas diz a voz
De um santo guerreiro
Os bravos vão lutar, cruzar fronteiras
Com sua fé estampada na bandeira

Vou botar molho inglês na feijoada
Misturar chá com cachaça
Ser ou não ser, eis a questão
Tem choro e riso nesse palco de ilusão


Vão conquistar o mar e grandes tesouros 
Guiados pelos olhos da ciência
Lindos contos vão brotar
A luz do cinema é a arte a brilhar
Olha bicho paz e amor suingou
Batuquei meu samba com rock`n roll
Na minha terra tem o reino da folia
Futebol que contagia, é gol
É a vitória, um momento divinal
Acendo a chama pela paz universal

A minha Ilha é ouro, é prata
Tem o bronze da mulata
Canta meu Rio em verso e prosa
Com a cidade ainda mais maravilhosa


“E nesse momento componho junto com meus parceiros nosso samba pra disputa de 2012 pra quem sabe um dia alguém escrever a história do samba da Ilha do Governador e meu nome acompanhar esses imortais. Será que eu serei o dono dessa festa? O meu destino será como Deus quiser.” (Coluna pro Ouro de Tolo “ Uma Ilha cercada de samba”)

 “Onze anos quase se passaram, muitas coisas ocorreram, mas parece que foi ontem. Relembro essa vitória, essa odisséia de 2001 nesse momento que começo a busca do último sonho que me falta no samba. A conquista da União da Ilha do Governador. Que os bons fluídos de “Orun Aye” nos soprem para De Londres ao Rio, era uma vez uma Ilha”  (Coluna pro Ouro de Tolo “Vai começar de novo..2001 uma Odisséia na Sapucaí”)

É... deu certo.
Orun Ayé!

sábado, 29 de outubro de 2011

Viajando: "Outubro Rosa"

Seja Rosa contra o câncer de mama


Hoje a coluna "Viajando", da colunista Adriana Martins, está um pouco diferente. Ela fala do "Outubro Rosa", campanha de conscientização contra o câncer de mama, com um depoimento absolutamente pessoal. Passemos ao texto.

"Outubro Rosa

Em outubro de 1999 recebemos aquela que parecia ser a pior notícia de nossas vidas, minha mãe, então com 64 anos foi diagnosticada com carcinoma mamário, o temível câncer de mama. Naquela época não tínhamos muitas informações sobre a doença e ficamos muito preocupados com o desenvolvimento de tudo aquilo.

Minha mãe fazia exames regulares, havia feito uma cirurgia de redução das mamas dois anos antes e não sentia nada que a fizesse sequer imaginar o que estava por vir. 

Mas a médica havia sido categórica, a cirurgia se fazia necessária e urgente. Foi marcada então para o dia 25 de outubro daquele ano e minha mãe sempre serena pareceu desabar. 

Ela sempre foi muito fechada e nunca conversávamos muito sobre o assunto, mas eu sabia que aquela notícia a havia tirado o chão. 

No dia marcado estávamos lá, eu e ela. Minha irmã com duas filhas pequenas em casa aguardava ansiosa por notícias. 

A cirurgia transcorreu super bem, mas a suspeita se confirmou o processo cirúrgico adotado foi a quadrantectomia e minha mãe já saiu do hospital com as sessões de radioterapia agendadas. Foram muitas. E dolorosas.

As queimaduras na pele eram visíveis e a cicatrização muito demorada. 

Após todas essas sessões, novos exames e um novo diagnóstico, seria necessário continuar o tratamento com quimioterapia. Esta foi a pior notícia após a cirurgia. A preocupação da vaidosa Dona Alba era com os cabelos e o que a quimio poderia fazer com eles. Mas não havia alternativa e lá fomos nós enfrentar sessões intermináveis de um tratamento altamente agressivo. 

Foi uma fase muito ruim, pra minha mãe que sofria horrores após cada sessão e pra mim, que sofria junto com ela, pois não havia nada que eu pudesse fazer a não ser emprestar minha presença. 

Após tudo isso a boa notícia, não havia mais sinais das células cancerígenas, mas os exames seriam feitos a cada mês, três meses, seis meses e por fim anualmente. Durante 5 anos o período é chamado de remissão, onde o paciente não apresenta nenhuma célula cancerígena, mas ainda não é considerado curado. 

Hoje, 12 anos após o diagnóstico e cirurgia minha mãe pode ser considerada curada pela medicina, mas eu a considero uma vencedora! Ela lutou a cada dia para que o diagnóstico negativo não fosse impedimento para que ela continuasse vivendo. Ela é meu maior exemplo. 

Porque tudo isso aconteceu eu faço mamografias regulares desde os 30 anos. E todo ano minha mãe me liga pra me lembrar do meu compromisso com o exame. 

Hoje ela está com 76 anos e super saudável. Viaja todos os anos e aproveita a vida da melhor maneira possível, mas nunca esquece de tudo que passou e tem certeza que se não fosse o diagnóstico precoce, a história seria outra. 

P.S.: e após tantas sessões de quimio os cabelos da minha mãe não cairam... no final eu não sei se ela estava mais feliz pelo fim da doença ou por não ter ficado careca... risos

O diagnóstico de câncer, embora assustador, é básico para o processo de conhecimento da doença e do tratamento que o paciente necessita para curar-se. E o processo ensina muita gente a aceitar o problema e lutar pela vida. (http://www.vidaintegral.com.br/noticias.php?noticiaid=316)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Final de Semana - "Velho Amigo"




Bom, o leitor deve ter visto a entrevista de hoje com o compositor Luiz Carlos Máximo. Nela, ele fala de uma parceria com o gênio Paulo César Pinheiro, e como surgiu a música.

E "Velho Amigo", na interpretação da cantora Luiza Dionísio, é a nossa música para o final de semana. A canção é uma homenagem ao compositor Aldir Blanc, que Paulo César escreveu e Máximo musicou. A letra está abaixo:

Meu velho amigo já de tantos anos
Meu grande irmão em todos os momentos
Teus cantos são tu sabes bem alentos
Tal como os meus pros corações humanos

Em cavaquinhos violões pianos
Nossa poesia segue os mesmos ventos
E um trono ocupa nos meus sentimentos
Estes teus sentimentos soberanos

Teus versos são pra mim vendo de longe
O vinho puro que fabrica o monge
A água podre que atravessa o mangue

Temos na veia o sangue dos boêmios
E o nossos versos podem não ser gêmeos
Mas com certeza são irmãos de sangue

Jogo Misto - Luiz Carlos Máximo


Luiz Carlos Máximo, 50 anos, nascido e criado na Vila da Penha. Compositor com músicas gravadas por vários destaques da MPB e parceiro de nomes como Wanderley Monteiro e Paulo César Pinheiro. Tricolor (ninguém é perfeito) e portelense.

Máximo também é um dos autores do antológico samba que a Portela levará para a Marquês de Sapucaí em 2012, "É feito uma reza, um ritual", tema de três posts neste blog. E a campanha a favor deste samba acabou nos aproximando, em especial pelo meio virtual.

Luiz Carlos Máximo é o entrevistado de hoje da coluna "Jogo Misto" do Ouro de Tolo.

1 - Bom, vamos iniciar pelo motivo de nossa amizade. Como surgiu o samba campeão de 2012?


LCM - Eu e o Toninho Nascimento, que éramos fundamentalmente responsáveis pela letra, conversamos sobre o estilo de samba que pretendíamos e vimos que estávamos na mesma sintonia. Iniciamos o processo tanto de letra como melodia. Mostramos ao Wanderley o que já tínhamos feito e o espírito que queríamos para a composição. O Wanderley entendeu, e juntos compusemos.

2 - E de onde surgiu a idéia de se fazer uma composição que fugisse aos atuais padrões de samba enredo?

LCM - A insatisfação com os rumos do samba enredo já vem sendo manifestada há muito tempo.

E neste ano tive a oportunidade de assistir a dois seminários sobre o tema, onde se discutiu sobre essa insatisfação e as causas. Percebi, principalmente nos plenários dos eventos, uma ansiedade grande por mudanças.

O que afligia a mim e aos meus parceiros também acontecia com os admiradores do gênero. Discutimos isso e resolvemos tentar fazer algo que saísse da mesmice. E o enredo facilitou a tarefa.

3 - O samba não tinha uma estrutura empresarial por trás. Como se montou a estrutura necessária para a disputa? Quanto aproximadamente a parceria gastou até a vitória final?

LCM - Com muitas dificuldades conseguimos gravar o samba, mas no dia da inscrição ainda discutíamos se iríamos participar da disputa. Apesar de algumas boas medidas da direção da Portela terem diminuído bastante os custos dos compositores (proibição de alegorias, competição curta e ingressos para torcida), não tínhamos como arcar com as despesas que são necessárias a fim de se disputar para valer.

Resolvemos então colocar o samba e apostar que a qualidade da composição atraísse pessoas amigas, que acabaram nos ajudando [N.do.E.: de forma modestíssima, uma delas foi este blogueiro]. O custo ficou em torno de R$ 25 mil.

4 - Facilitou o fato do carnavalesco da escola ter dito que o samba não precisaria ficar "engessado" à sinopse?

LCM - Foi fundamental. Não só a sinopse como a liberdade que o Paulo Menezes nos deu quando conversamos com ele sobre a nossa ideia. O Candeia já havia dito´: "A arte é livre e aberta à imagem do ser criador".

5 - Vocês imaginavam a repercussão que o samba teria?

LCM - Jamais.

Quando terminamos a composição ficamos bastante felizes com o resultado. Mas eu achava que o samba iria causar dois tipos de reação: uns amariam e outros odiariam. Porque - felizmente errei na minha avaliação - achava que uma parte dos admiradores de samba enredo já estaria com os ouvidos padronizados de uma tal forma que rejeitariam um samba diferente do que vem sendo composto.

Mas que nada. Após a inscrição, à noite em casa, fui ver a repercussão. Não dormi mais. Os comentários nos sites especializados, as mensagens por email, nas redes sociais e por telefone foram muito emocionantes. Lembro-me que o Naldo, um cara experiente em disputa de samba enredo, me ligou na madrugada, se desculpando pelo horário, emocionadíssimo com a repercussão.

A avalanche começou no primeiro dia. E os comentários eram bons demais. Chorei muito.

6 - Qual a avaliação que você faz do modelo atual de samba enredo?

LCM - Olha, antes de falar do samba enredo atual é preciso discutir as dificuldades que são colocadas para os compositores atuais.

O andamento, que já é um tema batido, é o primeiro obstáculo. A aceleração é inimiga da beleza da melodia. Outro fator que complica são os enredos. As escolas em busca de patrocínios para atender a demanda do carnaval luxuoso escolhem enredos que dificultam - tanto na feitura da letra como também não são musicais.

A forma de disputa também é ruim. A necessidade de um alto investimento financeiro afasta ótimos compositores e inventa outros. E mesmo quando se faz um esforço a disputa muitas vezes é desigual, em razão dos, digamos, "conglomerados" do samba enredo.

Tem também uma  confusão estética que se faz, que é atualmente hegemônica e é prejudicial ao gênero, e é preciso que se dissipe. Acham que alegria só é encontrada em notas agudas.

Então, se você faz um samba com determinados trechos melódicos com notas graves, dizem que afunda e perde a alegria. Tem na história do samba enredo vários sambas antológicos com notas graves e não são tristes. O samba sem a combinação necessária de notas agudas e graves fica muito igual, linear.

Certa vez o compositor, músico e arranjador Claudio Jorge disse assim: "As escolas deixaram de ser de samba pra ser de carnaval". Ou seja, o negócio não é sambar mas pular carnaval. Tá bom que o andamento em consequência da grandiosidade do número de componentes e o tempo de desfile tenha causado isso. Mas temos que sempre tentar não deixar perder a cadência do samba. O samba não é para pular e sim para dançar.

O carnaval do Rio é com o pé no chão. Não pode perder essa característica.

7 - Você vem disputando sambas enredo na Portela desde que ano? Como chegou à Ala de Compositores da escola?

LCM - Em 2004, pelas mãos do então diretor cultural Carlos Monte, que nos conhecia das rodas de samba, sabia que eu e o Wanderley Monteiro éramos portelenses e nos convidou para integrar a ala. Fizemos um samba para a disputa de 2005, mas fomos cortados na fita.

Ficamos chateados, mas resolvemos entrar pela porta da frente, como antigamente, nos inscrevendo no festival de samba de terreiro. Chegamos à final e entramos definitivamente para a ala. No festival seguinte fomos campeões. O Gilsinho gravou este samba ("Novo Enredo) num CD que foi produzido pela Secretaria Estadual de Cultura.

8 - Além deste ano você venceu em 2009 e 2011, com parcerias ligeiramente diferentes. Quais as diferenças entre estas duas disputas e as de 2012?

LCM - Composição é como filho e toda vitória é sagrada. Mas esse ano teve um sabor especial por tudo que envolveu esse samba e essa disputa.

E cito as razões: É um samba que traduz fielmente a nossa trajetória musical e a nossa concepção estética;  a luta contra as dificuldades financeiras; a participação dos portelenses na quadra, na internet, em defesa do samba que queriam foi também muito emocionante; a repercussão, não só pela natural vaidade de ver sua obra elogiada, mas em virtude da demonstração que o gosto musical não está pausterizado, e que há espaço para que o compositor possa criar livremente.

Essa vitória, além de ter sido ótima para a Portela -  a manifestação na quadra após o resultado e a alegria da escola demonstram isso - também tem a importância de abrir janelas e portas para a ousadia. Tudo isso deu a essa vitória o diferencial sobre as outras.



9 - Em 2008 (acima) seu samba era considerado por muitos o melhor da disputa, mas não se sagrou vencedor. Como era aquela composição? O que faltou para vencer?

LCM - Em todos os sambas anteriores a parceria era só eu e o Wanderley. Nessa, nos juntamos ao Toninho Geraes e o Toninho Nascimento. E o resultado musical foi maravilhoso. Tem gente que canta esse nosso samba até hoje.

Mas ainda éramos 'crus' na disputa. Depois argumentaram que perdemos porque nosso samba não retratava carro a carro do que a escola apresentou na avenida. Mas a repercussão desse samba também foi maravilhosa. Lembro-me que levamos para a final somente dois ônibus e uma van (risos). Quando o samba foi apresentado a quadra superlotou. Um grande número de portelenses, que nem conhecíamos, aderiu.

A Portela tem isso. E são essas pessoas que desmentem quem diz que o amor pela escola não existe mais. Vai lá na Portela que verá o contrário.

10 - Qual a avaliação que faz do momento atual da Portela? O que falta, a seu ver, para a escola se tornar novamente campeã do carnaval?

LCM - O momento não poderia ser melhor.

O samba é a alma da escola. E a escolha deste samba trouxe um outro astral para a Portela. A escola está unida e feliz. Esse é um fator importante para uma agremiação que quer ser campeã. E o portelense, com seu passado de glórias, tá com sede de vitórias. E unido e alegre é uma potência.

E o que é mais importante nisso tudo, é que o carnaval de hoje o que predomina é o visual, e a música virou descartável. Mas o samba é o samba. Quando tudo parece estagnado, o samba vem e demonstra que ele é o "senhor" das escolas.

11 - Você nasceu e foi criado na Vila da Penha. Como se tornou portelense?

LCM - Pela proximidade do bairro com Madureira, na Vila da Penha tem muito portelense e imperiano. Meu pai torcia pelo Império, por exemplo [N.do.E.: mais um ponto em comum com este blogueiro: somos portelenses filhos de pais imperianos].

Mas eu me decidi pela Portela por causa de um LP do Paulinho da Viola, que era do meu pai. Na adolescência, na contramão dos gostos do meus amigos do bairro, ouvia música brasileira. E aí peguei o LP "Foi um rio que passou em minha vida" e não devolvi mais. Passei a me interessar pela trajetória do Paulinho, meu ídolo até hoje, e me decidi pela Portela.

Quando conheci as obras dos outros compositores portelenses, principalmente da Velha Guarda, o amor pela escola se concretizou. Pra você ver a importância que tem os sambas de terreiro. Eu me tornei Portela não pelo samba enredo, mas pelos sambas chamados de "meio de ano".

12 - O que é ser portelense?

LCM - Eu poderia responder com um samba em parceria com o Wanderley Monteiro:

"Um certo dia/ Alguém me perguntou/Por que eu sou Portela/ Eu respondi de imediato/ Que o samba lá é bom de fato/E a escola é a mais bela/ Falei dos seus fundadores/ Dos poetas e cantores/ Da nossa velha jaqueira/ Das pastoras e passistas/ Mestres-salas e ritmistas/Baianas e porta-bandeiras/

Eu juro que eu sei/Que impressionei aquele interlocutor/Mas depois me perguntei/ Se tudo explicava esse meu grande amor/Vaguei e divaguei e não cheguei/ A nenhuma conclusão/ Hoje se alguém me perguntar eu digo então/Não existe o que define uma paixão'.

Ser Portela é ter "os pés e pescoço ocupados", como disse Paulo da Portela, que resumiu os valores intrínsecos de um portelense.

13 - O que o Luis Carlos Máximo faz fora da composição musical e do carnaval, como profissão? Como conciliar as atividades?

LCM - Sou jornalista e estou voltando a trabalhar no serviço público federal. Conciliar o tempo não é um grande problema, até porque nunca me aventurei a cantar, fazer shows. E sempre encontro tempo pra compor.

14 - Você foi parceiro daquele que a meu ver é um dos únicos gênios vivos da música brasileira, Paulo César Pinheiro. Como foi compor em parceria com ele?

LCM - A parceria com o Paulo César Pinheiro veio por meio de um soneto que ele escreveu em homenagem ao Aldir Blanc ("Velho Amigo"), e foi publicado numa revista.

Eu li, gostei de imediato e tentei musicar. Gostei do resultado e muito tempo depois fiz uma gravação com a cantora Luiza Dionizio e levei para ele. Passado um tempo ele me ligou me parabenizando e autorizou a parceria.

Palavras que eu jamais vou esquecer: "Rapaz, parabéns. Ficou ótima a música. E olha que um soneto é difícil de musicar. Tenho vários parceiros que não conseguiram. Mas você conseguiu. Tá autorizada a parceria." Depois nos encontramos outras vezes. E a Luiza gravou no lindo CD "Devoção".

15 - Paulo da Portela anda relativamente esquecido nos dias de hoje. Qual foi a importância dele para o mundo do samba e a Portela?

LCM - Paulo, além de ser um dos fundadores da maior escola de samba (risos) e um dos grandes compositores do samba, é uma das maiores lideranças populares surgidas no país. Paulo lutou pelo reconhecimento do samba e pela dignidade do sambista.

Muitos dos avanços conquistados pelo samba e sua gente, e das próprias escolas de sambas, se deve a este cidadão portelense.

16 - Qual a avaliação que você faz da gestão de Peter Siemensen em seu Fluminense?

LCM - Não digo decepcionante porque não votei nele e logicamente não achava que seria a solução para o meu Tricolor.

Mas como o Fluminense vem há muito tempo com gestões horrorosas, achei que ele se destacaria rapidamente. Afinal, para ser melhor do que o Horcades não é preciso muito. Mas é mais do mesmo. Pode fazer uma reforminha aqui outra ali, mas está longe de ser o presidente que o Fluminense precisa, como muitos acreditavam na época da eleição.

17 - E sobre a política brasileira?

LCM - O pragmatismo e a nova forma de militância que predomina na maioria da esquerda brasileira me fazem ficar observando de longe. Eu não acredito em mudanças que não passem pelo agente transformador, ou seja, a atuação nas regiões em que se localizam pessoas que "não têm o que perder a não ser suas cadeias".

18 - E o que acha da questão do direito autoral no Brasil? Em sua avaliação, qual é o papel do Ecad neste processo?

LCM - É vergonhoso.

Ecad, editoras/gravadoras, associações de compositores, rádios, TVs. É tudo parte de um único processo em que o criador é prejudicado. No samba, onde a maioria dos autores é de gente humilde e pouco esclarecida sobre esse assunto, o prejuízo é maior ainda.

Quando um compositor é conhecido, com espaço na mídia, e bota a boca no trombone, parece que o problema individual é resolvido. Porque, logo depois, você não vê mais nada no jornal, nos meios de comunicação, e o tal compositor não fala mais nada. É estranho.

Agora, eu não comunguei dessa campanha contra o Ecad. O órgão sempre foi conhecido por ser um antro de irregularidades. Mas descobriram isso agora? Por que a Globo de repente começou a denunciar o Ecad? Será que não tem a ver com o fato da pendenga judicial em que a emissora não aceita pagar os direitos autorais como têm que ser pagos?

E além disso existe um movimento em defesa de um projeto de "flexibilização dos direitos autorais", que, caso seja aprovado, será a 'farra do boi'. Usam esse termo "flexibilização", como usaram em relação aos direitos trabalhistas, pra esconder o significado correto que é o fim dos direitos.

Mas por isso o Ecad tem que continuar deste jeito? Claro que não. Mas isso compete aos maiores interessados que são os autores, que estão sendo prejudicados há muito tempo. Mas reconheço que a briga é difícil pela falta de organização dos compositores, ignorância no assunto e pelo adversário que tem pela frente.

Essa discussão remete à questão da concessão dos meios de comunicação, inclusive.

19 - Um samba inesquecível. Por quê?

LCM - "Foi um rio que passou em minha vida", por tudo que já expliquei. Samba enredo, cito o "Lapa em Três Tempos". Pra mim, o maior da minha escola.




20 - Um desfile inesquecível. Por quê?

LCM - Em 1995. A Portela veio linda, emocionante e foi a volta do Paulinho da Viola à escola. O resultado do carnaval foi criminoso.

21 - Livro ou filme? Por quê?

LCM - Pergunta simples, mas difícil.

Vi e li coisas excepcionais. Então vou citar os mais recentes. Estou lendo "Jogo Sujo: O mundo secreto da FIFA" do jornalista inglês Andrew Jennings e curtindo muito o cinema argentino.

22 - O que pensa da literatura disponível sobre carnaval?

LCM - Tem pouca coisa pela importância que tem o carnaval para o brasileiro. A melhor coisa recente sobre o tema que eu li foi o livro sobre samba enredo do Luiz Antonio Simas e Alberto Mussa [N.do.E.: já resenhado neste blog].

23 - Qual o recado que você daria aos portelenses leitores deste blog?

LCM - Portelenses, vocês fizeram história nesta disputa. Agora, avante portelense para a vitória!

24 - Finalizando, com os agradecimentos do Ouro de Tolo, algumas palavras sobre o blog ou seu autor/editor.

LCM - A internet a cada dia se firma como um dos mais importantes veículos de comunicação. E como no rádio, no jornal, na TV, tem coisas muito boas e besteiras. E é bom ser livre para optarmos.

O blog Ouro de Tolo é uma das boas coisas da internet e o dono da área é portelense de verdade. Tem um grave problema que é torcer para o futebol da dissidência tricolor. Mas a gente vai levando-o com a "barriga".

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Khadafi, Marcelo Freixo e Beltrame: o que eles tem em comum?


Dois assuntos bastante palpitantes ocuparam o noticiário nos últimos dias, ambos distantes mas ao mesmo tempo próximos: a execução do ex-presidente líbio Muanmmar Khadafi (na foto acima, em 2009 com Barack Obama) e a denúncia de que haveria um plano para executar o deputado Marcelo Freixo e o Secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame.

Por mais que o ditador líbio fosse um tirano, com uma longa lista de crimes por trás de seu governo, era também um detentor de segredos importantes norte-americanos: foi aliado de vários governos, aliado da agência de inteligência (a CIA) e em várias situações operou a serviço de interesses norte americanos - em especial na questão do petróleo. Sua eventual prisão poderia trazer bastante embaraço ao governo estadunidense, haja visto o cabedal de conhecimento de que ele dispunha - em português claro, era um "arquivo vivo".

Vale lembrar que uma semana antes de seu assassinato a Secretária de Estado norte americana Hillary Clinton deu declarações no sentido de que esperava que o ex-presidente líbio não vivesse muito mais tempo. Curiosamente, ele foi capturado vivo e sumariamente chacinado, em um ato de execução e barbárie que não ficou nada a dever ao procedimento do regime anterior.

Ainda mais quando se soube depois que centenas de correligionários de Khadafi foram assassinados nos mesmos dias, em uma verdadeira caçada às bruxas. Não houve prisões, julgamentos, nem qualquer coisa minimamente próxima a um processo. Apenas vingança - e, convenientemente, mais alguns "arquivos vivos" convenientemente silenciados.

A propósito, como afirmei em artigo anterior, é curioso que a Otan e os Estados Unidos tenham somente interferido na Líbia, que "coincidentemente" é fornecedora de parcela expressiva do petróleo europeu. Nem bem o cadáver de Khadafi esfriou e já se articula a divisão das províncias petrolíferas líbias por empresas estrangeiras, notadamente européias e americanas. A estatal líbia, anteriormente responsável pela exploração, deve a médio prazo perder sua razão de existência.

Também parece claro que teremos no país do norte da África a ação de "assassinos econômicos" a fim de vender grandes obras de infra estrutura no país - executadas por empresas estadunidenses, claro - e assim aprisionar a Líbia pelas dívidas, garantindo a propriedade sobre o petróleo local. E deixando felizes empresas e cidadãos europeus.

Em países como a Síria e o Bahrein, que enfrentam protestos parecidos - mas cuja produção de petróleo e gás é pequena - a repressão das ditaduras locais está sendo olimpicamente ignorada pelos Estados Unidos e a Otan. Fica patente que a intenção destes não é "promover a democracia", mas sim assegurar lucros e um suprimento de óleo de forma segura e rentável para eles.

E o que tem a ver com a questão da segurança pública no Rio? Deverá pensar o leitor.


Apesar de não haver a questão petroleira, temos um caso também onde parece interessar aos poderosos o silêncio de pessoas importantes. Falo do recente plano descoberto - através de ligação para o "Disque Denúncia" - de que integrantes das chamadas milícias iriam assassinar o Deputado Estadual Marcelo Freixo (foto) e o Secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame. Freixo foi presidente de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou tais grupos criminosos, colocando alguns de seus líderes - todos eles policiais e ex-policiais - na cadeia.

Ressalte-se que o ex prefeito do Rio de Janeiro Cesar Maia, de triste memória, foi um dos maiores incentivadores durante seus governos da expansão das milícias pelo município do Rio de Janeiro. Seu argumento era de que estas "freavam o tráfico". Como se viu posteriormente, as milícias se revelaram muito piores que o tráfico, por serem mais organizadas, por estarem entranhadas nas forças de segurança oficiais e dominarem uma série de negócios nas comunidades. Convenientemente, a mídia reacionária carioca se esqueceu deste apoio do ex-prefeito, que trato de lembrar aqui. Ele deveria ser responsabilizado por tal atitude.

Beltrame recentemente empreendeu mais uma faxina nas funções de confiança da Polícia Militar, após o envolvimento de comandante de batalhão na morte da juíza Patrícia Acioli e de outros comandantes com toda espécie de desvios. Trocaram-se o Chefe da Polícia Militar e praticamente todos os comandantes de batalhão a fim de tentar estancar o cresicmento do crime fardado - que em tom de ironia alguns próprios integrantes da coroporação referem-se a este como "Comando Azul", em referência á farda da PM.

O curioso é que altas autoridades do Governo do Estado e da Justiça ignoram tais denúncias e resistem a aumentar a segurança dos ameaçados. Dá a entender que o silêncio dos dois seria no mínimo conveniente - talvez pelo fato de ambos possivelmente deterem segredos embaraçosos a entes mais poderosos. Quem viu o filme "Tropa de Elite" ou leu o livro que deu origem ao filme sabe que há políticos que se aproveitam deste tipo de ligação a fim de ganhar votos e poder econômico. Não tem como não efetuar este tipo de ilação.

Infelizmente, em especial no caso do deputado parece certo que mais cedo ou mais tarde algum tipo de atentado será realizado contra sua vida. Há tempos que ele anda com escolta, e estes rumores de ameaças são recorrentes desde que ele assumiu, com bravura e coragem, a luta contra as milícias. Quanto ao Secretário de Segurança, a impressão é que com estas mexidas na Polícia Militar ele contrariou o "sistema" - e, como diz o Capitão Nascimento no filme, "o sistema é foda, parceiro".

Ou seja, Khadafi, Freixo e Beltrame tem em comum o fato de serem verdadeiros "arquivos vivos" e deterem segredos possivelmente embaraçosos. O primeiro, ao invés de ser julgado e condenado por seus atos, foi assassinado.

Esperamos que os bravos cariocas não tenham o mesmo destino.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

História & Outros Assuntos: "Há razões para acreditar num mundo melhor. Ou não?"


Nesta quarta feira, o post de número 1.500 da história deste blog traz a coluna "História & Outros Assuntos", assinada pelo Mestre em História Fabrício Gomes. Uma reflexão que eu mesmo muitas vezes me faço: os bons são mesmo maioria ou isto é uma falácia?

Apenas como introdução, Mokiti Okada (Meishu Sama) escreve que "a força do mal triunfará até 99%, e o 1% do bem irá derrotá-la". É nisso que acredito.

Vamos ao texto. Aliás, antes de irmos ao colunista: esta postura da Coca Cola me parece em claro desacordo com suas práticas empresariais...

Há razões para acreditar num mundo melhor. Ou não?

Existe um comercial de 60 segundos da Coca-Cola na TV e nas salas de cinema, bastante emblemático. Faz uma comparação entre coisas ruins e coisas boas no mundo, com a seguinte mensagem: “Razões para acreditar num mundo melhor. Os bons são maioria”. Nele, números são apresentados, sempre informando que apesar de existirem algumas coisas ruins no mundo, como por exemplo o pessimismo das pessoas, a fabricação de armas, a corrupção e a destruição do meio ambiente, outras tantas coisas boas, em maior número, acontecem no planeta.

Mas, afinal, o comercial tem razão?

Vivemos em um mundo realmente melhor, comparado aos tempos de outrora? Ou trata-se apenas de publicidade para vender refrigerante? A vida é mesmo cor-de-rosa, para cada problema que enfrentamos, surgem dez coisas boas que são capazes de compensar?

Corrupção sempre houve. Desde a Antiguidade. Só que não existiam meios de comunicação tão eficazes como os de hoje, para divulgar os atos ilícitos. Mesmo assim, resta a dúvida: a corrupção atual é estimulada pela falta de punição, correto?

Violência sempre existiu também. Na Roma de Nero, jogavam-se pessoas aos leões, em arenas lotadas. Um espetáculo apreciado por muita gente – algo inimaginável atualmente. Mas… como explicar os recordes de vendas dos jornais populares, que estampam manchetes que “escorrem sangue” e despertam o interesse de milhares de leitores?

O interesse pela tragédia vende jornal. Então não é muito diferente dos “espetáculos” que aconteciam nas arenas romanas. Por outro lado, hoje somos capazes de nos chocar com certas notícias, nos emocionamos com atos de generosidade e de esforço humano. Nos tornamos tolerantes com a violência e a corrupção? No passado, existia isso? Ou não?


No passado, não havia tanta poluição. O progresso e a industrialização trouxeram as mazelas que hoje assombram o mundo contemporâneo. Acidente nuclear no Japão, usinas atômicas. Efeito estufa, formação de tempestades motivadas pela introdução de agentes químicos na atmosfera. Mas não havia conscientização – ou pelo menos a tentativa disso, certo? Desenvolvimento sustentável? O que era isso?

As pessoas se vestiam melhor antes? Ou atualmente a concentração de renda gerou uma parcela que se beneficia disso deixando tantas outras de pires nas mãos. O grau de exigência quanto a isso diminuiu? Havia fome no mundo ou só passamos a tomar conhecimento dela com a sofisticação dos (novamente eles) meios de comunicação?

Hoje produzimos armas para quê? Para promover mais guerras? Ou para lutar a favor da paz? O mundo tornou-se mais democrático? Algumas ditaduras ainda existem. Mas e os novos regimes implantados? São democráticos ou apenas substituíram os anteriores no modus operandi?

Temos tecnologia de ponta e não sabemos o que virá pela frente. Mas… e as cabeças que comandam toda essa parafernália? Têm consciência disso?

Objetivo aqui é justamente esse: questionar até que ponto devemos acreditar que vivemos num mundo melhor. Ou não? Os bons são maioria?

Ou apenas… publicidade?

Vejam o comercial a Coca-Cola que motivou esse post:



terça-feira, 25 de outubro de 2011

O Mensalão Paulista e a Indignação Seletiva da Imprensa


Estou para escrever sobre este assunto há algum tempo, mas os afazeres da vida cotidiana haviam me impedido de fazer uma pesquisa decente sobre o tema.

Quero falar de um assunto que aqui e ali vem ocupando espaços na imprensa menos conservadora, mas que curiosamente não ganhou nem uma linha em jornais impressos ou dez segundos de imagens no "Jornal Nacional": o escândalo das emendas parlamentares na Assembléia Legislativa paulista, um caso típico de "Mensalão". Digo curiosamente porque órgãos com o o já citado jornal televisivo e o impresso do mesmo grupo, um outro órgão diário paulista e revistas semanais vem se empenhando em uma "campanha contra a corrupção" árdua, em especial quando envolve políicos ligados ao Governo Federal. Mas sobre isso falarei mais adiante.

Em São Paulo a história foi a seguinte: os governos do PSDB concedem R$ 2 milhões anuais em emendas parlamentares para cada um dos deputados utilizar como quiser, onde quiser, da forma que quiser. Na prática, é uma forma de comprar o apoio dos deputados às administrações: vale lembrar que há anos não se aprovam Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) contra o Poder Executivo estadual, apesar de alguns graves escândalos. O próprio caso "Paulo Preto", tema de post neste blog, foi abafado sem qualquer tipo de investigação nas irregularidades do "Rodoanel".

O que passou a ocorrer? Suspeita-se que deputados estariam recebendo propina para aprovar emendas para determinadas prefeituras. Isto é reforçado pelo fato de que pelo menos seis deputados aprovaram receitas para municípios onde não tiveram um único voto.

A receita desandou quando o deputado Roque Barbiere (foto), em agosto, deu uma entrevista a jornal local da cidade de Araçatuba dizendo que "pelo menos 30% dos integrantes da Assembleia Legislativa recebem propina para aprovar emendas ao orçamento que interessam aos prefeitos." O referido deputado em entrevista posterior afirmou que "cada deputado de São Paulo tem um preço" e comparou a casa a um "camelódromo" onde "cada um vende de um jeito".

O leitor pode estar pensando que tudo não passa de bravata do deputado, não é? Pois é. O deputado licenciado e atual Secretário do Meio Ambiente de São Paulo, Bruno Covas - neto do ex-governador Mário Covas - deu entrevista ao Estadão dizendo que havia sido procurado por um prefeito a fim de indicar onde deveria ser depositada a propina de 10% referente a uma emenda de R$ 50 mil. O então deputado disse que fosse depositado na Santa Casa.

Após a repercussão de suas declarações - dadas no dia em que foi lançado pré-candidato à Prefeitura de São Paulo pelo Governador Geraldo Alckmin - Bruno negou que tivesse dados tais afirmativas. Mas o jornal a quem ele concedeu entrevista tinha a gravação das mesmas. Dados levantados pela imprensa mostram indícios consistentes de emendas "estranhas", como citei acima.

Bom, o que seria de se esperar é que o Governandor mandasse apurar as denúncias, não é mesmo? Pois é, em que pesem as bravatas proferidas pelo dito político, tudo está sendo convenientemente abafado. A CPI proposta para investigar este caso está sendo sumariamente sepultada, como todas as outras que contrariam os interesses do PSDB estadual, no poder há 20 anos. O Ministério Público está investigando o escândalo, além da denúncia de que deputados fazem lobby por empreiteiras sobre prefeituras destinos de tais emendas. Entretanto, também está com dificuldades na apuração.

Ou seja, ao que tudo indica apesar dos indícios consistentes de irrregularidades nada será apurado e a estrutura de poder montada pelo Executivo paulista na Assembléia continuará operando da mesma forma.

Aí cabe um comentário sobre o papel da grande imprensa nisto tudo. O mesmo jornalismo de alcance nacional que clama "pelo fim da corrupção" convenientemente ignora os escândalos de políticos "amigos". Ou seja, é uma indignação seletiva: combate-se apenas a corrupção dos adversários políticos. Esta postura reforça a impressão de que órgãos como o maior jornal carioca e a respectiva tv e uma das revistas semanais de maior circulação nacional estão mais preocupados em fazer política partidária que informar o seu público ou efetivamente combater a corrupção. Ser corrupto pode, desde que seja conservador.

Esta impressão se reforça quando se sabe que o dono da editora responsável por uma destas revistas - que invadiu de forma criminosa o quarto de hotel do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu e simplesmente surrupiou documentos, em postura defendida sob uma duvidosa "liberdade de imprensa" - afirmou que "irá derrubar Dilma Roussef". Este é um bom exemplo de como se faz necessária algum tipo de regulamentação dos órgãos de imprensa, ao menos que seja para diferenciar o que é notícia do que é opinião. Da forma que está hoje temos jornais, televisões e revistas atuando como verdadeiros partidos políticos sob uma aura inatacável de "informação" - quando informação é tudo o que não é.

Penso que a indignação com a corrupção é válida e pertinente à democracia brasileira e ao exercício do jornalismo. Mas cobrar apuração de escândalos apenas de adversários políticos e convenientemente abafar os ocorridos com os aliados é apenas sonegar a informação ao grande público. E olha que não falo dos corruptores, que jamais são citados em campanhas deste tipo. Se é para se fazer uma campanha séria, que seja contra todos: os do governo, os da oposição, os do Judiciário e os corruptores.

Como mostro acima, problemas deste tipo não são exclusividade de Dilma Roussef. Estes também devem ser investigados e apurados, mas o que parece é que tal indignação é muito mais expressão de políticas partidárias que clamor genuíno contra a questão.

Finalizando, já dizia o economista escocês Adam Smith: "o interesse pessoal move o homem". Isso diz tudo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Bissexta - Quando Era Bom Ser Flamengo


Nesta segunda feira, temos excepcionalmente mais uma edição da coluna "Bissexta", do colunista Walter Monteiro. No texto de hoje tenta se fazer uma análise da ausência da torcida rubro negra nos estádios e da intolerância demonstrada por esta nos espaços virtuais.

Tal como o articulista, eu peguei as duas "eras", pois completarei 37 anos no próximo dia 04. Minha impressão é de que o título de 2009 tornou mais exigentes os torcedores mais novos, que não viram Zico jogar e que passaram por um período considerável de "vacas magras".

Por outro lado, especificamente este ano existe a impressão geral de que o time vem rendendo bem abaixo do que poderia, ao contrário de 2007 e 2009 onde sempre estávamos "no limite". Confesso que a falta de comprometimento de alguns jogadores este ano tem me irritado bastante - mas este é um assunto para outro post.

Curiosamente, neste Brasileirão já fui mais vezes ver o Flamengo jogar que pelo menos os últimos quatro campeonatos: quatro partidas - incluindo as citadas partidas contra o Atlético de Goiás (acima, em foto de minha autoria) e o América Mineiro, onde se precisava de estádio cheio e ninguém foi.

Quando Era Bom Ser Flamengo

É certo que existiu um Flamengo antes do Zico, mas eu só conheço de ouvir falar. Eu e o Galinho estreamos juntos em 1972, ele no gramado, eu na arquibancada [N.do.E.: na verdade o colunista se refere à presença constante de Zico no time profissional, pois ele estreou em um Flamengo 2 x 1 Vasco em 1971]. Logo, o Mengão para mim tem duas eras: a Era de Ouro, que simbolicamente se encerra no título de 1992 com a aposentadoria do Maestro Junior, e a que vem depois.

A primeira, todos sabem, profícua em títulos e alegrias indescritíveis. A segunda, nem tanto.

Ainda assim, havia uma conexão profunda entre ambas: a inabalável força que vinha da Nação. O Flamengo é o Flamengo não por conta dos que estavam em campo, mas justamente pelos que estavam de fora. Flamenguista que se preza sempre foi marrento, amplificando às alturas qualquer magro êxito. A força do Flamengo, principalmente nos maus momentos, sempre esteve no magnetismo da galera.

Esteve, não está mais. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas hoje em dia dá desgosto ser Flamengo. Ninguém acredita mais no time. Ninguém torce mais. Ninguém empresta seu apoio nas horas mais duras. Aquilo que era lindo de ver, a torcida pegando um time medíocre no colo e o fazendo vencer contra todos os prognósticos virou apenas uma imagem no videoteipe.

Para começo de conversa, a torcida evaporou. Há quem diga que é porque NOSSO estádio, o Maracanã, está fechado.  Não creio.... afinal, não é a primeira vez que isso acontece. Eu me lembro de ir ao minúsculo estádio da Portuguesa na Ilha do Governador e encontrar filas de rubro-negros enlouquecidos para exaltar El Tigre Ramirez e ajudar o time a escapar do rebaixamento [N.do.E.: eu era um destes. Reconheço o fato de que o estádio ser do lado da minha casa facilitou um bocado naquela tenebrosa temporada].

Difícil entender a razão, mas os rubro-negros simplesmente perderam a vontade de ir ao jogo.

A torcida, infelizmente, se modificou. Antigamente tinha uma espécie que arquibaldos de carteirinha abominávamos, o chamado “torcedor de radinho”: que nunca ia aos jogos, mas achava que entendia de tudo e vivia reclamando da vida.

Que saudades do radinho....porque hoje aquele chato de galocha se transformou em um monstro muito mais assustador, o “chato do teclado”. É impressionante a quantidade de gente que assiste o jogo comentando em tempo real as vicissitudes da partida. Em uma curiosa inversão de papéis, é no Twitter e no Facebook que ecoam as vaias atuais da torcida. Uma vaia uníssona, longa, raivosa, infinita...

E a impaciência? Ah, a impaciência...o mínimo erro é intolerável.  Ganhar não é nada mais do que a obrigação, perder ou mesmo empatar é ultrajante.

Como disse antes, até para coroas como eu só existem dois Flamengos, o da Era Zico/Junior e o que veio depois. Me dei ao trabalho de pesquisar o desempenho deste último em campeonatos brasileiros. Observem:

1993 - 8º
1994 - 14º
1995 - 21º
1996 - 13º
1997 - 5º
1998 - 11º
1999 - 12º
2000 - 15º
2001 - 24º
2002 - 18º
2003 - 8º
2004 - 17º
2005 - 15º
2006 - 11º
2007 - 3º
2008 - 5º
2009 - Campeão
2010 - 14º


A série histórica é longa o suficiente para revelar tendências. Para começo de conversa, em dezoito campeonatos o Flamengo só chegou entre os cinco primeiros em quatro deles. E do ano 2000 em diante, olhou muito mais para o fundo do poço do que para a ponta da tabela – em onze campeonatos, correu sério risco de rebaixamento em seis - inclusive em 2007, de impressionante arrancada.

Apesar disso, meus irmãos rubro-negros estão todos, cegos e surdos, embora não estejam mudos - muito pelo contrário. Mesmo encarando uma campanha para lá de razoável, do meu lado só encontro gente amargurada, revoltada e azeda. Quando eu lembro que nessa época em 2009 o time estava apenas em sexto lugar, com um ponto a menos do que agora, ninguém não quer nem saber.

Antigamente era ótimo ser Flamengo e conviver no meio rubro-negro. A gente esbanjava confiança, a gente chorava de emoção, a gente acreditava até o último minuto.  Os melhores momentos da minha vida eu passei ali, à esquerda das cabines de rádio do Maraca. Dane-se se o time ganhava ou perdia. Eu me realizava só por ser Flamengo.

Tenho pena dos rubro-negros da Jihad dos teclados nervosos. 

Talvez eles nunca descubram como era bom ser Flamengo.

domingo, 23 de outubro de 2011

Orun Ayé - "Era Uma Vez Um Sonho - Parte I"


Neste domingo de semana dedicada às escolas de samba, o colunista Aloísio Villar traz mais uma edição da coluna "Orun Ayé", contando a primeira parte de uma história de final muito feliz: a disputa de samba da União da Ilha para 2012.

Serão duas colunas. Vamos à primeira.

"Era Uma Vez Um Sonho - Parte I

Essa era uma coluna muito aguardada por mim, desde que escrevi a coluna sobre o Orun Aye que foi na época do começo da disputa da União da Ilha. Eu tive a idéia de escrever essa coluna quando acabasse a disputa. 

Como eu já falei algumas vezes aqui - e estou sendo repetitivo - meu amor pela União da Ilha começou quando descobri sua existência, apuração do carnaval de 1985. Lá se vão vinte e seis anos. 

Eu recém torcedor da Mocidade Independente de Padre Miguel descobri na apuração que havia uma escola da Ilha nela e estava sendo rebaixada. 'Virei casaca' e comecei a torcer pela escola ali. A Mocidade foi campeã com Ziriguidum 2001, um desfile histórico, a Ilha foi rebaixada e perdi a primeira e única chance até hoje de ser campeão do carnaval. 

O ano passou e não liguei muito pra carnaval, eu era muito novo - tendo outras coisas para me complicar. 

Estudava a 3° série e me apaixonara por uma menina que nada quis nada comigo e ficou com um amigo meu no meu aniversário  - na frente de todo mundo. Minha mãe me obrigou a botar aparelho nos dentes, coisa que eu detestava, minha avó cismou que eu tinha que entrar pra escola militar e o Flamengo minha nova paixão foi eliminado do Brasileirão pelo Brasil de Pelotas e no Estadual pelo Bangu. 

Coisas muito mais importantes pra um menino de nove anos 

Chegou 1986 e pela primeira vez assisti ao desfile de escolas de samba. Não me lembro muito bem dos desfiles, só que vi quase tudo dormindo na última escola de cada dia. Lembro da Mangueira campeã, da Beija-Flor desfilando debaixo de chuva e da União da Ilha. 

Foi a primeira vez que assisti a um desfile da escola e “Assombrações” de Arlindo Rodrigues estava lindo demais. A escola me surpreendeu e conseguiu um quinto lugar, muito bom para ela que fora rebaixada em 1985 e só ficou na primeira divisão do samba devido a uma “virada de mesa”.

Em 1987 eu já estava mais inteirado sobre a União da Ilha e os desfiles em si. Me aborreci com o desfile da Vila Isabel que foi lindo e isso poderia tirar o título da Ilha. Eu amava o samba da União de Bujão e J.Brito “Olha eu aí, olha eu aí/ vim botar a banca na Sapucaí”. 

Pela primeira vez vi um ensaio seu, nas ruas do bairro do Cocotá terminando na praça. Eu tinha certeza que a escola seria campeã. Mas não foi. Seu desfile foi lento e no fim teve que correr para não estourar o tempo máximo. Ficou em nono lugar. 

Em 1988 foi o ano até então que conheci o samba mais cedo. Na final do brasileiro de 1987 entre Flamengo e Internacional fui com a família para Magé e no rádio tocou o samba e me amarrei no refrão ainda mais porque falava no Flamengo “a gaitinha tocando é gol/a galera vibrando Mengooo”.  [N.do.E.: o enredo era sobre Ary Barroso, grande rubro negro]

Em 1989 o grande desfile. A Ilha fez uma festa profana na Sapucaí que seria campeã em qualquer ano  - menos em 1989. O desfilaço acabou em terceiro lugar e consagrou à eternidade os versos “eu vou tomar um porre de felicidade/vou sacudir eu vou zoar toda cidade”. 

Em 1990 eu tinha certeza que a escola seria campeã. O início do desfile foi sensacional, emocionante com um samba que é um dos meus preferidos na agremiação e começa com verso que eu e Pedro Migão inserimos em nosso concorrente no Acadêmicos do Dendê esse ano, escola que homenageia a União da Ilha: o verso “Sonhei que a vida fez um rei”

1991 trouxe o sambão do Franco “De bar e bar Didi um poeta”, primeira vez que comprei os Lps de samba-enredo. Em 1992 veio o primeiro samba na escola dos hoje meus parceiros de samba Carlinhos Fuzil e Marquinhus do Banjo e lembro-me de cantá-lo para o vigia do colégio onde eu estudava. Em 1993 morando no Mato Grosso recebi fita k7 das escolas com o samba sobre o circo cantado pelo Mauricio 100 [N.do.E.:100 de "sem pescoço"]

1994 meu ídolo Quinho voltou para a escola e pela primeira vez fui à Sapucaí. Fui ver o desfile das campeãs e minha felicidade: a União da Ilha estava lá. Aquele 4° lugar com "Abrakadabra, o despertar dos mágicos" foi a última vez que a Ilha desfilou nas Campeãs. 

E assim foi caminhando e aumentando minha paixão pela União da Ilha. Sempre assistindo os desfiles sozinho pela TV seja no Rio ou no Mato Grosso, algumas vezes com lágrimas nos olhos vendo minha escola passar. 

Até que...

...em 1997 vendo a coluna de um jornal descobri que a Ilha entregaria sinopse de "Fatumbi a Ilha de todos os santos" e a ala de compositores estava aberta. Eu sempre gostei de escrever e em 1994 já tinha comentado com meu pai vontade de escrever samba-enredo na Ilha e só não fiz porque tinha que voltar para o Mato Grosso. 

Fui à escola com a cara e a coragem. Pela primeira vez entrei numa quadra de escolas de samba, não conhecia ninguém do meio, não sabia como era uma disputa, se gastava dinheiro, botava torcida, nada disso. Comecei do zero numa história que tinha tudo pra dar errado. 

E começou dando errado. Fui eliminado na primeira eliminatória da escola, mas mesmo assim acompanhei todas as eliminatórias como eu já contei em outra coluna e extasiado acompanhei a final. 

Depois do resultado todos os compositores da escola subiram no palco pra festejar, fui tentar também e o segurança me barrou mesmo eu falando que era compositor. Foi preciso o compositor Paulinho Rocha me ver e mandar que o segurança me liberasse. 

Naquela noite jurei a mim mesmo que voltaria a subir um palco da União campeão de samba. [N.do.E.:a promessa foi cumprida domingo passado]

Os anos foram passando, na disputa do carnaval de 1999 outra vez eliminado de primeira, em 2000 de segunda - sendo que até me emocionei quando ouvi meu samba classificado no primeiro corte. Em 2001 de novo eliminado no primeiro corte. 

Em quatro anos três eliminado no primeiro corte e uma no segundo. Sempre fui muito vaidoso como escritor e isso era uma punhalada na minha vaidade. 

Decidi então que daria um tempo de União da Ilha para aprender a escrever, ir a outras escolas. Não queria me acostumar a “cair de cara”. Eu tinha confiança que escrevia bem, via vários compositores na escola sendo apontados como compositores que eram eliminados logo, só faziam figuração e eu não queria aquilo para mim. 

No mesmo ano ganhei meu primeiro samba na vida, pelo Boi da Ilha e esse conquistou o Estandarte de Ouro de melhor samba do grupo A, apenas o segundo Estandarte em sambas da história do bairro. O outro foi o samba “Domingo” de 1977 da União da Ilha. 

Ganhei o prêmio na terça de carnaval. No dia seguinte a União da Ilha foi rebaixada para o acesso A, ia desfilar junto com o Boi. Eu fui à quadra prestar solidariedade e também para mostrar que eles não me quiseram - e eu era um Estandarte de Ouro. 

A Ilha ficou oito anos no acesso e eu percorrendo outras escolas, ganhando sambas, respeito e experiência. Em 2004 coloquei samba na escola no acesso e cheguei entre os 8. Meu melhor resultado disparado na agremiação até então. 

Em 2009, convidado pelo nosso amigo Walkir pela primeira vez entrei em uma parceria de ponta na escola. O samba deixou a desejar, mas realizei o primeiro dos sonhos: cheguei à final. 

Perdemos a final, fiquei triste, claro, mesmo sabendo que não dava para ganharmos. Mas orgulhoso por finalmente minha história começar na agremiação. 

Nesse mesmo ano ganhei o prêmio S@mbaNet de melhor samba do grupo B pelo Boi da Ilha e no dia seguinte a União da Ilha foi campeã do acesso, voltando ao Especial. 

Mais uma vez eu ganhava um prêmio importante e o dia seguinte seria também importante à União da Ilha. 

Não escrevi no ano seguinte e no carnaval de 2011 voltei com quase toda parceria atual que faço parte. Uma parceria montada sem grandes pretensões, mas que fez um belo samba e chegou à final. 

Perdemos a final, outra derrota doída. Ainda mais porque chegamos perto de vencer e por ter terminado meu namoro justo no fim de semana da final. 

Triste por uma série de circunstâncias, mas orgulhoso de não ser mais aquele compositor que “cai de cara”. Sabia que estava pra chegar a minha hora. 

Aí veio a disputa pro carnaval de 2012 e... 

... essa é uma outra história, que conto semana que vem. 



SAMBA EXALTAÇÃO DA UNIÃO DA ILHA 

(Aroldo Melodia/Leôncio) 

Azul, vermelho e branco 
São as cores da minha escola querida 
Ela é minha paixão 
Que eu trago guardada no fundo do meu coração 
Respeitando opiniões, de outras agremiações 
Eu sou mais a União 
Com ela, aprendi a ser sambista 
E hoje sou até artista 
Dessa escola popular 

Se um dia ôôô 
Eu deixar de desfilar papai do céu 
Pela União da Ilha 
Vou chorar


Orun Ayé!

sábado, 22 de outubro de 2011

A Médica e a Jornalista - "O que é privacidade para você?"


Neste sábado, mais uma edição da coluna "A Médica e a Jornalista", assinada pela Anna Barros. O tema de hoje é a cada vez maior invasão de privacidade trazida pelo mundo tecnológico e a necessidade de se impor limites.

O que é privacidade para você?
Por mais que gostemos de mídias sociais como Twitter e Facebook, às vezes necessitamos de um pouco de privacidade.

Num mundo globalizado em que tudo que fazemos é filmado, fotografado, ou está na internet ou é compartilhado, há momentos que desejamos um pouco de privacidade. O Facebook fez ajustes que até um simples curtir no feed de notícias de algum amigo é visto por todos da sua lista. Parece algo banal, mas não é.

Essa questão leva a vários questionamentos em um mundo onde todos querem ser o centro das atenções. Todos ficam voltados 'para o seu umbigo'. Enquanto o Orkut valorizava a entrada em comunidades com interesses comuns a fim de promover o debate entre as pessoas, o facebook parece mais uma ode ao eu, ao egocentrismo total, porque ali é o indivíduo que é mais valorizado e não o coletivo. Isso pode ser notado pelo fato dos grupos não fazerem tanto sucesso como as comunidades do Orkut um dia fizeram.

Há câmeras por todos os lugares: nas ruas, no elevador, nos estacionamentos e para monitorar nossos passos. Nunca George Orwell em seu livro 1984 em que definia o papel de Big Brother que naquele caso era o Estado centralizador e comunista foi tão atual. Não é a toa que os realities fazem sucesso ainda hoje em dia e o próprio Big Brother global já vai para a sua 12[ edição. O formato parece ultrapassado, mas sempre se inventa. As pessoas ficam numa espécie de zoológico humano em que todos os seus passos são monitorados.

Hoje em dia basta um smartphone com câmera potente em que tudo é fotografado: a celebridade, o jogador de futebol, o vizinho em situação comprometedora e indiscreta, qualquer pessoa e qualquer situação. Inclusive, os veículos de comunicação incentivam em seus sites o chamado 'eu-repórter', que além de estimular a interatividade atiça a verve curiosa das pessoas: um fato, uma ocorrência - e a possibilidade de ter seu nome divulgado e focalizado.

É muito complicado lidar com a privacidade, mas ela é necessária em vários momentos de nossas vidas. E a solidão é algo extremamente imprescindível ao nosso amadurecimento e desenvolvimento como ser humano. Não dá para ficar 'full time' rodeado de pessoas, de um milhão de amigos no Facebook, de outros tantos no Google Talk. Há momentos em que o recolhimento não faz mal algum, ele é até benéfico, necessário, primordial. Esse recolhimento nos leva à reflexão.

Penso, logo existo e não tuito, logo existo. Há momentos de parada total em que ficar offline é uma das melhores coisas da vida porque faz você aproveitar mais as pessoas, conversar, telefonar, ter um contato real e abandonar aquele contato meramente virtual.

O objetivo da coluna dessa semana é provocar, produzir realmente uma reflexão: o que é a privacidade para você?

E até que ponto você a está cultivando ou a está limitando de sua vida cotidiana. Mistério, desde que o mundo é mundo, nunca fez mal a ninguém. Pelo contrário, sempre só fez bem porque obriga o outro a te descobrir, a te ouvir, a querer verdadeiramente te conhecer e a não tornar o contato simplesmente efêmero como quase tudo que a internet abriga: o imediatismo recorrente.

Tente ficar offline só este fim de semana, se não conseguir, por 24 horas. Sua vida social e sua saúde agradecem.

Até a próxima!
Anna Barros

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Final de Semana - "Saudade de Amar"


Recentemente o cantor, compositor e arranjador Francis Hime, um dos grandes de nossa música, lançou recentemente CD em dueto com sua esposa e amor de 46 anos, Olívia Hime. É disco bastante delicado, que adquiri recentemente e que demonstra toda a maturidade do grande artista.

"Saudade de Amar", parceria de Francis e Vinícius de Moraes e que consta do CD é a nossa música de hoje.

Deixa eu te dizer amor
Que não deves partir
Partir nunca mais.
Pois o tempo sem amor
É uma pura ilusão
E não volta mais.
Se pudesses compreender
A solidão que é
Te buscar por aí
Amando devagar
A vagar por aí
Chorando a tua ausência.
Vence a tua solidão
Abre os braços e vem
Meus dias são teus
É tão triste se perder
Tanto tempo de amor
Sem hora de adeus.
Ó volta aqui nos braços meus
Não haverá adeus
Nem saudade de amor.
E os dois sorrindo a soluçar
Partiremos depois.

O Resgate da Águia


Sem dúvida alguma este blog está meio monotemático esta semana, mas nesta sexta feira não tenho como não registrar a fantástica repercussão que a escolha do samba da Portela vem alcançando não somente no mundo do samba como fora dele. Além do bem que fez à autoestima do portelense.

Vamos por partes.

A Portela vinha de dois carnavais muito complicados. Um desfile de 2010 de concepção totalmente equivocada desde o anúncio do enredo, passando pela escolha do samba, pelos erros na parte plástica e culminando com um desfile que ficou muito perto de um fiasco. No ano seguinte, a escola viveu o pior momento de sua gloriosa história, com o não julgamento devido ao incêndio da Cidade do Samba e outras questões adjacentes.

Curiosamente, foram estes dois fracassos retumbantes que acabaram fornecendo o germe do renascimento que a escola vive neste momento.

Houve mudanças políticas - embora o Presidente Nilo Figueiredo mantenha a palavra final em suas mãos - e devido justamente aos problemas que enfrentou nos últimos carnavais partiu-se para a contratação de um profissional de ponta para a parte artística: o talentoso Paulo Menezes. Os bons profissionais responsáveis pelos quesitos de "chão" foram mantidos e sem dúvida alguma a equipe de carnaval ficou mais forte.

Passemos à definição do enredo. Na administração atual a Águia vem se notabilizando - à exceção de 2009, onde justamente obteve um excelente resultado - por enredos fora de suas características históricas e que são pensados visando patrocínio direto. Excluindo-se 2005, onde o acordo de patrocínio já estava assinado antes das eleições, em 2006, 2007, 2008, 2010 e 2011 os temas trazidos pela escola tinham esta característica.

Entretanto, os valores obtidos nestes anos estiveram longe de serem considerados significativos. Talvez somente em 2010 (escrevo de memória) é que tenha havido uma captação importante, cerca de R$ 2 milhões vindos de duas empresas de informática e do Estado do Rio de Janeiro. Nos demais, os valores alcançados a meu ver não justificariam a escolha do enredo por este prisma. Mas isto é passado.

Para o carnaval de 2012 houve uma mudança importante. Chegou-se a negociar um enredo sobre as cidades da Serra Gaúcha, mas ao final de muitas tratativas este acabou descartado em postura diferente de outros anos. E de forma inédita pela primeira vez o carnavalesco conseguiu emplacar um enredo em parte autoral - as festas religiosas da Bahia, guiado pela figura mítica a nós portelenses da cantora Clara Nunes. Houve algumas adaptações para que atendesse ao objetivo do Governo baiano, mas nada que comprometesse o seu desenvolvimento de desfile.

O mais irônico disso tudo é que a partir da escolha do enredo e posteriormente do sucesso do samba o Governo da Bahia "abraçou" a escola, o que pode ser medido pelo evento ocorrido ontem no Riocentro do "Encontro de Bandeiras" da Bahia e da Portela. O órgão responsável pelo turismo no estado deixou claro que irá apoiar integralmente a preparação do desfile da Portela. Ou seja, patrocínio garantido - e a partir de uma idéia autoral, com a "cara" da escola e onde não há deslavada propaganda.

Sobre o samba, não preciso nem falar. Confesso particularmente que sua escolha me surpreendeu, por diversos fatores que já explicitei em outras ocasiões e que não preciso repetir. Sua qualidade aliada à repercussão desde o início da disputa e ao respeito à preferência do portelense efetuaram uma transformação não somente na expectativa pela escola como, mais importante, na alma de nós portelenses.

De escola que alguns especialistas cotavam até para um inédito rebaixamento - pelos problemas nos dois últimos anos e pela péssima posição de desfile, segunda de domingo - a Portela passou a ser considerada como uma das favoritas a voltar no sábado das campeãs. Isto explica-se pela qualidade do samba e pela característica portelense de cantar seus sambas no desfile como se não houvesse amanhã, ou seja: quem carregou sambas ruins e difíceis em anos recentes vai "brincar" com o espetacular samba escolhido.

A própria alma portelense sofreu uma transformação profunda. O azul e branco estava acabrunhado, envergonhado, triste e muitas vezes desmotivado com a escola, contrariando a sua própria característica altaneira, elegante e até de uma certa "soberba". Com a escolha deste samba, que nós queríamos, que nós abraçamos e que nós iremos dignificar e exaltar na noite de 19 de fevereiro de 2012, o portelense retornou ao seu estado natural: o da confiança, o do amor incondicional, o altaneiro.

O portelense voltou a andar de cabeça erguida.

Esta mudança de ânimo e de autoestima já havia sido vista na disputa de samba, onde a parceria vencedora recebeu ajuda de todos os lados, seja em torcida, seja em dinheiro, seja em material, seja em apoios políticos de peso. Com isso o samba conseguiu derrotar um dos maiores "escritórios" de samba enredo na atualidade - o que já era um feito e tanto.

Contudo, mais que isso o efeito "Madureira sobe o Pelô" levou a uma situação inédita: a procura pelas alas comerciais e de comunidade está em níveis absolutamente insólitos para esta época do ano. Lembro aos leitores que os figurinos das fantasias ainda não foram disponibilizados, ou seja, quem está adquirindo as fantasias ainda não sabe nem a roupa nem a posição de desfile. Particularmente para mim isto não faz diferença, pois prefiro desfilar com ala conhecida, de amigos e que não me crie problemas, mas para muita gente é condição "sine qua non" na decisão de ala.

Minha impressão é de que no máximo início de dezembro a escola não tenha mais vagas para desfilar, até porque são somente dez alas comerciais e cada ala está limitada a oitenta fantasias para venda. Portelenses apaixonados que jamais desfilaram ou estão há muitos anos ausentes estão retornando. O clima é de otimismo, confiança e acima de tudo esperança de dias melhores.

Obviamente que há um longo caminho a ser percorrido. A escola está sem quadra, sem barracão e precisa-se ver como será o cronograma da construção das fantasias de alas de comunidade e especialmente dos carros alegóricos, problema crônico dos últimos carnavais. Mas se outros pontos mudaram para 2012 tenho total confiança que teremos uma preparação mais tranquila que os anos anteriores.

Concluo com um presente aos leitores: com imensos agradecimentos ao site referência "PortelaWeb" - para onde, aliás, voltei a contribuir após longa 'hibernação' - disponibilizo abaixo áudio gravado pela escola com a versão definitiva do samba após as mudanças feitas na melodia. Não é a versão que estará no cd oficial, mas o leitor poderá conhecer as alterações e ver como o samba ficou ainda melhor.

Samba que, aliás, tem tudo para ultrapassar os limites do carnaval carioca - pela sua qualidade, pela sua repercussão e por iniciativas que provavelente serão tomadas  pela diretoria da escola juntamente com o patrocinador.

Uma coisa é certa: depois de longo tempo, todo mundo vai esperar a Portela passar. Vamos voltar ao lugar de onde nunca deveríamos ter saído.

E isso não tem preço.