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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Bissexta - "Muito Ouro, Poucos Tolos"


Nesta segunda feira, véspera do aniversário do blog, a coluna "Bissexta", do advogado e grande amigo dos oficiais de justiça Walter Monteiro (em foto comigo ao final deste post, em Canela), fala um pouco não somente do blog como especula os motivos que podem ter me levado a batizá-lo com este nome.

Como expliquei no programa "Loucos Por Futebol" - que, aliás, terá reprises hoje às 17:30 e às 02 da manhã e amanhã às 20 horas, na Espn Brasil - o título do blog vem sim da canção, em especial do sentimento que Raul Seixas expressa de ter conquistado tudo em termos materiais mas ainda se sentir vazio. 

Era o que sentia àquele momento, de certa forma ainda um pouco hoje - mas sobre isso falarei amanhã. Se fosse resumir em um verso da canção, seria nestes: "eu devia estar contente por ter um emprego / sou um dito cidadão respeitável / e ganho 4 mil cruzeiros por mês". Mas a canção como um todo representa o espírito inicial do blog.

Vamos ao texto, nesta programação especial de aniversário. Hoje, amanhã e quarta teremos vários posts e colunas especiais. O vídeo é uma versão da canção interpretada por Caetano Veloso, que eu não conhecia e gostei muito. Ele também vale pelas imagens dos tempos da ditadura e redemocratização do país.

Muito Ouro, Poucos Tolos

Eu já perdi a conta de quantos artigos escrevi aqui para o Migão. Um montão deles, é fato [N.do.E.: contando com este, são 75].

Até do aniversário do Blog eu já falei. Como tenho o péssimo hábito de não arquivar os textos que escrevo (ou arquivá-los de forma caótica, em diferentes computadores), preciso confiar na memória para não repetir em 2012 o que disse em 2011. Ou, pior ainda, desdizer agora o oposto do que disse antes, que é outra música do mesmo Raul que deu nome ao blog.

Aliás, por que cargas d´água o blog se chama Ouro de Tolo?

Nunca perguntei, nunca entendi. Eu conheci o Editor Chefe em uma lista de discussão de rubro-negros enlouquecidos. Tem loucos de todo gênero por ali, mas o Migão cumpre um papel muito especial: é o pessimista de plantão. Eu o conheço há quatro anos, mas tem quem conheça há 10 e durante toda essa década ouviu a mesma conversa monocórdica: o Flamengo será rebaixado, o treinador é um imbecil e tem sempre um jogador em particular para canalizar todo o ódio migônico.

Para quem conhece o Editor só dessas listas, só dá para concluir que o blog leva esse nome em homenagem aos versos “ah, mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado”.

Hoje mesmo [N.do.E.: a coluna foi escrita na última sexta feira] tinha gente duvidando do Editor ao vê-lo sorridente em uma foto. Que fama, hein, caro Chefe?

Por outro lado, é possível imaginar que a inspiração venha de outro trecho: “eu devia estar sorrindo e orgulhoso, por finalmente ter vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada”. Assim são os colunistas aqui do blog, gente que venceu na vida, que não ganhou nada de mão beijada, que batalhou e correu atrás e hoje vive melhor que a geração dos pais.

Seria o caso da gente se ufanar a todo momento do sentimento do dever cumprido, sei lá, cultivar até um certo ar pedante para comemorar nossas conquistas. Mas a gente segue assim, sorrindo, preferindo dividir semanalmente com o leitorado nossas impressões da vida.

Porque a gente tem a grande vantagem de pelo menos saber que é “humano, ridículo, limitado, que só usa 10% da cabeça animal, acreditando contribuir com nossa parte para o nosso belo quadro social”. Será que foi daí que o Migão sacou o nome?

Sei lá, o Migão fundou o blog na perspectiva de dar vazão ao seu instinto produtor de ideias. Podem olhar lá no comecinho de tudo que ele postava freneticamente: entretanto, era um lance dele, das coisas dele, do modo dele ver o mundo.

Mas aos poucos o blog foi ganhando outra feição: foi virando uma revista eletrônica plural, onde convivem diferentes linhas de pensamento, onde os temas são muito variados, onde impera a diversidade.

E isso foi algo natural, não planejado, sem dificuldades intrínsecas. Bom, como o Editor Chefe é ranzinza, “ele deve estar contente por ter conseguido tudo que quis, mas decepcionado por ter sido tão fácil conseguir”. Daí a homenagem a Raul Seixas.

Eu olho esses versos, todos os versos, não consigo encontrar uma explicação definitiva. Eu acho até que na canção original o finado Raul começou bem, mas como terminou “vendo um disco voador no cume calmo do que seus olhos viam”, estava revelando a todos que concluíra a letra já embalado por seu passatempo predileto naquele comecinho dos anos 70, que era se entregar de corpo e alma às experiências psicotrópicas. Quem é que vê discos voadores por cima das “cercas embandeiradas que separam os quintais”? Só um doidão mesmo...

É curioso que uma letra, digamos, lisérgica, tenha batizado esse nosso bloguezinho. Eu digo nosso porque ele é uma construção coletiva, não apenas dos colunistas daqui, mas do público leitor, altamente qualificado. É uma delícia dialogar com os leitores daqui, é certo que há uma ferramenta louca que barra a turma de baixo potencial cognitivo já na entrada. Foi Raulzito quem desenhou, lá do céu, essa magia toda, que só deixa a gente enxergar ouro nessas páginas virtuais.

Porque, acreditem, apesar do nome um tanto quanto infame, o que menos se vê aqui no blog é gente tola.

Que venham outros aniversários. Ein Prosit!


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Final de Semana - "O Trem das Sete"



Nossa música para o final de semana é uma tremenda alegoria: "O Trem das Sete", de Raul Seixas.

A letra originalmente significa uma espécie de "Juízo Final", mas pode ser entendida - e deve - como um momento de transição na vida de todos nós.

Gostaria de colocar a excelente gravação do cantor Zé Ramalho, mas infelizmente o recurso "incorporar" não está disponível. Fiquemos, então, com a versão do autor, em uma rara gravação ao vivo.

Reflitam.

"Ói, ói o trem, vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem
Ói, ói o trem, vem trazendo de longe as cinzas do velho éon

Ói, já é vem, fumegando, apitando, chamando os que sabem do trem
Ói, é o trem, não precisa passagem nem mesmo bagagem no trem

Quem vai chorar, quem vai sorrir ?
Quem vai ficar, quem vai partir ?
Pois o trem está chegando, tá chegando na estação
É o trem das sete horas, é o último do sertão, do sertão

Ói, olhe o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado, suspenso no ar

Vê, é o sinal, é o sinal das trombetas, dos anjos e dos guardiões
Ói, lá vem Deus, deslizando no céu entre brumas de mil megatons

Ói, olhe o mal, vem de braços e abraços com o bem num romance astral"

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

20 anos sem Raul Seixas

Hoje, 21 de Agosto, completam-se 20 anos da passagem para outro plano do grande cantor e compositor Raul Seixas, falecido precocemente aos 44 anos.

Como homenagem deste blog, a letra da música que deu o batismo a este espaço: Ouro de Tolo.

Ouro de Tolo

(Raul Seixas)

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...

Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...

Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

Ah!
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...