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domingo, 18 de março de 2012

Orun Ayé - "Chico Buarque do Brasil"



Neste domingo, a coluna "Orun Ayé", do compositor Aloisio Villar, aborada aquele que a meu ver é um dos dois únicos gênios vivos da música brasileira: Chico Buarque de Holanda.

Chico Buarque do Brasil

Se existe uma unanimidade no país ela se chama Chico Buarque de Holanda.

Ele poderia se chamar Chico Buarque do Brasil porque ninguém contou nossa história, nossas dores de amores, nossas dores patrióticas, as nossas alegrias tão bem quanto ele nos últimos cinquenta anos.

Um pouco de sua história retirada pela Wikipédia:

“Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, iniciou sua carreira na década de 1960, destacando-se em 1966, quando venceu, com a canção A Banda, o Festival de Música Popular Brasileira. Socialista declarado, se auto-exilou na Itália em 1969, devido à crescente repressão da ditadura militar no Brasil, tornando-se, ao retornar, em 1970.

Um dos artistas mais ativos na crítica política e na luta pela democratização do Brasil. Na carreira literária, foi vencedor de três Prêmios Jabuti: melhor romance em 1992 com Estorvo, além do Livro do Ano tanto pelo livro Budapeste lançado em 2004, como por Leite Derramado, em 2010.”

Aí em cima tem um resumo, mas ainda é pouco para definir Chico Buarque.

Chico é um daqueles gênios que temos em nossas artes que se aproxima ou passou da casa dos setenta anos. Como ele temos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Jorge Ben e outros..sempre foi estudioso, amante de livros, nasceu numa casa de intelectuais que recebia visitas de grandes artistas e pensadores brasileiros - o que moldou sua formação. Surgiu como compositor e cantor nos efervecentes anos sessenta. Anos de chumbo não só no Brasil, mas por toda América Latina. A repressão que ditaduras militares subjugavam seus povos contrastava com a fúria artística e de talento que vinham dos jovens da época.

Nasceu no Rio de janeiro, em 1944, filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda e da pianista Maria Amélia Cesário Alvim. Dois anos depois a família se mudou para São Paulo e em 1953 para a Itália onde Ségio foi dar aulas na Universidade de Roma. De volta a São Paulo Chico já mostrando interesse pelas músicas compõe “Umas operetas” que cantava com as irmãs.

Em 1963 ingressou no curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo onde participou de movimentos estudantis. Nesse mesmo ano participa do musical “Balanço do Orfeu” com a música “Tem mais samba”. No ano seguinte participa do programa “O fino da bossa” comandado por Elis Regina, no ano seguinte lança seu primeiro disco compacto com as músicas “Pedro Pedreiro” e “Sonho de um carnaval”. Fez também as músicas do poema “Morte e vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, que ao ser apresentado no IV Festival de teatro universitário de Nancy, na França, ganha o prêmio de crítica e público.

Em 1966 sua música “A Banda”, cantada por Nara Leão, vence o Festival de Música Popular Brasileira - empatada com "Disparada". Nesse mesmo ano sai o seu primeiro LP "Chico Buarque de Holanda". Suas primeiras canções, como "Pedro Pedreiro", impregnadas de preocupações sociais, foram seguidas de composições líricas como "Olê, olá", "Carolina" e "A Banda". Ainda nesse ano Chico casa-se com a atriz Marieta Severo, com quem teve três filhas, Silvia, Helena e Luíza. Chico Buarque muda-se para o Rio de Janeiro em 1967, e lança seu segundo LP "Chico Buarque de Holanda V.2". Nesse mesmo ano escreve a peça "Roda Viva". Faz parceria com Tom Jobim e vencem com a música "Sabiá", o Festival Internacional da Canção, em 1968.

Em junho de 1968 Chico participa da 'Passeata dos Cem Mil', contra a repressão do regime militar. Em 1969 vai exilado para a Itália, só retornando em 1970. Na Itália assina um contrato com a gravadora Philips, para produção de mais um disco. Sua música "Apesar de Você" vende cerca de 100 mil cópias, mas é censurada e recolhida das lojas - sendo somente gravada em LP em 1978.

Depois do show no Teatro Castro Alves em 1972, com Caetano Veloso e o do Canecão, com Maria Betânia, em 1975, Chico passa um longo período sem se apresentar, mas continua produzindo. Escreve a peça Gota d'água, em parceria com Paulo Fontes, o que lhe valeu o prêmio Molière. Escreve a música "Vai trabalhar vagabundo", para o filme do mesmo nome e as versões da música "O que será", escritas para o filme "Dona flor e seus dois maridos".

Nas décadas de 80, 90 e neste novo século continuou a produzir obras geniais, enveredando pela literatura além da música. Foi enredo campeão de 1998 pela Mangueira.

A história de Chico é extensa e plural. Em minha opinião ninguém na história desse país dominou o dom da escrita como ele. Pode não ser o melhor compositor, escritor ou dramaturgo de nossa história (para mim é o melhor compositor), mas é muito bom nos três itens. Dizem que ele é muito bom ao falar sobre as mulheres. Tem o dom de desvendar a alma feminina e falar como uma de suas tristezas e paixões. Eu discordo, acho que isso é diminuir seu talento. O Chico é um despidor de almas, não só femininas, mas humanas em geral.

Quem nunca sentiu dor de amor e ao ouvir uma canção de Chico como “olhos nos olhos” não se indentificou? Não viu ali em forma de letra e melodia toda a dor que sentia?

Chico com suas canções consegue expressar o que nossas lágrimas dizem ao ver partir a mulher amada e pedí-la o disco do Neruda, ao sentir orgulho de nosso guri, beber um cálice com vinho tinto de sangue, dizer que nosso amor tem um jeito louco que é só dele, que não existe pecado do lado debaixo do Equador, que vai passar nessa avenida um samba popular, viu nosso coração morrer na contramão atrapalhando o tráfego...

...ou mesmo nos emocionando ao ver a banda passar, apesar de você.

Chico é o poeta de um povo, quem psicografa nossos anseios e sonhos, quem através de olhos verdes profundos e sorriso tímido mostra o rosto de nosso país. Usou seu talento como arma e foi a luta. Como Chico, como Julinho da Adelaide e tantos outros que não se deixaram oprimir. E nessa roda viva de emoções que é nosso dia a dia o orgulho de termos uma voz. Tudo bem, a voz pode não ser grande coisa, mas ninguém é perfeito, nem ele poderia ser.

Salve Chico Buarque do Brasil. Orun Ayé!

sábado, 14 de janeiro de 2012

Final de Semana - "Geni e o Zeppelin"



Neste final de semana, último antes das merecidas férias, nossa música não poderia ser outra: "Geni e o Zeppelin", em registro que fiz no show de Chico Buarque sábado passado.

A releitura da música a fez ganhar em densidade e dramaticidade, se tornando nada menos que épico. Leitor, aproveite.

Vamos à letra, de autoria do próprio Chico.

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geleia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo –- Mudei de ideia

– Quando vi nesta cidade
– Tanto horror e iniquidade
– Resolvi tudo explodir
– Mas posso evitar o drama
– Se aquela formosa dama
– Esta noite me servir
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
– e isso era segredo dela –
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Chico



No último sábado fui assistir ao show de Chico Buarque, em sua turnê "Chico", na casa de espetáculos "Vivo Rio", na Glória.

Mesmo com ingressos nada baratos, a procura pelos mesmos foi absurda: no dia em que liberaram as vendas pela internet, eu entrei meia hora depois do início e já restavam poucos lugares. Mesmo querendo um lugar na fila do "gargarejo", tive de me contentar com lugares distantes do palco, embora com boa visão.

Isso é um pouco reflexo das raras aparições do artista em turnê - se não me engano é apenas a segunda turnê neste século - mas também da qualidade absurda do artista. A meu juízo Chico Buarque é um dos dois únicos gênios vivos da música brasileira hoje - o outro é Paulo César Pinheiro.

Eu tive a chance de assistir ao show da turnê "Paratodos", em 1999, e o que posso dizer é que este "Chico" é bastante diferente do show a que assistira anteriormente. Este é mais introspectivo, mais voltado ao amor, mais "religioso" - e mais emocionante também, no sentido de tocar o coração pela emoção. "Paratodos" tocava pela alegria que despertava no amante de música.

Tanto que apenas duas canções são comuns aos dois shows: "Injuriado" (clara referência ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, embora o artista negue) e "Futuros Amantes" (que, se me permitem uma confissão, hoje tem um significado totalmente diferente para mim).

Ressalvo, também, que hoje aos 37 anos me sinto muito mais maduro para sorver um momento destes que em 1999.

Como desta vez minha mãe foi minha acompanhante, consegui chegar cedo à casa de espetáculos, a tempo de ainda beber alguma coisa e poder me acomodar com calma. Muita reclamação do lado de fora quanto a cambistas e especialmente ingressos falsos.

Com pouco mais de 90 minutos de duração, Chico Buarque mescla canções do álbum novo com músicas mais antigas - mas, a meu ver, sempre privilegiando canções mais românticas. Entretanto, o repertório está muito bem amarrado, de forma que não se sente quando se passa do álbum novo para o repertório antigo.

Ainda há um "esquecimento" da letra de uma música - a meu ver, proposital - e pode-se ver um artista em toda sua maturidade.

É até difícil de se selecionar o melhor em show tão bom, mas destacaria três momentos: as interpretações de "Todo o Sentimento" - que é de arrepiar - e dois momentos que gravei: a sequência "Cálice e Sinhá" (acima) e "Geni e o Zeppelin", que será post ainda esta semana. 'Cálice" ganha um arranjo bastante diferente, em cima do refrão e com uma letra modificada.

O show se encerra com dois "bis", cujo segundo assisti em pé - achava que havia encerrado no primeiro.

Curioso, também, é como certos momentos acabam sendo pontos de reflexão na vida da gente. Esta apresentação me levou a questionar algumas coisas bastante pessoais em minha vida, até levando em conta alguns fatos que ocorreram paralelamente às músicas. Também fica claro que o mundo seria bem mais fácil se não houvessem convenções, que formatam e contrapõem o desejo ao dever, a sociedade à característica pessoal.

Mas deixa para lá.

Ao que parecem ainda restam alguns ingressos para as apresentações extras de fevereiro. Leitor,se fosse você não perderia. Vale cada centavo.

A registrar, apenas, a desorganização dos táxis na saída. É um ponto onde a casa de shows pode melhorar.

Certos momentos fazem a vida valer a pena. Chico Buarque ao vivo é um deles. E eu sou um privilegiado, pois tive duas oportunidades para tal.

Obrigado.




sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Final de Semana - "Ole Olá"



Esta semana comprei cd com versões de músicas de Zeca Pagodinho com amigos, todas gravadas ao vivo. E me chamou a atenção uma versão que eu não conhecia, de um dos primeiros sucessos de Chico Buarque: "Ole Olá".

Em dueto com o MPB-4, é nossa música de final de semana.

"Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar

Seu padre, toca o sino
Que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha
Que pode morrer
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar

Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar

Meu pinho, toca forte
Que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida
Nem fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar

Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir

Luar, espere um pouco
Que é pro meu samba poder chegar
Eu sei que o violão
Está fraco, está rouco
Mas a minha voz
Não cansou de chamar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar"

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Final de Semana - "Barafunda"



Sem dúvida alguma, o grande lançamento musicalde 2011 foi, até o momento, o novo disco de inéditas de Chico Buarque, "Chico". Em dez enxutas canções, aquele que a meu ver é um dos dois únicos gênios vivos da música brasileira - o outro é Paulo César Pinheiro - brinda a cultura brasileira com mais pérolas de seu cancioneiro.

Melodicamente, o disco lembra muito "Carioca", seu último cd de inéditas - de 2006. Entretanto, o que se vê nesta novo cd são letras mais "malandreadas", mais "cariocas". Outro ponto que salta aos olhos é uma religiosidade marcante, com referências a Deus e suas representações em várias das canções - "Sinhá", parceria com João Bosco que fecha o disco, é o ápice desta tendência.

Talvez em seu imaginário Chico possa estar se achando no crepúsculo da vida. É uma inferência que faço, pois não vi a entrevista dada por ocasião do lançamento.

É disco que se gosta à medida que se ouve, a cada audição ele cresce, entretém e se percebem certas nuances que escapam aos ouvidos na primeira vez em que se ouve. É como uma mulher que só revela seus encantos à medida em que a conhecemos, não à primeira vista.

Por outro lado, é claramente uma obra "menor" na discografia do gênio. Mas ainda assim é indispensável e melhor que 95% do que se faz em música hoje em dia. Música essa cada vez mais medíocre e descartável, características inexistentes na obra de Chico Buarque de Holanda.

Recomendo a compra e o deleite.

A canção que trago hoje é "Barafunda", parceria com Ivan Lins. A canção fala de lembranças embaralhadas na memória, fala de um Riuo de Janeiro idílico, sob uma saia amarela de mulher que a tudo guia. Bastante interessante, e poético.

"Barafunda

Era Aurora
Não, era Aurélia
Ou era Ariela
Não me lembro agora
É a saia amarela daquele verão
Que roda até hoje na recordação

Foi na Penha
Não, foi na Glória
Gravei na memória
Mas perdi a senha
Misturam-se os fatos
As fotos são velhas
Cabelos pretos
Bandeiras vermelhas
Foi Garrincha
Não, foi de bicicleta
Juro que vi aquela bola entrar na gaveta
Tiro de meta

Foi na guerra
É, noite alta
Gritou o astronauta
Que era azul a Terra
Quando a verde-e-rosa saiu campeã
Cantando Cartola ao romper da manhã

Salve o dia azul
Salve a festa
E salve a floresta, salve a poesia
E salve este samba antes que o esquecimento
Baixe seu manto
Seu manto cinzento
Foi Glorinha
Não, era Maristela
Juro que eu ia até casar na Penha com ela
A vida é bela

É, não é
Era Zizinho era Pelé
Aliás, Soraia era Anabela
Era amarela a saia
Foi quando a verde-e-rosa saiu campeã
Cantando Cartola ao romper da manhã
Salve o dia azul
Salve a festa
E salve a floresta, salve a poesia
E salve este samba antes que o esquecimento
Baixe seu manto
Seu manto cinzento
Era Aurora
Não, era Barbarela
Juro que eu ia até o Cazaquistão atrás dela
A vida é bela

É Garrincha, é Cartola e é Mandela"

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Final de Semana - "Moto-Contínuo"



Neste final de semana de "Dia dos Namorados", coloco aqui uma das canções de amor mais bonitas que conheço, e ao mesmo tempo uma das músicas menos conhecidas de sua obra: "Moto-Contínuo".

Parceria do genial compositor com Edu Lobo, a música é uma amostra do que os homens são capazes de fazer pelo amor a uma mulher. Letra erudita e trabalhada, concomitantemente lírica, sugestão de encantamento.

Aproveitando o ensejo, é preocupante a falta de renovação da MPB atual: os grandes compositores são exatamente os mesmos surgidos nas décadas de sessenta e setenta. Quando esta turma extinguir-se - quase todos beirando os setenta anos de idade, que seja dito - a denominada "Música Popular Brasileira" estará em um caminho bastante complicado.

Não há novos compositores talentosos, não há penetração de uma nova música na chamada "cultura de massa" - embalada por canções descartáveis e refrões de gosto duvidoso - e o futuro da MPB parece em xeque. Mas voltarei ao tema posteriormente.

Isto posto, vamos à letra da canção, daquele que a meu ver é um dos dois únicos gênios vivos da música brasileira - o outro é Paulo Cesar Pinheiro -, Chico Buarque.

"Um homem pode ir ao fundo do fundo do fundo se for por você
Um homem pode tapar os buracos do mundo se for por você
Pode inventar qualquer mundo, como um vagabundo se for por você
Basta sonhar com você
Juntar o suco dos sonhos e encher um açude se for por você
A fonte da juventude correndo nas bicas se for por você
Bocas passando saúde com beijos nas bocas se for por você
Homem também pode amar e abraçar e afagar seu ofício porque
Vai habitar o edifício que faz pra você
E no aconchego da pele na pele, da carne na carne, entender
Que homem foi feito direito, do jeito que é feito o prazer
Homem constrói sete usinas usando a energia que vem de você
Homem conduz a alegria que sai das turbinas de volta a você
E cria o moto-contínuo da noite pro dia se for por você
E quando um homem já está de partida, da curva da vida ele vê
Que o seu caminho não foi um caminho sozinho porque
Sabe que um homem vai fundo e vai fundo e vai fundo se for por você"


domingo, 1 de maio de 2011

Orun Ayé - "Trocando em Miúdos"



Neste domingo, Dia do Trabalhador, mais uma edição da coluna "Orun Ayé", de autoria do publicitário e compositor Aloísio Villar. Se semana passada o tema foi o amor de mãe, desta vez o amor entre homem e mulher é o tema do texto. Mais uma vez, Chico Buarque embala estas linhas...

Trocando em Miúdos

“Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças” 

Esses versos acima são da música “trocando em miúdos” de Francis Hime & Chico Buarque. A canção trata exatamente do assunto de hoje, o amor e a dor de amor.

Todo mundo já se apaixonou alguma vez na vida e certamente já sofreu por amor. Há várias formas de sofrer por amor, o amor platônico não correspondido, o amor correspondido mas envolto do ciúme e a separação, quando um deixa de amar e o outro não.

Dizem que a pior dor que existe é que sentimos no momento, mas acredito que a pior dor é a dor do amor, essa dor não tem remédio que cure, não tem quimioterapia, ninguém pode te ajudar, apenas o tempo. A dor de amor é o câncer da alma e não existe dor mais sublime, mais pura, mais humana que essa, porque é a dor da rejeição, você querer alguém e ela não te querer mais. 

“ Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado”

O amor tem dessas coisas, a gente conhece alguém, se apaixona, aquela sensação maravilhosa de início de relação, o cineminha com a pessoa que ama, os dois abraçadinhos, deixar de sair e ficar na cama debaixo das cobertas comendo pipoca e vendo dvd, aquela música que o casal decide que é dela, a sensação de euforia, a paixão avassaladora... 

Com o tempo isso vai se transformando, fica uma coisa mais serena, vira amor, não perde intensidade, não diminui, apenas se modifica, nasce a cumplicidade, o companheirismo. O casal vira uma pessoa só, muitas vezes se isolando no seu mundinho. 

Mas todo carnaval tem seu fim, as vezes porque a rotina transformou numa relação desgastada, outras porque aconteceu uma traição, quem ama perdoa? 

Às vezes sim, mas perdoar é a mesma coisa que esquecer? Nem sempre. 

O amor tem que ser puro, amor com mágoas é como leite com água: perde a qualidade. Muitas vezes a separação é uma libertação, a relação entre os dois melhora, se saem melhor como amigos que como amantes. 

Como muitas vezes existe o inconformismo, muitas vezes vemos em televisões e jornais notícias de crimes passionais. Amor e ódio são sentimentos que caminham juntos, como muitas vezes o sentimento de posse se confunde com o amor, o amor já acabou faz tempo e nem percebemos. 

Chorar faz bem, alivia a alma, chore tudo que tem que chorar, com sorte aquela música que era de vocês não irá mais tocar e com o tempo quem sabe você não note o quanto ela era ridícula... 

Notará que aquela pessoa que você colocava num pedestal é humana como você e capaz de ser decepcionante e a vida caminha. O bom da vida é isso: ela sempre está em transformação e daqui a pouco outro amor aparece e de amor vamos vivendo. 

“ Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde.” 


domingo, 24 de abril de 2011

Orun Ayé - "O Outro Lado de Realengo"



Neste domingo de Páscoa, final de feriadão, temos novamente a coluna "Orun Ayé", assinada pelo compositor Aloisio Villar. O texto de hoje aborda ainda a Tragédia de Realengo e um aspecto dos mais tristes nesta questão: o sofrimento dos pais que tiveram de enterrar seus filhos.

Chico Buarque tem uma canção sobre o assunto, chamada "Pedaço de Mim" (vídeo acima), em que aborda exatamente este sentimento, da mãe que perdeu o filho:

"(...)
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu (...)"


Passemos ao texto:

O Outro Lado de Realengo

Alguns dias já se passaram da tragédia ocorrida em Realengo.

O país que ficou em choque e se feriu com os estilhaços da balas já prossegue seu dia a dia, os jornais normais já falam de outros assuntos. Os noticiários sensacionalistas ainda falam um pouco, mas se dividem mais entre outras notícias e comerciais de câmeras e de milagres de emagrecimento. 

Enfim, a vida segue seu curso, o assunto já foi amplamente debatido, debatemos o papel da imprensa no caso, o papel do governo, se podia ter sido evitado,  a vida do assassino foi esmiuçada, médicos falaram sobre sua personalidade e pronto, fim de história, fim?

Será?

Não, não passou pra todo mundo e pra algumas pessoas nunca passará. Que pessoas são essas?

Aquelas que viraram celebridades nos dias seguintes da tragédia, que foram em programas de TV, deram entrevistas pro Jornal Nacional, tiveram nomes de seus entes queridos em camisas de time de futebol, essas pessoas que com o tempo vamos esquecendo, os familiares das vítimas, pais, mães, irmãos, avós, tios, as vítimas que sobreviveram.

O curso natural da vida é que os pais morram antes dos filhos, a vida é assim, a gente nasce, cresce, namora, casa, tem filhos, envelhece, netos e morre. Depois que minha mãe morreu, até hoje, eu nunca disse “queria ter ido no lugar dela”,  já vi algumas pessoas falando que preferem morrer antes de seus pais... não... tá errado, é egoísmo, não existe dor maior para um pai ou uma mãe que enterrar um filho. Só quem tem um filho sabe disso.

Imagine o leitor: você tem um filho, despeja nele todo aquele amor que surge em você de uma forma inesperada, de uma intensidade que você nunca sentiu por ninguém. Aquele bebezinho vai crescendo, você o coloca na escola com esperança que vá estudar, aprender a ler, escrever, fazer contas, aprenderá  sobre história, geografia... Um dia vai se formar, você todo bobo irá chorar vendo essa sua criança que já é um homem ou uma mulher com canudo na mão ser alguém e você vai pensar que enfim cumpriu a missão da sua vida...

Então, imagine um dia você vai acordar essa criança, fazer café para ela, botar margarina no seu pão, preparar sua lancheirinha, dar um beijo na sua testa, lhe desejar boa aula e depois ela não voltar para casa porque um maluco entrou no colégio dela e lhe deu um tiro na cabeça?

O Willian Bonner não estará do lado desses pais na hora deles irem dormir e lembrarem de sua criança que não está mais ali, a Sonia Abrão não dará um beijo no rosto deles e fará um carinho quando na hora do café a cadeira estiver vazia, nenhuma torcida de time de futebol fará um minuto de silêncio na missa de sétimo dia, um mês, um ano...

Até porque outras tragédias ocorrerão,  essas crianças que cada vez menos estarão no dia a dia de nossos noticiários e devem se despedir da gente em definitivo nas retrospectivas de fim de ano  virarão estatísticas pra gente; enquanto para os familiares e amigos serão saudade eterna. A vida é uma linha contínua, nesse momento falo desse caso, semana que vem falarei de outra situação. Tudo nessa vida passa, tudo vira passado.

Menos a saudade.


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Final de Semana - "Vai Passar"




E nesta sexta feira de feriado prolongado - não para mim, de festa no Céu para nossos entes queridos e eleições, temos de novo Chico Buarque como sugestão de música para o final de semana. Vamos às urnas evitar a volta das "tenebrosas transações", que subtraíam "a pátria mãe tão distraída".

"Vai Passar", o samba em formato de samba enredo, de autoria de Chico e Francis Hime. E o Ouro de Tolo não para.

Vamos à letra. E vote certo, vote 13, para o Brasil seguir mudando.

"Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval
Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral... vai passar"


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Final de Semana - "Roda Viva"



Sexta feira, feriadão, e uma  música bastante apropriada para o autor deste blog: "Roda Viva", Chico Buarque de Holanda.

Escrita originalmente para a peça de mesmo nome - que enfrentou problemas com a censura vigente e, depois, com o CCC - Comando de Caça aos Comunistas - que espancou atores em São Paulo e Porto Alegre, a música foi finalista no Festival da Record de 1967.

Esta versão é a que apresento aos leitores, com o autor Chico Buarque e o MPB4. Bom feriadão.

Roda Viva
(Chico Buarque)

"Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo (etc.)

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo (etc.)

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo (etc.)"


sexta-feira, 18 de junho de 2010

Final de Semana - "Samba de Orly"



Esta música deveria ter entrado na semana passada, mas optei por Zeca Pagodinho.

"Samba de Orly" foi escrita quando da volta de Toquinho ao Brasil, entre 1969 e 1970. Chico Buarque, então exilado na Itália, escreveu boa parte da letra como uma espécie de "carta" aos amigos.

Curiosidade: a expressão "omissão um tanto forçada" foi vetada pela Censura da época, sendo substituída por "duração dessa temporada". Ambas as expressões constam na letra que disponibilizo abaixo.

A propósito: eu jamais havia embarcado no aeroporto Santos Dumont - até por morar próximo ao Galeão. Apesar do susto inicial - o avião faz uma curva acentuada à esquerda para evitar um encontro de amor e morte com o Pão de Açúcar - a visão da cidade lá embaixo, ao final da tarde, é arrasadoramente bela. Pena que estava sem minha máquina naquele momento.

A canção - que embalou bons momentos meus há quase quinze anos - tem um tom sombriamente melancólico. Saudade, tristeza, melancolia, exílio.

Exílio que pode ser da alma...

Vamos à letra. Bom final de semana, em especial àqueles que não precisam ser "escravos do dever":

Composição: Chico Buarque / Toquinho / Vinícius De Moraes

"Vai meu irmão
Pegue esse avião
Você tem razão
De correr assim
Desse frio, mas beija
O meu Rio de Janeiro
Antes que um aventureiro
Lance mão...

Pede perdão pela duração (omissão)
Dessa temporada (um tanto forçada)
Mas não diga nada
Que me viu chorando
E pr'os da pesada
Diz que eu vou levando...

Vê como é que anda
Aquela vida à tôa
E se puder me manda
Uma notícia boa...

Vai meu irmão
Pegue esse avião
Você tem razão
De correr assim
Desse frio, mas beija
O meu Rio de Janeiro
Antes que um aventureiro
Lance mão...

Pede perdão pela duração (omissão)
Dessa temporada (um tanto forçada)
Mas não diga nada
Que me viu chorando
E pr'os da pesada
Diz que eu vou levando...

Vê como é que anda
Aquela vida à tôa
E se puder me manda
Uma notícia boa...

Vai meu irmão
Pegue esse avião
Você tem razão
Mas não diga nada
Que me viu chorando
E pr'os da pesada
Diz que eu vou levando...

Pede perdão pela duração
Dessa temporada
Vê como é que anda
Aquela vida à tôa
E se puder me manda
Uma notícia boa..."

sexta-feira, 26 de março de 2010

Final de Semana - "Beatriz"



Mais uma sexta feira e para o final de semana sugerimos Chico Buarque e Edu Lobo, uma das parcerias mais brilhantes da Música Popular Brasileira. A música é "Beatriz", aqui em interpretação de Mônica Salmaso - cujo cd ao vivo somente com músicas de Chico Buarque de Holanda tive o prazer de ouvir novamente esta semana.

"Beatriz" tem outra gravação muito boa com a cantora Ana Carolina. Bom divertimento.

"Beatriz"
(Chico Buarque & Edu Lobo)

"Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida"

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Final de Semana - Saudades de Tom Jobim


Na última terça feira, dia oito, completaram-se quinze anos do passamento de um gênio da música: Tom Jobim. O coração comprometido não resistiu à cirurgia para retirada de dois tumores na bexiga, naquilo que muitos afirmam ter sido um erro de avaliação dos médicos que dele cuidavam em New York.

Este blog faz uma singela homenagem para o final de semana, com uma das parcerias entre Tom e outro gênio, Chico Buarque de Holanda.

Com vocês, "Retrato em Branco e Preto", na versão com Ney Matogrosso e e o brilhante - e falecido precocemente - violonista Raphael Rabello. Deleitem-se.

"Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração"

domingo, 11 de outubro de 2009

Canções de Chico

O blog MPB, do site do jornal O Globo, traz boa matéria sobre livro que se dedica a contar histórias envolvendo as canções daquele que é o maior compositor da história da música brasileira, Chico Buarque de Holanda.

Reproduzo aqui o texto, abrindo em alto astral este domingo imprensado no meio de um feriadão.

O link para a compra do livro pode ser encontrado aqui. O preço é até razoável, R$ 35. Vou encomendar meu exemplar.

Passemos ao texto, de autoria de Leonardo Lichote:

"Em 1971, Chico Buarque escreveu para Vinicius de Moraes, comentando as sugestões de mudanças que o poeta deu para a letra de “Valsinha”, parceria da dupla. De forma carinhosa, mas convicta, ele refutava quase todas as alterações oferecidas pelo parceiro: “Prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. (...) Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda”; “Convidou-a para rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar, que é dar um passeio e é dançar”; “Apesar do Orestes (vestido dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. (...) E eu também gosto do decotado ligado ao ‘ousar’, que ela não queria por causa do marido chato”.

A carta — fascinante por revelar a gênese da composição e, mais que isso, mostrar como e por que foram feitas as escolhas do artista por essa ou aquela palavra — é uma das maiores preciosidades encontradas em “Chico Buarque — História de canções” (Leya), de Wagner Homem. No livro, o autor apresenta os bastidores de cada música do compositor, desde a pré-história de sua carreira — de “Canção dos olhos” e “Marcha para um dia de sol”, apresentadas nos “sambafos”, encontros etílico-musicais da época de estudante de Arquitetura em São Paulo — até seu último disco, “Carioca”. Sempre de forma despretensiosa e leve.

— O livro não tem objetivo analítico, acadêmico — explica Homem. — São casos reunidos, não há uma tentativa de interpretação. Usando a linguagem cinematográfica, é uma panorâmica, não um close, uma busca de profundidade.

A contextualização histórica (a situação política do Brasil, a morte de amigos como Tom Jobim, o exílio, os períodos em que Chico se dedicou à sua porção escritor) no início de cada capítulo está afinada com sua ideia de “panorâmica”:

— Mais que entender a poética de Chico, a contextualização serve para que se compreenda sua carreira. Sobretudo até 1985 (quando se encerra o regime militar), sua história está amalgamada à do Brasil, às vezes até contra sua vontade.

A relação conflituosa de Chico com a ditadura começou, o livro mostra, já com a “A banda” — o governo quis usá-la numa propaganda de alistamento militar e o compositor protestou. Ela segue sendo testemunhada em sua obra: no nascimento dos pseudônimos Julinho da Adelaide, seu parceiro e irmão Leonel Paiva e o projeto de um “Pedrinho Manteiga”, todos criados para driblar a censura; nos versos substituídos (“nos teus pelos”, de “Atrás da porta”, virou “no teu peito”) para passar pelos censores; nas canções criadas para entrar no lugar das cortadas (“Noite dos mascarados” foi composta para cobrir o espaço deixado por “Tamandaré”, que teve a gravação proibida); nas curiosas implicâncias dos agentes do Estado.

— Mario Prata me contou que em “Trocando os miúdos” a censura implicou com “o livro do Neruda”. Como pode citar um poeta comunista? Chico então argumentou que a canção não teria como ser subversiva: “Ela ficou com o livro, mas nunca leu” — diverte-se Homem.

Histórias como essa (e a da carta a Vinicius, a de “Noite dos mascarados”...) podem já ter sido ouvidas por quem acompanha a trajetória de Chico. Afinal, é difícil algum detalhe de sua obra ainda manter o ineditismo depois de tantos estudos, entrevistas, especiais de TV e projetos dedicados ao compositor — apenas nos últimos anos, uma série de 12 DVDs dirigidos por Roberto de Oliveira, um documentário com o making of de “Carioca” (“Desconstrução”, de Bruno Natal) e o livro de ensaios “Chico Buarque do Brasil”. “Chico Buarque — Histórias de canções”, porém, tem o mérito de reunir o que de mais significativo se disse sobre as canções do artista. Textos e vídeos que saíram de um arquivo que Homem monta, informalmente, desde 1965, quando ouviu Chico pela primeira vez.

O garimpo rendeu curiosidades pouco lembradas, como a paródia de “Vai passar” feita para a campanha de Fernando Henrique Cardoso pelo governo de São Paulo; a revelação de que “muito jabá” foi pago para que “Construção” tocasse no rádio; e uma tradução nonsense da versão alemã para “A banda”.

O projeto do livro começaria a tomar forma apenas no fim da década de 1980, quando Homem foi convidado a reunir as letras de Chico para o songbook “Chico Buarque: Letra e música”. Quando a internet começou a crescer, Homem, que já tinha as letras de Chico digitalizadas, sugeriu ao artista a criação de seu site oficial.

— Foi no site que surgiu a ideia de, junto às letras, pôr links para histórias que eu conhecia sobre aquelas canções. Transcrições de entrevistas, artigos... — lembra o autor.

Chico não deu, portanto, novas entrevistas a Homem para o livro — há algumas histórias e comentários que o autor presenciou em sua convivência com o compositor. Mas o homenageado acha que teria pouco a acrescentar, como afirma em e-mail reproduzido na contracapa: “Vou pensar mais um pouco, procurar alguma anedota inédita, mas acho que você as conhece todas, melhor que eu”. 

***
TRECHOS DO LIVRO
"Sonho de um carnaval"

(...) não foi nada agradável passar pelo saguão do teatro e ouvir João de Barro, o Braguinha - autor de tantos sucessos, entre os quais a imortal letra para "Carinhoso", de Pixinguinha -, dizer que a música era uma porcaria"

"Januária"

Numa noite de boemia, o pintor Di Cavalcanti prometeu a Chico um quadro seu. Cumpriu a promessa enviando Januária, que foi o ponto de partida para essa composição.
Quando eu organizava as canções para o livro Chico Buarque letra e música, Chico me perguntou de onde eu havia tirado o verso "logo aponta os lábios dela", já que o correto era "logo aponta os lados dela". Respondi que era assim mesmo que ele cantava no LP de 1968. Preocupado com o erro, pus-me a escutar o velho vinil, até que, finalmente, o ouvido viciado conseguiu entender que, de fato, era "lados". (...) Não foi um consolo nem uma justificativa, mas me senti aliviado quando descobri que tanto Isaurinha Garcia (no álbum Chico Buarque e Noel Rosa) como Caetano Veloso (no CD Contemporâneos, de Dori Caymmi) cantam "lábios" (...).
Em 2004, na exposição comemorativa de seus 60 anos, com curadoria de seu sobrinho Zeca Buarque Ferreira, um manuscrito mostrava que num primeiro rascunho o verso era "sempre aponta a casa dela".

"Passaredo"

Para surpresa de muitos que passaram a ver o compositor como um militante ecológico, Chico revelou durante um programa de televisão que não só não entendia de bichos como os detestava. E admitiu até um sacrilégio: deliciou-se com uma capivara assada ao som de sua composição. A vingança viria logo depois, quando, no terraço de sua casa, ouvindo "Passaredo", um representante dos ofendidos fez cocô na sua cabeça.

"Ode aos ratos"

A cantora Mônica Salmaso contou, durante um show, que soube de fontes fidedignas a seguinte história: escrevendo a letra, Chico percebeu que lhe faltavam informações sobre as características dos ratos, e ligou para o amigo Paulo Vanzolini, compositor e zoólogo:

- Vanzolini, aqui é o Chico. Eu estou escrevendo uma letra sobre ratos e queria que você me ajudasse a saber como eles são. O nariz, como é que é? É frio? Quente? Macio? Duro? E a pelagem?
- Ô Chico! Você mente tanto sobre mulher... Porque não inventa qualquer coisa também sobre os ratos?
- Pô, Vanzolini... Pelos ratos eu tenho o maior respeito."

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Final de Semana

O Ouro de Tolo é um blog fã de Chico Buarque de Holanda. E hoje temos um time dos sonhos: canção de Chico, interpretação estupenda de Maria Bethânia.

"Rosa dos Ventos" marcou tanto a carreira da cantora que muita gente acha que ela é a autora da música. Mas é de Chico Buarque a autoria deste bela canção.

Letra e vídeo - este com Bethânia - abaixo, para começar com qualidade o final de semana.

Rosa-dos-Ventos
Composição: Chico Buarque

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

E no final de um feriadão...

... a volta à rotina, após percorrer 150 quilômetros em três horas. Mas isso é assunto para outro post.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Música para o Final de Semana

Como indicação de música, continuaremos nesta sexta com a resistência à ditadura militar.

Continuamos, também, com aquele que a meu juízo é o maior compositor da história da Música Popular Brasileira: Chico Buarque de Holanda.

A canção enfocada hoje é um hino contra a tortura, naqueles tempos sombrios do sombrio general Médici: Cálice.

A canção é de 1973, auge da tortura no país e da repressão. Composta em parceria com Gilberto Gil, de forma alegórica descreve o processo de tortura e de repressão que o Brasil vivia naqueles funéreos tempos.

A letra tem uma grande e genial sacada: o verso "pai, afasta de mim este cálice", pode ser lido como "pai, afasta de mim este cale-se". O vídeo apresentado abaixo mostra bem isso.

Obviamente proibida pela Censura, a canção foi protagonista de um momento histórico no show "Phono 73", quando os microfones foram desligados para que a música não fosse cantada. O público acompanhou em peso.

"Cálice" só foi gravada em disco em 1978, no mesmo LP que trazia outras canções censuradas como "Apesar de Você" e "Tanto Mar". Vamos à letra:

"Cálice"

Composição: Chico Buarque e Gilberto Gil

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...(2x)

Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Prá a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

De muito gorda
A porca já não anda
(Cálice!)
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
(Cálice!)
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Talvez o mundo
Não seja pequeno
(Cálice!)
Nem seja a vida
Um fato consumado
(Cálice!)
Quero inventar
O meu próprio pecado
(Cálice!)
Quero morrer
Do meu próprio veneno
(Pai! Cálice!)
Quero perder de vez
Tua cabeça
(Cálice!)
Minha cabeça
Perder teu juízo
(Cálice!)
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
(Cálice!)
Me embriagar
Até que alguém me esqueça
(Cálice!)

Abaixo, o vídeo, na interpretação de Chico Buarque e Milton Nascimento. De arrepiar.


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

E vamos de Chico no final de semana

Como de hábito, todas as sextas feiras temos uma sugestão de música para o final de semana. Sexta feira passada fomos a 1966, hoje manteremos nossa viagem por aqueles tempos: 1970.

A cultura brasileira, que vinha acompanhando as tendências do restante do mundo até a decretação do AI-5, depois deste passou por um processo de diáspora e "fechamento branco".

Os grandes artistas da MPB, em sua maioria, ou foram exilados (Caetano, Gil, Chico), ou estavam com suas perspectivas de criação bastante limitadas pelo clima opressor da época.

Chico Buarque havia voltado de um curto exílio em meados de 1970, iludido com falsas informações de que o clima político havia melhorado e sentindo muitas saudades do Brasil. Assim que desembarcou, percebeu que a cana continuava dura e a censura, em pleno vigor - eram os tempos do General Médici, de triste lembrança.

O genial compositor compôs a sua resposta, que ele jura de pés juntos não ter sido endereçada ao governo da época, mas fica meio deslocado no tempo e no espaço não se acreditar nesta versão.

A canção se chamava "Apesar de Você". Composta em 1970, vendeu 100 mil cópias do compacto simples em que foi lançada (foto), até ser censurada e banida no país. À guisa de curiosidade, o outro lado do compacto era "Desalento", parceria de Chico com Vinícius de Moraes.

"Apesar de Você" só seria gravada em long play no disco de 1978 do cantor e compositor, que também traria outras canções censuradas, como "Cálice" e "Tanto Mar".

A música era, claramente, um protesto contra o poder constituído à época. Libelo contra a censura e premonição de que nada se consegue represar indefinidamente.

Aqui apresentamos a canção na versão de Maria Bethânia, em show de 2001. Vamos à letra:

Apesar De Você
(Chico Buarque)

Amanhã vai ser outro día...
Amanhã vai ser outro día...
Amanhã vai ser outro día...

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.

Apesar de você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.

Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de “desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria.

Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença.

E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa.
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia.

Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal,
La, laiá, la laiá, la laiá…….


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Música para o Final de Semana - Era dos Festivais

Sempre às sextas feiras dou uma indicação de música para abir bem o final de semana.

Hoje farei um pouquinho diferente. Falarei de duas canções que representam uma das maiores e mais famosas batalhas culturais de que se tem notícia: o Festival da Tv Record de 1966 e o inesquecível - mesmo para quem não viveu como eu - duelo entre "Disparada" e "A Banda".

As duas músicas chegaram à final daquele festival claramente polarizadas e francas favoritas ao título. Em clima de Fla-Flu, enfrentavam-se a moderna música rural de Geraldo Vandré e Theo de Barros e a nascente genialidade de Chico Buarque de Holanda. Duelo de titãs.

"Disparada" era defendida por Jair Rodrigues, à época já uma estrela da moderna MPB nascente. "A Banda", pelo próprio autor e pela musa da Bossa Nova, Nara Leão.

Ambas tinham suas particularidades no arranjo. "A Banda" contava com o acompanhamento de uma banda de música, "Disparada" tinha como trunfo uma queixada de burro, que fazia um som absolutamente marcante.

Após apresentações absolutamente apoteóticas, as canções foram declaradas campeãs após um providencial empate.

Escrevo "providencial" porque, de acordo com o testemunho do músico e produtor musical Zuza Homem de Melo, que fazia parte da organização do festival, na verdade "A banda" era a vencedora de acordo com os votos de jurados, em contagem de sete a cinco em seu favor.

Segundo o testemunho, Chico ponderou que "Disparada" não era pior que sua música, que não aceitaria ganhar sozinho, que os ânimos da platéia estavam exaltados; disse que não apareceria para receber o prêmio se fosse o vencedor e, então, propôs-se o empate por parte da organização.

A história deste festival pode ser lida no excelente "A Era dos Festivais", livro do produtor musical. Disponível apenas para compra no Submarino.

Na minha humilde opinião de apreciador de boa música popular brasileira, penso que Chico Buarque tem razão. Disparada é um dos pontos altos da carreira de Vandré, ao passo que "A Banda", a despeito de sua enorme qualidade, não é sequer uma das dez melhores da carreira do genial artista.

Abaixo, as letras das canções e os videos das apresentações na final do festival. Detalhe que o vídeo de "A Banda" vem de um dos DVDs que foram lançados recentemente na série sobre o compositor.

Ressalvo que sou apaixonado pela gravação original de "Disparada", que, aliás, ganhou uma releitura bastante interessante - embora inferior - no último cd do cantor Jair Rodrigues, o qual já resenhado aqui.

Boa diversão. Pergunta aos meus 18 leitores: qual é a melhor ?

Disparada
Composição: Geraldo Vandré e Theo de Barros

Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar...

Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar...

Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu...

Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei...

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei...

Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente...

Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu...

Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

A Banda
Composição: Chico Buarque

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor...






quarta-feira, 10 de junho de 2009

Pra começar bem o feriado

Pra começar bem o feriadão (embora eu trabalhe sexta), um gênio, o maior compositor da história da música brasileira: Chico Buarque de Holanda.

O curioso é que a sugestão da música abaixo, "Construção", tem uma particulariedade: pode-se trocar a ordem dos versos sem a música perder o sentido. Divino.

P.S. - O texto sobre o Flamengo está logo embaixo.

Construção
(Chico Buarque)

"Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado"

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