Mostrando postagens com marcador Buraco da Fechadura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Buraco da Fechadura. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de dezembro de 2012

Buraco da Fechadura - "Abrindo os Trabalhos"


Neste sábado, a coluna "Buraco da Fechadura", do compositor Aloisio Villar, faz a "avant-premiere" de uma nova coluna de contos do compositor, tendo o samba como tema: a "Enredo do Meu Samba". Esta coluna, aqui e ali, terá também alguns textos de minha lavra, tendo sempre o carnaval como tema.

Abrindo os Trabalhos

É manhã no Rio de Janeiro.

Mais um carnaval passou e, com ele, surgiram as cinzas. Ainda se ouve um tamborim aqui ou ali. Pessoas embriagadas bambeiam pelas calçadas cantando “oh abre alas que eu quero passar”, outras fantasiadas dormem com a cara no chão enquanto cachorros lambem seus rostos.

O carnaval passou, mas o verão ainda não. O Rio de Janeiro, fevereiro e março, o Rio quarenta graus ferve. As praias lotadas aproveitam o fim da estação mais brasileira de todas. Homens jogam futevôlei, mulheres se bronzeiam em micro biquínis, crianças brincam nas areias da cidade maravilhosa...

E ainda se respira um pouco carnaval. Estamos naquele período entre a quarta-feira de cinzas e o sábado das campeãs. Nos barracões as escolas agraciadas refazem seus carros. Nos grandes condomínios, hotéis de luxo ou favelas o desfilante orgulhoso cuida para que sua fantasia esteja tão linda quanto no desfile.

Seja sexta colocada, quinta, quarta, terceira ou vice-campeã, o orgulho é o mesmo: voltar a pisar no templo sagrado do samba. Para a campeã mais orgulho ainda: o de colocar a faixa de vencedora do carnaval no peito. 

É um trabalho árduo, amigo leitor, de muito sacrifício. Para muita gente o carnaval dura apenas quatro dias, mas a algumas pessoas o carnaval dura o ano inteiro. Assim que o vento leva as cinzas as escolas de samba já começam a tratar do enredo do ano seguinte. Em agosto muitos já estão dando seu suor, seu sangue durante horas e horas em barracões e ateliês para que tudo saia certo, para vermos o maior espetáculo da Terra.

São apaixonados pelo carnaval, por suas escolas de samba, por aqueles oitenta e dois minutos na super escola de samba da Sapucaí ou mesmo quarenta e cinco minutos na Intendente Magalhães. Que vivem carnaval o ano inteiro, que respiram o carnaval como suas vidas.

Carnaval... Escolas de samba... A muita gente isso é coisa muito séria. Escolas, muitas quase centenárias, que exalam cultura, conhecimento, formação de caráter. Muitas vezes uma escola de samba é escola da vida, ensina, educa, cria. Muitos desses que chegaram pequenininhos ao samba só observando os bambas com seus instrumentos, vozes, rodopios e criação com o tempo tomam seus lugares e perpetuam a história.

Nascem, crescem, envelhecem e passam seus “anéis de bamba a que mereça usar”. O samba é uma história construída por heróis. Heróis que nunca pegaram em armas, mas pegaram em surdos de marcação, tamborins, caixas, microfones, bandeiras, rodopiaram na arte de um mestre-sala ou vigor de uma baiana e encantaram multidões.

E essas pessoas têm um lugar pra se reunir. Ou melhor, tinham.

Um bar de dois andares, meio que caindo aos pedaços, de mais de sessenta anos por quais passaram muitos dos maiores sambistas desse país. Teve seus dias de glória, o apogeu como adoram dizer alguns carnavalescos, mas mesmo não sendo mais tão suntuoso ainda cultiva sua tradição e charme.

Em um canto do Estácio, o berço do samba, existe ou existia o “casa de bamba”. Ponto de encontro de sambistas da velha e nova geração.

Na casa, os muitos quadros espalhados contavam a saga do carnaval carioca. Algumas engraçadas, outras nem tanto, mas cada uma ajudava a contar um pouco do que era nossa folia. Traziam gargalhadas, saudades, amarguras, motivos para mais uma cerveja e começo de batucada.

Naquela manhã não era diferente. A fila já era grande na frente do bar esperando que ele abrisse. O termômetro, ainda de manhã, marcava quase quarenta graus. Era o tipo de calor onde o pastor deixava as irmãs irem ao culto de biquíni e os frequentadores já reclamavam da demora da abertura. Queriam começar os trabalhos com uma gelada.

Quem se dava bem com isso era o Feitosa, o dono da banca de jornal. Enquanto o bar não abria o homem vendia jornais, que falavam da polêmica do resultado do carnaval. Muita gente discordou do resultado e desconfiava de marmelada. A campeã daquele ano desfilou com um carro a menos, pelo mesmo quebrar na entrada da avenida. A maldição do setor 1 - e a promessa era de muitas vaias no sábado das campeãs.

A maioria xingava a escola com todos os nomes impublicáveis possíveis e um homem tímido tentava defendê-la quando chegou o Almeidinha, garçom do bar.

Os homens reclamavam pelo atraso de Almeidinha, que pediu desculpas e abriu o estabelecimento. O garçom abriu e os cerca de dez homens que estavam na fila foram sentando nas mesas e pedindo cervejas e aperitivos, enquanto discutiam o resultado do carnaval. Almeidinha serviu a todos enquanto os outros garçons foram chegando. O bar já estava cheio quando o dono do bar adentrou o recinto.

Manolo, um espanhol na altura dos sessenta anos de idade, chegou com cara de poucos amigos e não queria muita conversa com ninguém. Foi para o balcão ver algumas anotações e comentou com Almeidinha que era para cobrar todos os fiados.

Bem, no começo eu falei que o samba tem ou tinha um local próprio, explicarei agora o porque.

Meu nome é Pedro de Oliveira e meu carnaval fora uma porcaria. Separei-me há pouco de minha mulher e achei que seria uma boa viajar na folia de Momo. Fui para Búzios.

O problema é que muitos pensaram como eu. Peguei mega engarrafamentos na ida e na volta. A casa era uma droga, não tinha água, faltou luz, a praia cheia de gringos e lá minha filha ligou toda contente para contar que a mamãe estava namorando.

Voltei furioso, antes mesmo do carnaval acabar, e passei a terça-feira gorda comendo pipoca, bebendo cerveja (pelo menos era Chimay, belga) e vendo filmes do Chuck Norris. Decidi que dormiria até segunda-feira, quando voltaria ao trabalho.

Mas antes disso me ligaram. 

Era do jornal onde eu trabalhava e queriam que eu fizesse uma matéria sobre um bar que fecharia e viraria igreja evangélica. Expliquei que isso hoje em dia era a coisa mais comum da cidade, até a Candelária em pouco tempo seria uma Universal, mas o meu chefe insistiu devido à importância do local.

Dessa forma saí naquele calor senegalês em direção ao Estácio ver o tal bar. Dessa forma parei na “casa de bamba”.

Cheguei ao bar, me apresentei como jornalista e perguntei a Almeidinha sobre o dono, pois faria uma matéria com ele. Os caras que estavam sentados em uma mesa comentaram “Ih, olha o Manolo ficando importante”, “na certa querem a opinião dele sobre a roubalheira do carnaval” e um senhor disse que foi diretor de harmonia da Unidos da Ponte e se eu quisesse podia entrevistá-lo.

Cheguei em Manolo, apertei sua mão me apresentando e comentei que queria fazer uma matéria com ele sobre a venda do bar para a Igreja Universal. Os garçons e freqüentadores do local ouviram o que eu disse e entraram em polvorosa. Rapidamente se aproximaram de mim, me olhando como se eu fosse um ET.

Perguntei qual era o problema e todos, em grande confusão e gritaria perguntaram a Manolo o que ocorria. O dono do estabelecimento confirmou a informação e disse que na noite anterior acertara a venda do bar para a igreja. O bar vinha tendo prejuízo e uma dívida enorme foi produzida. Não havia outro jeito.

Um “silêncio ensurdecedor” tomou conta do bar. O clima era de uma escola rebaixada após a apuração. Senti-me como um ser malvado que contava a crianças no Natal que Papai Noel não existia. Perguntei a Manolo se poderia fazer a matéria com ele e o homem respondeu que sim.

Aos poucos os freqüentadores voltavam a se sentar naquele silêncio e os garçons a servi-los. Manolo virou para mim e pediu que fosse ao segundo andar com ele. Dessa forma começava meu contato com o mundo do samba. Justo no fim de parte de sua história, mas que me traria personagens que dariam um livro.

Quer saber que personagens? A partir de janeiro aqui no blog “Ouro de Tolo”, na coluna “Enredo do Meu Samba”.

Feliz ano novo.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Buraco da Fechadura - "A Dengue"


Neste sábado, mais um texto da coluna de contos do compositor Aloísio Villar, a “Buraco da Fechadura”.

A Dengue

Mais uma vez o Rio de Janeiro passava por uma grande epidemia de dengue. Cada ano um novo tipo de dengue era descoberto e pelos últimos cálculos do Ministério da Saúde havia 7.365.647.579.458 variações da doença.

A dengue já era um produto tradicional do Rio de Janeiro como o carnaval, o futebol, a praia com mulheres bonitas e o tráfico de drogas; a dengue sempre vinha passar o verão em terras cariocas e deixava sua marca em muitos dos nativos.

Desidério era um cara que tinha certa convivência com o mosquito da dengue. Ele era agente da prefeitura e ia de casa em casa verificar e acabar com os focos. Mostrava a importância da prevenção, acabar com a água parada, tampar garrafas, limpar pneus e todas aquelas coisas que ouvimos sempre no verão, poucos dão importância - e o mosquito faz a festa.

Ele trabalhava muito, corria toda a cidade para combater o mosquito maldito e só pensava em voltar pra casa e dar uns beijos em Matilde, a mulata espetacular, ex rainha de bateria que o homem conseguiu fisgar.

Desidério conheceu Matilde numa tarde no Cacique de Ramos, famoso bloco de carnaval do Rio de Janeiro. Debaixo da tamarineira, enquanto o samba rolava, encheu-se de coragem, levou uma cerveja e dois copos até a mulata e lançou a isca. O agente sanitário sempre foi bom de papo e naquele dia mesmo já deu uns beijinhos na mulher.

Namoraram um tempo e alguns meses depois a mulata já foi de mala e cuia pra casa de Desidério. Tiveram dois filhos e viviam uma relação harmoniosa e feliz.

O homem gostava nas horas vagas de soltar pipa com os filhos, assar uma carne e chamar os amigos. Tudo regado a muita cerveja, jogar bola, sinuca no bar do seu Abílio e assistir a jogos do Botafogo.

Desidério era botafoguense fanático, do tipo que ia a todos os jogos que podia. Tinha camisas, bonés, calções, chaveiros: tudo sobre o clube. Ficava doente por causa do Botafogo, chorava e não queria comer quando ele perdia.

[N.do.E: a piada é irresistível: o personagem do nosso conto deve ser bem magro...]

Naquele domingo, especialmente, Desidério estava tenso. Era dia de jogo contra o Flamengo e ele odiava o rubro-negro. Acordou cedo e preparou o manto alvinegro para ir ao estádio. Como bom botafoguense, era supersticioso e preparou todas as mandingas possíveis para o time vencer.

Quis comida leve naquele dia e pediu a Matilde que preparasse uma rabada. Comeu, deu um beijo na patroa e dirigiu-se a casa de Silas, seu melhor amigo, para irem ao Maracanã.

Devidamente uniformizado para a “guerra” Desidério bateu palmas no portão do amigo e ele apareceu na janela. Abriu a porta tocando uma corneta e Desidério gritava “Fogooo” do lado de fora. Um desavisado pensaria que se tratava de um incêndio.  
Cumprimentaram-se e Silas gritou que era dia de depenar o urubu, Desidério devolveu com um “pau na mulambada” - e com aquelas palavras carinhosas os dois foram ao estádio.

Chegaram, o jogo começou e foi tenso. Jogo lá e cá como toda grande partida, mas no fim o Botafogo venceu por 2x0, para alegria dos dois amigos.

Voltaram pra casa felizes, mas antes de regressarem ao lar decidiram passar no bar de seu Abílio, jogar uma sinuca e tirar uma onda com os flamenguistas. Silas e Desidério jogavam sinuca, riam, bebiam e gozavam os rubro-negros se divertindo imensamente; mas Rubens, um amigo rubro-negro deles, se aborreceu.

Silas tentava fazer o amigo se acalmar, mas Rubens irritado com as gozações semeou a discórdia dizendo que tinha cara se preocupando muito com futebol e tomando bola nas costas da esposa.

O único casado no ambiente era Desidério e um clima estranho pairou no bar. Desidério - que na hora que Rubens fez esse comentário errou a tacada que faria na sinuca - olhou para o homem e pediu que ele repetisse.

Rubens perguntou se além de corno o agente tinha ficado surdo e Desidério riu, começou a gargalhar com essa situação e depois partiu pra cima de Rubens. A turma do deixa disso interveio e Abílio gritou que não queria confusão em seu estabelecimento.
Desidério perguntou que papo era aquele e Rubens respondeu que ele se informasse com sua esposa: já tinha dado o toque, o resto era com ele.

Silas conseguiu convencer um Desidério furioso a sair do bar e o agente inconformado reclamava com o amigo sobre a insinuação maldosa de Rubens. Silas mandou que o amigo não levasse em consideração, pois, era flamenguista e flamenguista não devia ser levado a sério.

Na frente do portão de casa Desidério respirou fundo e Silas mandou que ele entrasse e se acalmasse que Matilde era uma santa. Desidério deu razão ao amigo, agradeceu e entrou.

No lado de dentro encontrou Matilde na sala que perguntou quando fora o jogo. Desidério coçou a testa e respondeu que o Botafogo vencera por 2x0. Matilde correu para abraçar o marido e na imaginação de Desidério outro homem abraçava sua mulher por trás fazendo dela um sanduíche.

Assustado, Desidério se afastou de Matilde, que perguntou se ele estava bem. O pobre homem respondeu que sim. Matilde então mandou que ele sentasse à mesa que esquentaria a janta.

Desidério sentou e ficou observando a esposa preparando o jantar. Em sua imaginação ela estava com um homem na cozinha, ele jogava as panelas no chão e colocava Matilde sentada no fogão para transar com a mulher.

Coçou os olhos assustado e quando parou viu sua esposa sem homem nenhum do lado colocando seu prato na mesa. Matilde sentou-se a seu lado fazendo carinho em sua mão dizendo que preparou um feijão pra ele comer com a rabada e esperava que ele gostasse.

Desidério deu as primeiras garfadas olhando desconfiado para sua mulher, que por sua vez olhava para ele com muito carinho. A imaginação do homem voltava a trabalhar e nela o “amante” de Matilde sentava a seu lado e beijava seu pescoço passando as mãos por seu corpo.

Em um surto, ele gritou “chega” e Matilde perguntou o que ele tinha. O agente respondeu que apenas estava estressado e que iria deitar. A mulher deu um beijo nele e desejou que tivesse bons sonhos.

Mas estava complicado para que Desidério tivesse bons sonhos. Mal pregou os olhos e quando dormia tinha pesadelos, como sua esposa participando de um filme pornô numa cena de gang bang - que vem a ser uma mulher com muitos homens.

Foi para o trabalho e mal conseguia se concentrar pensando na mulher e no que ela vinha aprontando. Ia de casa em casa pra falar do mosquito da dengue e se referia a ele como o mosquito safado que pegava a mulher dos outros.

Foi para o bar depois com Silas e comentou o drama que passava. O amigo mandou que Desidério parasse de besteiras que Matilde era uma mulher decente. Desidério coçava a cabeça e respondia “sei não, sei não”.

Silas irritado perguntou como o agente podia desconfiar assim da mãe de seus filhos e que em vez dele estar lá no bar bebendo devia estar com ela em casa, dando lhe chamego e atenção, assim ela nunca iria querer de outro homem.

Desidério concordou com o amigo, levantou-se e disse que a conta naquele dia era dele. Saindo do bar deu de cara com Rubens. Um olhou para o outro e Desidério. com cara de poucos amigos. saiu.

Chegou em casa gritando por Matilde e que ela se preparasse que naquela noite teria, mas ela não atendeu. Percorreu toda a casa e nada. Sentou-se no sofá se perguntando onde a mulher estaria àquela hora e imaginando que estivesse com algum macho.

Apenas duas horas depois ela chegou com os filhos e Desidério irritado perguntou onde Matilde estava. A mulher sem entender a reação do marido respondeu que estava na casa de sua mãe e nunca vira o marido daquela forma. Desidério caiu na real e para não assumir o ciúme, nem que estava desconfiado, pediu desculpas e comentou que estava preocupado porque a cidade andava violenta.

Matilde deu um beijo no marido e se encaminhou para a cozinha. Rapidamente Desidério pegou o telefone e ligou para a sogra perguntando se Matilde esteve lá. A senhora respondeu que sim e para não haver desconfianças o agente disse à sogra que Matilde perdera um brinco e pediu que a senhora procurasse.

Desligou e sem ser visto observava Matilde pegando uma maçã na geladeira. O homem estava desconfiado demais.

A paranóia aumentava e Desidério começou a seguir a mulher na rua, mas não conseguia descobrir nada, não via nada de errado com ela. Comentou com Silas que nem conseguia dormir mais direito e notou que o amigo estava estranho. Perguntou o que Silas tinha e ele respondeu que realmente estavam rolando uns comentários que Matilde lhe traía.

Desidério ficou verde, amarelo, azul e branco, queria matar a esposa e Silas pediu que o agente se acalmasse, que talvez fossem somente boatos. Mas o homem estava transtornado: repetia que não era boato, ela realmente o traia e só não conseguira descobrir como ainda.

O agente planejava o que faria se encontrasse a mulher com outro na cama. Disse que a mataria e mataria o homem também: mataria os dois. Silas falou que violência não levava a nada e Desidério respondeu que chifre levava a tudo.

Uma noite, muito desconfiado, Desidério estava em casa com os filhos porque a esposa alegou que iria ver uma amiga doente quando o telefone tocou.

Desidério atendeu e de forma anônima do outro lado da linha um homem falou “quer saber onde sua mulher está? Ela está no Motel Carinhus, quarto 203, corre lá otário” desligando.

O chão sumira dos pés de Desidério. O homem sentou-se e o filho mais velho perguntou se o pai estava bem. Desidério respondeu que sim e pediu que ele tomasse conta do irmãozinho, pois, teria que sair.

Desidério pegou um ônibus e foi direto ao Motel Carinhus. Muito nervoso chegou ao saguão quebrando tudo e subindo direto com o atendente não conseguindo lhe segurar. Na frente da porta do 203 respirou fundo e arrombou a porta com um pontapé tomando um susto com o que viu dentro.

Encontrou seu amigo Silas deitado na cama com uma mulher, na verdade um travesti, não era Matilde.

Constrangido Desidério pediu desculpas ao amigo e se retirou, decidiu voltar e da porta falou.

- Poxa Silas, viado?

Do lado de fora foi algemado por policiais chamados pela gerência do motel e feliz falava: “Não era Matilde, minha mulher é uma santa”.

Também reclamou de dores no corpo e se sentia quente, febril.

Da cela foi transferido para um hospital: estava com dengue. Matilde foi visitá-lo e enquanto lhe dava sopa Desidério contou tudo que ocorrera e pediu desculpas à esposa contando que nunca mais desconfiaria dela. 

Matilde olhou com carinho Desidério, disse que amava o marido e lhe beijou.

Saiu do hospital e entrou em um carro beijando na boca o homem que lhe esperava: era Rubens. Matilde riu e disse que o “otário” ficaria uns dias internado, estavam livres.

Rubens gargalhou e respondeu que agora podiam ir de verdade ao Carinhus. Acelerou o carro e partiram.

Onde há fumaça, há “fogo”...

(Foto: O Globo)

sábado, 1 de dezembro de 2012

Buraco da Fechadura - "Todo amor que houver nessa vida"


Neste sábado, mais um conto da coluna literária do compositor Aloísio Villar, a “Buraco da Fechadura”.

Todo amor que houver nessa vida

O amor pode ser uma coisa muito boa, o perfume que exala de nossa alma uma doce essência; como pode ser uma casca de ferida que, arrancada, pode trazer toda nossa dor à tona. É o bem, o mal e poder ser de todas as formas.

Serginho desde pequeno sabia que era diferente.

Filho caçula entre quatro irmãos (três mulheres e ele), Serginho nunca curtiu muito jogar bola ou praticar brincadeiras de menino. Preferia sair para brincar com suas irmãs e invariavelmente brincava de bonecas com elas. Era sempre o pai da família, o médico... Era o bendito fruto entre as mulheres.

Cresceu assim e o pai, Seu Arlindo, não gostava. Serginho não se interessava por nenhuma atividade masculina. Pegou o filho e o levou à zona escolhendo a menina mais bonita para lhe tirar a virgindade.

Algum tempo depois Serginho saiu do quarto sorrindo, e o pai tinha a certeza que o rapaz cumprira sua missão. Mas nada: depois Arlindo ficou sabendo que Serginho apenas bateu papo com a moça no quarto e trocou receitas de maquiagem.

Arlindo deu uma surra em Serginho e exigiu que ele arrumasse uma namorada. O menino que não sabia o que acontecia com ele e porque era diferente acabou sucumbindo às exigências do pai e engatando namoro com uma amiga do colégio, Ludmila.

Arlindo finalmente suspirava aliviado por ver o filho “bem encaminhado” enquanto Serginho começava a descobrir quem realmente era. Freqüentando a casa de Ludmila, sentia-se atraído por seu irmão. Ele não sabia o porquê: aquilo o atormentava, deixava confuso, não queria ter aqueles sentimentos.

Mas não havia dúvidas: era gay e não poderia ‘fugir’ disso.

Com o irmão de Ludmila teve sua primeira experiência sexual, mas o rapaz depois ameaçou Serginho contando que se ele falasse para alguém o que aconteceu lhe matava. Dessa forma o menino sufocou seus sentimentos e vontades, ficando noivo de Ludmila.

As famílias comemoraram, Arlindo estourou champanhe e nem se lembrava mais do passado de Serginho. Todos felizes, menos um: menos Serginho. Que depois foi afogar as mágoas em um bar gay da zona Sul do Rio de Janeiro.

Arrumou um emprego tradicional e seguiu os trâmites de homem heterossexual.

Casamento marcado com Ludmila, não lhe restou mais nada além que subir ao altar. Arrumando-se para ir à igreja na casa dos pais, Serginho era a imagem da desolação quando sua mãe apareceu e perguntou se estava tudo bem. Serginho suspirou respondendo que sim e a mãe, frente a frente com o filho, pegou em seu rosto e disse:

“- Não minta para mim”.

Serginho desviou o olhar e respondeu que não mentia. Sua mãe contou que ele não precisava esconder nada, que não era boba e sabia que o filho não queria aquele casamento nem aquela vida.

Serginho não sabia o que dizer. Sua mãe se encaminhou para a porta e disse “Não me importa se você gosta de homem ou de mulher, apenas que seja feliz”. Saiu e deixou o filho sozinho para refletir.

Arrumado para o casamento saiu e foi caminhar pela praia. Seu celular tocava desesperadamente, enquanto ele sentado na calçada olhava o mar e as ondas batendo nas pedras. Teria que decidir o que fazer: sua vida e seu destino.

Muito pensou e decidiu se encaminhar à igreja. Chegando ao local encontrou todo mundo desesperado com sua demora, o carro da noiva dando voltas no entorno da igreja esperando sua chegada e seu Arlindo vermelho de raiva.

Mas casou, seguiu o protocolo e no fim quase todos estavam felizes na festa, menos ele. Casou-se jovem, com apenas vinte anos e assim seguiu sua vida de casado. Ludmila trabalhando como professora, ele em um escritório de contabilidade. Não tiveram filhos nesse período, mesmo tendo cobrança de seu pai. Não era feliz, mas levava sua vida como dava.

Com dois anos de casado Serginho estava em seu escritório quando o celular tocou. Atendeu e era sua mãe desesperada porque o pai tinha enfartado. Correu para o hospital e encontrou a todos chorando na sala de espera. Ficou lá abraçado com a mãe até receber a notícia que ninguém queria...

Seu Arlindo morrera.

No cemitério, vendo o caixão do pai descer à sepultura sua irmã mais velha colocou a mão em seu ombro e disse do último desejo de seu Arlindo: que ele fosse pai. Serginho ouviu a tudo calado, sem esboçar nenhuma reação.

Depois do enterro foi andar pelo calçadão pensando em sua vida, no pai, nos seus desejos reprimidos e tudo que deixara pra trás. Tinha apenas vinte e dois anos, muito para viver e não queria mais ser infeliz. Queria seguir suas vontades, anseios, mas não sabia como, o que fazer.

Andando viu uma boate gay que freqüentava antes de se casar. Lá ele conhecia rapazes como ele e via show de transformistas. Ele gostava de ver aqueles homens vestidos como mulheres apresentando show: verdadeiros artistas que não tinham vergonha de se expor como realmente eram.

A vergonha que ele tinha, que o seu pai impôs.

Foi ali que Serginho se tocou que não precisava mais ter uma vida falsa, não tinha mais que agradar a seu pai. Lembrou-se das palavras da irmã no enterro, olhou para o alto e disse: “sinto muito pai, mas agora eu vou atender aos meus desejos”.

Voltou para sua casa e chamou Ludmila para conversar. Contou a esposa que não agüentava mais aquela vida de mentira, não era feliz e queria se separar. Ludmila se desesperou, tentou de todas as formas convencer o marido do contrário, mas em vão. Na hora dele sair ela gritou perguntando se tinha outra mulher no meio. Serginho com a mão na porta virou para a esposa e respondeu “não tem mulher, tem eu”.

Foi para a casa da mãe e contou que estava se separando pra começar nova vida. Recebeu apoio e desejo de boa sorte. Alugou um apartamento na Lapa e decidiu começar sua vida do zero.

Com o tempo a vida de Serginho mudou completamente. Largou o emprego tradicional e colocou sua verdadeira vocação para fora. Era um artista e foi trabalhar em uma casa de shows voltada para turistas, imitando a Madonna.

Sim, show de transformismo como ele sempre admirara. Rapidamente se tornou a principal atração da casa: sua Madonna era considerada perfeita e Serginho conhecia o que era felicidade.

Mas faltava uma coisa.

Queria ter um diploma. Como casara cedo e teve que ir trabalhar largou os estudos, mas queria terminar a faculdade. Com vocação para artes tentou o vestibular para cinema e passou.

Pronto agora estava tudo completo. Livre das amarras do pai. conseguia ser como queria. De dia estudava, de noite fazia shows: assim era a nova vida de Serginho, que fez amizades na faculdade. Bem articulado, simpático, bonito, Serginho era o centro das atenções no curso - onde também tinha gente que lhe chamava a atenção.

Logo no primeiro dia de aula Serginho fazia anotações no caderno quando um rapaz se aproximou e perguntou se a cadeira ao lado estava vazia. Serginho levantou o rosto pra dizer que sim - e na hora seu coração gelou.

Viu um rapaz bonito e sorridente olhando para ele. Em pensamento Serginho disse “é ele”. Seu coração sabia, nunca sentira nada assim. O rapaz sentou-se e cumprimentou Serginho dizendo que se chamava Jofre.

Fizeram amizade imediata, fazendo parte da mesma turma. Viraram os melhores amigos, dupla em vôlei de praia, saindo sempre pra tomar um chopinho e Jofre fez de Serginho seu confidente: contando sua vida e suas confusões com as mulheres.

Jofre era mulherengo, uma mulher por dia e contava ao amigo suas aventuras. Serginho não contara sobre sua homossexualidade nem como ganhava a vida e sofria com aquela situação. Sentia-se amarrado como era junto a seu pai.

Uma noite Serginho estava de folga quando a campainha tocou. Era Jofre com duas mulheres, uma pizza e uma garrafa de uísque perguntando se podia entrar. Serginho engoliu em seco e respondeu que sim. Entraram e ficaram batendo papo, bebendo e se divertindo. Em determinado momento as meninas foram ao banheiro e Jofre quis conversar com o amigo.
Perguntou o que Serginho achara da morena e ele respondeu que era bonita. Jofre sorriu e deu um tapinha no ombro do amigo dizendo que era sua.
   
Serginho fingiu alegria, levou o copo de uísque à boca e Jofre perguntou se podia ir para o quarto de hóspedes com a loira. Serginho gelou e não conseguia dizer nada. Jofre botou a mão no rosto de Serginho e implorou que o amigo deixasse. Serginho com a mão de seu amado no rosto parecia flutuar, mas se conteve e respondeu que sim. Jofre deu um beijo no rosto do amigo e disse que lhe devia uma.

As meninas voltaram do banheiro e Jofre chamou a loira para ir ao quarto. A morena sentou ao lado de Serginho e comentou que nem sabia seu nome. Ele respondeu e ela disse que se chamava Dayse.

Serginho respondeu continuou bebendo. Dayse olhava para o rapaz e comentou “você é afim dele né?” Serginho assustado virou para a moça, que continuou: “só ele não percebe”.

Conversaram a noite toda e no fim Jofre e a loira saíram do quarto e sentaram no sofá com Serginho e Dayse. Jofre perguntou ao amigo como fora a noite e ele respondeu: “maravilhosa”.

Assim prosseguia a vida e a amizade entre os dois rapazes. Jofre perguntava o que Serginho fazia de noite que estava com quase todas ocupadas e ele respondia “trabalho”. Jofre queria saber que trabalho era e Serginho desconversava.

Serginho vivia como ele queria, mas as coisas já não estavam tão legais como no início. Estava completamente apaixonado, louco por Jofre e não sabia o que fazer. Jofre era um daqueles heterossexuais clássicos, mulherengo, machão, era capaz de encerrar a amizade com Serginho se soubesse que era gay. Serginho sofria aquele amor impossível, queria esquecer Jofre.

Mas não conseguia. Um dia na faculdade Jofre contava entusiasmado que conhecera uma mulher maravilhosa e sairia com ela de noite, perguntando ao amigo se ele tinha alguma dica de local para irem. Serginho, desolado e aborrecido com aquela história respondeu que não, Jofre ignorou e continuou falando da beleza e gostosura da mulher com a qual sairia.

De noite Serginho foi para a casa de show. Triste, se maquiava e pensava em Jofre quando avisaram que era hora dele ir ao palco. Subiu ao palco como Madonna começando a dublar “Like a Virgin” quando ouviu um grito: “Serginho!!”.

Quando olhou para a platéia era Ludmila, sua ex mulher. Pior: acompanhada de Jofre. Era Ludmila a mulher que ele tanto falara.

Serginho desesperado desceu do palco para falar com Jofre e Ludmila se meteu na frente. A mulher socava o ex perguntando se era para aquilo que ele tinha lhe deixado enquanto Serginho via Jofre ir embora sem poder fazer nada.

No dia seguinte Serginho tentou falar com Jofre em vão: o rapaz o ignorou. Foi assim durante toda a semana, até que Serginho não agüentando mais de tristeza parou de freqüentar a faculdade.

Trancou a matrícula, largou os shows e se entregou à depressão. Não saía mais de casa. Nunca fora tão infeliz na vida, nem nos tempos que era mandado pelo pai.
 
Um dia estava deitado e ouviu baterem na porta. Botou o travesseiro sobre a cabeça, não queria atender, mas a batida era insistente e, resignado, ele levantou pra ver o que era.

Abriu a porta e deu de cara com Jofre. Olharam-se um tempo e Jofre entrou, bateu a porta e deu um beijo apaixonado em Serginho.

A essência do perfume, a casca de ferida, o que vale a pena é amar. Todo amor que houver nessa vida.

sábado, 17 de novembro de 2012

Buraco da Fechadura - "Próxima Estação"


Neste sábado, mais uma edição da coluna de contos do compositor Aloísio Villar, a “Buraco da Fechadura”.

Próxima Estação

Metrô (muito) cheio. Seis e meia da tarde em um Rio de Janeiro chuvoso. Paula correu até a Cinelândia para que pudesse pegar o metrô com destino à estação Afonso Peña, na Tijuca, onde morava.

Mulher bonita, loira, 28 anos, boca carnuda, seios volumosos. Paula era o tipo de mulher que chamava atenção, ainda mais toda molhada e com a blusa branca encharcada que transparecia seu sutiã negro.

E era uma chuva daquelas... Daquelas que o carioca olha para o céu antes mesmo de começar a pingar ao notar as ameaçadoras nuvens negras e diz “lá vem desgraça”. Os pancadões de chuva que marcam o mês de janeiro no Rio de Janeiro, que deixam pessoas ilhadas, enchem ruas e desabam casas. Uma chuva dessas se apresentava ao povo carioca naquele dia.

Paula entrou na estação cheia, normalmente é cheia, mas em dia de chuva muito mais. Comprou sua passagem e se encaminhou para esperar o metrô. Irritava-se em ver os marmanjos olharem com volúpia sua blusa transparente e colocou os braços na frente dos seios.

Plataforma lotada - e o metrô veio mais cheio ainda. Empurra empurra tanto para entrar quanto para sair e Paula se espremendo, tenta e de tanto empurrar e ser empurrada consegue entrar.

Não teve jeito: teve que viajar em pé mesmo e apesar de ser um vagão exclusivo de mulheres, muitos homens se acotovelavam no espaço mostrando a total falta de respeito com leis. Vagão tão cheio que existia até dificuldade para respirar.

Paula pensava como estaria a Afonso Peña quando descesse, torcendo para não estar alagada, quando sentiu um homem se encostando nela. Irritada, olhou feio para ele e empurrando aqui e ali conseguiu mudar de lugar.

Por sorte na Central do Brasil o vagão esvaziou, com as pessoas saindo e pegando trens para vários pontos da cidade. Paula então pôde sentar e relaxar um pouco.

Encostou-se na janela e aos poucos o sono foi lhe vencendo. Dormiu e chegou até a sonhar com sua caminha aconchegante quando abriu os olhos assustada pensando estar em sua estação, mas ainda faltavam duas.

Até que percebeu que um homem não tirava os olhos dela.

O homem estava sentado no banco a sua frente. Negro, bonito, corpo atlético, bem vestido, usava óculos escuros e não parava de olhar Paula, era nem disfarçadamente, olhava mesmo.

A menina se constrangeu, tampou a blusa por causa da transparência, mas percebeu que ele não olhava seu corpo e sim seu rosto. Paula ficou bem incomodada, olhava para os lados, para o chão, o teto com o homem lhe olhando, pensou em reclamar, mas não teve coragem.
Sentia-se mal, violentada com aquele olhar, a impressão que tinha era que se ele pudesse lhe agarrava ali mesmo e a possuía na frente de todos. Deu graças a Deus quando chegou a sua estação e desceu.

Correu em disparada sem olhar para trás, não quis ver se o homem lhe acompanhava no olhar. Subiu a escadaria em velocidade e respirou fundo quando viu que a chuva continuava forte. Não tinha outro jeito: encarou a chuva.

Correu por três quarteirões com águas nas canelas até que entrou em casa. Toda molhada, foi recebida pelos pais, que se diziam preocupados com ela. Paula respondeu que estava tudo bem e Breno, seu noivo, apareceu da cozinha comendo um sanduíche de pernil e perguntando se estava tudo bem.

Paula irritada respondeu que não: não estava nada bem. Pegou uma chuva violenta, foi amassada dentro do metrô, teve que aturar tarados e ainda estava arriscada a pegar uma gripe. Breno perguntou que história era aquela de tarados quando a mãe de Paula pediu que ela trocasse de roupa para evitar a gripe e que lhe prepararia uma sopa.

Depois da sopa ficaram Paula, seus pais e Breno na sala vendo televisão até que o pai começou a roncar e a mãe pediu licença que eles iriam dormir. Subiram e Breno e Paula continuaram vendo tv. Paula pediu que o noivo se aproximasse e ficasse abraçado com ela e o rapaz negou-se argumentando que o filme estava ótimo.

Paula se irritou e reclamou que era sempre assim com ela em segundo plano. Perguntou por que ele não atendeu ao telefone quando ela ligou ao sair do trabalho e Breno respondeu que só vira depois e perguntou o que ela queria. Paula respondeu que era para ele buscá-la no metrô e assim não pegasse chuva.

Breno sem olhar a noiva totalmente concentrado no filme disse que não teria como ir. Emprestara o carro pro irmão e tinha ido até lá a pé. Paula preferiu falar mais nada e tentou assistir o filme na tv.

Trinta segundos depois ela desistiu e contou que estava com sono e iria dormir. Breno respondeu que tudo bem ela podia ir - que quando o filme acabasse desligaria tudo e iria embora pra casa. Paula então se levantou, deu um beijinho na boca de Breno (que nem olhou para a noiva, não tirando os olhos da TV) e foi dormir.

Tirou a roupa, colocou o pijama e foi até o banheiro escovar os dentes. Olhando o espelho se lembrou do homem do metrô e se perguntou o quanto era o desejo dele por ela. Paula há muito não se sentia desejada, o noivado com Breno caíra na rotina.

Olhando-se no espelho desabotoou um botão do pijama e se via no espelho. Desabotoou mais um, dois e deixou os seios quase a mostra. Colocou a mão por dentro e imaginou a mão do homem lhe tocando. Com toda a vontade e volúpia lhe possuindo.

Paula parecia em transe tocando seu corpo e sentindo a mão do homem do metrô quando Breno embaixo bateu a porta indo embora e ela despertou. Olhou-se no espelho e abotoou novamente o pijama, indo deitar.

O relógio tocou seis da manhã, lhe convidando para acordar. Era sexta-feira e Paula acordou com mais sono que o normal. Desceu e o café já estava servido por sua mãe. Tomou o café com leite e comeu o pão com manteiga com rapidez por estar atrasada. Despediu-se da mãe e saiu correndo, com a senhora reclamando que a vida não podia ser corrida assim.

Pegou o metrô, chegou no trabalho e não parou praticamente o dia todo. Comeu um lanche no almoço, ligou para o noivo perguntando se fariam algo de noite e Breno respondeu que não, pois ensaiaria com sua banda, mas poderiam ir ao cinema no dia seguinte. Irritou-se, desligou o telefone com violência e voltou ao trabalho.

Os amigos do trabalho convidaram para um chopp depois do expediente e ela aceitou. Paula deu risada com os colegas e até contou por alto a história do homem do metrô, sua amiga mais próxima, Fabiana, respondeu que dar “umazinha” com o desconhecido era até uma boa para esquentar sua relação e Paula apenas riu.

Pegou o metrô e como era mais tarde e todos iam para a farra sentou-se logo e abriu uma revista. Ficou lendo e quando abaixou para ver as horas percebeu o homem negro de óculos escuros novamente olhando para ela.

De novo ficou desconcertada, constrangida, mas dessa vez não se sentiu violentada, gostava do jeito daquele homem. Aos poucos ela parou de desviar o olhar e também começou a olhar para ele fixamente. Ficaram os dois se olhando sem dizer uma palavra, apenas o tesão exalava no ar e Paula em pensamento torcia para que ele falasse algo.
Mas o homem nada disse e ela conformada desceu na sua estação.

Deitou-se mais cedo e não conseguiu dormir pensando no homem e na forma que conseguia possuí-la apenas com o olhar. Virou-se na cama diversas vezes e nada do sono vir. Colocou a mão por dentro da calcinha e começou a imaginar o homem lhe pegando com vontade no vagão do metrô, encostando à parede, afastando sua calcinha e tomando seu corpo para ele. Os dois ali transando como dois pervertidos no balançar do trem do metrô que percorria os trilhos até a próxima estação.

Quando viu sua mão estava molhada de prazer então Paula sentiu-se a vontade para dormir.

No dia seguinte foi ao cinema com Breno ver um filme de guerra, gênero que odiava. Enquanto o rapaz entusiasmado via o filme e comia pipoca Paula enfurnada na cadeira só rezava para o tempo passar logo e ir embora. Depois do filme comeram uma pizza e Paula de bate pronto propôs ao noivo irem a um motel.

Breno respondeu que estava duro. Paula suspirou de raiva e disse que pagava, então ele topou. No quarto do motel Breno subiu sobre a noiva para transar e Paula deitada na cama não sentia nada apenas pensando no homem do metrô. Uns dois minutos depois que começou o ato Breno chegou ao orgasmo deitando ao lado de uma noiva frustrada.

No dia seguinte Breno foi ver o jogo do Vasco com seu irmão e Paula ficou em casa sozinha. Passou o dia na sala vendo tv com os pais e imaginando se veria seu “amante” no metrô.

Trabalhou na segunda ansiosa e entrou no vagão procurando por ele. Até que o encontrou sentado. Conseguiu depois de um tempo sentar-se a sua frente e ele não parou de olhar a ela, fixamente atrás daqueles óculos escuros que deixavam tudo mais sensual. O jogo de sedução estava estabelecido, sem nenhuma troca de palavras - apenas o desejo falando por eles.

E foi assim durante os dias.

Paula terminava de trabalhar e corria para o metrô na esperança de encontrá-lo e sempre conseguia. Por uma grande sorte pegavam sempre o mesmo trem e o mesmo vagão. Não trocavam uma palavra e Paula sempre descia na Afonso Pena sem olhar para trás, imaginando que o homem lhe seguia com os olhos como se quisesse devorá-la.

Duas semanas nesse jogo de sedução, até que ela resolveu ousar. Foi ao trabalho com decote para chamar sua atenção. Sentou-se à frente dele na volta para casa e sentiu que mexera com o homem. Não em seu semblante ou na forma de agir que era a mesma, mas mulher tem sexto sentido, entende dessas coisas e Paula tinha certeza que alcançara seu objetivo.

Resolveu abrir-se com a amiga Fabiana. Contou em todos os detalhes o que ocorria e perguntou o que fazer. Fabiana respondeu que a amiga não podia perder aquele homem e tinha que investir nele. Paula argumentou que era noiva e Fabiana revidou dizendo que Breno era um babacão e merecia ter a testa ornamentada.

Fabiana disse “vai lá, sai com ele que as coisas vão melhorar para você e dependendo do quanto ele for gostoso, se livre do Breno”.

Paula respondeu que a amiga estava certa e Fabiana mandou que ela se vestisse lindamente no dia seguinte e tomasse a iniciativa, fosse até ele. Paula respondeu que nunca fizera isso e Fabiana olhando sério para a moça falou “chegou a hora de fazer então, faz parte desse jogo”.

Paula concordou e no dia seguinte estava linda como nunca. Vestiu-se provocante, botou o melhor perfume e avisou em casa que talvez chegasse mais tarde. Aquele homem seria dela.

Trabalhou ansiosa e, mais ansiosa ainda, pegou o metrô a fim de voltar para casa. Sentou-se como de costume à sua frente, tentando tomar coragem de falar com ele. A estação Afonso Peña chegou e ela não desceu, desceria junto com ele e ali falaria.

Chegaram à última estação, Saens Peña - onde todos teriam que descer. O metrô parou e Paula ansiosa levantou e se encaminhou até a ele, até sua frente, só esperando que ele também levantasse para falar.

Até que o homem sentado ao lado dele levantou-se, pegou uma bengala branca e disse “vem Nelson”.  O “amante” de Paula levantou-se com dificuldade apoiado pelo amigo, pegou a bengala e dando o braço para ele, saiu do vagão.

O negro de óculos escuros era cego, não via absolutamente nada.

Os dois foram embora e Paula ficou ali parada sem ter o que fazer e como agir.
Arrumou coragem e foi pra casa. Abrindo a porta encontrou Breno no sofá vendo filme.
Andou até ele que se assustou com o semblante que a noiva apresentava. Breno levantou-se e perguntou qual era o problema.

Paula chorando começou a socar o peito de Breno gritando “ele é cego!! Ele é cego!!”.  O que os olhos não vêem o coração não sente.

sábado, 3 de novembro de 2012

Buraco da Fechadura - "A Rodoviária"


Neste sábado, o colunista Aloisio Villar traz mais um conto de sua coluna dedicada ao tema, a "Buraco da Fechadura".

A Rodoviária

Afonso acabara de pegar um táxi no Brás, bairro da capital de São Paulo. Era uma e meia da manhã de sexta para sábado e ele tinha que correr a fim de tentar comprar passagem para o último ônibus com destino ao Rio de Janeiro.

Tinha trinta e cinco anos de idade, um cara que muito viveu e ao mesmo tempo viveu nada.  Experiente e inteligente para algumas coisas, burro e imaturo para outras, era uma metamorfose ambulante: um carrossel de emoções.

Afonso estava triste no táxi e com enorme vontade de chorar, mas nunca foi de chorar na frente dos outros; já chega ter chorado na frente de Bianca, sua ex namorada, naquela noite.

Ela que o colocou naquele táxi e foi embora sem olhar para trás, enquanto Afonso acompanhou a moça com o olhar até que não conseguisse mais vê-la. Limpou as lágrimas disfarçadamente, para o taxista não reparar que estava triste.

O taxista começou a falar do engarrafamento que pegaram. Reclamou dizendo que era a feira dos chineses sendo montada e afirmou que um dia dominarão São Paulo. Afonso sorriu e tentou engatar um papo com ele sobre os chineses, tentando assim não pensar em Bianca e na hora.

O taxista, ágil, se livrou do engarrafamento e conseguiu em poucos minutos chegar à rodoviária. Afonso agradeceu, pagou e entrou correndo para tentar pegar o último ônibus.

A rodoviária estava vazia como poucas vezes Afonso vira: parecia uma rodoviária fantasma. Correu nas companhias e a maioria já parara de funcionar. Apenas uma viação ainda tinha ônibus para sair, mas não tinha mais vagas.

Afonso parou ali no meio daquela rodoviária vazia, sem ter o que fazer.

Pensou em ir até algum hotel próximo, mas além de não estar com tanto dinheiro tinha certeza que não conseguiria dormir e caso conseguisse estenderia seu tempo em São Paulo e o que ele mais queria naquele momento era se livrar da cidade o mais rápido possível.

Afonso tinha nada contra São Paulo. Ele viveu alguns dos momentos mais felizes de sua vida lá, mas especialmente naquela noite o que ele mais queria era chegar ao Rio de Janeiro, deitar na sua cama e chorar muito.
  
Pensou no que fazer e decidiu ir embora no primeiro ônibus da manhã. Voltou na viação e comprou para as seis da manhã. Comprou um lanche e sentou em uma cadeira. Olhou a hora: duas e meia, ainda faltavam três horas e meia para a partida.

Agora era oficial: era uma das piores noites da vida de Afonso, comparável à noite da morte de sua mãe, em que passou a noite acordado como um zumbi esperando o enterro.
Sentou, lembrou-se de toda a história e aproveitando que não tinha ninguém perto deixou rolar umas lágrimas.

Não conseguia acreditar naquele fim de noite.

Olhou as poucas pessoas daquela rodoviária: a grande maioria dormindo, outras lendo, algumas até namorando e lembrou que não era para ele estar ali. Naquele instante era para ele estar em um quarto de motel com Bianca, os dois se amando e reatando o namoro.

Mas deu tudo errado...

Afonso e Bianca namoraram um ano e meio. Conheceram-se pela Internet, ela em São Paulo, ele no Rio de Janeiro. Tiveram um namoro gostoso, recheado de carinho, companheirismo e a todos parecia perfeito, mas Afonso não era perfeito - longe de ser.

Não era fiel e Bianca começou a desconfiar do namorado. Um dia, bisbilhotando seu computador, descobriu toda a verdade e terminou com ele.

Apesar dos pesares Afonso gostava de Bianca, mas era fraco, imaturo e achava que um homem de verdade tinha que ter várias mulheres. Com isso perdeu a mulher certa, da sua vida. Só depois que perdeu Afonso se deu conta das bobagens que fazia e passou um ano correndo atrás da menina tentando reatar.

Comeu o pão que o diabo amassou. Viu Bianca deixar de gostar dele, conhecer novos homens, se apaixonar e começar a namorar um dos melhores amigos do ex. Afonso assistiu a tudo, sofreu todas essas humilhações calado. Vias as fotos e declarações apaixonadas do casal nas redes sociais e nada podia fazer: apenas sofrer.

Sem poder ser seu amor virou amigo de Bianca e muitas vezes confidente. Ouvia sobre seu namoro, as dificuldades, respirava fundo no outro lado da tela e dava conselhos. Aos poucos conseguiu colocar aquele amor que sentia em uma gaveta e trancá-lo, conseguia sobreviver sem Bianca.

Até que ela terminou o namoro e eles se reaproximaram. Afonso declarou que ainda amava a ex e Bianca respondeu que queria a verdade, queria que ele contasse tudo que fizera no namoro, pois, só assim conseguiria perdoá-lo e reatar.

Afonso então decidiu ir a São Paulo abrir o coração, contar tudo. Um ano e meio depois do fim o rapaz de novo iria a São Paulo ver a amada. Era tudo apenas para seguir protocolo. Ele contaria tudo, ela se sentiria aliviada, reatariam e passariam a noite juntos.

Chegou e deram um beijo apaixonado. Afonso tenso porque falaria  de coisas que nunca imaginou. Sentaram em uma lanchonete e ele começou a contar.

Contou todos os casos que teve, as traições e pediu perdão. A reação que Bianca teve não foi a que ele nem ela esperavam. Bianca sentiu-se muito mal com todas aquelas histórias e pediu para ir embora. Ainda pararam em uma pracinha, Afonso chorando em desespero tentava provar que lhe amava, não podia viver sem ela, mas tudo em vão.

Bianca respondeu que não dava mais, não confiava mais nele e pediu que ele fosse embora para o Rio de Janeiro.

Foi assim que ele chegou naquela situação da rodoviária.

Afonso tentava ler, mas não conseguia se concentrar. Foi à lan house da rodoviária, ficou uma hora, mas não tinha nenhum conhecido logado. Tentou ver se Bianca escrevera alguma coisa em suas redes socais, mas nada. Inquieto, triste Afonso andava como um zumbi pela rodoviária.

Encostou-se em uma pilastra. Fechou os olhos como se não quisesse estar ali e perguntando porque Deus não gostava dele, quando foi interrompido por uma voz feminina perguntando se ele sabia que horas eram.

Abriu os olhos e encontrou uma menina branca, com cabelos trançados como se fosse hippie e largo sorriso. Afonso pediu desculpas e respondeu que estava com o celular descarregado e não tinha como lhe responder. A menina contra argumentou que não queria saber as horas e perguntou apenas se ele sabia as horas.

Afonso sem entender aquele papo respondeu que não. Ela sorriu, fez um carinho em seus cabelos e respondeu “hora de se feliz” se afastando.

Afonso não entendera nada daquela história. Tentou pensar e decifrar, não conseguiu e virou-se para a menina que continuava andando perguntando como ela sabia. Ela virou e respondeu “porque nós é que fazemos essa hora e a sua chegou!!”.

Ok, agora Afonso estava perturbado e curioso correndo atrás da menina.

Ele perguntou quem ela era e a moça sorrindo respondeu que achara que ele não perguntaria. Disse que se chamava Jéssica e pediu que Afonso pagasse um milk shake para ela.

Foram até um fast food e Afonso pagou. Jéssica bebendo um de morango virou para Afonso e disse que tinha gente que achava que os chineses dominariam São Paulo, mas para ela seriam os italianos, com uma pizzaria a cada esquina.

Afonso cada vez se intrigara mais com aquela bela menina. Começaram a passear pela rodoviária e ele, ainda perturbado com aquela história de hora da felicidade, perguntou como fazer para ser feliz quando o mundo conspira contra.

Jéssica, terminando de beber seu milkshake e jogando fora o copo respondeu que o mundo nunca conspira contra: o que conspira é nossa cabeça, ela que nos trava e, muitas vezes, impede que sejamos felizes.

Afonso riu e falou que aquilo era uma bobagem perguntando porque alguém se boicotaria pra ser feliz. Jéssica respondeu “por medo”.

Afonso parou de andar e perguntou “Medo de ser feliz? Como assim?”. Jéssica ainda andando respondeu que as pessoas têm mais medo de serem felizes que da morte, porque a morte é inevitável e a felicidade um passarinho que se não for bem cuidado escapa de suas mãos.

Afonso continuou parado ouvindo a menina que disparou: “vai ficar aí parado”. Ele então se apressa e lhe acompanha na caminhada.

Sentam e Afonso, que sempre foi um cara reservado e nunca gostou de se abrir com os outros, resolveu contar para aquela desconhecida toda sua história e como parara na rodoviária àquela noite. Jéssica ouviu a tudo atentamente e no fim Afonso perguntou se era um monstro por ter feito tudo que fez com Bianca.

Ela para uns segundos e responde que não.

Ele não era santo, nem monstro: apenas um ser humano comum com suas qualidades, defeitos e que teria que aceitar que tudo que fazemos na vida tem um retorno e ele teria que conviver com a conseqüência de seus atos.

Afonso, resignado, olha para o chão e diz “perdi Bianca para sempre” Jéssica responde que o para sempre é muito tempo e ninguém sabe nem o dia de amanhã, se amanhecerá vivo, não tem nem como prever o que acontecerá, mas que uma certeza ele poderia ter: ela estaria sempre na sua vida porque só gostando muito de alguém uma mulher passa por tudo aquilo e ainda aceita o homem em sua vida.

Afonso que até então estava triste e com raiva de Bianca por tê-lo feito ir a São Paulo a toa caiu na real e disse “é, ela vem sendo muito bacana comigo”. Jéssica então aconselhou que ele segunda-feira entrasse na Internet e falasse com ela como se nada tivesse acontecido, como se ele nem tivesse ido a São Paulo.

Curioso com aquela menina que salvara sua noite foi a vez de Afonso querer saber mais sobre Jéssica. Ela respondeu que sua vida era nada demais. Estudava veterinária, tinha um irmão e estava voltando pra casa cheia de saudades da família.

Afonso perguntou o que ela fora fazer em São Paulo e brincando Jéssica respondeu que fora numa missão secreta, recebendo ordens e que se lhe contasse teria que matá-lo.

Afonso riu e falou que Jéssica era muito gente boa e que o amor que ela tinha pela vida contagiava.

Jéssica então suspirou fundo e respondeu que nem sempre fora assim. Sofreu um grave acidente de carro com o noivo seis meses antes e ele morrera no acidente. Foi difícil para ela aceitar o ocorrido. Chorou muito, sofreu, mas que cuidaram muito bem dela no período e lhe mostraram a importância da vida e que ela nunca acaba.

Afonso estava fascinado pela moça e nem viu a hora passar. Quando percebeu faltavam apenas dez minutos para o ônibus partir e triste disse que teria que se despedir de Jéssica e ir embora. Ela riu e disse que ele não se livraria tão fácil assim dela, estava no mesmo ônibus dele para o Rio e no banco ao lado do dele.

Afonso perguntou como ela sabia que era o do lado e Jéssica respondeu que vira pelo bilhete em sua mão. O rapaz gargalhou e os dois partiram.

Encararam numa boa as seis horas de viagem e ao chegar no Rio Jéssica passou o telefone de sua casa e que quando ele quisesse poderia ligar. Deu um selinho em sua boca e andando gritou “é hora de ser feliz!!”.

Os dias passaram e Afonso tratou Bianca na Internet como se nada tivesse acontecido, com excelente humor e tentando fazer com que uma assustada Bianca se sentisse a vontade. Com o tempo venceu sua resistência e conseguiu fazer com que ela relaxasse.

Quando Bianca foi almoçar Afonso decidiu ligar para a casa de Jéssica e agradecer seu conselho, segue a ligação:

- Afonso: Alô, é da casa da Jéssica?
- Mãe: Sim, é a mãe dela, quem fala?
- Afonso: Aqui é o Afonso, um amigo dela, poderia falar com ela?
- Mãe: Sinto muito, mas não dá, infelizmente a Jéssica morreu faz seis meses.

Afonso gelou e gaguejando perguntou:

- Afonso: Como assim senhora? Estive com ela nesse fim de semana.
- Mãe: Ela morreu há seis meses num acidente de carro com o noivo, os dois morreram, que brincadeira sem graça é essa?

Afonso conseguiu contornar a situação e pegou o endereço do cemitério onde ela estava enterrada.

Chegou ao local, andou por ele e conseguiu achar a lápide. Uma foto de Jéssica estava lá, linda como ele conheceu, com o sorriso largo que o encantara e os dizeres “Nada temo se acredito na vida eterna”.

Afonso ajoelhou-se, fez uma oração e agradeceu a menina por tudo. Levantou-se, olhou para o céu e pediu desculpas a Deus por achar que não gostava dele. Deu uma última olhada para a foto de Jéssica na lápide, mandou um beijo e foi...

... Foi ser feliz.

sábado, 20 de outubro de 2012

Buraco da Fechadura - "Prazer na dor"



Neste sábado, mais uma edição da coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a “Buraco da Fechadura”.

Prazer na dor

Silvana era uma mulher independente, bem resolvida. Na altura de seus quarenta anos de idade era casada com Fábio há quinze e mãe de dois filhos, um de doze e outro de dez. Era o que podíamos chamar de uma pessoa feliz.

Formada em psicologia, especializou-se em sexo, tornando-se a mais importante sexóloga do Rio de Janeiro. Atendia inúmeras pessoas por semana, lançou livros onde falava de sexo e essa popularidade fez com que ganhasse um programa de rádio todos os dias: de onze à meia noite.

O programa de rádio era o xodó de Silvana.

Lá ela ouvia casos dos ouvintes, que contavam sobre suas vidas sexuais e suas dúvidas. Silvana ouvia a tudo atentamente e depois dava conselhos. Algumas histórias eram bizarras, como o rapaz que ligou desesperado por estar com uma garrafa de refrigerante entalada no ânus. Contudo Silvana tinha que conter o riso e responder a tudo com seriedade.

Na tarde seguinte, na hora do almoço, Silvana sempre se reunia com as amigas para almoçar. Gargalhavam lembrando as histórias da noite anterior. Lá Silvana deixava transparecer todo seu desdém e deboche com os problemas sexuais de seus ouvintes. Na tarde seguinte do caso do rapaz em especial pediram um refrigerante de dois litros e tentavam imaginar como o pobre coitado se entalou.

Fábio, empresário de uma multinacional, comunicou à esposa que teria que passar um mês na Alemanha, em treinamento. Silvana, apaixonada pelo marido mesmo com quinze anos de casados, lamentou a situação, mas compreendeu e dedicou-se vinte e quatro horas ao trabalho.

No período de viagem de Fábio ocorreu algo que mudaria a vida de Silvana.

Silvana atendia normalmente aos ouvintes quando entrou no ar a ligação de um homem com voz grossa, bonita como a de um cantor. Silvana perguntou qual era sua dúvida e o homem respondeu que não tinha nenhuma, apenas queria contar a sua história.

Silvana tentou interromper dizendo que o programa não era para contar histórias, mas tirar dúvidas quando o homem começou seu relato. Apresentou-se como Lord Perversus e era dominador, adepto do BDSM.

sábado, 6 de outubro de 2012

Buraco da Fechadura - "Máscara Negra"


Neste sábado, mais uma edição da coluna de contos do compositor Aloisio Villar, a "Buraco da Fechadura".

Máscara Negra

Máscara Negra é o nome de uma antiga marchinha de carnaval de Zé Kéti e Pereira Matos. Ela expressa todo o sentimento de um arlequim que se apaixona pela colombina em uma noite de carnaval.

“Quanto riso! Oh! quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão.
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão”.

Esses são versos da canção de carnaval. Marcelo não era um arlequim. Gracinha não era uma colombina, mas o amor deles explodiu na folia de Momo.

Marcelo era um garotão do interior de Bauru, interior de São Paulo que veio estudar Medicina no Rio de Janeiro e se apaixonou pela cidade. Mal voltava à terra natal nas férias e planejava fixar residência na Cidade Maravilhosa.

O carnaval se aproximava: seria o primeiro de Marcelo na cidade e os pais mandaram dinheiro para que ele pegasse um ônibus e passasse a data em Bauru. Marcelo chegou a arrumar suas coisas e se encaminhar para a rodoviária, mas na hora de entrar no ônibus ouviu ao fundo um bloco passando e anunciando o carnaval.

Pensou duas vezes, pediu desculpas ao motorista e foi embora. Mais tarde ligou para os pais dizendo que passaria o carnaval no Rio e que na quarta-feira de cinzas devolveria a eles o dinheiro da passagem.

Comunicou ao amigo Beto que passaria o carnaval no Rio de Janeiro e perguntou qual seria o roteiro. O amigo mandou que ele se preparasse porque cairiam na gandaia.

Marcelo naquela sexta-feira assistiu o desfile das escolas de samba de São Paulo na tv comendo pipoca, bebendo cerveja e dormiu quase de manhã. Dormiu uns quinze minutos apenas e socaram a porta. Foi atender e era Beto com bermuda, camiseta branca de bolinhas pretas, óculos escuros e chapéu – em uma animação de dar inveja.

Marcelo tentou argumentar que estava cansado, mas Beto sentou no sofá e deu dez minutos para que o amigo se arrumasse e fosse com ele ao Cordão da Bola Preta.

O Cordão da Bola Preta é o mais antigo bloco de carnaval do Rio de Janeiro, fundado em 1918. Em 2011, segundo dados da PM, tornou-se o maior bloco carnavalesco do mundo ao arrastar cerca 2,3 milhões de pessoas pelas ruas do centro da cidade. Superando assim o não menos famoso Galo da Madrugada, que desfila na cidade de Recife.

O Bola Preta sai tradicionalmente todo sábado de carnaval na Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro. O desfile começa por volta das 9 da manhã e vai até as duas da tarde. O Bloco também sai na sexta-feira imediatamente anterior à abertura do carnaval, no mesmo local.
Suas cores são o branco e o preto, e o uniforme oficial é qualquer roupa branca com bolinhas pretas. Muita gente vai fantasiada e até monta alas.

O Bloco possui uma marchinha muito conhecida, a Marcha do Cordão da Bola Preta, composta por Vicente Paiva, conhecido músico brasileiro, que faleceu em 1964. É considerado o hino da agremiação e mundialmente conhecido. Os desfiles do bloco são abertos com esta marchinha e encerrados com a não menos famosa música Cidade Maravilhosa.

Marcelo se deslumbrou com aquele ambiente cheio de pessoas bonitas e felizes. Beto foi logo dando tequila ao amigo, que depois de três doses já se encontrava bem “alegre”.

Naquele momento, sambando e pulando a alegria de estar no carnaval do Rio de Janeiro que ele notou a morena vestida de chapeuzinho vermelho.

Com a coragem de quem já enchera a cara Marcelo chegou perto da menina e perguntou quantos caras já haviam chegado nela dizendo que queriam ser o lobo mau. Ela respondeu que uns doze. Marcelo sorriu e disse “que bom”, porque detestava ser original. A menina sorriu e se apresentou como Gracinha.

Marcelo emendou que muitos também já deveriam ter dito que ela fazia jus ao nome. Gracinha sorriu de novo e disse que gostara dele. A coisa estava boa para Marcelo.

Ficaram conversando, pulando e se divertindo juntos. Nem sabia mais aonde estava Beto e nem queria saber, só curtir aquela “gracinha” que conhecera.

Jogavam confete e serpentina um no outro, spray com espuma e Gracinha tentou ensinar Marcelo a sambar, até que tocou “máscara negra”. Foi o momento que Marcelo tomou coragem e beijou Gracinha.

De lá foram para a Banda de Ipanema, outro grande point do carnaval carioca e depois assistiram o pôr do Sol no Arpoador.

Marcelo tentava descobrir mais sobre a menina, mal conhecera e estava completamente apaixonado. Gracinha desconversava e respondia para que eles curtissem o carnaval e só pensassem nisso quando ele acabasse. Ele aceitou o argumento e a moça perguntou se ele já desfilara em alguma escola de samba.

Marcelo respondeu que não. Gracinha pegou o celular e ligou para um amigo diretor da União da Ilha perguntando se tinha como arrumar fantasia para o desfile. Ela desligou e pegou a mão de Marcelo mandando que lhe acompanhasse. Ele perguntou para onde e ela respondeu: “Cidade do Samba”.

Chegando lá, Marcelo ficou deslumbrado com aqueles barracões todos que fabricavam sonhos e com as manobras cuidadosas e tensas dos carros em direção a Marquês de Sapucaí, local dos desfiles.

Gracinha apresentou Marcelo ao diretor, que lhes apresentou a uma chefe de ala que contou que tinha duas fantasias sobrando. Mostrou a eles, que gostaram e pegaram as fantasias para desfilar no dia seguinte.

Marcelo que nunca passara carnaval fora da Bauru agora estava no domingo de carnaval numa concentração de escola de samba na Sapucaí para desfilar na União da Ilha. Desfilou ao lado de sua amada em oitenta minutos que nunca mais sairiam de sua mente.

No dia seguinte se encontraram em blocos e na terça também. O carnaval chegava ao fim e Marcelo se preocupava com o futuro deles. Gracinha mandou que não se preocupasse e pediu o número do celular do rapaz, que o passou.

Marcelo também pediu o dela, mas Gracinha respondeu que estava sem telefone. Mas que ligaria para ele.

Marcelo perguntou quando veria a amada de novo e Gracinha lembrou que o Monobloco saía pelas ruas do centro da cidade no domingo e pediu que ele fosse para lá, que ligaria e eles se encontrariam.

Marcelo aceitou e Gracinha lhe deu um beijo apaixonado partindo e deixando seu amado com uma dor no peito e sensação de perda.

Sensação que se confirmou domingo, quando Marcelo foi com Beto no Monobloco e enquanto Beto se divertia o rapaz não parava de olhar o celular esperando que Gracinha ligasse. A moça não apareceu, nem ligou.

Também não ligou na semana seguinte, nem na outra, nem na outra..não ligou nenhuma vez.

Marcelo se deprimiu. Não conseguia mais comer, dormir. Passava o tempo todo olhando o celular na esperança de receber uma ligação de Gracinha. Faltava às aulas e quando ia se encontrava disperso,vagava pela cidade em busca de Gracinha e até na Cidade do Samba foi para ver se alguém sabia dela, mas o barracão da Ilha estava fechado.

Os amigos começavam a se preocupar, principalmente Beto que era seu melhor amigo. Um dia Beto foi até a casa de Marcelo insistir para que o amigo saísse com ele, Marcelo relutou, não queria sair de casa, mas Beto insistiu tanto que não teve outro jeito. Perguntou aonde iriam e Beto respondeu que comprar presente de aniversário de um primo seu.

Marcelo não entendeu quando Beto o conduziu para dentro de um sex shop. Beto respondeu que compraria um presente de gozação para o primo. Enquanto Beto escolhia um consolo para o primo Marcelo olhava a tudo na loja e achava bizarro. Viu umas bonecas infláveis e perguntou a Beto se alguém conseguia ter tesão naquilo.

Até que se assustou na frente de uma. Marcelo olhou fixamente a uma das bonecas infláveis e se espantou dizendo baixinho “Gracinha...”

A boneca era a cara de Gracinha.

Marcelo se perturbou com a boneca e a incrível semelhança com Gracinha. Beto perguntou se estava tudo bem e Marcelo respondeu que sim. Beto olhou a boneca e rindo disse “é muito feia”, chamando o amigo para ir embora. 

Marcelo foi para casa e mais uma vez não conseguiu dormir, mas agora o motivo era diferente. Ele não conseguia esquecer a boneca e a incrível semelhança com seu amor. Quando conseguia cochilar sonhava com Gracinha e com a boneca.

Logo cedo na manhã seguinte Marcelo voltou ao prédio que ficava o sex shop e da vitrine ficou olhando a boneca. A atendente perguntou se ele queria alguma coisa e Marcelo respondeu que não.

Fez isso várias vezes durante dias até que tomou coragem de entrar na loja. Chegou perto da boneca se impressionando cada vez mais com a semelhança e quando atendente chegou perto pegou um dvd pornô e disse que iria levar.

A fixação de Marcelo com a boneca aumentava cada vez mais. Durante meses voltava quase todos os dias a loja para olhar a boneca e arrumava alguma coisa para comprar. Comprou algemas, cremes, joguinhos eróticos, óleos, dvds, tudo desculpa para ficar próximo a boneca.

Um dia se assustou ao chegar e ver um homem manuseando a boneca e lhe pegando para comprar. O homem levou ao balcão, perguntou quanto era, a atendente respondeu e ele disse que iria levar.

Marcelo gritou “espera” e ofereceu o triplo de dinheiro pela boneca. O homem se assustou e Marcelo pediu desculpas contando que era coisa pessoal.

Levou em um caixote, sentou na sala e encheu a boneca. Colocou em uma cadeira e ficou horas olhando para ela.

Em determinado momento levantou, pegou a boneca e começou a beijar, acariciar como se quisesse fazer sexo e abaixou a calça. 

Naquele momento Marcelo caiu em si e gritou. Foi até a cozinha, pegou uma faca e rasgou a boneca pelo braço esquerdo. Ela esvaziou de forma acelerada. Marcelo pegou o resto da boneca, levou até o Arpoador e jogou nas águas.

O carnaval chegou. Muito rapidamente passou um ano do carnaval em que Marcelo conheceu Gracinha e o rapaz foi até o Bola Preta com Beto na esperança de encontrar Gracinha. Nada. Foi até a Banda de Ipanema e nada também.

Desolado, foi sozinho até o Arpoador e ficou sentado nas pedras lembrando Gracinha e finalmente chegando à conclusão que nunca mais veria a moça.

Até que, olhando o mar, notou uma pessoa nadando nele em direção às pedras. Achou estranha aquela cena e a pessoa chegando mais próxima notou que era uma mulher.

A mulher saiu das águas e escalou as pedras até o local que ele estava. Ela chegando próxima e Marcelo tomou um susto: era Gracinha!!

A moça sorriu para ele. Marcelo reparou que Gracinha tinha uma enorme cicatriz no braço esquerdo. Lembrou-se da boneca e gaguejou, não conseguia falar nada. Gracinha colocou o dedo na boca do rapaz como para que ele não falasse nada e disse “vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval” dando um beijo apaixonado em Marcelo.

Amor não tem que ser entendido: tem que ser vivido em sua plenitude. Quanto riso, quanta alegria...