terça-feira, 31 de julho de 2012

Olímpicas


Eis que começaram os Jogos Olímpicos, finalmente, na última semana.

Como não estou de férias, não estou podendo acompanhar ao vivo muitas competições. Apesar do sensacional aplicativo do site Terra para Android, que quebra um galho razoável – a qualidade de vídeo é muito boa – não dá para ficar pendurado em horário de trabalho assistindo às competições pelo celular: no máximo uma “paquerada” rapidíssima ou outra, e ainda assim tenho de sair da minha baia para tal.

Por outro lado, no último final de semana estava fora do Rio de Janeiro e não tinha televisão a cabo. Assisti a alguma coisa pela Record e dentro das limitações de uma TV aberta achei bastante satisfatório o trabalho.

Vale lembrar que especialmente durante a semana, o horário diurno tem um público majoritariamente feminino, que não necessariamente está interessado em assistir aos Jogos Olímpicos o tempo todo. Por isso que a meu juízo faz sentido focar a transmissão nos esportes coletivos onde o Brasil está presente e em individuais como a ginástica artística, que tendem a chamar mais a atenção deste público majoritário.

Não pense o leitor que a Globo faria muito diferente se tivesse os direitos de transmissão. Seria bastante parecido. Aliás, a se lamentar o quase boicote da emissora à competição, dentro do espírito de que “se eu não transmito, não existe” disseminado por ela. Este é um bom exemplo do que afirmei aqui algumas vezes, de que o jornalístico está subordinado ao comercial.

O papel de transmitir os jogos em sua totalidade cabe aos canais a cabo especializados, e dentro de minha amostra SporTv, ESPN e Band Sports estão fazendo sua tarefa a contento.

Obviamente com erros e imprecisões aqui e ali, mas lembrem-se os leitores que a metade dos esportes olímpicos, pelo menos, não é transmitida com regularidade fora do momento olímpico. Que eu me lembre de cabeça, esgrima, tiro com arco, pentatlo moderno, taekwondo, levantamento de peso, hóquei sobre a grama, badminton, canoagem, luta olímpica, tênis de mesa, tiro e vela somente são transmitidos nas Olimpíadas. Outros esportes como o ciclismo e o handebol tem acompanhamento restrito.

Com isso, ainda que aqui e ali se tenham convidados especialmente para estes esportes no evento, imprecisões e erros são perfeitamente esperados, por mais que se pesquise. E ainda temos de levar em conta que o mesmo narrador muitas vezes acaba de transmitir a competição de esgrima e passa sem intervalo para o concurso completo de equitação. Haja jogo de cintura...

As gafes acabam acontecendo. Pelo menos do que vi e soube nada supera o apresentador do SporTv que chamou o tiro com arco de “tiro com arco e flecha” e disse que o atleta havia dado “trezentas flechadas” no dia de competição preliminar.

Também, como comentei no Twitter, nem tudo é glamour. Que o diga o narrador do SporTv Guto Nejaim, que transmitiu ontem a pelada de vôlei feminino entre os (belos, por sinal) times da Grã Bretanha e da Argélia (foto), a qual acompanhei os dois últimos sets.

O time local não tem a menor tradição no esporte e o time africano vem de um centro de menor desenvolvimento. Resultado: uma partida que pelo nível técnico poderia perfeitamente estar sendo disputada como final de um campeonato colegial pelo Brasil afora. Para os leitores terem uma idéia, no decorrer do tie break que deu a vitória às européias o técnico da seleção argelina durante um dos tempos pedidos ensina a uma das atletas o modo certo de efetuar uma manchete. Isso é básico no esporte...

Quanto ao desempenho brasileiro, no momento em que escrevo parece estar dentro dos prognósticos. Algumas decepções no judô, compensadas por duas medalhas que não estavam como favas contadas, mas no resto as coisas estão indo mais ou menos na linha esperada antes do início das competições.

Me chamou a atenção o péssimo jogo feito agora há pouco pela seleção brasileira de basquete masculina, contra os donos da casa – que tem uma seleção pouco mais que um “catadão” daqueles de pelada de rua. Vi o último quarto e apesar de nossa vitória foi ruim demais.

Vale lembrar que o investimento no esporte brasileiro aumentou significativamente no último ciclo olímpico, mas como é algo de maturação mais longa somente se devem sentir os efeitos em sua plenitude nos jogos que disputaremos em casa. Outra questão é o investimento na prática de base, que melhorou, entretanto precisa evoluir muito mais.

Do pouco que tenho visto e lido outro fator que me chamou a atenção foral alguns erros gritantes das arbitragens como um todo. A meu ver está na hora de se aumentar o uso da tecnologia como auxiliar do julgamento dos esportes.

Também vale mencionar alguns resultados bastante estranhos conseguidos pela China na natação até o momento. Nadadores estão surgindo do nada para ganhar medalhas.

Bom, as impressões inicias são essas. Mas este blog voltará ao tema.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sobre a Crítica


Já abordei este assunto em algumas oportunidades aqui neste blog, mas ainda me impressiona como de uns anos para cá cresceu em nossa sociedade a intolerância à crítica.

A cada dia mais percebo que esta intolerância está aumentando e deixando bastantes restritos os limites da convivência em grupo. Quaisquer mínima discordância ou reparos feitos a atitudes, decisões ou opiniões gera uma torrente de reações despropositadas e em certos casos até extremistas.

Um bom exemplo é o comportamento de fãs de cantores ou bandas voltadas ao público adolescente. Qualquer mínimo reparo que se faça – e normalmente estes grupos não primam por uma boa música, pelo menos em minha opinião – vem uma horda de fãs destes fenômenos desqualificando tudo que se escreve ou fala, em especial na internet.

Vale a lembrança ao leitor que o único post nestes pouco mais de três anos onde tive de fechar a área de comentários foi o que falava do grupo Mamonas Assassinas – e, pior, o post nem era especificamente sobre o grupo...

Isso me leva a escrever sobre outra face deste fenômeno: o analfabetismo cognitivo. A cada dia mais as pessoas lêem não o que está escrito, mas sim o que querem ler (entender). Muitas vezes os formadores de opinião são esculhambados e queimados na fogueira em praça pública não pelo que escreveram ou disseram, mas sim pela leitura transversal e obtusa feita por aqueles que não conseguiram compreender - ou pior: não quiseram.

O que vale é a sua verdade pessoal, que deve ser imposta a ferro e fogo, ainda que na base da gritaria. Respeito à discordância e democracia são vistos como “fraquezas”. Importa mostrar que a sua verdade é a verdade eterna. Importa estar sempre com a razão.

Outra questão é que a tolerância a críticas que visem melhorar determinados aspectos de processos ou situações diminuiu consideravelmente. Em regra geral, criticar o que quer que seja é “estar contra”, é “diminuir a instituição/empresa/pessoa”, é “fazer papel de quinta coluna”. Com isso vemos equívocos gritantes passando absolutamente incólumes, sendo enaltecidos até.

Este é outra faceta: todo mundo adora dar uma de “pedra”, mas detesta “ser vidraça”. Um bom exemplo disto pode-se ver em alguns jornalistas de grandes veículos de imprensa que mantém blogs, entretanto censuram todos os comentários discordantes ou, quando publicam, desqualificam. Criticar adversários políticos ou ainda quem pensa diferente é considerado absolutamente normal – ainda que em diversas ocasiões a opinião resvale fortemente no Código Penal – mas acolher comentários dissonantes é “anti-democrático”.

Parêntese: para a grande mídia, “liberdade de imprensa” e “democracia” são a liberdade de imprensa e a democracia do patrão. Fecha o parêntese.

Ainda mais complicado é quando pessoas em posição de poder não somente se tornam refratários a críticas como ainda se utilizam de seu poder – legítimo ou não – para calar as vozes dissonantes. Isso gera uma onipotência que somente torna mais alto e mais forte o fracasso.

Aliás, espanta-me como no Século XXI ainda ocorrem situações como a ocorrida esta semana, onde a “Carta Capital”, no momento em que escrevo, simplesmente não chegou às bancas de Minas Gerais. A matéria de capa traz algumas denúncias de que políticos tucanos teriam se beneficiado dos repasses de Marcos Valério. Pretendo voltar ao tema.

Obviamente que situações de calúnia ou injúria devem ser reparadas conforme preza o Código Penal. Entretanto, há muita confusão sobre o que realmente é calúnia ou injúria e o que é opinião pura e simples – os limites, a meu ver, estão bem mais estreitos.

Adicionalmente, ao contrário do que os teóricos esperavam, a internet democratizou sim o acesso à informação, mas não contribuiu para a disseminação do necessário contraditório. Como reflexo da sociedade, somente aumentou a intolerância.

A frase atribuída a Voltaire de que “Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo" está infelizmente anacrônica em nosso dia a dia. O que vale é impor o seu posicionamento.

Este comportamento, também, faz proliferarem os quinta colunas, os pelegos, que vivem maldizendo os outros e vivendo de migalhas de atenção dos que possuem algum tipo de pequeno ou grande poder – muitas vezes irreal.

Sou de um tempo onde a figura do “dedo duro” era execrada, mas percebo que hoje começa a haver uma mudança neste senso comum: mais importante que qualquer coisa é um pretenso “respeito” aos detentores de grandes e pequenos poderes – e para isso vale tudo.

A convivência em sociedade seria muito mais estimulante se todos entendessem que a crítica e especialmente a discordância de opiniões não necessariamente significam a tentativa de destruir pessoas, grupos ou instituições. Ao contrário, para se usar o idioma do “gestonês” são oportunidades de melhoria que devem ser ouvidas e aproveitadas de acordo com a conveniência.

Também se adquire muito conhecimento e riqueza de personalidade ao ouvir opiniões contrárias, absorver conhecimentos de que não se dispõe e buscar conciliar, não impor. Criticar de forma respeitosa e buscando alternativas é extremamente salutar ao desenvolvimento pessoal e de instituições nacionais.

Finalizando, reafirmo este espaço como um blog democrático, onde todos os colunistas e leitores tem total liberdade de expor as suas opiniões – dentro do determinado pelo Código Penal Brasileiro.

É isso aí. O recado está dado.

domingo, 29 de julho de 2012

Orun Ayé - "O País Das Novelas"

Na coluna Orun Ayé de hoje, o compositor Aloísio Villar fala um pouco do novo sucesso das telenovelas brasileiras, “Avenida Brasil” – além de ‘cavar’ o samba de sua autoria na União da Ilha.

O País Das Novelas

Sábado dia 21 de julho de 2012, 21 horas.

Normalmente em um horário desses as ruas “bombam” com gente saindo de casa para se divertir. Mas não nesse dia: as ruas estavam desertas.

Quem estava na rua procurava por uma televisão. Em bares, restaurantes e mesmo na rua todos prestavam atenção no que se passava na telinha.

Uma final de campeonato claro...

... Não, não era. Era uma novela.

Todos, homens e mulheres, velhos e crianças se acotovelavam na frente da televisão e se espantavam em redes sociais com a cena em que a personagem Nina da atriz Debora Falabella era enterrada viva por Adriana Esteves, exuberante no papel da vilã Carminha.

A novela se chama Avenida Brasil, escrita por João Emanuel Carneiro, um sucesso de crítica e público.

Mas por que isso ocorre?

João Emanuel Carneiro, ou JEC como é conhecido nas redes sociais, é um escritor moderno. Começou no cinema sendo roteirista de filmes como “Orfeu” e o consagrado “Central do Brasil”. Fez novelas interessantes como “Da cor do pecado” e “Cobras e lagartos” para o horário das 19 horas e então galgado ao horário nobre.

No novo horário escreveu a novela “A favorita” com uma situação diferente do que se espera delas. Até quase metade da novela não se sabia quem era a mocinha e a vilã entre os personagens de Patrícia Pillar e Cláudia Raia.

A novela foi um grande sucesso: o maior dos últimos anos do horário, assim como suas duas das 19 horas se destacaram entre as maiores audiências do horário dos últimos dez anos.

Até que veio Avenida Brasil.

Avenida Brasil tem algumas situações por traz dela. A primeira que a novela é um gênero que parecia cansado. A falta de renovação nos autores e na linguagem fez com que se tornasse repetitiva. Os grandes novelistas como Gilberto Braga, Gloria Perez, Manoel Carlos, Benedito Ruy Barbosa, Silvio de Abreu parecem acomodados, cansados. Já estão consagrados e já ganharam dinheiro suficiente pra viver muito bem.

A última novela foi “Fina Estampa” de Aguinaldo Silva, outro grande nome do gênero. Ele fez uma novela popular, com bons índices de audiência, mas fraca, algumas vezes risível e que não conseguiu agradar.

Aí na reta final dos embates entre as personagens Griselda e Teresa Cristina (respectivamente Lilia Cabral e Christiane Torloni) que algumas vezes lembravam as brigas de dona Florinda e seu Madruga do seriado Chaves começaram as chamadas de Avenida Brasil.

As chamadas já impressionavam. A história de vingança de uma moça que criança foi abandonada em um lixão já despertava a curiosidade do público pela temática diferente. Assim ansiosamente o telespectador esperou o fim de Fina Estampa - que terminou como filme pastelão - esperando a tal novela do lixão.

E João Emanuel Carneiro, considerado por alguns o ‘Paulo Barros’ das novelas, deu uma de Joãosinho Trinta e transformou o lixo em luxo.

Por que essa novela é um sucesso?

Primeiro porque o autor da história consegue colocar nas telas o maior acontecimento nacional da atualidade. Dias Gomes em “Roque Santeiro” mostrou a religião utilizada em fraude e questões políticas. “Vale Tudo”, questões sociais, a falta de limite ético, a corrupção e “Avenida Brasil” mostra a classe C indo ao paraíso: pessoas que subiram na vida vindas da pobreza.

Fora isso, direção irrepreensível, ótima fotografia e atuações espetaculares como de Adriana Esteves, Débora Falabella, José de Abreu, Vera Holtz e Marcelo Novaes entre outros. O autor conseguiu criar uma trama em que a vilã é carismática, a mocinha não é tão mocinha assim e o embate entre as duas já entrou pra história das telenovelas. Carminha e Nina nunca serão esquecidas.

Muita gente torce o nariz para as novelas, tratam como subcultura e alienação. Eu não concordo. Dou minhas rabiscadas e penso que escrever uma novela é mais difícil que escrever um filme ou um livro.

Um livro você escreve com umas duzentas, trezentas páginas, um filme com cento e cinquenta, uma peça de teatro com umas sessenta. Uma novela são cinquenta páginas por dia.

Contando que uma novela tenha mais de duzentos capítulos pode chegar a dez mil páginas!! Imagine você ter que manter uma história com qualidade por dez mil páginas!!

A desvantagem da novela em relação a outras formas de entretenimento é que ela perece. Um livro de Machado de Assis é lido até hoje, como peça de Shakespeare é encenada, “E o vento levou” assistido e Noel Rosa ouvido.

Mas novela quando sai do ar acaba. No máximo depois passa no “vale a pena ver de novo” e agora no “Canal Viva”. Há que ser uma novela boa demais pra sobreviver na lembrança das pessoas e essa parece que vai ficar.

Como algumas ficaram provando que o Brasil é o país das novelas.

Desde “O direito de nascer”, passando por “Beto Rockfeller”, “Irmãos Coragem”, “O bem amado”, “Gabriela”, “Saramandaia”, “O astro”, “Pecado capital”, “Dancing Days”, “Guerra dos Sexos”, “Roque Santeiro”, “Que rei sou eu?”, “Tieta”, “Vale Tudo”, “Barriga de aluguel”,  “Mulheres de areia”, “Renascer”, “A viagem”, “O rei do gado”, “Pantanal”, “Kananga do Japão”, “Xica da Silva”, “A próxima Vítima”, “Terra Nostra” e “A favorita” entre outras..

Agora, “Avenida Brasil”. O brasileiro ama novelas, seus atores, histórias e personagens, não é a toa que será o enredo da São Clemente para o carnaval 2013.

Como disse Carminha e Nina já estão na história da cultura do Brasil assim como algumas falas suas. Isso ocorre mesmo com intelectuais torcendo o nariz achando muitas vezes que novela é coisa para empregada doméstica vendo no quartinho dos fundos. Só que como a própria novela passa, o quartinho dos fundos cresceu e agora assiste novela em tv LCD.

E saiu desses quartinhos ganhando salas, bares e restaurantes como ficou provado sábado. Então caro intelectual que ouvir um “me serve vadia” e não entender: tente descobrir porque falaram.

Porque ignorância não é ter gosto popular, é não entender e nem tentar descobrir o que ocorre a sua volta.

Oi oi oi.

União da Ilha 2013

Como vocês leitores já estão cansados de saber sou compositor de samba-enredo... oh novidade. Ontem começou a disputa na Tom Maior, escola de samba paulistana onde estou concorrendo junto com o Pedro Migão e outros parceiros.

Ontem também começou a disputa na União da Ilha do Governador onde tento o bicampeonato. O Migão postou anteontem letra e áudio do samba, mas claro, faço minha “cavada” e peço para irem até sua postagem ouvir nossa humilde obra.

Foi uma confecção tranquila de samba, com uma parceria muito competente, organizada e me sinto num momento feliz. Já conhecia Vinicius de Moraes. tanto que escrevi uma coluna sobre ele. Mas agora conheço muito mais e posso dizer que estou apaixonado pelo “poetinha”. Que história fantástica, recomendo que todos conheçam mais sobre a vida de um dos maiores brasileiros da história.

A benção, saravá, até um dia. Orun Ayé!

sábado, 28 de julho de 2012

Buraco da Fechadura - "A Ironia do Amor"


Neste sábado, a coluna de contos do compositor Aloísio Villar, “Buraco da Fechadura”, mostra como o amor e a vida, às vezes, podem ser irônicas.

A Ironia do Amor

Rodrigo esta lá no banheiro. No mictório está urinando e pensando na morte da pobre da bezerra quando um bêbado no mictório ao lado diz:

- Não há prazer maior que o de uma mijada!!

Rodrigo, concentrado em seu prazer “urinador”, é retirado do transe por aquela frase e vira-se ao lado perguntando “héin?”.  O bêbado repete:

- Eu falei que não há prazer maior que o de uma mijada quando estamos bem apertados, nem o sexo é tão bom!!

Rodrigo ouviu a frase e com um sorriso no canto da boca ironizou:

- Olhe meu senhor, das duas uma: ou eu não sei mijar ou o senhor não sabe foder.

O bêbado limitou-se a botar sua mão no ombro de Rodrigo, mão que segurou seu pênis até o momento da balançada e disse com voz cavernosa:

- Tem mijadas que são santas, amigo...

Disse e saiu do banheiro com Rodrigo olhando o espelho tentando entender aquele papo e fazendo cara de nojo porque o bêbado lhe tocou sem lavar as mãos.

Voltou ao salão, estava em um restaurante. No salão esperando pelo rapaz estavam seus pais e Marcela, sua namorada - que naquela noite viraria noiva.

Com a volta de Rodrigo à mesa seu pai, o doutor Eliocárpio, famoso advogado criminalista do Rio de Janeiro resolveu puxar um brinde pela união de Rodrigo e Marcela.

O casal se conhecera na faculdade. Rodrigo acabara de se formar em direito por livre e espontânea pressão do pai e Marcela estava no último ano. A moça vinha de uma família rica do Mato Grosso e Eliocárpio fazia muito bons olhos ao enlace.

Junto a Rodrigo, Marcela e os familiares estava Alexandre, melhor amigo de Rodrigo e foi esse que lembrou a Eliocárpio do brinde. O homem exultante levantou, ajeitou a calça e fez discurso.

- Estamos todos aqui emocionados para celebrar o enlace desse querido e jovem casal, hoje se tornam noivos e futuramente constituirão família e me darão netos. Marcela, Rodrigo, desejo tudo de melhor para vocês e que possamos logo conhecer seus adoráveis pais, Marcela!!

Eliocárpio queria era conhecer a grana dos fazendeiros mato-grossenses.

Enquanto brindavam o bêbado passou e gritou “viva a mijada!!”.

De volta à casa Eliocárpio e Santelma, a mãe de Rodrigo, conversavam na cama sobre o noivado. Santelma achava precipitada a união de um casal tão jovem: achava que Rodrigo tinha muito ainda a viver enquanto Eliocárpio respondia que seria bom para a família, os negócios - e especialmente para manter a moralidade em casa sem que Rodrigo caísse em tentação.

Eliocárpio era um homem que preservava muito a moral e os bons costumes. Falava sempre no valor da família e acordava cedo todos os domingos para ir a missa.

Mas isso era da boca pra fora: ele esperava a esposa dormir e ia ao quarto da empregada. Dava três batidinhas na porta e a morena sensual abria sabendo que era o patrão. Dava um sorriso e Eliocárpio logo se empolgava e apertava a cintura da doméstica que sempre se esquivava e lamentava faltar alguma coisa em casa.

Naquela noite ela disse que estava sem cabeça para “brincar” com o patrão, pois seu filho estava doido por um tênis novo, de marca, mas ela não tinha dinheiro para comprar. Eliocárpio se ajoelhava e com o rosto nas pernas da empregada respondia que pagava, tinha dinheiro e bancava tudo perguntando quanto ela precisava.

Ela respondia com carinha de choro e rapidamente o homem levantava e pegava na sala talão de cheques para preencher e entregar a doméstica, que sorrindo falava que o patrão era tão generoso que merecia “até aquilo”.

Esse “até aquilo” que enlouquecia Eliocárpio. Ela conseguia tudo dele.

A vida sexual de Eliocárpio era agitada, de Rodrigo nem tanto. O rapaz passava um drama com Marcela.

Os amassos aumentavam na sala da casa, os dois sentados no sofá e quando Rodrigo tentava tocar os seios de Marcela ela respondia “só casando”.

Rodrigo se desesperava e tentava argumentar que já eram noivos e podiam avançar um pouco o sinal. Mas Marcela relutava: insistia que casaria virgem e nem os argumentos de que namoravam há três anos e se casariam em breve sensibilizavam.

Marcela naquela tarde foi embora irritada com a insistência de Rodrigo e abriu a porta para ir embora sem nem responder ao cumprimento de Alexandre que chegava. A moça bateu a porta com força e Alexandre perguntou ao amigo o que ocorria.

Rodrigo contou ao amigo seu drama e Alexandre espantado exclamou “Três anos e nada? Sua mão deve estar cheia de calos!!”. Rodrigo olhou as mãos e lamentou seu infortúnio quando Alexandre convidou o amigo a ir a uma boate de noite.

Rodrigo espantou-se e respondeu que não iria, pois, era fiel. Alexandre levantou-se da cadeira que estava sentado e perguntou “Fiel a quê?”.

Rodrigo respondeu que a sua noiva e Alexandre contra atacou argumentando que aquilo era uma bobagem, homem não nasceu para ser fiel e que tanto tempo sem transar poderia fazer mal ao amigo, subir à cabeça e lhe provocar debilidade mental.

Olhou firme para o amigo e perguntou se ele queria ser doente mental. Rodrigo espantado respondeu que não e Alexandre marcou para oito horas o encontro dos dois e que passaria lá para buscá-lo.

Antes de sair ainda disse:

- Precisa nem transar se não quiser. 

Às oito horas Alexandre estava lá e buscou Rodrigo. Foram até um inferninho de Copacabana e entraram.

Rodrigo, criado dentro de rígidos padrões de conduta, nunca entrara em um local como aquele e se assustou ao ver aquelas mulheres com roupas vulgares e aqueles homens cheirando bebida barata... Alexandre notou a timidez do amigo e mandou que ele relaxasse - porque estava na Disneylândia do sexo.

Rodrigo se sentou e ao lado de Alexandre viu homens sujos, feios, velhos chegando para conversar com mulheres jovens que poderiam ser suas netas e de repente os dois saírem do local. Alexandre repetia que toda prostituta era uma santa não canonizada enquanto Rodrigo só pensava em ir embora.

Até que..

... Até que ele reparou em uma ruiva linda, cara de triste sentada em um canto do salão. Rodrigo começou a prestar atenção na menina, não tirava os olhos dela quando a ruiva levantou e se encaminhou a um ferro para fazer pole dance.

Naquele instante ela não tinha mais apenas a atenção de Rodrigo, mas de todos. Uma música sensual começou a ser tocada e ela dançar no ferro. Foi tirando peça por peça da roupa até ficar completamente nua. Rodrigo naquele momento já estava enfeitiçado, ele queria aquela mulher.

Ela se retirou e foi ao banheiro. Rodrigo levantou sem nem ouvir Alexandre perguntando aonde ele ia e foi atrás. Esperou na porta do banheiro até que ela saísse e quando a jovem saiu Rodrigo disse “preciso de você”. Ela não se fez de rogada e respondeu “cem reais”, Rodrigo pegou a carteira e falou “dou duzentos”.

Pegou a mulher pelo braço e passou pelo salão. Alexandre perguntou aonde ele iria e Rodrigo respondeu que não lhe esperasse.

Passou a noite com ela. Transaram muito e depois conversaram, criando uma intimidade perigosa. Descobriu que seu nome era Milena, tinha vinte anos e trabalhava nisso há pouco tempo.

Rodrigo estava de quatro.

Chegou de manhã em casa encontrando Eliocárpio e Santelma sem dormir esperando por ele. O pai esbravejou perguntando onde ele estava, mas Rodrigo não lhe deu ouvidos apenas respondendo que estava cansado e iria deitar.

Deitou e sonhou com Milena.

De noite voltou ao inferninho para ver a prostituta e foi assim noite após noite. Rodrigo conhecera o “poder da xana” e estava completamente apaixonado pela prostituta.

Uma noite chegou no inferninho e perguntou se ela queria morar com ele. Milena espantada perguntou que brincadeira era aquela e o rapaz respondeu que não era brincadeira, era sério e perguntou novamente se ela queria.

Milena topou.

Negócio agora era enfrentar aos pais e Marcela. Comunicou aos pais a situação e Eliocárpio não se conformou. Teve uma violenta discussão com o filho e o expulsou de casa.

Rodrigo tinha umas economias e conseguiu também com a ajuda da mãe alugar um pequeno apartamento. Rapidamente arrumou um emprego num pequeno escritório de advocacia e assim sustentar a ele e Milena.

Milena largou a prostituição e começou a cuidar do lar. Rodrigo e Milena eram um casal feliz e o rapaz tinha cada vez mais certeza de ter tomado a decisão certa. Sentia saudade de seus pais, queria fazer as pazes com seu pai, mas se o preço de viver um grande amor era esse estava disposto a pagar.

Os anos passaram e a situação financeira do casal melhorou a ponto de planejarem ter filhos. A vida estava cor de rosa, mas ganhou tons escuros.

Um dia Rodrigo recebeu uma carta anônima nela estava escrito que Milena o traía. O mundo de Rodrigo caía naquele instante. Até ali ele nunca desconfiara da esposa, mas a partir daquele momento desconfiava até da sombra.

Nada pior para um homem que suspeitar que outro homem toca sua mulher. A dor do corno é pior quando há dúvidas que certeza.

Rodrigo não agüentou e comunicou a Milena que viajaria no final de semana a trabalho e só voltaria segunda. Mentira, ele queria dar flagrante.

Rodrigo saiu de casa e foi até uma padaria. Pediu uma média com pão e manteiga e esperou por duas horas e voltou pra casa. Abriu a porta devagar para que ninguém ouvisse e se encaminhou ao quarto abrindo a porta de uma vez só.

Ao abrir a porta, o impacto.

Rodrigo deu de cara com Milena e Alexandre peladões na cama. Alexandre, seu melhor amigo!

Ele ainda levantou e tentou argumentar que não era nada daquilo que Rodrigo pensava, mas o rapaz nem quis saber. Sacou uma arma e descarregou o revolver nos dois.

Rodrigo foi preso em flagrante e na sala da delegacia, esperando o advogado, pensou na merda que se metera, em como tinha mudado toda sua vida, jogado tudo pro alto por causa daquela mulher e ela pagara daquela forma: com traição.

De cabeça baixa, olhando para a mesa, nem percebeu quando o advogado entrou, nem percebeu que não era advogado e sim advogada.

Ela disse “Rodrigo” ele levantou a cabeça espantado: era Marcela, sua ex noiva.

Rodrigo levanta e fica frente a frente com Marcela. Os dois se olham por uns segundos até ela dar um violento tapa em seu rosto.

O rosto de Rodrigo vira com o impacto do tapa. Ele volta a olhar para Marcela, que joga uma calcinha em seu rosto e o empurra pra mesa dizendo..

- Cala a boca e me come que só temos cinco minutos.

É... A vida tem dessas coisas, amigos.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Final de Semana - "Dois Sambas Concorrentes"



Nossa faixa musical de hoje fala de um processo que está se iniciando na maioria das grandes escolas do Rio: a disputa de sambas.

Para o leitor menos familiarizado, significa um concurso onde um número variável de sambas se inscreve e ao final do processo um deles é escolhido para ser o “hino oficial” da agremiação no desfile.

Também é, como uma vez escreveu o colunista Aloísio Villar, a temporada de migração dos “pombos”. Pombos são composições onde os verdadeiros autores não assinam os sambas por estarem em outras escolas, ou por concorrerem em várias agremiações. A Portela, por exemplo, tem alguns facilmente reconhecíveis como tal.

Nossa faixa musical traz dois sambas. O primeiro (acima, o áudio) é o da parceria atual campeã na Portela, de Wanderley Monteiro, Luis Carlos Máximo, Toninho Nascimento e Andre do Posto Sete.

Os compositores conseguiram algo impensável: fizeram um samba ainda melhor que o de 2012, vencedor de todos os prêmios possíveis do carnaval carioca e ganhador de todas as notas máximas no julgamento. É antológico, com melodia remetendo a pontos de “curimba” na parte em que fala da Freguesia de Irajá e depois lembra o partido alto de Madureira. Genial e antológico.

Ou seja, o leitor já deve ter percebido que estarei pelo segundo ano seguido torcendo por esta parceria. Obviamente que a quadra conta muito na disputa e há pelo menos outros dois bons sambas, mas a minha avaliação é de que este é muito superior aos demais.

Abaixo, a letra:

Portela 2013 - “Madureira... onde o meu coração se deixou levar”

Autores: Wanderley Monteiro, Luiz Carlos Máximo, Toninho Nascimento e André do Posto 7.

E lá vou eu cantando com a minha viola
O amor tem seus mistérios
Por onde me deixo levar
Laiá
Nossa história começa por lá
No engenho da fazenda
Dos cantos de “canaviá”

Bate o sino da capela                       (bis)
Ôi... Que é dia de santo, sinhá
  
Tem mironga de jongueiro
O tambor me chamou pra dançar          (bis)

Tempo rodou na roda do trem e veio
A inspiração do partideiro
Que versou no mercadão
Foi nesse chão
Que a estrela brilhou no tablado
O “madura” pisou no gramado
O malandro charmoso dançou
No pagode com outro gingado
Quando o bloco chegou
Agitou o suingue do black
E a nega baiana girou

Cai na folia, sem grilo, meu bem vem na fé
Na ilusão da fantasia                                                (bis)
Vai como pode e quem quer

Surgiu a serrinha imperial
Em outros caminhos para o mesmo ritual
Portela, meu orgulho suburbano
Traz os poetas soberanos nesse trem para cantar
Que Madureira é muito mais do que um lugar
É a capital de um sonho que me faz sambar

Abre a roda, chegou Madureira
A poeira já vai levantar                                (bis)
O batuque ginga ioiô (bis)
Ginga Iaiá



Nosso segundo samba de hoje, com o qual este blogueiro também “fecha”, é o da parceria do colunista Aloísio Villar para a União da Ilha (acima, o áudio). A composição captou o espírito da sinopse, em um meio termo entre o alegre e o afro. Ótimo samba.

Vamos à letra:

G.R.E.S.UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR
Presidente Ney Fillardi
Carnavalesco: Alex de Souza
Enredo: Vinicius no plural – Paixão, poesia e carnaval
Compositores: Bicudo, Aloisio Villar, Cadinho da Ilha, Roger Linhares, Fabiano Fernandes e Alessandro Alconforado
Intérpretes: Roger Linhares, Cadinho da Ilha, Flávio Martins e Anderson Miranda

No balanço do mar eu vou
Salve a Ilha do Governador, sou menino sonhador
Pros versos da vida a folha em branco me chamou
Oh pátria minha, pobrinha, um dia
Teu nome há de ser felicidade
Teatro, cinema, o morro de Orfeu
Ilusão, realidade
A nossa bossa é a nova bossa da cidade        

Atotô Abaluayê, Atotô Babá, salve Iemanjá              (REFRÃO)
Xangô é meu guia
Ossanha alumia, sob o manto de Oxalá

Hoje tem arrastão
Leva a jangada pro mar
Ao Sol que arde em meu corpo
Vou vadiar
Minha musa é carioca, caminhando toda prosa
A coisa mais linda que já vi passar
Aos tempos de menino vou voltar
Lá vem a criançada toda animada
Brincar com a bicharada lá na arca de Noé
Com minhas canções, despertei paixões
O som da melodia ao céu me levou
Sou poeta inspirado pelo amor

Cai a noite, vem a Lua
Vinicius nosso palco é na rua     (refrão)
A Ilha é poesia
A benção, saravá até um dia

Este ano teremos uma novidade no Ouro de Tolo: o blog estará acompanhando “in loco” a disputa de sambas da Portela. Teremos aqui vídeos e áudios das apresentações à medida em que forem se desenrolando.

Made in USA - "Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II"


Nesta sexta feira, temos a segunda parte da coluna do advogado Rafael Rafic com as sinopses das escolas do Grupo Especial. Nossa faixa musical hoje irá falar mais tarde de outra faceta: as disputas de samba.

Enredos 2013 e suas Sinopses - Parte II

1. São Clemente

Enredo: Horário Nobre
Texto: Milton Cunha
Carnavalesco: Fabio Ricardo

A São Clemente é uma das poucas que se salvam na safra desse ano. O enredo tratará sobre um assunto extremamente popular e altamente carnavalizável, mas que por algum motivo nunca foi para a avenida de maneira direta: as novelas brasileiras.

Porém aqui temos um problema: não sabemos se por causa de algum patrocínio (o que a escola nega), se por uma censura da Globo, que tem os direitos de transmissão exclusivos do desfile. Ou ainda se simplesmente por uma opção questionável da escola, só serão abordadas novelas da TV Globo.

[N.do.E.: quando do lançamento do enredo foi dito que haveria apoio institucional da emissora carioca.]

Isso deixa algumas pérolas novelísticas que seriam pivotais para o enredo - como Pantanal (TV Manchete) - de fora. Claro que isso se reflete em um problema na sinopse, mas nada que a inviabilize.

A sinopse em si, para mim, deixou um pouco a desejar porque apesar de apresentar alguns poucos personagens que ficaram na memória do povo e algumas novelas, ela focou mais no fluxo de uma novela em teoria.

Fala apenas da abertura, do final eletrizante, emoção e da fábrica de sonhos (apelido do PROJAC, o que aumentou a especulação da existência de patrocínio). Sinceramente eu acredito que no desfile muitas coisas que não estiveram na sinopse estarão na avenida. Isso pode a princípio causar perda de pontos para a escola da Zona Sul/Centro.

Ainda sim, é um ótimo enredo que na mão do carnavalesco Fábio Ricardo poderá colocar a São Clemente mais uma vez como a surpresa do Carnaval. Como vários compositores também são grandes noveleiros, não deverão ter qualquer dificuldade para ter inspiração.

Nota: 8,5

2. Mangueira

Enredo: Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América
Texto: Marcos Roza e Cid Carvalho
Carnavalesco: Cid Carvalho

Aqui chegamos enredo escrito por aquele se tornou um engana... ops, escritor de enredos semi-profissional: Marcos Roza. Marcos é o mesmo que idealizou o “Roteiro dos Desfiles”, que é distribuído aos espectadores na Sapucaí explicando o enredo e o que representam as fantasias de cada escola.

Talvez ele tenha tido essa idéia para que alguém consiga entender o que ele escreve, sinceramente. Mais um enredo que parte do nada e chega ao lugar algum, passando por todos os lugares comuns do enredo CEP. Alias, troca Cuiabá por Bole-Bole e trem por esterco, e já temos a sinopse para o samba-enredo do conto do Aloísio Villar publicado aqui no Ouro de Tolo há semanas atrás.

O enredo pega como fio condutor uma viagem de trem partindo da Estação Primeira de Mangueira e passando por cada característica de Cuiabá que se quer ressaltar (mesmo que ela não tenha na realidade), que é representada por uma estação - tais como as lendas locais e a culinária. Exatamente como um típico enredo CEP tem. O problema é que Cuiabá NUNCA teve trem.

Foi exatamente nesse desejo de Cuiabá de ter um trem que nunca teve é que o enredo tenta se estruturar. Mas se a intenção é mostrar o que a cidade tem, com que lógica o enredo se arvora em algo que ela clamorosamente nunca teve?

Por fim, ainda há uma polêmica: vários trechos da sinopse seriam plágio do enredo mangueirense campeão de 2002, ‘Brasil com Z é pra Cabra da Peste. Brasil com S é a Nação do Nordeste’. Marcos Roza nega o plágio.

Plágio ou apenas coincidência, a verdade é que vários trechos são muito parecidos mesmo.

[N.do.E.: há um outro trecho praticamente idêntico à sinopse do Salgueiro do carnaval de 2010.]

Nota: 4,5

3. Beija-Flor

Enredo: “Amigo Fiel”
Texto: Laila, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos, André Cezari e Bianca Behrends.
Carnavalescos: Laíla, Fran Sergio, Ubiratan Silva, Victor Santos e André Cezari

O tema, o segundo na ordem e anunciado ainda no sábado das Campeãs é sobre o cavalo mangalarga marchador. Claro, conta com um polpudíssimo patrocínio da associação de criadores desses animais.

Aqui minha reação foi bem parecida com a que tive com a Mocidade. Enquanto todos baixavam o sarrafo no tema, eu dizia que a Beija-flor estava com um problema na mão, mas que o tema se fosse bem trabalhado poderia render um belíssimo desfile. Outra esperança que foi defenestrada assim que li a sinopse.
No início ela tenta usar o próprio cavalo como narrador de sua história, ainda o tratando de modo generalizado, sem mencionar raças e começa aquela viagem na história pelo mundo que todo enredo genérico faz - só mudando o objeto do patrocínio.

Então fala do cavalo no deserto árabe da pré-história, que passa pelo seu uso na agricultura do neolítico, do seu uso como transporte de guerra, passando pelo Cavalo de Tróia...

Epa, Cavalo de Tróia? É, aqui está o primeiro grande problema de foco do enredo. Se a intenção era mostrar a história e importância do animal cavalo, o que uma estrutura oca de madeira está fazendo aqui?

Depois de Tróia, ele volta para a mitologia, apesar de não ficar claro que tipo de mitologia é abordada. Mas tudo me indica que seja Pégasus e aqui temos outro problema na linha histórica. Era para ele ter vindo antes do Cavalo de Tróia.

A viagem ao mundo não podia terminar sem uma passagem no lugar comum dos mouros e árabes e seus enormes exércitos de cavalaria. Hei, e a parte que já trata das guerras lá em cima? Pois é, o enredo não se decide.

Como fala de guerra a todo momento e estamos na Beija-Flor, podem esperar um enredo de sofrimento, dor, sangue e, já que estamos falando em cavalos, muita chicotada.

Para terminar, de repente e sem aviso, a sinopse dá uma giro total e passa a abordar o Brasil e a raça “homenageada” mais especificamente, aproveitando a ligação do cavalo com a coroa portuguesa e dessa com o Brasil - olha o clichê da Família Real no Brasil aí!

Aqui o enredo se perde completamente. Ele começa a trazer para a história alguns elementos que necessariamente precisariam de explicação. Por exemplo, o trecho “No então chamado Novo Mundo aportei, sendo presenteado pelo rei português ao Barão de Alfenas, e do cruzamento com as raças ibéricas, que aqui chegaram na época da colonização, renasci como o sangue puro do Brasil, no sul de Minas Gerais”.
Espera aí, como o cavalo foi cruzado com o cavalo, já que até aqui o enredo não faz qualquer distinção de raças de cavalo?

Pelos erros mil entrecortados por todos os clichês possíveis e imaginários, terei que ser muito duro na minha nota. Isso sem falar na total falta de inspiração poética gerada por essa sinopse insossa.

Nota: 4

4. Grande Rio

Enredo: “Amo o Rio e vou à luta: ouro negro sem disputa” … “Contra a injustiça em defesa do Rio”…
Texto: Roberto Szaniecki
Carnavalesco: Roberto Szaniecki

Depois de achar que já tinha lido de tudo possível nesse ano após ler as sinopse da Inocentes, da Beija-flor e do Salgueiro, me aparece aos 48 do 2° tempo (dia 23 de julho, última segunda feira. Ah, se fosse a Portela...) a sinopse da Grande Rio e ela me fez lembrar que eu ainda não tinha lido a sinopse da escola do polonês (apelido de Roberto Szaniecki, carnavalesco da escola e nascido no país europeu).

Depois de namorar bastante com a Volkswagen para contar a história do Fusca apenas para ser recusado pela TV Globo - e recusa da Globo, ainda mais na Grande Rio, é veto, a Grande Rio abraçou um enredo altamente político sobre a disputa do Rio pela manutenção dos royalties para os governos estaduais e municipais como estão.

O enredo não se sai bem em nenhum aspecto.

Para começar é um enredo politicamente panfletário de uma forma que eu nunca vi e que simplesmente não combina com carnaval da forma totalmente explícita com que foi feito. Deixa Portela 2010 e São Clemente 2009 no chão. Talvez nenhum enredo tenha chegado tão perto da total vassalagem profana e insana dos fatídicos carnavais da Beija-Flor de 1974 e, principalmente, 1975.
 
Além disso, ele é longo e modorrento, totalmente diferente do longo-instigativo, da Ilha. Depois ele não é nada, nada, nada carnavalizável, muito menos inspirativo para a ala de compositores. Alias, haja inspiração nessa temporada para os compositores caxienses. Aposto que eles estão se perguntando onde estão o iogurte ou as lentes de contato que eram mais fáceis (lembrando que esses enredos polêmicos também foram obra do polonês, sendo o segundo em São Paulo).

O polonês ainda não largou a mania irritante de dividir a sinopse em setores, o que acaba engessando totalmente a ala dos compositores. Esta tem que seguir exatamente o pensamento do carnavalesco, sob pena de um rápido jubilamento nas eliminatórias.

Os enredos de Szaniecki nunca ajudam o compositor em uma vírgula em seu trabalho e ainda o enquadra em uma sequência certa inquebrável que atrapalha ainda mais. Para transformar o trabalho em algo hercúleo, sempre que ele não adota a linha temporal, a sequência de setores não apresenta nenhuma lógica e complica de vez qualquer possibilidade de ser criar algum samba que pelo menos consiga levar a escola.

É exatamente o caso: o enredo se perde totalmente.

Tem uma intenção longa e desnecessária, para depois ter outra introdução tão longa e desnecessária. Em ambos os textos a sinopse diz que versará sobre o petróleo e seus royalties. Mas de petróleo mesmo só temos dois setores, os primeiros. Que para variar ainda contem erros técnicos crassos, visíveis até para uma pessoa leiga no assunto. Imagino que o nosso editor, especialista, deve ter quase enfartado quando leu.

[N.do.E.: o enredo tem diversos erros conceituais, inclusive sobre a própria natureza dos royalties. Lamentável.]

Os quatro setores finais são apenas para louvar os benefícios dos royalties do petróleo nas cidades que o recebem. Só que eles falam de tantas coisas, até certo ponto supérfluas considerando as necessidades dos rincões brasileiros como um todo, que, ao terminar de ler a sinopse eu tenho certeza que os royalties realmente devem ser repartidos com os estados não-produtores porque não temos mais onde investir tanto dinheiro.
Exatamente ao contrário do que o enredo se propõe - e olha que sou defensor ferrenho do Rio nessa disputa política.

Em resumo: um desastre total. Conseguiu a proeza de roubar da Inocentes o título de pior sinopse do ano.

Nota: 1

5. Imperatriz Leopoldinense

Enredo: Pará – O Muraiquitã do Brasil
Texto: Cahê Rodrigues e Leandro Vieira
Carnavalesco: Cahê Rodrigues, Mario Monteiro e Kaká Monteiro

Continuamos a profusão de enredos patrocinados, mais uma vez na modalidade CEP. Dominguinhos do Estácio mais uma vez aproveita suas ligações paraenses e consegue emplacar outro enredo sobre o Pará em uma escola sua para que ele solte a voz.

O enredo é mais do mesmo que já vimos na avenida trocentas vezes: sobre a Amazônia (que, sejamos sinceros, após tanto desmatamento, é mais história do que realidade no Pará), matas vastas e verdes, lendas indígenas, Tupã, ouro, borracha - e,para terminar a culinária paraense. Tudo entremeado com inúmeras palavras em tupi, para as quais há um enorme glossário ao final da sinopse.

Enredo ruim, porém até onde pode, honesto. Dá pelo menos para fazer um samba, se não bonito, na média. A excelente ala de compositores da Imperatriz deve ajudar.

Nota: 6

6. Vila Isabel

Enredo: A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – “Água no feijão que chegou mais um”
Texto: Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila
Carnavalesca: Rosa Magalhães

Para encerrar o carnaval, a boa surpresa do ano para mim. Quando a Vila disse que iria falar do “Brasil Rural” e, para piorar com patrocínio da BASF, especializada em agrotóxicos, pensei logo no pior.

Mas quando li a sinopse, que surpresa agradável!

O enredo simplesmente fala do jeito “caipira” de ser, introvertido, mas sempre simpático e acolhedor. Exata a figura do agricultor, o que não é muito comum no carnaval, de uma forma simples, mas que acertou em cheio

Apesar de passar também por alguns clichês, como as três raças que se irmanam para criar o brasileiro, as quais se agregam os imigrantes; a sinopse se salva por fazer um quadro bem completo do estilo caipira de ser, o trabalho da terra que é fundamental para a economia brasileira e a música sertaneja. Alias, o enredo acaba até enveredando pela história da viola no Brasil, sob o argumento (corretíssimo) que não tem como falar do lado cultural do agricultor sem tratar de sua inseparável viola.

Ainda aborda a religiosidade do homem do campo e sua relação muitas vezes difícil com o ciclo de chuvas do cerrado e do sertão.

Enfim, um enredo muito legal, que fugiu do óbvio e com a cara de Rosa Magalhães. É um enredo que dá para a ala de compositores brincar muito e ainda traz, a pretexto de inspiração, várias músicas relacionadas ao homem do campo e algumas frases que marcaram época ao descrevê-lo.

Após a leitura da sinopse, espero bastante da Vila.

Nota: 9

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Made in USA - "Enredos 2013 e suas sinopses: Parte I"


Mostrando a sua versatilidade, a coluna "Made in USA", assinada pelo advogado Rafael Rafic, dedica dois artigos a analisar as sinopses que guiam os enredos das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, que ficaram completas após a divulgação do texto da Grande Rio na última segunda feira.

Confesso que não tenho muita paciência para a leitura destes textos, embora especificamente neste 2013 tenha lido até mais sinopses que em outras oportunidades.

Hoje teremos as escolas que desfilam domingo e amanhã, na segunda parte, as de segunda feira. A faixa musical das sextas feiras também falará um pouco das disputas de samba, que estão se iniciando. Mas já aviso que teve parceria repetindo o grande samba apresentado em 2012.

Enredos 2013 e suas sinopses: Parte I

Pedi ao editor do blog um espaço extra, fora da minha coluna esportiva, para finalmente poder escrever sobre uma das minhas paixões. Entretanto sempre é difícil falar aqui porque temos dois colunistas que são bambas no assunto: Escolas de Samba, as quais tenho o prazer de acompanhar desde meus 4 anos (hoje tenho 23).

É engraçado, porque apesar de ser carioca, amar nossa Portela, o samba-enredo e as escolas de samba, sempre fui um amante à distância, pela TV. Nunca assisti a um desfile ao vivo na Sapucaí (espero fazê-lo em 2013) e, até o ano passado sequer tinha ido a um ensaio. Também não tenho qualquer conhecimento mais profundo sobre música além das três marcações de surdo.

Por isso, apesar de ter razoáveis conhecimentos sobre harmonia, evolução, conjunto e bateria, não tenho a menor condição de discutir com os experts Pedro Migão e Aloísio Villar. Sobre samba-enredo meus comentários acabam sendo mais baseados no senso comum e na experiência de 18 anos de safras (além dos sambas históricos que qualquer iniciado TEM que conhecer). Por isso, não comentei sobre os sambas-enredo esse ano nem sobre os desfiles, o que o Migão fez magistralmente.

Porém tem uma área que eu conheço bastante: enredos e suas sinopses. Seja pelos anos a fio que fiz questão ler todas as sinopses do Grupo Especial, seja pelos anos de treino intenso em redação, seja pelos conhecimentos gerais que acumulei nos meus anos de formação. Com isso acho que posso comentar sobre os enredos com a propriedade que o Ouro de Tolo merece.

Para piorar, a partir do ano que vem também virarei vidraça e farei minha estréia escrevendo a sinopse da Escola Virtual Estrela D’Alva, que desfila no Grupo de Elite do Virtuafolia.

É justamente a análise das sinopses do especial para 2013 é que faço aqui, aproveitando o fato que a última sinopse, Grande Rio, foi divulgada no início desta semana.

Para começar já posso dizer que estou decepcionado. Depois de ótimos enredos que tivemos ano passado, que propiciou com sobras a melhor safra dos últimos 20 anos (com direito a um samba antológico da Portela e outro quase da Vila Isabel), achava que as escolas tinham aprendido a lição.

Ledo engano.

A safra de 2013 é medonha, com poucas salvações. Alias, existem duas ou três escolas que conseguiram se “superar” e talvez fosse mais fácil tirar "Danoninho" de pedra do que fazer samba para alguns enredos propostos. Também temos uma profusão de enredos CEP (cidade, estado, país ou, se o leitor quiser, em referência ao código postal dos Correios). Mas vamos à análise escola por escola em ordem de desfile.

Em tempo: as notas que atribuo se referem apenas à qualidade da sinopse, seja em coerência, correção ou em estrutura; e a possibilidade dela facilitar ou não o trabalho dos compositores. Não levei em consideração a capacidade da escola ou de cada carnavalesco individualmente falando em transformar a sinopse em fantasias e alegorias.

Começamos hoje com as escolas de domingo, como o Editor Chefe informou na introdução deste artigo.

1. Inocentes de Belford Roxo

Enredo: As Sete Confluências do Rio Han.
Autores da Sinopse: Roberta Alencastro Guimarães e Wagner Gonçalves
Carnavalesco: Wagner Gonçalves

O enredo tem a intenção de comemorar os 50 anos de imigração sul-coreana no Brasil, algo muito parecido com o que a Porto da Pedra fez em 2008 com o centenário da imigração japonesa. Mas dizer que o resultado saiu muito ruim ainda seria um elogio.

Eu li e reli a sinopse, mas até agora não entendi onde ela quis começar, nem onde ela tenta terminar, muito menos tive qualquer pista sobre o que as sete confluências do rio tem a ver com isso.

A Coréia do Sul já não é tão fácil de carnavalizar quanto o Japão, nem sua cultura está tão enraizada nas mentes dos cariocas. Talvez por isso, a sinopse tenta ser algo mais aberta, dizendo a importância da água para o povo sul-coreano e, aqui e ali, joga algumas informações sobre o país que não encontram qualquer encaixe no enredo. Em um ano de enredos ruim, ele parecia conseguir ser a proeza de ser o pior deles, e por muito. Isso até o último dia 23 (amanhã os leitores entenderão o que quero dizer).

Esse enredo ruim complica ainda mais a situação de uma escola que já é péssima em virtude dos acontecimentos estranhos de sua vitória no grupo de acesso em 2012. É quase pule de dez para o rebaixamento - e ainda estamos em agosto...

Nota: 2.

2. Salgueiro

Enredo: “Fama”
Texto: Renato Lage e Márcia Lage
Carnavalescos: Renato Lage e Márcia Lage

Mal começamos e já chegamos na polêmica do ano.

Depois de anos batendo nas escolas que tinham enredos bem ruins mas patrocinados, os salgueirenses até agora não se adaptaram ao papel de vidraça do ano. Com isso atormentam a paciência de qualquer um que ouse cometer a heresia de dizer que o enredo não é “culturalmente relevante” (seja lá o que isso signifique), formando uma patrulha ideológica que deixaria com inveja qualquer fã-clube de banda adolescente. Para piorar, a agremiação caiu em uma posição de desfile horripilante, a pior possível das que estavam disponíveis para sorteio aberto.

Desde quando o tema foi anunciado, com o patrocínio da Revista Caras (via lei Rouanet), as brincadeiras, galhofas e decepções com a escolha já pululavam nas redes sociais. O Salgueiro completa 60 anos em 2013 e por isso era esperado que ele mesmo fosse o enredo, ou ainda a homenagem a Xangô.

Quando o tema foi lançado, eu já esperava uma sinopse fraca. Mas sua divulgação superou minhas péssimas expectativas: a sinopse é muito ruim e só não a classifico como a pior do ano, principalmente quanto à estrutura, porque superar a Inocentes era uma tarefa hercúlea.

Ela tenta ser aberta, mais insinuando do que explicando, mas ao mesmo tempo tenta fazer uma abordagem histórica da fama que exigiria bastante explicação para se tornar coerente. Apenas como exemplo segue uma estrofe da sinopse que, a exemplo da excelente sinopse de 2012, foi feita em versos:

“Ora se esconde, ora se revela
A máscara no rosto é uma interrogação
Não sei se a mocinha é princesinha bela
Se diz uma mentira, e tem cara de fera!”

Alguém entendeu o que isso tem a ver com fama? Se entendeu, favor me explicar. Mesmo quando claramente identificamos o propósito, falta qualquer tipo de ligação com o anterior e o posterior, fazendo ao invés de enredo mini-contos sem nexo.

Assim como não entendi, os compositores também não e em uma escola que já gosta de um samba “pula-pula” isso foi traduzido como “Ihh, a sinopse está aberta, estamos livres, pode tudo”. Ou seja, lá teremos mais um samba em que o Salgueiro irá “sacudir, levantar e explodir a fama no ritmo da bateria furiosa”...

Só o talento infinito de Renato Lage e uma possível obra milagrosa do compositor Dudu Botelho (o único que não pula na área) terão o poder de consertar esse samba do crioulo-doido famoso armado no “caldeirão”. [N.do.E.: ao que parece o talentoso compositor abriu mão de disputar samba na Academia este ano.]

Nota: 3,5

3. Unidos da Tijuca

Enredo: Desceu num raio, é trovoada! O Deus Thor pede passagem para mostrar nessa viagem a Alemanha encantada
Texto: Isabel Azevedo, Simone Martins, Ana Paula Trindade e Paulo Barros
Carnavalesco: Paulo Barros

Eu juro que enquanto eu lia a sinopse da Tijuca me passavam pela cabeça flashes do Caronte de 2011.

Diferentemente da viagem maluca de Paulo Barros sobre o medo de 2011 que só ele entendeu, pois ninguém ainda encontrou o nexo entre medo e Priscila, Rainha do Deserto, a sinopse desse ano sobre a Alemanha em mais um enredo CEP é bem enxuta.

Porém sofre da mesma falta de nexo que percebi na sinopse de “Esta noite levarei sua alma” e que foi mostrada nua e crua na avenida. A transição entre o deus Thor, da tradição nórdica, para a Alemanha da pujança científico-cultural dos sec. XIX e XX, que claramente é o ponto crucial desse enredo patrocinado pelo Instituto Goethe, é muito fraca - para não dizer inexistente.

Em um enredo com muitas informações relevantes, esse problema de introdução pode até passar despercebido ou bastante minimizado na avenida, mas está lá e é um obstáculo...

A Alemanha por si só já tem elementos para fazer um enredo interessante e a abordagem é um tanto diferente do “padrão CEP”. Mas não achei no enredo algum traço genial de Paulo Barros para contar o enredo, tal como o “desembarque da corte para coroar o rei Luis do Sertão” do ano passado. Alias, até agora estou procurando a marca de Paulo Barros nessa sinopse e pela primeira vez desde 2004 não achei isso. Pode ser um problema.

Por fim, a Tijuca tem que fazer de tudo para conseguir fugir do Fusca, evitando menções a Hitler (que seriam necessárias nesse caso) e problemas com a comunidade judaica carioca - sempre alerta contra as escolas de samba. A boa notícia é que a sinopse me pareceu ser concebida exatamente para isso e dá o espaço necessário para falar dos automóveis, indispensáveis em um enredo sobre Alemanha, mas sem identificá-los.

Em resumo: não é um ótimo enredo, mas em se escapando de algumas armadilhas que ele concebe, é até interessante. Porém, como já é tradição na Tijuca de Paulo Barros, será uma tarefa complicada para a ala de compositores.

Nota: 6,5.

4. União da Ilha do Governador

Enredo: “Vinícius no Plural: Paixão, Poesia e Carnaval”
Texto: Alex de Souza
Carnavalesco: Alex de Souza
Finalmente, depois de algumas homenagens em grupos de acesso (a última em 2011 em um conturbado desfile do Império Serrano), alguma escola leva o poetinha Vinícius de Moraes para o Grupo Especial.

Vinícius é uma pessoa densa, com várias facetas, muitas coisas para contar e uma ligação especial com o carnaval e com o bairro da Ilha do Governador, o que sempre acaba sendo uma faca de dois gumes. Se por um lado dá um enredo muito interessante e inspirativo, pode acabar se perdendo no gigantismo e na falta de uma estrutura dependendo da viga mestra da história que se conta no enredo. Porém o enredo não deixa nada a desejar: fala de todos os pontos de Vinícius com uma lógica que o amarra e dá sentido.

Alias, é de se destacar o que foi a grande inovação desse ano em sinopses: a mesma foi elaborada em forma de uma entrevista fictícia entre a União da Ilha e o homenageado, buscando suas respostas em várias outras entrevistas concedidas pelo homenageado e pelo que ele próprio escreveu em seus livros. Acho que foi inclusive essa solução que deu um jeito de, mesmo com tantas informações, o enredo fazer sentido.

Inicialmente, fiquei com apenas uma ressalva conta ele: sua extensão exagerada. Não me lembro de ver enredo tão grande (deve dar umas 7 ou 8 páginas) e fiquei com receio dos compositores se perderem no meio de tanta coisa para se colocar em apenas um samba.

Porém, o colunista deste Ouroi de Tolo Aloísio Villar, que é atual vencedor de samba-enredo da Ilha, elogiou bastante o enredo: disse que isso não é o menor problema e que ele adoraria ter mais quatro ou cinco enredos assim. Se ele afirma isso, quem sou eu para contradizer?

Mas fica aqui a nota triste, que nada tem a ver com a sinopse, pela direção da escola transformar o jornalista e insulano apaixonado Anderson Baltar “persona non grata” simplesmente por ele aderir a um movimento de modernização do carnaval. Ei, não era a Ilha a escola mais democrática do Rio?

Nota: dez, dez, nota 10!

5. Mocidade Independente de Padre Miguel

Enredo: Eu vou de Mocidade com Samba e Rock in Rio – Por um Mundo Melhor.
Texto: Alexandre Louzada (pelo menos é quem assina)
Carnavalesco: Alexandre Louzada

A Mocidade foi a primeira escola a anunciar o tema de seu enredo para 2013, ainda em setembro de 2011. Não me lembro de nenhuma escola divulgar seu tema com tanta antecedência. Quando o mesmo foi anunciado, os detratores de plantão já vieram reclamar que “Rock não dá samba” e que a Mocidade jogou fora o carnaval com mais de um ano de antecedência.

Eu já achava o contrário, que eles poderiam fazer um ótimo enredo sobre os grandes momentos das várias edições do evento: grande show do AC DC, a ressureição de James Taylor, o fato de todo carioca ter um lado sambista que gosta de rock - entre outros.

Mas quando vi a sinopse me decepcionei mais uma vez. Um texto inacreditavelmente longo que simplesmente faz uma declamação laudatória histórico-institucional da marca Rock in Rio. A típica sinopse que não é nada carnavalizável e que os compositores terão que rimar Lisboa com Madri e Rio de Janeiro. Uma pena para uma escola que estava buscando a recuperação e tinha surpreendido com um lindo Portinari ano passado.

Nota: 5

6. Portela

Enredo: Madureira... Onde Meu Coração se Deixou Levar
Texto: Carlos Monte e Paulo Menezes
Carnavalesco: Paulo Menezes

Se esse ano nós portelenses pudemos nos gabar de ter o samba do ano, para 2013 podemos nos gabar de termos o enredo do ano, junto com a Ilha. Além disso, diferentemente do ano passado em que fomos lanternas convictos [N.do.E.: na verdade não, a Porto da Pedra entregou ainda depois], agora a Portela é a segunda escola a entregar a sinopse.

Paulo Menezes, em mais uma tacada genial, juntou três datas importantes para qualquer amante da escola. Oficialmente o enredo é sobre o bairro no qual a escola cresceu, Madureira, que completa os 400 anos da freguesia que lhe deu origem em 2013. Pasmem: mesmo tendo duas grandes escolas Madureira nunca foi tema de nenhuma escola a passar nem no Especial, nem o Acesso A, nem no B.

Como falar de Madureira sem falar de Portela é impossível (junto com o Mercadão são os dois traços que identificam o bairro perante qualquer carioca), é óbvio que iremos nos auto-referenciar por uma boa parte do tempo para comemorar nossos 90 anos. Alias, a sinopse até abre uma bela brecha para ter “mais 90 e menos 400” como diz o nosso editor. Além disso o Império Serrano também estará presente como um dos homenageados.

Por fim, assim como Clara Nunes foi o fio condutor do enredo desse ano sobre a Bahia, quem melhor que Paulinho da Viola para ser o desse ano? É claro que Paulo Menezes, que não é bobo, usou desse artifício e assim também comemora os 70 anos de idade do grande compositor portelense.

Ou seja, é um enredo com a cara da escola e nesse ponto ele é imbatível esse ano.

Para melhorar, a sinopse foi escrita em estilo bem aberto, típico do carnavalesco, apostando apenas nas ligações de campos semânticos mais cognitivos do que estruturais, justamente para deixar os compositores livres para criar e não se amarrar em qualquer ordem. Foi assim que saiu o “Madureira sobe o Pelô” ano passado.

Confesso que ao terminar de lê-la meu coração portelense chorou um bocado. Ah, e antes que eu me esqueça: como diz a sinopse a capital do samba é Madureira e samba bom é aqui na Portela.

Nota: dez, dez, nota 10!

Amanhã teremos as escolas de segunda feira. Até lá!