terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A Médica e a Jornalista - "Explicando a Síndrome Nefrótica"


Neste dia de Natal, a coluna "A Médica e a Jornalista", da Anna Barros, explica a meu pedido uma doença muito pouco conhecida: a síndrome nefrótica. Digo "a meu pedido" pois tive um parente próximo acometido com a doença no início deste mês e, embora esteja tudo relativamente bem agora, o susto inicial foi grande.

Aproveito para reiterar aos leitores um desejo de Feliz Natal.

Explicando a Síndrome Nefrótica

A Síndrome Nefrótica e uma doença que acomete os rins e da qual poucas pessoas fora do meio médico falam. Ela é caracterizada por perda proteína na urina, acima do valor normal, deixando-a espumosa.
 
A definição principal foi feita pela Dra Solange Baruki, especialista pela Sociedade Brasileira de Nefrologia, que trabalha nas Clínicas de Doenças Renais e na Assistência Renal Total. Além disso, é uma amiga muito querida, que se formou comigo na Universidade Gama Filho, em 1996.

O sintoma que pode abrir o quadro da Síndrome Nefrótica é o edema, o popular inchaço, em membros inferiores e palpebral. Dependendo do valor da proteinúria, pode evoluir para a anasarca, que seria um edema generalizado. 
 
A proteinúria é o excesso de proteína na urina. O valor da proteinúria para ser considerada nefrótica, deve ser acima de 3,0g em 24h. Na criança, o valor é de 50 miligramas/Kg. Isso ocorre por aumento da permeabilidade dos glomérulos renais às proteínas. 
 
Além do edema, temos hipercolesterolemia, que é o aumento do colesterol no sangue, principalmente o LDL (colesterol ruim ) e queda de albumina no sangue. Pode acontecer também a desnutrição, nos casos mais graves de proteinúria. E também podem aparecer sintomas relacionados à trombose venosa e às doenças vasculares, incluindo a coronariopatia. Os fatores predisponentes para a ocorrência desses sintomas são: a hiperlipidemia e o aumento do estado de hipercoagulabilidade. A hipercoagulabilidade é a tendência a formar mais coágulos, que podem vir a se tornar trombos.

A Dra Solange revela que a doença pode surgir em qualquer faixa etária. “Dependendo da causa, pode ocorrer em qualquer faixa etária. Nas crianças e adolescentes, pode ser secundária às doenças reumatológicas, autoimunes, idiopáticas. E no paciente idoso, pode ser por neoplasia”, concluiu ela. E a nefrologista acrescenta que há uma doença comum, que pode cursar com proteinúria nefrótica, que é a Diabetes melitus.

A Síndrome Nefrótica pode ser primária , quando a doença se instala apenas no rim, como na doença de lesão mínima, que é comum nas crianças na faixa etária de 5-7 anos, ou secundária, quando existem outras doenças associadas. As causas secundárias podem ser, então, a Diabetes melitus, Lupus eritematoso sistêmico, Sarcoidose, Neoplasias, Hepatite B e HIV.

As principais complicações da doença são: desnutrição; doença tromboembólica (sendo a mais comum trombose venosa de MMII); infecções bacterianas, assim como as infecções cutâneas. Além de pneumonia, trombose de veia renal , acidente vascular encefálico, coronariopatia e uma evolução para insuficiência renal crônica, necessitando de hemodiálise. A hemodiálise é o método usado para depurar as substâncias do rim quando ele não consegue mais realizar adequadamente as suas funções.

Um dos principais diagnósticos diferenciais é com a Glomerulonefrite, que é uma doença que se caracteriza também por edema e proteinúria, mas em que há um aumento da pressão arterial, a hipertensão. “Na Glomerulonefrite ocorre um aumento de células inflamatórias, lesivas aos glomérulos renais, e não há um aumento da permeablidade às proteínas. Na glomerulonefrite não temos proteinúria elevada”, destacou a dra Solange.

Espero que tenham conhecido um pouco sobre a Síndrome Nefrótica. Aproveito para desejar a todos um Feliz Natal! Não se esqueçam do verdadeiro sentido, que é o nascimento de Jesus.

Forte abraço e até a próxima,
Anna Barros
 
(Foto: Gramado/RS. Acervo Pessoal)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Orun Ayé - "E por falar em saudade"


Excepcionalmente nesta segunda feira, véspera de Natal, a coluna “Orun Ayé”, do compositor Aloísio Villar, traz uma mensagem de Natal aos leitores.

E por falar em saudade

Para início de conversa. Se você está lendo essa coluna isso significa dois sinais. Um é que você tem nada pra fazer, já que hoje é véspera de Natal e está de frente a um computador. Que tal levantar e ajudar as pessoas?

A segunda é que o mundo não acabou sexta-feira. Que alívio... Ou não, caso você tenha detonado o cartão de crédito.

Como eu disse acima hoje é véspera de Natal. Dia do nascimento de Jesus Cristo - também de Joel Santana, mas esse não vamos levar em consideração.

Um dia que estamos com a sensibilidade mais à flor da pele. Reunimos a família, colocamos Simone para tocar, rabanada, pernil, peru na mesa, as crianças esperam por Papai Noel e aquele cunhado que você não gosta bebe demais, começa a falar besteiras e a noite feliz vira de guerra.

Mas principalmente: um dia de saudade.

Muita gente não gosta do mês de dezembro, principalmente depois do dia quinze. A programação da TV fica chata, o futebol de férias e muita gente torce o nariz para Natal e ano novo.

Muita gente do nada vira socialista. Culpam o pobre Papai Noel por mazelas como crianças pobres não receberem presentes e xingam as pessoas que em vez de enaltecer aquele que devia ser o homenageado da noite preferem correr para shopping center e demais lojas para compras desenfreadas.

Entretanto, a verdade não é essa. Vocês já viram alguma criança não gostar de Natal? E não é apenas porque recebem presentes, porque no dia do aniversário e no dia das crianças também recebem.

Elas gostam porque tem menos motivos para saudades que adultos.

Normalmente, quando cresce o ser humano sempre acha que quando era criança a vida era muito melhor. Ontem mesmo vi algumas coisas na internet relativas ao início de 1991, e por alguns segundos senti saudades. Depois pensei “está louco? Foi uma das piores fases da sua vida”. O ser humano tem lembranças: vive delas.

A gente quando envelhece vira refém de nossas lembranças.

E o adulto quando chega à fase de Natal, vê o anúncio do show de Roberto Carlos na TV, as árvores de Natal, as antigas canções natalinas e se lembra da sua infância. Lembra de Natais que passou, casas que morou, pessoas que estavam, a época que aquilo foi vivido. A coisa é muito mais abrangente que o Natal: envolve toda uma fase da vida.

Pior é quando existem perdas. O adulto geralmente já perdeu alguém querido. Seja pela distância que o tempo impõe ou mesmo pela morte e isso dói mais ainda. Você olhar para o sofá de casa, a cadeira na mesa, ouvir as risadas, a hora do brinde e sentir que está faltando uma pessoa.

Eu passo por isso tudo que descrevi acima. Tive Natais maravilhosos aqui em casa quando criança, a mesma casa que vivo até hoje - e a única pessoa que restou daquele tempo sou eu.       

Meus tios casaram-se e seguiram suas vidas, minha avó foi morar em outra cidade, minha bisavó e minha mãe morreram. Minha bisavó pouco depois do melhor Natal de minha vida. Ainda criança com a casa cheia onde eu e outras crianças quebramos o sofá de tanto pular nele e eu descobri que o Papai Noel era o motorista da minha escola.

A vida passa, a gente cresce. A casa ficou vazia e nenhuma dessas pessoas estará aqui hoje. Sim, seria motivo suficiente pra me deprimir passar a data sem essas pessoas e sem outras que conheci ao longo da vida e queria muito, mas muito mesmo que estivessem aqui. Mas a vida nos distanciou de forma definitiva. Só que não adianta chorar. Sorrir, é preciso sorrir.

Outras pessoas chegaram. Uma nova família foi criada e pessoas importantes para mim, tanto quanto aquelas que ficaram no passado e mais.

Agora tem a Bia. No auge da sua maturidade de três anos de idade que todos os dias vai à janela ver se o Papai Noel deixou o seu presente. Posso garantir uma coisa a você que não é pai ou mãe ainda. Mais gostoso que correr para abrir um presente de Natal é ver nosso filho correr para abrir.

Ok, você se esforça, gasta às vezes uma grana que não pode e quem leva o mérito é Papai Noel, mas é gostoso demais. A renovação da vida, a nossa perpetuação.

Escolhi esse nome para a coluna porque me remete a duas situações. A música de Vinicius de Moraes e ao título do enredo da Caprichosos de Pilares em 1985. A música e o enredo ficaram no passado remoto: na minha infância onde minha avó e minha mãe ouviam a música e eu na frente da TV assistindo aos desfiles com a curiosidade de um garoto.   

Saudade não tem que ser uma coisa necessariamente ruim. Mesmo de um ente querido que morreu. Pode ser um orgulho também, uma alegria por ter vivido todos aqueles momentos.

A saudade pode ser uma celebração.

Então na hora do brinde, seja com champanhe, cerveja, vinho, sidra ou mesmo guaraná erga o copo ao céu e celebre também com aquela pessoa que não está mais aqui.

Desarme-se contra o Natal. Lembre-se que ele não tem culpa de nossas tristezas e fracassos e principalmente, lembre-se do aniversariante do dia. Jesus Cristo é tão bacana que quando nasce ganhamos presente e, na data de sua ressurreição, chocolate.

Agindo assim será atingido pelo espírito de Natal. Sim ele existe e quando olhar no espelho verá aquela criança perdida e feliz que você deixou em algum lugar do passado.

A coluna acabou, desligue o computador e vá celebrar com aqueles que ama.

Feliz Natal!!

domingo, 23 de dezembro de 2012

Dia de Natal


Bom, meus leitores uma vez mais devem ter pensado que eu surtei de vez. Nada disso.

Na minha tradição religiosa, 23 de Dezembro é o dia em que, por analogia, comemoramos o nosso Natal.

Meishu-Sama - em português, "Senhor da Luz" - nasceu Mokiti Okada em 23 de dezembro de 1882, em Tóquio, Japão. Teve uma infância repleta de problemas de saúde e financeiros, mas sempre demonstrando uma disposição inabalável para superar as adversidades e completar a sua formação.

Após a morte do pai abriu a "Loja Okada", a qual engendraria grande sucesso, inclusive detendo a patente de um adorno feminino de cabelos em dez países - o "Diamante Asahi". Entretanto, foi a falência duas vezes e em 1929, aos 37 anos, doou a loja aos seus funcionários - esta vivia período de grande prosperidade - e abraçou a causa religiosa. 

Ele havia recebido a primeira Revelação Divina em 1926. Em 1931, no topo do Monte Nokoguiri, recebeu a Revelação da Transição da Era da Noite para a Era do Dia, pilar da doutrina de nossa Igreja.

Casou-se duas vezes e teve filhos. 

Em 1935 fundou a Igreja Messiânica Mundial para a difusão do Johrei. Eram tempos pré-Segunda Grande Guerra e a nascente Obra de Salvação da humanidade enfrentou muitas dificuldades e perseguições. Meishu Sama foi preso por duas ocasiões, mas nunca esmoreceu.

Após o término da Segunda Guerra construiu os três Solos Sagrados japoneses, nas cidades de Hakone, Atami e Kyoto, bem como um dos mais importantes museus de arte japoneses. O Brasil tem o seu Solo Sagrado, localizado às margens da Represa de Guarapiranga, em São Paulo - aqui e aqui o leitor pode ver fotos do Solo Sagrado Brasileiro.

Meishu-Sama ascendeu ao Mundo Divino em 10 de fevereiro de 1955, aos 72 anos.

Receba nesta data a minha Gratidão. É Natal, 129º aniversário de nosso Fundador. Estarei no Solo Sagrado do Brasil a fim de assistir ao Culto "in loco" neste domingo.

Reproduzo abaixo três Ensinamentos que resumem a essência da filosofia da Fé e, também, mostram a importância do equilíbrio em nossas palavras, atos e ações:


"Doutrina da Igreja Messiânica Mundial

Nós, messiânicos, cremos em Deus, Criador do Universo. Cremos que, desde o início da Criação, Deus objetivou estabelecer o Céu na Terra e tem atuado continuamente para a concretização desse objetivo. Com tal propósito, fez do ser humano o Seu instrumento para servir ao bem-estar da humanidade, condicionando a ele todas as demais criaturas e coisas. Cremos, portanto, que a história humana do passado constitui estágios preparatórios, degraus para se alcançar o Céu na Terra. Para cada época, Deus envia o Seu mensageiro e as religiões necessárias, cada qual com sua missão.

Cremos que, no presente, quando o mundo vagueia em tão caótica situação, Deus enviou o Mestre Meishu-Sama, fundador da Igreja Messiânica Mundial, com a suprema missão de realizar o Seu sagrado objetivo de salvar toda a humanidade. Por conseguinte, visando à concretização do Mundo Ideal, de eterna paz, perfeitamente consubstanciado na VerdadeBem-Belo, empenhamo-nos em fazer sempre o melhor, erradicando a doença, a pobreza e o conflito, as três grandes desgraças que assolam este mundo.

(11 de março de 1950)"


"O Que é a Igreja Messiânica Mundial

A Igreja Messiânica Mundial tem por finalidade construir o Paraíso Terrestre, criando e difundindo uma civilização religiosa que se desenvolva lado a lado com o progresso material.

Não há dúvida de que “Paraíso Terrestre” é uma expressão que se refere ao mundo ideal, onde não existe doença, pobreza nem conflito. O “Mundo de Miroku”, anunciado por Buda, a chegada do “Reino dos Céus”, profetizada por Cristo, a “Agricultura Justa”, proclamada por Nitiren, e o “Pavilhão da Doçura”, idealizado pela Igreja Tenrikyo, têm o mesmo significado. A diferença é que não se fez indicação de tempo. Mas eu cheguei à conclusão de que o momento se aproxima. E o que significa isto? É a hora da “Destruição da Lei”, prevista por Buda, e do “Fim do Mundo” ou “Juízo Final”, profetizado por Cristo.

Seria uma felicidade se o Paraíso Terrestre pudesse ser estabelecido sem que isso afetasse o homem. Antes, porém, é indispensável destruir o velho mundo a que pertencemos. Para a construção do novo edifício, faz-se necessária a demolição do prédio velho e a limpeza do terreno. Deus poupará o que for aproveitável – e a seleção será feita por Ele. Eis a razão pela qual é importante que o homem se torne útil para o mundo vindouro.

Ultrapassar a grande fase de transição significa ser aprovado no exame divino, e a Fé é o único caminho para obtermos aprovação. As qualificações para ultrapassar essa fase são as seguintes:

a) tornar-se um homem verdadeiramente sadio, e não apenas na aparência;
b) um homem que se libertou do sofrimento da pobreza;
c) um homem que ama a paz e detesta o conflito.

Deus resguardará aqueles que tiverem essas três grandes qualificações e deles se utilizará, como entes preciosos, no mundo que vai surgir. Certamente não há discordância entre os desígnios de Deus e os ideais do ser humano. Portanto, haverá um caminho que permita estabelecer as condições requeridas. Mas como poderemos obtê-las?

Nossa Igreja tem por objetivo orientar as pessoas e transmitir-lhes a Graça Divina, possibilitando-lhes criar tais condições.

(25 de janeiro de 1949)


(acima: Reverendíssimo Tetsuo Watanabe, Presidente Mundial da Igreja)

"Daijo, Shojo, Izunomê

Daijo” ilustra o aspecto horizontal da vida; “Shojo”, o vertical. A atividade de “Daijo” é semelhante à da água, que se estende perpetuamente em nível horizontal. “Shojo” é a atividade do fogo. Restrito, queima em profundidade e dirige suas chamas para o alto; une o homem a Deus. “Daijo” une irmão com irmão.

O princípio de “Shojo” é estrito e intransigente. A vida das pessoas com temperamento “Shojo” é regida por padrões freqüentemente rígidos e restritos. O indivíduo “Shojo” tende a ser mais crítico do que os outros e a classificar as coisas como “boas” ou “más”. 

Os indivíduos de temperamento “Daijo” são geralmente liberais e estão sempre dispostos a mudar. Por outro lado, podem tender a um liberalismo excessivo, faltando-lhes uma orientação espiritualmente profunda.

Izunome simboliza a cruz equilibrada, indicando a perfeita harmonia entre os princípios horizontal e vertical.

Até agora, o Leste se manteve no nível vertical e o Oeste no nível horizontal. Durante a Era da Noite, foi assim que a Providência Divina estabeleceu o plano espiritual.

Os povos orientais mostram-se mais inclinados a reverenciar o culto aos ancestrais, a virtude da lealdade e a piedade filial. Por isso, mantêm um estrito sistema hierárquico. No Oeste, enfatiza-se a afeição entre marido e mulher, expandindo o amor ao próximo e a toda a humanidade.

O Cristianismo é “Daijo” e, assim, difundiu-se pelo mundo inteiro. Nele se acentua a importância do amor fraterno, atividade em nível horizontal.

O Budismo é “Shojo”; sua essência fica restrita a grupos específicos. Acentua-se a importância da meditação, com o fim de alcançar a sabedoria e a auto-realização. Essa atividade é vertical — profunda e dirigida para o alto — e induz seus discípulos a viverem retirados do mundo.

Como o Leste representa o nível vertical e o Oeste o nível horizontal, há muito pouca compreensão entre ambos, o que freqüentemente tem dado margem a conflitos.

É chegado, contudo, o momento de os princípios vertical e horizontal se harmonizarem para formar a cruz equilibrada — Izunome. O resultado será uma feliz união das civilizações oriental e ocidental. Só então a humanidade poderá viver o Paraíso na Terra. A Igreja Messiânica Mundial nos dá a consciência de que esse Paraíso pode tornar-se uma realidade através da Luz de Deus.

Devemos ser flexíveis e agir dde acordo com as situações, ora aderindo ao princípio de “Shojo”, ora aplicando o método “Daijo”, mas sempre voltando ao ponto central, Izunome. 

“Daijo” é abrangente incluindo tudo, inclui também “Shojo”. De modo geral, é bom agir conforme as circunstâncias, mas nunca esquecendo o princípio sobre o qual baseamos a nossa ação. Mesmo tendo “Shojo” como princípio orientador, convém agir à maneira “Daijo”.

Não obstante, seria perigoso empregarmos somente “Daijo”. Os jovens, especialmente, poderiam tender a uma demasiada auto-indulgência. “Shojo” estabelece o princípio vertical, no qual tudo deve ser baseado, antes de adotar o princípio “Daijo”, de expansão horizontal. Assim, pode-se atingir o perfeito equilíbrio entre ambos, ou seja a cruz equilibrada Izunome."



O atual e quarto Líder Espiritual da Igreja Messiânica Mundial é Yoiti Okada (foto acima), neto do Fundador, intitulado Kyoshu Sama. Tive a oportunidade de estar presente em São Paulo por ocasião de sua visita missionária, em novembro de 2009 - contei esta história aqui e aqui.

E aqui o leitor interessado pode baixar um vídeo com um resumo deste Culto, inclusive com a saudação de nosso Líder Espiritual.

Eu fui criado desde pequeno na Igreja, por intermédio de duas tias - uma delas, já falecida - e posteriormente minha mãe. Tornei-me membro da Igreja em 1987 e posso dizer que exerci dedicação (trabalho voluntário) em praticamente todos os setores da instituição, embora esteja há cerca de um ano e meio sem exercer atividades de forma sistemática. A foto abaixo é de maio de 2008, Solo Sagrado do Brasil.


Feliz Natal de Meishu-Sama !

sábado, 22 de dezembro de 2012

Cinecasulofilia - "Um cenário de mudanças e o porvir"


Neste sábado, a coluna “Cinecasulofilia”, do professor, crítico e cineasta Marcelo Ikeda, discorre sobre o cinema brasileiro atual.

Como sempre, publicado em conjunto com o blog de mesmo nome.

Um cenário de mudanças e o porvir

O Brasil é um país que sofreu diversas transformações na última década e o cinema brasileiro pôde, de maneiras sutis, acompanhar esse percurso de mudanças. Acredito que esse contexto de transformações pode ser associado ao início deste século.

É curioso, pois o cinema ganha vida exatamente na virada do século XIX para o XX. Praticamente cem anos depois, o cinema passa por um outro contexto de crise: uma reavaliação das suas possibilidades enquanto expressão artística e como produto de massas.

Essas transformações estão diretamente relacionadas a mudanças nas formas de produção e de difusão de obras audiovisuais. De um lado, a produção de obras audiovisuais se tornou muito mais acessível com o vídeo, e especialmente com o digital.

Os equipamentos de gravação e de finalização de imagem e de som se tornaram ainda mais portáteis e com preços mais acessíveis, com uma qualidade técnica que cada vez mais se aproxima das linhas de equipamento “profissionais”. É certo que o vídeo não é uma invenção do novo século; no entanto, a velocidade dessas transformações foi intensificada com a popularização do digital, trazendo impactos imediatos na produção de obras audiovisuais. Tornava-se possível produzir obras baratas, com um equipamento portátil, com uma qualidade técnica que pouco deixava a dever às produções profissionais.

No entanto, essas obras prontas não conseguiam ser exibidas num circuito dominado pela película 35mm, inclusive nas mostras e festivais de cinema, que ainda viam o vídeo como um suporte amador ou semiprofissional.

Esse contexto de transformações, portanto, avançou para o cenário de difusão. Primeiro, com o surgimento de vários cineclubes, que funcionavam como pontos de encontro dessa jovem geração. Em seguida, com o surgimento de novas mostras e festivais de cinema que passaram a dar uma maior abertura para essa produção.

É preciso lembrar que o cinema brasileiro ainda se recuperava, a passos trôpegos, de um grande trauma: os atos do Governo Collor que ameaçaram a sobrevivência do filme nacional, retirando o apoio do Estado.

Com isso, os festivais sofreram a responsabilidade de serem territórios de defesa de que “o cinema nacional precisava existir”, procurando mostrar a “respeitabilidade” dos seus valores de produção e o profissionalismo de seus integrantes. Esses “discursos de defesa” foram imprescindíveis no percurso da “retomada”, mas tiveram suas contra indicações: os filmes brasileiros do período eram em geral pouco ousados, de modo que uma jovem geração pouco se identificava com o cinema que era produzido à época no país.

Começavam, então, a surgir no país, mostras e festivais de cinema que deram espaço a essa jovem geração, cujos valores não se integravam ao discurso oficial da “classe cinematográfica brasileira”.

Entre elas, destacam-se a Mostra do Filme Livre (RJ), a Mostra de Tiradentes (MG), o CineEsquemaNovo (RS), a Janela do Cinema (PE). Entre esses, em 2009, surge a Semana dos Realizadores.

Esses jovens realizadores encontravam um contexto favorável de transformações e reagiram a ele, com uma forte presença de uma cinefilia que se irradiou através de relações em rede, possíveis com a internet.

Propunham filmes baratos, com equipes reduzidas, com a proeminência de modos colaborativos de produção, rompendo a hierarquia tecnicista das equipes de filmagem dos tradicionais modos de produção industrial.

Basearam-se no hibridismo, tanto de suportes físicos (bitolas) quanto de gêneros e linguagens. Examinaram as fronteiras entre o documental, a ficção e o experimental (o ensaio visual). Investigaram outras formas de dramaturgia para além do cinema clássico, como dramaturgias mínimas, baseadas no silêncio e na sugestão, ou dialogando com outras artes, propondo filmes performáticos, ensaios visuais, diários fílmicos ou filmes-de-arquivo, entre outros. Estabeleceram relações de afetividade, tensionando as fronteiras entre o cinema e a vida.

Essa geração ganhou rápida visibilidade, estimulada por um circuito crítico e pela circulação em festivais internacionais de prestígio. Após essa visibilidade, resta-nos acompanhar a futura trajetória desses realizadores, qual o caminho que seguirão, as suas opções não somente estéticas, mas sobretudo éticas e políticas.

O verdadeiro artista não é o que simplesmente segue os modismos, mas o que não tem medo do contraditório; é o que eternamente prossegue questionando o mundo e a si mesmo. E é o que se posiciona diante disso. Os festivais têm sua parcela de responsabilidade, contribuindo não para a exaltação dos “modismos do novo” (“o novo pelo novo”), mas por uma aposta pelo risco e pelo processo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Bissexta - "Jagger: o Mito, a Lenda, o Inexplicável"


Nesta sexta feira, a coluna “Bissexta”, do advogado Walter Monteiro, confessa seu espanto – que também é meu – com a inesgotável vitalidade do roqueiro Mick Jagger, do Rolling Stones.

O post me lembra um documentário que vi há algum tempo com os remanescentes – melhor seria dizer sobreviventes - do ‘The Doors’. Foi meio estranho ver os sujeitos de cabelos brancos dando entrevistas...

E bom feriadão e ótimo Natal aos leitores. O blog continuará sendo atualizado diariamente, como de hábito. Apenas a coluna "Final de Semana" que está temporariamente suspensa devido a alguns problemas que estão surgindo na migração para a nova plataforma. O Ouro de Tolo estará no endereço www.pedromigao.com.br a partir do dia 1º de janeiro.

Passemos ao texto.

Jagger: o Mito, a Lenda, o Inexplicável

E os Rolling Stones comemoraram 50 anos de carreira. Eu estava distraído, zapeando sem compromisso, até que parei no show que o canal Multishow transmitia. Cheguei ali no exato momento que Mick Jagger cantava e dançava junto com Lady Gaga. Descontando a cara muito enrugada, Jagger parecia ter a idade da esquisitona, que, aos 26 anos, poderia ser neta do quase septuagenário roqueiro.

[N.do.E.: vi um pedaço deste show. Só soube que era a Lady Gaga porque minha filha me disse quem era]

Sim, Mick Jagger está às portas de completar 70 anos. Dá para acreditar? É verdade que a pele dele está uma coisa assustadora, gente mais velha do que ele não tem aqueles sulcos vincados no rosto... Mas, de resto, ele continua igual.

Como um senhor de tamanha idade pode ter aquele cabelo? Como pode dançar daquele jeito? Como é possível que um idoso possa servir de inspiração para uma das músicas de maior sucesso recente, que fala que o poder de sedução de determinado homem vem justamente do fato de dançar como Mick (Moves Like Jagger, do Maroon 5)?

Eu já escrevi aqui sobre minha depressão em ver Paul McCartney, ídolo da minha adolescência, com seus cabelos de tonalidade acaju, sentado ao piano no Beira-Rio, portando-se como um coroa. É natural: Paul é outro velhinho, mas a gente sonhava em vê-lo sempre como um ícone jovem.

Pois Jagger é o oposto: a energia dele em um show supera, com folgas, a de super astros muito mais jovens que ele. Não engordou um grama sequer: era esquelético nos anos 60, continua sendo.  E não deve ter ossos nem pulmões, porque dança por mais de 2 horas com movimentos difíceis de imitar.

Outras coisas seguem impressionando.

Não sou especialista na banda, mas acho que o último sucesso inédito do grupo é ‘Start Me Up’, do álbum Tattoo You, do longínquo 1981. Ou seja: os caras faturam cerca de meio bilhão de dólares ao ano cantando músicas compostas há mais de 30 anos, às vezes 40.

E essas músicas não parecem envelhecidas (embora algumas a gente esteja cansado de ouvir).  Vejam ‘Gimme Shelter’, por exemplo. Poderia ter sido composta mês passado, porque é altamente contemporânea. Mas tem incríveis 43 anos de idade. Um fenômeno.

E a gente olha para Mick Jagger e fica pensando como o cara chegou lá com o estilo de vida que escolheu para si.

Ele não chega a ser tão doidão quanto seu companheiro de banda, Keith Richards, que dentre muitas maluquices, declarou ter cheirado as cinzas do pai morto junto com cocaína. Mas é óbvio que Jagger tem um longo histórico de uso de drogas: já foi até preso por isso.

A julgar por entrevistas que deu, sua alimentação é à base de carboidratos: muita batata, arroz, macarrão. E aconselhou qualquer pessoa a só praticar esportes depois dos 30 anos, ainda assim em pouca quantidade, porque “cansa”. Esporte, para ele, é enfileirar mulheres bonitas, deixando claro que não acredita em monogamia.

Carboidratos, álcool, drogas e orgias! E aí está o homem, o mito, mandando às favas a vida regrada, bilionário, famoso, com 70 anos, mas com vitalidade de 25.

De duas, uma: ou ele não é humano, ou precisamos, todos, rever nossos conceitos com absoluta urgência.

(Foto: Uol)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sabinadas - "Esquentando os Tamborins"


Nesta quinta feira, a coluna “Sabinadas”, do jornalista Fred Sabino, toca em um ponto importante: a perda de importância dos sambas de enredo e a respectiva queda na vendagem do cd.

Esquentando os Tamborins

Estamos chegando ao fim do ano e esquentando os tamborins para mais um Carnaval que se avizinha. E, mesmo com um começo de resgate da qualidade do gênero samba-enredo nos últimos anos, com grande contribuição das tradicionais Portela (principalmente), Vila Isabel, Império Serrano e Mangueira, ainda falta muito para que se chegue ao patamar do que, um dia, já foi fenômeno de vendas.

Quando comecei a acompanhar as escolas de samba, ainda criança, o ‘bolachão’ com os sambas-enredo era aguardado ansiosamente. As rádios cariocas executavam seguidamente as obras e os cantores, amplamente identificados com as agremiações, eram vozes que chegavam não só ao ouvido, mas ao coração dos apaixonados pelo Carnaval.

Afinal, com uma ou outra troca eventual, era de lei escutar os brilhantes Jamelão na Mangueira, Neguinho na Beija-Flor, Ney Vianna na Mocidade, Aroldo Melodia na União da Ilha, Rico Medeiros no Salgueiro, Silvinho na Portela, entre outros... Havia uma identidade auditiva quase imediata.

E as obras não eram feitas a priori para servirem meramente como trilha sonora para um desfile e arrancar uma nota 10 do jurado. Mais do que isso: eram feitas para cativar o componente e o público antes, durante e depois do desfile.

Houve até casos extremos como o da Portela, em 1981 (Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite, que será reeditado em 2013 pela Tradição), quando o samba gerou tanta empolgação antes mesmo do desfile, que o público invadiu a pista e atrapalhou a evolução da escola. A Portela acabou apenas com a terceira colocação naquele ano.

[N.do.E.: parte deste resultado deve ser creditado ao hoje presidente da Tradição Nésio Nascimento, que na ocasião grampeou errado o caderno com o roteiro de desfile. Resultado: alas entraram em ordem trocada e a escola foi penalizada.]

Meu grande amigo Carlos Alberto Vieira, imperiano de quatro costados, sempre me contou que em 1982 (acima), antes mesmo de o Império Serrano entrar na avenida, os versos de "Bum Bum Paticumbum Prugurundum" eram entoados a plenos pulmões pela arquibancada, tamanha a beleza e explosão do samba de Beto Sem Braço - executado incontáveis vezes na fase pré-carnavalesca.

Em 1989 eu já começava a entender as coisas e lembro que de imediato fiquei apaixonado pelo extraordinário refrão "Liberdade, Liberdade!/Abre as asas sobre nós/E que a voz da igualdade/Seja sempre a nossa voz". Naquele ano foram vendidos simplesmente 1 milhão de discos. Um número impressionante.

Outros sambas muito cantados antes do desfile simplesmente não "aconteceram" na avenida. Talvez o exemplo mais evidente seja o da Mangueira, em 1994 (Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu). Mas até hoje quem não se lembra desse samba empolgante, que mexe com a alma do sambista?

Não, leitores, não é simplesmente uma coluna saudosista, mas que apenas constata como as coisas mudaram. Como já escrevi, o foco de boa parte dos autores (e das escolas) passou a ser apenas a bendita funcionalidade do samba. Também não quero entrar aqui no assunto "escritórios", já amplamente debatido. Mas é fato que a mercantilização das escolas, tal como no futebol, é um fator determinante para essa queda de vendas do CD de sambas-enredo - sinceramente nem sei quanto vendeu o de 2012, que teve uma safra boa, aliás.

Outro problema é a divulgação insuficiente na TV. Antes havia duas emissoras transmitindo os desfiles e ambas executavam os sambas por várias vezes durante a programação e com a passada completa.

Hoje, apenas quarenta segundos são exibidos pela detentora exclusiva dos direitos. Uma evolução nos últimos anos foi a exibição de um programa especial com todos os sambas gravados ao vivo num auditório. Sem dúvida elogiável, mas a passada inteira do samba sistematicamente exibida seria, de fato, o ideal.

[N.do.E.: contribui para isso a falta de uma estrutura de marketing por parte da Liesa e o fato de, hoje, os CDs serem lançados por uma gravadora própria.]

Mais um aspecto negativo é o nivelamento adotado pelos jurados. Por mais que em 2012 os melhores sambas tenham tido as melhores notas, a diferença de pontuação entre o melhor e o pior samba ainda é abaixo do que deveria ser.

No meu mundo ideal, samba e bateria teriam pontuação dobrada, pois assim obras como a da Portela no último desfile ou as baterias da Mangueira e Imperatriz nos últimos anos fariam a diferença num julgamento que ainda privilegia muito os aspectos estéticos. Afinal, é ou não um desfile de escola de SAMBA? Com um julgamento mais rigoroso dos sambas medianos, automaticamente a busca por qualidade melódica e de letra seria maior.

De qualquer forma, como já debatemos aqui neste Ouro de Tolo, ainda bem que está havendo um processo de recuperação da qualidade dos sambas. Imperatriz (2010 e 2011), Mangueira (2011 e 2012), Portela (2012 e 2013) e Vila Isabel (2010, 2012 e 2013) produziram recentemente obras de agrado incontestável.

Tomara que todas as escolas continuem escolhendo obras de boa qualidade, que haja uma melhor divulgação em rádios e TV e os sambas bons de verdade sejam valorizados nas apurações.

Quem sabe, num futuro próximo, voltemos a viver aquela expectativa incontida e saudabilíssima pelos sambas de todas as escolas e que as obras sejam cantadas para sempre.
 
(Foto: Extra)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

História e Outros Assuntos: "100 anos de Gonzagão – o Rei do Sertão”

Nesta quarta feira, a coluna “História e Outros Assuntos”, do Doutorando em História Fabrício Gomes, traz um pouco do centenário de Luiz Gonzaga, o “Gonzagão”, efeméride completada neste mês de dezembro.

“100 anos de Gonzagão – o Rei do Sertão”

Neste ano de 2012 festeja-se o centenário de Luiz Gonzaga, um dos artistas mais populares da nossa história. “Gonzagão” representou a síntese da cultura nordestina, e principalmente dos milhares de imigrantes que se deslocaram em paus-de-arara para os grandes centros econômicos do Brasil – mais especificamente o eixo Rio-São Paulo.

“Gonzagão”, “Lua” – como era carinhosamente chamado por amigos e familiares, “Rei do Baião”, “Rei do Sertão”... São inúmeros os apelidos e denominações para o artista que enfrentou preconceitos ao longo de sua trajetória e fez de sua história de vida a sua trilha sonora particular.

“Minha vida é andar
Por esse país
Pra ver se um dia
Descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras por onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei...”


O pernambucano de Exu viveu momentos distintos, desde a infância pobre, até chegar às paradas de sucesso.

Viveu momentos de alegria, decepção – com a morte da primeira esposa, vítima de tuberculose – e apreensão, como toda história de vida que se preza. Se não teve a merecida reverência já no final de sua vida, em 2012 ganhou destaque na mídia – com toda a justiça.

Houve filme, biografias, programas de TV, documentários e até uma inesquecível homenagem traduzida em samba: foi o enredo campeão da escola de samba Unidos da Tijuca. “O Dia Em Que Toda a Realeza Desembarcou Na Avenida Para Coroar o Rei do Sertão” (vídeo ao alto do post).

“A minha emoção vai te convidar
Canta Tijuca vem comemorar
"Inté Asa Branca" encontra o pavão
Pra coroar o "Rei do Sertão"...”

As canções de Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido em Exu, sertão de Pernambuco , em 1912, mostram apenas uma parte da personalidade do músico apelidado de Rei do Baião – ele gravou mais de 200 músicas em toda sua carreira – e que se tornou uma das mais importantes e inventivas figuras da nossa música popular brasileira.

O folclore transcendeu suas particularidades de tal forma que praticamente apenas o artista acabou por ficar conhecido, obliterando o cidadão – numa época em que a mídia ainda não se preocupava com a vida privada dos famosos e os quinze minutos de fama ainda não eram via de regra na sociedade.

O produto final de sua “vida” e obra acabaram reduzidos, de forma minimalista, ao sertanejo que sente saudades da terra natal, ao retirante que vai para a cidade grande em busca de melhores condições de vida – muitos fugindo da seca, das disparidades existentes no Brasil de dimensões continentais.

Em “Gonzaga: de pai pra filho”, mais uma vez o cinema acolhe o gênero biográfico. E o faz de modo competente, cumprindo o papel que deveria ser o de toda biografia e cinebiografia que se preza: mostrar a vida e a obra de personagens como eles de fato foram, sem os perigos daquilo que Pierre Bourdieu chamou de “ilusão biográfica”. Esta é a armadilha que geralmente os biógrafos – e nesse caso do cinema, os diretores – caem ao tentar contar a história de uma vida de forma coerente e linear – com início, meio e fim, como se os biografados “surfassem” numa superfície sem obstáculos.

Eles podem também incorrer no erro do ‘feitiço das fontes’ que são pesquisadas para suas obras, ou seja: deixarem-se levar pelo material artístico produzido pelas personagens analisadas e imaginarem seres perfeitos, sem problemas cotidianos, que navegam em águas claras e calmas.

Na tentativa de propor sentido e coerência a uma vida, escritores e diretores deslizam na utopia biográfica - conceito desenvolvido pelo sociólogo Jean-Claude Passeron – e inevitavelmente derrapam no clichê e apenas na verdade – e não na sinceridade.

E onde entra o indivíduo comum?

“Mandacaru
Quando fulora na seca
É o sinal que a chuva chega
No sertão
Toda menina que enjoa
Da boneca
É sinal que o amor
Já chegou no coração...”

Entra nesta cinebiografia, cujo maior mérito é expor a figura humana de Luiz Gonzaga: à diacronia e sincronia de sua personagem, suas tensões e contradições – num movimento pendular ocorrido todos os instantes no filme, suas fraquezas, suas decepções, seus medos e anseios – ingredientes fundamentais para todos que se propõem a escrever (ou filmar) uma biografia.

Algumas vezes, mesmo encontrando esses elementos em alguma obra biográfica, é muito difícil que eles sejam expostos de modo que não fuja ao pastiche, à sacralização do personalismo (principalmente quando o biografado ainda é vivo) e às dificuldades pasteurizadas. Como, por exemplo, se faz a abordagem do nordestino que é oprimido pela fome e seca e vem tentar a vida nas grandes metrópoles.

Em “Gonzaga: de pai pra filho”, o tratamento dado à trajetória de “Gonzagão” é louvável e meritosa. O filme apresenta o artista, mas vai mais fundo: apresenta o humano. O ponto central da narrativa é justamente a relação conflituosa com o filho – Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior – o “Gonzaguinha”. Uma relação de tensões e distensões que permearam praticamente toda a existência de ambos.


A ponto de ambos perderem, em certo momento do filme, suas referências – como pai e como filho. Ambos se detestam. Ambos se desconhecem. Mas ambos se amam. Sem dúvidas, um formidável cardápio para a psicanálise moderna, não é mesmo?

“Quando eu voltei lá no sertão
Eu quis mangar de Januário
Com meu fole prateado
Só de baixo, cento e vinte, botão preto bem juntinho
Como nêgo empareado
Mas antes de fazer bonito de passagem por Granito
Foram logo me dizendo:
"De Itaboca à Rancharia, de Salgueiro à Bodocó, Januário é o maior!"
E foi aí que me falou meio zangado o véi Jacó:
Luiz respeita Januário
Luiz respeita Januário
Luiz, tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso
E com ele ninguém vai, Luiz
Respeita os oito baixos do teu pai
Respeita os oito baixos do teu pai..”

Por sinal, a narrativa é recheada de idas e vindas, o que é muito saudável para a proposta de expressão de um trabalho biográfico. A cronologia – nascimento, infância, maturidade artística e morte – é desprezada.

A proposta do filme é promover o acerto de contas entre pai e filho – justamente o clímax da narrativa. O diretor e roteirista fazem isso com perícia e exímia pontualidade e coerência, sem tornar a história rápida ou arrastada. Não existem heróis ou vilões, apenas pessoas comuns, detentoras de sucesso, mas que ao saírem das luzes da ribalta se transformam e deixam a fama de lado. Não há demérito em promover o resgate do consenso entre os dois, já que a reconciliação de fato existiu. Mas até que isso fosse apresentado ao público, foram mostrados os íngremes itinerários percorridos pelos dois.

“Até mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração...”

O legado deixado por ambos é irretocável. Parte da história do Brasil é pontilhada em suas obras e histórias pessoais – o pai participou da Revolução de 1930, foi mais um no fenômeno migratório do Nordeste-Sudeste e viveu o terror do banditismo social imposto por Lampião. Por seu turno o filho cantou e decantou o Brasil que sofria com a ditadura civil-militar, tornando-se uma das figuras exponenciais na luta pelos direitos humanos e pelo fim do regime de exceção. Dramas e conflitos pessoais que tornam esta cinebiografia elogiável.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Guia de Cervejas para o Natal


Eis que as festas estão se aproximando. Mais um ano, mais um Natal.

Como fizemos ano passado, o post de hoje traz algumas sugestões de cervejas para a noite natalina, para todas as opções de ceia e todos os bolsos. Também sugiro algumas opções de harmonização com as refeições, obviamente com as minhas limitações - não sou sommelier nem especialista em gastronomia.

As sugestões de harmonização que darei estão baseadas nos livros dos especialistas Garreth Oliver e Melissa Cole, que acabei de ler há pouco tempo, bem como algumas observações empíricas que venho efetuando nos últimos meses. Os livros em questão estão disponíveis em boas livrarias.

Por outro lado, indico apenas cervejas disponíveis em lojas online ou em empórios cariocas. Não adianta nada dar indicações que não possam ser compradas.

Por tópicos, vamos a um passeio pelo mundo das boas cervejas. Lembro aos leitores que muitas vezes cervejas conquistam uma melhor harmonização com as iguarias da noite natalina que muitos vinhos, aliado à refrescância que muitos tintos não possuem.

Ceia

Normalmente os lares brasileiros dividem os pratos natalinos em dois grandes grupos: o bacalhau em suas diferentes formas e a dupla peru e chester. As entradas, grosso modo, são divididas em duas formas de apresentação: as saladas em suas diversas formas e os salgadinhos diversos.

Bacalhau: seja assado, em salada ou em preparações como ao Zé do Pipo, cai a meu ver muito bem com uma cerveja estilo "saison", belga. Minha indicação seria a "Dupont" Season, belga, que custa cerca de R$50. Ou seja, menos que um bom vinho.

Caso não ache a belga, uma opção é a brasileira Wals 42, embora seja uma leitura bem particular deste estilo.

Indicação: Dupont Saison (Bélgica)
Opção: Wals 42 (Brasil)
Para Ousar: Way Amburana Lager (Brasil)

Peru ou Chester assados: o leitor tem dois caminhos possíveis, a meu ver. O primeiro seria manter as opções do item anterior: ou seja, uma saison. Outro caminho possível seria uma dubbel, estilo belga. Existem várias boas opções neste estilo, mas indicaria as trapistas Rochefort 6 ou Chimay Red, ambas com preço em torno de R$ 15.

Uma opção ousada, a meu ver, seria combinar com uma IPA (India Pale Ale). Boas sugestões são a escocesa Brew Dog Hardcore IPA ou a americana Founders Centennial IPA (abaixo). Uma sugestão de menor custo seria a brasileira Colorado Indica.


Indicação: Dupont Saison (Bélgica) ou Chimay Red (Bélgica)
Opção: Wals 42 (Brasil) ou Trappist Rochefort 6 (Bélgica)
Para ousar: uma boa IPA.

Salada: não tem erro neste caso - uma weissbier, alemã. A Weihenstephaner Hefe Weissbier ou, na falta destas, uma Paulaner, são boas indicações. Se houver uma sobra de grana, a Schneider Mein Nelson Sauvin também deve ser considerada.

Indicação: Weihenstephaner Hefe Weissbier (Alemanha)
Opção: Schneider Mein Nelson Sauvin (Alemanha)
Para Ousar: qualquer inglesa estilo bitter

Salgadinhos, bolinhos de bacalhau e assemelhados: uma pale ale no estilo americano como a Way American Pale Ale (Brasil) ou a Founders Dry Hopped (EUA). Uma boa pilsner tcheca como a 1795, por exemplo, também cai bem.

Indicação: Founders Dry Hopped (EUA)
Opção: 1795 (Rep. Tcheca)
Para Ousar: Duvel (Bélgica)

Sobremesa: serei categórico: nada pode ser melhor que a stout americana Brooklyn Black Chocolat Stout (abaixo). Especialmente com sobremesas de chocolate, mas cabe bem com qualquer tipo de doce. Também boa opção é a brasileira Wals Petroleum.

Uma outra opção é uma cerveja com frutas, como a holandesa Floris.

Indicação: Brooklyn Black Chocolat Stout (EUA)
Opção: Floris (Holanda)
Para Ousar: Chimay Bleue (Bélgica)


Para bebericar: com o calor brasileiro e em grandes quantidades, a indicação seria o barril de cinco litros da Heineken (premium lager) ou da Paulaner Helles, de fácil manuseio e bom custo/benefício. Ambos podem ser encontrados até em supermercados. O leitor carioca pode procurar estes barris na Cadeg, em Benfica, onde há lojas com bom preço.

Uma opção seria uma IPA de menor teor alcoólico em lata como a Brew Dog Punk IPA (Escócia) ou a Anderson Valley Hop Ottin (EUA). Mas aí o preço sobe bastante.

Indicação: Heineken (Holanda/Brasil)
Opção: Paulaner Helles(Alemanha)
Para Ousar: Brew Dog Punk IPA (Escócia)

Ceia do Migão: ainda não tenho exatamente definido o que farei na noite do dia 24, mas duas das cervejas já estão definidas: para bebericar optei pela Brew Dog Punk IPA e o bacalhau do jantar será acompanhado da "Have a Nice Season", season vendida com exclusividade para os associados do clube "Have a Nice Beer". Esta é uma cerveja feita em conjunto pela Mistura Clássica e a "2 Cabeças", especialmente para o clube.

Certamente outras cervejas farão parte da ceia, mas ainda não me defini. Até porque tenho duas Chimay Bleue de 1,5 litro e uma de 3 litros guardadas no armário, fora outras preciosidades.

O espaço de comentários está aberto para dúvidas e sugestões. Semana que vem teremos o post com as sugestões para o Ano Novo.

Lojas:

Clube:

Prosit!

P.S. - As lojas citadas acima possuem ótimas opções de kits cervejeiros para presente. É uma boa opção para o leitor.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Sobre a Redução da Maioridade Penal


No último sábado, enquanto aguardava o início da apresentação das minhas filhas no balé, travei um debate pelo Twitter com o Major da Polícia Militar carioca Luiz Alexandre - que deu ótima e indispensável entrevista a este blog em ocasião passada - e a jornalista especializada em segurança pública Cecília Oliveira. O tema? Redução da maioridade penal.

A jornalista publicou ótimo artigo sobre o tema em seu blog "Arma Branca", elencando alguns aspectos deste debate - sobre os quais discorrerei ao longo deste post. Por seu turno, o Major argumentava, não sem razão, que não era o "badalar da meia noite" do dia em que o menor faz 18 anos de idade. Ou seja, o fato de um indivíduo ter 17 anos e 364 dias ou 18 anos e 1 dia em termos práticos não deveria diferençar o tratamento a ser dispensado.

Recentemente a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados deu parecer favorável à Proposta de Emenda Constitucional 33/2012, que reduz para 16 anos a maioridade penal nos casos de crimes hediondos, tráfico, tortura, terrorismo e reincidência dos crimes de roubo e lesão corporal grave.

Sem dúvida, o senso comum, inflado pelos jornalistas sensacionalistas das televisões e rádios, é de que a denominada "delinquência juvenil" é um grave problema social brasileiro. A toda hora vemos na imprensa notícias envolvendo menores infratores, seja cometendo crimes ou, então, servindo ao tráfico de drogas nas grandes cidades.

Entretanto, de acordo com dados disponibilizados pela jornalista no artigo (pesquisa da Secretaria de Direitos Humanos do Governo Federal), existem 60 milhões de adolescentes entre 12 e 17 anos no Brasil. Dentre estes, aproximadamente 60 mil cumprem algum tipo de pena sócio-educativa, sendo 18 mil em regime fechado e 42 mil sem privação total de liberdade. Ou seja, para cada 10 mil adolescentes, 8,8 possuem algum tipo de restrição de liberdade.

Informo ao leitor, também, que o estado de São Paulo concentra praticamente um terço dos internos em regime fechado, tendo aumentado este tipo de medida "corretiva" nos últimos anos. Fazendo um parêntese, este é um bom exemplo de diferencial de políticas públicas entre as duas principais forças partidárias e programáticas brasileiras. Fazendo um segundo adendo, os recentes problemas de segurança que estão ocorrendo no estado me parecem indicar que encarcerar ou executar indiscriminadamente criminosos - ou tidos como tal - não parece ser a melhor forma de lidar com o tema.

Por outro lado, o argumento operacional do Major também deve ser levado em conta: para quem está na rua como força policial, estar com 17 anos e 364 dias ou 18 anos e 1 dia não vai fazer muita diferença na hora de efetuar eventuais prisões. Não muda a maturidade ou o destino da pessoa o corte temporal - embora algum tipo de critério, na visão dele, tenha de ser aplicado.

Outra questão que se necessita avaliar é o padrão carcerário brasileiro. Hoje as cadeias brasileiras funcionam muito mais como uma espécie de "Universidade do Crime": na esmagadora maioria dos casos o sujeito entra devido a um crime de menor grau e acaba saindo integrado a quadrilhas ou "doutrinado" para cometer crimes de maior gravidade. São "depósitos de pessoas" onde a ressocialização acaba sendo apenas marginal, com o perdão do trocadilho.

Ou seja: vale a pena enviar jovens de 16 ou 17 anos para os presídios brasileiros sabendo-se que estarão entrando em um caminho sem volta? Não sou psicólogo, mas esta é a fase final de formação do indivíduo e, me parece, mandá-los para cadeias "adultas" os estará colocando em um caminho sem volta. Destarte, deve-se levar em conta a influência que a diminuição do desemprego nos últimos dez anos teve na redução dos índices de criminalidade - e para um menor infrator é muito menos complexo encontrar um emprego, ou ainda se qualificar, que um ex-presidiário.

Lembro ao leitor que no total de menores cumprindo medidas de restrição ou privação de liberdade existem 1,6 mil homicidas - 2,6% do total de jovens infratores. Este é o número envolvendo jovens de 12 a 17 anos, ou seja: diminuir a idade da maioridade para 16 anos teria influência ainda menos da "diminuição da criminalidade" - sim, entre aspas.

Mais um fator que deve ser levado em conta é o corte social: infratores de maior renda tendem a ter melhor assistência e, assim, escaparem de prestar contas à sociedade. Isso gera um fator de injustiça na sociedade: pobres irão para o presídio, ricos para as colunas sociais.

Talvez, ao invés de se diminuir a idade para maioridade penal, fosse mais efetiva a multiplicação de iniciativas como a existente aqui no Rio, fruto da parceria entre a Fundação Mokiti Okada e o Degase. Os internos da unidade da Ilha do Governador tem oficinas como a de agricultura (foto) e outras áreas técnicas, além de se fazer um trabalho social com as famílias dos menores infratores. Esta iniciativa vem trazendo ótimos resultados na ressocialização destes menores.

Finalizando, há que se criticar a postura de uma imprensa sensacionalista em busca da audiência fácil. Na prática, isto acaba desinformando as pessoas - 86% da população apóia a redução da maioridade penal. Nas palavras da jornalista Cecília Oliveira:

"Vingança. Esta é a palavra que tem regido o direito penal no Brasil. Muitas vezes se vê uma pena descabida e muitas vezes até inconstitucional, mas que cale a boca da imprensa e por conseguinte, da sociedade. Quantas pessoas estão há anos cumprindo pena sem terem sido, sequer, julgados? Eles são 44% do sistema carcerário. Mas e os efeitos disso? Não interessa. São os outros."

Sem dúvida, esta é uma questão que necessita de um debate sério e sereno por parte de toda a sociedade. Bravatas, vingança e audiência fácil são posicionamentos que, apenas, levarão a decisões equivocadas. Precisamos nos apoiar nos números e na realidade a fim de se obter medidas que realmente aumentem o bem estar como um todo.