sábado, 31 de dezembro de 2011

Retrospectiva Jogo Misto


Em nosso último post deste 2011, faço uma retrospectiva de nossa coluna de entrevistas "Jogo Misto", que entrevistou diversas personalidades de destaque durante este ano de 2011. Foram vinte entrevistas, sobre diversos assuntos, que renderam declarações interessantes e muitas vezes polêmicas.

Ela esteve meio parada nos últimos dois meses do ano, mas possivelmente será retomada logo nesta primeira quinzena de janeiro, com uma entrevista que deverá agradar muito o amante do samba e em especial os portelenses. Se tudo der certo deverá estar nesta página brevemente.

Faço aqui uma seleta das entrevistas, como uma espécie de retrospectiva. Até porque se fosse fazer a minha retrospectiva pessoal de 2011 este espaço viraria um verdadeiro "muro das lamentações". Irei poupar o leitor disto.

Aproveito para agradecer a você leitor, que nos deu mais de 100 mil acessos únicos este ano. Espero continuar contando com sua confiança em 2012.

Vamos às respostas. A série completa pode ser vista em http://pedromigao.blogspot.com/search/label/Jogo%20Misto

(Luiz Carlos Máximo, compositor, um dos autores do samba campeão da Portela. Outubro)

Qual a avaliação que você faz do modelo atual de samba enredo?

LCM - Olha, antes de falar do samba enredo atual é preciso discutir as dificuldades que são colocadas para os compositores atuais.

O andamento, que já é um tema batido, é o primeiro obstáculo. A aceleração é inimiga da beleza da melodia. Outro fator que complica são os enredos. As escolas em busca de patrocínios para atender a demanda do carnaval luxuoso escolhem enredos que dificultam - tanto na feitura da letra como também não são musicais.

A forma de disputa também é ruim. A necessidade de um alto investimento financeiro afasta ótimos compositores e inventa outros. E mesmo quando se faz um esforço a disputa muitas vezes é desigual, em razão dos, digamos, "conglomerados" do samba enredo.

Tem também uma  confusão estética que se faz, que é atualmente hegemônica e é prejudicial ao gênero, e é preciso que se dissipe. Acham que alegria só é encontrada em notas agudas.

Então, se você faz um samba com determinados trechos melódicos com notas graves, dizem que afunda e perde a alegria. Tem na história do samba enredo vários sambas antológicos com notas graves e não são tristes. O samba sem a combinação necessária de notas agudas e graves fica muito igual, linear.

Certa vez o compositor, músico e arranjador Claudio Jorge disse assim: "As escolas deixaram de ser de samba pra ser de carnaval". Ou seja, o negócio não é sambar mas pular carnaval. Tá bom que o andamento em consequência da grandiosidade do número de componentes e o tempo de desfile tenha causado isso. Mas temos que sempre tentar não deixar perder a cadência do samba. O samba não é para pular e sim para dançar.

O carnaval do Rio é com o pé no chão. Não pode perder essa característica.

E o que acha da questão do direito autoral no Brasil? Em sua avaliação, qual é o papel do Ecad neste processo?

LCM - É vergonhoso.

Ecad, editoras/gravadoras, associações de compositores, rádios, TVs. É tudo parte de um único processo em que o criador é prejudicado. No samba, onde a maioria dos autores é de gente humilde e pouco esclarecida sobre esse assunto, o prejuízo é maior ainda.

Quando um compositor é conhecido, com espaço na mídia, e bota a boca no trombone, parece que o problema individual é resolvido. Porque, logo depois, você não vê mais nada no jornal, nos meios de comunicação, e o tal compositor não fala mais nada. É estranho.

Agora, eu não comunguei dessa campanha contra o Ecad. O órgão sempre foi conhecido por ser um antro de irregularidades. Mas descobriram isso agora? Por que a Globo de repente começou a denunciar o Ecad? Será que não tem a ver com o fato da pendenga judicial em que a emissora não aceita pagar os direitos autorais como têm que ser pagos?

E além disso existe um movimento em defesa de um projeto de "flexibilização dos direitos autorais", que, caso seja aprovado, será a 'farra do boi'. Usam esse termo "flexibilização", como usaram em relação aos direitos trabalhistas, pra esconder o significado correto que é o fim dos direitos.

Mas por isso o Ecad tem que continuar deste jeito? Claro que não. Mas isso compete aos maiores interessados que são os autores, que estão sendo prejudicados há muito tempo. Mas reconheço que a briga é difícil pela falta de organização dos compositores, ignorância no assunto e pelo adversário que tem pela frente.

Essa discussão remete à questão da concessão dos meios de comunicação, inclusive.

(Carlos Eduardo Sá, editor do SporTv, compositor e ex-presidente de escola de samba. Setembro)

Por que o SporTv não cita os nomes dos patrocinadores das equipes ou ainda os times que tem nomes de empresas?
CES - Em qualquer empresa de comunicação, o que paga a conta é o Departamento Comercial. Nós temos que ter meios de proteger e beneficiar os nossos patrocinadores.
 
Como foi a experiência de ter sido Presidente do Boi da Ilha do Governador? Quais as principais dificuldades enfrentadas?
CES - Administrar uma escola é o pior pesadelo que existe para uma pessoa de bem.
Você nunca consegue agradar a todos e, numa escola pequena como o Boi problemas brotam de todos os cantos. Tinha um sonho de colocar a escola no grupo A e acordei traído no Grupo C. Quase perdi família e emprego mas era uma paixão. Fazer o quê?
 
(Rafael Lopes, jornalista de automobilismo do portal Globoesporte.com. Setembro)

Qual a avaliação que você faz do automobilismo nacional hoje?

RL - Acho que é uma situação complicada. Vemos muita bagunça, muita coisa errada.

Temos boas categorias, mas o extra-pista acaba estragando boa parte disso. Um problema grave é a formação de pilotos de monopostos, que nos representariam no futuro na Fórmula 1. Só temos a Fórmula Futuro e a Fórmula 3 Sul-Americana. Talvez se o Massa tivesse sido campeão em 2008 o quadro fosse diferente.

Mas também acho que boa parte do público só gosta de ver brasileiro ganhando. Se não ganham, eles não prestam. O que não é verdade, muito longe disso. Muita coisa precisa mudar aqui.
 
Emerson, Piquet e Senna. Qual sua avaliação sobre nossos pilotos campeões do mundo?

RL - Emerson, sem dúvidas, é o pioneiro. Se não fosse ele, provavelmente estaríamos cobrindo futebol ou trabalhando em outra área do automobilismo. Como piloto, um gênio, sem dúvidas. Tinha um estilo muito limpo de pilotagem, bastante inteligente. É um daqueles caras que vale a pena conhecer pessoalmente e ouvir suas histórias.

Nelson Piquet talvez tenha sido o melhor acertador e desenvolvedor de carros da história da categoria. Ele era muito rápido, mas sabia ser conservador nos momentos corretos. Mestre em se impor em condições adversas, como quando boa parte da equipe torce e apoia o companheiro - lembram de Mansell em 1987? Com personalidade forte, não tem medo de falar o que pensa. E isso é uma grande virtude nos dias de hoje.

Ayrton Senna, para mim, é o melhor piloto da história da Fórmula 1. Gênio nos treinos classificatórios, fazia poles como ninguém. Infelizmente teve sua carreira abreviada por aquele acidente na Tamburello. Se isso não tivesse acontecido, sabe-se lá o que ele poderia ter ganhado. Foi protagonista de várias corridas que, até hoje, entraram para os anais da categoria. O maior dos gênios, na minha opinião.
 
(Flavia Cirino, Assessora de Imprensa do Salgueiro. Setembro)

Você já esteve "do outro lado", como repórter de carnaval do Extra e de outros veículos. Quais as principais diferenças entre um posicionamento e outro?

FC - A consciência do que é pertinente ou não para determinados públicos-alvo.

Acho bárbaro, na condição de componente e sambista, o interesse e a vontade de ver o samba verdadeiro nas páginas de jornais. Quem não quer exaltar o samba em sua essência, em detrimento de sambeiros e oportunistas?

Mas na condição de profissional, nos grandes veículos por onde passei, entendo que não é assim que a banda toca. Somo sim condicionados ao que é vendável, ao que o leitor quer - não apenas às vésperas do desfile. E por isso o sambista deve valorizar demais os veículos que existem atualmente, especializados em carnaval. Que venham mais e mais!

Qual sua avaliação sobre o trabalho de assessoria de imprensa no carnaval como um todo?

FC - Estamos evoluindo cada vez mais, cada um ao seu modo; o importante é que o samba, o carnaval, está ganhando cada vez mais vez e voz.

Só acho que em algumas agremiações falta mais liberdade ao assessor para exercer seu trabalho. Felizmente não tenho esse problema, acho que um dos fatores é o fato de eu ser originalmente da escola. Mas vejo colegas dispostos e capazes de fazer muito mais, porem são tolhidos - talvez por falta de visão.

(Fred Sabino, editor de automobilismo do jornal Lance. Agosto)

Emerson, Piquet e Senna. Qual sua avaliação sobre nossos pilotos campeões do mundo?
 
FS - Emerson é o grande responsável por estarmos aqui discutindo sobre automobilismo. Sempre deu a cara para bater, seja ao ir para a Europa, dar uma banana para a Lotus no fim de 1973, trocar a comodidade de uma McLaren pelo desafio de ter uma equipe nacional (acima) ou mesmo ao se aventurar nos Estados Unidos. Devemos tudo a Emerson, que, além de toda sua carreira, que dispensa apresentações, é um gentleman. Está sempre sorrindo e trata todo mundo com extrema educação e simpatia até hoje.

O Nelson é oriundo das oficinas, demonstrou incrível astúcia ao longo da carreira, desenvolvia carros como ninguém e ganhou na marra um tricampeonato numa equipe que estava toda contra ele - o que jamais será visto novamente. Isso tudo sem falar na técnica apuradíssima e velocidade, que também dispensam apresentações. Outro gênio. Fora das pistas, mantém-se fiel ao seu jeito de ser e não tem meias palavras, o que é louvável. Concorde-se ou não com algumas posições, Nelson é coerente e nosso país seria melhor se todos se expressassem suas opiniões sem receios ou melindres.

Já o Ayrton era meu ídolo de infância. Desde pequeno gostava do fato de ele ser arrojado e um lutador seja quais fossem as condições. Ele foi sem dúvida o piloto de maior talento natural da História. Até ele amadurecer, na virada da década, pagou pelo ímpeto e desperdiçou resultados. Mas, com o tempo, manteve-se arrojado, só que com um refinamento ímpar. Fora que ele era um piloto capaz de andar com pneus slicks numa pista úmida, passar quatro adversários na primeira volta, sustentar um carro na pista com a sexta marcha e vencer.. Jamais saberemos o que ele poderia ter alcançado se não tivesse morrido tão cedo.

Em cima de Senna e Piquet, só lamento que uma rivalidade boba criada entre eles tenha fomentado uma parcela de torcedores idiotas que são incapazes de reconhecer o talento de um e de outro e ficam se agredindo nos fóruns de internet por aí. São os mesmos tipos de imbecis que eu citei antes, que não contribuem para o nosso automobilismo e são torcedores de ocasião. Nossos campeões não mereciam isso.
 
Que conselho daria a alguém que pretenda se tornar jornalista esportivo?

FS - Tenha a consciência de que o mundo de fantasia muitas vezes vendido por aí não existe e há muita falcatrua, desvios éticos - inclusive de jornalistas - e é preciso manter a cabeça fria para prosperar sem ser corrompido.

Não seja hipócrita como alguns que dizem que não torcem por determinado clube, mas por outro lado jamais permita que suas preferências influenciem seus textos e seu comportamento. É possível vencer com honestidade e sobreviver ao mar de lama que muitas vezes cresce.
 
(Juan Espanhol, compositor. Agosto)

Qual sua avaliação sobre os sambas compostos nos dias de hoje? E sobre as transformações sofridas por este gênero musical?

JE - Embora grandes compositores especialistas em samba-enredo pelos motivos acima tenham se afastado, ainda encontramos durante as eliminatórias grandes sambas - o Rio é e sempre será um celeiro de Bambas.

Assim como o próprio Carnaval, o samba-enredo também sofreu as devidas mudanças: menos cadência, mais bpm,  para que o visual televisivo tenha mais movimento. O grande problema é que na "escolha" do samba, numa safra de quatro excelentes, conseguem escolher um de razoável pra bom...
 
O que você acha das disputas atuais de samba?

JE - Tristes.

Sou de um tempo em que a qualidade (letra+melodia+andamento e coerência com o enredo) tinham um peso de 80% na escolha. 10% ficavam com a interpretação e os outros 10% com a interação com o público (torcida). Era difícil errar.

Com o tempo, o peso foi se invertendo. A qualidade caiu pra 40%.

Logicamente subiram a interpretação e os "efeitos especiais"(antiga torcida) para 30% cada um... ou seja: se um samba tem um intérprete de primeira linha junto com Neon e/ou laser já garantiu 60% - mais que os 40% que a qualidade do outro pode alcançar....

 e das chamadas "firmas" de samba enredo?


JE - Foram as tais "firmas" ou "escritórios" que provocaram as disputas mencionadas acima. Espalham suas obras por todas as escolas do Especial e de uns tempos para cá até nos Grupos de Acesso.

Tem sempre pelo menos um dos seus factóides (falsos compositores que assinam a obra) onde dinheiro não é problema - tanto para o palco quanto para o laserr e as cervejas e churrascos da torcida. O final do filme já sabemos.

Posso falar de cadeira porque fui convidado para fazer parte do "primeiro" escritório montado. Recusei-me e mantive a palavra de não revelar de quem partiu o convite. Hoje devem existir pelo menos uns cinco ou seis escritórios, nos mesmos moldes, uns brigando contra os outros..

O engraçado é que existem factóides humildes, mas existem aqueles que enchem o peito para dizer que são tri, ou tetra, ou até penta-campeões em determinada escola. Mais de uma vez tive que dar as costas para que não me vissem meu sorriso irônico....

(Lívia Gesta, dentista. Agosto)

Iniciando a entrevista legislando em causa própria: por que as pessoas tem tanto medo de dentista?
 
LG - Antigamente, os métodos e materiais usados pelos dentistas realmente causavam desconforto ao paciente - como, por exemplo, agulhas grossas para dar anestesia no paciente.

Porém, hoje em dia esse tipo de reclamação não procede mais, já que houve um grande aperfeiçoamento dos equipamentos e procedimentos dentais.

Outro motivo é que grande parte dos pacientes procura o dentista quando sente dor no dente. Com isso,acham que como já estão sentindo dor no dente sentirão mais ainda na cadeira do dentista.

Existem também pacientes traumatizados durante a infância, seja por causa de alguma ida ao dentista, seja por causa dos próprios pais. Outro dia eu estava na fila do supermercado e tinha um garotinho fazendo malcriação. A mãe virou-se pro garotinho e falou "se você não se comportar, eu te levo pro dentista agora". Complicado...
 
Qual a razão do custo muitas vezes elevado dos tratamentos?
 
LG - existem vários tipos de materiais no mercado e a variação de preço é muito grande. Um material de boa qualidade é caro, logo a gente repassa o valor do material no valor do tratamento.

Além do mais, um bom dentista está sempre se atualizando. Para isso tem que fazer especializações, cursos, ir a palestras, congressos, comprar CDs e livros. Tudo isso tem um preço elevado, que também é repassado no valor do tratamento.

E também o profissional tem que pagar impostos relacionados à profissão: aluguel (em caso de consultório alugado), condomínio, contas (luz,telefone). Enfim, o valor cobrado pelo dentista é um somatório de valores que o profissional gasta e que tem que ser repassado para o paciente.
 
(Maurício Beltramelli, especialista em cervejas. Agosto)

Você acredita que o Brasil tem condições de ter um "estilo próprio" de cerveja? Qual seria? O que você acha do quadro atual de cervejas especiais nacionais?

MB - Olha, a gente está muito longe disso. 

Quem hoje fala sobre escola cervejeira brasileira talvez precise estudar um pouco mais sobre a história das outras escolas cervejeiras - inclusive a americana, que começou há 20, 30 anos antes da nossa, que ainda hoje não é considerada por muitos uma escola cervejeira. 

Então não adianta você fazer uma cerveja e colocar frutas brasileiras na cerveja que você vai dizer que é uma escola cervejeira brasileira. Isso na minha concepção não existe. 

Você pode fazer uma cerveja diferente com quaisquer frutas do mundo inteiro. A gente precisa primeiro ter cerveja boa. Eu compartilho da opinião do Alexandre Bazzo, da Bamberg, de que aqui no Brasil a gente ainda precisa estudar muito para fazer uma cerveja boa, porque a nossa cerveja ainda é abaixo da crítica. Pra gente pensar daqui a muitos anos, com esse estudo e evolução, pensarmos em ter nossa escola cervejeira.
 
Para o leitor iniciante no assunto e que se resume a grandes marcas, que tipos e marcas de cerveja você indicaria para se iniciar um "passeio" pelo mundo das cervejas especiais e artesanais? 

MB - Eu indico todas as cervejas Weissbier, cervejas de trigo. 

Até por experiência lá no BarBrejas, a gente recomenda pra pessoas que querem comprovar algo diferente, e também para não se assustarem com cervejas diferentes daquelas que estão acostumados. Então, as cervejas de trigo, Weissbier, são ideais para que a pessoa inicie num mundo diferente das cervejas Pilsen. Ao mesmo tempo são refrescantes, acho uma boa alternativa para a pessoa iniciar.
 
(Anderson Lopes, treinador de futebol e DJ. Julho)
 
Por que as divisões de base dos clubes brasileiros, hoje, vivem um período de clara "entressafra" na revelação de talentos?

AL - Basta você ver uma competição de Sub-13, Sub-15, que você começa a entender. Os treinadores se preocupam em ser campeões para manter o emprego.

O critério pra avaliação de jogador hoje em dia mudou também. Um garoto de 12, 13 anos, pequeno e franzino, a não ser que jogue uma enormidade não tem muita chance nos grandes clubes hoje em dia. A preferência, de uma maneira geral, é por jogadores de porte físico maior.

Isso se reflete na frente. Um monte de jogador que começou na base jogando de atacante ou como meia criativo, quando chega ao sub-20 acaba virando volante, lateral, para “sobreviver” no futebol.

A preocupação com a parte técnica do jogador também tem sido deixada de lado na base. A preocupação, pelo menos onde eu acompanho, é mais com a parte tática. O talento nunca vai deixar de existir, mas hoje ele não tem sido privilegiado como deveria.
 
Como seria uma estrutura de treinamento considerada adequada para um grande clube? Que tipos de treinamentos são mais adequados?

AL - Principalmente na base – hoje em dia já tem competições de sub-11, em alguns lugares, até de sub-9 – a preocupação precisa ser com a formação do jogador, sem a cobrança por resultados. A parte técnica tem que ser estimulada ao máximo nessa fase, e não tolhida.

Os treinos que estimulam a criatividade, que forçam o jogador a pensar em resolução dos problemas que o jogo apresenta, são os mais adequados. Quanto mais o jogador pensar, mais apto ele vai estar para utilizar seu talento e sua criatividade.

A gente entende que os clubes grandes sobrevivem de resultados, mas na minha modesta avaliação, a criação de uma cultura onde o jogo inteligente e criativo é a tônica é a melhor maneira de produzir jogadores mais completos – o Barcelona é o grande exemplo disso. O jogo que eles produzem no time profissional é a ponta de um trabalho que começa na base. A questão é, também, cultural.
 
(Marco Aurélio Mello, jornalista. Abril)
 
Por que se faz necessária uma lei que regulamente os meios de comunicação brasileiros? Você acha que há equilíbrio na cobertura jornalística?

MAM - A chamada "Lei dos Meios" é fundamental porque, hoje, meia dúzia de patrões decidem o que um país de 200 milhões de habitantes vai ver pela lente de aumento que, por incrível que pareça, não é deles mas de todo o povo brasileiro. Afinal, eles são concessionários e não donos dos meios.
 
Qual o papel das novas mídias em comparação ao jornalismo tradicional?

MAM - É um aumento brutal de possibilidades de informação.

A partir de agora, só "pensa dentro da caixa", ou quem é muito limitado, ou quem é muito alienado. E se existe um modo novo de acabar com o segredo ele se chama Wikileaks. Só contruiremos um mundo melhor com transparência absoluta.
 
(Ricardo Kotscho, jornalista. Março)

Qual a avaliação que o senhor faz dos jornais e do jornalismo televisivo de hoje?

RK - É muito difícil generalizar uma avaliação da imprensa brasileira porque virtudes e defeitos variam de um veículo para outro e até mesmo entre profissionais do mesmo veículo.

De uma forma geral, em todas as plataformas, na nova e na velha mídia, acho que temos hoje Brasília demais e Brasil de menos na nossa imprensa, quer dizer, muito noticiário de gabinete e poucas histórias da vida real. Isso torna a nossa imprensa muito indiferenciada, muito repetitiva, muito burocrática, sem alma.
 
Como era o ex-Presidente Lula fora da liturgia do cargo? O senhor que o acompanha há mais de trinta anos percebe muitas mudanças na trajetória política do ex-presidente?

RK - Fora do cargo, o presidente Lula não mudou nada, manteve o mesmo jeito simples de sempre e de brincar com seus amigos. Na trajetória política, ele deixou as posições mais radicais do começo da carreira, na época da resistência à ditadura militar, e passou a ser mais conciliador, fazendo alianças que permitissem ao seu governo oferecer melhores condições de vida para todos os brasileiros.
 
(Lédio Carmona, jornalista esportivo. Março)
 
Por que o mundo do futebol é um meio tão sem ética?

LC - Porque quem comanda, com as exceções de sempre, confunde política com esporte. Alem disso, não tem com os clubes o mesmo cuidado que mostram à frente de suas empresas. E, por fim, usam a muleta de que são torcedores para justificar seus desmandos.
 
Como funciona uma transmissão "off tube"? No estádio presta-se mais atenção ao monitor ou ao campo?

LC - A grande diferença é que no estádio você tem a visão do monitor e de todo cenário à frente. No monitor, sua visão se limita a 14 ou 16 polegadas. Esquema tático "WM" off tube é quase uma miragem.
 
(Felipe Ferreira, pesquisador de carnaval. Março)

Você já participou de cursos de formação de jurados do carnaval. Como funcionam estes cursos? De que forma o julgamento das escolas de samba pode ser aperfeiçoado a fim de se tornar mais fiel ao que se vê na avenida e, ao mesmo tempo, ser menos burocrático e mais criterioso?

FF - A formação dos jurados não pode se resumir a esmiuçar e fiscalizar o cumprimento de regras, mas, principalmente, fazer com que elas sejam interpretadas com bom senso. Um jurado não pode ser reduzido a um fiscal de posturas, devendo ser alguém capaz de perceber as propostas e cada escola e suas traduções no quesito que ele julgar. 

Por outro lado, os critérios de julgamento e de notas estão bastante defasados e precisam ser revistos urgentemente. Minha sugestão é que as escolas deixem de ser julgadas por notas, mas colocadas em ordem dentro de cada quesito. Acredito que reforçando a comparação entre as escolas poderemos evitar as notas benevolentes. 

Outra solução seria a ampliação do corpo de jurados para dez em cada quesito, espalhados sem identificação pela avenida. As notas que se afastassem excessivamente da média por quesito seriam eliminadas.
 
Que principais manifestações carnavalescas fora do Brasil você diria que são as mais importantes? Por quê?

FF - Existem muitas manifestações carnavalescas importantes fora do Brasil. Dentre elas destaco a Festa dos Gilles, na cidade de Binche, na Bélgica, pela força de sua tradicionalidade baseada em rituais minuciosamente seguidos. 

Muito imponente também são os desfiles de alegorias da Viareggio, na Itália, com imensos carros alegóricos carregando grandes esculturas móveis e grupos de dezenas de foliões fantasiados. Na América do Sul, destaco o carnaval de Barranquilha, na Colômbia, uma festa de ares caribenhos com muitas manifestações e rua; e a diablada de Oruro, na Bolívia, com uma grande variedade de grupos fantasiados em disputa, onde se destacam os famosos diabos, símbolos da resistência ao colonizador e da própria cidade.
 
(Luiz Alexandre, Major da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Março)

Na opinião do senhor, porque a corrupção nas Polícias é tão endêmica? O que leva a esta situação? Qual a percentagem da corporação que está imune a este tipo de prática? 

LA: A corrupção nas polícias é endêmica porque retrata a corrupção na nossa sociedade. Temos uma sociedade extremamente corrupta, onde não há o honesto e o desonesto, mas o esperto e o otário. 

A polícia somente espelha a nossa sociedade. Já vi, quando à paisana, policiais agindo corretamente e, quando saíam, as pessoas reclamavam por terem feito o certo. 

A polícia não forma caráter, ele já vêm da família. A polícia forma, mal e porcamente, policiais. Como mostrar a esse homem que entra na polícia que ele não pode ser corrupto quando, ao olhar em volta, para cima e para baixo, é só o que vê? 

Como evitar que o policial não deixe de aplicar uma infração de trânsito por dinheiro quando ela é muitas vezes “quebrada” pelos superiores por pedidos de políticos ou de amigos? 

Como evitar que um policial recém-formado não se envolva com o crime quando a maioria absoluta dos membros das corporações policiais está envolvida, inclusive superiores com as maiores patentes e cargos? 

Não há imunidade para a corrupção em uma estrutura corrupta, mas há somente força de vontade. Há alguns anos ouvi de um soldado (honesto), com alguns poucos anos de polícia, que assim que entrou na PM a esposa perdeu o emprego. Ele disse que devido às dívidas chegou a não ter o que comer em casa. E levava a família (esposa e filho) para fazer as refeições no Batalhão. E confidenciou: “Era muito duro. Enquanto eu via dinheiro rolando nas mãos de todo mundo no batalhão, eu não tinha o que comer em casa com minha família.”. 

Isso é força de vontade, superação. Mas como imunizar alguém que não supre suas necessidades básicas e da sua família (pirâmide de Maslow) contra a corrupção? Principalmente quando o que ele vê é a generalização da corrupção garantida por uma impunidade estrutural. 

Minha opinião particular é que a grande maioria dos membros das polícias é corrupta. Mesmo os que não levam dinheiro, fazem vista grossa e deixam os outros levarem para terem vantagem em alguma outra coisa.
 
O que o senhor faria se fosse Secretário de Segurança Pública?

LA: A primeira coisa que faria era acabar com o jogo de bicho e as máquinas caça-níqueis. Esse sim é o crime verdadeiramente organizado do Rio de Janeiro. Ele envolve muita corrupção, muitas guerras e muitas mortes. 

A ordem seria simples: se eu passar na rua e ver, ou a Polícia Federal apreender algo na área integrada, o comandante do Batalhão e o Delegado serão exonerados. 

A segunda seria (se houvesse) tirar todos os comandantes e delegados envolvidos em ilícitos e investigar o que se sabe deles. Nem que colocasse tenentes e delegados de 3a comandando batalhões e delegacias, mas teria o máximo de gente honesta comandando. E pode ter certeza que um bom policial, com a estrutura de inteligência na mão, sabe quem é quem. 

Depois lutaria por mudanças estruturais nas polícias, como salários, bicos, escalas, etc.
 
(Luiz Fernando Reis, ex-carnavalesco. Fevereiro)
 
Como você avaliaria o desfile das escolas de samba nos dias de hoje? O que precisaria mudar?

LFR - critica o politicamente correto, os enredos burocráticos, a falta de ousadia e o conservadorismo. Diz que o modelo atual de poder onde o presidente "tem a chave da quadra em um bolso e o dinheiro no outro; às vezes usa o dinheiro na escola".

Qual é a influência da internet sobre os desfiles atuais?

LFR - afirma que as pessoas sérias da internet devem ser mais ouvidas pelas escolas como uma forma de democracia. Cita textualmente o autor deste Ouro de Tolo, Fábio Fabato, Fábio Pavão, Eugênio Leal e Luis Carlos Magalhães como autores que devem e merecem ser lidos.
 
(Aloisio Villar, compositor e colunista deste blog. Fevereiro)
 
Por quê os sambas de enredo caíram tanto de qualidade nos últimos anos ? O que pode ser feito para reverter esta tendência?

AV - Tem uma série de fatores nisso, diria até um círculo vicioso que vai do enredo e sua sinopse até o julgamento. Hoje temos muitos enredos patrocinados, enredos que culturalmente não acrescentam muito, com sinopses engessadas e que temos que colocar no samba muitos detalhes, algumas vezes até frases inteiras; tem o fator também que hoje samba-enredo gera muito dinheiro de receita pros compositores vencedores e gastos na disputa. 

Isso tira a vontade de arriscar, se aposta na fórmula de "primeira parte/ refrão do meio de quatro linhas /segunda parte/refrão principal de quatro linhas" e que fale no nome da escola. Todo mundo pede mudanças mas quando surge um samba diferente torcem o nariz, falam que aquilo não é samba-enredo e os sambas vão com essa fórmula engessada pra avenida. Tiram praticamente as mesmas notas, não existe muita diferença de notas entre o melhor e o pior samba; samba-enredo que já foi determinante em alguns carnavais virou quesito secundário e o que importa hoje são os tamanhos dos carros

Só vejo possibilidades de mudanças quando os julgadores começaram a dar as notas certas para as escolas, dar notas sem medo, dar 10 pro samba de qualidade e "canetar" o ruim. Quando as escolas voltarem a ganhar e perder carnaval em samba-enredo talvez mude este quadro.
 
abemos que existem as chamadas "firmas" de samba enredo, grupos de compositores que escrevem para várias escolas e entregam para outros assinarem devido à restrição do regulamento de somente se poder assinar em uma agremiação por grupo. O que você pensa sobre este fenômeno? Como se detecta um samba destes em uma disputa?

AV - Antigamente a gente ouvia um samba e falava "esse samba é da Portela", "esse é do Salgueiro"; hoje a gente ouve e fala "esse samba é de fulano", "esse é de sicrano". Por melhores que esses compositores sejam o ser humano tem limites, ninguém consegue fazer nove, dez sambas de qualidade no mesmo ano. Acabam se repetindo, muitas vezes não mantendo o nível mas mesmo com tudo isso vencem por ter uma grande estrutura por trás.

Sinceramente não sou contra, acho que o melhor samba tem que vencer, independente de quem seja e todas as firmas que conheço são de bons compositores, a partir do momento que existe uma grande soma de dinheiro em jogo nas disputas esse processo de parcerias virarem empresas é irreversível. Eu acho que tem que acabar a limitação de só poder assinar um samba, assim pelo menos fica tudo as claras e acaba com a figura do "pombo" que é aquele que assina um samba feito por outro

Acho que um problema maior que samba de firma é o samba da comunidade, é aquele que tem que vencer de qualquer forma porque é do pessoal da área, porque bota torcida grande, porque o compositor sempre empresta a kombi dele pra escola fazer serviços. Na maioria das vezes que vi esses sambas eram inferiores mas acabavam tirando bons sambas da disputa porque a escola tinha que agradar "seu eleitorado" - isso quando não ganhava e ia pra avenida.
 
(Vitor Monteiro, petroleiro e presidente de ala. Fevereiro)

Muitas vezes falam do do Cenpes, Centro de Pesquisas da Petrobras, e as pessoas não sabem qual é exatamente o seu papel. Afinal de contas, qual é a missão do Centro de Pesquisas da Petrobras ? Em que consiste sua atuação ?

VM - O Cenpes é um elemento pouco conhecido pelo grande publico. No entanto seu papel é muito importante em algumas questões estratégicas. Foi do Cenpes que surgiram as tecnologias inéditas em todo o mundo que fizeram a Petrobras ser líder em águas profundas. É no Cenpes que estamos tratando os desafios do pré-sal, um cenário exploratório tão desafiador e desconhecido pela industria do petroleo como um dia foi a questão das águas profundas. 

O papel do Cenpes é resolver os gargalos tecnológicos do presente e antecipar os problemas que virão no futuro. No momento, por exemplo, muitos esforços são colocados na questão ambiental. A visão da empresa é que no futuro isso será tão importante quando a saúde financeira da companhia.

De que forma você avalia a atuação da Liesa à frente do desfile de escolas de samba do Grupo Especial?

VM - A Liesa se cria em cima da incompetência do poder publico. É como uma privatização de uma rodovia. Quando essa rodovia era uma via pública vivia cheia de buracos. Isso deixava o caminho aberto para a privatização. Ninguém gosta de buracos na pista.

Daí vem a iniciativa privada e tapa os buracos enchendo a rodovia de pedágios e auferindo bons lucros. Nesse momento a opinião pública fica favorável à privatização. 

Fernando Henrique Cardoso fez isso: sucateou várias empresas públicas para poder ganhar apoio do povo na hora de vendê-las. É uma grande armação. A Liesa foi lá e tapou os buracos. Hoje o desfile é organizado e não tem atrasos. Eu não posso concordar com essa visão limitadora da maior festa popular do mundo. 

A Liesa propôs um carnaval formatado, hermético e pasteurizado. Há uma super valorização do visual, de alegorias e de teatralizações comandadas por corpos de balé ou de teatros profissionais. E o sambista, coitado, "sambou", como previa o samba da São Clemente em 1990.
 
(João Guilherme, narrador esportivo. Fevereiro)
 
O advento das novas mídias alterou os padrões de comportamento dos profissionais da área e a "busca pela notícia"? Em que consiste transformar a paixão do torcedor em um produto racional como é o noticiário esportivo ?

JG - Com o tempo de profissão, você conhece os bastidores, se envolve no produto e acaba tendo uma outra visão. O esporte para nós é trabalho e não diversão. Essa é a diferença. 

Se for para torcer vai para a arquibancada. Você tem que informar e analisar olhando os dois lados da questão - e se basear em fatos.
 
Como surgem os bordões que se tornam marcas registradas de um locutor esportivo?

JG - Espontaneamente, as vezes você ouve alguém falando na rua, ouve uma música ou na hora sai e pega. Não é algo pensado, planejado.
 
(Aydano André Motta, jornalista especializado em esportes e carnaval. Janeiro)
 
Como você avaliaria a gestão das nossas escolas de samba ? E de que forma esta forma de gerência pode ser aprimorada ?

AAM - Um conjunto de instituições quebradas, que recusam qualquer arremedo de transparência nas contas, e, ano sim, ano também, mendigam patrocínios os mais humilhantes. Gestão, aonde? Olha, falar do prontuário dos manda-chuvas do samba é aborrecido, por velho. E atribuir a incompetência ao fato de serem contraventores é raso. A relação dos bicheiros com o samba é longeva, porque a festa sempre foi marginal - e é, ainda hoje, quando os ricos (a classe média no Brasil é uma inovação do governo Lula; antes, eram ricos e pobres) só prestam atenção quando começa a transmissão da Globo. Alguém tinha de cuidar e, à falta de outros candidatos, eles pegaram. E fizeram um ótimo trabalho. Poucos se lembram hoje, mas no tempo da prefeitura o desfile acabava ao meio-dia.

Ao longo de décadas, as relações entre sambistas e patronos se legitimaram, a um ponto que se torna quase impossível mudar. Mas a gestão das escolas é, sobretudo, estreita. Falta estudo para gerir um evento planetário. O carnaval carioca poderia muito mais, se topasse se abrir à vera ao profissionalismo. Mas é um cartório, e, como tal, tem alergia a luz. Meu ponto, insisto, não é esse. Funcionaria, se houvesse mais preparo para dar a essa festa e a esses artistas a dimensão que eles merecem.

Veja a Cidade do Samba. Encravada na Zona Portuária, ampla, nova, deveria ser a Disneylândia carioca, e é quase um cemitério, que funciona, mal e mal, cinco meses por ano. Não tem lugar pra comer, mal tem banheiro! Todos os meus amigos estrangeiros ao mundo do samba que visitam, ficam chocados com o potencial inexplorado.

Um caso: em 2009, estive na gravação do coro do CD dos sambas-enredo, e perguntei quando seria gravado o DVD. Ouvi, perplexo, que a Liga não tinha dinheiro para produzir um DVD. Expliquei, desconsolado, que as escolas de samba cariocas RECEBERIAM por PERMITIR a gravação. Mais um carnaval chegou, e tem DVD? Claro. Nas escolas de São Paulo, o túmulo do samba - há vários anos. Diante disso, falar em gerência é quase piada, né não?
 
A Beija Flor claramente é utilizada pela Família David para um projeto mais amplo de poder no município de Nilópolis. De que forma o papel exercido pela escola poderia suplantar os "82 minutos de desfile" e o seu posicionamento na estrutura do município da Baixada Fluminense ? Em sua opinião a escola teria vida própria sem o apoio da família dirigente ?

AAM - A história da Beija-Flor é mais sofisticada do que enxerga o olhar estrangeiro, que imagina uma comunidade sequestrada por uma família. Os Abrahão David estão lá desde sempre e há, sim, uma relação com o poder político em Nilópoils. Mas a história tem outras nuances. O patrono da escola - o personagem determinante é Anísio, o resto da famíia é acessório - tem devoção pela comunidade, não apenas se aproveita dela. Ele protege e ajuda, de um jeito questionável, com assistencialismo, mas ali há mais do que simples dominação. É uma via de mão dupla.

Os espetaculares ensaios da escola, às segundas e quintas na quadra, são a maior prova disso. Nilópolis se entrega ao carnaval de um jeito único, mérito do povo de lá, que sustenta amor inegociável pela Beija-Flor. Ninguém, no carnaval contemporâneo, canta e se empenha como eles. É o fato mais empolgante da nossa festa, hoje em dia - e vai muito além da influência dos Abrahão David.

Mas há fissuras no cenário. Uma delas, minha maior angústia como torcedor e apaixonado por carnaval, é a dependência da Beija-Flor da liderança de seu patrono. Para mim, está claro que vai se repetir em Nilópolis a trajetória da Mocidade, escola dominante que murchou drasticamente após a morte do seu patrono, e hoje luta para não cair. A inexistência de potenciais lideranças é alarmante e será fatal à Beija-Flor.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Final de Semana" - "Mineira"



Em nossa última coluna "Final de Semana" deste 2011, a lembrança é a da imortal Clara Nunes, que é o fio condutor do enredo da Portela sobre as festas baianas. Inclusive, a tendência é de que a escola faça o "esquenta" de bateria na noite de 19 de fevereiro com dois sambas que fazem referência à cantora: "Sabiá" e, obviamente "Portela na Avenida".

As duas canções são de autoria de seu então esposo e um dos únicos gênios vivos da música brasileira, Paulo Cesar Pinheiro - nesta imagem que abre o vídeo acima, ao centro.

Mas a música de hoje é outra homenagem de Pinheiro à Clara: "Mineira", escrita em parceria com João Nogueira e que aqui apresento em versão interpretada pelo filho do falecido cantor e compositor, Diogo Nogueira. Ao que parece a gravação é do programa "Samba na Gamboa" em homenagem a Paulo Cesar Pinheiro, apresentado pelo cantor na TV Brasil, e que infelizmente não vi.

Como a nova fase portelense foi uma das boas coisas deste segundo semestre de 2011, encerro o ano com música alusiva a isto. Ainda há um longo caminho a ser percorrido, mas devolveram a nós portelenses o que nos haviam tomado: a dignidade e, mais que tudo, a esperança de dias melhores.

Vamos à letra, e salve Clara!

"Clara, abre o pano do passado,
Tira a preta do cerrado,
Pôe rei congo no congá.
Anda, canta um samba verdadeiro,
Faz o que mandou o mineiro,
Oh! Mineira.

Samba que samba no bole que bole.
Oi, morena do balaio mole,
Se embala do som dos tantãs.
Quebra no balacochê do cavaco
E rebola no balacubaco;
Se embola dos balagandãs.
Mexe no meio, que eu sambo do lado.
Vem naquele bamboleado
Que eu também sou bam, bam, bam.

Vai, cai no samba, cai
E o samba vai até de manhã.
Vai, cai no samba, cai
E o samba vai até de manhã.

Ô, saravá mineira guerreira,
Que é filha de Ogum com Iansã!"

Orun Ayé - "Tempo de Retrospectiva"


Excepcionalmente nesta sexta feira, último dia útil do ano, mais uma edição da coluna "Orun Ayé", do compositor Aloisio Villar.

Tenho a dizer que eu é quem agradeço por ter a presença do compositor entre os colunistas, com um público fiel a cada domingo. E também pela honra de ser seu parceiro de samba na Acadêmicos do Dendê.

E saiba que estarei cantando seu samba na avenida em 2012, mais uma vez tendo a honra de desfilar a convite na mítica Ala de Compositores da agremiação. O leitor sabe que não sou torcedor da escola, sou portelense apaixonado e que se Deus quiser irá participar da redenção azul e branca em fevereiro, mas a União da Ilha me recebeu bem e está dentro do meu coração também.

Rasgação de seda à parte, vamos ao texto. E adianto que a coluna do domingo que vem, dia 08, terá como tema "O Barcelona dos Sambas". Será imperdível.

Tempo de Retrospectiva

Começo a coluna com uma curiosidade. 

Já notaram que há palavras que só ouvimos ou lemos em alguns momentos do ano? Por exemplo, a palavra “próspero”. Só ouvimos no Natal quando alguém deseja “Feliz Natal e um próspero ano novo”. No carnaval temos a palavra “genitália”. 

E na virada de ano a palavra “retrospectiva”. Sejamos sinceros: alguém usa essa palavra em alguma outra época do ano? 

Nem eu. 

Mas todo mundo adora fazer quando chega a semana entre o Natal e a virada de ano. Essa semana que eu considero ao mesmo tempo a mais chata do ano, pois, não acontece nada (graças a Deus temos o Adriano imperador pra movimentar esse mundo monótono) e também é a última semana daquele período monótono entre a quarta-feira de cinzas e a virada de ano [N.do.E.: vem para a minha gerência que verá que não foi nada parado (risos)]

Como eu disse, não há nada pra se fazer nesse período. Os melhores programas de televisão estão de férias, os jogadores de futebol estão de férias, Papai Noel já voltou pro Pólo Norte e o décimo terceiro também já foi embora - então as pessoas tiram essa semana pra refletir. 

E quase sempre a reflexão sobre o ano é péssima. Amaldiçoam o ano que está terminando, culpam o coitado por todas as mazelas e desejam que o ano seguinte seja melhor. Aí chega o fim do ano seguinte e fazem as mesmas reclamações, esquecendo que o que ocorre é apenas uma mudança de data no calendário. Um ano não tem poder de mudar nossas vidas, só a gente. 

E assim como todo mundo, tiro o fim de ano pra fazer reflexões. 2011 pra mim foi um ano positivo. Um ano que posso dizer que cresci, evoluí, botei molho inglês na feijoada. 

A conquista na União da Ilha foi o simbolismo de um ano vitorioso. Uma vitória sonhada, buscada e esperada por muitos anos. Uma grande campanha que fizemos nos dois meses de uma disputa impecável onde mostramos a todos a nossa força. 

E no final a sensação do dever cumprido e que somos realidade. 

Um bom ano no samba, que também trouxe minha sexta vitória no Acadêmicos do Dendê, outra junção, mas outra disputa onde saímos de cabeça erguida e sabendo que fomos vitoriosos. Virei assim o maior vencedor da história da agremiação e tive a honra de dividir mais uma conquista com o Pedro Migão. 

Mais uma vitória na Unidos do Aquarius de Cabo Frio e no bloco Unidos de Tubiacanga, aqui na Ilha do Governador. Experiências como compositor na Mocidade de Aparecida de Manaus e Unidos do Peruche de São Paulo e um samba despretensioso que quase surpreendeu no Boi da Ilha [N.do.E.: o "pombo" só foi abatido na finalíssima... risos]

Conquista de novas amizades no samba. Novos parceiros agregados como Lobo Jr, Neco do Banjo e Violinha no Dendê, Boi e Tubiacanga. Talentos novos no samba. 

Mas sem dúvidas os grandes momentos foram proporcionados pela União da Ilha. A campanha vitoriosa, acompanhar a gravação do samba, a festa de lançamento de cd, o reconhecimento. A cada ensaio na AA.Portuguesa uma emoção diferente, uma emoção maior ainda na volta à nossa casa agora em dezembro, com a inauguração da quadra. 

E me sentir como uma criança ao ganhar uma bicicleta quando chegou o meu cd das escolas de samba do grupo especial: peguei correndo uma tesoura a fim de tirar o plástico e ver meu nome no encarte. 

Termino meu ano no samba de 2011 imaginando para fevereiro de 2012 a maior emoção da minha vida de compositor. 

A União da Ilha na avenida com um samba meu. 

Escrevi muito em 2011, mas não foram só sambas. Fiz músicas, escrevi livros e desde abril virei colunista desse blog. Com essa foram trinta e seis colunas em pouco menos de nove meses. Nove meses ininterruptos. Todos os fins de semana com uma coluna inédita. 

Agradeço ao Migão pela oportunidade. 

Escrever nesse blog ajudou muito no meu desenvolvimento como escritor. Vejo as primeiras colunas e as atuais e noto uma melhora - e o Ouro de Tolo foi fundamental para que eu pegasse o jeito como cronista. 

Foi um dos meus melhores anos escrevendo, onde me senti mais maduro ao escrever e acho que no geral escrevi coisas boas. 

Em muitas delas tive inspiração. Como todo escritor, poeta, as mulheres me serviram de inspiração. Para o lado bom ou lado ruim acabei usando as minhas experiências com elas para escrever: seja uma música, um capítulo de um livro ou uma coluna. 

Conheci mulheres maravilhosas em 2011 que me proporcionaram momentos inesquecíveis. Com algumas convivi algumas horas, outras dias, semanas. Algumas entraram e saíram da minha vida, outras chegaram para ficar - e tem o grupo que ainda não sei. Mas todas elas serviram como motivação para um amadurecimento meu, experiências de amadurecimento. 

Como aquela pessoa especial que passei o ano inteiro entre idas e vindas, melhoras e pioras, aproximações e afastamentos, amor e mágoas, despedidas e poesias. Cada vez que a sentia perto de mim me inspirava, que se afastava também. Sorrisos e lágrimas se transformavam em letras e palavras. 

E assim fui construindo um ano em versos. 

Minha vida foi construída e moldada por mulheres e 2011 não foi diferente. 

A maioria das minhas amizades são femininas, da minha família são mulheres, ficantes e namoradas passam pela minha vida e permanecem pra puxar minhas orelhas, dar conselhos e também receber. 

Fui criado por mulheres (mãe e avó) e hoje crio uma. Bia cresceu muito em 2011. Falante, com sorriso que mostra que seus dentes de leite já estão todos lá, bem humorada, dançarina, comunicativa, carismática e já criou em Patati, Patatá e Dora aventureira seus primeiros ídolos. 

De todas as boas relações que tenho com as mulheres posso dizer com orgulho que a mulher que me dou melhor hoje é minha filha. É nítido o quanto ela me ama e a cada dia amo mais também. 

Reforcei boas amizades fora do samba e sementes profissionais foram plantadas para belos frutos serem colhidos em 2012. Vejo esse bom ano de 2011 como um ano preparatório para um grande 2012. 

Mas principalmente minha maior vitória em 2011 foi virar um homem de verdade. 

Ano que reconheci erros e me expus na frente de pessoas com as quais errei, ano que reatei amizades, que procurei pessoas importantes pra mim e que estavam afastadas. Ano que mostrei pra algumas pessoas que amava e amo que não sou infalível, tenho defeitos e erro muito. 

Mas em 2011 aprendi que reconhecer falhas, erros e pedir desculpas não são sinais de fraqueza ou vergonha e me senti feliz e orgulhoso com essa descoberta. 

O fim do ano se aproxima e nele vem nostalgia de outras viradas de ano, retrospectiva de outras retrospectivas. Tive viradas de anos importantes como a de 2005, quando estava brigado com a minha mãe e me 'deu uma louca' indo a seu quarto antes de meia noite lhe dar um abraço. Quando entrei no quarto faltando um minuto ela começou a chorar e me abraçou forte. 

Foi seu último reveillon. Ela faleceu quatro meses depois e se eu não tivesse ido até ela guardaria pra sempre esse remorso. 

Não sei o que me reserva o próximo reveillon. Se terá algo marcante como esse ou outros que tive, nem sei como será o próximo ano, o meu destino será como Deus quiser. 

E espero que seja bom, não só o reveillon como o ano de 2012. Não vou deixar que a data aja por mim pra depois culpá-la se não der certo. Vou fazer meu 2012 acontecer como fiz em 2011. Um ano quase perfeito, o “quase” tem um peso muito grande pra atrapalhar, mas não posso e nem tenho o direito de me lamentar. 

Até porque 2012 taí pra consertar nossos erros de 2011 e confirmar os acertos. 

Vamos usar o ano de 2012 pra amar, viver, realizar, até porque se os Maias acertarem e o mundo acabar pelo menos tudo terá valido a pena. 

E que as retrospectivas sejam sempre histórias com final feliz. 

Porque a história de nossas vidas somos nós que escrevemos, não mudanças de anos. 

Feliz 2012 !! Orun Ayé!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Bissexta - "Os Políticos, Seus Filhos e Uma Novidade"


Nesta quinta feira, último dia útil do ano para muita gente - para mim não é, aproveitando o recesso do Judiciário temos mais uma coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro. O tema de hoje é espinhoso, mas traz um bom exemplo: a dos filhos de políticos.

Vamos ao texto, lembrando que o leitor ainda pode participar das promoções do livro "A Privataria Tucana" e da camisa autografada de Ronaldinho Gaúcho.

Os Políticos, Seus Filhos e Uma Novidade

Do muito que (não) se falou sobre o livro proibido, “Privataria Tucana”, o que mais me impressionou foi a desenvoltura da filha de José Serra, Verônica, para fazer negócios milionários à sombra do pai. 

O curioso é que o livro foi lançado pouco depois da revelação das tramóias de Paulo Henrique Cardoso (filho, ora, vocês sabem de quem), atuando como “laranja” do grupo Disney no Brasil para burlar as restrições da lei de telecomunicações – PHC aparece como dono de uma emissora, que, afinal, pertence à turma do Mickey.

Mas não só os herdeiros tucanos adoram levar vantagem na proximidade com o poder. Lulinha (esse vocês também sabem quem é o pai) arrendava um canal de televisão e vendeu sua empresa por uma pequena fortuna para uma concessionária de serviços públicos. Esperto esse Lulinha, hein?

Roseana Sarney, Clarissa Garotinho, Rodrigo Maia, ACM Neto, é um monte de herdeiros a nos ameaçar por aí. Tem até aqueles que a gente acaba simpatizando, como Brizola Neto [N.do.E.: em quem votei e com excelente trabalho na Câmara de Deputados], Eduardo Campos e, vá lá, Aécio Neves - não posso falar mal de um bon vivant que mesmo governando Minas Gerais fazia questão de morar na Cidade Maravilhosa para não perder o bronzeado.

Bom, esses, pelo menos se candidatam regularmente, nos dão a chance de saber o que eles andam fazendo. Pior são os que agem nos porões do poder e só emergem quando alguém produz uma reportagem bomba, geralmente por encomenda de adversários políticos dos pais.

Olhando para a Presidência da República, vou colocar a minha mão no fogo e garantir que Dilma pode cometer erros terríveis (até agora, praticamente só vejo acertos), mas desse mal a gente está livre até 2014, não haverá herdeiros agindo sorrateiramente 'under the table'.

Curiosamente, vivemos com Dilma uma novidade em sentido oposto, pois sua filha  (acima, à direita na foto junto à esposa do vice presidente Michel Temer) única atua do outro lado do balcão: Paula Rousseff Araujo é membro, já há vários anos, do Ministério Público. Mais precisamente do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Sul

Eu me mudei para Porto Alegre em 2007, bem antes de Dilma ser entronizada como candidata, embora já fosse, óbvio, uma figura de absoluto destaque na esfera federal. Naquela época um advogado amigo, que respondia pelo departamento jurídico de uma grande empresa, dizia que a “filha da Ministra” estava fazendo a empresa comer o pão que o diabo amassou, implicando com contratos de mão-de-obra terceirizada.

Como o rosto da filha de Dilma ainda não se tornara muito conhecido e ela preferia usar o sobrenome do pai – o que fazia todo sentido, pois o ex-marido da Presidenta, hoje aposentado, foi dono de um dos maiores escritórios de Direito do Trabalho do RS e é uma figura conhecidíssima no meio jurídico local – nem todo mundo tinha certeza de que aquela Promotora tinha uma vinculação tão estreita com a então Chefe da Casa Civil.

A posse de Dilma tornou Paula Rousseff Araujo conhecida pelo país inteiro, desfilando em carro aberto com a Presidenta e volta e meia aparecendo com o filho no colo.

Como eu não atuo diretamente na área, pensei que Paula tivesse sido transferida para Brasília depois que a mãe foi empossada. Nada mais razoável, natural e compreensível. Semana passada, em uma dessas tantas festas comemorativas de fim de ano, jantei com advogados que a conhecem e descobri que a filha da Presidenta simplesmente não quis ir para Brasília, nem tampouco mudar suas funções.

Continua lá, dando expediente no Ministério Público, parece que segue comandando suas investigações, cuidando dos seus processos. Só não dá para dizer que sua rotina não mudou porque a lei obriga que os parentes diretos da Presidenta sejam permanentemente monitorados por seguranças. Um desses conhecidos em comum me contou que um dia teve a brilhante ideia de ir jantar com Paula e seu marido e o restaurante simplesmente parou, tamanho era o aparato de segurança envolvido.

Confesso que, para meu gosto pessoal, teria sido mais adequada a transferência ou o remanejamento interno. Uma empresa que já tenha recebido uma notificação do Ministério Público sabe já é grave por si só, os fatos ali questionados normalmente estão no topo das contingências jurídicas a enfrentar. Quando essa notificação vem assinada pela filha da Presidenta da República o constrangimento só aumenta.

Mas deixa isso para lá, é só uma implicância de advogado, sempre aflito com os problemas de seus clientes. O importante é que o exemplo de Paula Rousseff é edificante. Tomara que seja seguido pelos filhos dos próximos presidentes.

Concluo desejando um feliz ano novo aos leitores e nos vemos na semana que vem, já em 2012.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

História & Outros Assuntos - "O Espetáculo mais Triste da Terra: o incêndio do Gran Circo Norte-Americano"


Nesta última quarta feira do ano, mais uma edição da coluna "História & Outros Assuntos", escrita pelo Mestre em História Fabrício Gomes. O tema de hoje é uma das maiores tragédias da história do hoje estado do Rio de Janeiro, e que geraria o personagem "Gentileza".

E lembro que as promoções continuam, no post de baixo.

"O Espetáculo mais Triste da Terra: o incêndio do Gran Circo Norte-Americano"

Dia 17 de dezembro de 1961. 14h30 da tarde. Céu azul, calor senegalês, sol à pino.

Há exatamente 50 anos, o Gran Circo Norte-Americano preparava-se para apresentar seu espetáculo de matinê. Cerca de três mil pessoas aguardam o início do espetáculo. Lá fora, há pessoas na fila, que não conseguiram comprar ingressos. Algumas voltam desoladas para casa. Outras arrumam um jeito de entrar mesmo assim. Algumas pessoas se atrasam e não conseguem chegar a tempo. Outras simplesmente pressentiam que não seria recomendável ir ao circo naquele dia e desistiram de ir. O cenário estava armado para uma grande apresentação da companhia de circo, que pertencia a Danilo Stevanovich.

Estava.

Já perto do final da sessão, durante a exibição dos trapezistas, surgiu o alerta de fogo. O estopim para que uma grande massa de espectadores se aglomerasse e tentasse sair a todo custo. Não havia saída de emergência. Havia apenas uma saída - por onde o público havia entrado no circo. Uma lona quente, feita à base de parafina (material inflamável) entrara em contato com o sol. Não havia extintores e as condições dos circuitos elétricos era precária. Mesmo assim, o circo foi liberado para funcionamento. Cerca de quinhentos mortos e aproximadamente mil feridos - entre queimaduras de terceiro grau em mais de 20% do corpo e queimaduras superficiais, segundo estimativa oficial da Prefeitura de Niterói. Muitos padeceram, depois, de seríssimos problemas respiratórios. Crônica de uma tragédia anunciada?

Possivelmente.

Mais do que contar a história de uma tragédia que abalou não somente a cidade de Niterói (então capital fluminense), "O Espetáculo mais triste da Terra -  o incêndio do Gran Circo Norte-Americano", do jornalista Mauro Ventura (318 páginas, Companhia das Letras), traça um painel investigativo, com base em entrevistas e depoimentos pessoais, e farta documentação da época (jornais, revistas) sobre o incêndio que até hoje provoca sentimentos de memória e amnésia traumática (esquecimento compulsório) na maioria dos cidadãos niteroienses que viviam naquela época.

O incêndio que matou centenas de pessoas foi o trampolim que impulsionou a cirurgia plástica no Brasil, capitaneada pelo médico Ivo Pitanguy - que esteve à frente de centenas de intervenções cirúrgicas que atenderam a feridos daquele incêndio.  Interpretado pelo poeta Augusto Frederico Schmidt - autor dos discursos do ex-presidente Juscelino Kubitschek e inventor do slogan "50 anos em 5" - como um sinal da decadência moral do planeta, o trágico evento circense também é tido, por autoridades espirituais, como um resgate de uma época mais antiga ainda: remete ao ano 177 d.C., à cidade de Lyon, na região da Gália, quando espetáculos eram oferecidos a autoridades que visitavam a cidade.

Em uma das ocasiões centenas de mulheres e crianças foram oferecidas aos leões (recém-chegados da África), para saudar a visita de Lucio Galo, famoso cabo de guerra que visitava a cidade. Logo, a interpretação espírita seria a de que os mortos do Gran Circo estariam resgatando dívidas passadas.

Coincidência ou não, o principal hospital de Niterói atualmente - o Hospital Universitário Antonio Pedro (HUAP), que na época era um hospital municipal - estava fechado, em greve e tomado por estudantes universitários, que reivindicavam melhores condições de trabalho para os médicos e a reposição de salários atrasados dos servidores, justamente no momento da tragédia. O hospital vinha fechado há meses e o impasse continuava até então. Foi necessário que acontecesse o incêndio do circo para que as três esferas governamentais - União, Estado e Prefeitura - entrassem em acordo para que o hospital fosse reaberto e investimentos fossem feitos.

O livro também exemplifica as inúmeras ações de solidariedade que imediatamente após a tragédia começaram a acontecer. Doações de sangue, de dinheiro, alimentos, de peles para cirurgias... o mundo se mobilizou e abraçou a causa. Embaixadas se prontificaram - a de Israel foi a primeira, duas horas após o incêndio -, doando o que podiam. Os EUA mandaram estoque de pele pela PanAm. O embaixador Lincoln Gordon interviu imediatamente para a liberação de recursos. O governo da Itália enviou sangue.

O povo brasileiro foi solidário e o presidente João Goulart foi visitar pessoalmente, por duas vezes, as vítimas da catástrofe. O jogo Botafogo x Santos, no dia 03 de janeiro de 1962 teve parte de sua renda revertida em prol das vítimas do incêndio. Mas assim como a solidariedade aconteceu, também ocorreram furtos de pertences das vítimas internadas nos hospitais, alimentos desviados, colchões e aparelhos de ar-condicionado roubados por curiosos e servidores públicos nos hospitais - nada muito diferente do que acontece hoje.

Histórias pessoais se entrecruzam. Utilizando-se da História Oral -  amplamente utilizada pelo autor - emergem relatos de alegria (pelo alívio de se ter sobrevivido) e dor (pela perda de entes queridos). Famílias desfeitas, destinos interrompidos. Demonstrações de afeto, carinho, voluntariado - como o de Maria Pérola, professora e líder dos escoteiros, que não arredou pé do HUAP um só dia entretendo crianças desenganadas.


Solidariedade e engajamento de José Datrino, um comerciante e dono de uma pequena transportadora em Guadalupe, subúrbio do Rio, que já previra, tempos antes, que seria chamado para uma missão especial: confortar parentes de pessoas mortas no incêndio. O nome Datrino corresponde à Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) e que algum tempo depois seria conhecido como "Profeta Gentileza". 

O autor do livro desmente a informação que logo caiu no senso comum, de que Gentileza tinha perdido toda a família no incêndio do circo - fato que não corresponde à verdade. A família de Gentileza acompanhou sua conversão à prática do Bem. Ele nos convida a uma parada no modo de vida que nos entrechoca, na compulsão urbana que nos fragmenta.

A cidade de Niterói, cenário do livro, protagonizou cenas de horror com o incêndio do circo. Meses antes, já havia perdido seu prefeito - Roberto Silveira, para muitos, possível candidato à Presidência da República no futuro. E ano passado, foi palco de mais uma tragédia: o soterramento de moradores do Morro do Bumba. Acaso ou destino?

Por fim, a investigação que Mauro Ventura faz, aponta indícios variados. Mostra a imediata culpabilização de Adilson Marcelino Alves - o Dequinha, principal suspeito. Mas não descarta, com base em depoimentos de personagens presentes naquela tarde, que possíveis acidentes podem ter contribuído para que as chamas lambessem a lona do Gran Circo Norte-Americano e causassem a morte de centenas de inocentes.

Mais do que contar uma história, "O Espetáculo mais Triste da Terra" é o relato de micro histórias de solidariedade e de doação. Vidas que convergem e se alinham diante do inesperado. Uma grande lição de vida e ao mesmo tempo, um alerta para que tragédias não se repitam.

Assistam o trailer de divulgação do livro aqui:

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Promoção - Camisa Autografada do Flamengo (Ronaldinho)


E o Ouro de Tolo termina o ano com um grande presente para os leitores. 

Por cortesia de um amigo, que não se identifica, faremos o sorteio de uma camisa do Flamengo autografada por Ronaldinho Gaúcho. É um modelo utilizado nas finais do Estadual, com o número 10, tamanho G e o nome dele nas costas da camisa.


Para participar é simples: basta deixar na área de comentários nome, cidade, e-mail e um post que tenha gostado deste Ouro de Tolo. Aqueles que são meus seguidores no Twitter também concorrerão a um exemplar autografado do livro "1981 - o Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas", de autoria de Maurício Neves e que trata do mágico ano rubro negro de 1981. Para me seguir basta clicar aqui.


Como um presente de Ano Novo, divulgarei os premiados domingo, dia primeiro. Também divulgarei os ganhadores do livro "A Privataria Tucana". O leitor pode participar aqui da promoção.

Boa Sorte!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Cansaço


Lutar, se a derrota é evidente
Inimigo inalcançável somente
Esforço exigido opressivo
Resultado torna depressivo
Vontade opõe exigência
Escondida alma carente
Pessoal característica anulada
Desgaste racional cavalgada

Frustrante sentir-se impotente
Máquina autômata inconsciente
Limite quadrado estreito
Amargo momento peito
Lição imposta perfeita
Doçura sempre contrafeita
Prazer sempre proibido
Falar eterno coibido

Pensar com a cabeça alheia
Estéril diária semeia
Tornado idiota imenso
Cérebro congelado eterno
Tarefa resume a obedecer
Nada vale saber
Nada vale própria iniciativa
Liberdade nunca diretiva...

Bissexta - "CNJ, no Olho do Furacão, a Troco de Nada"


Nesta segunda, início da semana derradeira do ano - para folga de muita gente, de trabalho a todo vapor para mim - temos mais uma edição da coluna "Bissexta", do advogado Walter Monteiro.

O tema de hoje é o recente entrevero entre o Conselho Nacional de Justiça e a Associação dos Magistrados Brasileiros envolvendo a investigação dos atos de conduta dos magistrados. Em minha visão leiga a impressão que tenho é que o objetivo da ação é dificultar a investigação de eventuais atos irregulares dos mesmos, tornando-os, na prática, inimputáveis - ainda mais com o ferrenho corporativismo existente na instituição.

O colunista, com a visão técnica, possui uma opinião diferente. Lembro, apenas, que políticos e ocupantes de cargos de confiança em estatais são obrigados a entregar ao TCU as declarações de renda e de bens, bem como determinados níveis de magistratura.

Vamos ao texto.

CNJ, no Olho do Furacão, a Troco de Nada

Não tenho muita paciência para a tediosa programação da TV Justiça, mas algumas semanas atrás acabei assistindo uns trechos de um julgamento do STF envolvendo um processo movido por uma associação de magistrados contra uma resolução do CNJ - Conselho Nacional de Justiça, que dizia respeito à normatização de procedimentos para realização de atos judiciais eletrônicos em convênio com o Banco Central. Um assunto chatíssimo, que só interessa aos muito enfronhados no dia-a-dia forense, por isso vou poupar os leitores do tema em si. Basta dizer que o Supremo, por ampla maioria, deu razão ao CNJ. 

O que me chamou a atenção foi que lá pelas tantas os Ministros começaram a debater a suspeita de que o CNJ teria quebrado o sigilo bancário de dezenas de milhares de juízes de uma só tacada. Lógico que eu pensei que era intriga, nunca que o CNJ iria sair abrindo as contas de toda a magistratura nacional. 

O resto da história é pública. 

Este fim de ano no Judiciário está animadíssimo, porque o STF concedeu uma liminar restringindo o poder do CNJ de investigar juízes e as associações de magistrados, em conjunto, estão enfurecidas com a Corregedora do CNJ, Ministra Eliana Calmon (foto), eleita pelo imaginário popular como a heroína do momento, aquela que vai nos salvar das garras desses bandidos de toga, para usar uma expressão dela própria. 

[N.do.E.: quem leu as duas resenhas que escrevi aqui de livros sobre o Judiciário do Esprito Santo e as estripulias de um Ministro do STF em Diamantina, no Mato Grosso, tem fortes razões para suspeitar que existem sim bandidos de toga. Não devem ser os únicos.]

Só não consegui saber, até agora, se o sigilo bancário foi quebrado ou não. Confesso que as festividades do período afetaram minha tolerância com as minúcias do noticiário nacional. Só consegui descobrir que a Corregedora pediu informações sobre as movimentações financeiras de 216 mil (!) servidores do Judiciário e teria identificado mais de três mil transações “atípicas”. 

Os juízes, reconheço, não gozam lá de muita simpatia entre a população em geral. Eu, que sou obrigado a conviver com eles, devo ressaltar que o elevado corporativismo de suas entidades representativas e uma postura quase sempre antipática em relação a todos os que não vestem toga (e especialmente aos pobres advogados, como eu) contribuem sobremaneira para essa ampla rejeição.

Nesse caso, porém, me parece que a magistratura está coberta de razão e Sua Excelência, a digna Corregedora, redondamente enganada quanto ao que se espera do CNJ, que é a nossa forma de controle externo do Judiciário.

Foi muito difícil construir o consenso que resultou na criação do CNJ. A magistratura nacional sempre resistiu com unhas e dentes a qualquer tentativa de controle de suas atividades, valendo-se de sofismas, falácias e ameaças para se manter enclausurada em seus palácios (desculpem-me, mas não conheço outro termo mais apropriado para rotular as suntuosas instalações do Judiciário país afora). 

Afinal, para que serve o CNJ? Segundo a Constituição, o órgão existe para o controle da atuação administrativa e financeira do Poder Judiciário e dos deveres funcionais dos juízes. 

Antes do CNJ eram corriqueiros abusos de toda sorte espalhados pelos tribunais brasileiros. Nepotismo, falta de transparência, salários abusivos e inconstitucionais, concursos duvidosos, justiça morosa... Tinha de tudo um pouco. Bom, esses males não foram extirpados como um todo, mas é inegável que melhoraram bastante.

Além disso, há uma preocupação constante com o estabelecimento de metas para a produtividade dos juízes, com a normatização de procedimentos (como aquele que mencionei vagamente na introdução), com o aperfeiçoamento de métodos de gestão, com a cobrança de mais transparência e com a vedação de práticas abusivas.

É para isso que o CNJ nasceu. Para dar ao Judiciário uma cara mais parecida com qualquer outro ambiente de trabalho. Para cuidar de políticas e metas. 

Acho um equívoco brutal transformar o CNJ em um tribunal inquisitivo de alegados maus feitos de juízes, alguns, inclusive, de primeira instância. O CNJ cuida do “macro”, não de questões individuais. É óbvio que pode – e deve – atuar quando há desvios notórios, mas não essa não pode ser a sua essência. 

E analisar, de uma só tacada, as movimentações financeiras de duzentas e tantas mil pessoas é uma tarefa insana, ineficaz e que não poderia dar em outra coisa senão atrair a ira dos investigados. Não se lançam suspeitas indiscriminadas, não se pedem explicações sem fatos concretos ou ao menos indícios, não se coloca em risco a credibilidade de um Poder inteiro.

Se há elementos que permitam cogitar que Fulano ou Beltrano andaram prevaricando, sigam em frente e investiguem as respectivas vossas excelências. Isso é bem diferente de pedir explicações no atacado. E mais grave ainda é insinuar acusações nas entrelinhas, como dizer que praticamente a metade dos juízes de São Paulo não apresentou declaração de imposto de renda.

Aliás, essa história da falta de declaração do imposto de renda de 45% dos juízes paulistas me deixou com a pulga atrás da orelha... 

Primeiro, os juízes, por força do alto salário, têm direito a uma restituição anual fabulosa – por que raios abririam mão dela? Segundo, como a Corregedora soube disso? Foi a Receita Federal quem informou? Cruzou os dados com o relatório do Coaf? Se for, o caso é ainda mais grave: estão, todos, mais do que investigados, sendo auditados com lupa, de forma absolutamente sigilosa, sem que lhes seja dado sequer o direito de se defender. 

Eu sei lá, viu? 

Já disse a vocês que eu sou preconceituoso com algumas coisas? Pois é, eu até hoje tenho raiva da Marília Pera por conta de umas bobagens que ela andou falando na campanha eleitoral de 1989. 22 anos e a minha raiva dela não passou, vejam só. 

Reconheço, é horrível julgar as pessoas por uma palavra mal dita, um errinho do passado, uma coisa qualquer fora do lugar. Mas eu sou assim mesmo, não adianta. 

Deve ser por isso que quando a maioria dos meus amigos está aí batendo palmas e saudando a Ministra Corregedora como a nova expressão da reserva moral do país, eu só consigo me lembrar que ela chegou ao STJ sob as mãos e as bençãos de ACM. 

Então eu me dou ao direito de duvidar de suas boas intenções e de lembrar que, mais importante que punir este ou aquele juiz, é preciso manter o prestígio do CNJ como uma espécie de, digamos, “agência reguladora” do Judiciário, com a firmeza necessária para controlar as práticas coletivas, não os desvios individuais.