domingo, 28 de fevereiro de 2010

Whisky, televisão e carnaval


De volta, a coluna "Whisky, Televisão e Carnaval", assinada pelo médico, folião e diretor de escolas de samba Walkir Fernandes.

O texto deste domingo joga uma luz sobre algo muito badalado, mas pouco conhecido: as rainhas de bateria e seu processo de escolha.

"Elas não fazem parte de um quesito em avaliação, seus desempenhos nada ou muito pouco influenciam os jurados, mas recebem as maiores atenções da mídia e de boa parte do público. Em torno delas se acotovelam fotógrafos, cinegrafistas, câmeras e aduladores de “celebridades” em geral. Elas são as Rainhas de Bateria. 

Há controvérsias sobre quem teria sido a precursora. Falam na maravilhosa mulata Adele Fátima - conhecido por muitas como a mulata das 'Sardinhas 88', mas eternizada para os adolescentes de então como a Branca de Neve do filme “histórias que as nossas babás não contavam” - que teria vindo a frente da bateria da Mocidade Independente, lá pelos anos 70. Mas foi a mesma Mocidade que trouxe aquele que seria, no coração do público a primeira grande, transgressora e libidinosa rainha: Monique Evans, isso em 1985. 

De lá para cá o cargo ganhou status, atenção do público menos engajado no conteúdo do desfile e mais preocupado com o balançar de glúteos e silicones diversos; e principalmente adquiriu especial importância para a mídia de entretenimento e para patronos e presidentes de escola. 

E dá-lhe deusas, semi-deusas, tchutchucas e cachorras. O que antes funcionava como um elemento motivacional para os ritmistas, hoje se transformou num balcão de negócios; tão forte que já deu origem a variações em cima do mesmo tema: musas, madrinhas e princesas de bateria. 

Mas qual a importância dessas beldades para uma escola de samba? Atrai mídia e badalação para as agremiações, diriam os teóricos das escolas de samba. Menos como um elemento fomentador de cultura popular, e mais como um produto que é divulgado para mais de 100 países, que assistem os desfiles da Sapucaí e podem gerar grandes patrocínios. Alimentando a tese do “grande espetáculo teatral” . 

Para mim elas não tem a menor importância no contexto do desfile. Mas não é bem assim para as escolas e principalmente para as rainhas. Para elas, uma chance de ouro para se projetarem, e alavancarem suas carreiras. Seja rumo a uma ponta em alguma novela, seja rumo ao coração de algum “patrono “, empresário ou membro do deslumbrado Jet set nacional, e com certeza rumo às capas da Playboy...

E para isso não medem esforços, ou melhor não medem esforços por elas. E o que se vê são minúsculas fantasias, ricas em plumas, penas de faisão e cristais swarovski; que emolduram músculos hipertrofiados, para júbilo de esposos, namorados, amantes, padrinhos, tios (os que não medem esforços) e delírio do público em geral. 

Evidentemente, nada contra as Moniques, Brunets, Lumas e Pagungs da vez, todas divinas e maravilhosas. Mas irrita um pouco a badalação exagerada que as rainhas tem, sendo que na mais das vezes não há nenhuma identificação entre as monarcas em questão e seus súditos; muitas inclusive se comportando como aves de arribação e migrando de escola em escola. Tantas vezes em detrimento de belas meninas da comunidade, que frequentam suas agremiações o ano todo e de forma assídua. Poucas e louváveis exceções, como as lindas Raissa da Beija Flor e Bruna Bruno da União da Ilha, que fazem parte da comunidade de suas escolas de coração. 

E as escolas em que se beneficiam, perguntaria o leitor? Grana, troca de favores e outras milongas mais. Nada muito louvável, mas tudo parte da engrenagem que move o espetáculo.

Tem madrinha que banca  a roupa dos ritmistas, tem madrinha que ajuda escola mirim, tem madrinha que é amasiada com poderosos dos mais diversos calibres. Segundo se comenta, algumas escolas colocam seus tronos a venda por quantias que podem chegar, muito conservadoramente, a 60.000 reais.

Reportagem especial de uma conceituada revista semanal sobre o tema afirma que em 2010 tivemos pelo menos um caso de comprovada compra. Diz a referida matéria: “Rainha da Vila Isabel, Gracyanne lançou mão de uma moeda de troca: os shows do namorado, o cantor Belo. Em troca do posto da amada, o pagodeiro ofereceu à agremiação da Zona Norte 80% da arrecadação de duas apresentações feitas na quadra da escola”. 

Esses são os caminhos que nosso maior espetáculo (já nem tão) popular vem tomando: balcão de negócios. Pra virar Broadway falta pouco, pra virar SexHot, quase nada ..."

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Cacique de Ramos

A partir desta semana o Ouro de Tolo terá uma nova coluna: a "Cacique de Ramos", assinada pelo publicitário e historiador Fabrício Gomes - um dos mais assíduos comentaristas deste espaço, além de amigo e vizinho.

Os textos terão periodicidade quinzenal e o título da coluna vem de uma brincadeira que faço com ele - mas ele que conte, se quiser...

O tema da primeira coluna são os percalços encontrados pelos usuários do Metrô carioca. As fotos são do jornal O Dia.

"Metrô: quando o transporte sobre trilhos precisa andar nos trilhos

Atualmente o assunto que ocupa os principais veículos de comunicação de nossa cidade, seja mídia impressa ou TV, tem sido os graves problemas com nosso metrô. Problemas que vão desde a costumaz superlotação nos vagões, entremeados de atrasos – que já viraram rotina – e agora, pra completar, a preocupante (e polêmica) questão envolvendo o trajeto em “Y”, que liga as estações São Cristóvão até a Central do Brasil – especialistas afirmam que a sinalização nesse percurso é manual e, como sabemos, sinalização humana é passível de erros, sendo que “erros” nesse caso, costumam ser fatais.

A empresa responsável pelo serviço de transporte urbano sobre trilhos, neste caso, o metrô, é a Companhia do Metropolitano, atualmente chamada de Metrô Rio – foi criada em novembro de 1968, por lei estadual, e começou efetivamente suas operações em março de 1979. Em 1998, foi privatizada e coube ao grupo Opportrans gerencia-la. Mas o projeto de um transporte sobre trilhos, que atendesse a cidade, é bem mais antigo do que a própria criação da companhia, em fins da década de 1970.

Desde 1928, quando a população da cidade do Rio de Janeiro era de pouco mais de um milhão de habitantes, o metrô já era percebido como o meio de transporte capaz de resolver a questão do tráfego urbano. Justamente por esse motivo, vários estudos foram apresentados, até que na década de 40, a Light ofereceu um projeto comprometendo-se a abrir a linha do metrô e construir as estações, pedindo para isso, um acréscimo de 100 réis sobre o preço da passagem de bonde, de então. Caberia ao Governo do Distrito Federal (Rio de Janeiro) a responsabilidade de comprar os trens, enquanto à Light a operação por tempo determinado. Entretanto, não houve desdobramento dessa proposta. Somente em 1966, o Governo do Estado da Guanabara determinou a constituição de um grupo de trabalho para estudar a implantação de um sistema de metrô.

Em dezembro de 1968, sob supervisão da Comissão Executiva de Projetos Específicos - METRÔ, foi aprovado o Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica do Metropolitano do Rio de Janeiro, elaborado pelo consórcio brasileiro-alemão, integrado pelas firmas Companhia Construtora Nacional, Hochtief e Deutch Eisenbahn Consulting, com participação efetiva de cinqüenta por cento de técnicos brasileiros.

Nesse trabalho recomendava-se a construção de uma Linha Prioritária ligando a Praça N. S. da Paz à Praça Saens Peña, passando por Copacabana, Botafogo, centro da cidade e Central, com conclusão prevista para 1975.

Seria prolongada até Jacarepaguá, via Meier, até 1990. Recomendava também a construção de uma Linha 2 que ligaria Pavuna a Niterói, incluindo Estácio e Carioca como estações de transferência.

Voltando ao longínquo ano de 1979, em seus primeiros dias de operação, a extensão da linha do Metrô ocupava 4,3 kms, com apenas quatro carros ligando cinco pontos próximos (cinco estações), sendo o horário de funcionamento de 09h às 15h. O numero de usuários era de apenas 60 mil por dia.

Hoje, 31 anos depois, os números são bem maiores, sendo que atualmente o serviço transporta 550 mil usuários por dia.

Entretanto, o serviço atualmente é um dos piores, na visão dos usuários. Problema do metrô? Ou o carioca é muito exigente?

Do ponto-de-vista do usuário, é inegável perceber que apesar do grande salto dado no início, com a construção de algumas estações, o serviço caiu no marasmo, principalmente em fins da década de 1980 e toda a década de 1990, até que, bem recentemente, toda a sociedade civil – apoiada pela mídia – passou a questionar a eficácia do serviço. Todos os obstáculos enfrentados pelo cidadão atualmente, podem ser explicados pela falta de investimento dos sucessivos governos que passaram por nosso Estado. E isso pode ser contrastado com uma política de transportes voltada única e exclusivamente a atender as grandes empresas de ônibus da cidade, uma verdadeira “máfia” que age, tal qual uma célula cancerígena, por toda a cidade, prestando desserviços à população. Interesses ocultos estiveram em jogo: “pra quê investir em transporte de massa?”, não é mesmo?

O olho gordo dos empresários de ônibus, aliado a falta de visão destas sucessivas autoridades pode ser visto atualmente no caos do transporte público: aglomeração de linhas para a zona sul e Barra da Tijuca (linhas rentáveis na visão do tal empresaiado, ora pois!) – que por sua vez acaba gerando congestionamentos no cento da cidade, rumo a Copacabana, por exemplo -, e consideravel déficit de linhas para regiões longínquas da cidade, como zona oeste, baixada fluminense e Ilha do Governador, por exemplo.

O metrô, que hoje era para servir a maior parte de nossa cidade, tal qual estipulado em seu projeto original, atende de forma deficiente alguns pontos da cidade. E se não bastasse a inércia, o usuário ainda tem que conviver com a deterioração dos serviços: vagões sem ar-condicionado (verdadeiras saunas), fungos brotando do teto dos vagões mal iluminados e com atrasos que não cabem mais desculpas. Na terça-feira de carnaval, por exemplo, enquanto diversos blocos ainda tomavam conta da cidade e as escolas de samba ainda desfilavam no sambódromo, o metrô atrasava, em média, 17 minutos nas estações – este que vos escreve contou no relógio, pessoalmente. O resultado não podia ser outro: vagões hiperlotados de passageiros, empurra-empurra e a refrigeração, que já era deficiente, tornou-se rarefeita, virando temperatura saariana.

E as notícias não são boas, já que o poder público, o único que poderia dar um basta nessa situação de desserviço do metrô, mostra-se reativo quanto a mudanças. Recentemente, um grupo de deputados estaduais propôs uma CPI para resolver, de uma vez por todas, esses problemas – CPI esta prontamente rechaçada pelo presidente da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Jorge Picciani.

O Metrô-Rio rebate dizendo que somente em 2011, com a compra de novos carros, a situação será restabelecida.

Um dado que ainda não foi percebido pela população é que a inauguração de estações na mesma linha, horizontalmente, irá atrapalhar mais ainda o serviço, superlotando ao quadrado os vagões e estações. Levar o metrô até a Barra pode ser muito bonito no papel, mas na prática, se não forem construídas estações de conexão rumo a outros lugares da cidade, irá gerar o colapso nesse sistema, que já é bastante discutível, sob o ponto-de-vista da prestação equivocada dos serviços aos usuários.

Os governos estadual e federal, ao invés de melhorarem o serviço – seja investindo, seja cobrando da empresa concessionária – preferem inaugurar estações e linhas, já que dá mais visibilidade fazer isso.

No meio desse tiroteio, troca de acusações e clara demonstração de incompetência e falta de respeito, está o cidadão que trabalha e paga impostos, cujo único interesse dos políticos reside em época de eleições."

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Final de Semana - "The Man Who Sold The World"



Final de semana com pinta de chuva, estado de espírito igualmente plúmbeo...

Nestas horas, um bom Nirvana é a melhor tradução da melancolia que invade nossas almas. Coloco aqui a minha música preferida, em minha versão preferida.

"The Man Who Sold The World" é sem dúvida alguma uma canção que mostra o desencanto do vocalista Kurt Cobain com o mundo do "show business". O curioso é que segundo o que pesquisei a música é do artista inglês David Bowie - embora tenha a cara de Cobain.

A versão que apresento aqui é do ótimo "Unplugged", gravado em Nova York em 1994. Abaixo, a letra e uma tradução aproximada. Para reflexão.

"We passed upon the stairs, we spoke Of was and when
Although I wasn't there, he said I was his friend
Which came as some surprise I spoke into his eyes
I thought you died alone, a long long time ago

Oh no, not me
We never lost control
You're face to face
With the man who sold the world

I laughed and shook his hand, and made my way back home
I searched from form and land, for years and years I roamed
I gazed the gazeless stare at all the millions hills
I must have died alone, a long long time ago

Who knows? Not me
I never lost control
You're face to face
With the man who sold the world

Who knows? Not me
We never lost control
You're face to face
With the man who sold the world"

Tradução aproximada:

Nós passamos pela escada 
Nós falamos do que foi e quando 
Porém eu não estava lá 
Ele disse que eu era seu amigo 
Que veio como uma surpresa 
Eu falei em seus olhos 
Eu achei que você morreu sozinho 
Há muito, muito tempo atrás 

Oh não, eu não 
Nós nunca perdemos o controle 
Você esta cara a cara 
Com o homem que vendeu o mundo 

Eu ri e apertei sua mão 
Fiz meu caminho de volta pra casa 
Eu procurei por forma e terra 
Por anos e anos eu perambulei 
Eu olhei fixamente um olhar fixo 
Em todos os milhões lá 

Eu deveria ter morrido sozinho 
Há muito, muito tempo atrás 

Quem sabe? Eu não 
Eu nunca perdi o controle 
Você esta cara a cara 
Com o homem que vendeu o mundo 

Quem sabe? Eu não 
Nós nunca perdemos o controle 
Você esta cara a cara 
Com o homem que vendeu o mundo"

Bom final de semana. Reflitam sobre suas vidas.

Cinecasulofilia - "Aquele Querido Mês de Agosto"

De volta após o período carnavalesco a nossa coluna de todas as sextas feiras, a "Cinecasulofilia". Aproveito para informar que a coluna "Samba de Terça" entra em recesso e volta no final de maio; por outro lado, a coluna "Whisky, Televisão e Carnaval" passa a ser uma coluna fixa deste espaço. A princípio será publicada aos domingos.

Vamos ao nosso texto, sobre um filme que se encontra em cartaz aqui no Rio de Janeiro. Como sempre, publicada em parceria com o blog "Cinacasulofilia", do cineasta, crítico de cinema e torcedor da Santa Cruz Marcelo Ikeda:

"Aquele Querido Mês de Agosto

Nesse início de ano estão começando a surgir as listas de melhores filmes do ano de 2009. Neste ano, não tenho muita pressa ou expectativa em elaborar a minha lista pessoal, já que os filmes que estrearam comercialmente (isto é, excluindo as exibições exclusivas em mostras e festivais) realmente muito bons foram muito poucos. No entanto, não posso deixar de me omitir sobre o que foi disparado o melhor filme de 2009: Aquele Querido Mês de Agosto, o óvni português de Miguel Gomes.

Na verdade, gostaria de escrever com mais cuidado sobre o filme mas, como quase sempre acontece nesse blog (ou na vida), as coisas precisam seguir assim mesmo. Aquele Querido Mês de Agosto encanta por sua ousadia, por sua sensibilidade, por ter sido realizado num limite tênue entre o tudo e o nada, e ainda assim não ser pretensioso mas doce, íntimo e encantador.

Recentemente Eduardo Escorel criticou Moscou por ter visto que, depois de horas de material rodado, simplesmente “ali não tinha filme”. O próprio Coutinho confirmou que passou por uma enorme angústia, uma crise, que pensou em “parar de fazer cinema”, tamanha a dificuldade de “encontrar” o filme na montagem. Fico imaginando o que Escorel diria ao ver o material bruto de Aquele Querido Mês de Agosto. Ou ainda, imaginamos como o diretor Miguel Gomes, em seu segundo longa-metragem, sem a experiência de décadas na realização como o veterano Coutinho, deve ter se sentido na montagem desse filme.

A primeira hora de Aquele Querido Mês de Agosto é uma das mais encantadoras do cinema contemporâneo recente. Muito se fala no cinema contemporâneo em termos de como se combina ficção e documentário, e já se falou bastante sobre esse aspecto no filme. Mas sua singularidade reside no fato de que não se trata de “dividir” os aspectos documentais e os aspectos ficcionais, e sim que ambos estão “colados” numa liga orgânica que funciona como um adubo para que o filme floresça. Daí a importância da espetacular montagem, que une as sequências de uma forma livre, com associações belas e criativas, dinâmicas, que me fazem lembrar, a grosso modo, de um filme como O Som ou o Tratado da Harmonia, de Arthur Omar. Os grupos musicais no interior de Portugal servem como um fio condutor mas o interesse de fato do filme é perscrutar os locais, os costumes, as pessoas mas sem um ranço acadêmico (colher informações, o etnógrafo buscando um “folclore”, etc). A pulsão do filme está na alegria e na liberdade de viver com as pessoas, de fazer pulsar um certo modo de viver, uma poesia irresistível que entra em direto contraste com o modo de vida cada vez mais pragmático, materialista e vulgar dos grandes centros urbanos. Mas Miguel Gomes não quer fazer uma crítica à modernidade nem meramente registrar o seu contato com o outro: ele parece simplesmente interessado em cantar a possibilidade de existir, quer vasculhar os recantos e as pessoas com uma curiosidade quase juvenil (digo, no bom sentido, uma ingenuidade saudável), como se não conseguisse parar de nos mostrar a riqueza do mundo e a beleza dos pequenos fatos. Essa livre montagem e um uso formidável do som (a importância do som como autônomo à imagem é explicitada no fim, quando o próprio técnico de som conversa com a equipe, isto é, conosco), em que o som de uma sequência é antecipado na sequência anterior, ou prolongado na sequência seguinte, além de um trabalho rico mesmo de autonomia das camadas sonoras (já que o filme é também sobre o cantar como instância libertadora), ainda que sutis, tornam o filme um exercício maduro e tremendamente arriscado, cujo equilíbrio se dá no fio da navalha, expondo lugares e personagens, e muitas vezes retomando-os posteriormente para acrescentar, problematizar, dinamizar a narrativa.

Por outro lado, há um aspecto metalingüístico no filme. Vemos a própria equipe filmando o filme que estamos vendo, como se o filme fosse uma espécie de making of, mas com cenas claramente ficcionais. Dessa forma, um representante do produtor questiona o diretor sobre o filme que está sendo feito, “sem atores”, “sem roteiro”, e o diretor responde simplesmente que continua a buscar o filme, como se esse processo de busca fosse o próprio filme. Em seu terço final, é como se o diretor passasse a “filmar esse filme que se estava a princípio procurando”, ou seja, uma história ficcional basicamente relativa a um jovem casal que se descobre apaixonado, participantes de um grupo musical. Essa dobra narrativa acontece de uma forma orgânica, mas por outro lado arrasta o filme, cuja duração é de quase 145 minutos. Ainda assim, não apaga a brilhante contribuição de Miguel Gomes, a magia dos seus primeiros noventa minutos, um maravilhoso e comovente passeio (num carro de bombeiro?) por um mundo realista e encantado."

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Resenha Literária - "Conquistando o inimigo" (Invictus)

Certos livros galvanizam a gente de tal forma que somente conseguimos parar quando finalmente terminamos a leitura. Deixamos outras prioridades de lado, leituras mais urgentes... Pelo menos para quem é apaixonado pela literatura e por um bom livro é assim que funciona.

Isto aconteceu com este "Conquistando o Inimigo", que li em apenas duas noites de folga.

A história é a seguinte: conta o processo de libertação do ex-presidente Nelson Mandela, desde os tempos de cadeia até a chegada ao poder. O mote é a Copa do Mundo de rugby que foi disputada no país em 1995 - após o final do apartheid - e que foi utilizada como veículo para a integração entre negros e brancos no país.

Há lances inacreditáveis na história, como as tentativas de desestabilização do processo de fim do regime racista e ascensão do CNA (Congresso Nacional Africano) ao poder desarmadas de modo brilhante por Mandela. Em muitas ocasiões ele sacrificou o curto prazo apontando o final do caminho, a paz, como mais recompensadora.

Impressionante, também, é o processo de transformação do ódio em união nacional empreendida pelo grande líder, tanto do lado dos brancos - os africaaners, descendentes de holandeses - quando do lado negro. Seria muito mais fácil assumir o poder pela força e promover uma vingança ampla, geral e irrestrita; entretanto Mandela compreendeu que somente haveria um país e uma democracia se houvesse união nacional.

Também se deve destacar o precário equilíbrio construído pelo líder desde as conversações que redundaram em sua saída da cadeia. Ao mesmo tempo em que conquistava o apoio dos brancos - viscerais inimigos, que o viam como um terrorista - ele foi aplacando os mais radicais dos seus correligionários e comandando a transição democrática na África do Sul.

O clímax do livro é a Copa do Mundo de rugby, disputada no país em 1995. Esporte predominantemente branco, foi compreendido pelo líder de seu poder potencial no processo de unificação do país. Utilizado de forma política, foi o meio que permitiu a aceitação de Mandela e dos novos símbolos do país pelos brancos. Por outro lado, ao conquistar a torcida dos negros - que odiavam a equipe, por representar toda a dominação e os sofrimentos imfligidos a eles. E com direito a final feliz...

Com passagens emocionantes, é leitura obrigatória - até para se entender quem foi Nelson Mandela e o processo absolutamente bem sucedido de fim do apartheid. O curioso é que eu não sabia que havia se transformado em filme até ver matéria publicada ontem sobre o livro no Globoesporte.com - com o autor John Carlin. Eu peguei o livro para ler porque já estava há algum tempo dentro da listinha de prioridades.

Chega a parecer um romance se não fossem fatos reais. É uma aula de política, de solidariedade e de tolerância. Tornei-me fá do ex-presidente sul-africano, um verdadeiro estadista.

Reproduzo abaixo a matéria com o autor, coincidentemente publicada anteontem no Globoesporte.com.

"Arte usa proeza de Mandela com o esporte para falar da África do Sul

Há 15 anos, líder usou seleção de rúgbi para unir a população. John Carlin, autor do livro que originou filme ‘Invictus’, fala das mudanças no país

Alexandre Alliatti - Porto Alegre


Imagine passar 27 anos preso. Pense como seria viver tanto tempo arquitetando sua vida pós-libertação. Calcule o peso de ganhar a liberdade e, quase na sequência, ter o poder de se vingar de seus inimigos. E agora tente entender um homem que, em vez disso, resolveu se unir a eles. Se a África do Sul vai sediar uma Copa do Mundo a partir do próximo 11 de junho, é porque existiu Nelson Mandela, um líder visionário a ponto de evitar que seu país mergulhasse no caos – e que usou o esporte para radicalizar (para o bem) as relações entre fatias tão heterogêneas de uma mesma nação.

Parece ter sido calculada a época de realização da primeira Copa do Mundo de futebol no continente africano. Em 2010, completam-se 20 anos da liberdade finalmente concedida a Mandela. E 15 anos de uma competição que mudou os rumos do país. Em 1995, já com o maior líder nacional como presidente, a África do Sul foi sede do Mundial de rúgbi. Mandela, ao pensar na disputa, teve um estalo: o esporte, então reservado quase que exclusivamente aos brancos, poderia servir como alavanca para um processo de união em um país que ainda sofria com a segregação.

O Springboks, nome dado à seleção nacional de rúgbi, era idolatrado pelos brancos (os chamados afrikaners) em 1995. E detestado pelos negros. Afinal, ali estava um dos símbolos do apartheid, o regime que separou a população sul-africana de acordo com o critério mais inacreditável: a cor da pele. Mandela, ciente da atenção que o mundo daria à Copa do Mundo de rúgbi, resolveu convencer a população negra, quase toda encantada com ele, a apoiar a seleção. Soou estranho. Era o líder supremo do país pedindo a ajuda dos negros a um símbolo do racismo. Mas Mandela sempre pensou adiante: ele sabia que conquistar o inimigo renderia frutos muito mais maduros do que enfrentá-los. E teve sucesso na empreitada.

A história vivida por Mandela, o povo sul-africano e o Springboks parece conto de fadas. E é real. No ano em que o planeta olha com mais atenção para o país, o mundo da arte se encarrega de relatar os episódios de 1995. Uma grande referência é o livro “Conquistando o Inimigo”, do jornalista inglês John Carlin, que morou seis anos no país, justamente no período do fim do apartheid. É a obra que inspirou Clint Eastwood a dirigir e produzir o filme “Invictus”, com Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela e Matt Damon como François Pienaar, o capitão do Springboks.

O livro, como costuma acontecer em adaptações, é superior ao filme. É mais completo. John Carlin, profundo conhecedor do país, mostra as nuances da África do Sul, as peculiaridades de um país que precisou se equilibrar em uma corda bamba para evitar a guerra civil e que teve a sorte de contar com um líder como Mandela, o homem certo na hora certa.

Abaixo, você lê entrevista concedida por John Carlin, por e-mail, ao GLOBOESPORTE.COM. Ele fala sobre as diferenças que separam a África do Sul do Mundial de rúgbi, 15 anos atrás, para o país da Copa do Mundo de futebol, daqui a quatro meses. E também deixa suas lembranças de um país que marcou a vida do jornalista – do mesmo jeito que marcará a lembrança de tantas outras pessoas, mesmo que de longe, a partir de junho.

GLOBOESPORTE.COM: Passaram-se 15 anos desde a ideia de Mandela de usar a Copa do Mundo de rúgbi para tentar reduzir a segregação e a discriminação na África do Sul. E faz 20 anos que ele deixou a prisão. Mudar uma sociedade, claro, nunca é um processo rápido. Como você vê o país na atualidade? Está menos racista?
JOHN CARLIN: O racismo, na verdade, não é a questão agora. Não se você fala das pessoas comuns, cuja maioria trata aos outros com cordialidade e respeito, independentemente de sua raça. A África do Sul tem perdido muito de sua épica e terrível singularidade. Tem os mesmos problemas que muitos outros países. Se não fosse pela Copa do Mundo, a África do Sul não estaria sendo falada no noticiário internacional agora. É uma democracia sólida, com liberdade de expressão e Estado de direito: uma democracia muito mais sólida e respeitável do que, digamos, a Rússia, que mudou ao mesmo tempo. Os maiores problemas agora são a violência, a corrupção e a pobreza.

A África do Sul agora vai sediar a Copa do Mundo de futebol. O que aconteceu com o rúgbi pode ser repetido, e até melhorado, com o futebol no país?
JC: Não. O desafio na África do Sul em 1995 era político; agora, é econômico. A África do Sul vai usar a Copa do Mundo do mesmo jeito que o Brasil, com alegria, divertimento e esperança de benefícios econômicos.

Há um orgulho nacional com o futebol do mesmo jeito que ocorre com o time de rúgbi? Os afrikaners gostam do futebol tanto quanto a população negra?
JC: Orgulho, sim, mas amenizado pelo fato de que o time não é bom. E os afrikaners não tendem a gostar de futebol, não.

Você pensa que Mandela pode ser usado como motivação para o time e para o povo sul-africanos, como aconteceu em 1995?
JC: Um pouco. Mas ele está muito velho para ter um papel ativo.

Seu livro mostra um líder com carisma e estratégia. Quando você pensa em Nelson Mandela, que imagem você faz? Como você define este homem?
JC: Ele é um homem de enorme integridade, respeitador, cortês, espontâneo, calmo, charmoso, com vasta autoconfiança. E um democrata, que trata um garçom do mesmo jeito que faz com a rainha da Inglaterra.

Sabe se ele leu o livro?
JC: Não leu. Está muito velho. Não consegue se concentrar por muito tempo.

O que você achou do filme “Invictus”?
JC: Eu gostei. Agarrou-me do início ao fim – quatro vezes. Eu penso que o filme capta bem o espírito de Mandela e daqueles tempos na África do Sul, e o faz de uma maneira para entreter uma audiência global. Há muito mais política no livro; o filme focou mais na dimensão social do fato.

Que memórias pessoais você tem da África do Sul? Em seu livro, você parece adorar o país.
JC: Eu conheci as melhores pessoas do mundo lá, e também as piores. Há mais pessoas que eu admiro lá do que eu qualquer outro lugar do mundo."

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Demagogia

Leio no jornal O Dia de ontem que a prefeitura está instalando pedras embaixo de viadutos e divisórias de ferro nos bancos de praça para impedir que moradores de rua durmam nestes locais. É uma medida antipática e que requer uma análise aprofundada.

Dentro da política atual da Prefeitura do Rio de massacrar aqueles que trabalham e "maquiar" a figura da cidade para que os turistas não vejam é algo perfeitamente coerente. A questão é que este tipo de medida não passa de paliativo, não resolvendo a questão social do morador de rua.

Tal e qual a política das UPPs, o objetivo é afastar os moradores de rua do eixo Centro-Zona Sul, confinando-os às regiões das Zonas Norte ou Oeste. Estas não fazem parte do mapa da cidade para efeito de políticas públicas, servindo apenas como dejeto de tudo que não é adequado às áreas nobres da cidade. A finalidade é deixar a população de rua junto com os traficantes em algum lugar isolado como Piedade ou Santa Cruz.

Obviamente, impedir que pessoas durmam embaixo dos viadutos ou em bancos de praça não irá resolver o problemas destas. Apenas deslocar, o que parece atingir à necessidade dos órgãos da prefeitura. Entretanto, faz-se necessária uma política de reinserção destes indivíduos na sociedade organizada, primeiro através de ações sociais e posteriormente por meio de medidas que permitam a absorção destes pelo mercado de trabalho.

Não custa lembrar que muitos destes "moradores de rua" são catadores de latinhas ou de papelão - desempenhando um papel importante não somente na economia quanto no meio ambiente. Muitas vezes são pessoas que possuem suas casas, mas a distância e o trabalho de sol a sol impedem que retornem todos os dias para seus lares. Estes demandam um tipo de medida diferente do requerido pelas populações típicas de rua.

Na prática, a medida tomada equivale a uma versão amenizada do famoso episódio do Guandu, onde mendigos teriam sido afogados às dezenas por ordem da então secretária de estado Sandra Cavalcanti. Infelizmente, mais de quarenta anos depois repete-se esta desagradável faceta de nossos governantes.

Que fique claro que não sou a favor de mendigos e assemelhados, mas sou a favor de políticas que os permitam sair desta situação. Varrer o problema para debaixo do tapete não adianta rigorosamente nada, apesar do prefeito atual professar a velha crença do início do Século XX de que "a questão social é caso de polícia."

Entretanto, como o alcaide da cidade acha que foi eleito para governar a Zona Sul somos obrigados a ver este tipo de atitude elitista, paliativa e que não resolve rigorosamente nada.

Ou seja, lamentável.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

E vem aí o Imposto de Renda...


Eu costumo brincar com os amigos dizendo que o Pedro Migão "pessoa física" só existe duas vezes por ano. Neste rosário de papéis que somos chamados a desempenhar - pai, funcionário, marido, entre outros - muitas vezes as nossas coisas acabam ficando em último plano, e isto gera esta brincadeira que faço.

Uma das ocasiões, já fartamente escrita aqui, é no carnaval. E a outra está iniciando a sua temporada no próximo dia primeiro de março: o imposto de renda.

O imposto de renda brasileiro é um dos mais injustos do mundo. Na ânsia arrecadadora a tabela que determina quem paga ou não imposto ficou congelada durante dez anos, de 1993 a 2003. O resultado é que mesmo com as tímidas correções realizadas nos últimos anos hoje quem ganha cerca de três salários mínimos desconta imposto na fonte. O que é um verdadeiro absurdo.

Além disso, apesar do aumento de faixas de alíquota ocorrido recentemente os mais ricos percentualmente pagam bem menos imposto que a faixa compreendida entre sete e quinze salários mínimos. Alguém que tenha renda bruta mensal nesta faixa não somente retém uma parcela considerável de seu salário na fonte como acaba tendo imposto a pagar na hora do ajuste anual.

Os governos ainda não despertaram para o poder que a redução das alíquotas ou a correção da tabela do imposto de renda possui sobre a demanda agregada e o nível de consumo. Se o seu salário possui um desconto menor na fonte ou gera uma restituição, isto cai diretamente no nível de renda disponível e estimula o consumo - que gera emprego, consequentemente mais renda e mais pagamento de imposto. Um círculo virtuoso.

Entretanto, como há sérias dificuldades políticas de se cobrar a parcela justa das pessoas físicas dos estratos mais altos de renda e das pessoas jurídicas, o ônus acaba recaindo sobre aquela camada assalariada. Esta nem sempre pode ser chamada de "classe média", porque quem ganha três, quatro mínimos mensais não pode ser considerado na classe média típica.

Outro ponto a que chamo atenção é o fato de que a Receita Federal vem apertando a fiscalização e o cruzamento de dados na declaração anual. Não adianta mais dar aquela de "joão sem braço", porque a chance de cair na malha fina e pagar aquela polpuda multa é extremamente alta.

A estrutura tributária brasileira permitiria um imposto de renda menor através de outras tributações, sem perda de receita para o estado. Entretanto, isto implica em lidar com grupos de pressão extremamente organizados defendendo seus interesses. Na prática, acaba recaindo sobre aqueles que tem menor lobby.

Portanto, enquanto esta estrutura injusta e arcaica não se moderniza, é hora do jausta anual de contas com o "leão". O prazo final é dia 30 de abril, mas se você leitor é um sortudo credor de uma restituição quanto mais rápido a declaração for entregue, antes você recebe o seu suado dinheirinho de volta.

Obviamente, não é o meu caso, apesar da fortuna que pago de colégio para as minhas filhas...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sobre a Portela - II



Bom, pelo menos aqueles que leram o tópico anterior sobre o desfile da Portela de 2010 devem saber o quanto ele foi desastroso.

Quero aqui colocar alguns pontos para reflexão.



A diretoria atual da escola, que assumiu em meados de 2004, obteve sem dúvida alguma diversos progressos em relação à administração anterior: hoje temos um bom puxador, uma bateria Estandarte de Ouro, um trabalho de comunidade bem feito, um bom casal de mestre sala e porta bandeira e a escola recebeu o retorno em suas classificações desde então.

Entretanto, a Portela hoje padece com quatro questões sérias.

Uma é a escolha de enredos. A escola simplesmente jogou no lixo todas as suas tradições, optando por enredos politicamente corretos e de exaltação ao governo - com a honrosa exceção de 2009. Parece que os temas são anunciados visando a arrancar o maior patrocínio possível de alguma esfera governamental, não observando a gloriosa história portelense.

A segunda são os sambas escolhidos. Desde 2008 que sempre a mesma parceria é escolhida, o que desestimula aos outros compositores apresentarem obras dignas de serem levadas à avenida. Ressalto que, apesar de frios, os sambas desta parceria permitem ao desfilante cantar o samba sem cansar - mas lá se vão 11 anos sem Estandarte de Ouro de melhor samba de enredo...

Terceiro: a contratação de carnavalescos de ponta. A direção da Portela prefere pegar carnavalescos no Acesso B, pagando pouco, a contratar nomes talentosos e de peso. O resultado são concepções muitas das vezes equivocadas.

Quarto e principal: a escola só inicia o barracão com atraso. Não há o menor planejamento de carnaval, o barracão é iniciado com atraso e sempre os carros, fracos, são concluídos às carreiras - o que, apesar do "chão", acaba impedindo a conquista do sonhado título.

Além destes fatores, a Majestade do Samba sofre com o problema da centralização das decisões nas mãos de seu presidente.

A Portela terá eleições entre abril e maio, já um pouco tarde para corrigir parte destas questões visando ao carnaval de 2011. Mas tendo a votar na oposição - sou sócio com direito a voto.

Mas vamos ver as chapas disponíveis, até porque, pelo estatuto, o atual presidente não pode se candidatar.

Chiquinho do Babado, prestações de contas esquisitas e suspeitas variadas


Chiquinho do Babado (foto) é, hoje, o maior fornecedor de material de carnaval às escolas de samba do Rio de Janeiro.

Reproduzo, com autorização de um dos autores, matéria do jornal O Globo do domingo de carnaval que questiona os números das prestações de contas de algumas escolas e o relacionamento destas com a empresa em questão.

Apenas para explicar aos leitores, as escolas de samba recebem valores de diversas fontes:

1) Da subvenção da prefeitura;
2) De valores subvencionados pelo Governo do Estado;
3) Repasses feitos pelo Governo Federal via estatais;
4) repasses da venda de ingressos;
5) repasse da cota de televisão;
6) Parte referente à venda de CDs;
7) receitas de patrocínios;

O assunto abordado na matéria são as prestações de contas determinadas pela Prefeitura, que possuem, segundo o publicado, várias incoerências. Há suspeitas de crimes como evasão fiscal e lavagem de dinheiro.

Vamos ao excelente texto:

"O barão do carnaval

Comerciante fica com metade da subvenção paga pela prefeitura às escolas do Grupo Especial

Chico Otavio e Aloy Jupiara

A cabeça descarnada de alce que orna a parede, no fundo da loja, contrasta com o colorido de tecidos, plumas e outras mercadorias de carnaval. Jorge Francisco, o proprietário, tem uma explicação para o adorno singular.

— Cliente caloteiro vai parar ali — diz, apontando para a carcaça de chifres enormes.

No mundo do samba, Jorge Francisco é Chiquinho do Babado, dono da cadeia de lojas Babado da Folia. Sua desenvoltura é tão grande nas quadras e nos barracões que os carnavalescos, principais clientes, nem se importam com a brincadeira com o alce e a inevitável alusão às preferências sexuais de alguns. Eles sabem que Chiquinho é um cara do babado. A análise da prestação de contas das escolas de samba, relativa ao contrato de prestação de serviços (antiga subvenção) celebrado no desfile de 2009, transforma esse ex-vendedor de pastéis de Padre Miguel num barão do carnaval. Dos R$4,2 milhões despejados naquele ano pela prefeitura nos cofres das escolas (excluídos ISS e a taxa de administração paga à Liga das Escolas de Samba), suas lojas ficaram, sozinhas, com R$2 milhões.

Jorge Francisco é também um cara do babado no banco de dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), unidade de inteligência do Ministério da Fazenda. Ele aparece na lista de pessoas físicas e jurídicas que fizeram saques anormais em dinheiro vivo (valores elevados), na boca do caixa, das contas das escolas de samba. Para investigadores desse tipo de atividade, os saques podem ser indício de lavagem de dinheiro.

A subvenção ou contraprestação do carnaval, espécie de cachê pago pela prefeitura às escolas para fazer o espetáculo, por ser dinheiro público (diferentemente de outras receitas da Passarela do Samba), obriga os favorecidos a justificar os gastos. Em 2009, cada escola recebeu R$400 mil, mas prestou contas de R$361 mil, por destinar 5% à liga, como taxa administrativa, e mais 5% ao recolhimento de ISS.

Frente ao conjunto de recursos que engorda as escolas do Grupo Especial, proveniente de venda de ingressos, publicidade, ajuda pública e direitos de transmissão, R$361 mil não representam tanto. Mas um exame das notas fiscais arquivadas na sede da Riotur escancara a falta de intimidade das agremiações com as obrigações contábeis. Com uma diferença de apenas um real, as prestações de contas da Beija-Flor de Nilópolis e da Unidos do Porto da Pedra em 2009, por exemplo, foram iguais.

Pelas notas fiscais apresentadas à Riotur, a Beija-Flor gastou R$50 mil na Casa João Gandelman Armarinho, R$99.999 na J.F. 300 Comércio e Confecções de Enfeites, R$50 mil na O.M.F. Confecção e Comércio de Enfeites e R$162 mil na Ferreira Santos Confecções e Comércio de Enfeites. Já a Porto da Pedra declarou ter gastado R$50 mil na João Gandelman, R$100 mil na J.F. 300 (um real a mais do que a Beija-Flor), R$50 mil na O.M.F. e R$162 mil na Ferreira Santos. Outro detalhe une as duas escolas: as quatro empresas pertencem a Chiquinho, o que o torna fornecedor único de ambas.

Das 12 escolas do Grupo Especial, cinco tiveram Chiquinho, pelo menos nas despesas pagas com a subvenção da Riotur, como fornecedor exclusivo ou majoritário. Além da Beija-Flor e da Porto da Pedra, integram a lista a Vila Isabel (100% das compras), Mocidade (70%) e Império Serrano (58%). Em outras três, ele foi o maior recebedor: Mangueira (36%), Unidos da Tijuca (28%) e Salgueiro (28%).

As despesas restantes das agremiações que não compraram exclusivamente com Chiquinho são picadas — ao contrário do que se verifica nas notas da rede Babado da Folia (nome de fantasia das lojas do comerciante). Nelas, os preços cobrados por tecidos, miçangas, paetês e centenas de outros produtos são sempre redondos, como os R$100 mil que encabeçam os gastos do Salgueiro, numa relação de despesas na qual o valor de Chiquinho é único recheado de zeros.

O comerciante, contudo, desconversa quando é provocado a falar sobre o fornecimento exclusivo:

— Não sei se sou o maior. Temos uma fatia do mercado. Os colegas que tenho nas escolas facilitam o trabalho. Além de vender, presto assessoria a eles também.

Como a liga e as escolas já ficam com 93% da arrecadação com a venda de ingressos (receita de R$41 milhões só no ano passado), fora a publicidade e outras fontes de recursos, duas ações civis públicas movidas pelos promotores de Tutela Coletiva, referentes aos carnavais de 2007, 2008 e 2009, classificam a contraprestação (subvenção) às escolas como dupla remuneração, portanto ilegal. Eles concluem que os contratos da prefeitura com a liga "estariam ensejando o enriquecimento sem causa da referida agremiação".
Chiquinho do Babado já esteve do outro lado do balcão. Como chefe do barracão da Mocidade, escola onde passou 20 anos, era o responsável pelas compras de carnaval. Ele alega que, na época, percebeu o descompasso entre as necessidade das agremiações e o material oferecido pelas lojas especializadas, razão pela qual resolveu mudar de lado:

— Sentia um vácuo. Os fornecedores não acompanhavam a evolução das escolas.

Jorge Francisco era ainda o Chiquinho do Pastel, por vender o quitute nos campos de várzea da região, quando chegou à Mocidade, junto com Castor de Andrade, em 1974. Naquele ano, o carnavalesco Arlindo Rodrigues apresentou enredo "A festa do Divino", dando à escola um promissor quinto lugar.

Pela força física e a experiência então recente no Exército — servira no Regimento de Cavalaria Andrade Neves —, ele foi encarregado por Castor de cuidar da portaria da quadra. Aos poucos, Chiquinho foi galgando postos e conquistando a confiança do chefe, até chegar ao comando do barracão, cargo que hoje compara ao de diretor de Carnaval, estratégico para a escola:

— Antes de Castor, a Mocidade era conhecida só pela bateria. Ele deu uma injeção na escola. Foi uma figura importante não só para a Mocidade, mas para o carnaval do Rio.

Chiquinho montou o próprio negócio no início dos anos 1990. Ele diz que comprou a loja Sobradão do Carnaval, na Saara, de Piná, a ex-destaque da Beija-Flor. Nesse ponto, há uma pequena divergência entre os dois. Enquanto Chiquinho afirma que a compra foi a sua estreia no negócio, Piná sustenta que o colega de comércio só adquiriu a sua loja depois de ser seu gerente por um período, no qual o estabelecimento acumulou prejuízos.

Hoje, Chiquinho é um personagem que transcende a Mocidade. Em ensaios, puxadores de escolas costumam cobri-lo de homenagens. Este ano, com a camisa da diretoria, ele vai desfilar por Santa Cruz, Beija-Flor, Salgueiro, Mocidade e Porto da Pedra. Porém, ao contrário da liga, que se autointitula a única capaz de organizar o carnaval, Chiquinho não pode dizer que é único no fornecimento de plumas e paetês.

— Ninguém pode querer ficar com o bolo sozinho. Tem fatia para todo mundo — garante Piná."

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Lula no Estadão


Andei meio descolado do noticiário na semana do carnaval, mas não posso deixar de repercutir - com agradecimentos ao "Viomundo" - e entrevista do Presidente Lula ao Estado de São Paulo.

Reproduzo aqui alguns trechos, os que me chamaram mais atenção.

"Há quem diga que o sr. só escolheu a ministra Dilma, cristã nova no PT, com apenas nove anos de filiação ao partido, porque, se eleita, ela será fiel a seu criador. Isso deixaria a porta aberta para o sr. voltar em 2014. O sr. planeja concorrer novamente?
Olha, somente quem não conhece o comportamento das mulheres e somente quem não conhece a Dilma pode falar uma heresia dessas. Ninguém aceita ser vaca de presépio e muito menos eu iria escolher uma pessoa para ser vaca de presépio. Não faz parte da minha vida nem no PT nem na CUT. Eu já tive a graça de Deus de governar este país oito anos. Minha tese é a seguinte: rei morto, rei posto. A Dilma tem de criar o estilo dela, a cara dela e fazer as coisas dela. E a mim cabe, como torcedor da arquibancada, ficar batendo palmas para os acertos dela. E torcendo para que dê certo e faça o melhor. Não existe essa hipótese .

O sr. não pensa mesmo em voltar à Presidência?
Não penso. Quem foi eleito presidente tem o direito legítimo de ser candidato à reeleição. Ponto pacífico. Essa é a prioridade número 1.

O sr. não vai defender a mudança dessa regra, de fim da reeleição com mandato de cinco anos?
Não vou porque quando quis defender ninguém quis. Eu fui defensor da ideia de cinco anos sem reeleição. Hoje, com a minha experiência de presidente, eu queria dizer uma coisa para vocês: ninguém, nenhum presidente da República, num mandato de quatro anos, concluirá uma única obra estruturante no País.

Então o sr. mudou de ideia...
Mudei de ideia. Veja quanto tempo os tucanos estão governando São Paulo e o Rio Tietê continua do mesmo jeito. É draga dali, tira terra, põe terra. Eu lembro do entusiasmo do Jornal da Tarde quando, em 1982, o banco japonês ofereceu US$ 500 milhões para resolver aquilo. A verdade é que, para desgraça do povo de São Paulo, as enchentes continuam. Eu não culpo o Serra, não culpo o Kassab e nenhum governante. Eu acho que a chuva é demais. No meu apartamento, em São Bernardo, está caindo mais água dentro do que fora. Choveu tanto que vazou. Há dias o meu filho me ligou, às duas horas da manhã, e disse: "Pai, estou com dois baldes de água cheios." Eu fui a São Paulo no dia do aniversário da cidade e disse que o governo federal está disposto a sentar com o governo do Estado, com o prefeito, e discutir uma saída para ver se consegue resolver o problema, que é gravíssimo. Não queremos ficar dizendo: "Ah, é meu adversário, deu enchente, que ótimo". Quem está falando isso para vocês viveu muitas enchentes dentro de casa.

A experiência de poder distanciou o sr. do pensamento mais utópico do PT, não?
Veja, o PT que chegou ao poder comigo, em 2002, não era mais o PT de 1980, de 1982.

Não era porque houve a Carta ao Povo Brasileiro...
Não é verdade. Num Congresso do PT aparecem 20 teses. Tem gosto para todo mundo. É que nem uma feira de produtos ideológicos. As pessoas compram o que querem e vendem o que querem. O PT, quando chegou à Presidência, tinha aprendido com dezenas de prefeituras, já tínhamos as experiências do governo do Acre, do Rio Grande do Sul, de Mato Grosso do Sul... O PT que chegou ao governo foi o PT maduro. De vez em quando, acho que foi obra de Deus não permitir que eu ganhasse em 1989. Se eu chego em 1989 com a cabeça do jeito que eu pensava, ou eu tinha feito uma revolução no País ou tinha caído no dia seguinte. Acho que Deus disse assim: "Olha, baixinho, você vai perder várias eleições, mas, quando chegar, vai chegar sabendo o que é tango, samba, bolero." O PCI italiano passou três décadas sendo o maior partido comunista do mundo ocidental, mas não passava de 30%. Eu não tinha vocação para isso. E onde eu fui encontrar (a solução)? Na Carta ao Povo Brasileiro e no Zé Alencar. Essa mistura de um sindicalista com um grande empresário e um documento que fosse factível e compreensível pela esquerda e pela direita, pelos ricos e pelos pobres, é que garantiu a minha chegada à Presidência.

Mesmo assim, o sr. teve de funcionar como fator moderador do seu governo em relação ao partido...
E vou continuar sendo. Eu não morri.

Mas a Dilma poderá fazer isso?
Ah, muito. Hipoteticamente, vocês acham que o PSTU ganhará eleição com o discurso dele? Vamos supor que ganhe, acham que governa? Não governa.

As diretrizes do PT, que pregam o fortalecimento do Estado na economia, não atrapalham?
Quero crer que a sabedoria do PT é tão grande que o partido não vai jogar fora a experiência acumulada de ter um governo aprovado por 72% na opinião pública depois de sete anos no poder. Isso é riqueza que nem o mais nervoso trotskista seria capaz de perder.

Os críticos do programa do PT dizem que o Estado precisa ter limites como empreendedor. Por que mais Estado na economia?
Vou fazer uma brincadeira: o único Estado forte que eu quero é o Estadão (risos). Não existe hipótese, na minha cabeça, de você ter um governo que vire um governo gerenciador. O governo tem dois papéis e a crise reforçou a descoberta deste papel. O governo tem, de um lado, de ser o regulador e o fiscalizador; do outro lado, tem de ser o indutor, o provocador do investimento, que discute com o empresário e pergunta por que ele não investe em tal setor.

O sr. teme que o PSDB venha na campanha com o discurso de gastança, de inchaço da máquina, que o seu governo contratou 100 mil novos servidores?
Vou dar um número, pode anotar aí: cargos comissionados no governo federal, para uma população de 191 milhões de habitantes. Por cada 100 mil habitantes, o governo tem 11 cargos comissionados. O governo de São Paulo tem 31 e a Prefeitura de São Paulo tem 45.

Há quem tenha ficado assustado com a foto do sr. abraçando o Collor, depois de tudo o que passou na campanha de 1989.
O exercício da democracia exige que você faça política em função da realidade que vive. O Collor foi eleito senador pelo voto livre e direto do povo de Alagoas, tanto quanto foi eleito qualquer outro parlamentar. Ele está exercendo uma função institucional e merece da minha parte o mesmo respeito que eu dou ao Pedro Simon, que de vez em quando faz oposição, ao Jarbas Vasconcelos, que faz oposição. Se o Lula for convidado para determinadas coisas, não irá. Mas o presidente tem função institucional. Portanto, cumpre essa função para o bem do País e, até agora, tem dado certo. Fui em uma reunião com a bancada do PT em que eles queriam cassar o Sarney. Eu disse: muito bem, vocês cassam o Sarney e quem vem para o lugar?

O sr. acha que o eleitor entende?
O eleitor entende, pode entender mais. Agora, quem governa é que sabe o tamanho do calo que está no seu pé quando quer aprovar uma coisa no Senado.

O sr. tem dito, em conversas reservadas, que quando terminar o governo, vai passar a limpo a história do mensalão. O que o sr. quer dizer?
Não é que vou passar a limpo, é que eu acho que tem coisa que tem de investigar. E eu quero investigar. Eu só não vou fazer isso enquanto eu for presidente da República. Mas, quando eu deixar a Presidência, eu quero saber de algumas coisas que eu não sei e que me pareceram muito estranhas ao longo do todo o processo.

Quem o traiu?
Quando eu deixar a Presidência, eu posso falar.

Por que é que o seu governo intercede em favor do governo do Irã?
Porque eu acho que essa coisa está mal resolvida. E o Irã não é o Iraque e todos nós sabemos que a guerra do Iraque foi uma mentira montada em cima de um país que não tinha as armas químicas que diziam que ele tinha. A gente se esqueceu que o cara que fiscalizava as armas químicas era um brasileiro, o embaixador Maurício Bustani, que foi decapitado a pedido do governo americano, para que não dissesse que não havia armas químicas no Iraque.

O sr. continua achando que a Venezuela é uma democracia?
Eu acho que a Venezuela é uma democracia.

E o seu governo aqui é o quê?
É uma hiper-democracia. O meu governo é a essência da democracia."

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Prêmio Sambanet 2010 - Resultado

Como escrevi em tópico anterior, o Prêmio Sambanet é a maior láurea concedida às escolas de samba do Grupo de Acesso.

Coloco abaixo a listagem com os vencedores deste carnaval 2010. Parabéns aos vencedores !

Sobretudo

Ainda na ressaca da festa carnavalesca, a coluna "Sobretudo", de volta ao seu dia habitual. Como sempre, escrita pelo publicitário Affonso Romero.

"Cinza

Uma das mágicas do rádio é o imediatismo, a interação, a sensação de que do outro lado daquela pequena caixinha há alguém possivelmente trancado em um estúdio, ligado ao resto do mundo apenas pelas ondas do rádio. Isso provoca o imaginário do ouvinte, promove a vontade de participação. Já apresentei programas no interior do Rio, uns ao vivo, outros pré-gravados. A diferença é imensa. O ouvinte se decepciona ao ligar para a estação para conversar com o locutor e descobrir que ele não está lá. Quebra-se o encanto.

Jornalismo impresso é bem diferente. Ninguém tem a sensação que o colunista está “do outro lado da linha”. Você lê e já vai pressupondo que aquilo pode ter sido escrito com razoável antecedência.

A internet, e especificamente o blog, pode acontecer com a agilidade e interatividade do rádio, mas na maior parte das vezes comporta-se como jornal. Desculpe por decepcionar o leitor que, casualmente, tenha acreditado que eu estou “ao vivo” nesta coluna, mas ela é escrita com dias de antecedência. Por favor, não quebre o eventual encanto.

Escrevo na quinta-feira depois do carnaval. No final da manhã. Ainda estou com sono e péssimo humor. No decorrer do texto, o leitor entenderá meus motivos. Fazemos daqui um pacto: nada de condolências ou solidariedade. Eu sou intolerante, implicante e um pouco neurastênico. Não escondo. Portanto, amigo leitor, o antipático sou eu, o resto do mundo só faz seguir adiante, normalzinho como só.

Já revelei aqui: não tenho alma foliã. Nada contra, mas fica difícil para mim entrar na sintonia de alegria necessária para sair por aí pulando e cantando. O carnaval, como quase sempre nos últimos carnavais, foi oportunidade para imersão e descanso. Eu deveria estar novo em folha para a volta à rotina na quarta-feira de cinzas. Mas a blindagem que eu fiz do mundo e das coisas que me irritam aumentou minha sensibilidade a elas depois da breve pausa.

Sabedor disso, coloquei meu earphone nos ouvidos, mesmo sem conectá-lo a nenhum aparelho, só para isolar-me um pouco do barulho ambiente do trem. Eu não sou doido, normalmente uso meu fone conectado ao celular que toca mp3. Só que o celular está há duas semanas na manutenção, e este é outro motivo de irritação.

Era por volta da hora do almoço (faria apenas meio período no trabalho), o trem não tão cheio, consegui sentar-me logo. Abri um livro bastante interessante, do publicitário Julio Ribeiro, da Talent, que talvez inspire uma coluna futura. Mesmo com o fone nos ouvidos, não consegui me concentrar na leitura. A uns dois bancos de distância, uma dupla de jovens senhoras colocava a conversa em dia. Eu não precisava saber nada do que falavam. A estudante ao meu lado, tentando repassar a matéria, não precisava ouvir nenhum daqueles assuntos. O operário com cara de mal-dormido de pé à minha frente também não, assim como todos os demais passageiros naquele vagão. Pensando bem, nem as duas senhoras entretidas na conversa precisavam saber de nenhuma das informações que trocavam.

Quer falar da vida alheia? Ok, fique à vontade, cada um tem seu assunto preferido, e cada preferência evidencia o que cada um tem para oferecer ao mundo. Mas precisa fazer isso aos berros na ida para o trabalho dentro de um transporte público?

Eu fiquei imaginando aquelas duas criaturas caladinhas em casa durante os quatro dias do carnaval, só acumulando assunto, sem ter com quem comentar o tamanho da saia da prima, o quanto a namorada do filho fala palavrão, a disputa pelas duas casas de aluguel deixadas pela falecida mãe da nora para seus seis filhos, o quem-está-comendo-quem das novelas, principalmente nos bastidores das gravações. Isso tudo sem gastar uma gota do fôlego durante dias, aumentando a vontade de contar tudo para a parceira de trem.

Se uma das duas fosse de samba, ao menos uma estaria um pouco rouca, teria dormido mal. Mas nem isso. Ambas estavam em plena forma vocal. E foram mais de 40 minutos obrigando a todos os passageiros a compartilhar daquelas preciosas informações. Eu mergulhava na leitura durante 20 ou 30 segundos até ser novamente trazido à tona pela voz, ora de uma, ora de outra. Cada vez o nome que entrava pelos meus ouvidos era de um outro personagem, e eles iam desfilando em sequência interminável.

E então eu me pergunto: por que será que certas pessoas conversam tão alto, mesmo em locais públicos? Será que têm noção do volume da voz? É falta de respeito pelo espaço alheio, ou é falta de noção mesmo? Ou ainda, seria falta de audição?

O caso destas senhoras não é único. Ao contrário, isso ocorre com uma frequência bem maior do que a razoável. Eu passei dias em silêncio quase absoluto. Estou ficando chato e ranzinza, mas eu não merecia reinaugurar meu pavilhão auditivo ouvindo a conversa daquelas chatas.

Curtas e Grossas:

Deus é carnavalesco, só pode ser. Na semana passada, choveu todos os fins de tarde em São Paulo. Menos na sexta, que é a primeira noite de desfiles das escolas de samba daqui. Dali até terça-feira gorda, reinou uma trégua pluviométrica. Ontem, na volta para casa, São Paulo parou novamente. Eu saí do trabalho às 18h00, cheguei em casa às 22h30. Na ida, as senhoras fofoqueiras de megafone na garganta; na volta, o alagamento.

No calor do meu lar (literalmente, porque a chuva refrescou 3 ou 4 graus, dos 10 ou 15 necessários), peguei o segundo tempo de Flamengo x Botafogo. Preferi o alagamento. O Andrade sabe qual é o problema do time dele. Isso não é o pior. O pior é que o Joel também sabia, e explorou a desarrumação da defesa rubro-negra. Como o Adriano e o Love estavam de ressaca do carnaval e perderam mil gols feitos, deu no que deu e eu me deitei tenso.

Pior ainda é constatar o clima de desastre pairando sobre a Gávea às vésperas da estréia na Libertadores. Ao que tudo indica, o Marcos Braz acreditou mesmo nos superpoderes do Braz Facts que girou a internet (Migão postou alguns aqui) e resolveu ser a estrela da companhia. Na verdade, trata-se de um palhaço, um despreparado que representa tudo que há de pior e mais retrógrado no futebol.

Não dormi logo, fiquei rolando na cama, de modo que estou com sono, cansado e muitíssimo mal humorado. O leitor, que não tem nada com isso, me desculpe. Tentarei algo mais leve para fechar o texto.

Migão, que tem espírito folião e foi à Sapucaí, havia me soprado que se não houvesse roubo a Tijuca sairia campeã. Eu pensei comigo que não haver roubo nas notas do desfile é uma impossibilidade total, a coisa é bem mais grave que no futebol. Fica a dúvida: será que este ano não houve roubo, ou a Tijuca venceu apesar do roubo? De qualquer modo, parabéns ao Morro do Boréu e à criatividade do Paulo Barros.

Coincidências dos calendários móveis, este ano o carnaval caiu junto com o final de semana do Valentine’s Day. Não vi ninguém fazendo uma reportagem sobre a falta de algumas moças bem dotadas que, atendendo a pedidos do amado, não foram a New Orleans mostrar os peitos no Mardi Grãs. Esses jornalistas, viu... que desperdício de pauta!

Também comemorou-se o Ano Novo Chinês. Igualmente, ninguém pensou no eventual efeito disso sobre o preço dos fogos de artifício usados na entrada das escolas na Sapucaí. Precisa-se de editores de economia mais criativos.

A boa notícia: escrevi esta coluna ao longo de algumas horas, nos breves intervalos que fui tendo por aqui, e cheguei ao final dela sem ter ouvido sequer em comentário, a “música” ou qualquer outra coisa relacionada ao Rebolation. Tudo bem, há uma foto do Léo Santana e sua “inquietação lombar” (adorei a expressão criada pelo redator do site) na primeira página do G1. Não vale, eu fui lá, procurei por notícias sobre o carnaval, era uma retrospectiva. Espero que fique por isso mesmo e acabe por aqui. Deu o que tinha que dar."

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Arruda e a intervenção federal


Voltando à Terra após o carnaval, surpreendo-me com a informação de que o Supremo Tribunal Federal não concedeu ainda o habeas corpus para o Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda - na foto com Aécio Neves. Somente semana que vem será decidido o julgamento do recurso impetrado pelos advogados do político no STF.

Entretanto o vice-governador Paulo Octavio recusou-se a se afastar do cargo, apesar de ser beneficiado pelo mesmo esquema de corrupção que desencadeou os fatos resultantes na prisão do político brasiliense - que, lembremos, é reincidente. Ele já esteve envolvido no famoso caso da violação do placar do Senado Federal, em conluio com o falecido senador Antônio Carlos Magalhães.

Paralelamente, existe a possibilidade de que seja decretada intervenção federal no Distrito Federal, haja visto o fato de toda a linha sucessória estar "contaminada" pelo escândalo das propinas. Esta é uma decisão delicada e extrema, mas que entretanto a meu ver se justifica tendo como base o fato de que não há liderança no exercício do poder que esteja de fora deste esquema de corrupção.

Evidente que há um preço a se pagar neste caso - por exemplo, o Congresso não pode aprovar emendas à Constituição. Entretanto, o projeto mais importante deste primeiro semestre, o marco regulatório do pré-sal não exige mudanças na Carta Magna brasileira - de maneira que este não seria um impeditivo.

Não custa lembrar dos graves fatos ocorridos em 2002 no Espírito Santo - narrados no livro de mesmo nome, que resenhei aqui - onde o Judiciário e o Legislativo, com a conivência e, segundo alguns, participação do governador de então estavam envolvidos em graves desvios de conduta e casos de corrupção e crimes hediondos.

Em episódio relatado no livro, o Ministro da Justiça de então chegou a anunciar a intervenção, mas FHC o desautorizou para não desagradar ao governador, então seu aliado político. A decisão provavelmente custou a vida do juiz Alexandre Martins, assassinado no início de 2003.

Não vejo outra solução para corrigir temporariamente a grave anomia de poder pela quel passa Brasília. Somente esta alternativa, com a convocação de um interventor equidistante das paixões políticas e de moral e reputação inatacáveis pode minorar o dano institucional causado.

Resta saber se haverá vontade de enfrentar os fatos e tomar as medidas necessarias. Particularmente, tenho sérias dúvidas se isto será feito.

Nova camisa rubro negra


Agora há pouco o Flamengo e a Olympikus lançaram a linha de uniformes para 2010. Infelizmente o uniforme amarelo e azul, o que eu mais aguardava, somente será lançado no meio do ano.


A  camisa rubro-negra ficou bem legal, embora seja uma evolução do exemplar do ano passado. O exemplar do uniforme número 2, branco, ficou inovador e classudo.



Quanto às camisas de goleiro, meu xodó: gostei muito da azul, da preta e da branca, e não muito da cinza. Abaixo coloco fotos da azul (frente e verso) e da cinza:



Vamos aguardar agora o lançamento do terceiro uniforme, que era o que eu mais aguardava. Notem, também, a mudança do layout da marca Olympikus na camisa, passando a ter o símbolo e o nome por extenso.

(Fotos: VipComm e Globoesporte.com)

Caixa de Pandora


"Sentimento guardado não pode ser escondido
Domina-se a lembrança conservada no olhar
Caixinha guardada nada parecido
Salmoura conserva congelada a pensar.
Chega então tempo a não se controlar
Repentinamente o sentir desabrocha fortaleza
Razão desarmada surpreendida a apanhar
Cacos do invólucro, humana certeza.
Abre-se a caixa e desagua corrente
Carcomida caixa de forte aparência
Estabelecida está dourada semente
Racional escolha pela paciência.

Contido desejo até sabe quando
Vindoura escapada por todos os lados
Imobilizado sentido agora está chamando
Cotidiano mantém atores calados.
Justiça poeta insuflando revolta
Reação armada é total repressão
Caixa aberta o senso derrota
Sentires fugidios formando pressão.
Intensa luta em estado de guerra
Imobilismo compõe extrema barreira
Sangue é disputado a cada palmo de terra
Poeta ternura é lutadora guerreira.

Onde estará o sentir do combatente ?
Cidadão estupefacto momento não adora
Não sabe lidar com correnteza nascente
Contudo está aberta a Caixa de Pandora..."

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sobre a Portela - I


Não vou falar do desfile em si porque não vi ainda o vídeo e não quero ser leviano. Mas queria contar algumas coisas. 

A ala em que desfilo todos os anos sempre foi muito caprichosa na execução. Este ano quando peguei a roupa vi que o acabamento era bem inferior ao habitual.

Chego na concentração e o presidente de ala não tinha vindo - está doente. Quando passei pelo quarto carro - atrás do qual minha ala viria - tomei uma ducha de água fria, pois estava pior que as mais pessimistas previsões.

A preparação para o desfile foi muito tensa. Além do término deste carro - que só foi concluído com a escola na avenida - ainda bati boca com uma componente e esta quase saiu no tapa com um dos diretores de harmonia. Tudo isto porque o marido dela, bêbado, queria vir na ponta da ala e não tinha a menor condição.

O clima geral era de muita tensão. Não vi a alegria habitual na escola. A organização das alas demorou muito mais que o habitual.

Vi duas coisas que nunca tinha visto: a Harmonia estressada e a escola em "XY" - linha e coluna, feito matriz matemática. Como a escola estava muito grande nós fomos socados em filas de dez, o que prejudicou demais a evolução.

E a fantasia começou a dar problema. o esplendor se chocava com o chapéu e enterrava na minha cabeça. Ainda tinha uma porra de um óculos que não consegui encaixar de jeito nenhum, e acabei por descartá-lo no Setor 1.

O chapéu enterrava na minha cabeça e eu não conseguia ver a avenida direito. No meio do desfile ele arebentou e troquei de lugar a fim de não prejudicar a escola. O acabamento também foi soltando e, com a escola socada, não dava para evoluir direito.

O samba, pelo menos, foi bom de cantar.

Pela primeira vez em sete anos eu dei graças a Deus quando o desfile acabou. A roupa tinha uma malha que era parte em plástico e eu cheguei na dispersão suando litros. 

A impressão que eu tenho é que houve certo "salto alto" na diretoria da escola, achando que o chão seguraria as pontas. Ainda assim, a sensação que eu tenho é de que ficaremos mais próximos do desfile das Campeãs que do rebaixamento, pois os quesitos de pista devem render boas notas. Mas é apenas uma sensação em cima do que li e ouvi.

Quanto à Diretoria, a escola evoluiu em diversos aspectos desde a troca de comando, mas é inegável que há um problema sério de organização no que toca a barracão. e o enredo deste ano era daqueles que ou pegava na veia ou dava tudo errado - ao que parece, ocorreu a segunda opção.