quarta-feira, 31 de março de 2010

Linha Vermelha e Gueto de Varsóvia


Outro assunto que estava para comentar há algum tempo é a instalação de painéis à guisa de muros em toda a extensão da Linha Vermelha, no Rio de Janeiro.

Não sei a altura exata dos painéis, mas o cálculo que faço é que deve ter algo em torno de oito a dez metros de altura. A explicação oficial do governo carioca é de que irá diminuir o barulho às comunidades em volta da via expressa, permitindo assim um "sono mais tranquilo" aos moradores destas favelas.

Entretanto, a atuação tanto do governo do Estado quanto especialmente da Prefeitura vem sendo no sentido de confinar os moradores de favelas em seus espaços, a fim de "não atrapalhar" os "moradores decentes" da Zona Sul, elite das classes médias da cidade.

A instalação destas painéis significa na realidade duas posturas: primeiro "esconder" estas comunidades da visão de quem chega ao Rio de Janeiro via aeroporto do Galeão. A Linha Vermelha é caminho obrigatório para todos aqueles que chegam à cidade de outros países de avião, e tal medida permite aos turistas e locais da Zona Sul que chegam à cidade não ver a realidade em volta.

A segunda postura é a de confinar estes moradores, tal como feito nas UPPs - escrevi sobre isso antes. O prefeito Eduardo Paes está acometido de uma grave crise de "favelofobia" e vem pautando sua atuação pela defesa dos interesses dos moradores da Zona Sul. Quanto menos contato houver entre a elite civilizada e a plebe ignara melhor, de acordo com a postura adotada pela municipalidade - o que não deixa de ser fascismo.

Acirrar as desigualdades e transformar as favelas em verdadeiros "Guetos de Varsóvia" é o objetivo principal da política urbana do atual prefeito. O Rio de Janeiro se resume à Zona Sul e como tal deve ser privilegiado na alocação de verbas e de serviços. Cabe ao morador de comunidade "se esconder" e ser guardado em locais espacialmente determinados e cercados a fim de não atrapalhar os interesses e a visão dos cidadãos de primeira classe.

Com isto acirramos as diferenças e cria-se um conflito potencial entre aqueles que desfrutam da atenção da municipalidade e os que devem ser "escondidos", pois "envergonham" a Cidade Maravilhosa. A política é de exclusão, e não a inversa como deveria ser.

Lembro apenas aos leitores que todos são eleitores e que um prefeito ou governador é escolhido para governar a todos, não a poucos. Infelizmente, não é o que ocorre no Rio de Janeiro hoje em dia.

"Formaturas, Batizados & Afins" - Sobre a gripe H1N1


A partir de hoje temos uma nova coluna no Ouro de Tolo.

Revezando com a "Cacique de Ramos" às quartas feiras teremos a "Formaturas, Batizados & Afins", que terá como mote temas ligados à ciência e tecnologia.

O titular da coluna será o professor adjunto do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ Marcelo Einicker. O tema de hoje será a gripe H1N1, mais conhecida como "gripe A" - embora tal denominação seja incorreta como veremos no texto.

Quanto ao nome, vem de uma brincadeira feita com o autor, especialista em participar dos eventos citados... vamos ao primeiro texto.

"Devemos estar atentos à Gripe (H1N1)

Em diferentes períodos da história da civilização humana, grandes surtos de diferentes doenças – aqui incluídas algumas gripes – foram responsáveis pela morte de milhões de pessoas. Os vírus são os agentes causadores das gripes que acometem os seres humanos.

Cada tipo de gripe é causada por um tipo de vírus diferente, sendo todos classificados como vírus Influenza ou Influenzavírus. Destes, os vírus de subtipo A são os principais causadores de gripes em humanos e se caracterizam por uma notada capacidade de mutação; ou seja, a partir de um determinado vírus surgem outros mais ou menos infectivos e mesmo letais que aquele que os deu origem..É interessante dizer ao público leigo que venha a ler esta coluna que os vírus não são considerados seres vivos, ao contrário de outros microorganismos como as bactérias e fungos que também causam doenças. Os vírus são estruturas diminutas (>500 nm) e podem possuir diferentes formatos, a maioria em linhas bastante geométricas. A estrutura da maioria dos vírus pode ser definida como uma cápsula protéica que protege o material genético (DNA ou RNA) em seu interior. Para o sucesso da infecção viral, o vírus deve aderir a uma célula do hospedeiro e transmitir a esta célula seu material genético, estabelecendo assim a infecção. Maiores detalhes sobre as diferentes etapas da infecção viral e das etapas de montagem de novos vírus podem ser encontrados em livros de microbiologia médica e em sites específicos sobre o assunto.

Feita esta pequena introdução, passo a falar sobre a “gripe do momento” que é aquela causada pelo vírus Influenza A, subtipo H1N1. Neste código de letras que dá nome aos vírus influenza, a letra H refere-se a uma proteína presente na cápsula, a hemaglutinina.

As hemaglutininas localizam-se na parte mais externa das partículas virais e possuem grande afinidade por uma molécula presente na superfície das células do hospedeiro, sendo por isso importante na etapa de reconhecimento e adesão do vírus.  Já a letra N refere-se a outra proteína, a neuraminidase que é necessária para que o vírus recém sintetizado possa brotar saindo da célula inicialmente infectada e vá invadir outras células daquele organismo. Por isso as neuraminidases também se localizam na parte mais externa do vírus. Os números que acompanham as letras H e N, neste caso H1N1, referem-se ao tipo de hemaglutinina ou de neuraminidase daquele vírus. Mais de 5 tipos de hemaglutininas e 9 tipos de neuraminidases já foram identificados, o que mostra a possibilidade de diferentes arranjos virais, levando a diferentes graus severidade na infecção.

Nos primeiros meses de 2009 foram notificados alguns episódios severos de gripe em diferentes áreas da América do Norte e América Central. Em Abril de 2009, um surto de H1N1 matou mais de 100 pessoas no México, dando início a uma campanha de esclarecimento e prevenção que se espalhou por todo o mundo dada a gravidade desta gripe. As autoridades da área de saúde dos países mais inicialmente afetados estimaram em mais de duas mil o número de pessoas infectadas em todo o mundo no primeiro mês da descoberta deste surto; o que dava ao caso ares de uma nova pandemia.

O primeiro paciente identificado foi o pequeno Edgar Hernandez, 4 anos, da localidade de La Gloria, México. A proximidade da residência do menino a fazendas de criação de porcos foi o principal motivo para a primeira denominação desta gripe como Gripe Suína. Esta denominação revoltou e preocupou os suinocultores, que temiam por grandes perdas provocadas pela queda na venda de carne de porco, bem como da necessidade de sacrificar todo o plantel suíno das áreas sabidamente infectadas pelo vírus. Análises posteriores mostraram que não havia transmissão da gripe por porcos ou pelo consumo de carne de porco e com isso iniciou-se um movimento para mudar o nome de gripe suína para gripe Mexicana (por ter sido detectada primeiro no México), ou mesmo gripe norte-americana, já que teria surgido simultaneamente no México e no Sul dos Estados Unidos.

Claro que isso levou a protestos dos governos mexicano e americano, e trouxe alguns problemas econômicos principalmente ao México; onde destinos muito procurados como as praias de Cancun ficaram vazias. Por tudo isso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) passou a referir-se à doença como influenza A (H1N1). Vale destacar que é errado designar esta gripe apenas como “gripe A”, visto que a maioria das gripes humanas sazonais são causadas pelo subtipo A do vírus influenza, daí a importância de se especificar se se trata de H1N1, H5N1 ou outro vírus.

As medidas de controle e prevenção adotadas em todos os países do mundo fizeram com que o número de casos registrados fosse muito menor do que o inicialmente previsto. O número de mortes também foi bastante inferior às piores previsões no início do surto, chegando a ser comparado ao número de mortes provocado por gripes sazonais comuns.

Apesar disso não se pode negligenciar os cuidados já adotados para que um novo surto não apareça e mate mais pessoas. Neste sentido, alguns países estão fazendo campanhas de vacinação para minimizar a possibilidade de novos surtos. O Ministério da Saúde do Brasil lançou uma grande campanha de vacinação que começou vacinando profissionais de saúde e indígenas, mas que já encontra-se em prática e que tem um calendário bastante amplo, que atende todas as faixas de nossa população e que por isso deve ser visto com muita atenção por todos os brasileiros:

CALENDÁRIO DE VACINAÇÃO
Gestantes – (22 de março a 21 de maio)
Crianças de seis meses a dois anos – (1ª dose – 22 de março a 2 de abril)
Crianças com doenças crônicas de seis meses a oito anos – (1ª dose – 22 de março a 2 de abril)
Doentes crônicos – (22 de março a 2 de abril)
População de 20 a 29 anos (5 de abril a 23 de abril)
Adultos de 30 a 39 anos (10 de maio a 21 de maio)
Acima de 60 anos ou mais com doenças crônicas (24 de abril a 7 de maio)

Desde o lançamento da campanha, muitos boatos principalmente divulgados via Internet tem trazido algumas dúvidas a população. Será que esta vacinação é segura?

Sim, a vacina é segura conforme atestam especialistas da área de saúde, que tem contribuído para esclarecer as principais dúvidas da população. Além disso, a última avaliação realizada pela OMS no final do ano passado, registrou apenas reações leves provocadas pela vacina, como dor local, febre baixa e dores musculares que desaparecem em no máximo 48 horas.
   
Muito desta polêmica quanto ao uso da vacina começou em função de algumas substâncias que estão presentes na formulação. Uma destas substâncias polêmicas é o mercúrio, ou um derivado do mercúrio (timerosal) que notadamente é um metal pesado bastante tóxico ao organismo mas é usado na formulação da vacina para conservar o produto. A quantidade deste composto na dose da vacina é inferior a menor dose que pode vir a provocar alguma intoxicação ao ser humano. No entanto o Ministério da Saúde recomenda que pessoas alérgicas ao composto, consultem seus médicos antes de se vacinarem. Pesquisas científicas mostraram também que não existe qualquer correlação entre a quantidade deste composto na dose da vacina e o surgimento de autismo em crianças, como dito em alguns e-mails que circulam como spans.
   
Outra substância encontrada na formulação da vacina é o esqualeno, que é um componente muito comum em formulações de vacinas e não oferece qualquer risco na dose da vacina. Outro fantasma da vacina seria o fato dela conter células de câncer animal, o que não é verdade.
   
Apesar de ter sido acelerado o processo de entrada da vacina no mercado, isso não significa que a vacina não seja segura. A medicação é semelhante à usada na prevenção da gripe comum, sendo a principal diferença que o vírus inativado (morto) usado é o H1N1.
   
Tomados todos os cuidados e seguida a tabela de vacinação devemos deixar uma mensagem positiva para aqueles que ainda tem algum tipo de dúvida: a grande maioria de pessoas que adoecem pelo H1N1 tem se recuperado muito bem. Saúde!

Um abraço e até à próxima coluna !"

(Consulta: Ministério da Saúde, infectologista Gustavo de Araújo Pinto e a doutora em microbiologia Andréa de Lima Pimenta.)

terça-feira, 30 de março de 2010

Resenha Literária - "Os Anos do Condor"

Dando seguimento às leituras ainda referentes à última viagem a trabalho, temos hoje mais uma resenha literária: "Os Anos do Condor".

Escrita pelo jornalista americano John Dinges, que viveu no Chile e foi algumas vezes interrogado pelo sanguinário regime de Augusto Pinochet, joga luzes sobre um dos episódios mais funestos da história da América Latina: a "Operação Condor".

Esta foi uma articulação de governos à época a fim de caçar e eliminar opositores dos regimes militares ditatoriais da década de setenta.

O livro, apoiado em documentos recém-liberados em especial pelo governo americano conta a articulação para a criação da Condor, liderada pelo governante chileno. Toda a articulação da Operação Condor e sua coordenação era feito pela Dina, o serviço secreto chileno.

De acordo com o livro a Operação Condor era composta de três estágios:

 - troca de informações entre os governos;
 - tortura e eliminação de opositores dos regimes;
 - assassinato de dissidentes nos EUA e Europa;

John Dinges esmiuça a maneira de agir dos governos desde a formatação da "Condor" e os centros de tortura "internacionais" existentes pelo menos no Chile, na Argentina e no Uruguai.

Em outra passagem há a descrição de movimentos revolucionários nos países citados e a forma como foram desmantelados pelos governos, com assassinatos e torturas. Deixa claro que Pinochet e a junta militar argentina não somente sabiam como ordenavam o extermínio.

Reveladoras, também, são a atuação dos governos americanos nesta época. Henry Kissinger, o todo poderoso Secretário de Estado americano manteve uma espécie de "apoio tácito" tendo em vista que eram governos anti-comunistas. Tudo o mais era relevado em nome da luta contra o comunismo.

Tal apoio somente encontrou reveses com o assassinato em Washington do ex-chanceler chileno Orlando Letelier e com a posterior eleição do Presidente Jimmy Carter que buscou pressionar as ditaduras em nome do respeito aos direitos humanos. A morte do chanceler, que segundo o autor poderia ter sido evitada pelos EUA levou a uma censura aos países, que abortaram o terceiro estágio da operação.

Outra faceta é comportamento dúbio dos embaixadores americanos nos países, em especial no Chile. Muitas vezes ignoravam ordens de Washington para não se indispor com os carniceiros instalados no poder nos componentes do chamado Cone Sul.

No último capítulo o autor mostra o processo que levou à prisão na Inglaterra do assassino, genocida e carniceiro Augusto Pinochet - que, no momento em que escrevo, acredito estar passando sufoco no fundo do fundo do inferno. A partir do desaparecimento de cidadãos espanhóis e utilizando-se da legislação de direito internacional de guerra o ditador passou dois anos em prisão domiciliar. Quando retornou ao Chile sua aura de "intocável" havia fenecido.

Somente no Submarino o livro pode ser encontrado para pronta entrega, ao preço de R$ 49. Escrito como uma reportagem, lança luzes em um dos episódios mais misteriosos e sinistros da história da América do Sul.

Boa leitura, que recomendo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Lula e o "Entreatos"



No final de semana consegui ver, aos pedaços, o documentário "Entreatos", que após longa procura nas livrarias encontrei na Saraiva quando de minha última viagem a Salvador.

O mote do documentário é acompanhar os últimos dias de campanha do então candidato Luis Inácio Lula da Silva em sua primeira eleição (2002). Em um recorte temporal que vai da última semana antes do primeiro turno até a primeira entrevista como presidente eleito temos acesso a bastidores da campanha e a uma verdadeira aula prática de política.

Mesmo aqueles que não gostam do Presidente Lula, mas gostam de política, devem ver o documentário. Estratégias políticas são debatidas, ficam claros papéis como o do marqueteiro Duda Mendonça e todo o staff que se faz necessário em uma campanha hercúlea como esta.

Outro ponto alto do documentário são as análises políticas feitas pelo então candidato. Demonstrando uma erudição até a mim surpreendente ele discorre sobre estruturas políticas, alianças e a situação das esquerdas no mundo. Demonstra uma capacidade de análise política que veríamos depois muito útil no decorrer dos anos.

Chama a atenção a análise sobre o ex-presidente da Polônia Lech Walesa. Na análise de Lula ele não conseguiu fazer um bom governo porque era "um pelegão que foi alçado ao poder pela Igreja Católica conservadora" e que não tinha base social ou orgânica para empreender transformações. Olhando retrospectivamente, faz todo o sentido.

Fica clara também a transformação sofrida pelo PT e seu caminho traçado ao centro do espectro político. Com grande habilidade Lula coloca sempre os atores em perspectiva e procura obter o maior dividendo em termos de ganhos programáticos possível.

As imagens também mostram todo o aparato que há em um simples debate eleitoral. No último debate entre os candidatos Lula e Serra haviam seis "grupos de controle", formados por pessoas do povo; em tempo real os assessores de Lula eram informados de forma a alterar a tática e o comportamento do candidato no colóquio.

Também merecem destaque as imagens do dia do segundo turno das eleições daquele ano, desde o momento do voto, a espera pelo resultado da pesquisa de boca de urna e, no final, o telefonema de José Serra reconhecendo a derrota. Nós que somos simples cidadãos não imaginamos o aparato que existe por trás de uma campanha como esta.

Selecionei dois trechos do filme, disponíveis no Youtube. São momentos em que Lula faz análises políticas de grande acurácia sobre diversas facetas da prática política. Inclusive destaco a análise precisa do Movimento dos Sem Terra.

Um biscoito fino para quem gosta de política, independente de partido ou facção.

domingo, 28 de março de 2010

Infeliz Iêmen - por Tariq Ali

Domingo, dia de repercutir bons textos no Ouro de Tolo.

Hoje trago texto do cientista político e pensador paquistanês Tariq Ali (foto), publicado originalmente na revista "London Rewiew Books" e republicada em português no excelente Viomundo.

Trata-se de um bom painel do país pertencente ao Golfo Pérsico e que começa a se tornar um novo "alvo" da insana guerra ao terrorismo norte-americana. O leitor ainda ouvirá falar muito dos personagens descritos no texto.

Boa leitura.

por Tariq Ali, em London Review Books

Parti para o Iêmen, já que Obama anda insistindo que “grandes fatias” do país ainda não estariam “sob completo controle do governo”, depois de o senador Joseph Lieberman ter alegremente anunciado que o Iêmen seria alvo adequado para mais guerra e mais ocupação.

O infeliz portador daquela cueca-bomba que tentou explodir o avião de Amsterdam no dia de Natal deflagrou nova onda de interesse pelo país e pela “al-Qaida in the Arabian Peninsula (AQAP)” – porque se disse que, embora o homem tenha sido convertido ao Islã linha-dura na Inglaterra, seu abraço felizmente fracassado com o terrorismo teria sido viabilizado pela AQAP em algum ponto do Iêmen.

O Iêmen é país sóbrio, diferente dos postos imperiais de gasolina espalhados por outras partes da península arábica, onde as elites dominantes vivem em arranha-céus construídos em prazos sempre recordes, projetados por arquitetos-celebridades, cercados por shopping-centers em que se vendem produtos com todas as griffes ocidentais, atendidos por escravos que chegam em ondas do Sul da Ásia e das Filipinas. Sana’a, capital do Iêmen, foi fundada em tempos em que o Velho Testamento ainda estava em produção, sendo escrito, editado e costurado. É verdade que o novo hotel Mövenpick, no coração do enclave diplomático que há na cidade, faz lembrar o pior de Dubai (estive lá quando todos eram obrigados a engolir um menu “Valentine’s Day Dinner Menu”), mas a elite iemenita é cuidadosa e não ostenta riqueza.

A velha cidade murada foi resgatada da extinção-por-modernização, pela Unesco (depois, também pelo Aga Khan Trust) nos anos 80s, e a antiga muralha foi reconstruída. A Grande Mesquita do século 9º está atualmente sendo restaurada por equipe de especialistas italianos associados a arqueólogos locais e têm encontrado objetos e imagens do passado pré-islâmico daquela região. Se vão ou não localizar uma pequena estrutura que se diz que teria sido construída ainda em vida do profeta Maomé, não se sabe.

A estrutura de Sana’a é deslumbrante, diferente de tudo o que se vê no mundo. As construções – arranha-céus de oito ou nove andares – foram erguidas no século 9º e restauradas 600 anos depois, conservando-se o estilo original: tijolos de argila decorados com padrões geométricos em gesso e pedra esculpida (não havia madeira em quantidade suficiente para construir). Faltam só os jardins suspensos em cada piso, que cativaram a imaginação dos viajantes medievais.[1]

Resultado líquido das preocupações ocidentais com a Al-Qaeda AQAP é que, esse ano, os EUA darão 63 milhões de dólares em ajuda ao Iêmen. Um quinto disso já está reservado para comprar armas, e o restante, praticamente todo, irá para o presidente e sua trupe, sem esquecer o que irá para os bolsos dos altos comandantes militares. O que sobrar será disputados pelos chefetes das várias regiões do país. (No total, não está incluído o que o Pentágono enviará para combater o terrorismo, e que ano passado chegou a 67 milhões.) Um empresário iemenita contou-me que ficara boquiaberto, há alguns anos, quando o primeiro-ministro, aparentemente homem moderado e respeitável, exigiu comissão de 30% em negócio que estavam planejando. Percebendo que o empresário ficara chocado, o primeiro-ministro tratou de tranquilizá-lo: 20% iriam diretamente para o presidente.

Não sei se a AQAP é ameaça séria, ou o quanto é séria, de fato. Quantos membros da organização estariam no país, quantos seriam meros visitantes vindos do outro lado da fronteira com a Arábia Saudita?

Abdul Karim al-Eryani, 75 anos, ex-primeiro-ministro e ainda conselheiro do presidente recebeu-me na grande biblioteca no subsolo de sua casa. É homem de fala interessante e falou longamente sobre a história do Iêmen, destacando as continuidades desde o período pré-islâmico até as culturas islâmicas na região. Lastimou que o dialeto árabe falado pelos beduínos de Nejd (que hoje é parte da Arábia Saudita) tenha sido a principal fonte para o moderno dicionário árabe, esquecendo-se assim a real fonte da língua, o dialeto dos Sabeans [talvez “sabinos”? Só o Arnaldo Carrilho saberá dizer!] que viveram onde hoje é o Iêmen, de cujo idioma os autores do dicionário excluíram 5.000 palavras.

Mais adiante, contou-me que, graças ao nigeriano da cueca-bomba, tinha sido visitado por Thomas Friedman, colunista do New York Times. Friedman fez as perguntas que quis, voltou aos EUA e contou aos leitores que “a cidade não é Cabul… ainda”; que a AQAP é um ‘vírus’ que merece urgente atenção antes que a doença se espalhe e torne-se incontrolável. Não cogitou, sequer, da causa da infecção.

Mas quando pedi que Eryani estimasse o tamanho da AQAP, ele riu. “Trezentos? Quatrocentos” – insisti. “No máximo”, disse ele. “No máximo, mesmo. Os americanos exageram enormemente. Temos nossos problemas reais e muito mais importantes.”

O mesmo ponto de vista foi reiterado por Saleh Ali Ba-Surah, ministro da Educação Superior, formado na Alemanha Oriental, como muitos nascidos na república que, até 1990, foi a República Popular Democrática do Iêmen, a porção sul do atual Estado.

As duas partes do que hoje constitui a República do Iêmen – controlada há 20 anos por Ali Abdullah Saleh, o qual, como Mubarak e Gaddafi, está criando o filho para sucedê-lo – representaram duas muito diferentes sociologias ao longo de grande parte do século passado. O norte, das terras altas – onde está a capital Sana’a –, foi dominado por tribos armadas; e no interior da região de Aden, dominavam os operários, intelectuais, sindicalistas, nacionalistas e, depois, os comunistas.

O país foi unificado séculos antes, sob a liderança dos imãs xiitas Zaidi, cujos poderes temporais dependiam da lealdade tribal e da aquiescência dos camponeses. O sul do Iêmen separou-se em 1728; o império britânico em expansão ocupou Aden e a área litorânea em 1839 (no mesmo ano em que começou a ocupar Hong Kong).

O já enfraquecido império otomano ainda abocanhou, pouco depois, uma fatia do norte do Iêmen, mas teve de cedê-la depois da I Guerra Mundial. Sob o império-do-bem dos britânicos, os imãs da família Hamid-ed-Din reassumiram o controle do norte. Em 1948, o governante, Yahya Muhammad, foi assassinado por um de seus guarda-costas, e o filho de Yahya, Ahmad, isolacionista obcecado, assumiu o poder.

Para Ahmad, a escolha foi fácil: seu país poderia ser dependente e rico, ou pobre e livre. Aos poucos, o descontentamento popular cresceu, à medida que Ahmad ia-se tornando cada vez mais excêntrico, mergulhado em morfina a maior parte do dia, ele e os amigos, num quarto iluminado com lâmpadas de neon, brincando com os brinquedos que colecionava desde criança. Não havia no país sequer uma escola moderna, uma estrada de ferro ou fábrica moderna, praticamente nenhum professor e nenhum médico.

Todos apostavam na volta de um irmão exilado do imã, que viria para expulsar Ahmad; ou, antes disso, em que os apoiadores de Nasser no exército do Iêmen perdessem a paciência. Ahmad combatera o nacionalismo árabe de Nasser em 1960, instigado pelos sauditas, fez divulgar pela rádio estatal uma denúncia contra Nassar, e havia quem esperasse por resposta do Cairo. A Rádio Cairo, sim, declarou guerra ao Iêmen. Mas antes que chegassem às vias de fato, Ahmad morreu.

Em menos de uma semana, o chefe da guarda pessoal de Ahmad, al-Sallal, reuniu oficiais nacionalistas e tomou o poder. O imanato chegara ao fim. Em Aden, milhares de pessoas manifestaram-se nas ruas a favor do novo regime. Nas mesmas manifestações deixaram bem claro também que resistiriam contra a ocupação colonial do sul do país pelos britânicos.

Com medo tanto dos radicais nacionalistas quanto de seus muito prováveis apoiadores comunistas, Washington e Londres decidiram que o melhor a fazer seria devolver o poder aos imãs. Os britânicos, doidos para dar uma lição a Nasser e vingar a humilhação de Suez, foram com muito mais sede que os EUA ao pote das armas. A principal preocupação dos norte-americanos era que a infecção iemenita se espalhasse pela península e que, se a intervenção saudita fracassasse, as correntes nacionalistas engolfassem também a Arábia Saudita – o que poria em risco a monarquia. Os sauditas passaram a alimentar os apoiadores dos imãs e as tribos mais conservadoras do norte – com uma mistura barata de islamismo primitivo e muito dinheiro.

Os líderes políticos e militares do novo Estado do norte eram fracos e atrapalhados. Os intelectuais nasseristas no governo aproveitaram-se da indecisão deles e, finalmente, conseguiram convencer o exército a recorrer diretamente a Nasser. Os egípcios, então, com apoio de soviéticos e chineses, mandaram para o Iêmen uma força expedicionária de 20 mil soldados.

Gerou-se assim uma prolongada guerra civil, disputada por simulacros dos personagens oficiais da Guerra Fria – sauditas versus egípcios, para ser bem claro –, que custou a vida de 200 mil iemenitas e deixou em ruínas todo o norte do país.

Os egípcios eram homens do vale do Nilo e o terreno montanhoso lhes era completamente desconhecido. Mas, certos de que seriam invencíveis, não ouviram advertências nem conselhos e trataram os aliados locais, simultaneamente, como inferiores e irrelevantes. A guerra civil enfrentava impasse completo, e crescia a oposição aos métodos dos egípcios, que incluíam o uso de armas químicas. Foi quando aconteceu o brutal massacre dos operários e sindicalistas que faziam oposição aos egípcios em Sana’a e Taiz.

Em 1970, a guerra acabou sem vencedores e um acordo insatisfatório para todos. Os egípcios trabalharam na direção de subornar as tribos para comprar o poder; como resultado, compraram o poder – que foi entregue associado a entidades divinas e muitos pregadores e clérigos. A guerra custara ao Egito um milhão de dólares por dia e a vida de 15 mil soldados, além de quase 50 mil feridos. A subsequente desmoralização do exército pode ter contribuído para a derrota que sofreu na Guerra dos Seis Dias. Seja como for, a ‘guerra relâmpago’ de Israel, em junho de 1967, foi o túmulo do nacionalismo árabe.

A guerra civil forçou muitos comunistas e nacionalistas de esquerda do Iêmen do Norte a fugir para Aden. Ali, soldados britânicos, veteranos franceses da Argélia e mercenários belgas foram recrutados para a empresa do coronel David Stirling, Watchguard International Ltd., para operar por trás das linhas inimigas. Também no sul os nacionalistas estavam divididos: o Egito apoiava a Frente para a Libertação do Iêmen do Sul [ing. Front for the Liberation of South Yemen (FLOSY)] e grupos mais radicais reunidos sob a bandeira da Frente Nacional de Libertação [ing. National Liberation Front (NF)]. Os dois lados lutavam para expulsar os britânicos, e os britânicos, determinados a continuar onde estavam, agarrados a uma base estrategicamente importante e recorrendo cada vez mais a prisões sem julgamento e à tortur a.

Em 1964 Harold Wilson declarou que os britânicos permaneceriam na região, mas que passariam o poder, em 1968, à chamada Federação Sul-arábica [ing. Federation of South Arabia], sob a qual Wilson esperava que a população de Aden fosse mantida sob o controle de sultões do interior.

O plano deu gravemente errado, depois de todas as vilas terem sido bombardeadas, até serem varridas do mapa, pela Força Aérea britânica [ing. Royal Air Force (RAF)]. Em palavras de Bernard Reilly, oficial britânico que viveu praticamente toda a vida em Aden: “Só se pode pacificar país não habituado a governo ordeiro, mediante atos de punição coletiva, assalto e pilhagem.” Os líderes daquelas tribos não desejavam ser pacificados. Começou luta feroz nas ruas do Crater, uma das áreas mais antigas de Aden.

Em 1967, a Frente Nacional de Libertação usava bazucas e morteiros em Aden e atacava diretamente as bases militares britânicas. O governo trabalhista decidiu pôr fim às perdas e ordenou a retirada. “Lamentavelmente” – lê-se em carta do Colonial Office aos seus colaboradores nativos – “não podemos continuar a protegê-los”.

A vitória dos israelenses em junho de 1967 não ajudou os britânicos, porque a Frente Nacional de Libertação não era peão que os Egípcios jogassem como bem entendessem e bem diferente, nisso, da Frente para a Libertação do Iêmen do Sul [ing. FLOSY] a qual, então, estava gravemente enfraquecida. Uma greve geral comandada pela Frente Nacional de Libertação paralisou Aden e ataques de guerrilheiros forçaram a administração colonial a cancelar as celebrações do aniversário da rainha. Seis meses mais tarde, dia 29/11/1967, quando o fechamento do canal de Suez acabou com qualquer importância que Aden tivesse para os britânicos, os britânicos afinal partiram, depois de 128 anos.

Ao mesmo tempo em que Humphrey Trevelyan, último comissário, acenava uma rápida despedida dos degraus do avião que o devolveria a Londres, a Banda da Real Marinha Britânica do HMS Eagle tocava ‘Fings Ain’t Wot They Used To Be’ [as coisas não serão mais como foram, escrito ‘com sotaque’].

A Frente Nacional de Libertação venceu, mas ainda faltava planejar a reconstrução do país. A Frente reunia membros de várias correntes da esquerda: pró-Moscou, maoístas, guerrilheiros à Che Guevara, alguns poucos trotskyistas e nacionalistas ortodoxos. Todos concordaram imediatamente com restabelecer relações diplomáticas com a URSS, o que foi feito dia 3/12/1967. Mas as disputas começaram imediatamente.

O Congresso da Frente Nacional de Libertação aprovou deliberação apresentada pelos radicais, em que se exigiam reformas no campo, o fim do analfabetismo, a formação de uma milícia popular, expurgo nos aparelhos civil e militar, apoio à resistência palestina e cooperação intensa e próxima com a China.

A esquerda dominava no corpo dirigente então eleito. Uma tentativa de putsch liderada pelo exército por pouco não levou à guerra civil; mas comandos guerrilheiros armados cercaram as bases militares e desarmaram os oficiais. Em maio de 1968 já se via que a ala direita da Frente Nacional de Libertação não tinha qualquer intenção de implementar as resoluções do Congresso.

Foi criado um Movimento 14 de Maio, para mobilizar os que apoiavam as reformas. Houve confrontos com os militares, seguidos por um estranho período de calmaria que fazia recordar os Dias de Julho de 1917 em Petrogrado. A direita supôs que havia vencido e declarou que “os organizadores do Movimento 14 de Maio, de tanto ler os escritos de Régis Debray, supuseram que estivessem fazendo “uma revolução dentro da revolução”. Um ano depois, todos entenderam que a esquerda vencera.

A constituição de 1970 declarou o país uma república socialista – a República Popular Democrática do Iêmen – contra os conselhos de China e da URSS. (Em outubro de 1968, o ministro das Relações Exteriores da China, Chen Yi, o qual, ele mesmo, estava então sitiado pelos Guardas Vermelhos, declarou a uma delegação do Iêmen do Sul que visitava a China que “a ideia de vocês, de construir o socialismo, alimentada com slogans irrealizáveis e promessas que não poderão cumprir, pela própria natureza da ideia, afia as espadas de seus adversários.”) O que aconteceu foi tragicamente previsível.

Um Estado economicamente muito atrasado partiu para criar estruturas que institucionalizaram a austeridade e universalizaram a miséria. Promover a industrialização mediante empresas estatais poderia ter ajudado, não fosse pela proibição total de qualquer tipo de produção doméstica, sequer para o consumo das próprias famílias. A isso somou-se o monopólio estatal de todas as modalidades de comunicação, controle estrito sobre tudo que se podia dizer ou publicar, e extinção de todos os partidos do país, exceto o Partido Socialista Iemenita [ing. Yemeni Socialist Party]. Zombaram, ao mesmo tempo, do socialismo e das promessas feitas durante a luta anticolonial. O que é inegável é que o novo sistema de educação e atendimento médico universal, e a aparição da mulher na cena pública marcaram extraordinário passo adiante para toda a região. O que não agradou à Arábia Saudita.

Como desenvolvimento esperável, as potências vizinhas – o Iêmen do Norte, os Estados do Golfo, a Arábia Saudita – puseram-se a trabalhar, estimulados pelo governo Reagan, numa contrarrevolução de dentro para fora, do tipo que estava então sendo tentada na Noruega com os Contras. Em Ali Nasser, apparatchik cru, semianalfabeto, obcecado pelo poder absoluto, que se tornou presidente da República Popular Democrática do Iêmen em 1980, aquele grupo encontrou o instrumento de que precisava.

Por mais de um ano o presidente trabalhou contra o carismático Abdul Fateh Ismail, que o precedera na presidência e liderara a luta contra os britânicos, até conseguir que renunciasse por “motivos de saúde” e partisse para longa estadia na Europa Oriental. Havia vários apoiadores de Ismail na liderança local, quando ele retornou de Moscou em 1985; foi rapidamente reeleito para o Politburo da República Popular Democrática do Iêmen, como líder da maioria.

Dia 13/1/1986, o carro de Ali Nasser foi visto na calçada do prédio do Comitê Central (réplica de outras horrendas estruturas que se viam na Europa Oriental), onde deveria acontecer uma reunião do Politburo. Mas Ali Nasser não compareceu à reunião. Em vez dele, apareceu seu guarda-costas, drogado e armado com uma metralhadora Scorpion; entrou na sala e assassinou à bala o vice-presidente Ali Ahmed Antar, para começar; em seguida matou todos quantos estavam na sala. Foram mortos quatro membros-chave do Politburo, inclusive Ismail, além de outro membros do Comitê Central. Em outros pontos da cidade, homens de Ali Nasser destruíram, a tiros de morteiros, a casa de Ismail; e houve pesado tiroteio em vários pontos. Às 12h30, rádios e televisões de Aden noticiaram que o presidente derrotara uma tentativa de golpe dos direitistas e que Ismail e seus colaboradores haviam sido executados. Três horas de pois, o serviço árabe da BBC anunciava que o “moderado e pragmático” presidente do Iêmen conseguira abortar uma tentativa de golpe pelos comunistas extremistas. E a mesma linha foi acompanhada por quase toda a mídia ocidental, que repetiu a versão da derrota de uma tentativa de golpe apoiada por Moscou para radicalizar ainda mais o Iêmen… e, isso, apesar de Gorbachev já estar no poder na URSS.

À medida que se espalhavam em Aden as notícias dos assassinatos, multidões começaram a reunir-se nas ruas, e soldados conseguiram desalojar os novos donos do prédio do ministério da Defesa e da sala de operações, de onde os homens de Ali Nasser foram expulsos. Os confrontos atravessaram a noite. Morreram muitos membros desarmados do Partido, sindicalistas, líderes camponeses, assassinados pelos soldados de Nasser – que tinham listas de nomes antecipadamente preparadas. Seja como for, depois de cinco dias de luta sangrenta, os “moderados e pragmáticos” foram derrotados. Ali Nasser fugiu para o Iêmen do Norte e de lá, depois, para Dubai. Atualmente, é diretor de um “centro cultural” em Damasco, onde dirige também suas várias empresas.

A matança na reunião do Comitê Central foi o começo do fim da República Popular Democrática do Iêmen. Os prepostos do Ocidente na região, que haviam organizado toda a ação, puseram-se a falar contra “os gângsteres socialistas que ocuparam o governo do país”. Enquanto a URSS começava a desmoronar, começaram negociações entre o Iêmen do Sul e do Norte, e o país foi rapidamente unificado em maio de 1990, comandado por um conselho presidencial de cinco membros que representava as duas ‘metades’. Em 1991, uma nova Constituição levantou todas as limitações à liberdade de expressão e da imprensa e à liberdade de reunião e associação.


Mas a unificação também não deu certo. Os iemenitas do sul sentiam que seus interesses haviam sido traídos, e os repetidos confrontos e discussões não auguravam bom futuro para o governo de coalizão criado depois das eleições. Os socialistas do sul acusavam as gangues apoiadas por Ali Saleh, ex-presidente do Iêmen do Norte, e então presidente do país unificado, de atacar sulistas em Sana’a e em outras cidades. As relações deterioram-se rapidamente e houve escaramuças no Sul entre remanescentes do exército da República Popular e soldados que haviam lutado pelo Norte. Chegou a irromper guerra generalizada em 1994, da qual participaram grupos jihadistas e Osama bin Laden – que apoiavam Ali Saleh. Os sulistas foram esmagados, não apenas militarmente, mas também cultural e economicamente. Houve expropriação, roubo de terra, de propriedades urban as, as mulheres voltaram a ter de cobrir-se dos pés à cabeça (“Se não nos cobríssemos, chamavam-nos de prostitutas. Houve muitos estupros. A brutalidade foi imensa. Nos obrigaram a fazer o que queriam” – contou-me uma mulher sem véu, em Aden).

Quando cheguei a Aden, percebi que a Al-Qaeda da Península Árabe (AQAP, em inglês) é o menor dos problemas do país.

A maioria dos sul-iemenitas anseiam desesperadamente por separar-se do Iêmen do Norte. “Aqui não se trata de unificação. Trata-se de ocupação” – ouvi inúmeras vezes.

A população está sem liderança política e há fortes rumores em Sana’a de que o assassino Ali Nasser estaria sendo preparado pelo atual presidente Ali Saleh para fazer uma reestreia política; Ali Saleh o vê como “o homem da unificação”. Enquanto isso, há manifestações nas vilas e cidades menores, nas quais se queimam a bandeira do Iêmen e fotos do presidente Ali Saleh, e vê-se subir o velho estandarte da República Popular Democrática. A repressão é sempre violenta e a amargura só faz crescer, essa sim, de todos.

Dia 1/3/2010, as forças de segurança cercaram e destruíram a casa de Ali Yafie o qual, na véspera, queimara em público uma fotografia do presidente Ali Saleh. Yafie e oito membros de sua família, inclusive a neta de sete anos, foram mortos. A propaganda governamental acusou-o de ser membro da Al-Qaeda da Península Árabe.

Na noite de 4/1/2010, as forças de segurança em Aden cercaram a casa de Hasham Bashraheel, editor-chefe do jornal Al-Ayyam – fundado em 1958 e jornal que sempre noticiou, com abundância de fotos, as atrocidades do Estado. Por exemplo, publicou fotos dos mortos depois que as forças de segurança abriram fogo contra ex-soldados que reclamavam pagamentos atrasados; o jornal foi fechado em maio de 2009, embora a sala da redação tenha continuado a servir como local de reunião de jornalistas, intelectuais e ativistas de direitos civis. Quando as forças de segurança cercaram o prédio, logo surgiram também defensores do jornal que se reuniram na área. Os policiais dispararam para o ar, para dispersá-los. Depois, atiraram granadas na direção do prédio, onde o jornalista e sua família, inclusive duas netas pequenas, ainda estavam. Todos sobreviveram, miracu losamente, porque conseguiram esconder-se no porão do prédio.

Na manhã seguinte, Bashraheel e seus dois filhos renderam-se publicamente, para, pelo menos, tentar dificultar algum tipo de atentado contra eles e a família. Um ativista local disse-me que “amigos que tenho na polícia” disseram-lhe que havia dois cadáveres não identificados no porta-malas de um automóvel sem placa, em frente ao jornal.

Se Bashraheel e sua família tivessem sido assassinados, os dois cadáveres teriam sido plantados no prédio e identificados como membros da Al-Qaeda da Península Arábica, que estariam recebendo abrigo no prédio do jornal e teriam sido mortos por resistir à prisão. Um guarda pago pela família para cuidar da segurança foi morto, ao tentar render-se. O seu pai foi preso no enterro, dia seguinte. O jornalista foi pessoalmente acusado de “formação de quadrilha armada”. Há boatos de que o embaixador britânico, Tim Torlot, teria escrito ao governo, sugerindo que a mídia independente seria o principal problema no Iêmen. Meu informante em Sana’a garante que viu a carta. Torlot é famoso no Iêmen por ter trocado a esposa por uma ofuscante norte-americana que trabalha para o jornal Yemen Observer, jornal cujo proprietário é o secretário de imprensa do p residente Ali Saleh.

Viajei pelo sul, de Aden a Mukallah. Mas quando vi Shibam, esqueci completamente a política, pelo menos por uns instantes. Essa cidade murada, feita de edificações com paredes de argila, muito altos, alguns com 30 metros de altura, é um museu vivo[2]. Não surpreende que tenha sido escolhida por Pasolini para cenário de boa parte de suas “Mil e Uma Noites”. Pasolini fez mais. De volta a Roma, tanto falou sobre a cidade que conseguiu que a Unesco a declarasse patrimônio universal da humanidade (“World Heritage”). Em 2009, ao fotografarem a cidade de cima de uma colina, quatro turistas sul-coreanos foram mortos por um suicida-bomba do Norte.

Perguntei por todos os lados sobre a Al-Qaeda da Península Árabe. Um habitante de Shiban aproximou-se e perguntou-me num sussurro: “Quer mesmo saber onde Al-Qaeda se esconde?” Fiz que sim, com a cabeça e ele respondeu: “Na sala ao lado do gabinete do presidente”.

O mesmo aconteceu, em versão quase idêntica, também em Sana’a e Aden. Na véspera do Natal, o governo bombardeou (com jatos e aviões-robôs coordenados pelos EUA) duas vilas do sul onde, diziam eles, estaria escondido Anwar al-Awlaki, o clérigo iemenita-norte-americano acusado de ser o mentor do nigeriano da cueca-bomba. Não o encontraram, mas mataram mais de uma dúzia de civis.

O governo de Ali Saleh também enfrentou rebelião na província de Sa’ada, no norte, que faz fronteira com a Arábia Saudita. A população das terras altas anda irritada com os grupamentos de Wahhabitas e, sem ajuda do governo de Sana’a, decidiu se autodefender. Milícias tribais capturaram alguns soldados sauditas.

Resultado disso foi que, dia 5/11/2009, o mundo viu pela primeira vez em ação a Força Aérea Saudita (dita a mais poderosa força aérea na Região, depois de EUA e Israel; mas os aviões enferrujam até desmanchar, em hangares no deserto). Ali Saleh, o presidente, descreve a revolta como uma rebelião de xiitas apoiados por Teerã, e que tem de ser contida à força. Já praticamente ninguém acredita nisso.

O exército iemenita promoveu em agosto passado a Operação “Terra Arrasada” [ing. Scorched Land], que destruiu vilas e desalojou de suas casas 150 mil pessoas. Dada a total ausência de notícias e de organizações humanitárias, não se conhece exatamente a extensão das atrocidades cometidas pelo governo de Ali Saleh.

Muhammad al-Maqaleh, líder do Partido Socialista Iemenita e editor do jornal do partido, o Socialist, obteve depoimentos de algumas testemunhas oculares e publicou-os na Internet em setembro passado. Descreveu um ataque aéreo que matou 87 refugiados em Sa’ada, e incluiu fotografias. Foi preso por quatro meses, torturado e ameaçado de execução, por quatro meses. Finalmente foi apresentado a uma corte de justiça, à qual revelou o que sofrera.

Sana’a ainda não é Cabul, sim. Mas se o regime de Ali Saleh continuar a usar a força contra a população na escala em que está acontecendo hoje, novas guerras civis são hoje muito prováveis.

[1] Ver Salma Samar Damluji (2007), The Architecture of Iêmen: From Yafi to Hadramut.

[2] Há boas imagens em http://whc.unesco.org/en/list/192/.

sábado, 27 de março de 2010

Mamonas Assassinas e a mediocrização da cultura de massa

Semana muito corrida, infelizmente não consegui escrever o que gostaria aqui nesta última semana.

Para este sábado queria colocar aos meus 52 leitores um debate que vem sendo arduamente travado em uma das listas de discussão sobre o carnaval da qual faço parte.

A Inocentes de Belford Roxo, a inacreditável vice-campeã do Grupo de Acesso A em 2010 - fez carnaval para rebaixamento - anunciou para 2011 um enredo em homenagem ao grupo "Mamonas Assassinas", pop descartável oriundo da cidade de Guarulhos e que pereceria tragicamente em um acidente aéreo.

E o debate travado foi justamente neste sentido, de que o grupo em questão não merece a honra de ser homenageado por uma escola de samba. Ainda mais com tantas pessoas ligadas ao samba e artistas muito mais ligados ao meio que jamais mereceram sequer uma menção em ala.

Os músicos de Guarulhos são um exemplo acabado de fenômeno que somente se intensificou até os dias de hoje: representantes de cultura de massa destinados a durarem seus "quinze minutos de fama" e rapidamente sumirem, utilizando-se de uma estética artística que denominaria "quanto mais idiota melhor".

Ontem foram os Mamonas Assassinas, que acabaram se mantendo na lembrança popular devido à tragédia ocorrida ainda no transcorrer de seu "prazo de validade". Hoje é o tal do 'Rebolation', ou o grupo da vez de música romântica travestida de "pagode" ou aquelas insuportáveis músicas que de "sertanejas" só tem a denominação e a formatação em duplas de calças coladas ao corpo e blusões multicoloridos - sem esquecer dos cabelos leoninos.

Cito exemplos, mas a cultura de massa no Brasil hoje segue duas características principais: é de fundo descartável e toma como cláusula pétrea que o consumidor é um perfeito idiota. Este não teria a capacidade de consumir formas de entretenimento mais elaboradas ou sofisticadas; apenas diversões descartáveis e o mais elementares possíveis.

Falo da música mas isto se aplica às novelas, ao 'jornalismo', à televisão como um todo e a chamada "literatura de massa". Não admira que Paulo Coelho e os livros de auto-ajuda sejam campeões de vendas.

Teatro e em menor escala o cinema ficaram restritos a uma espécie de "gueto" oprimidos por esta tendência à formas de consumo cada vez mais idiotizantes e voltadas para uma massa acrítica de pensamentos. O negócio é robotizar e tirar o máximo de dinheiro no menor espaço de tempo.

Pensar é desestimulado, aumentar a cultura geral é desestimulado. Basta ver que aqueles que procuram elevar seu grau de conhecimentos invariavelmente são chamados de 'intelectuais', hoje sinônimo de 'chatos'. A boa cultura tem um espectro de consumo restrito.

Então temos um círculo vicioso: o mainstream não incentiva expressões mais elaboradas de cultura porque alega que "não vende"; e estas não vendem porque não tem os canais de divulgação - em especial a televisão aberta - necessários a fim de alcançar o grande público.

Outrossim, o processo de idiotização do cidadão médio chegou a um estágio onde ele tem dificuldades de observar algo diferente que as opções descartáveis com um mínimo de atenção. Tudo o que não é medíocre é "chato".

No canal "Record News" temos um programa que reprisa imagens do arquivo da emissora, em especial dos Anos 60. Vê-se programas musicais comandados por Chico Buarque, Geraldo Vandré, Nara Leão, Roberto Carlos, o pessoal do Tropicalismo e o da Jovem Guarda. Isto sem mencionar os sensacionais festivais de música, vanguarda da cultura popular da época.

Hoje uma grade televisiva dessas seria impensável. 'Sucesso' são letras tatibitates e apelativas ao erotismo, é novela como um manual de mau caratismo, jornais apelando ao sensacionalismo e ao mau gosto, o eterno bisbilhotar de "celebridades"... a lista é longa. A isso se resume a nossa cultura de massa hoje.

Concluindo esta pequena análise - voltarei ao tema - o fato de uma escola de samba homenagear um exemplo perfeito e acabado desta cultura de massa descartável e de baixa qualidade é um sintoma de que internalizamos esta manifestação como dominante em nosso espaço midiático.

Acho esta tendência lamentável.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Final de Semana - "Beatriz"



Mais uma sexta feira e para o final de semana sugerimos Chico Buarque e Edu Lobo, uma das parcerias mais brilhantes da Música Popular Brasileira. A música é "Beatriz", aqui em interpretação de Mônica Salmaso - cujo cd ao vivo somente com músicas de Chico Buarque de Holanda tive o prazer de ouvir novamente esta semana.

"Beatriz" tem outra gravação muito boa com a cantora Ana Carolina. Bom divertimento.

"Beatriz"
(Chico Buarque & Edu Lobo)

"Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida"

Cinecasulofilia

Sexta feira e como tradicional a nossa coluna "Cinecasulofilia", publicada em parceria com o blog de mesmo nome.

Como habitual, texto do cineasta, crítico de cinema e torcedor da Acadêmicos de Santa Cruz Marcelo Ikeda.

Passemos à leitura, hoje sobre o cineasta José Sette (foto).

José Sette: um cineasta 100% brazileiro

"A filmografia de José Sette sempre esteve associada a uma busca não apenas por temas brasileiros mas essencialmente por um modo brasileiro de retratá-los. Nascido em Ponte Nova, município de Minas Gerais, Sette conseguiu driblar a influência de seu pai, influente político que chegou a ser eleito prefeito de sua cidade natal, para viver de cinema. Apesar de ter sua carreira cinematográfica ligada a Minas Gerais, Sette iniciou-se no Rio de Janeiro, quando teve contato com os filmes do cinema marginal. Após um breve documentário rodado na Bahia sobre capoeiristas (Cidade da Bahia), que serviu como um “curso intensivo” sobre a prática cinematográfica, Sette de pronto partiu para o longa-metragem, com Bandalheira Infernal, em 1976. O filme pode ser visto como uma espécie de catalogação pessoal da influência marcante do cinema marginal, como já mostra claramente sua primeira sequência: num clima de cinema expressionista, um personagem misterioso entra no “Cine Belair”, onde está sendo projetado o próprio filme. Uma certa vertente política pode ser especulada quando o diretor afirma que seu filme é sobre o Brasil da época: a “Direita” (o personagem de Pereio) perseguindo tenazmente a “Esquerda”, manca, fraca, debilitada. Mas no fundo essa é mais uma leitura implícita que explícita no filme, ou ainda, que não se espere o discurso político aos moldes do cinema novo, e sim o caos, o delírio, a fragmentação típica do “cinema de invenção”. Realizado sem roteiro, de improviso, praticamente sem grana e com uma equipe reduzida, a perseguição de Bandalheira por um lado retoma a fuga dos personagens de Bang Bang (Andrea Tonacci) e por outro incorpora elementos típicos dos filmes da Belair, como atores improvisando nas ruas da cidade entre os transeuntes (à la Sem Essa Aranha). Mas entre essas influências Sette exibe suas marcas pessoais, como a opção por uma grande angular que em boa parte do filme distorce as relações formais do enquadramento, como um prolongamento de sua opção estética pelo expressionismo. Mais de trinta anos após sua realização, Bandalheira Infernal permanece inquietamente atual, como comprova uma sequência de perseguição dentro de uma favela, cujo realismo cru desmascara tanto o romantismo de um Rio Quarenta Graus quanto o esteticismo publicitário de um Cidade de Deus.

Em seguida, José Sette realizou um conjunto de curtas-metragens, viabilizados por conta da Lei do Curta, que permitia a formação de um mercado específico para os filmes desse formato. Seu curta mais destacado é Um Sorriso Por Favor – O Mundo Gráfico de Goeldi, vencedor de prêmios no Festival de Brasília e selecionado para o prestigioso Festival de Oberhausen, na Alemanha, que ainda hoje permanece como a principal vitrine europeia de talentosos jovens cineastas. Goeldi revela a típica estratégia de José Sette em seus filmes sobre personalidades brasileiras: o que poderia ser mais um documentário didático, repleto de informações descritivas sobre a vida do escritor, o mais típico produto da Lei do Curta, é transformado por Sette num delírio audiovisual, ou ainda, num “poema cinefônico”, um mergulho cru, poético, radical no âmago da obra do artista e da materialidade de seu processo de criação, valorizado pela inventiva montagem de ninguém menos que Rogério Sganzerla. Falso documentário, Goeldi é na verdade um filme que utiliza o universo gráfico do artista como matéria-prima para a criação de um universo outro: a arte como amálgama que impulsiona o processo de criação, uma assimilação pessoal de influências para a geração de outras, novas obras. Não é a toa que em sua parte final Goeldi se revela um filme sobre o cinema, ou ainda, sobre as relações entre o expressionismo e o cinema, múltiplas, vivas, originais (por exemplo, O Cabinete do Doutor Caligari é visto como uma influência para O Ano Passado em Marienbad). Ou ainda, Sette define o cinema expressionista com uma frase que poderia se encaixar à perfeição para seus próprios filmes: “um cinema que não via, mas que tinha visões”.

Seu próximo projeto foi Um Filme 100% Brazileiro, em que Sette encontra definitivamente sua estética particular de moldar, a partir da ficção, o retrato de fatos documentais. Desta vez, a base foi a chegada do poeta vanguardista francês (franco-suíço) Blaise Cendrars ao Brasil na década de vinte, quando travou contato com os artistas modernistas brasileiros. Mas a visão singular de Sette inverte o fenômeno da “aculturação” brasileira, ou ainda, da suposta “europeização” da cultura brasileira: ao contrário, é Cendrars que, fascinado pelas delícias paradisíacas do solo (e das carnes) brasileiro(as), descobre-se modernista. Sette recria a chegada de Cendrars no Rio de Janeiro em pleno Carnaval, numa sequência de abertura de enorme virtuosismo técnico. Como o próprio título anuncia, não houve uma preocupação com um realismo descritivo: é como se todo o filme fosse narrado de um ponto de vista narrativo essencialmente modernista, afim ao espírito vanguardista que envolve a essência desse contato. Para isso é decisiva a escolha de Sette de representar Cendrars através de dois atores, como se a transformação de Cendrars a partir do contato com o Brasil fosse não apenas emocional mas também física, a ponto de Sette optar por abandonar a deficiência física do escritor.

Apesar da boa repercussão provocada pela exibição no Festival de Berlim e da premiação no Rio Cine Festival (que hoje se tornou o Festival do Rio), Um Filme 100% Brazileiro teve precário lançamento, distribuído pela Embrafilme, já em processo de decadência econômica. Com a recessão do mercado cinematográfico com os anos da Era Collor, Sette não conseguiu viabilizar seu próximo projeto, um filme sobre Teófilo Otoni. Apenas no final dos anos noventa Sette consegue retomar sua produção. Encantamento de Camargo Guarnieri é um documentário sobre o compositor e maestro de música erudita que, assim como Goeldi, não se baseia em apresentar informações biográficas para o espectador, e sim em promover um mergulho na obra do artista. Desse modo, Sette estrutura seu filme em três movimentos, combinando aspectos que relacionam música, artes plásticas e dança, extrapolando a obra do compositor para evocar a integração entre diferentes formas de manifestação artística.

Nesse período, Sette conseguiu retomar um ritmo de produção, beneficiado pelos editais de apoio à cultura em Juiz de Fora (Lei Murilo Mendes). No média-metragem A Janela do Caos, Sette retrata o universo cotidiano de criação do escritor Murilo Mendes, combinando aspectos ficcionais e documentais, lidando com o difícil gênero do docudrama. Mesmo com poucos recursos, finaliza um novo longa: O Rei do Samba, sobre o sambista Geraldo Pereira. Inspirado pelas chanchadas brasileiras, Sette compõe um filme popular sobre um compositor popular: mulherengo, irreverente mas acima de tudo criativo, original, condenado talvez por amar demais. Recheado de cenas musicais, O Rei do Samba deixa de lado a montagem fragmentada, a agressividade irreverente de seus filmes anteriores, mas preenche de singela poesia o percurso desse esquecido compositor, integrando sua filmografia pela forma como combina ficção e documentário de maneira pouco programática.

Ainda em Juiz de Fora, Sette realiza um curta-metragem singular, que de diversas formas sintetiza os caminhos percorridos por sua filmografia. Ver Tigem aborda o impacto sentido pelo artista plástico mineiro Arlindo Daibert após uma exibição de Um Corpo Que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock. Mas como é possível documentar algo tão subjetivo como um sentimento interior, um arrepio de espírito? Para Sette torna-se possível apenas se mergulharmos no universo criativo do próprio artista, ou seja, a obra de Hitchcock desperta no artista o desejo de se aventurar por lugares desconhecidos no interior de si mesmo, inspirando a realização de uma nova obra. Em paralelo a isso, por sua vez, o próprio Sette se inspira a criar, a partir das relações provocadas por Hitchcock e Daibert, expressas no próprio filme que está sendo realizado. Esse círculo de relações aponta para um novo campo: que o próprio espectador, através desse cruzamento de possibilidades, também possa descobrir os seus próprios caminhos e quiçá se inspire para realizar novas e novas obras a partir de seu olhar. É nessa singularidade da imbricação de caminhos entre o experimental, o documentário e a ficção que Ver Tigem se revela não só uma homenagem à cinefilia (e Um Corpo Que Cai não deixa de ser um filme expressionista, a eterna fascinação cinematográfica de Sette...), mas ao próprio processo íntimo entre o espectador e a obra, como base de reflexão sobre a natureza do processo artístico. Ou ainda, um bom artista é acima de tudo um bom espectador: aquele que sente uma obra e a modifica, mediante o seu próprio processo criativo. Nesse sentido, é possível ver Ver Tigem como uma nova abordagem das propostas estéticas já apontadas em Goeldi.

Já neste século, José Sette, cada vez mais afastado dos editais e das leis de incentivo, que dominam o modo oficialesco de se produzir cinema no Brasil, prossegue sua filmografia optando pelo vídeo. Prossegue a investigação sobre personagens marcantes da vida cultural mineira com um novo “doc-fic”: Labirinto de Pedra, sobre o escritor Pedro Nava. A partir de sua caminhada derradeira até a Glória, onde veio a se matar, o escritor revê momentos marcantes de sua vida, como o encontro com os escritores modernistas. Continuando suas pesquisas estéticas, Labirinto de Pedra é um filme ficcional centrado na documentação de uma personalidade. No entanto, Sette não se prende aos acontecimentos nucleares da vida e obra de Nava, mas, ao contrário, oferece um passeio prosaico, como se buscasse retratar um cotidiano afetivo relacionado ao universo da criação. Por isso, como em outros filmes, Sette apresenta sua preocupação em articular a presença de um universo cultural, em que as diversas manifestações artísticas se integram e dialogam, combinando o espírito modernista da literatura, as artes plásticas, dança e música, entendendo que todas integram um mesmo sentimento de ebulição criativa. Nesse sentido, uma das mais belas cenas do cinema recente de Sette acontece num sarau, em que os escritores modernistas se encontram: para representar os papeis dos “antigos modernistas”, Sette promoveu uma homenagem aos “novos modernistas do cinema mineiro”, chamando cineastas e críticos como Paulo Augusto Gomes, Geraldo Veloso, Ataídes Braga, Fábio Carvalho e Isabel Lacerda, entre outros, enquanto assistem a um espetáculo de dança coreografado por Izabel Costa.

Izabel Costa que, por sua vez, motivou a realização de Paisagens Imaginárias. Apesar da simplicidade de sua realização (o média-metragem é apresentado como um “registro de palco” de um espetáculo de Izabel), Sette evidencia sua preocupação em integrar dança (o espetáculo de Izabel Costa inspirado na coreografia de Isadora Duncan), música (a composição de John Cage), artes plásticas (o belo cenário elaborado por Waltércio Caldas) e o teatro (a filmagem do palco), como se o cinema (o ato do registro), como um “ponto de encontro” dessas diversas tendências, pudesse servir como um catalisador de novos processos criativos. Nessa mesma linha, Eu e os Anjos une a literatura de Augusto dos Anjos ao teatro, através da peça que Kimura Schetino encena sobre o “maldito” poeta popular, combinando diversos tipos de material, como a filmagem do espetáculo, depoimentos de poetas brasileiros contemporâneos e inusitadas cenas do cotidiano, como nuvens e passeios de bicicleta por um cemitério.

Até que finalmente chegamos a Amaxon, longa-metragem recém-finalizado que a Mostra do Filme Livre tem o orgulho de promover sua primeira exibição em festivais. Amaxon insere um tom intimista, um tanto atípico à filmografia de Sette, quase um monólogo interior de uma escritora que revê a sua vida. Ainda que Vera Barreto Leite naturalmente ofereça ao filme um tom expansivo, próprio à força de sua presença em cena, sua personagem Laura navega entre os fantasmas de seu passado e sente os sintomas da solidão. Numa certa perspectiva, Amaxon é sobre um processo de resistência: a necessidade de permanecer criando como antídoto contra a solidão, ou ainda, a luta da palavra contra o silêncio. Laura não deixa de ser uma espécie de alter ego do próprio Sette, reforçado pelo fato de que boa parte das imagens a que Laura assiste é dos próprios filmes de Sette, alguns deles inacabados. Desiludido diante de um contínuo isolamento, Sette busca forças para criar... criando. Nada mais coerente para um cineasta 100% brazileiro."

quinta-feira, 25 de março de 2010

Resenha Literária - "A Seguir, Cenas dos Próximos Capítulos"

Como tudo tem seu lado bom, o trânsito de enlouquecer qualquer monge budista de Salvador teve sua vantagem: consegui ler bastante na semana que passou.

E, se há leitura, há resenha. Pela ordem, inicio com este "A seguir, cenas dos próximos capítulos", de André Bernardo e Cíntia Lopes.

O livro é uma série de entrevistas feitas com aqueles que os autores consideram os dez maiores autores vivos de novelas: Aguinaldo Silva, Benedito Ruy Barbosa, Carlos Lombardi, Gilberto Braga, Glória Perez, Lauro Cesar Muniz, Manoel Carlos, Sílvio de Abreu, Walcyr Carrasco e Walther Negrão. O leitor deve estar se perguntando porque eu leria um livro destes, já que afirmei aqui mesmo que as novelas são um "estímulo ao mal"; entretanto, me interessa muito o processo criativo de qualquer texto literário, sempre há o que aprender.

Se a minha idéia era esta, alcancei o objetivo. Os processos criativos são bem descritos pelos autores e realçam semelhanças e diferenças. Para uns a novela é quase uma linha de montagem; outros encaram como literatura em igual patamar a outras formas de arte. Há os que vêem como possibilidade de mudar a sociedade e há aqueles que entendem como diversão pura.

Outra boa faceta do exemplar são as histórias do início de carreira de cada um dos novelistas, e a reverência aos mestres como Dias Gomes e Janete Clair. Também mostra a às vezes difícil relação entre autores e diretores de novelas.

Faço aqui um resumo com cada um dos autores e o que mais me chamou a atenção:

Aguinaldo Silva: destacaria o relato sobre a parceria com Dias Gomes em "Roque Santeiro" e um fato que pouca gente sabe: que ele ajudou a matar Odete Roitman em "Vale Tudo" - onde ele auxiliou Gilberto Braga. Também explicita a resistência da direção da Rede Globo à questão homossexual, em especial à aparição de um eventual "beijo gay" na ficção.

Benedito Ruy Barbosa
: conta a aventura que foi a produção da novela Pantanal, a sua relação com a reforma agrária por causa de "O Rei do Gado" e a dificuldade que tem por escrever sem colaboradores. Também explica porque não dá muita atenção aos palpites do público em suas novelas.

Carlos Lombardi: explicita a diferença entre posicionamento e vida profissional, diz que a Record ainda é "meia boca" para um autor de novelas e que prefere repetir elenco porque em sua opinião a pontuação de uma comédia é bastante específica e não são todos os atores que gostam ou sabem fazer isso.

Gilberto Braga
: conta a dinâmica do recurso "quem matou?" em uma produção, da sua surpresa com o sucesso de "Escrava Isaura" - embora ache o livro bom para ser adaptado - e da discriminação velada sofrida pelo fato de ser homossexual.

Glória Perez: - a grande decepção do livro. A autora dá um show de arrogância, colocando-se na posição de "revolucionária" das novelas brasileiras e desqualificando todos aqueles que ousam criticar seu trabalho. Uma pessoa que passou pela tragédia do assassinato da filha como ela passou deveria ser um pouco mais humilde. Também afirma que sabe o que o telespectador quer assistir e que não aceita que digam que ela "inventa" as realidades que mostra em suas obras.

Lauro César Muniz - um bom contraste com o colóquio anterior. Com simplicidade desfia várias boas histórias, a principal delas a censura que "O salvador da pátria" sofreu por pressões da direção da Globo e de Brasília. A história do personagem Sassá Mutema teve de ser alterada devido a estes fatos, ele se tornaria presidente da república apoiado por narco-traficantes e depois lideraria uma revolução ética.

Manoel Carlos - explica a fixação pelo nome "Helena" em suas protagonistas - que vem do personagem da mitologia grega "Helena de Tróia" - e conta que prefere ambientar suas obras no Leblon porque não saberia escrever sobre realidades que não conhece. Infelizmente não explica porque José Mayer tem a sorte de fazer o papel de garanhão insaciável em todas as suas histórias...

Sílvio de Abreu
- destacaria as histórias de "Guerra dos Sexos", em especial a cena de comédia pastelão envolvendo dois ícones como Paulo Autran e Fernanda Montenegro. Realça faceta que pouco conhecemos, que são reuniões entre autores para ajudar a formatar uma sinopse, denominadas "ajuda teu irmão".

Walcyr Carrasco
- explica que não tem fixação poe escrever novelas das oito (hoje, na prática das nove) e que tudo que quer é poder desenvolver uma boa história. Contas bastidores de "Xica da Silva" e neste caso mostra até onde pode chegar a influência do diretor. Afirma também que não existem interferências da direção da Globo em seu trabalho.

Walther Negrão
- faz um bom histórico dos primeiros tempos da telenovela e afirma que só se troca a Globo por outra emissora por causa de dinheiro.

Diria que é uma leitura bastante agradável e que atendeu ao meu objetivo de jogar luzes sobre o processo criativo de uma obra como esta. Para pronta entrega está disponível apenas no site da Saraiva, ao preço de R$ 46. Não posso deixar de realçar como de acordo com os próprios relatos as novelas das décadas de setente e oitenta eram mais ricas em histórias e menos conservadoras.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Cacique de Ramos - "Isabel, Imperatriz do Brasil?"


Como de hábito, a nossa coluna "Cacique de Ramos", assinada pelo historiador e publicitário Fabrício Gomes.

Hoje um episódio da história do Brasil muito pouco conhecido, que seria o planejamento de um Terceiro Reinado por parte da Princesa Isabel.

Vamos ao, de hábito, excelente texto:

Isabel, Imperatriz do Brasil?

"11 de agosto de 1889 – Paço Isabel
Corte midi
 
Caro Snr. Visconde de Santa Victória
 
Fui informada por papai que me collocou a par da intenção e do envio dos fundos de seo Banco em forma de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de Maio do anno passado, e o sigilo que o Snr. pidio ao prezidente do gabinete para não provocar maior reacção violenta dos escravocratas. Deus nos proteja si os escravocratas e os militares saibam deste nosso negócio pois seria o fim do actual governo e mesmo do Império e da caza de Bragança no Brazil. Nosso amigo Nabuco, além dos Snres. Rebouças, Patrocínio e Dantas, poderam dar auxílio a partir do dia 20 de Novembro quando as Camaras se reunirem para a posse da nova Legislatura. Com o apoio dos novos deputados e os amigos fiéis de papai no Senado será possível realizar as mudanças que sonho para o Brazil!
 
Com os fundos doados pelo Snr. teremos oportunidade de collocar estes ex-escravos, agora livres, em terras suas proprias trabalhando na agricultura e na pecuária e dellas tirando seos proprios proventos. Fiquei mais sentida ao saber por papai que esta doação significou mais de 2/3 da venda dos seos bens, o que demonstra o amor devotado do Snr. pelo Brazil. Deus proteja o Snr. e todo a sua família para sempre!
 
Foi comovente a queda do Banco Mauá em 1878 e a forma honrada e proba porém infeliz, que o Snr. e seo estimado sócio, o grande Visconde de Mauá aceitaram a derrocada, segundo papai tecida pelos ingleses de forma desonesta e corrupta. A queda do Snr. Mauá significou huma grande derrota para o nosso Brazil!
 
Mas não fiquemos mais no passado, pois o futuro nos será promissor, se os republicanos e escravocratas nos permitirem sonhar mais hum pouco. Pois as mudanças que tenho em mente como o senhor já sabe, vão além da liberação dos captivos. Quero agora dedicar-me a libertar as mulheres dos grilhões do captiveiro domestico, e isto será possível atravez do Sufrágio Feminino! Si a mulher pode reinar também pode votar!
 
Agradeço vossa ajuda de todo meo coração e que Deos o abençoe!
 
Mando minhas saudações a Madame la Vicomtesse de Santa Vitória e toda a família.
Muito d. coração
ISABEL

(Nota: mantida ortografia da época)

A carta descrita acima traduz um dos momentos que ainda permanecem obscuros para a historiografia contemporânea especializada nas questões do Brasil Imperial. Trata-se de uma carta de uma certa Isabel Christina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orleans e Bragança – que entrou para a história sob a alcunha de Princesa Isabel -, endereçada ao Visconde de Santa Victória – tido como o braço-direito de Irineu Evangelista de Souza – o Visconde de Mauá. O documento, datado de agosto de 1889, é um dos últimos registros descobertos sobre a Família Imperial e mais do que representar um simples papel envelhecido pelo tempo, desperta temas e sentimentos distintos, justamente por revelar uma parte da história que a maioria da população brasileira – e até mesmo renomados historiadores e pesquisadores sobre o período imperial – desconhece: uma princesa à frente de seu tempo e progressista e de olho no futuro – o Terceiro Reinado da Família Imperial, como Imperatriz da nação.
 
A carta possui alguns trechos emblemáticos, sendo possível ressaltar que a princesa desejava indenizar ex-escravos (com os fundos do Banco Mauá), promover a reforma agrária (vejam só!) e promover o sufrágio feminino. A princesa temia, contudo, a violenta reação de escravocratas – o que reforça a conhecida tese de que escravocratas apoiaram o golpe republicano em 15 de novembro de 1889.
 
Mais do que isso, trechos do documento reforçam o grau de familiaridade e - por que não – intimidade da princesa com importantes figuras que representaram os ideais do abolicionismo no Brasil, como André Rebouças, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco. A própria princesa possuía a Guarda Negra – uma espécie de “tropa de choque”, composta, na opinião de Rui Barbosa, pela “ralé carioca e por maltas de capoeiras”, cuja principal finalidade era dissolver comícios republicanos pelo uso da força (José do Patrocínio incentivava ex-escravos a se agruparem para a defesa da monarquia, ameaçada pelo crescimento dos grupos que pretendiam implantar a República no Brasil).
 
A preocupação da princesa com escravocratas e militares, que poderiam descobrir o documento, não era à toa. A Princesa Isabel desejava que as Câmaras, que se reuniriam em 20 de novembro de 1889, com base na nova legislatura que assumiria, apoiassem o tal projeto. Caso fosse bem-sucedido, estaria cimentado um caminho de glórias e extrema popularidade para a princesa que, poderia tornar-se Imperatriz do Brasil, num Terceiro Reinado que adentraria o século XX.
 
O exercício da História não permite achismos, tampouco o uso do “Se”. Decerto que seria errado utilizar tal artifício, mas a fonte histórica permite perceber certas intenções da princesa.
 
Mais interessante é confrontar o documento com os resultados produzidos até então por uma historiografia que apontava a princesa como sendo mulher submissa ao marido (Conde D´Eu), nem um pouco interessada aos assuntos políticos e nacionais, sendo ainda mera personagem da Lei Áuera – quando teria assinado a nova lei apenas porque seu pai – o Imperador Pedro II – encontrava-se ausente da capital do Império.
 
O fundo indenizatório ajudaria a colocar ex-escravos no mapa social da época. Se durante o período monárquico o escravo, mesmo sem liberdade e sujeito a cruéis castigos, existia socialmente, mesmo na base da pirâmide social, com a Proclamação da República, o ex-escravo não situava-se em nenhum extrato social: não era mais escravo, mas também não trabalhava e não possuidor de renda, simplesmente não existia na sociedade. Era como se tivesse sido varrido para debaixo do tapete, indo se isolar nas favelas e morros da cidade. Com a indenização e a reforma agrária, o governo pretendia dar ao ex-escravo uma terra para ele trabalhar e retirar seu próprio sustento.
 
De sorte que é bem provável que esse documento tenha caído em mãos erradas bem antes de chegar aos deputados da nova legislatura na Câmara. Escravocratas e militares apressaram-se a Proclamar a República em 15 de novembro daquele ano (cinco dias antes da carta ser oficialmente apresentada a todos na Câmara) – uma Proclamação apressada, atabalhoada, cercada de dúvidas e tendo à frente um Marechal Monarquista até então – Deodoro era amigo pessoal do Imperador D. Pedro II."